quarta-feira, 29 de julho de 2026

A Escola de Frankfurt: mitos e realidade em olhar retrospetivo

 

A Escola de Frankfurt: mitos e realidade em olhar retrospectivo

 

Péricles Capanema

 

Toxinas duradouras

 

Em 14 de março último faleceu Jürgen Habermas (1929-2026), em nossos dias principal figura da Escola de Frankfurt (2ª geração). Anos antes, 12 de janeiro de 2020, falecera sir Roger Vernon Scruton (1944-2020), renomado scholar inglês, autor de pertinentes críticas, amplamente divulgadas, à referida escola. Dos dois, não tratarei, fogem deste foco. A eles aludi apenas para dirigir a atenção dos leitores para corrente de ideias que não morreu, repercute a todo momento, embebe ambientes e, à vera, está muito viva e intoxica o mundo inteiro. Viva, note-se, mormente em seus rebentos. O assunto do artigo é a Escola de Frankfurt, aventado embora de forma sintética. Reitero, porém, é a matéria, ainda que por vezes envolta em mitos, de enorme importância. Já de há muito, décadas, as doutrinas de contestação e análises da sociedade atual que ali tiveram nascedouro estão na raiz de grande parte do labor de desmanche do que chamamos civilização ocidental, realizado sobretudo pelas correntes de esquerda e por setores chamados progressistas, mesmo quando atacam o progresso. De fato, regressistas.

 

Rebentos peçonhentos

 

Com efeito, os fármacos dos laboratórios frankfurtianos constituíram ingredientes essenciais do arcabouço doutrinário de correntes de opinião que depois se espalharam mundo afora, ▬ com frequência se diluindo para facilitar a difusão ▬, sempre carregadas de toxinas mortíferas, moldando personalidades e instituições. No meio da investida generalizada, entre tais movimentos de desagregação, destaco aqui a contracultura, a revolta estudantil, principalmente a dos anos 60, os ataques ao capitalismo, a agenda LGBT. Ainda se poderiam lembrar a recusa da família monogâmica, da sociedade patriarcal, dos hábitos culturais prevalentes no Ocidente, campanhas contra a chamada discriminação de gênero, favoráveis a comportamentos libertários, à família plural, ao poliamor. Tanta coisa mais haveria para colocar, o ataque é multifacético. Releva deixar dito, de passagem, por vezes tais correntes se aproveitam de vícios reais, que devem ser combatidos, para alardear propostas corrosivas.

 

“Um fantasma ronda a Europa, o fantasma do comunismo”

 

Adiante. A Escola de Frankfurt é, para muitos, avantesma parecido com o fantasma brandido por Karl Marx e Friedrich Engels no Manifesto Comunista de 1848: “um fantasma ronda a Europa, o fantasma do comunismo”. O comunismo não foi apenas fantasma aterrorizador; foi e é flagelo pavoroso. A Escola de Frankfurt não é apenas fantasma aterrador; foi e é flagelo destrutor de enorme expansão, em especial no campo das concepções, dos costumes e da consciência revolucionária, minadouro de torrentes hoje intituladas em geral de “marxismo cultural”. Anos atrás, era apodada comumente de marxismo ocidental. Algumas palavras, pingos históricos, para leitores que talvez dela nunca tenham conhecido senão fiapos ou até nada tenham escutado.

 

Uma comparação pode lançar luz. Os fenômenos da estratosfera, ainda que despercebidos da maioria, regulam o clima. A Escola de Frankfurt foi fenômeno sobretudo de estratosfera. Na troposfera, onde ocorre o turbilhão dos fatos, o olhar desatento usualmente exclui referida corrente de ideias de sua atenção. Contudo, a mirada percuciente perceberia suas causas nas ocorrências da troposfera. Sob outra luz, por sua doutrina e análises,  a Escola de Frankfurt não criou diretamente os movimentos sociais revolucionários mais em evidência, mas forneceu o arcabouço filosófico e sociológico que fundamenta sua ação.

 

Empurrando de lado o folhetinesco

 

Desconsidero, convém notar, para avaliar a importância do “fenômeno Frankfurt”, o que tantas vezes em literatura folhetinesca se tacha com o rótulo vago de teorias da conspiração. No rumo oposto, considero a enorme lida doutrinária e de análise sociológica produzido pelas penas dos corifeus de tal escola ▬ produção e oferta regidas pelas leis da vida intelectual ▬ que encontraram eco ao longo dos anos sobretudo nas universidades, partidos políticos, sindicatos, igrejas, em dezenas de milhões de espíritos ávidos de justificação para sua ação revolucionária ▬ demanda e consumidores. Reitero, eles consumiram (colocaram em miúdos, esclareceram, adaptaram, ampliaram, divulgaram) o material intelectual que vinha dos formuladores doutrinários da escola de Frankfurt. Outro ponto a notar é que de há muito a ação das correntes revolucionárias, em boa medida, mesmo com doutrina ainda articulada insuficientemente, já era consonante com as doutrinas explicitadas e postas em evidência no século 20 por frankfurtianos. O papel delas em parte foi tornar claro, fundamentado, notório e inquestionável o rumo que deveria ser tomado. Apenas, como exemplo, vários movimentos das correntes apodadas pelos marxistas de socialismo utópico já agiam amplamente de acordo com elas, ainda que não as pudessem formular.

 

Pedras no caminho

 

Em 1917, Lenine tomou o poder na Rússia e, inspirado no marxismo, iniciou a implantação do comunismo em área de mais de 22 milhões de quilômetros quadrados, onde viviam cerca de 170 milhões de pessoas. Fulgiam imensas a oportunidade e a esperança revolucionárias. Recordando a utopia coletivista da época, ali começava a era dos “amanhãs que cantam”. Imaginava boa parte dos revolucionários, quem sabe a maioria, os amanhãs que cantam constituiriam propaganda irresistível para o socialismo. E assim, para amplos círculos de esquerda política e de setores progressistas, vitórias esmagadoras pairavam iminentes.

 

Operariado reticente, prognósticos falsos

 

Contudo, já no começo da caminhada padeceram dificuldades enormes. Evoco algumas: com ares de perene se petrificava ditadura feroz na Rússia, caía o nível de vida do operariado russo e, mais próximo e mais lacerante, nos países ocidentais o operariado não votava majoritariamente no comunismo. Contingentes enormes da classe operária lhe tinham repulsa. Em sentido contrário, os partidos burgueses, no geral, carreavam a maioria dos votos dos trabalhadores. A mais, revelavam-se falsos os prognósticos do marxismo. Repasso alguns: não havia revolta notável no proletariado, os salários subiam, a classe média aumentava, a propriedade se disseminava. No horizonte, não aparecia no panorama o mítico sujeito revolucionário, o operariado cada vez mais explorado, cada vez mais revoltado. De outro modo, o marxismo se revelava instrumento errôneo para análise da realidade. Era incoercível, nas hostes revolucionárias, aos milhões, começavam a grassar desconcerto e incompreensão, lavravam sintomas reveladores de desagregação, não raro o desânimo. Qual a razão da recusa maciça e das falhas da doutrina? Ou quais as razões? A Escola de Frankfurt as buscou. E Gramsci também.

