sexta-feira, 18 de novembro de 2022

O povo vai tomar na cabeça

 

O povo vai tomar na cabeça

 

Péricles Capanema

 

Reconhecimento, contrição, reparação. Pedro Malan, Armínio Fraga e Edmar Bacha, economistas conceituados, sentiram-se incomodados com as desconcertantes e demolidoras declarações de Lula zombando da responsabilidade fiscal, da alta do dólar e da queda dos índices da Bolsa. Afinal, parte da credibilidade do novo governo petista veio do apoio deles que, infelizmente jogando fora a responsabilidade que deveriam ostentar e fazendo uso da respeitabilidade, declararam apoio a Lula, sem que opetista\ oferecesse contrapartida. O cheque em branco está sendo compensado. Alckmin, Tebet, Malan, Armínio, Bacha, Meirelles, tantos outros, dezenas, queiram ou não, são corresponsáveis pelo desastre. A carta de Armínio, Malan e Bacha, texto c laramente redigido às pressas, é um primeiro distanciamento, um grito de angústia que poderá sanar, havendo reparação à altura, o mal que já foi feito. O caminho é conhecido e já foi trilhado por muita gente. É a rota dos penitentes. Reconhecimento da falta, contrição pelo que fez, reparação do mal. Cantado ao longo das gerações, ensinado sem cessar, pregado com insistência, gravando nas mentes a prece inigualada do salmo 50: “Miserere mei Domine secundum magnam misericordia tua”. É o que falta na carta de conselho, advertência e esclarecimento. E que poderá vir a ser premonitória.

 

Pobres, as maiores vítimas do descontrole fiscal. A carta dos três economistas é didática. Corta o passo para aa demagogia fácil e mentirosa: “A responsabilidade fiscal não é um obstáculo ao nobre anseio de responsabilidade social. O teto de gastos não tira dinheiro da educação, da saúde, da cultura, para pagar juros a banqueiros gananciosos. Não é uma conspiração para desmontar a área social”. Nega que o passado de rigor fiscal, presente em boa parte do primeiro governo de Lula seja garantia para o futuro, pois os primeiros passos e declarações no governo de transição apontam para o descalabro nas contas pública\s: : “Seu histórico de disciplina fiscal basta? A verdade é que os discursos e nomeações recentes e a PEC (proposta de emenda à Constituição) ora em discussão sugerem que não basta”. Conclui com o que virá (e já aconteceu onde as políticas da esquerda foram aplicadas”: “Quem vai sofrer mais é o povo simples”.

 

Esvaziando o balão da demagogia. Os três economistas manifestam, ainda didaticamente, seu desconforto com a demagogia delirante que perpassa as falas do presidente e de muitos corifeus da nova situação que ameaça o Brasil: “O dólar e a Bolsa são o produto da ação de todos. Muita gente séria e trabalhadora. O dólar alto significa certo arrocho salarial. A Bolsa é hoje uma fonte relevante de capital para investimento real”.

 

Tenha dó dos pobres, Presidente. Sob certo aspecto, a carta pode ser resumida na súplica: tenha dó dos pobres, Presidente, pare de fazer demagogia. Diz a missiva: “Quando o governo perde o seu crédito, a economia se arrebenta. Quando isso acontece, quem perde mais? Os pobres!”. Advertem contra a irresponsabilidade que paoca em várias manifestações na transição, em particular nas palavras de Lula: “O crédito público no Brasil está evaporando. Hora de tomar providências, sob pena de o povo outra vez tomar na cabeça”.

 

Carta sem resposta. Lula fugiu de responder à missiva, disse algumas generalidades, continuam pairando sobre a economia as ameaças da gestão irresponsável, intervencionismo desbragado, asfixia da iniciativa, ameaças à segurança jurídica e à propriedade. Em resumo, retrocesso, queda do emprego e renda, empobrecimento.

 

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Intolerância

 

Intolerância

 

Péricles Capanema

 

Intimidação inibitória. Outro subtítulo que poderia ser utilizado: a volta de intolerância insolente. Disparados pelos próximos donos do poder, aumentam os pontiagudos avisos aos navegantes, vem perseguição por aí; de ordem moral, profissional, judiciária. Cancelamentos; estão na moda. Um dos avisos, a freada (várias já) nas indicações para os tribunais superiores. Outro, a tentativa desastrada de minar a indicação de Ilan Goldfajn para a presidência do BID. Põe a nu o regresso do aparelhamento, a pertinácia em entupir o serviço público de cupinchas e comparsas.

