sábado, 23 de julho de 2022

O anestesista multifunção

 

O anestesista multifunção

 

Péricles Capanema

 

Anestesista polivalente. Geraldo Alckmin, médico anestesista, em 2022 escolheu ser político anestesista. No início da vida profissional anestesiava pacientes em geral deitados em macas, padeceriam cirurgias dolorosas, traumáticas e com risco de morte. Subiu de patamar. Busca agora anestesiar todo o eleitorado brasileiro que, espera, encontrará passivo, como seus pacientes de antanho, resignados, deitados em maca. Na chapa petista para a presidência da República, tem o triste papel de diminuir resistências à operação violenta e traumática, retrocesso pavoroso que a nação pode sofrer a partir de outubro próximo. Aqui também há risco de morte, o Brasil pode agonizar como nação cristã, ligada aos valores ocidentais. E se alinhar a Cuba, Venezuela, China, Rússia.

 

Sedação profunda para criar espaço ao extremismo. Onde em especial se localizará o trabalho de sedação, encomenda que recebeu o tucano vira-casaca, direta ou tacitamente, dos estrategistas da campanha petista para, com seu auxílio, dominar a máquina pública brasileira? Setores visados de forma particular: agronegócio, Brasil da roça (interiorzão), política externa, área social. Aqui, serão aplicadas altas as doses políticas de propofol, lidocaina e bupivacaina. Com efeito, o radicalismo petista ocupará largas faixas da política e da máquina pública, já prometidas em acordos de bastidor, convenientemente ocultados do público, no eventual novo governo. Fica então indispensável diminuir já, antes das eleições, o horror do futuro que nos espera, sob risco de inviabilizar a possível vitória eleitoral. A conta será pesada. Seremos aliados, confessos ou pelo menos efetivos, de frente antiocidental, capitaneada pela China, procurará minar a influência dos Estados Unidos no mundo. Alinhados, ajudaremos Cuba, Nicarágua, Venezuela e outros governos de esquerda. No Brasil, o INCRA, como aconteceu nas anteriores administrações petistas, será entregue aos extremados do partido, para gáudio de João Pedro Stédile e apaniguados do MST.

 

Contradição aberrante e silenciada. Melhorando, não é apenas silenciada, é escondida. Para ter êxito em sua empreitada como anestesista político, o médico anestesista Alckmin, era o normal, deveria ter se abrigado em partido ligado ao agronegócio, aos interesses ocidentais, ao Brasil empreendedor, amigo da propriedade privada e da livre iniciativa. Não foi o que fez. Correndo, foi buscar abrigo em partido com programa extremista, soviético. Ali festejou, com nutrida assistência, sua adesão de fato, mas escondida, a objetivos soviéticos. Resultados da aplicação de tal programa? Atraso, roubalheira, ditadura, pobreza. Ao se filiar ao Partido Socialista Brasileiro (PSB), é inevitável a constatação, declarou-se de acordo com o Estatuto, Programa e Manifesto do Partido. Repito, situação silenciada, ninguém sobre ela escreve. Resolvi andar na contramão, e uma das razões é que o antigo governador de São Paulo está escalado para falar com o agronegócio e interior do Brasil para ali angariar votos e sedar. Vamos às metas para o campo, expostas pelo PSB em programa oficial, sonho seu para o Brasil do futuro.

 

O radicalismo rural do PSB. Aqui está, “ipsis verbis” a estrutura do campo como a deseja o PSB: “Da terra: A socialização progressiva será realizada segundo a importância democrática e econômica das regiões e a natureza da exploração rural, organizando-se em fazendas nacionais e fazendas cooperativas assistidas, material e tecnicamente, pelo Estado. O programa de latifúndio será resolvido por este sistema de grandes explorações, pois sua fragmentação trará obstáculos ao progresso social. Entretanto, dada a diversidade do desenvolvimento econômico das diferentes regiões, será facultado o parcelamento das terras da nação em pequenas porções de usufruto individual, onde não for viável a exploração coletiva”. A tática é do passo a passo “socialização progressiva do campo” (estatização), rumo a porvir de miséria e ditadura, como o revelam os precedentes históricos. O futuro terá quase só grandes propriedades. Só que as grandes propriedades não serão privadas: serão estatais (nacionais) e comunitárias (cooperativas de trabalhadores). O conjunto será, é claro, dirigido por burocratas socialistas (como aconteceu na URSS), com emprego amplo das patotas sindicais que sugarão a “plusvalia” (para lembrar a tolice marxista) mirrada das explorações. É, via de regra, pessoal chegado numa propina. Aqui está o futuro da agricultura brasileira, desenhado pelos socialistas. A vida como ela é, para recordar Nelson Rodrigues.

 

Usufruto, e olhe lá, para o pequeno. Notei acima, o futuro terá quase só grandes propriedades. Não haveria um cantinho para o pequeno proprietário? Para o pequeno, sim. Para o proprietário, nem pensar. Será usufrutuário, o dono será o Estado. Imagina, o pequeno pode querer ficar médio; e o médio virar grande. Onde iríamos parar? Usufruto já está bom. Mais que isso, de jeito nenhum. Servos da gleba, na prática.  Seriam tolerados os servos da gleba (usufrutuários) no paraíso socialista para o qual nos convida hoje o neoconverso Geraldo Alckmin, o anestesista polivalente. Mesmo o usufruto (a condição de moderno servo da gleba) será concedido a contragosto: será apenas facultado, quando inevitável. O ideal é gente trabalhando nas gigantescas fazendas estatais ou nas fazendas de cooperativas de trabalhadores. Dependem do Estado e das burocracias sindicais. Em pleno século 21, estamos diante de programa ditatorial, asfixiante da prosperidade, delirantemente coletivista. Representa retrocesso cruel, generaliza miséria, favorece exclusão social.

 

Coerência. Quem divulga programa desse naipe, não pode, sem manifesta hipocrisia, defender a liberdade, a autonomia, o empreendedorismo. Mesmo que sejam políticos como Geraldo Alckmin que deram as costas para seu passado. Um político correto deve ter, como condição prévia para a vida pública,  a decência de defender o próprio programa. Indica coerência e transparência. O contrário é abrir campo para a acusação fundada de hipocrisia.

 

Coletivismo generalizado. Quem defende a agricultura sovietizada, logicamente não pode favorecer a iniciativa privada em outros campos. É o que acontece com o programa do PSB. Para o comércio exterior, a fórmula é: “O comércio exterior ficará sob controle do Estado até se tornar função privativa deste”. Estação final, função privativa do Estado. Estatização total, selvagem. O trabalho? Será considerado direito, mas também obrigação O Estado obrigará todo mundo a trabalhar. Diferença de rendas, fundadas no esforço e no mérito? Serão eliminadas, o trabalho manual terá o mesmo valor que o intelectual: “O trabalho será considerado direito e obrigação social de todo cidadão válido, promovendo-se a progressiva eliminação das diferenças que atualmente separam o trabalho manual do intelectual.”.

 

Estatização da indústria. O setor industrial, é coerente, não escapará do estatismo selvagem. Será todo estatal, processo que começará pela estatização dos setores básicos: “Socialização progressiva dos meios de produção industrial, partir-se-á dos ramos básicos da economia.” Socialização, todos sabem, pertencer à sociedade, é eufemismo para estatização, termo que vem sendo evitado, pois é associado com os efeitos macabros que as políticas, nele inspiradas, apresentam historicamente, a saber, porrete, miséria e roubalheira.

