sábado, 21 de maio de 2016

Confissões petistas

Confissões petistas

Péricles Capanema

Em 17 de maio último o Diretório Nacional do PT divulgou “Resolução sobre conjuntura”, documento roteiro para encontro extraordinário do partido marcado para novembro próximo, antecedido de reunião ampliada do Diretório Nacional, já agora em julho.

Referida orientação petista privilegia a reconstrução do partido e deixa em segundo plano conveniências de alianças abertas ao centro político. A mais da autocrítica, reafirma princípios e proclama objetivos que recolocam o partido no caminho onde começou: estuário de esquerdas radicalizadas com anexos de vários tipos, o que o tornava, no quadro político, sucessor natural, viável eleitoralmente, do Partido Comunista Brasileiro.

Posto entre a necessidade, de um lado, de formar alianças em direção ao centro para tornar viável a conquista do poder e, de outro, a reafirmação de objetivos revolucionários para impedir que suas bases apodreçam, escolheu no momento a segunda via. Em consequência, conscientemente, restringiu a possibilidade de conseguir os 28 votos (ausência vale) no Senado, necessários para o retorno de Dilma Rousseff ao Planalto. Modo outro, tirou o modernoso paletó socialdemocrata e enfiou a puída jaqueta vermelha do comunismo, ainda que disfarçado e por etapas. Se continuar assim, será o normal, logo à frente lá de dentro ouviremos críticas crescentes à política de Dilma, que foi testa de ferro da orientação partidária de caminhar rumo ao centro. Até quando? Sei lá. Até quando for conveniente manter esse discurso.

A resolução enfatiza o objetivo petista de, governando de novo, sabotar oficiais das Forças Armadas e funcionários públicos na Polícia Federal, Ministério Público, Itamaraty de orientação profissional, ao mesmo tempo que promoveria ativamente pessoal alinhado ideologicamente ao PT. É uma forma peculiar de entrismo. Vai mais longe, o roteiro promete ingerência inaudita nas instituições do Estado, entre as quais a de modificar o currículo das Agulhas Negras e de outras escolas militares para formar oficiais que marchariam com o petismo. Ainda no texto analisado, encher de dinheiro blogues sujos e assemelhados e cortar verbas publicitária de órgãos de imprensa não subservientes: “Fomos igualmente descuidados com a necessidade de reformar o Estado, o que implicaria impedir a sabotagem conservadora nas estruturas de mando da Polícia Federal e do Ministério Público Federal; modificar os currículos das academias militares; promover oficiais com compromisso democrático e nacionalista; fortalecer a ala mais avançada do Itamaraty e redimensionar sensivelmente a distribuição de verbas publicitárias para os monopólios da informação”.

Volta-se contra a Operação Lava Jato “instrumento político para a guerra de desgaste contra dirigentes e governantes petistas”. Agride a atuação de procuradores, delegados e juízes: “A [Lava Jato] revela o alinhamento de diversos grupos do aparato repressivo estatal – delegados, procuradores e juízes – com o campo reacionário”. Falando mais claro, em governo petista Lava Jato só contra adversários.

De forma velada lamenta a diminuição do apoio à China, a potência que mais ameaça os Estados Unidos: “Caso consolidado, este retrocesso político [do qual faz parte o governo Temer] influirá sobre a evolução do bloco BRICS, cujo potencial econômico e financeiro coloca em xeque a velha engenharia mundial das potencias capitalistas”. Em tal quadro, a resolução deplora igualmente a baixa no apoio aos governos “progressistas” como Venezuela, Bolívia e Equador, circunstância favorável aos Estados Unidos. Já se vê, no horizonte petista, como utopias mobilizadoras, estão, num plano, Venezuela e Cuba. Esperam, ainda empurrarão o Brasil a situação parecida. Em outro, arena internacional, a ascensão da China finalmente tornaria possível considerar seriamente o fim da influência dos Estados Unidos. O Delenda est Carthago do PT é a destruição dos Estados Unidos. Costumam terminar seus documentos alardeando essa obsessão, aliás ecoa berreiros iguais de todas as esquerdas no mundo.

O Diretório Nacional começa a autocrítica dos últimos 14 anos (vem mais coisa por aí): “Confiamos na governabilidade institucional a partir de alianças ao centro, como coluna vertebral para a sustentação de nosso projeto. [...] Mas fomos acanhados ao impulsionar a luta social [...] Acabamos reféns de acordos táticos. [..] A vida interna se estiolou. [...} Milhares de novos filiados foram incorporados sem quaisquer vínculos com o pensamento de esquerda”. Em resumo, confessa o apodrecimento interno, antes disfarçado, decorrência em boa medida da fase paz e amor, indispensável lá atrás para chegar ao governo.

Hora de fechar. Em resumo, ainda que tenha imposto ao Brasil apenas parte do costumeiro receituário socialista, os resultados, os de sempre, foram empobrecimento, desemprego, carestia e ladroagem. O PT, claro, não reconhece, quanto mais colocado em prática tal receituário, mais desastres acarreta; bastaria considerar hoje os casos dantescos da Venezuela e Cuba; ontem, os da Europa Oriental. No total, o partido, para formar militância e reconstruir a situação interna, mostrou de novo a face intolerante do velho comunismo. Para tal, jogou ao mar possibilidades de apoios no centro e até na direita; posição necessária para não deperecer, pensarão estrategistas de lá.