 

A pior face do PT. O PSDB, em enérgica nota, tendo como motivo a canhestra manobra de impedir Ilan Goldfajn de assumir a presidência do BID (posição vantajosa para o Brasil), advertiu sobre o retorno da gestão autoritária, vício enraizado, antes mesmo da posse ▬ tais vezos demolidores trazem à memória a fábula do escorpião carregado pelo sapo; a picada mortal era inevitável, estava na natureza dele: “Ao boicotar a candidatura de Ilan Goldfajn à diretoria do BID, o ex-ministro Guido Mantega, além de atropelar os trâmites da instituição, mostra a pior face do PT: a incompreensão de certos processos democráticos. Profissional respeitado [...] foi indicado por um governo legitimamente eleito e o futuro governo deve respeitar a decisão”. Mais exatamente, não foi incompreensão, foi contestação. Quando os referidos processos não o favorecem, joga-os pela janela.

 

Patrulhas ideológicas eriçadas. Mas pretendo falar de outra coisa, à primeira vista pequena, contudo, vista com lupa, enormemente sintomática, pois é exemplo revelador da intolerância desvairada ▬ “ex pede Herculem”.

 

Chicotadas prenunciativas. Eliane Catanhêde, comentarista da GloboNews, em programa televisivo, de forma natural e argumentada, examinou atitudes recentes de Janja (Rosângela) esposa de Lula. consideradas inadequadas pela jornalista, por excessivas e inapropriadas. Apontou despropósitos, o que deixou fora de si os patrulheiros lulopetistas. A profissional de imprensa estava na função dela; só sugeriu mais discrição e comedimento. Foi o que bastou. Tomou saraivada de lambadas da intolerância eriçada. Subiu nas redes a hashtag “Respeita a Janja”. Ela não havia sido desrespeitada pela jornalista, diga-se de passagem.

 

O leitor que julgue. O (a) leitor (a) que julgue a sova pedagógica, veja se tem alguma proporção com o fato real. Mas serviu como aviso; que tenha efeito nulo ou contraproducente. Então, para facilitar o juízo objetivo e circunstanciado, segue o comentário inteiro da d. Eliane: “O presidente é o Lula. Tudo o que é excesso pode criar problemas. Tudo tem limite. Tudo o que excede pode dar problema. E há um incômodo com o excesso de espaço que a Janja tem ocupado. Ontem, por exemplo, quando Lula fez aquele discurso em que ele chorou quando falou de fome, quando derrapou ao desqualificar a estabilidade fiscal, a responsabilidade fiscal, ela estava ali sentada. Ela não é presidente do PT, não é líder política, ela não é presidente de partido. Enfim, por que que ela estava ali? Qual é o papel da primeira-dama? A gente tem vários exemplos de primeiras-damas, desde a ditadura militar, dona Yolanda Costa e Silva, super maquiada, super artificial, tinha a mulher do Geisel, que era muito discreta, dona de casa. Em compensação, ninguém esqueceu a Rosane Collor jogando a aliança fora, fazendo confusão, todo dia tinha briga, e diziam que ela fazia, sei lá, coisas religiosas meio estranhas na Casa da Dinda, ou seja, isto não é bom. Eu acho que um bom exemplo de primeira-dama foi a Ruth Cardoso que, como a Janja, tinha um brilho próprio, era uma professora universitária, era uma mulher super respeitada na área dela, fundou Comunidade Solidária. Mas ela não tinha protagonismo, ela não tinha voz nas decisões políticas. Se tinha, era a quatro chaves no quarto do casal. Ou seja, já incomoda sim. Porque ela vai começar a participar de reunião, já começou a participar de reunião, já vai dar palpite e daqui a pouco vai dizer, esse pode ser ministro, esse aqui não pode. Isto dá confusão. Se é assim na transição, imagina no governo”. Foi o que disse.

 

Desprezível. Imaginem, d. Eliane ousou educadamente expor reservas, crime de lesa-majestade. Gleisi Hoffmann, presidente do PT, rapidamente divulgou nota ácida: “Me apavora o machismo incrustado na cabeça de mulheres ditas esclarecidas, onde estereótipo dos papéis delegados a nós é o importante. Desprezível fala de Eliane Cantanhêde s/ @JanjaLula.Ter opinião e participação política é direito de TODAS nós mulheres! Sem essa de primeira-dama”. Desprezível, sabemos, está no Dicionário Informal, tem como sinônimos abjeto, asqueroso, ignóbil, infame, imundo, hediondo, sórdido, nojento, degradante, vergonhoso. Paro por aqui. Algum desses qualificativos poderia ser aplicado adequadamente ao comentário sereno da d. Eliane? A deputada Gleisi Hoffman, como ela confessou, ficou apavorada com o comentário. É caso de pavor? A Secretaria Nacional de Mulheres do PT foi atrás, disparou no mesmo alvo com nota oficial de repúdio, afirmando ser contra qualquer “tipo de violência”. No caso, a d. Janja sofreu violência? Nenhuma. Dois exemplos, respigados entre as centenas de ataques que Catanhêde sofreu na imprensa e nas redes, em que avultaram, ter outros, para tristezaz nossa, a grosseria, arrogância, petulância, desdém, indigência intelectual.