 

Resumo do pesadelo, estatização ampla, geral e irrestrita. Ainda que gradual, evitando agressões causadoras de graves prejuízos políticos (a gradualidade anestesia), o objetivo não difere das metas clássicas dos partidos comunistas ao longo da História. Como última alusão ao Programa jurássico do PSB, a afirmação de que o Partido quer estatizar todos os meios de produção (fazendas, indústrias, lojas, oficinas): “O objetivo do Partido, no terreno econômico, é a transformação da estrutura da sociedade, incluída a gradual e progressiva socialização dos meios de produção, que procurará realizar na medida em que as condições do país a exigirem”. Ocultar tais aspectos, proclamados oficialmente, do programa socialista ajuda a anestesiar a opinião pública. O médico anestesista Geraldo Alckmin infelizmente embarcou em tal empreitada.

 

Reversão dos efeitos da anestesia. Sugamadex reverte os efeitos da anestesia em até três minutos ▬ elimina consequências de doses fortes do propofol. Alerta, esclarecimento, clareza é do que estamos necessitados ▬ sugamadex ▬ para caminhar certo e votar bem. Nunca silenciamento ▬ propofol.

quinta-feira, 21 de julho de 2022

Dom Luiz governou o Brasil

 

Dom Luiz governou o Brasil

 

Péricles Capanema

 

Permanece fúlgida a marca imorredoura. Sepultado no Cemitério da Consolação na capital paulista em 18 de julho, faleceu em 15 de julho dom Luiz de Orleans e Bragança, Chefe da Casa Imperial do Brasil. Sua bisavó, a Princesa Isabel foi a última da família que, interinamente, segurou as rédeas do governo ▬ foi Regente do Império pela terceira vez entre junho de 1887 e agosto de 1888. Tardinha começando a cair, primeiras sombras, frescor intenso no ar, profusão de coroas de flores adornadas com textos emocionantes alinhavam-se, como sentinelas, ao longo da alameda que conduzia ao túmulo já aberto. Misturei-me silente ao respeitoso magote que esperava a chegada do corpo ao cemitério. Enquanto observava a ativa movimentação de tropas da Marinha, um ou outro uniforme de alto oficial, um sacerdote que supervisionava trabalhos, a mente divagava. Reflexões sucediam-se naturalmente; como num filme, a fantasia buscava aspectos da vida e da personalidade do príncipe que em instantes ali receberia as últimas homenagens. Para os que tiveram a ventura de conhecer dom Luiz, deixa marca imorredoura. Soube unir na personalidade paternal, com cativante harmonia, qualidades raramente próximas: modesto, senso perfeito e discreto da posição, batalhador, convívio suave; mais ainda, sofredor, penitente, resignado, piedoso. A enfermidade o estigmatizou, jamais o derrotou moral e psicologicamente.

 

Governo dos comportamentos. Repentina saltou constatação: “Pena, dom Luiz nunca governou o Brasil”. Logo após assomou a pergunta: “Nunca governou?” Brotava rápida a resposta, parecia simples, incontroversa; melhorando, nem tanto, borbotava à vera simplificadora e simplória: dom Luiz nunca governou, nunca assinou um decreto, por mais desimportante que fosse. Concomitante, aparecia outra resposta, subia do fundo do espírito e ia ganhando forma; matizada, revelava realidade mais funda: “Em termos, dom Luiz, sob um ângulo, governou o Brasil. Como nenhum outro governante”. Qual ângulo?

 

Renovação de doutrina antiga. É antiga, muito conhecida, a concepção que exporei abaixo, mas nos últimos anos vem ganhando teóricos de importância, entre os quais cabe destacar Javier Gomá Lanzón (em 2012 e 2014 a revista Foreign Policy, edição em espanhol, colocou-o entre os 50 intelectuais iberoamericanos mais importantes). Na esteira de muitos outros e até do bom senso comum, o celebrado erudito espanhol afirma, o mais importante em um governante é a exemplaridade. Dar bom exemplo, em português singelo. A doutrina vai além, se há o dever do bem exemplo, o governante que dá mau exemplo causa dano moral ao povo. Acontece com frequência, o dano moral não vem só. Muitas vezes há tragédias materiais envolvidas. Em resumo, a exemplaridade é a mais importante característica do governante. E dar mau exemplo é a pior. O governante (não só o governante político, todas as pessoas em posição de destaque, a qualquer título, a começar pelo pai e pela mãe) inspira comportamentos, favorece hábitos, combate costumes. Para a obtenção do bem comum de um povo, esse deve ser o grande objetivo do dirigente político. Influi fundo, marca por décadas, até séculos.

 

Governo estaqueado na exemplaridade (ou bom exemplo). Vamos ao que afirma Javier Gomá Lanzón: “O espaço público está cimentado sobre a exemplaridade, esse é seu cenário mais genuíno e próprio. A política é a arte da exemplaridade”. Para estear bem o bom governo, garante o intelectual espanhol, o dirigente deve “pregar com o exemplo. Só o exemplo prega de forma eficiente”. Promessas, discursos, atos administrativos, sem o exemplo, caem no vazio. Na Grécia antiga, da democracia direta, o cidadão participava do governo debatendo e votando na praça pública (ágora). Nos tempos modernos, de democracia indireta, igualmente não só o voto configura participação na construção do bem comum. Debater, opinar, protestar, apresentar programas, sugerir soluções, à maneira do grego antigo na ágora, também é contribuir para a obtenção do bem comum. Dentro de tal quadro, dar bom exemplo é a primeira e mais importante participação. Influi no tom moral da sociedade, na criação de seus rumos e expectativas, marca o que é estimulado, o que é desaconselhado, o que é proibido. E assim, vai mais fundo que a coação legal (que age nos atos externos), alcança o interior das personalidades, pensamentos, anseios, convicções.

 

O bom exemplo de dom Luiz. Don Luiz participou da obtenção do bem comum nacional de forma insigne pelo extraordinário bom exemplo de uma vida inteira. Nesse sentido, padrão moral perene, governou na mais alta acepção. E os brasileiros de bem, diante de sua memória virtuosa ▬ e de seu governo, como Chefe da Casa Imperial e sucessor legítimo da Princesa Isabel ▬ inclinam-se hoje reverentes e agradecidos. Em certo sentido, muito real, continua a governar. Como seu ancestral, são Luiz IX (1214-1270), cujo bom exemplo até hoje orienta em alguma medida o espírito dos franceses. Assim, com inteira exatidão, sob o ângulo do bom exemplo, podemos afirmar, Dom Luiz governou. E ainda governa.