Falta a última confissão petista: lhes importam pouco as sequelas de pobreza e tirania das experiências socialistas, continuarão sempre, inamovíveis e obstinados, arautos da igualdade social. Virá um dia, podem esperar.

terça-feira, 17 de maio de 2016

Certificados de excelência

Certificados de excelência

Péricles Capanema

Nem bem assumiu, o novo governo brasileiro recebeu inesperados certificados de excelência. Foi violentamente criticado pelos governos de Cuba, Venezuela, Bolívia, Equador e Nicarágua, assim como pela Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América / Tratado de Comércio dos Povos (ALBA/TCP). Ah, El Salvador também. Um país está satisfeito com a nova situação, Argentina. Só ela conta mais que as manifestações dessa miuçalha de governos sem relevância. Ortega, Maduro, Fidel, Rafael Corrêa, Evo Morales, uma fauna predadora nunca antes reunida na história desta América Latina. São kakistocracias, o governo dos piores, infelicitam seus países. Também tínhamos entre nós uma kakistocracia.

“Diga-me com quem andas, dir-te-ei quem és”. O Brasil andava feliz com essa gente, ditadores, ladrões, assassinos, comunistas, agora virou-lhes as costas. Estão furiosos. Podemos também dizer com o mesmo acerto: diga-me quem te odeia, dir-te-ei quem és. Quem é odiado por gente tão ordinária, alguma coisa de boa deve ter.

Segundo o Estadão de 16 de maio, de momento quem dirige a ofensiva contra o Brasil é Cuba. Piada, né? O governo de Cuba enviou nota para Organização Internacional do Trabalho, Organização Mundial do Comércio, Comitê Internacional da Cruz Vermelha. Vou parar por aqui. São mais de cem destinatários. Claro, em vista do prestígio do remetente a maioria dos visados, sem lê-la, jogou a nota na cesta de papeis, De fato, vou atualizar, chega por e-mail. Deleta.

A nota diz: “Trata-se, na realidade, de um artifício armado por setores da oligarquia desse País, apoiada pela grande imprensa reacionária e pelo imperialismo, com o propósito de reverter o projeto político do Partidos dos Trabalhadores (PT)”. Continua na verborreia própria ao comunismo cubano.

De outro modo, na primeira fila da pantomina contra o Brasil estão Fidel e Raúl Castro, ditadores, comunistas, carcereiros e assassinos de milhares de cubanos. Armando Valladares, prisioneiro por 22 anos na ilha, escreveu em 23 de janeiro de 1998 na Folha: “Fui testemunha, com dezenas de presos da tristemente célebre La Cabaña, do ódio antirreligioso do regime castrista. Como narro em minhas memórias, nos primeiros anos da revolução, todas as noites havia fuzilamentos. Os gritos dos patriotas de ‘Viva Cristo Rei! Abaixo o comunismo!’ estremeciam os fossos centenários daquela fortaleza. O fato de ouvir aqueles jovens católicos cheios de valor morrerem diante dos paredones gritando ‘Viva Cristo Rei!’ redobrava nossas forças espirituais e contribuía para nos fazer receber enormes graças de conversão”.

A mesma edição do Estadão informa dos horrores vividos hoje pela população da Venezuela, governada por uma casta cleptocoletivista, também envolvida na pantomina contra o Brasil. Moisés Naim relata, desde 2009 centenas de milhões de dólares foram destinados à construção de usinas hidrelétricas. Até hoje não se prestou conta do dinheiro, todos sabem, foi roubado pelos vorazes bolivarianos, em ação de fazer inveja aos petistas enrolados na Lava Jato. Só que lá não tem investigação. Na mesma edição, Nicholas Casey descreve o horror dos serviços de saúde pública em que, exemplo entre vários, o índice de mortalidade de bebês de até um mês cresceu 100 vezes de 2012 a esta parte (era 0,02%, agora, 2%). Nicolás Maduro, chefe dos bolivarianos, recentemente declarou: “Duvido que em algum lugar do mundo, exceto Cuba, exista um sistema de saúde melhor do que este”. Lembra a bazófia de Lula sobre nosso sistema de saúde: “Ah, se tivesse um SUS nos Estados Unidos como seria bom para os pobres. Eu, na próxima conversa que eu tiver com o Obama, eu falo: ‘Obama, faça um SUS. Custa mais barato e é de qualidade’”.

O mesmo Nicolás Maduro meteu a colher de pau no caso brasileiro: “Não tenho nenhuma dúvida de que atrás deste golpe de Estado está a marca made in USA. A Venezuela rechaça esta canalhada feita contra esta grande líder”.

O apoio estridente ao PT de bolivarianos e afins mais atrapalha que ajuda a construção de oposição internacional à nova situação. Para setores isentos à vera constituem certificados de excelência. Até aqui nenhum motivo de preocupação. E o Itamaraty tem tratado a questão com notas duras e bem merecidas.

Preocupa, isso sim, artigos aqui e ali contra a nova situação em jornais como New York Times e The Guardian. Podem servir de base para movimentos de opinião em cidades decisivas como Washington, Nova York, Madri, Paris, Londres, Roma, Bonn. Nelas e em outras cidades de padrão similar, uniões de esquerda do tipo estudantil, acadêmico, sindical e político certamente tentarão montar campanhas contra o Brasil. Facilmente, elas repercutirão internamente. Sempre existem pessoas que se impressionam ouvindo que lá fora, em ambientes mais endinheirados ou intelectualizados, se vê com reserva a situação nacional. Hora para a diplomacia brasileira nesses locais sair do casulo, deixar de falar só para pequenos públicos e enfrentar a céu aberto, com argumentos amplos, tal investida.