 

Fundo de bom senso natural, patrimônio milenar

 

Tal situação de recusa, aliás, persistiu e até se agravou em muitos casos. Em 1965, o prof. Plinio Corrêa de Oliveira observou em seu ensaio “Baldeação ideológica inadvertida e Diálogo: “Há cem anos – em números redondos – vem o comunismo pregando às populações operárias do mundo inteiro a revolução social, o morticínio e a pilhagem. Para essa pregação, dispôs ele quase continuamente, ao longo desse século, de inteira liberdade de pensamento e de ação, em quase todos os países. Tampouco lhe faltaram recursos financeiros imensos, bem como especialistas e técnicos dos melhores, em matéria de propaganda. A despeito de tudo isso, as multidões se têm manifestado, em sua grande maioria, pouco sensíveis aos acenos – que tão facilmente as poderiam fascinar – da demagogia marxista. Em nenhum país o comunismo logrou jamais a conquista do poder por eleições honestas. A causa desta insensibilidade está em parte no fato de que em muitos lugares se melhorou consideravelmente a situação das classes necessitadas. Mas é preciso não exagerar o alcance ideológico de melhorias tais: em algumas regiões, como o Norte da Itália, por exemplo, em que as condições do operariado não cessaram de progredir depois da segunda guerra mundial, o comunismo alcançou desconcertantes êxitos eleitorais. A causa da insanável inviabilidade da vitória comunista através das urnas está também, em alguma medida, na resistência que ao marxismo opõe o fundo de bom senso natural que constitui o patrimônio milenar e comum da humanidade. Este bom senso se choca com o caráter essencialmente antinatural que se mostra em todos os aspectos do comunismo. Nos povos de civilização cristã, a esse fator se acrescenta a incompatibilidade do espírito, da doutrina e dos métodos marxistas com o espírito, a doutrina e os métodos da Igreja. Da conjunção destes obstáculos é que decorreu o fato inconteste e imensamente significativo de que – repetimos – em cem anos de existência e ação, nenhum partido comunista tenha logrado tornar-se majoritário em qualquer país. Sobre este fato jamais será suficiente insistir, se quisermos ver em sua real perspectiva os obstáculos que o comunismo tem por frente.”

 

Hegemonia cultural esteada no bom senso

 

O tema requer ampliação de horizontes, a saber, inclusão do pensamento de Antônio Gramsci (1891-1937), dirigente do Partido Comunista Italiano. Gramsci não teve relação pessoal com integrantes da Escola de Frankfurt, mas o mesmo quadro de fundo os preocupava. Deveras, o problema não atazanava apenas intelectuais marxistas alemães, era universal. Gramsci, por anos, encarcerado, em cerca de trinta cadernos, anotou observações, reflexões, doutrina, material depois compilado em obra póstuma, os “Cadernos do Cárcere” (1ª edição entre 1948 e 1951). O problema que ele queria ver resolvido tinha um centro: o povo, mesmo o mais modesto operariado, não adere ao comunismo, apesar de todas as promessas. Por quê? Por causa do sentido comum, sintetizou Gramsci. Sentido comum em Gramsci tem significado próximo do nosso bom senso. Mas vai além. Inclui o que ele chama cultura. Gramsci para tal cunhou a expressão “hegemonia cultural”. As classes dominantes, jargão dele, detêm normalmente a hegemonia cultural. A população considera normais (constituem parte do seu sentido comum) instituições, valores e hábitos que cimentam a ordem vigente. Ordem vigente, no caso analisado por Gramsci, a Itália, era constituída pelos ecos ainda muito audíveis da ordem temporal cristã. Enquanto persistisse aquela hegemonia cultural, seriam instáveis e enganosos os triunfos de ordem política ▬ vencer eleições e tomar governos. O triunfo efetivo do comunismo só viria com a criação de outra “hegemonia cultural”, alcançada mediante a “guerra de posição”, desencadeada contra a então cultura dominante, com a concomitante articulação de um bloco hegemônico, labuta de décadas, talvez de mais de século.

 

Longa Marcha através das instituições

 

Ecoando a nomeada da Longa Marcha dos comunistas chineses (1934-1935), o líder universitário Rudi Dutschke (1940-1979), principal figura das revoltas estudantis nos anos 60 na Alemanha, cunhou em 1967 a frase “der lange Marsch durch die Institutionen” ▬ (a Longa Marcha através das instituições) ▬ para indicar a nova tática comunista (gramsciana, é verdade) de conquista gradual das mentalidades, da sociedade civil e do poder. Mais que a tática leninista da conquista violenta do Estado, geradora da ditadura soviética, propunha Dutschke a revolução cultural lenta, mediante a ocupação paulatina dos meios de divulgação, academia, órgãos públicos, modificações no interior das famílias etc. A conquista política chegaria depois, seria estável, e em consequência da ação anterior.

 

Ofensiva em cinco frentes

 

Para conseguir mudar a cultura (de fato, em nossa linguagem, melhor, a civilização; estruturas, valores, princípios, hábitos que esteiam e embebem uma ordem temporal), Gramsci indicou a necessidade de agir em cinco frentes em sua “guerra de posição”. De outro modo, em vez de um assalto frontal e violento ao Estado (“guerra de movimento”), ocupação gradual das instituições da sociedade civil:

 

1ª) Meios de divulgação. Jornais, revistas, rádio e livros que formam a opinião pública e moldam o senso comum. Hoje seria preciso incluir TV e redes sociais. Em resumo, embebê-los de pessoal revolucionário e, com linguagem revolucionária, torná-los veículos de formação, propaganda e intimidação.

2ª) Igreja. Gramsci analisava a Itália, referia-se especificamente à Igreja Católica. Tem grande capilaridade a Igreja, vai até a ponta da sociedade, unifica visões de mundo (Weltanschauung), forma valores morais, orienta o comportamento. O Clero, religiosos, teólogos, professores das instituições educativas católicas precisavam ser propagadores da nova hegemonia cultural. Contudo, combatidos, silenciados, no caso de constituírem obstáculos a ela.

3ª) Academia e Escola. São os locais de formação dos intelectuais, propagam ideologias, desenvolvem consciência crítica. Para o pensador italiano, os intelectuais organizam a cultura e a sociedade. Constroem a hegemonia ▬ de ideias, moral, política. Sem eles, não é factível a hegemonia cultural, nem o bloco hegemônico.

4ª) Família. Base primária, é o espaço inicial de socialização e coerção, molda condutas, transmite valores, as primeiras e mais fundamentais noções de autoridade, comportamento e visão do mundo. Normaliza o modo de vida e a disciplina social vigentes. Tem aqui sua raiz o senso comum.

5ª) Partidos políticos e sindicatos. Formam, coordenam, formulam projetos. O partido político na Itália tinha funções de agregação, formação e ação. Era o “intelectual coletivo”, organizaria a vontade das classes subalternas, trabalharia pela hegemonia, rumo à mudança na sociedade.

 

Pela ação contínua no interior de tais grupos se formaria, com base popular crescentemente estável, o consenso revolucionário, atingir-se-ia, por fim, a hegemonia cultural, da que derivaria o bloco hegemônico. Em duas palavras, acima, linhas gerais da doutrina e práxis gramscianas. Eram necessárias para bem colocar o foco nas doutrinas da Escola de Frankfurt.