 

“No opposition, Thomas”. Tudo isso aviva na imaginação cena conhecida do filme “A man for all seasons” (em português “O homem que não vendeu sua alma”) em que Henrique VIII adverte várias vezes a santo Tomás Morus com o “no opposition, Thomas”. O santo foi decapitado por ordem do monarca pela suposta oposição muda que lhe teria feito. Nem o mutismo lhe foi tolerado.

 

Educação por admiração, imitação e osmose. Educação nunca foi nem é principalmente instrução ▬ essencial embora. É ainda formação do caráter, exercício de hábitos, agudizar inteligência, fortalecer a vontade, ornar com mais sensíveis antenas as múltiplas potencialidades da sensibilidade. Estimular ações nessa direção constituem maneiras superiores de governar, altamente favorecedoras do bem comum; avanços civilizatórios inestimáveis. Retorno à matéria imediata. A d. Janja, a d. Elaine, a deputada Gleisi são mulheres com presença na vida pública. A Secretaria Nacional de Mulheres do PT, igualmente presente no Brasil que se publica, trata de assuntos femininos. É incoercível, por analogia, o espírito é solicitado para cenas em que haja notável presença feminina, aqui e alhures, não importa a esfera e âmbito de influência. De imediato, aa mais chamativa. Há pouco faleceu a rainha Elisabeth II (1926-2022), das mais importantes e emblemáticas figuras femininas no século XX e XXI. Exerceu com maestria, além das funções institucionais do cargo, uma forma de governo crescentemente valorizada, a exemplaridade. Exemplaridade, muito relacionada com admiração, imitação e osmose.

 

Exemplaridade. Tratar hoje de governo e empoderamento (palavra em moda) sem colocar o centro a exemplaridade transluz sintoma claro de arcaísmo. É a região da repressão ao conhecimento oxigenador, pântano de concepções retrógradas, enfim; obstáculo a avanços civilizatórios. Infelizmente, e é sintomático, nas reações furibundas acima elencadas (e em outras de matriz parecida) nunca apareceu este aspecto: governar é também dar bom exemplo e, por esse meio, formar personalidades de valor. E é o principal. Javier Gomá Lanzón, grande erudito espanhol, especialista no tema, observa a respeito: “O espaço público está cimentado sobre a exemplaridade, esse é seu cenário mais genuíno e próprio. Só o exemplo prega de forma eficiente”. Volto a Elisabeth II.  Às mulheres de sua família. Nas últimas décadas, com delicadeza e tato, inspirando comportamentos, despertando anseios, consolidando convicções, enfim, formando personalidades, em atuação pautada, repito, por propósito, discrição e educação (e pelas atitudes evidenciando, a ‘contrario sensu’,  o grave prejuízo para as relações sociais de modos encharcados de arrogância, grosseria, desdém e prepotência) três mulheres se fizeram credoras de forma especial da gratidão do Reino Unido: a rainha Elisabeth, sua mãe, Queen Mother (1900-2002) e sua avó, Queen Mary (1867-1953). Vale para elas, vale para qualquer um não importa a posição que ocupe.

 

Bom exemplo como bússola. Quando o rei Jorge VI faleceu em 1952, Elisabeth II, agora rainha, recebeu carta da avó paterna (Queen Mary), lembrando-lhe o dever: “Caríssima Lilibeth, você deve estar devastada como eu estou pela perda. Contudo, você deve colocar estes sentimentos em segundo plano diante das obrigações do dever. A dor pela morte de seu pai [filho da missivista] será sentida imensamente. Seu povo precisará de sua força e liderança”. Recorda à neta, existem duas Elisabeths, a esposa casada com Philip Mountbatten, o duque de Edinburgo, e a Elisabeth Regina [Elisabeth Rainha].  As duas Elisabeths estarão frequentemente em choque, observa: “A Coroa deve vencer, sempre vencer”. Conselhos de 1952.

 

Inspiração universal. A digna conduta das três mulheres, cuja compostura luminosa atravessou sob intenso escrutínio, mais de cem anos [1867 a 2022], apresentou sem-número de exemplos didáticos, que ecoavam beneficamente no mundo inteiro. Contribuíram em grau dificilmente aferível para o aperfeiçoamento das relações humanas, facilitaram a harmonia e a paz social. Assim se constrói, em larga medida, o bem comum. Para finalizar, o procedimento ao longo de décadas das três grandes damas inglesas tem, quase nem precisaria acentuar, enorme atualidade para o Brasil, país onde ministro do Supremo se volta desdenhoso para simples particular e dispara com soberba vulgaridade, arrogância e prepotência: “Perdeu, mané, não amola”. A atitude inesperada, mesmo para público já acostumado com insolência debochada, põe a nu o retrocesso em expansão que nos ameaça. Vivemos em país onde avança o retrocesso, corremos riscos de nos transformarmos em vanguardas do atraso..