PS: Kakistocracia (governo dos piores), neologismo criado por Michelangelo Bovero para indicar a combinação da tirania, oligarquia e demagogia; outro modo, o péssimo governo com mando dos piores. Designa comumente o Estado gerido por incapazes e corruptos, defensores das piores ideias econômicas e políticas.

domingo, 15 de maio de 2016

Não à desmobilização

Não à desmobilização

Péricles Capanema

Em ambiente de esperança, pisando firme, começou o governo Michel Temer. Não fazendo barbeiragem ou tomando trombada, o novo chofer dirige o Estado até dezembro de 2018. Trombada? No Senado, para o afastamento, sua equipe ganhou com 55 votos, bem acima dos naquele momento necessários 39, mas só um além do número indispensável para o impeachment no julgamento final. Com 53 votos favoráveis à cassação, Dilma volta ao Planalto.

Surgindo fato chocante, e a Lava Jato tem produzido eventos inesperados, renasceria a esperança petista.

Hoje, porém, tudo o indica, é pouco provável uma votação abaixo de 54 votos na Câmara Alta, quando do julgamento final daqui a semanas. Assim, o normal, sem abalroamento, Michel Temer fica no volante até 31 de dezembro de 2018. A dúvida, pequena embora, atinente ao desfecho do julgamento, impede a distensão no público.

De qualquer maneira, ainda antes da presumível cassação do mandato de Dilma Rousseff, a desmobilização é grande perigo. Será maior com Temer presidente definitivo. Para mim, claro como água do pote: assim como a mobilização dos espíritos possibilitou enorme vitória, a desmobilização carrega no bojo a derrota.

O que entendemos por desmobilização? O termo na linguagem corrente evoca o retorno à vida civil dos soldados que voltam da guerra. Derrotados ou vencedores, recomeça para eles a vida anterior. O desmobilizado muda o foco das preocupações, os campos de batalha vão se tornando memória distante.

Como um todo, a esquerda está profundamente desmoralizada. Vai sofrer hemorragia em seus setores de simpatizantes e militantes de menor adesão. Contudo, o setor radicalizado, que de fato dirige miríades de organizações, não vai se desmobilizar. Só lhe importa o sofrimento popular, o desemprego, o desastre das políticas petistas na exata medida em que prejudica suas possibilidades de expansão. Esse segmento continua a sonhar com uma sociedade igualitária de homens necessariamente estiolados em suas potencialidades de ascensão. Sempre estará à espreita da primeira ocasião propícia para atacar e ganhar. Assim, continuará ativo o cerne ideológico enquistado no PT, universidades, Igreja, movimentos reivindicatórios, nas várias condições sociais. Terá pedras novas no caminho, entre as quais avulta o fim do financiamento público de suas publicações, via propaganda paga dos governos dirigidos por petistas, Caixa, Petrobrás, tanta coisa mais. Então, numerosas publicações orientadas por esse miolo encarniçado, lembro os blogues sujos, vão fechar. Convém lembrar, contudo, não serão poucos os que no núcleo duro da esquerda preferirão a situação nova à precedente, em que precisavam ser advogados dativos de um governo impopular e falido.

Em outubro de 2014, Dilma Roussef venceu com margem apertada (51,64% a 48,36%). Contudo, a vitória eleitoral soou como estridente derrota moral, pois Aécio Neves ganhou com maiorias folgadas no Brasil que pensa, trabalha e produz mais ativamente. E este Brasil mais ativo, informado e inconformado, moralmente vitorioso, reagiu rijo ao longo dos últimos meses. Os atentados graves contra a lei de Responsabilidade Fiscal dormiriam em gavetas empoeiradas do Congresso e do Executivo, inexistisse a candente rejeição popular desta faixa do público.

Falei em reação rija e em rejeição candente. O maior perigo no horizonte é tal faixa, decisiva para o Brasil, ficar gelatinosa e morna. Por quê? Por uma real ilusão de ótica política: o sumiço do inimigo poderoso que a ameaçava.

Em meados de 2007, estimulado por empresários conhecidos e algumas celebridades, teve grande e passageira repercussão o movimento Cansei. Com claro caráter antilulista, exprimia a convicção de que o Brasil, horrorizado com o mensalão, denunciado em junho de 2005, estava cansado do governo petista e queria coisa nova. Exprimia insatisfação popular real, mas teve reflexo eleitoral discutível. Por exemplo, depois de sua atuação, Dilma Rousseff obteve dois mandatos.

Estamos em meados de maio. Daqui a três meses, em 16 de agosto começa a propaganda eleitoral. Em 2 de outubro, teremos eleições para vereadores e prefeitos. Podem ser decisivas, especialmente como símbolo, para o Brasil do futuro. Com campanhas desfocadas com facilidade teremos um mundaréu de eleitos terrivelmente decepcionantes. Dois especialistas celebrados poderiam nos ajudar a entender melhor as próximas eleições. James Carville, marqueteiro de Bill Clinton em 1992, criou (repetida com variações) a frase it’s economy, stupid (é a economia, estúpido) para indicar que o eleitor, na hora do voto, em geral tem em vista o que considera seu interesse econômico mais próximo. Tempos depois, Barrington Moore, analisando as manifestações dos últimos anos, com base naquela frase, criou uma outra: it’s morality, stupid (é a moralidade, estúpido). Ficou famosa igual. As manifestações têm sobretudo razões morais como motor (contra a corrupção, a maior delas). Então, apenas em parte os resultados eleitorais refletem a exasperação popular nelas observada. Se acontecer algo assim em outubro próximo, não será fenômeno novo.