 

Esboroamento na doutrina e nos fatos

 

Na origem, dificuldades graves, já em parte acima relatadas, formaram o caldo de cultura dentro do qual germinou a referida escola. Assombrava o fato bruto, percebido por todos: no “socialismo real” (a Rússia soviética) inexistiam amanhãs que cantam, mas apareciam cada vez mais amanhãs que urravam de opressão, fome, dor e desespero. E no Ocidente, o operariado não aderia ao comunismo, nem se esforçava pela revolução social. Sua ambição generalizada, percebida com facilidade, pelo contrário, era melhorar de vida, imitar no possível o estilo de vida burguês. Estava notório, a doutrina tinha furos. De outro ângulo, aos olhos de muitas correntes imbuídas de comunismo se apagava a credibilidade da utopia marxista.

 

Busca da solução

 

Como sair da enrascada? Trato aqui de Frankfurt, atalho entre vários tentados, de fato, o mais relevante. Outras tentativas existiram, em geral, caminhos empedrados de fracassos. Como disse, estão fora do âmbito do presente afã.

 

Alicerces

 

Em 1923, o acadêmico Félix Weil, jovem marxista milionário, doou os recursos necessários para a fundação do “Institut für Sozialforschung” [Instituto de Pesquisa Social], que deu corpo definido a um grupo destacado de intelectuais marxistas, depois conhecido como a Escola de Frankfurt. O nome preferido inicialmente foi “Instituto de Pesquisas Marxistas”, logo abandonado; o primeiro diretor escolhido foi György Lukács (1885-1971), intelectual marxista húngaro, considerado precursor da Escola de Frankfurt. Natural o nome: o instituto, ligado à universidade de Frankfurt, funcionava nesta cidade; tinha ali um edifício de sete andares. Com a ascensão do nazismo, seus líderes (a maioria de ascendência judaica) fugiram da Alemanha e se estabeleceram em especial nos Estados Unidos. O instituto foi transferido em 1934 para Nova York, ligou-se à Universidade de Colúmbia e só voltou para a Alemanha em 1950. Herbert Marcuse permaneceu na Califórnia.

 

Radicalismos novos

 

Foram anos de lida, publicações, congressos. No curto, a solução revolucionaria foi encontrada aos poucos e teve seu rumo, caracterizado por (i) radicalizar a proposta revolucionária em vigor [o marxismo leninismo que fracassava]; (ii) aprofundar a dissolução até o interior da família [caldo de cultura e nascedouro da sociedade hierárquica]; (iii) e ainda do próprio homem [p. ex., personalidades intituladas de autoritárias e com vincos que perenizavam a ordem antiga], sem a qual repetiriam fracassos evidentes; bem como (iv) apontar adversários novos, até então despercebidos; (v) ademais de deixar de lado velharias estorvantes; (vi) e, finalmente, admitir táticas graduais, de onde poderia vir o triunfo.

 

“Ni dieu, ni maître”

 

“Nem deus, nem senhor” ou “Nenhum deus, nenhum senhor”. Esta conhecida divisa anarquista e socialista do século 19, proclamando desafiante a rejeição de quaisquer autoridades, divina, política, social ou patronal, poderia ter sido lema adequado da Escola de Frankfurt. Em relação ao programa do século 19, a difusão de seu pensamento o aprofunda em dois pontos: o esboroamento da autoridade familiar (com o ataque à formação da chamada personalidade autoritária) e ainda a denúncia da prevalência da razão (ênfase na instrumental) reprimindo emoções e instintos no interior das personalidades (amálgama da psicanálise como divulgada pela referida escola e do freudismo com o ideário marxista).

 

Extinguir a dominação, generalizar a emancipação

 

De verdade, a tarefa levada a cabo pela Escola de Frankfurt, simplificando, resume-se a duas: extinção da dominação e promoção da emancipação. Dominação se relaciona com domínio, com senhorio, com senhor (dominus). Em todas as esferas, o mal causado pelo senhorio precisaria ser erradicado. A dominação acabará com a generalização da emancipação (ou desalienação). A etimologia de emancipar também esclarece muito. Emancipare (latim) junta o prefixo ex (fora, afastamento) com mancipium (ato de tomar posse, agarrar); por sua vez este junta manus (mão) e capere (pegar, capturar). Alienare significa entregar a outro Numa palavra, é o programa para livrar-se da ascendência do outro, qualquer deles, Deus, pai, mãe, patrão, razão.

 

Corifeus

 

Enumero a seguir alguns de seus mais conhecidos corifeus. Max Horkheimer (1895-1973), criador da Teoria Crítica, corpo doutrinário central nas concepções da Escola de Frankfurt, exposta no livro “Dialektik der Aufklärung (Dialética do Iluminismo). Dominação e emancipação são os conceitos vetores na Teoria Crítica. A razão no iluminismo teria se tornado instrumento de dominação, degenerou-se, passou a tratar a natureza e o homem como objetos de exploração, gerando uma nova forma de servidão e alienação. Foca a denúncia no que qualifica de razão instrumental, orientada para o cálculo, utilidade e eficácia. A ciência e a técnica passam a ser instrumentos de escravização, úteis para dominar a natureza e outros seres humanos. Theodor Adorno (1903-1969). Com a “Crítica do Iluminismo”, escrita em conjunto com Horkheimer, também procurou derruir a crença na primazia acrítica da razão, considerada instrumento de dominação. A Revolução Francesa colocou uma mulher, escassamente vestida, representando a deusa Razão na catedral de Notre-Dame. Era símbolo da posição revolucionária no ápice na época, a razão humana, finalmente libertada de preconceitos, deveria ser adorada. Inauguraria época ade felicidade, liberdade e progresso. Sobre tal base mítica se edificou o século 19, grande parte do 20. Até hoje sobe tais pressupostos se edifica largamente a estrutura da presente civilização. As doutrinas de Adorno (e de Horkheimer) derrubavam tal divindade, vista como opressora, fator de dominação, obstáculo à igualdade. Antônio Gramsci não levou seu extremismo revolucionário ao ponto de atacar a primazia da razão como ordenadora da conduta humana. Neste ponto, e em vários outros, foi homem do Iluminismo. Walter Benjamin (1892-1940). Abre caminho para a arte revolucionária, distanciada e contestatária de seus conceitos clássicos. Contestou a ideologia do progresso “incoerente, imprecisa”. Via o nazismo como expressão patológica do Iluminismo, da modernidade civilizada. Benjamin suicidou-se quando fugia do nazismo, pouco antes de atravessar a fronteira francesa. Erich Fromm (1900-1980), psicanalista, denunciou as regras morais como opressoras, causa de neuroses, propugnava a vida e a sociedade libertárias. Foi um integrante do grupo de Frankfurt que procurou unir marxismo e psicanálise, criando o chamado freudo-marxismo e a psicologia social analítica. A estrutura econômica da sociedade moldaria desejos e comportamento. O indivíduo internalizaria (aspiraria) tal realidade, da qual precisaria se emancipar. No mesmo rumo de Fromm, convém lembrar, entre outros, Wilhelm Reich (1897-1957) e Otto Fenichel (1897-1946). Herbert Marcuse (1898-1981), por muitos anos o mais célebre dos membros da Escola de Frankfurt, por ser considerado o guru dos movimentos estudantis libertários na Califórnia nos anos 60, sobretudo em Berkley, e do maio de 68 francês ▬ diga-se de passagem, não apenas francês, nem só californiano, foi universal a contestação libertária, de raiz anarquista.