 

quinta-feira, 16 de junho de 2022

Franquezas benfazejas de patriota lúcido

 

Franquezas benfazejas de patriota lúcido

 

Péricles Capanema

 

O verdadeiro afeto nutre a sinceridade. Ou a franqueza, tanto faz. Semanas atrás recebi com especial agrado presente valioso de amigo antigo e próximo, era livro que ele sabia ser de meu gosto; encontrara-o, creio, em andanças pelos sebos. “Aparências e realidades”, o título do volume, edição de 1922 (Monteiro Lobato & Cia Ltda), reúne coletânea de Gilberto Amado (1887–1969), escritos respigados entre 1919 e 1922. Vou destacar aqui apenas trechos de um dos trabalhos “A propaganda maximalista e a sua superfluidade”. Maximalista, na linguagem da época, significava comunista. Propaganda comunista, portanto, no Brasil de 1920. Será, linhas gerais, artigo de transcrições. A matéria de Gilberto Amado ▬ hoje especialmente atual, penso, no aspecto que destaco ▬ contém análise severa sobre características do povo brasileiro. Borbota viva, ouso afirmar, do enorme afeto que tinha pelo torrão natal, esteado na veracidade, honestidade e funda percepção. São franquias, direitos concedidos ao afeto autêntico, no caso dele isento de ufanismos ocos e chavões distantes do real.

 

Atalho necessário. Faço um volteio. Para entender de forma arejada e aproveitar bem as censuras do ilustre sergipano, tido como dos homens mais inteligentes do Brasil, convém pequeno desvio. As palavras dele não brotaram de coração ressentido, borbotaram vivificadas pela benquerença. Vamos lá. Amado morreu em 27 de agosto de 1969, morava, havia pouco, algum tanto isolado e doente, no Rio de Janeiro. Amigos e admiradores fizeram-lhe homenagem prestigiosa. À maneira da época, foi organizado jantar solene, presentes personalidades de destaque, no Country Club, tendo como motivo (e pretexto) o lançamento da 3ª edição de um de seus livros ▬ Eleição e Representação. Para a noite de gala foi escolhido como orador o deputado Gustavo Capanema (1900-1985), cujo discurso de reconhecimento e homenagem, 20 de agosto, nota melancólica, antecedeu de uma semana a morte de Gilberto Amado. Na oração, é o que agora mais nos interessa, Capanema lembrou numerosas afirmações do pensador nordestino sobre o Brasil, entre elas as palavras finais do livro relançado inicialmente em 1932, a seguir transcritas: “Nós somos responsáveis pelo mais belo pedaço do planeta. Temos de polir e facetar o maior e mais admirável diamante do mundo. Aumentar-lhe o valor, afinar-lhe as arestas para que ele dê, aos olhos do mundo, toda a sua luz. Não o estraguemos com os instrumentos de uma ourivesaria bronca e primitiva, tenhamos a mão sábia no tocar essa peça prodigiosa. Quem perde a esperança no Brasil não é digno de viver”. Capanema assim terminou seu discurso: “Sempre fui fascinado pela vossa genialidade. Mas o que mais admiro em vós, ó grande Gilberto Amado, é o vosso patriotismo”.

 

Sinceridade cauterizante. Patriotismo real dá direito a franquezas. Fazem bem franquezas expressas com tato nas horas certas, cauterizam feridas infectadas de há muito. É o caso. Gilberto Amado viu muita superficialidade de espírito e imitação servil, sintomas alarmantes, cuja persistência prejudicaria gravemente o futuro pátrio, em episódios de nossa história, em geral objeto de vanglória, como, por exemplo, na independência, abolição da escravidão, proclamação da República e a separação da Igreja do Estado: “Concluímos daí uma superioridade de que nos vangloriamos. Nessa vanglória é que está a superficialidade. Dela nos deveríamos entristecer”. Seria uma tristeza restauradora.

 

Povo reflexo. Para ele, o impulso maior de todos esses movimentos foi mera imitação de modas estrangeiras. Modas intelectuais, modas políticas: “Nenhum sinal é mais forte de que não temos sido senão meros reflexos de outros povos”. Avança: “No terreno das ideias e dos sentimentos, o Brasil é um país reflexo, espelho da vida e das formas que o esforço humano vai criando e aperfeiçoando em outros ambientes”.

 

Proclamação da República na indiferença e cegueira generalizadas. O texto é longo, aqui deixo apenas um exemplo de suas elucidativas constatações: “A República, sim, é que é o fato característico da indiferença política da população. Ao pensar no modo pelo qual tudo se fez, que o povo brasileiro (escrevo povo brasileiro, fazendo certa violência à clareza da expressão, pois população não é povo), estava cego, e que se fez, diante dele, a mutação de cenário, sem que seus olhos se apercebessem do que se passava. Esse fato é um fenômeno colossal. O caso desse rei, nativo do Brasil, que reinou durante quase meio século, que é expulso de seu país, sem que em seu favor se levante um grito, uma palavra, um movimento de reação ou solidariedade, representa por si só uma das coisas mais espantosas de que há memória desde que o mundo é mundo. No dia 15 de novembro, às 5 horas da tarde, depois de proclamada a República, dir-se-ia ninguém se lembrava mais que tinha havido até poucos minutos, no Brasil, uma dinastia, uma monarquia, uma corte. Na retina opaca dos cegos não passou nenhuma irisação de luz, denunciando que alguma coisa de novo e de anormal acontecia. O imperador não tinha um amigo. Apeado do poder, o príncipe augusto, cujas mãos limpas e fracas acariciaram durante cinquenta anos o dorso mole do povo distraído, subitamente deixou de existir. A República se instalou serenamente. Mandou buscar seus novos costumes nos Estados Unidos”.

 

Separação da Igreja do Estado revela despreocupação religiosa. Observa Gilberto Amado: “A prontidão e a calma com que se fez a separação da Igreja do Estado, por um simples decreto, é outro dos motivos de orgulho para muitos dos comentaristas otimistas ou apressados a que aludimos de começo. Mas a verdade é que nisto se prova apenas que o Brasil é um país sem religião”. O comentário realça a ausência do fervor, mas deixa de lado ponto importante no acontecimento: a Hierarquia eclesiástica de alguma maneira se sentiu aliviada com a separação, pois o Padroado, vigente no Império, incomodava.

 

Maximalismo. Maximalismo, lembrei, na época equivalia a comunismo. Havia pequena propaganda do comunismo entre 1919 e 1922. Gilberto Amado afirma que o comunismo venceria fácil no Brasil, não pela ação dos propagandistas, mas por outro fator: “Se o maximalismo vencer na França, na Inglaterra ou nos Estados Unidos, nós o adotaremos aqui de um dia para outro, haja ou não haja preparo na propaganda”. Vai adiante: “Esperam pelo que se fizer na França, na Inglaterra, nos Estados Unidos. O que qualquer dessas nações realizadoras da nossa história fizer, nós faremos. Fazer, originariamente, porém, nos é impossível”. De outro modo, servilismo. Nenhuma originalidade, autonomia tísica; enfim, irrigação mirrada das raízes.