Por que lembrei? Contribuição para uma análise objetiva da presente situação, pode ser vacina contra o abatimento de alguns, e assim estimulo à permanência do ativismo. Despertos e espertos, a presente alegria não desembocará daqui a algum tempo na amargura, fruto da despreocupação e inércia. Nada de desmobilização.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Está fazendo falta uma Nuremberg tupiniquim

Está fazendo falta uma Nuremberg tupiniquim

Péricles Capanema

Só para lembrar, terminada a 2ª Guerra Mundial as potências aliadas instituíram o Tribunal Militar Internacional em Nuremberg para julgar crimes cometidos pelo nazismo. As sessões tiveram lugar entre 20 de novembro de 1945 e 1º de outubro de 1946. Em fins deste ano começaram, também em Nuremberg, os chamados Processos de Guerra. Só vieram a terminar em outubro de 1948.

Além das condenações penais, a opinião pública, ouvindo o eco dos processos, tomou conhecimento detalhada e documentadamente dos pavorosos crimes cometidos pelo governo e partido nazistas. Constituíram talvez a maior vacina antinazista produzida na História.

No Brasil, tudo leva a crer, estão se fechando as cortinas dos treze anos de domínio petista. Em cambulhada, nesse período, o pobre brasileiro do seu sofá vendo a televisão teve notícia da ladroagem, incompetência nunca imaginada, intervencionismo maluco, demagogia sem peias, empobrecimento, carestia, destruição do parque industrial, colaborações surpreendentes, cegueira obstinada, leniência com o crime, cumplicidade com desmandos, oportunismos chocantes e silêncios inexplicáveis. Fora o resto. Tudo levava água para um projeto de poder que, para os ideólogos do petismo, propiciaria a criação do homem igualitário e libertário de suas utopias. O PT nunca teria chegado ao poder de que dispôs sem o concurso de pessoas em situações acima aludidas, algumas vezes como companheiras de viagem, outras como inocentes úteis.

Ainda bem, houve reação. O povo escorchado, em sucessivas passeatas ao longo de 2015 e 2016, vociferou seu descontentamento. Atentos ao ronco das ruas, agiram os políticos e o governo tombou. Um pouco precipitadamente escrevi tombou, é o que de momento parece mais provável.

Chegou a hora do balanço. Por óbvio, não estou reclamando tribunais. Inspirando-me em Nuremberg, proponho tão só, de forma algum tanto pesadona, mas no momento necessária, trabalho de pesquisa e análise para conhecer o que aconteceu, uma vacina, se quisermos, benéfica ao povo, que assim terá condições melhores para formar opinião. Sem ela, temo, daqui a pouco estaremos de novo sujeitos aos mesmos vírus que causaram o desastre.

Coloco abaixo alguns dos pontos a serem iluminados. Foi a antipatia ao lucro, à propriedade privada, à livre iniciativa, e ao mercado, acoplada com a credulidade demolidora nas possibilidades do Estado o que, na economia, nos rojaram ao fundo do poço. Era o caminho que nos arrastaria indefectivelmente à situação da Venezuela e de Cuba. Tal mentalidade revolucionária, pouco ativa no povo simples, está muito presente na universidade, nas sacristias e até na alta burguesia. São pessoas formadoras de opinião. Via de regra este, pelo menos, pendor esquerdista vem junto com opiniões libertárias em matéria moral. Um exemplo característico foi o casal Eduardo-Marta Suplicy. É câncer social agressivo, de extirpação difícil e lenta. Não combatido, mata. Ter o problema claro já é um bom primeiro passo.

Outro ponto. Fomos arrastados até aqui pela cegueira, quando não pela cumplicidade, de boa parte das lideranças que, por missão natural, tinham o dever de defender, como disse acima, a propriedade privada, a livre iniciativa, o lucro e o mercado contra uma seita ideológica cujo objetivo final, nunca abjurado, é a generalizada coletivização do campo e da cidade. Junto exemplos esclarecedores e tristes. Entre os atuais ministros, dois foram presidentes das entidades patronais dos industriais e dos fazendeiros, CNI e CNA. E podem voltar para o Senado para votar contra o impeachment. O vice de Lula foi empresário riquíssimo, ex-presidente da FIEMG; sua presença na chapa agia de forma a anestesiar setores das classes produtoras, e até no povo em geral, de si tendentes à reação ao desastre no qual afundava o Brasil. E foi essa a razão de sua escolha. De outro modo, beneficiam por vezes de maneira decisiva, consciente ou inconscientemente, um grupo político que em prazo dilatado quer liquidar a influência dos fazendeiros e dos industriais na vida nacional. Pior, não são exceções gritantes. À vera, são situações que se repetem. Exprimem uma forma de anemia das classes produtoras.