 

Novos sujeitos revolucionários

 

As concepções de Herbert Marcuse tiveram repercussão mundial. Entre elas, uma embebeu a bem dizer toda a esquerda e o progressismo. Marcuse afirmava, nos maiores países capitalistas a classe operária tinha perdido seu potencial revolucionário. Buscava o bem-estar próprio, não era o “sujeito” da revolução, concebido em teoria. Os novos “sujeitos” estavam alhures; eram os grupos marginalizados e periféricos que sofriam com o sistema vigente, estudantes radicais, minorias raciais, imigrantes, movimentos feministas e contraculturais, negros, índios, inimigos da família tradicional, grupos favoráveis ao fim da repressão dos desejos sexuais. Hoje se acrescentariam outros, como o “Sul Global”, os adversários de Israel; enfim, quaisquer pessoas ou grupos que contestam o Ocidente, seus esteios, em particular o sistema capitalista e os Estados Unidos. São os novos “sujeitos” da revolução. O conjunto de tais movimentos formaria o que Marcuse chamava “A Grande Recusa”, negação inteira dos valores da então ordem prevalente. A transformação não viria maiormente de fenômenos econômicos, mas de oposição cultural, moral e de vida aos fundamentos da civilização ocidental.

 

Além do marxismo

 

A Escola de Frankfurt, com contribuições de Horkheimer, Adorno, Benjamin, Fromm, Reich (inalou o mesmo ambiente de marxismo contestatório) uniu ateísmo, marxismo, freudismo, psicanálise, radicalizou-os, dando origem a um corpo doutrinário que serviu de base, já a partir dos anos 30, para todo o movimento contestatário da civilização ocidental. E assim, junto com o gramcismo, suas concepções fizeram parte do arcabouço doutrinário da maior parte da esquerda política e correntes ditas progressistas sobretudo a partir dos anos 50. Expandiu-se, influenciou pensadores em diversos países, caminhou junto com eles, como por exemplo Foucault e Derrida, investindo contra a modernidade, nascida do Iluminismo, as intituladas várias formas de dominação, inclusive a da razão. Estamos diante de corpo de doutrinas articulado que, sem muitas vezes o confessar abertamente, nega os fundamentos do marxismo. Abreviando, amplia o campo de análise, recusa, em suma, suas distinções estáticas e rígidas, seu caráter mecanista e determinista, que amputa largas faixas da realidade. O uso consagrou, contudo, expressões como marxismo ocidental, marxismo cultural, marxismo freudiano. Terão vida longa. Vejamos. Recordando, o fundamento filosófico do marxismo é o materialismo dialético ▬ nada existe além da matéria. A matéria está em constante mutação, impulsionada por contradições internas. São forças opostas em conflito, forças de afirmação (tese), oposição (antítese) e superação (síntese), que incorpora os estágios anteriores. Mudanças graduais e quantitativas se acumulam e, em certo momento, geram mudança qualitativa. Em síntese, é isso. São postulados apriorísticos, sem provas de qualquer natureza. Quando o método é aplicado ao estudo da sociedade e da história, gera o materialismo histórico. O movimento rumo ao igualitarismo da sociedade comunista (objetivo) é determinado pela luta que decorre dos meios de produção e seus instrumentos de produção que dão origem às relações de produção. Constituem a infraestrutura, a base econômica da sociedade, que determina e molda a superestrutura. Esta, ideologia, leis, religião, cultura, instituições jurídicas, legitima e mantém o poder da classe que domina os meios de produção. São também apriorismos, não explicam as forças que agem no interior do homem, da sociedade e do Estado. Gramsci e a Escola de Frankfurt, no bruto, como dito, ampliaram o quadro, reintroduziram temas, que aliás em boa medida já eram estudados nos ambientes da esquerda (p. ex. nas várias correntes do chamado socialismo utópico). Apresentaram ao mundo um conjunto ideológico novo (ou pelo menos em alguns casos com roupagem nova), enormemente destrutivo, que ao mostrar objetivos de maneira explicada e fundamentada, amalgamaram e enrijeceram correntes revolucionárias, tornando ainda mais letal (dissolvente, se quisermos) sua ação. A propósito, Jurgen Habermas, em 1987, no seu “Discurso Filosófico da Modernidade” teve afirmação reveladora: “A Teoria Crítica foi inicialmente desenvolvida no círculo de Horkheimer para pensar as decepções políticas com a ausência de revolução no Ocidente, o desenvolvimento do stalinismo na Rússia soviética e a vitória do fascismo na Alemanha. Ela deveria explicar prognósticos marxistas equivocados, mas sem romper com as intenções marxistas”.

 

Mirada nas brumas do futuro

 

Em retrospectiva, acima, bosquejos da ação de um movimento apocalíptico. Agora, a prospectiva. Qual será seu desenvolvimento e influência? Impossível saber. Como agir? O primeiro passo, conhecê-lo, divulgar sua fisionomia, histórico, presença nos fatos atuais e potencial de expansão. Foi o que, com limitações embora, procurou oferecer o presente esforço.

 

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

Estranhezas

 

Estranhezas

 

Cristiano Martins da Costa

 

Pastoreio com aboio uníssono e clareza de rumos. Anunciei série de três artigos (dois já divulgados) sobre a devoção ao Sagrado Coração de Jesus que ganhou atualidade renovada com as celebrações do 350º aniversário das Grandes Aparições (1673 a 1675) em Paray-le-Monial a santa Margarida Maria Alacoque, bem como pela publicação da encíclica “Dilexi nos” do Papa Francisco em 24 de outubro último sobre referida devoção. Informava, no terceiro artigo discorreria, ainda que brevemente, sobre posições que “deram azo a manifestações de surpresa (para não dizer estranhezas)”. É o momento do último artigo da série. O espaço não é longo, exige síntese, escolhi então examinar no documento papal em especial o pastoreio (no caso, supremo). Tive um choque. Já avançando algum tanto no objeto do artigo, mas arrastado pela força incoercível da lógica, o exame desembocou na penosa constatação de não raramente, como se verá abaixo, a encíclica se apresenta pejada de confusões desnorteadoras, bem como de nebulosidade doutrinária e pastoral. Mais ainda, por vezes constam posições que ▬ de joelhos atesto-o ▬ apresentam pontos discrepantes, quase diria rupturas, com o magistério pontifício anterior. Fatos que, reitero, causam estranheza. É o que veremos agora.

 

Timbre inconfundível de voz na continuidade do aboio. Pequena digressão. A descrição do zagal clássico pode rescender à Palestina da Antiguidade, emanar aromas do pastoreio bíblico, já deixados de lado pelas técnicas modernas de ovinocultura que teriam características distintas. Nada disto está em foco e de fato não importa. O pegureiro e o pastoreio, nos casos em espécie, são metáforas, têm fonte nas Escrituras, veem sendo utilizadas por milênios. Em acepção muito geral, indica direção de grupos humanos. São perenes então as imagens poéticas e elucidativas do passado. Avante. O pastor, diante de seu rebanho, precisa ter aboio uníssono, igual timbre de voz, odor conhecido; quem sabe, vestir o mesmo manto. E levar a rotas e pastagens de parecida configuração geral, que não causem estranheza ao pegulhal. Em outras palavras, o pastor precisa ser inconfundível, mostrar continuidade, provocando serenidade no rebanho; não pode aparecer como fautor de rupturas, dando origem a desorientação, estranheza e até recusa.