 

Continua o mimetismo. Hoje é diferente? No geral, para desgraça nossa, tudo permanece do mesmo jeito, subserviência generalizada, animando retrocessos. Dou só um exemplo, poderia lotar o texto com vários. A reforma agrária, entre nós, foi feita por imitação a modas estrangeiras; o disparate contínuo e empobrecedor vem desde a década de 50. Modas estrangeiras, aliás, que deram errado onde foram aplicadas. O grande responsável institucional pela gastança desenfreada de dinheiro público com prejuízo gritante da produção, da produtividade, do emprego e da renda é o Estatuto da Terra de 1964 (governo Castelo Branco), entulho autoritário, fonte perene de atraso, que até hoje nutre e estaqueia radicalismos que vieram depois, obstáculos, repito, a aumentos de produtividade, emprego e renda. Se somarmos o dinheiro público jogado no ralo com o mensalão e o petrolão, estou certo, é só fazer as contas, a soma representará porcentagem pequena em relação à riqueza surrupiada do povo e do Estado pela aplicação durante décadas da reforma agrária de inspiração socialista, com viés confiscatório. Em manifesto de dezembro de 1964, largamente difundido no Brasil, o prof. Plinio Corrêa de Oliveira e a então diretoria da TFP qualificaram o texto da nova lei de “incorreto em sua terminologia, confuso e passível eventualmente das mais perigosas interpretações; constitui para o Brasil uma verdadeira encruzilhada, a mais grave de sua história”. Estavam certos. Perderam os necessitados, perderam os proprietários, perdeu o Brasil. Informa o INCRA, dados recentes, talvez já haja mais terra desapropriada, já foram desapropriados no Brasil 87.535.596 hectares, mais que a área somada de Minas e Rio Grande do Sul. O agronegócio, que impede a quebradeira do Brasil, ocupa espaço menor. Roubalheira, contratos de gaveta, produtividade mínima, criminalidade, é o histórico macabro dos assentamentos. Visite um deles, qualquer um, pergunte aos vizinhos, fuja dos folhetos oficiais, e verificará a realidade. A respeito do desastre da reforma agrária, comentou Xico Graziano, dos maiores especialistas na área: “O Brasil cresceu, urbanizou-se, virou potência mundial agrícola, sem necessidade de reforma agrária. A terra está produtiva, gerando milhões de empregos. Gente boa, miserável, mistura-se aos oportunistas e malandros para ganhar um lote nos assentamentos. Iludidas com promessa de futuro fácil, massas são manipuladas e treinadas para invadir fazendas e erguer lonas pretas. A classe média se apieda, enquanto a burguesia, assustada, apoia veladamente. Imaginar que um pobre alienado, sem aptidão nem cultura adequada, possa se tornar um agricultor de sucesso no mundo da tecnologia e dos mercados competitivos, significa raciocinar com o absurdo. Abstraindo os picaretas da reforma agrária, que engrossam as invasões, os demais, bem-intencionados, dificilmente sobreviverão”.

 

O servilismo amordaça as bocas e entorpece as mentes. Não nos iludamos. O servilismo amordaça as bocas e entorpece as mentes. Ninguém, ou quase ninguém, ousa falar a respeito do desastre da reforma agrária. Fato óbvio, contudo. Constatação macambúzia, considerando como fator de previsão o histórico decepcionante, não iremos abandonar por agora o tóxico entorpecedor, temos xodó por esse tumor de estimação. E até é generalizada a birra com quem dele fala mal. Em resumo, no fato acima lembrado e em vários outros aspectos da realidade brasileira, para infelicidade geral, em particular dos menos assistidos, perdura a situação de povo reflexo, escravo de modas do Exterior. Gilberto Amado lá pelo início do século passado, franco e lúcido, apontou defeitos que impedem prosperidade real. Merece por isso nossa gratidão e releitura, textos atuais.

sexta-feira, 3 de junho de 2022

Se eu aparecer, atrapalho

 

Se eu aparecer, atrapalho

 

Péricles Capanema

 

Disfarces arteiros. José Dirceu, mestre na camuflagem, desde cedo considerado bom político, está de volta; veio para ficar, influir de novo. De momento, atua nas sombras. Até quando permanecerá furtivo, esquivo na bruma Daniel, Pedro Caroço, Carlos Henrique Gouveia de Melo? Ninguém sabe. Primeira incursão da retomada, é dos articuladores da campanha lulista. Na esteira do estilo submerso, seu nome e foto não saem nos encontros de preparação da candidatura petista. Foi sincero com Fábio Zanini da Folha: “Se eu aparecer, atrapalho”. Surpreendeu, soou para alguns na esquerda mais que sinceridade, teve ares de sincericídio.

 

Se aparecer, atrapalha, vale para quase todo mundo na arremetida petista. Só Dirceu falou, mas o problema é generalizado. Atinge pessoas, intenções, promessas. O que vem sendo encoberto? Parte do que será executado (e já está combinado) nos quatro (talvez oito) anos, caso Lula vença em outubro. E chefões petistas que irão mandar nos próximos anos. Não é difícil conjeturar o futuro, basta olhar para trás e para os personagens em cena. E conjeturas objetivas não permitem ilusões. Medidas de esquerda radicalizada já estão combinadas na política externa (alinhamentos com China, Venezuela, Cuba, Nicarágua, Rússia, distanciamento dos Estados Unidos) e, na interna, por exemplo, INCRA, sempre entregue às alas de programa mais revolucionário do PT. Desta vez, não será diferente, o MST voltará triunfante, agitando. intranquilizando e torrando dinheiro público sem escrúpulos. Outras providências virão na mesa trilha, como escolha de extremistas para comandos na área educacional, indicação de ministros dos tribunais superiores. O conjunto configuraria quadro tétrico.

 

Economia e camuflagem. Analistas políticos observam, nesta eleição a economia assoma como tema principal: inflação, desemprego, preço do diesel, da gasolina, do gás de cozinha, dos alimentos de primeira necessidade, como feijão, arroz, carne, açúcar, tomate, cenoura, mamão. Parecem objetivos. “It’s the economy, stupid”, recordando James Carville. Contudo, permito-me notar, reflexão fundamental ficou de fora. A eleição pende igualmente do êxito do despiste.

 

Muita luz atrapalha. Postos à luz do dia, revelados programas, desígnios, medidas já combinadas, a rejeição pulará de patamar, cairá intenção de votos. Tudo está sendo para não aumentar o já inchado índice de rejeição. “Veritas vos liberabit” (Jo 8, 32) tem no caso aplicação oportuna. Alteia-se aqui, sob vários aspectos, ponto ápice do embate eleitoral. Camuflar versus revelar. Tirar o véu, desvelar, é a mais decisiva providência; não custa recordar, a mais ligada ao índice de rejeição.

 

Retrocesso totalitário. Se a camuflagem vencer, além do que está acima, as estatais, de novo inchadas e aparelhadas, serão outra vez saqueadas e entregues a sobas de partidos ávidos de poder e dinheiro. Festejarão os apparatchiki, festejarão dezenas de milhares de chefetes incompetentes e despóticos de alto a baixo da máquina pública, de norte a sul. Imperícia, roubalheira, obscurantismo. Sofrerá o Brasil deteriorado, sofrerão investimento, emprego e renda, sofrerão os pobres. De forma particular, estarão esfrangalhados interesses fundamentais da aliança ocidental. Minguarão as luzes das liberdades naturais, direitos populares serão aniquilados, nos distanciaremos de avanços civilizatórios, afundaremos em retrocessos totalitários. É o rumo, basta ver os modelos que atraem os olhares fascinados dos mais relevantes tubixabas petistas: Cuba, Venezuela, China, Rússia.