Essa constatação me empurra para outras lideranças, agora de âmbito religioso. A esquerda católica foi responsável maior, em trabalho que vem pelo menos desde a década de 40, pela ascensão do PT. Na prática seu apoio favoreceu o homossexualismo, a legalização do aborto, a secularização agressiva. E ainda hoje seus adeptos continuam agindo para impedir que o Brasil escape ao destino da Venezuela e de Cuba. Aqui podemos lembrar a Ação Católica, a Nova Teologia, as comunidades de base, a Teologia da Libertação, a Pastoral da Terra, o CIMI, Comissões Justiça e Paz, e até a própria CNBB. Tanta coisa mais. É outro câncer social, mais virulento que o mencionado acima.


Os três fenômenos aqui apontados são exemplos típicos de autodemolição, enfermidade que ajudou enormemente a ascensão lulopetista. Já se vê, montes de coisa contra o que vacinar.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

A mão estendida virou punho cerrado

A mão estendida virou punho cerrado

Péricles Capanema

O PT e demais forças de esquerda a ele aliadas ou meras forças auxiliares, como os movimentos sociais, têm agora problema delicado, estão com cobertor curto. Se puxarem para a cabeça, descobrem o pé; se cobrirem o pé, deixam a cabeça no frio.

Perdia o PT com o punho cerrado, ganhou com a mão estendida. Com ela, desarmou resistências no público em geral, avançou em setores antes duramente bloqueados, exemplo lideranças rurais, aparelhou escandalosamente o Estado. Nessa moldura, a anterior vigilância de largos setores mudou para indiferença, ocasionalmente até mesmo para simpatia. Ficaram comuns opiniões do tipo ‘a ideologia morreu, não passam de ladrões aproveitadores’.

Veio a crise econômica, o desemprego, a volta da carestia, a roubalheira despudorada. E a grossa maioria se voltou contra o PT e o governo Dilma. Na esteira, na Câmara dos Deputados, 367 deputados, de olho nas possibilidades de reeleição, votaram a favor do impeachment da Presidente.

Na militância petista, clima de luto. Se não agir rápido, a direção corre o risco do desânimo desagregador em seus setores mais ardentes. Precisa tê-los em vista. Se atendê-los, assustando o público, as possibilidades eleitorais correm perigo. O dilema emerge inevitável à maneira do desafio da esfinge de Tebas: decifra-me ou te devoro. De outro ângulo: é a política difícil de, ao mesmo tempo, desmobilizar os opositores, atrair simpatizantes e mobilizar a militância. Já começou em tom virulento e intolerante a encenação de perseguido por defender os pobres e vítima de elites insensíveis. Em suma, no presente momento, o PT optou pelo confronto. Foi jogado no quarto de despejo o boneco Lulinha paz e amor e a empoeirada Carta ao Povo Brasileiro de 22 de junho de 2002. À ribalta, tinindo, voltou o Lula jararaca.

Nessa linha, proclama a resolução do Diretório Nacional de 19 de abril último: “A direção do PT congratula-se com (...) a Frente Brasil Popular, aliada à Frente Povo sem Medo. (...) Reconhecemos a vitalidade dos movimentos sociais, a abnegação e a combatividade de nosso aliado histórico, o Partido Comunista do Brasil. Prestamos igualmente nosso respeito, entre outras agremiações, ao Partido do Socialismo e Liberdade (PSOL) e ao Partido da Causas Operária (PCO) (...) Fazendo autocrítica na prática, o Partido dos Trabalhadores tem reaprendido nesta jornada, antiga lição que remete à fundação do nosso partido: o principal instrumento político da esquerda é a mobilização social, pela qual a classe trabalhadora toma em suas mãos a direção da sociedade e do Estado”.

Volta o PT das origens, dando guarida às concepções bolcheviques: a mobilização em frente popular e não a luta parlamentar, trará ao operariado (ao Partido, seu representante) a direção da sociedade e do Estado. Impossível não escutar ecos de Lênin antes do assalto ao Palácio de Inverno.

Na esteira da tomada de posição radical, Rui Falcão avisou: “Não haverá trégua nem estabilidade. É muito mais que oposição parlamentar só. Não tem paz, não tem tranquilidade, tem luta”.

Com isso, o PT atende a setores radicalizados. Mas tem o reverso, duas possibilidades, uma desejada, outra temida. O medo provocado pela face agressiva petista na opinião pública a fará mais tendente a ceder. É o cede ou vai apanhar mais, vantajosa para o PT. Contudo, existe a segunda possibilidade, pode também irritá-la, enrijecê-la, fazê-la mais disposta a resistir. E os efeitos podem ser profundos e longos.

Para César Maia, ex-prefeito do Rio de Janeiro, o PT começou mal, errou na dose, achou que a intimidação resolvia e produziu efeito contrário. Acho que viu certo: “Quando aceito o pedido de impeachment de Dilma e aberto o varejo dos cargos, se esperava que Dilma e seu núcleo duro suavizassem sua comunicação e seus discursos de forma a não gerar insegurança nos deputados do baixo clero. Ou seja, para ter votos suficientes, deveriam caminhar em direção ao centro. Mas fizeram exatamente o contrário. Se encantaram pelo slogan que seus comunicadores criaram ‘não vai ter golpe’ e subiram o tom. O slogan ‘não vai ter golpe’ foi sendo interpretado como algo do tipo ‘se for necessário pegaremos em armas’. Os discursos no Planalto, no Congresso e nos comícios subiram o tom como um slogan latino-americano: ‘Não passarão’ ou ‘Governo Dilma ou morte’. As caras e feições dos deputados foram ganhando expressões crescentemente raivosas. Toda essa coreografia foi percebida pela opinião púbica difusa, pelos deputados e senadores que estão fora da esgrima ideológica como se, não passando o impeachment, nos dois e meio últimos anos de governo, Dilma radicalizaria à esquerda. A distribuição de cargos não seria redistribuição de poder. O poder estaria mais centralizado. Assustou”.