 

Continuidade no apascentar. A continuidade, no caso, tem o grande esteio nas Escrituras. “Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a sua vida por suas ovelhas. Mas o mercenário, e o que não é pastor´[...] vê vir o lobo, e deixa as ovelhas, e foge; e o lobo as arrebata e dispersa as ovelhas. [...]  Eu sou o bom Pastor, e conheço as minhas ovelhas, e minhas ovelhas me conhecem. Assim como o Pai me conhece a mim, também eu conheço o Pai, e dou a minha vida pelas ovelhas. Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; também me convém agregar estas, e elas ouvirão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só Pastor” Sobre a clareza na direção, doutrinária e pastoral, lembro, entre outras, a passagem conhecida: “Seja o seu 'sim', 'sim', e o seu 'não', 'não'; o que passar disso vem do Maligno”.

 

Confusão desorientadora. Pio XII, na “Haurietis Aquas”, escreve, aludindo ao Sagrado Coração “mais do que qualquer outro membro do seu corpo, o seu coração é o índice natural ou o símbolo da sua imensa caridade para com o gênero humano”. E continua o ensinamento pontifício, esteando-se agora na autoridade do antecessor Leão XIII: “Como observava o nosso predecessor Leão XIII, de imortal memória, ‘é ínsita no sagrado coração a qualidade de ser símbolo e imagem expressiva da infinita caridade de Jesus Cristo que nos incita a retribuir-lhe o amor por amor’”. Magistério simples, claro, incontroverso. Todo o documento de Pio XII, densamente doutrinário e pastoral, é do mesmo teor. Cita, em 51 notas, pontífices, padres da Igreja, as Escrituras, santo Tomás de Aquino, devocionários, para embasar seu ensino que sempre flui seguro, singelo e inconcusso. É natural, a gravidade do documento magisterial, encíclica, levou Pio XII a buscar esteios nos grandes nomes da história doutrinária da Igreja.

 

Trilha desorientadora. Escolheu caminho distinto o Papa Francisco. Para esclarecer a noção de coração, o Papa Francisco, em documento de 227 notas, cita, entre outros, Homero, o grego clássico, Platão, a própria avó, Zygmunt Bauman (não o cita explicitamente, mas utiliza acriticamente conceitos deste filósofo polonês, por muitos considerados como ateu e marxista ▬ “mundo líquido”, “sociedade líquida” com inequívoca origem em “sociedades líquidas” e “instituições líquidas”), Dostoievski, Romano Guardini, Heidegger, Karl Rahner, Han Byung-Chul, Michel de Certeau. Esta embrulhada de autores aportaria concepções enriquecedoras sobre o significado do coração. Não é possível num simples artigo analisar com rigor cada um de seus conceitos inseridos no diploma papal. Um fato, porém, é claro: a citação em documento pontifício de altíssima autoridade, tantas vezes acompanhada de simpatia, favorece a nomeada de tais autores, entre os quais há teólogos de reputação controvertida, pensadores que difundem doutrinas claramente opostas ao Catolicismo, propugnadores no terreno de pensamento de teses opostas ao que sempre ensinou a Igreja. Para não me alongar, recorro a um testemunho de Dostoievski: “Tenho de proclamar a minha incredulidade. Para mim não há nada de mais elevado que a ideia da inexistência de Deus.” Reproduzo a seguir o trecho que deu origem à citação de Dostoievski (um personagem seu, chamado Stavroguine, segundo Romano Guardini, encarnação do mal por não possuir coração). E Romano Guardini, notoriamente teólogo controvertido escreve o seguinte, posto elogiosamente na encíclica: “Estar em intimidade com o íntimo, no espírito, não é do domínio humano. Mas quando o coração não vive, o homem encontra-se ao lado de si mesmo”. Primeira pergunta: “É realmente inteligível o que aí está? Terá havido no texto português algum erro de tradução? O que poderá significar: ‘estar em intimidade com o íntimo no espírito não é do domínio humano’”? Segunda pergunta: “Favorece a ortodoxia? Favorece a pastoral? Onde está a clareza, a singeleza, o incontroverso do bom magistério”? O timbre não é o anterior; o aboio não é o anterior. É inevitável que brote do fundo da alma a sensação de ruptura com o pastoreio de sempre. Terceira pergunta: “Buscar fundamentos em autores controvertidos, adversários do magistério eclesiástico (a mais, seja-me permitido constatar e salientar, bastante confusos nos textos selecionados) favorece a devoção ao Sagrado Coração? O caminho escolhido não foi apenas distinto; revelou-se discrepante. Estranheza, outra vez.

 

Zelo missionário estranho. Farei a seguir apenas três comentários. O Papa Francisco liga a devoção ao Sagrado Coração com o zelo missionário. E ensina sobre o dever do missionário zeloso, “custa-lhes perder tempo [...] a impor verdades e regras. [...] [...] Não há proselitismo nessa dinâmica do amor”. Constato com tristeza a forma algum tanto depreciativa para o missionário, pois o missionário zeloso não impõe verdades. Prega-as, procura convencer. Não é perder tempo procurar convencer alguém das verdades evangélicas. E não há proselitismo em tal missão? Inexiste esforço de fazer prosélitos; catequese, apostolado? Que amor de Cristo será este? “Portanto, ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado”. Na encíclica “Evangelii Praecones”, dedicada às missões, Pio XII, trilhando as pegadas de seus antecessores, apresenta como exemplos insignes de zelo missionário o apostolado (proselitismo) de leigos que se esforçavam em trazer à Igreja populações pagãs ou afundadas na heresia: “Sucedendo-se na Idade Média as invasões bárbaras, vemos homens e senhoras nobres e até humildes operários e incansáveis mulheres do povo esforçarem-se sem descanso por ganhar profundamente os seus compatriotas para a religião de Jesus Cristo. [...] Teodolinda, rainha dos lombardos, levou seu povo a abraçar a religião cristã. Na Espanha, o rei Recaredo esforçou-se por reconduzir os súditos da heresia ariana à verdadeira fé. Na França, não só aparecem bispos [...]mas também rainhas que ensinaram aos ignorantes a verdade cristã, que deram de comer, aliviaram ou reanimaram doentes, famintos e toda a espécie de necessitados”. [...] Todos conhecem a atividade da rainha santa Isabel na Hungria, do rei são Fernando em Castela e de são Luís IX em França; com santidade de vida e ação perseverante, comunicaram força renovadora às várias classes da sociedade, fundando instituições benéficas, fazendo chegar a verdadeira religião a toda parte”. Como impedir que surja irrefreável a sensação de descontinuidade entre um ensinamento e outro? O timbre é outro. Estranheza.

 

Censura à liturgia faustosa. Afirma a “Dilexi nos”: “A proposta cristã é atrativa quando pode ser vivida e manifestada na sua integralidade: não como um simples refúgio em sentimentos religiosos ou em cultos faustosos”. Está dito acima, a proposta cristã não é atrativa, quando vivida e manifestada em cultos faustosos. As pompas litúrgicas, louvadas por séculos por Pontífices e bispos, utilizadas por milênios como instrumento precioso de apostolado, retiram da Igreja Católica sua atratividade? A censura pouco velada não vai além Mas permanece a impressão de recusa à liturgia faustosa. Como evitar aa estranheza?

 

Reinado Social de Nosso Senhor Jesus Cristo, expressão, lema e tema injustamtne acobertados. Muito especialmente no século 19 a devoção ao Sagrado Coração esteve ligada à aspiração do reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo; em outras palavras, à restauração da ordem temporal cristã. Em outras palavras, reino nas almas e reino nas sociedades. No século 20, foram numerosos a respeito os ensinamentos da Hierarquia eclesiástica.