 

Todos prejudicam? Em termos, alguns ajudam. Se aparecerem, ajudam. Lula perdeu, quando não teve camuflagem forte (1989, 1994, 1998). Ganhou, quando as utilizou (as principais foram José Alencar em 2002 e 2006; Michel Temer em 2010 e 2014, com Dilma, a mais da “Carta ao povo brasileiro”). Sobre tal manobra, comentou o ex-senador Pedro Simon: “"O seu nome [de José Alencar] colocado como vice deu um significado especial. As interrogações, as dúvidas com relação a Lula, desapareceram”. Hoje, cabe em especial a Geraldo Alckmin o papel de José Alencar, dissipando interrogações e dúvidas. Em curto, impedir que o vendaval das desconfianças derrube o arcabouço petista, de fato aterrador, montado para jugular o Brasil. Conseguirá? É cedo para dizer, depende de muitos fatores.

 

O receio da rejeição. De outro modo, rejeição alta impossibilita vitória. Aconteceu recentemente sintoma revelador, sobre ele direi rápidas palavras. Podem apostar, situações parecidas pipocarão daqui a pouco Brasil afora, por meios vários. Alexandre Kalil é pré-candidato a governador de Minas Gerais, chances boas (até agora) de levar. Político de raiz popular, o antigo burgomestre de Belo Horizonte fez sua carreira com base em eficiência, preocupação com medidas sociais, estadeando autoridade, senso prático, franqueza e desembaraço. Pouca ou nenhuma carga ideológica, ou seja, já que não despertava temores, em princípio teria potencial vasto para ampliar eleitorado. Não despertava temores, ponto essencial para crescer eleitoralmente.

 

Água na fervura. De repente, despertou receios. E ele receou a aversão. Agiu rápido. Logo depois do acordo PSD-PT que entregou a vice da chapa de Kalil para o PT e afiançou o apoio irrestrito a Lula na disputa nacional, o ex-alcaide terá visto cumulonimbus no horizonte político. Rápido, abriu guarda-chuvão em apressada entrevista ao jornal “O Globo”, amplamente divulgada, para ele oportuno e necessário fogo de barragem. Com efeito, com o acordo PSD-PT, Alexandre Kalil pela força dos fatos se tornou favorecedor da volta do petismo ao poder nacional. Avaliza e propaga Lula no segundo colégio eleitoral do Brasil Hoje, companheiro de viagem camufla, oculta sua condição deprimente. Sabe bem se ela ficar clara, atrapalha. Contudo, a lógica comezinha comanda a conclusão, virou um dos grandes promotores do retrocesso petista. A mencionada entrevista a “O Globo” é toda orientada pelo saliente desejo de impedir o aumento da rejeição ▬ rejeição alta é derrota certa, ele sabe bem.  Se conseguirá dissolver a desconfiança, são outros quinhentos.

 

Favorecedor da ideologia e programa petistas. A primeira constatação, a recente posição de Kalil favorece ideologia e programa petistas, pois sua aliança facilita a tomada de poder por partido alentado por seita totalitária e coletivista, geradora de exclusão, atraso e pobreza em todos os lugares onde pôde aplicar suas teorias. Compreensivelmente, é o que o experiente político em primeiro lugar procura negar. Esbofeteando a evidência, tenta tirar o estigma da testa. Não quer se associar a disputas ideológicas, precata inutilmente ▬ já está associado, brota necessariamente do cambalacho pactuado. A coisa é lisa, promete Kalil com argumentação tremelicante: “Na vida a gente tem que ter coerência. Eu tenho uma forma de pensar, o Ciro tem a mesma e o Lula também tem. É o lado que pensa e que cuida de gente”. Alexandre Kalil cavalga na argumentação. Em relambório espantoso, procura desesperadamente empilhar razões (desenxabidas e chochas), tentando descolar de si o ferrete, agora inevitável de linha auxiliar do PT: “Eles estão um pouco assustados que o cara que veio da iniciativa privada. Tentam tachar de foice, martelo, comunismo. Esse não é meu papo. Meu papo é cuidar de gente”.

 

Pobre é prejudicado com menos investimento, emprego e renda. O governo petista afugentará investidores; daí, em cascata, menos progresso, menos emprego, menos renda, menos impostos. Prossegue Kalil igualmente nevoento e xacoco, foi o máximo que encontrou para tentar limpar da face os respingos do contubérnio conspurcador: “Eu tive oportunidade, não sou pobre, não ando de ônibus. Tenho caneta, relógio de ouro, tudo isso. Mas no governo eu cuidei de pobre. Quem cuida de pobre é poderoso e rico. Porque não adianta, o pobre nunca vai poder cuidar do pobre, porque não aguenta nem cuidar de si”. Como qualquer um sabe, um gestor, quando no governo, rico ou pobre, pode agir a favor ou contra os interesses dos pobres, não aplica dinheiro seu. À vera, parece desespero de quem foi pego com a boca na botija; procura livrar-se do malfeito de qualquer jeito.

 

Clareza, a solução. A propaganda eleitoral petista, e de seus aliados de ocasião, via de regra companheiros de viagem, só terá êxito quando ambígua e esquiva. Com camuflagem. Se aparecer clara, atrapalha, avisou José Dirceu. A luz do sol é o melhor antisséptico, alhures e aqui. O Brasil reclama e merece clareza.

quarta-feira, 30 de março de 2022

Brados penetrantes de George Soros

 

Brados penetrantes de George Soros

 

Péricles Capanema

 

Figura de posições controvertidas. De pais judeus, George Soros nasceu em Budapeste, 1930. Fugindo da perseguição nazista, a família homiziou-se na Inglaterra. De lá, em 1956, Soros emigrou para os Estados Unidos. Empregou-se no setor bancário e ali fundou em 1973 a Soros Fund Management, estabelecendo-se com rapidez como dos mais destros financistas de Wall Street. Ainda jovem, ficou bilionário. Vem praticando o que qualifica de filantropismo político, além de outras formas de filantropismo. Fundou as “Open Society Foundations” em 1993; são várias as fundações, com frequência uma em cada país, daí o plural (desde 1979 já agia como filantropo político). Canaliza para ela bilhões de dólares e custeia entidades que promovem a “sociedade livre”; à vera, com muita frequência as chamadas causas progressistas. Em 2017, doou 80% de seu patrimônio para a entidade por ele instituída ▬ mais de 32 bilhões de dólares no total, desde o início. Por suas atividades, é figura controvertida e muito combatida, tantas vezes com fundamentos sólidos. Ninguém, contudo, nega a George Soros inteligência privilegiada, autoridade e hábito dos assuntos internacionais. Escreveu recentemente, 11 de março, artigo sobre a guerra da Ucrânia, que ontem me chegou ontem às mãos: “Vladimir Putin and the Risk of World War III” ▬ Vladimir Putin e o risco da 3ª Guerra Mundial. Na matéria manifesta Soros o desejo de que Putin e Xi Jinping sejam depostos para o bem da humanidade. Mas não é sobre isso que pretendo chamar a atenção. Chama atenção outra coisa, o contraste do estado de espírito, profundidade de observação e seriedade de análise de lá e o de cá. Para vantagem deles e tristeza nossa..