 

sábado, 12 de novembro de 2022

Escravos do óbvio

 

Escravos do óbvio

 

Péricles Capanema

 

Verdades apunhalam. O que traz prestígio? Tanta coisa. Uma delas, saber espalhar otimismo, mesmo sem base sólida? Pode acontecer; temos o conhecido “keep smiling”. Prometer êxitos, ainda que altamente improváveis? Também. Livros de autoajuda e defender o tal pensamento positivo são formas de prometer êxitos, quase sempre fumaças da imaginação; contudo, viraram moda, prestigiam em geral quem os maneja bem. Ser leniente com ameaças crescentes? Aconteceu historicamente e às vezes rendeu popularidade. Abaixo, vou tratar de um homem público prestigiado no fim da vida, mas que passou anos anunciando as piores perspectivas, vaticinando derrotas, recriminando a leniência. Não escondeu o sacrifício provável, não ocultou traços vergonhosos de seu meio social, advertiu contra a desídia na consideração do perigo. No fim do caminho, ficou célebre, ninguém, a muitos títulos, teve maior prestígio que ele. Até hoje.

 

Enfiar a cabeça na areia. Repete-se muito, diante da ameaça, o avestruz enfia a cabeça na areia. É falso, a ave foge quando se vê em apuros; é veloz, tem pernas imensas, passadas largas. Não importa o fato da vida selvagem, a imagem expressiva se enraizou no imaginário popular, o uso a consagrou. Diante da ameaça crescente do hitlerismo, boa parte, se não a grossa maioria, da classe dirigente inglesa escolheu enfiar a cabeça na areia: foi otimista, crédula e leniente. Como muita gente agora no Brasil está enfiando a cabeça quente na areia fresquinha, evitando olhar de frente o perigo que cresce. Vou tratar em traços muito gerais de um homem público que foi banido dos círculos de prestígio e desterrado dos gabinetes de decisão por anos a fio em sua própria terra por haver escolhido manter o pescoço erguido, a cabeça alta e os olhos abertos. A verdade parecia dura, amarga, decepcionante e trágica. Depois concluirei voltando o olhar para o Brasil. Será artigo de muitas e longas citações.

 

O bom exemplo inglês. Vamos ao assunto. Foi o que, em amplíssima proporção, fez Winston Churchill (1874-1965). Padeceu degredo interno, bebeu o cálice de um “émigré à l’intérieur”, exilado entre os seus por muitos anos, em especial no seu partido e nos meios intelectuais e sociais que frequentava, até que, em situação desesperadora, a Inglaterra se voltou para o experiente homem público, colocou-lhe nas mãos as rédeas do governo e lhe confiou seu destino por cinco anos terríveis (maio de 1940 a maio de 1945). Expatriado moralmente, quando pareceu um pessimista obstinado, passou a ser visto anos depois como homem de lucidez extraordinária.

 

Respigando exemplos. Leio de momento biografia elucidativa de Winston Churchill. Quase 1.300 páginas, trabalho fruto de pesquisa séria, tem maturidade e profundidade de análise, minuciosa e densamente informativa. Por alguns críticos vem sendo considerada a melhor obra até hoje escrita sobre a vida do estadista inglês. Andrew Roberts é o autor, o título em português “Churchill, caminhando com o destino” (Churchill: walking with destiny, em inglês), primeira edição em 2018.

 

Ostracismo. O que agora pretendo destacar é que, por muitos anos, quase vinte, em especial nos seis anos que precederam a 2ª Guerra Mundial, qualificados pelo autor de “anos de desterro”, Churchill foi um pária moral; de outro modo, isolado, banido e proscrito em seu próprio país. De forma especial, entre políticos e eleitorado conservadores. O homem de Estado passou boa parte de sua vida pública relegado a cruel ostracismo por razão simples: era objetivo, não fantasiava, foi escravo do óbvio. Deixarei aqui apenas um exemplo. Hitler queria a anexação dos sudetos, região tcheca habitada majoritariamente por população de origem alemã. Winston Churchill preconizava a resistência, a aliança com a Tchecoslováquia como forma de evitar a entrega e ainda a guerra. Advertiu na Câmara dos Comuns em março de 1938: “Se não enfrentarmos os ditadores agora, estaremos apenas preparando o dia em que teremos de enfrentá-los em condições muito mais adversas. Dois anos atrás era seguro, três anos atrás era fácil, e quatro anos atrás um simples despacho poderia ter retificado a situação. Mas onde estaremos daqui a um ano? Onde estaremos em 1940?”. A incúria generalizada levou a Inglaterra à guerra mundial.

 

E o vento levou. Continuou: “Tenho visto esta famosa ilha descer sem moderação nem prudência pela escada que leva a um abismo tenebroso. No começo é uma bela escadaria larga, mas, um pouco depois, termina o tapete. Um pouco mais adiante, só há as lajes do pavimento. E ainda um pouco mais adiante, elas se quebram sob os pés de vocês”. Adverte: [Os historiadores] nunca entenderão como foi que uma nação vitoriosa, com tudo nas mãos, tolerou ser subjugada e que se jogasse fora tudo o que ganhara com imensurável sacrifício e absoluta vitória ▬ e o vento levou”.