Aqui está o risco do PT: assustar e levar à determinação de resistir. Se acontecer, com mais foco, dependendo de como acontecer, o Brasil direito terá dado passo imenso no rumo certo.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Um discriminado esquecido

Um discriminado esquecido

Péricles Capanema

O Brasil, seguindo tendência mundial, tem ativamente promovido políticas públicas chamadas via de regra de discriminação positiva; as ações afirmativas (outro nome) visam diminuir desvantagens relativas. Há leis favorecendo idosos, crianças, mulheres, negros, pobres, estudantes, portadores de deficiências físicas, entre eles os cegos, surdos e cadeirantes. Quando sensatas as normas e razoável sua aplicação, nada a objetar, têm efeitos benéficos.

No dia a dia, quem não gosta de ser atendido em sua inferioridade? Qualquer um de nós apresenta desvantagens, depende até da hora. E, normal, todos acham bom os outros levarem em conta tal situação. Entre eles, o Poder Público. Mas não falo apenas de leis e programas sociais, tenho muito em vista bons hábitos sociais. Em curto, a aplicação da caridade entre os homens.

Simplificando, até com nota irônica, apenas o branco jovem, rico, atlético, estudos superiores, vivendo em lar bem constituído, desnecessitaria de discriminação positiva. Falso; à vera, quando observado de perto, também é carente, precisa de cuidados especiais. Terá problemas psicológicos, será míope, pouco inteligente, sei lá mais o quê. Enfim, a discriminação positiva (se escoimada da inveja e da mentalidade achatadora revela em seu núcleo uma virtude cristã, a compaixão) vale para todos, vem para minorar os doloridos efeitos das incapacidades relativas por nós padecidas. Já se vê, impossível pôr tudo a cargo da norma legal. Sem depreciar o recurso a elas, a solução mais eficaz, barata e duradoura, começando no interior das famílias, é a constituição de hábitos sociais virtuosos, inspirados no Evangelho “amai-vos uns aos outros, como eu vos tenho amado”.

Temos em maior evidência as cotas para negros em empregos públicos e universidades. Não vou tratar a fundo das distorções, entre elas, por exemplo, a todo momento se fala de abusos na declaração de que é negro para cair no espaço favorecido das cotas. A Folha de São Paulo de hoje (14.4.2016) traz editorial a respeito. Informa que grupos de negros universitários estão se mobilizando contra o que chamam falsos cotistas. Apesar das mobilizações, no presente quadro o jornal não vislumbra saída razoável para o caso: “Trata-se de questão insolúvel: a autodeclaração constitui o único critério legal para definir se alguém é negro (ou de qualquer outro grupo social). Em tese, o sujeito de pele alvíssima que na inscrição do vestibular disser que se considera negro ou pardo deverá ser tratado como negro ou pardo. Substituir a autodefinição por critérios raciais objetivos é impraticável. A ciência não tem como ajudar, pois nem existe definição de raça universalmente aceita. Embora os comitês raciais exerçam certa pressão moral para evitar casos gritantes, pouco podem fazer do ponto de vista jurídico”. Conclui com uma proposta, cotas segundo a condição econômica: “Há várias vantagens nas cotas exclusivamente sociais. Um branco pobre que necessite de ajuda não será prejudicado apenas pelo fato de ser branco”.

Ia falar de um tipo de discriminado. Súbito outro pulou à minha frente, o obeso, continuamente discriminado, também candidato natural a tratamento diferenciado. Agora sou eu que o empurro de lado, e trato do discriminado razão do título do artigo: o superdotado, entre nós, esquecido e injustiçado, com grave lesão ao bem comum.

É muito censurável deixar de privilegiar e atender, com prudência, a idosos, cadeirantes e outros em desvantagem grave. Mas o dano ao bem comum na maioria desses casos é relativamente pequeno.

Deixar de atender a superdotados traz gravíssima injúria ao bem comum. Nos Estados Unidos, o superdotado é caçado como tesouro escondido. O povo tem noção clara que é loucura deslavada deixar ir para o ralo tal riqueza potencial. Logo que encontrado, é mandado para universidades de ponta e não param aí os estímulos. O mesmo acontece em numerosos países asiáticos. É claro, esta ajuda à carreira dos superdotados os favorece e a suas famílias. Compreensível e justificado. Acentuo outro ponto: tem enormes reflexos benéficos no bem comum. O país recebe em troca descobertas sem número, novas e mais produtivas técnicas de gestão, melhorias na qualidade do ensino, start-ups criativas; enfim, vias inovadoras de crescimento social. Estudo feito em 80 países por economistas da Universidade de Chicago mostrou, as políticas de aproveitamento de talentos levadas a cabo pelas nações mais ricas em numerosos casos foram o principal fator de sua prosperidade econômica.

No Brasil temos milhões de superdotados. Estimativa da OMS (Organização Mundial da Saúde) aponta entre nós de 3,5% até 5% de pessoas superdotadas. É o maior recurso natural do País. Nem precisaria lembrar, essa enorme riqueza em potencial em boa parte vai para o lixão. Para ser bem aproveitada, seria preciso detecção precoce e rápido aproveitamento. Parte expressiva de tal potencial está nas classes de menor poder econômico. E mesmo muitos pais abonados não têm a atenção bem orientada para o potencial de seus filhos. Quem se preocupa, fora alguns abnegados? No Poder Público, o que é feito?