 

Régio poder de Cristo. Ocasião ápice de tal impulso virtuoso foi a publicação da encíclica “Quas Primas” de Pio XI em 11 de dezembro de 1925, reiterando o ensinamento comum dos Pontífices e reafirmando os direitos de Nosso Senhor Jesus Cristo não apenas sobre o interior das consciências, mas também sobre as sociedades. Dali retiro pequenos extratos: “Não há meio mais eficaz de restabelecer e fortalecer a paz que procurar a restauração do reinado de Jesus Cristo. [...] Se os homens, pública e privadamente, reconhecerem o régio poder de Cristo, necessariamente virão para toda sociedade civil benefícios sem-número como justa liberdade, tranquilidade, paz e concórdia”. Acima, a doutrina e a linguagem usual no ensinamento pontifício (o timbre da voz do pastor, se quisermos ainda o seu aboio). Na “Dilexis nos”, lemos sobre o  mesmo tema: “através dos cristãos, ‘o amor difundir-se-á no coração dos homens, para que se construa o Corpo de Cristo que é a Igreja e se edifique uma sociedade de justiça, de paz e de fraternidade’ [223]. Na nota 223 se tem a origem da frase assumida com evidente aprovação pelo Papa Francisco; está em carta de dom Louis-Marie, arcebispo de Lyon. O que importa ressaltar no momento é o distanciamento entre as duas linguagens. A segunda, enunciando como meta a “sociedade de justiça, paz e fraternidade” tem timbre contemporâneo, nada especial, poderia ser respigada sem dificuldades entre documentos que, por exemplo, órgãos da ONU publicam. Ou de declarações de qualquer outra organização internacional e até mesmo de tomadas de posição de algum Partido Comunista. Nada mais comum, impreciso e enevoado. A primeira, “restauração do reinado de Jesus Cristo, se os homens, pública e privadamente, reconhecerem o régio poder de Cristo” tem força, origem inequívoca, é límpida, denota continuidade, ecoam aboio e timbre ouvidos séculos afora. De novo, examinando a segunda linguagem, aparecem rumo embaçado, doutrina nebulosa, sensação de ruptura.

 

Palavra final. Nada do que acima registrei abala minha submissão filial ao Romano Pontífice. A realidade, contudo, impõe-se; padecemos época de enorme confusão e crise religiosa. Pela prudência, cabe-nos acurar a lucidez. Pela fé, aprimorar a confiança. Temos de nosso lado a promessa divina: “Eis que estarei convosco todos os dias até o fim dos tempos”. É hora de se aproximar com maior afeto do Coração de Jesus.

 

Nota: escrevi três artigos sobre o Sagrado Coração, já divulgados em outras publicações com o pseudônimo que uso às vezes: Cristiano Martins da Costa. Vou postá-los hoje no meu blog.

Práticas de piedade atuais

 

Práticas de piedade atuais

 

Cristiano Martins da Costa

 

Atualidade encoberta. No primeiro artigo da presente série de três, de forma sucinta embora, foram realçadas duas características centrais ▬ reparação e desagravo ▬ da devoção ao Sagrado Coração de Jesus que se propagou universalmente a partir das revelações de Paray-le-Monial (1673 ▬ 1675). Jamais deverão ser esquecidas ou subestimadas no espírito dos fiéis; estão na origem (ou foram estímulo) de um conjunto de práticas de piedade que têm marcado a vida da Igreja por séculos e sobre algumas das quais falaremos a seguir. Trata-se agora de jogar luz intensa sobre tais formas de culto, mostrar sua atualidade, aproveitando o quadro de fundo das comemorações do 350º aniversário de tais aparições e a ampla divulgação da encíclica “Dilexit vos” do Papa Francisco. Trazendo para o centro algumas das principais, embora certos círculos as possam preferir encobertas por julgá-las arcaicas e obsoletas, apenas as colocamos onde sempre deveriam estar, fulgurando virtude para todos.

 

Foco na Comunhão nas Nove Primeiras Sextas-feiras do mês. Também intitulada Comunhão Reparadora. É hábito piedoso que o fiel faça sua confissão poucos dias antes de comungar. E igual, se possível, comungue durante a assistência à Missa. Deve receber a comunhão nas nove primeiras sextas-feiras durante nove meses consecutivos. Esta prática é denominada com razão de “a grande promessa”. Emergindo das aparições de Paray-le-Monial, contém a promessa da perseverança final: “Eu te prometo, na excessiva misericórdia de meu coração, que meu amor onipotente concederá a todos os que comunguem nas primeiras sextas-feiras de mês, durante nove meses consecutivos, a graça da penitência final, e que não morram em minha desgraça, nem sem receber os Santos Sacramentos, assegurando-lhes minha assistência na hora final. para aqueles que a realizarem com intenção reta”. Contudo, a 1ª Sexta Feira do mês é ocasião para outras prátic as de piedade além da Nove Comunhões Reparadora. Com efeito, na primeira sexta-feira do mês convém ao fiel se lembrar de que ela é dedicada ao Sagrado Coração de Jesus e é dia de atenção especial ao perdão dos pecados. Para fortalecer os bons propósitos neste dia pode-se outrossim rezar a Ladainha, a Consagração, o Ato de Reparação ao Sacratíssimo Coração de Jesus e a Oração ao Coração de Jesus na Eucaristia ▬ estão na rede. Pio XI ensina, a oração deve ser “humilde, confiante e perseverante”. Continua o Pontífice: “A nenhuma outra obra piedosa foram feitas pelo Senhor Onipotente promessas tão abundantes, tão universais e tão solenes”. Bastaria a fidelidade às práticas das 1ªs Sextas-Feiras para mudar para muito melhor o clima no interior da Igreja, oxigenando-o, e abrir enormes perspectivas missionárias. Teríamos práticas mais atuais e eficazes? E, ao mesmo tempo, são singelas, simples, ao alcance da mão.

 

O retorno das consagrações. De outro modo, faz falta o regresso de prática que jamais deveria ter sido virtualmente abandonada, pelo menos em círculos influentes. A consagração ao Sagrado Coração é decorrência lógica do propósito de reparar. Pela consagração, percorrendo o austero caminho da dedicação, é desagravado o Sagrado Coração, esbofeteado em seus direitos. Enquanto é particular a prática das 1ªs Sextas-Feiras do mês, a consagração tanto pode ser particular como envolver sociedades. De um lado, uma pessoa pode se consagrar privadamente e até no silêncio de sua alma. Como ilustração, deixo a seguir uma das fórmulas: “Eu [nome], para Vos testemunhar o meu reconhecimento e reparar as minhas infidelidades, Vos dou o meu coração e me consagro inteiramente a Vós, ó meu amável Jesus, e com o vosso socorro proponho não pecar mais”. De outro, também as sociedades, ou seja, famílias, escolas, empresas, e até mesmo Estados, podem se consagrar validamente ao Sagrado Coração de Jesus, atraindo para si sua proteção e suas bênçãos. Foi prática comum em décadas passadas, em especial no século 19, produziu grandes frutos, balizou por décadas a direção geral da piedade católica. Ápice desse movimento foi a consagração do gênero humano feita por Leão XIII (1878-1903) em 11 de junho de 1899, em união com bispos, sacerdotes e fiéis; consagração anunciada, justificada doutrinária e pastoralmente pouco antes, em 25 de maio de 1899 na encíclica “Annum Sacrum”. Seu sucessor, são Pio X (1903-1914), quando ainda cardeal-patriarca de Veneza, definiu bem, com a singeleza dos santos, o objetivo da prática piedosa das consagrações, da qual era grande adepto: “Restabelecer os direitos que Nosso Senhor possui de ser amado e servido enquanto Rei, como Ele o era nas épocas de fé”. Na presente quadra histórica, com as circunstâncias imperantes, uma maneira factível de retomada e reconquista é a ênfase na consagração das famílias católicas, ato privado que depende apenas dos pais e, de certa maneira, dos filhos. Não nos esqueçamos, a família é a primeira e mais natural das sociedades; e, sob vários aspectos, a mais importante delas. Tudo o que acontece no interior das famílias reverbera para a sociedade inteira, por vezes de forma decisiva. Sua consagração pode ser largamente praticada e atrairá as bênçãos do Sagrado Coração para as que a ele aderirem com retidão e fé. E terá enorme repercussão social; serão ondas benfazejas, levando bênçãos, espalhando-se meio indefinidamente pelos oceanos das populações sofredoras, tantas vezes ávidas de sobrenatural.