 

Total e absoluta derrota. Pouco depois, setembro de 1938, o primeiro-ministro Neville Chamberlain foi a Berlim e de lá retornou com um tratado de paz que supostamente garantiria a paz na Europa por uma geração. Foi aclamado no país inteiro, popularidade lá em cima. Comentou com suas irmãs, Hitler “era um homem em quem se podia confiar, quando dava sua palavra; sou o homem mais popular na Alemanha”. Minado pela popularidade esmagadora de Chamberlain e sufocado pela esperança aliciante da paz duradoura, Winston Churchill, na ocasião apreço público muito baixo, iniciou discurso na Câmara dos Comuns com a seguinte frase: “Quero, portanto, começar dizendo a coisa mais impopular e mais indesejável. Começarei dizendo o que todos gostariam de ignorar ou esquecer, mas que, mesmo assim, precisa ser declarado, a saber, que sofremos uma total e absoluta derrota”. Estava certo, era derrota acachapante. Chamberlain hoje afundou no desprezo público por sua conduta. Naqueles dias, não, vivia nos galarins; Churchill se arrastava nos grotões, bradando verdades que apunhalavam, ainda que pouco levadas em conta.

 

O óbvio ululante. Dou um cavalo de pau na narrativa. Aparentemente. O fio será mantido. Saio da Inglaterra de 1938, vou para o Rio de Janeiro. Ali viveu e morreu Nelson Rodrigues (1912 – 1980). O célebre jornalista criou e popularizou a expressão “óbvio ululante”, que até hoje frequenta os meios de divulgação. Certa vez, lá pelos anos 70, na crônica “Vai falar o óbvio ululante” escreveu ele que nada tinha feito de relevante em sua vida até que, imaginando uma pergunta de Deus, veio-lhe iluminação súbita: “Eu promovi e consagrei o óbvio. aí está o grande feito de toda a minha vida. O óbvio vivia relegado a uma posição secundária ou nula. Fui eu que, com minha pertinácia, arranquei-o da obscuridade, da insignificância. Hoje, o óbvio tem trânsito em todas as áreas. O óbvio já adquiriu personalidade internacional. Todavia, ao apresentar o óbvio, eu fiz a seguinte e fundamental ressalva ▬ ninguém o enxerga. Milhões de sujeitos são cegos para ele. E acrescentei: ‘Gênio, santo ou profeta é aquele que enxerga o óbvio’”.

 

Remate. Tudo o que ficou para trás foi para permitir maior facilidade na constatação óbvia. Repito: óbvia. Cresce o desconcerto da opinião letrada do Brasil (a que acompanha noticiário) com os sintomas cada vez mais preocupantes do rumo a ser tomado pelo próximo governo petista, que só venceu apertadas eleições pela dose maciça de credibilidade e respeitabilidade gratuitamente a ele oferecida, sem nenhuma contrapartida (cheques em branco em profusão) por Geraldo Alckmin, Meirelles, Malan, FHC, Armínio Fraga e dezenas de outras figuras de influência e orientação parecida. Os cheques entregues em br nco começam a ser preenchidos e compensados. Provocam estranhezas, recusas, até reações contundentes. A situação vai piorar, é so esperar. Em artigo postado em 7 de outubro passado, intitulado “Embuste” constatei o óbvio (se preferirem expus o óbvio): “Outra razão alegada pelos adesistas (kerenskys de 2022), a expectativa de condução responsável da economia, mesmo com atropelos na prática democrática. Haverá tal condução? Análise madura, enraizada na longa e repetida experiência anterior, padecida pelo povo em especial pelos mais desassistidos, bem como na capivara amazônica de partidos com inspiração semelhante, apontam para destruição dos fundamentos saudáveis da economia, três dos quais, já se vê, inexistirão certamente: âncora fiscal, segurança jurídica, atração de investimentos. Daí, menos emprego, menos renda, salários mais baixos. O que se ouviu até agora da parte de economistas e figuras do setor financeiro foi decepcionante, para dizer o mínimo, era, no bruto, a entrega incauta de um cheque em branco. Na prática, a coligação lulista recebe os apoios, mas continua nadando no pântano das ambiguidades. Nenhuma clareza, nenhum compromisso formal”.

 

Favorecimento do retrocesso, do atraso e do obscurantismo. Afirmei então a seguir, era favorecimento do retrocesso, atraso e obscurantismo, características da possível nova administração: “A ausência de limpidez, a fuga célere dos esclarecimentos, a obscuridade empregada como arma política, a persistente e difusa ambiguidade, a manutenção obstinada incerteza quanto aos rumos, a confusão em que potenciais aliados são mantidos, a opacidade cultivada (não transparência) geram profunda suspeição quanto à conduta futura, degradam a vida pública e adensam o ambiente obscurantista, já pesadamente tóxico. São retrocessos na dura caminhada nacional rumo a uma vida pública decente. Esta ambiguidade, contudo, no caso esconde clareza solar, facilmente perceptível para observadores atentos. As razões últimas do procedimento petista são diáfanas: já existem os compromissos e as intenções e eles não serão abandonados”.