Para concluir, duas constatações. Em parte esse desinteresse demolidor vem do desconhecimento de que, via de regra, o que mais favorece o bem social é o estímulo à plenitude, em qualquer campo e o mais generalizado possível. Por óbvio, dentro de uma moldura de proteção a todos e desigualdades harmônicas. Segunda constatação, mais importante. Existe infelizmente ainda muito viva a obsessão igualitária, que tenta por todos os meios impor um nivelamento antinatural, causa de terríveis sequelas empobrecedoras. Ninguém fala em ação afirmativa a favor dos superdotados. Milhões deles, hoje pobres e indefesas crianças sem nenhuma proteção, com muita probabilidade cairão no lixão da vida. Seria normal, compassivo e até muito vantajoso ajudá-las de forma especial. Mas não merecem dó. A obsessão igualitária e a patrulha aferrolham as bocas. Tiro no pé de todos nós.

sábado, 2 de abril de 2016

Tumores de estimação

Tumores de estimação

Péricles Capanema

Pivô do mensalão, ex-deputado federal e presidente do PTB (a partir de 14 de abril) Roberto Jefferson, agora livre, concedeu entrevista ao Estadão. Falou o óbvio: “Quem financia partido são as estatais. Se queremos país moderno, vamos ter que fazer privatização, porque não vai permitir a concentração da corrupção. A estatal é a semente da corrupção no Brasil. Partidos disputam cargos nas estatais para seu financiamento. O que vão assaltar nos seis meses enquanto durar o impeachment é uma loucura”. O petrolão deita raízes na Petrobrás. Os jornais falam do eletrolão, com origem na Eletrobrás. Bastaria investigar, em cada estatal vai ser descoberto o mesmo esquema de pilhagem que por anos jugulou a Petrobrás e a Eletrobrás.

Agravando o quadro, a Petrobrás (quer dizer, o governo petista) está pedindo empréstimos bilionários ao CDB (Banco do Desenvolvimento da China, estatal chinesa, braço do PC), já são mais de 10 bilhões de dólares. Só um exemplo, em 26 de fevereiro passado, a Petrobrás informou haver contraído empréstimo de 10 bilhões de dólares. Antes, em abril de 2015, foi anunciado financiamento de 3,5 bilhões de dólares. Uma das condições para receber a dinheirama é comprar equipamentos chineses para o setor petrolífero, o que contraria a política de conteúdo nacional, legislação patrocinada pelo próprio PT. Neste caso, o PT e o governo se calam sintomaticamente, pois aqui eles estão favorecendo o imperialismo comunista. E, sob outro ponto vista, já revelando traços de deplorável conduta de país neocolonizado, temem desagradar a potência colonizadora. Quando inevitável, a Petrobrás paga as multas prescritas pela legislação brasileira e compra o material chinês.

Infelizmente menos que deviam repercutem no público os descalabros das estatais, entre os quais, a roubalheira endêmica e, como acima, ser instrumento da política de servidão do Brasil a potências estrangeiras. Também incomodam aquém da medida seu empreguismo e ineficiência. Em consequência, é relativamente raro entre nós algum partido ter como bandeira programática a privatização e, com isso, propor como política de Estado a eliminação desse gigantesco fator de atraso. Deveria ser normal, prestigioso, aplaudido de pé. Parece, não dá voto. No governo, nem se fala, mas mesmo na oposição a Petrobrás ainda é qualificada aqui e ali de “orgulho nacional”.

Vem de longe o lamentável xodó com o estatismo. Desde a Revolução de 1930, a fórmula preferencial, simplificadora e deformante, tem sido: “Apareceu um problema? Estado nele”. Revela sujeição, maior ou menor, ao lema fascista: “Tudo no Estado, nada contra o Estado, e nada fora do Estado”. E tal lema exprime com autenticidade a doutrina e a mentalidade do nazismo, do comunismo e de socialismos de várias tonalidades. O tenentismo brasileiro, autoritário e intervencionista, de tanta presença em nossa história, também bebeu dessas águas.

Existem motivos vários para a pervivência (desculpem o castelhanismo expressivo, deveríamos adotar essa palavra, viver, muitas vezes com esforço, através dos tempos; sobrevivência não diz a mesma coisa) dessa situação. Um deles, quem sabe o principal, é o mimetismo, a mania subserviente de imitar fórmulas de fora. Embeiçados por modelos vitoriosos passageiramente no estrangeiro, tentamos sua aplicação aqui. Aconteceu com o fascismo, o socialismo, o comunismo e numerosas outras fórmulas coletivistas, de diferente teor estatizante. Deixaram entre nós sequelas profundas em especial nos setores letrados (ou mais ou menos letrados). No povo simples, nem tanto. A brasilidade, hoje falada, começa com autonomia de pensamento e segurança de conduta. Aliás, vale para qualquer povo.