 

Advertências que não se ouvem no Brasil e nem até aqui chegam. Convém, de passagem, antes de me reportar ao artigo acima referido, destacar recente pronunciamento de Soros na Hoover Institution, dos mais prestigiados think tanks norte-americanos, 31 de janeiro de 2022: “[Xi Jinping], em vez de deixar o setor privado prosperar, impôs seu próprio ‘sonho chinês’, que pode ser resumido em duas palavras: controle total. Xi Jinping   acredita piamente no comunismo. Mao Tsé-Tung e Lênin são seus ídolos. Na comemoração do 100º aniversário do Partido Comunista Chinês ele usava túnica Mao enquanto o resto vestia terno. Xi, inspirado em Lênin, tem controle total sobre os militares e domina as instituições de repressão e supervisão. Xi Jinping acredita que está pondo de pé sistema de governo superior à democracia liberal”.

 

Circunspecção. Vale como advertência de “insider” de Wall Street, vale ainda mais como sintoma de opinião presente nos círculos frequenta\ados por George Soros. Circunspecção, o olhar vigilante ao redor de si de setores expressivos na mais poderosa nação da Terra.

 

A guerra só começou depois da luz verde chinesa. Agora, o artigo mencionado. Assim George Soros dá o pontapé nicial: “Depois de receber luz verde do presidente chinês XI Jinping, o presidente russo começou sua guerra”. O megacapitalista se dirige em especial aos colegas de Wall Street, acadêmicos e, em geral, figuras de expressão dos Estados Unidos. Garante com certeza, Putin só começou a guerra depois de receber luz verde do dirigente comunista chinês. Sem o “vá em frente” não teria havido guerra.

 

A batuta chinesa. O que leva a supor que o desenvolvimento da guerra de alguma maneira obedece a conveniências políticas do Partido Comunista Chinês. Soros chama a atenção para este ponto: o foco dos analistas deve estar em Xi Jinping. De outra maneira, como a China estará colocada logo após o fim do tsunami provocado pela agressão russa. Circunspecção, de novo.

 

Análise objetiva\, fugir do escapismo. Permito-me chamar a atenção para recente post meu, 20 de março, em que expressava apreensão parecida: “Escapismo. Relaciono agora a matéria com a atualidade mundial. É normal, louvável, indispensável mesmo que, a propósito da agressão russa à Ucrânia, os olhares se voltem para a possibilidade da 3ª Guerra Mundial. Entre muitos males dantescos, poderia ser nuclear, acarretar morte de milhões, talvez bilhões de pessoas, representar o fim da era histórica em que nos encontramos. Contudo, postas as informações que me chegam, não é o mais provável. Vislumbram-se pistas de acomodação e acordo. O que, de momento, parece mais provável e está sendo colocado em segundo plano, pelo menos no material que conheço? Enfraquecida e mais isolada por causa da investida criminosa na Ucrânia, a Rússia está se afastando ainda mais da Europa e dos Estados Unidos e se aproximando ▬ aumento da dependência ▬ da China. O antigo Império do Meio joga parado, fortalece seu cacife e seu jogo. Cada vez mais se coloca em condição de grande “player”. Em tais circunstâncias, constitui escapismo não ficar o olhar em fatores de aumento e consolidação da área de influência chinesa. Ou sino-russa, para o caso, a mesma não faz diferença”.

 

O que se lê e se ouve no Brasil. Apontei circunspecção acima. Mesmo em ambientes progressistas, vislumbram-se olhares apreensivos e lúcidos para aspectos fundamentais de perigos que rondam os Estados Unidos (e o Mundo Livre).

 

Dessiso, leviandade, inconsequência. E mentiras a granel. Tratarei agora, para desgraça nossa, de dessiso, leviandade e inconsequência. O portal UOL, 27 de março, divulgou ampla matéria sobre tema candente no País, o preço da gasolina e do diesel. Título: “Refinaria privatizada tende a vender combustível mais caro, dizem analistas”. Afirma o texto, a gasolina e o diesel, vendidos pela refinaria de Mataripe, responsável por 14% do refino nacional, está quase 30% acima dos preços praticados pela Petrobrás. E que será essa a tendência da privatização do setor, com a lógica do lucro imperando. Numerosas matérias tratam da “refinaria privatizada” e seus preços.

 

Estatização selvagem. Só falta um detalhe: a refinaria de Mataripe (refinaria Randulpho Alves) não foi privatizada, houve ali à veraprocesso de estatização selvagem, retrocesso pavoroso. Ela pertencia antes a uma sociedade de economia mista (Petrobrás), com maioria de capital privado, em torno de 65%, mas com controle estatal, pouco mais de 50% das ações ordinárias com direito a voto pertencem à União. Agora é propriedade de uma empresa inteiramente estatal, o Fundo Mubadala, por inteiro dependente do governo de Abu Dhabi. De forma enganosa a imprensa divulga quer ali houve um processo de privatização e desestatização. O que seria um bom avanço. Um segundo ponto, relacionado com o anterior. A CTG Brasil publicou material propagandístico de página inteira no “Estado de S. Paulo”, 29 de março último. Informa a propaganda da CTG: “Desde que iniciou atividades no Brasil em 2013, a empresa já investiu R$23 bilhões no País. A CTG Brasil é a segunda maior geradora privada de energia do País”. Existe um erro aqui? Sim, informou de forma a enganar. A CTG Brasil não é geradora privada, é estatal chinesa, dirigida pelo governo de Pequim ▬ se quisermos, “longa manus” do Partido Comunista Chinês. No citado diário, impulso de mesma\ direção, 28 de março, consta entrevista do CEO da empresa Azimut Brasil (gestora de ativos). Seu presidente Giuseppe Perrucci, aconselha os investidores brasileiros, na busca de estabilidade e rentabilidade, a investir nas empresas que compõem o índice de Xangai. Por dinheiro nas empresas com ações na bolsa chinesa. Das três empresas em que sugere aplicações, duas, PetroChina e China Life, são estatais. O conselho é esse, então: para obter segura\nça, estabilidade, rentabilidade, compre ações de estatais chinesas.

 

Esfera de influência. Por que trago tais fatos à atenção do leitor? Para que não esqueçamos, o Brasil está realizando um perigoso deslizamento, afasta-se da área ocidental e se afunda no pântano chinês. Não é atitude de homens de bem circunspectos. Revela, no mínimo, falta de siso, leviandade, inconsequência. Rumo contrário ao que foi constato acima, vivo em setores dos Estados Unidos. É um bom exemplo, pode nos afastar de maus caminhos. Ainda há tempo para mudar o rumo. Cada vez mais, irá ficando mais difícil.

 

domingo, 20 de março de 2022

Esperando na borrasca

 

Esperando na borrasca

 

Péricles Capanema

 

Esperança na borrasca. Pequeno fato, espoleta do artigo, a seguir relatado, deu-se no já distante 1964, quando estudava em Belo Horizonte, começo do segundo ano do científico. Lendo o mensário “Catolicismo” (ano XIV, nº 160 ▬ abril de 1964), deparei-me com título que me impressionou de imediato. Nunca o esqueci. “Pensando, criticando, matizando e esperando na borrasca do século XX”. Encimava coluna do professor Plínio Corrêa de Oliveira, análise de fatos da atualidade, que não se perpetuou na publicação, seria uma espécie de sucessora do “7 Dias em Revista” do antigo Legionário. A borrasca era o fato bruto, dele não se escapava. Contudo, no meio dela, nada de desorientação e abatimento, indispensável manter a esperança. Mais ainda, espera ativa, vigorosa, com profícua atividade intelectual: pensando, criticando, matizando. Essencial a matização; não basta empilhar slogans e chavões, repetir frases e pensamentos empacotados. Nos últimos dias a frase esclarecedora voltou quase obsessivamente: pensar, criticar, matizar sobre fatos da atualidade borrascosa.