 

Clareza solar. Clareza solar iluminava a manobra, para olhares experimentados estavaa diáfano o ar, as conclusões brotavam do óbvio ululante: existiam compromissos, existiam intenções, mas eles estavam ocultos para os novos e simplórios (qualificação minimalista) aliados. Só não seriam enunciados (nem a pau) por inviabilizar possibilidades eleitorais de vitória da coligação petista. Começam agora a ser implantados com a caça já capturada, ainda que com enunciado discreto e paulatino. Desvelados pela aplicação clara, ainda que incipiente, passam a ser percebidos por magotes que antes se encantou em encenar o apoio otimista, dava prestígio e popularidade, papel semelhante ao desempenhado por Neville Chamberlain. Ainda há tempo para reagir, mas os custos serão maiores. Aumentarão a cada dia que passa. Sejamos escravos do óbvio, mesmo quando impopular.

domingo, 6 de novembro de 2022

Avisos velhos, aviso novo

 

Avisos velhos, aviso novo

 

Péricles Capanema

 

Falsa calmaria.  Em 30 de junho de 2020, em números redondos, dois anos e meio atrás, postei em meu blog artigo intitulado “Atualidade do caso Dreyfus”. Está na rede, consulta fácil. Era uma espécie de metáfora para situações de alcance nacional e até mundial, algumas delas ainda algum tanto embrionárias, que via tomar corpo de forma ameaçadora e crescente. O artigo voltou a ficar palpitante.

 

Retrocesso civilizatório. Em suma, preocupavam-me sintomas de expansão da esquerda. O inchaço acarretaria asfixia de direitos e liberdades naturais, bem como pobreza maior e agravamento da falta de perspectivas para a maioria mais necessitada. Nas palavras, promessas de políticas inclusivas; nos fatos, cruel crescimento da exclusão. Sufocação dos melhores sonhos no âmbito pessoal, no social, atrofia de iniciativas; obscurantismo e atrasos, enfim. Na América Latina, viria (veio) a devastação de uma nova “onde rosa”, que varreria (está varrendo) resistências, abrindo caminho para epígonos castristas, chavistas e sandinistas. Para a modesta advertência, escolhi de indústria tema já antigo, o caso Dreyfus, relegado a arquivos empoeirados, mas sempre episódio histórico de enorme significado para a vida da França ▬ pública e privada. Poderia ter respigado outros acontecimentos, igualmente relevantes, seriam também atuais como padrão para comparações. Contudo, não teriam tanta carga simbólica, presente de modo inigualado no caso Dreyfus.

 

Assunto desconhecido para muita gente. Sabia, era inusitado o título, poderia até soar singular; ademais, o caso nenhuma atualidade pareceria ter. Seria atual? Era atual como metáfora; repito, alarmava-me a possibilidade da avalanche esquerdista, pipocavam sintomas de estar forte e próxima. Mas também pressentia, perdoem-me a linguagem informal, ninguém ia dar bola para o texto, distante dos fatos candentes do cotidiano. Aconteceu o que previ, o texto passou em branco. Não me importo; precisava deixar constância, representava imposição de consciência. Urgia pôr na tinta preta sobre papel branco, advertências, de fato avisos aos navegantes, lições elucidativas que o fato histórico propiciava, faróis para a tempestade, ainda nas brumas, que se formava no horizonte.

 

Miragens? Nada indicava. A figura assustadora surgia fácil. Era suficiente um olhar desintoxicado de otimismos balofos. Muito do que no artigo expunha como perspectiva ruim hoje já é realidade. Viraram avisos velhos, pouca ou nenhuma serventia, podem ir para o arquivo. Vou apenas recordar abaixo uma pequena parte, informações para compor melhor o texto. Mas meu foco é o aviso novo. Nem poderia deixar de ser.

 

Aviso novo. Sei, é antipático, pode adiantar pouco ou nada, mas está na hora do aviso novo. Será curto, poderia ser extenso, não será, vou me fixar em apenas um ponto, que não está sendo ventilado, talvez propositadamente, mas de fundamental importância para o futuro do Brasil. Lula e sua equipe proteiforme estão no início de caminhada. Primeiros sintomas, a marcha está sendo preparada para ser longa e demolidora ▬ como a de seu ídolo, o tirano Fidel Castro, que décadas a fio sufocou e empobreceu Cuba, “o maior de todos os latino-americanos”, segundo o delirante ditirambo do presidente eleito. Aumentam os riscos de despencar na barbárie, de onde será difícil voltar, lá já estão Coréia do Norte, Cuba, em boa parte, Rússia.