Roberto Jefferson falou do financiamento dos partidos. Referia-se, creio, sobretudo ao financiamento das campanhas, caríssimas entre nós. Nada foi feito para diminuir-lhes o custo. Medidas óbvias, como a proibição da marquetagem na televisão e providências por muitos vistas como sensatas para baratear campanhas, como o voto facultativo e alguma forma de voto distrital, dormem nas prateleiras. Uma determinação vale: proibido o financiamento empresarial num país em que, todos sabem, é pífio o financiamento de particulares. O que sobra para financiar as campanhas, caras como antes, e que fracassarão inelutavelmente sem o dinheiro? Mais financiamento público (dinheiro tirado de escolas, de postos de saúde e de creches, entre outras fontes), continuação da propina fluindo das diretorias das estatais e, já que a fonte secou em parte, complementos advindos de dinheiro estrangeiro e do narcotráfico. São perspectivas dantescas, reconheço, mas não sejamos como os avestruzes.


Volto ao começo. O Estado é realidade necessária e saudável, mas com presença em geral supletiva. As soluções devem via de regra sair do setor privado. É o que fez grandes os Estados Unidos. E é o que, aliás, afirma o princípio de subsidiariedade da doutrina social católica. Sem que ele nos encharque as mentes e molde as mentalidades, vamos ter ainda por muitos anos no corpo do Brasil nossos tumores de estimação, correlatos, o estatismo, o coletivismo, o intervencionismo e o dirigismo. Entranharam-se por décadas, deitaram metástase, são de penosa extirpação.

sábado, 26 de março de 2016

Vitória, tu reinarás!

Vitória, tu reinarás!

Péricles Capanema

Hino antigo, cantado com frequência na Semana Santa me suscitou reflexões pelos surpreendentes paradoxos: “Vitória, tu reinarás! Oh, Cruz, tu nos salvarás! ” Via ao mesmo tempo a imagem do Salvador chagado e açoitado, vergado sob o peso da Cruz, caminhando para a morte infamante. Vitória? Tudo indicava derrota total. Olhava em volta, os fiéis cantavam seguros o triunfo. Por que não esperar pelo menos a Páscoa, aí sim ocasião de vitória esplendorosa?

Existiriam motivos para os brados de triunfo? Logo vi, havia, sobrenaturais. Ali se consumava, sob a aparências da derrota, a redenção do gênero humano, eram os atos finais da vitória sobre o pecado, abriam-se as portas do Céu.

Não parei neles. Existiam outros motivos, grandes realidades naturais e sobre elas pouca gente fala. A proclamação da vitória não se dá apenas em atmosferas festivas, como na Páscoa da Ressurreição. Cabe também em momentos de derrota, de sofrimento, no caso a Paixão.

Para me explicar melhor, entro por um atalho. Logo de início vemos, a proclamação da vitória consola ao afirmar a esperança de tempos melhores. Um judeu, no horror do campo de concentração, encontraria alívio cantarolando hino de seu povo que expressasse o ideal de um dia voltar para Jerusalém. De fato, a esperança viva é dos grandes motores da existência, em particular do ímpeto de perfeição.

Queria falar ainda de outra coisa. O sofrimento se opõe ao prazer, não é o oposto da felicidade. Acontece ser o caminho, instrumento tantas vezes único, da ventura e do êxito. E não estou aqui tratando da felicidade celeste, pois ele pavimenta também a felicidade terrena. Aceitá-lo varonilmente, caminhar ao lado dele tendo-o como companheiro de jornada, forma o caráter, prepara os grandes triunfos. Um estudante de medicina que por anos se privou dos prazeres da idade, queimou as pestanas nos livros e palmilhou os laboratórios ao lado de cadáveres em formol, recebe, no fim da jornada, a recompensa da carreira brilhante, da consideração dos seus, de um lugar na sociedade que lhe propicia a felicidade, pela qual se sujeitou ao sofrimento de anos. Quando estudante, estafado, com achaques, mas com a sensação do dever cumprido, quantas vezes interiormente deu brados de vitória. E hoje do promontório de seu tão louvável sucesso contempla com austera saudade os anos de privação em que trilhou o calvário necessário a seu êxito.

Na vida é assim. Qualquer pessoa, qualquer família, qualquer povo, se quer a grandeza cristã, precisa entender e amar o sofrimento, fazê-lo companheiro de jornada. O Brasil, atormentado por tantas crises, delas sairá maior e melhor, se as compreender fundo e as enfrentar com coragem sobrenatural.

Assim, o sofrimento se manifesta na resignação diante da dor, na sujeição ao esforço, no trabalho com método; enfim, na ascética obediência ao dever. E, por tudo isso, na derrota e no sofrimento, cabe tantas vezes o brado da vitória.

É o que na Paixão a Igreja nos ensina. Imerso nesses pensamentos, escutei as outras estrofes. Inicialmente, o caminhar resoluto rumo ao local do suplício: “Nós vamos à cidade e lá eu irei sofrer. Serei crucificado mas hei de reviver”.

Logo depois me irmanei aos católicos que, no meio de generalizada indiferença e incompreensão, hoje mundo afora sofrem perseguição e martírio, aos milhares, quem sabe centenas de milhares: “Vocês não são do mundo, do mundo os escolhi. Se o mundo os odeia, primeiro odiou a mim. Vocês vão ter no mundo, tristezas e aflição. Mas eu venci o mundo, coragem e vencerão”.

Finalmente, voltava a importância do sofrimento para a germinação do bem: “Se o grão que cai na terra, não morre, fica só. Se morre, germina e cresce, seu fruto será maior.”


No silêncio e na escuridão, a semente se transforma em árvore e dá frutos. Rezemos uns pelos outros, para que o que de nós ainda é semente, frutifique bem e logo.