 

Previsão infelizmente certa. Escrevi em meu artigo “O dia da vergonha”, postado em 17 de fevereiro último: “Viajou com o presidente [para Moscou] um nutrido acompanhamento militar para estabelecer “cooperação técnico-militar”, aliás explicita e sintomaticamente citada no comunicado: “fortalecimento da cooperação e intercâmbio militar”, como uma das metas da viagem. Compra de material militar russo? Técnicos russos assessorando o Exército brasileiro? Na América Latina a Rússia já vende material militar e oferece assessoramento para Nicarágua, Cuba e Venezuela”. Sinal dos tempos, são as novas companhias do Brasil. China, também. Às vezes, Coreia do Norte. Voltamos as costas para Estados Unidos, Alemanha, Austrália, Japão, Inglaterra. Outros mais, do mesmo campo.

 

Brasil – Rússia: cooperação na produção de energia nuclear para os campos civil e militar. Menos de mês após o artigo acima mencionado, informa Igor Gielow na Folha de S. Paulo de 16 de março sobre tratativas de cooperação entre Brasil e Rússia que veem de anos, foram meritoriamente freadas pelo anterior chanceler Ernesto Araújo, contrário ao afastamento em relação aos Estados Unidos, mas que agora caminham celeremente. “A recusa dos Estados Unidos em ajudar o Brasil em seu projeto de submarino nuclear levou o presidente Jair Bolsonaro a pedir apoio de Vladimir Putin, o que foi acertado na sua polêmica viagem de fevereiro a Moscou e agora está em xeque devido à guerra na Ucrânia. [...] Bolsonaro foi convidado e aceitou visitar o Kremlin, quando o russo já era acusado abertamente pelo Ocidente de preparar a invasão da Ucrânia ▬ que aconteceu uma semana depois de o brasileiro deixar a Rússia. [...] Nada foi citado na viagem sobre a questão dos submarinos, mas o ministro das Minas e Energia, almirante da reserva Bento Albuquerque, confirmou que conversou com a estatal russa de energia atômica Rosatom acerca da participação dela na usina de Angra 3, que o governo quer ver finalizada até 2026. Isso seria a face civil do acerto. [Existe, portanto, parte militar nas tratativas]. Bolsonaro, contudo, escorregou. Em encontro com empresários depois da visita a Putin, falou brevemente sobre os temas da viagem e citou interesse na área nuclear "por causa da propulsão do nosso submarino". O Brasil dá as costas para países ocidentais que detêm a tecnologia e se lança nos braços da Rússia. Escolha de campo. É o campo onde, na América Latina, já estão bem enraizadas Cuba, Venezuela, Nicarágua.

 

Reações em Washington. O Brasil tem acordo de 2009 com a França para a propulsão nuclear de submarinos. Está atrasado o cronograma: “O atraso é claro: o submarino que deveria chegar ao mar em 2025 não o fará antes do fim da próxima década. Isso se o fizer, dadas as implicações geopolíticas subjacentes não só ao namoro com os russos. As resistências americanas são perceptíveis”. De outro modo, os Estados Unidos observam com evidente, compreensível e justificado desagrado o escandaloso namoro do Brasil com a Rússia. Namoro, decorrência necessária, manifestado em praticamente todas as votações do Brasil em órgãos internacionais de importância a propósito da crise ucraniana. De um lado, tem sido o normal, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra, Japão, Austrália etc. Do outro, China, Brasil, Rússia, Belarus etc. Situação, aliás, constatada com satisfação por Sergey Lavrov, ministro das Relações Exteriores da Rússia: “Há atores que nunca aceitariam uma aldeia global com um xerife americano. China, Índia, Brasil, Argentina, México. Tenho certeza de que esses países não querem estar em uma posição em que o Tio Sam lhes ordene fazer algo e eles digam 'Sim, senhor'”. Em resumo, é o fato borrascoso, o Brasil tem manifestado subserviência em relação aos objetivos da diplomacia russa e, ao mesmo tempo, age com frieza e distanciamento em relação a Washington, Londres, Berlim, Viena, Roma. Tóquio. Para horror e vergonha do Brasil que presta.

 

Migração para nova área de influência. A sinalização prenunciativa é de migração para nova área de influência, com abandono trágico da área de influência dos Estados Unidos. É congruente, já pipoca no noticiário a subserviência em relação a Pequim e Moscou, sonho da diplomacia petista. Se Lula ganhar as próximas eleições presidenciais, tal processo será acelerado, ninguém duvida. Se Bolsonaro ganhar, entre as forças que terão contribuído para a vitória eleitoral, haverá setores ponderáveis que, embora fazendo parte da coligação vitoriosa, abominam a migração, propugnam pela continuidade do Brasil na área ocidental. Serão freio para impulso demolidor. Estamos em meio de borrasca violenta. Mantenhamos esperança, olhos abertos, discernimento, visão panorâmica; hora de vigília, pensar, criticar, matizar. Daí poderá vir a vitória.

 

Malhando em ferro frio

 

Malhando em ferro frio

 

Péricles Capanema

 

Voz que clama no deserto. Pensei em outros títulos: por exemplo, perdendo tempo ou voz que clama no deserto. Claro, emprego “voz que clama no deserto” no sentido moderno, falar debalde, gritar para quem não quer escutar, argumentar inutilmente. É que escritos meus a respeito podem semelhar realejo, tocariam ramerrão enfadonho já há uns dez anos. Resultados? Nulos, ou quase tanto, é o que aparenta. De passagem, já se vê, o significado da expressão passa longe do que ensinam os exegetas sobre o texto de Isaias, que ecoou nos Evangelhos. Encarando a mesma matéria sob outro ângulo, imaginei ainda “escapismo” por título. Seria aviso. Fiquei, por fim, no que acima encima o texto.

 

A necessária repetição. Resultados a bem dizer nulos? Salta incoercível a pergunta: para que continuar na trilha já bem batida? Valerá a pena? Adianta, convicção minha. Não importa o clamor sem eco aparente, o certo é prosseguir ▬ e assim progredir; agir diferente é retrocesso. Ainda que que poucos a ele agora deem ouvidos, a semente está colocada debaixo da terra, tem condições de frutificar, e dessa forma poderia ser obstáculo a tragédia grave, lesiva à independência e prosperidade nacionais, que assoma no horizonte.

 

Rejeição pelo oxigênio e atração pelo tóxico. Em duas palavras, dela tratarei abaixo, temos o Brasil se distanciando de área de influência de linhas gerais saudáveis e se precipitando em outra intensamente tóxica. Perspectiva apocalíptica, persuasão de anos. Sob o título “voz que clama no deserto”, postei dois artigos, um em 19 de dezembro de 2017, outro em 22 de janeiro de 2019. E ainda quase dois anos antes, “Clamando no deserto”, 18 de fevereiro de 2016, que remetia ao anterior “O Brasil servo”, de 10 de janeiro de 2016, mais de seis anos atrás. Avisos.