 

Entronização do Sagrado Coração nos lares. É prática naturalmente complementar da consagração das famílias, que o colocam (entronizam), mediante, por exemplo, sua imagem sobre uma peanha em lugar destacado da casa. Ali fazem orações, particulares ou em conjunto, sua presença cria ambiente de elevação, pureza e respeito. O fim próximo é da entronização fazer com que o Sagrado Coração reine naquela família, ou naquele ambiente. O fim remoto é que este reino se estenda a toda a sociedade. Não estou falando aqui especificamente da Obra da Entronização, fundada pelo padre Mateus Crawley-Boevey (1875-1961), digna de todos os elogios, mas apenas da prática privada.

 

O bentinho do Sagrado Coração de Jesus. O bentinho, proteção contra tentações e calamidades, é um objeto de devoção que traz inscrito “Alto! O Coração de Jesus está comigo, Venha a nós o vosso Reino”. É muito conveniente sua mais ampla difusão; depois de bento por um sacerdote, pode ser guardado, por exemplo, na bolsa ou na carteira.

 

Incentivo a todas as formas de devoção. A devoção ao Sagrado Coração deve ser considerada estímulo às outras formas de devoção. Pio XII, na “Haurietis Aquas”, pontuou: “Ninguém pense que esta devoção prejudique no que quer que seja outras formas de piedade”. Contudo, pelas suas características, tem maior relação com a devoção ao Verbo Encarnado, Eucaristia, Paixão, Cinco Chagas, Nossa Senhora.

 

As doze promessas do Sagrado Coração de Jesus. Para fechar o presente artigo deixo abaixo as chamadas 12 promessas do Sagrado Coração, compilação piedosa feita a partir das Grandes Revelações de 1673 a 1675, cujo conhecimento (ou recordação) estimula as mais diversas formas de adoração ao Sagrado Coração.

 

1ª) Eu darei aos devotos do meu Coração todas as graças necessárias a seu estado.

2ª) Estabelecerei e conservarei a paz em suas famílias.

3ª) Eu os consolarei em todas as suas aflições.

4ª) Serei seu refúgio seguro na vida e principalmente na hora da morte.

5ª) Lançarei bênçãos abundantes sobre todos os seus trabalhos e empreendimentos.

6ª) Os pecadores encontrarão em meu Coração fonte inesgotável de misericórdias.

7ª) As almas tíbias tornar-se-ão fervorosas pela prática dessa devoção.

8ª) As almas fervorosas subirão, em pouco tempo, a uma alta perfeição.

9ª) A minha bênção permanecerá sobre as casas em que se achar exposta e venerada a imagem de Meu Sagrado Coração.

10ª) Darei aos sacerdotes que praticarem especialmente essa devoção o poder de tocar os corações mais endurecidos.

11ª) As pessoas que propagarem esta devoção terão o seu nome inscrito para sempre no Meu Coração.

12ª) A todos os que comungarem nas primeiras sextas-feiras de nove meses consecutivos, darei a graça da perseverança final e da salvação eterna.

 

Nota: escrevi três artigos sobre o Sagrado Coração, já divulgados em outras publicações com o pseudônimo que uso às vezes: Cristiano Martins da Costa. Vou postá-los hoje no meu blog.

De novo no foco, reparação e desagravo

 

De novo no foco, reparação e desagravo

 

Cristiano Martins da Costa

 

Devoção perene, caminho real. O Papa Francisco em 24 de outubro último divulgou a encíclica “Dilexit nos”, a quarta de seu pontificado; trata da devoção ao Sagrado Coração de Jesus. O título latino, claro, significa “Ele nos amou” e tem como inspiração passagem de são João em que Nosso Senhor diz: “Eu vos amei”. O documento coincide com as celebrações do 350º aniversário das grandes manifestações do Sagrado Coração de Jesus (1673-1675) a santa Margarida Maria Alacoque (1647-1690), religiosa visitandina do mosteiro de Paray-le-Monial, canonizada em 1920. De um lado, o diploma e toda a enorme e natural repercussão que gerou despertaram lembranças e hábitos antigos que sempre oxigenaram o ambiente da piedade católica. Sobre eles falaremos em um segundo artigo. De outro, “Dilexit nos” deu azo a manifestações de surpresa (para não dizer estranheza) sobre as quais também nos deteremos, em um terceiro artigo.

 

O perigo da desnaturação. Inicialmente, desejo chamar a atenção sobre ponto central que desafortunadamente não vi ser realçado, diria quase, foi ocultado, abordado embora várias vezes e até com digressões na “Dilexit nos”, e que está no centro da devoção moderna ao Sagrado Coração de Jesus, difundida especialmente a partir de Paray-le-Monial: reparação e desagravo. A devoção ao Sagrado Coração como foi propalada por décadas sem fim nos ambientes católicos desde o século 17 tem um núcleo central, dele não é possível se afastar sem grave risco de desnaturação ▬ de outro modo, transformar-se em outra espécie de devoção. Referido miolo está bem realçado por santa Margarida Maria Alacoque. Recordemos. O devoto ou devota do Sagrado Coração tem à mão sua vida, espírito e mensagens, não precisa e não deve se desviar da rota ali apontada pela Providência. Sua espiritualidade foi divulgada nos ambientes católicos, por séculos, com apoio maciço da Hierarquia eclesiástica, como modelo desta forma de piedade. E, inafastável memorar, santa Margarida chama imediata e continuamente a atenção para duas práticas: reparação e desagravo. O fiel necessita reparar o mal causado pelo pecado (seu, dos outros, de organizações, dos Estados) e desagravar suficientemente o ofendido, no caso, Nosso Senhor Jesus Cristo. Desagravo é a palavra portuguesa usual, está correta. Santa Margarida utilizava a expressão “amende honorable” ou “faire amende honorable”, respigada do mundo jurídico francês, que significa desagravo, mas contém a necessidade de pena infamante para o ofensor. A retratação infamante repararia o dano moral e era na França considerada honrosa para o ofendido. Para o fiel, e é o que nos interessa aqui, torna imperativa a postura inicial humilde, contrita e humilhada. Postura sempre inconformada com o mal feito por ele ou percebido em outros, e que busca reparo e satisfação.