 

Disfarçado, mas efetivo protetorado chinês. Nesta etapa inicial, a nova equipe ainda conta com apoio insensato (o mínimo a dizer) de figuras e correntes, cujo suporte acelerará o processo, já avançado, de empurrar o Brasil para a órbita chinesa, afastando-o paulatinamente da área de influência norte-americana e europeia. É para onde rolam os amigos de Lula no Chile, Colômbia, Argentina, Cuba, Nicarágua. Nos próximos meses teremos, é o conjeturável, notícias perturbadoras.

 

Resgate urgente da esperança. É incoercível o deslizamento com o apagamento real, ainda que camuflado, da soberania nacional? Não, existem esperanças vivas e robustas de reação salvífica. Foram muito fortes as primeiras resistências ao lulismo, trazem um frescor de 2013. Raízes boas, cumpre nutri-las, diria o conselheiro Acácio. Como? De forma particular, energizando esperanças fundadas na realidade. O ministro Paulo Guedes notou que as regiões que deram vitória ao antipetismo na última eleição representam 86% do PIB nacional. De outro modo, o Brasil mais dinâmico recusa o petismo, dele tem horror. É base forte para iniciar arremetida de recuperação e vitória. E então, buscando o factível, dentro da lei, evitando promessas ilusórias, fonte de desânimos, decepções e desnorteamento, muito se poderá obter.

 

Sintomas crescentes de borrasca. Para concluir, recordo trechos (excertos) do referido artigo. Ilustram o presente, contribuem para tornar mais clara a caminhada, espancando as sombras do obscurantismo mental. Donald Trump governava os Estados Unidos, campanha de reeleição no começo, por muitos, aqui e lá, tida como garantida. Bolsonaro surfava no meio do mandato. Escrevi então: “Acho que é opinião geral, nada mais anacrônico que o caso Dreyfus. Tenho conjetura diferente, é palpitante. A situação pela qual passamos o evoca. Vislumbro perspectivas difíceis para os próximos anos. Tratarei delas nas hipóteses abaixo; e aí ficará clara, espero, a atualidade do caso Dreyfus ▬ ferramenta de interpretação”.

 

Caso Dreyfus, aqui simples ferramenta de interpretação. Se quisermos, metáfora ▬ símbolo, imagem, semelhança ▬ para entender com maior objetividade e profundeza o que estava se delineando. Continuava o texto: “‘Historia magistra vitae’, Cícero. Virou chavão, não deixa de ser verdadeiro e instrutivo. Para os leitores que ainda não o conhecem, durou 12 anos o caso Dreyfus, 1894 a 1906. Rachou a França de alto a baixo repercutindo nos âmbitos religioso, militar, político, social, moral, psicológico. Foi o maior escândalo do fim do século XIX, dos maiores da História gaulesa. A França então se dividiu em duas ▬ sem-número de famílias fendidas, pai contra filho, mulher contra marido ▬, de um lado, “dreyfusards”; na banda oposta, “antidreyfusards”. No primeiro campo, visão por alto, posicionaram-se republicanos, esquerda radical, esquerda socialista, intelectuais antimilitaristas, pacifistas, maçons. No segundo, também a “vol-d’oiseau”, monarquistas, defensores do Exército, católicos conservadores e tradicionalistas, parte da Hierarquia eclesiástica, antissemitas; de forma especial, boulangeristas e outros grupos do nacionalismo extremado. Os dois lados tiveram imprensa violenta tensionando o ambiente. Até hoje não se sabe bem como o caso começou”.

 

Marcos do caso Dreyfus. Mais informações no referido artigo: “Em pinceladas rápidas, alguns episódios. Alfred Dreyfus (1859-1935), personagem central, servia como oficial de artilharia, origem alsaciana, família judia. Então capitão, foi acusado de espionar para a Alemanha, inimigo histórico, acabou condenado pela justiça militar em 22 de dezembro de 1894 à degradação e prisão perpétua. Partiu preso para as Guianas em 21 de fevereiro de 1895. O coronel Marie-Georges Picquart, em 2 de março de 1896, descobriu que o espião provável era o major Esterhazy. O coronel Picquart investigou a situação e nele a suspeita se transformou em certeza. O caso começou a tomar rumo distinto. Em 11 de janeiro de 1898 o Conselho de Guerra absolveu Esterhazy. O “J’accuse” de Émile Zola foi estampado na primeira página do “L’Aurore” de Georges Clemenceau, 13 de janeiro de 1898. Foi anulada a sentença contra Dreyfus em 3 de junho de 1899; ele imediatamente deixou a Ilha do Diabo, onde cumpria pena. Dreyfus foi condenado novamente por tribunal militar em 9 de setembro de 1899, agora a 10 anos de prisão com atenuantes, perdoado dez dias depois pelo presidente da República. Nas eleições de 1902, vitória das esquerdas; Jean Jaurès em 7 de abril de 1903 relançou o caso Dreyfus. Em 13 de julho de 1906 a Câmara votou lei que reintegrou Dreyfus ao Exército com grau de major. Em 12 de julho de 1906, a Corte de Cassação anulou o julgamento do Conselho de Guerra, reabilitou o capitão, reconhecendo inocência. Alfred Dreyfus, 21 de julho de 1906, recebeu a mais alta condecoração francesa, a Legião de Honra, grau de cavaleiro. Em 26 de outubro de 1906, o (agora) general Marie-Georges Picquart foi nomeado ministro da Guerra”.