 

O Brasil servo. Aliás, é para este ignominioso estado, a servidão, normalmente processo de décadas, que desgraçadamente vamos sendo arrastados pelo menos desde o governo FHC. Bastaria recordar o fortalecimento rápido dos laços comerciais com a China comunista (com a inevitável interdependência e dependência daí resultantes), levada adiante com concomitante subestima da necessidade premente de, pelo menos, ao mesmo tempo, revigorar relações de igual natureza com Estados Unidos, União Europeia, Japão, Austrália. De momento, o Brasil, em especial seus setores produtivos, pensa duas vezes antes de tomar qualquer posição que possa desagradar a China. O impacto econômico interno poderia ser enorme, imediato e desastroso. Taís ponderações são compreensíveis, lógicas, limitantes; mal direcionadas, têm potencial perigoso. De outro modo, tal impulso, se ganhar velocidade, situação claramente concebível, conjugado a outros fatores, que também pesarão mais ao longo dos anos, farão o Brasil reagir à maneira de protetorado (inconfessado, talvez, mas real) possivelmente da China, quem sabe igualmente da Rússia ▬, caso o rumo, felizmente ainda tateante não for energicamente interrompido, minha obstinada esperança. Concluo o parágrafo puxando Nelson Rodrigues para minha sardinha: “O que é escrito ou falado uma única vez permanece rigorosamente inédito”. E ainda recordando Napoleão Bonaparte: “A repetição é a mais forte das figuras da retórica”.

 

Entre nós, gigante estatal de país comunista é empresa privada. Embuste deste naipe só tem vida no Brasil. Enumero a seguir outro fator de dependência. O Estadão de 10 de março de 2022, caderno Negócios, estampa a notícia “Chinesa CTG vai instalar eletropostos entre SP e MS”, texto de Cleide Silva. Começa assim: “Segunda maior geradora privada do País, a China Three Gorges (CTG), que hoje tem investimentos em hidrelétricas e parques eólicos, vai expandir seus negócios”. Informa que a companhia irá instalar 18 pontos de recarga elétrica em trajeto de 1,8 mil quilômetros que liga São Paulo a Mato Grosso do Sul. Explica ainda, a gigantesca firma chinesa (CTG) chegou ao país em 2013 e hoje tem investimentos em 17 hidrelétricas (das quais opera 14) e é sócia em 14 parques eólicos. Entrará igualmente no ramo da energia solar. A propósito, o Brasil tem hoje 1.250 postos de recarga e aproximadamente 80 mil veículos movidos a energia elétrica, mercado em rapidíssima expansão. A CTG atua em 47 países, o Brasil é o mais importante mercado para o grupo estatal fora da China. E o que aqui relato faz parte de quadro maior, porcentagem grande da infraestrutura brasileira caiu nas mãos de estatais estrangeiras, em especial da China. A situação pode piorar. É ameaça séria, mesmo que de momento latente, à soberania nacional.

 

Logros empilhados. País de engazopados. Onde malho em ferro frio? Ou clamo no deserto? Está claro na primeira frase da notícia: “Segunda maior geradora privada no País”. Geradora privada, permitam-me, é mentira repetida há anos pela imprensa. Não é geradora privada, é estatal chinesa. Tal patranha a propalam repetida e continuadamente os meios de divulgação. Dir-se-ia, no particular, o brasileiro não tem direito à verdade ▬ contudo, óbvio ululante. Aventar o assunto é, tudo o indica, malhar em ferro frio. Matéria conexa, silêncio preocupante sobre a provável nova configuração das zonas de influência. Tratar do caso, igualmente, malhar em ferro frio.

 

Descaso suicida. Este é o clima psicológico ▬ desleixo, imprevidência e indiferença com temas centrais ao bem comum ▬ que cria o caldo de cultura propício para um país decair da condição de soberano para a de protetorado. Um dos componentes de tal atmosfera é total desatenção para a entrega parcial, mas altamente significativa, da infraestrutura nacional a empresas estatais de países comunistas. A revista “Exame” (11/10/2016), pertencente a grupo diverso do controlador do Estadão, anunciou: “Em apenas três anos, a elétrica China Three Gorges Corporation (CTG) se transformou na maior geradora privada do Brasil. O último lance para a conquista da posição foi anunciado na segunda-feira, 10, com a compra dos ativos brasileiros da americana Duke Energy, em operação no País desde 1999, quando o setor elétrico estava sendo privatizado.” A Duke Energy, empresa privada norte-americana, foi comprada pela CTG, estatal chinesa ▬ providência característica e reveladora do programa brasileiro de desestatização e privatização. Em suma, a direção anterior, um grupo de acionistas privados, foi substituída por burocratas a mando do Partido Comunista Chinês. Autêntica privatização à brasileira.

 

Escapismo. Relaciono agora a matéria com a atualidade mundial. É normal, louvável, indispensável mesmo que, a propósito da agressão russa à Ucrânia, os olhares se voltem para a possibilidade da 3ª Guerra Mundial. Entre muitos males dantescos, poderia ser nuclear, acarretar morte de milhões, talvez bilhões de pessoas, representar o fim da era histórica em que nos encontramos. Contudo, postas as informações que me chegam, não é o mais provável. Vislumbram-se pistas de acomodação e acordo. O que, de momento, parece mais provável e está sendo colocado em segundo plano, pelo menos no material que conheço? Enfraquecida e mais isolada por causa da investida criminosa na Ucrânia, a Rússia está se afastando ainda mais da Europa e dos Estados Unidos e se aproximando ▬ aumento da dependência ▬ da China. O antigo Império do Meio joga parado, fortalece seu cacife e seu jogo. Cada vez mais se coloca em condição de grande “player”. Em tais circunstâncias, constitui escapismo não ficar o olhar em fatores de aumento e consolidação da área de influência chinesa. Ou sinorrussa, para o caso, a mesma coisa.

 

(1) O sentimento isolacionista nos Estados Unidos. Está forte? Declinou? Segundo pesquisa do USSC (United States Studies Centre), dezembro de 2021, o sentimento isolacionista cresceu em relação à pesquisa anterior entre eleitores democratas e republicanos. Não é boa notícia. Pois da noção viva no público de lá da responsabilidade natural que a Providência e a História colocaram nos ombros dos Estados Unidos vai depender, provavelmente de forma decisiva, as posições dos políticos no Executivo e no Legislativo, o que condicionará a efetividade da reação do Ocidente. Em consequência, a amplitude e a eficácia da zona de influência dos Estados Unidos (aqui incluo, entre outros, União Europeia, Japão, Coreia do Sul, Austrália, Canadá).

 

(2) América Latina desliza. Há uma nova Guerra Fria em formação e, compete-nos em especial perceber que a América Latina emite fortes sintomas de deslize trágico rumo à zona de influência chinesa. O distanciamento em relação aos Estados Unidos e à União Europeia de vários de seus países no caso da Ucrânia, a mais das sequelas, aponta rumos. Sem falar (3) na entrega de setores importantes da infraestrutura (o problema não é só brasileiro) para estatais chinesas, de outro modo, para a direção política do governo da China comunista.

 

Evasão. Não parece saudável apontar a gravíssima ameaça de conflito maior, mas permanecer desatento para o crescimento de perigo mais provável e mais próximo, o escorregão progressivo da América Latina (e aqui incluo o Brasil) rumo à China. Ampliemos o quadro, existe perigo batendo à porta. Malhar sempre, mesmo que seja (ou pareça ser) em ferro frio.