 

Eis o Coração que tanto amou os homens. Tal conduta é lógica e flui naturalmente das palavras de Cristo que estão no centro das chamadas Grandes Revelações de Paray-le-Monial: “Eis o Coração que tanto amou os homens, que nada poupou até se esgotar e se consumir para lhes testemunhar seu amor.

 

Desconsideração total. Continuam as palavras de Cristo: “Como reconhecimento, não recebo da maior parte deles senão ingratidões, pelas suas irreverências e sacrilégios, e pela frieza e desprezo que têm para comigo”. Para uma alma reta, com vontade autêntica de reparar o dano que causou, tornam-se cogentes os sentimentos ativos de gratidão e veneração, trazer de volta o ofendido ao devido lugar outrora ocupado, promover o culto, manter o fervor. Nesta piedade particular, é o fundamento sobre o qual caminha o fiel rumo à restauração de sua situação anterior virtuosa, e até a alturas ainda inatingidas. Não apenas o fiel, igual se aplica às sociedades humanas, a primeira das quais é a família.

 

Destaque devido e significativo. Pio XII (1939-1958) em sua encíclica “Haurietis Aquas”, ainda hoje considerado o grande ensinamento sobre tal devoção, enumera com grato louvor santos que promoveram a devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Mas, entre eles, distingue uma santa de forma inequívoca: “Mas entre todos os promotores desta excelsa devoção, merece lugar especial santa Margarida Maria Alacoque, que, com a ajuda do seu diretor espiritual, o beato Cláudio de la Colombière [...] conseguiu [...] que este culto adquirisse um grande desenvolvimento e, revestido das características do amor e da reparação, se distinguisse das demais formas da piedade cristã”. De outro modo, sob a luz do exemplo de santa Margarida, constitui forma especialmente elevada da piedade cristã. Reitero por conveniente, é indispensável o olhar se fixar no que a vida dela pregou do começo ao fim: reparar o Salvador pelos pecados cometidos, desagravá-lo em especial por vida calcada nos passos dele. Está outrossim ensinado por Pio XII, o grande desenvolvimento de tal forma de piedade só pode se dar sem a desnaturação de suas principais características, acima referidas, fulgurantes na vida da obscura freira visitandina.

 

Atualidade sadia. Convém salientar, tais características não deslizaram para o esquecimento, tornaram-se repentinamente anacrônicas. Pelo contrário, pertencem ao núcleo desta forma de piedade. São tradicionais, é certo, tradição viva, sadia, atual, caldo de cultura de vida virtuosa, digamos, de modernidade saudável, à vera, conduta mais necessária agora que no já longínquo século 17. Mas estão de novo no foco das repercussões da “Dilexit nos”? Dói dizê-lo, olhando por cima, infelizmente, não. E na profundidade? Sim. Ficarão, se quisermos e agirmos para tal. É atual voltar luz forte para elas. Desconsiderá-las, diminuir-lhes a importância, traz o risco da desnaturação; de outro modo, nossas práticas devocionais relativas ao Sagrado Coração não corresponderiam por inteiro ao que o Divino Salvador tinha em vista quando, a partir de Paray-le-Monial, inaugurou torrente de graças reparadoras e restauradoras que atravessou decênios e até séculos, marcando a Igreja para sempre. A continuidade virtuosa, nunca deve ser abandonada. Trouxe acima Pio XII. Agora, seu antecessor. O Papa Pio XI (1922-1939) nos mostra a mesma via em oração composta por ele em 1928. Pisamos nas pegadas de dois grandes Pontífices, postura sadia e atual. Sua recitação nos trará graças. Vai abaixo.

 

Ato de Reparação ao Sacratíssimo Coração de Jesus (Pio XI)

 

“Dulcíssimo Jesus, cuja infinita caridade para com os homens é por eles tão ingratamente correspondida com esquecimentos, friezas e desprezos, eis-nos aqui prostrados na Vossa presença, para Vos desagravarmos, com especiais homenagens, da insensibilidade tão insensata e das nefandas injúrias com que é de toda parte alvejado o Vosso amorosíssimo coração.

 

Reconhecendo, porém, com a mais profunda dor, que também nós mais de uma vez cometemos as mesmas indignidades, para nós, em primeiro lugar, imploramos a Vossa misericórdia, prontos a expiar não só as próprias culpas, senão também as daqueles que, errando longe do caminho da salvação, ou se obstinam na sua infidelidade, não Vos querendo como pastor e guia, ou, conculcando as promessas do batismo, sacudiram o suavíssimo jugo da Vossa santa lei.

 

De todos estes tão deploráveis crimes, Senhor, queremos nós hoje desagravar-Vos, mais particularmente da licença dos costumes e imodéstia do vestido, de tantos laços de corrupção armados à inocência, da violação dos dias santificados, das execrandas blasfêmias contra Vós e Vossos Santos, dos insultos ao Vosso Vigário e a todo o Vosso clero, do desprezo e das horrendas e sacrílegas profanações do Sacramento do divino amor e, enfim, dos atentados e rebeldias das nações contra os direitos e o Magistério da Vossa Igreja.

 

Oh! Se pudéssemos lavar com o próprio sangue tantas iniquidades! Entretanto, para reparar a honra divina ultrajada, Vos oferecemos, juntamente com os merecimentos da Virgem Mãe, de todos os santos e almas piedosas, aquela infinita satisfação, que Vós oferecestes ao eterno Pai sobre a cruz, e que não cessais de renovar todos os dias sobre nossos altares.

 

Ajudai-nos Senhor, com o auxílio da Vossa graça, para que possamos, como é nosso firme propósito, com a vivência da fé, com a pureza dos costumes, com a fiel observância da lei e caridade evangélicas, reparar todos os pecados cometidos por nós e por nosso próximo, impedir, por todos os meios, novas injúrias de Vossa divina Majestade e atrair ao Vosso serviço o maior número de almas possível.

 

Recebei, ó benigníssimo Jesus, pelas mãos de Maria santíssima reparadora, a espontânea homenagem deste nosso desagravo, e concedei-nos a grande graça de perseverarmos constantes, até à morte, no fiel cumprimento de nossos deveres e no Vosso santo serviço, para que possamos chegar todos à pátria bem-aventurada, onde Vós com o Pai e o Espírito Santo viveis e reinais por todos os séculos dos séculos.  Amém.”

 

Hoje, a vida é muito corrida. Às vezes, pode ser difícil rezar todos os dias a oração completa composta por aquele recordado Papa. Não importa. Mesmo partes dela nos lembram o que sempre foi a orientação católica para a devoção ao Sagrado Coração, que tanto robusteceu a ação evangelizadora da Igreja a partir de Paray-le-Monial. Continuidade, fidelidade, êxito, é o que nos é pedido (e nos espera) em tal rumo. Nos próximos artigos, exporei sucintamente falarei como foi oxigenada a piedade em decorrência dessa referida via. E depois, no terceiro da série, de algumas estranhezas suscitadas. O trio, espero, exporá (em boa parte relembrará) de forma resumida e autêntica visão de conjunto da devoção ao Sagrado Coração. Uma palavra final: o mais importante todos sabemos, é, com pureza de intenção, adorar, reparando-o e desagravando-o, o amor infinito de Nosso Senhor aos homens, manifestado de forma tocante pelo seu coração rodeado de espinhos e encimado de chamas.

 

Nota: escrevi três artigos sobre o Sagrado Coração, já divulgados em outras publicações com o pseudônimo que uso às vezes: Cristiano Martins da Costa. Vou postá-los hoje no meu blog.