 

Vantagens revolucionárias. Enumerava então alguns efeitos do caso Dreyfus, são ensinamentos: “Em seu conjunto, o caso fortaleceu a república, enfraqueceu o movimento monarquista; lançou nota de descrédito sobre a alta hierarquia da Igreja, bafejou o anticlericalismo do início do século XX, favoreceu o laicismo oficial e a perseguição às congregações religiosas. Facilitou a vitória nas eleições legislativas do Bloco das Esquerdas. A mais, deslustrou o Exército, em especial a oficialidade de origem aristocrática. Finalmente, foi trombeteado como vitória da razão e da justiça (enraizadas na esquerda) contra o preconceito e a intolerância (aninhados na direita e em setores conservadores). Uma parte da direita se consolidou com base em justificativas que causarão sua demolição em anos futuros”.

 

O rumo dos Estados Unidos. Tratava mais embaixo do papel dos Estados Unidos: “Ponto fundamental, como agirão os Estados Unidos? Estamos a quatro meses da eleição presidencial. De momento, são boas as chances de Joe Biden bater Donald Trump. Notório, parece-me, Donald Trump está com a reeleição ameaçada. Nas últimas eleições presidenciais, Hillary Clinton obteve 65.853.514 votos, Donald Trump, 62.984.828; perdeu por 2.868.686 votos (no Colégio Eleitoral, Trump ficou com 304 votos, Hillary 227). Sua aprovação não subiu; existem fatores que podem baixá-la: economia em declínio, pandemia em ascensão, agitações sociais em vários pontos do país. A vitória de Biden animará as esquerdas no mundo inteiro”.

 

Boicote a governos conservadores. Continua o já antigo artigo: “Governos de direita serão boicotados, em especial na Europa e na América Latina, com bafejo à oposição interna de esquerda. Outro ponto provável, a agenda chamada “social” terá mais virulenta aplicação. Social aqui significa estimular a desagregação da sociedade com fortalecimento de movimentos LGBT, ideologia do gênero, liberalização ainda maior do aborto, entre outros”.

 

Resistência, reação, reconstrução. I adiante: “Para as forças conservadoras, se as perspectivas aqui rabiscadas se realizarem no todo ou em parte, serão anos de resistência, reação e reconstrução. Importa lembrar, para um movimento muitas vezes mais vale a legenda que dele evola que a realidade que expressa. Para o retorno triunfante (ou, pelo menos, exitoso) preservar a aura, a legenda, mais caseiramente, o bom nome, é fundamental. A reconstrução será favorecida se ao conservadorismo estiverem ligadas as noções de ordem, razoabilidade, senso de proporção, limpeza ética, religiosidade. Tudo será mais difícil se no espírito público aos grupos conservadores, no poder ou fora dele, por meio de campanhas conduzidas de forma eficaz ficarem correntemente associadas as pechas da irreflexão, irresponsabilidade e insensibilidade. Mais ainda, corrupção e falta de escrúpulos. Como infelizmente se deu após o caso Dreyfus, parte da reconstrução poderia trabalhar sobre alicerces corroídos. Em resumo, o que acontecer agora poderá determinar ou limitar condutas nos previsíveis períodos de resistência, reação e reconstrução. E será utilizado implacavelmente por forças revolucionárias para sufocar quaisquer movimentos que se oponham a seus objetivos. Fui pessimista? Espero que não. Olhemos ao redor. Foram simples conjeturas, feitas com intenção de ajudar a lutar num futuro que pode ser difícil”.

 

Conclusão. São reflexões já antigas, que agora readquiriram atualidade diante do futuro preocupante. Concluí assim: “Para poder enfrentá-lo, se acontecer. Sem ilusões. Tenho presente a ‘boutade’ de Agripino Grieco: “O pior dos erros é acertar sozinho contra muita gente”. Às vezes é preciso errar.

 

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Rápida desilusão do crédulo

 

Rápida desilusão do crédulo

 

Péricles Capanema

 

Currículo impressionante. Henrique Meirelles foi presidente do Banco Central no governo Lula, secretário da Fazenda em São Paulo no governo Doria e ministro da Fazenda no governo Temer. Antes, fizera carreira como banqueiro internacional, chegando a presidente do Banco de Boston. São funções, se bem executadas, incompatíveis com credulidade, ingenuidade e precipitação. Candidato à Presidência, um de seus slogans foi “Chama o Meirelles”; isto é, quando a situação ficar preta, ainda existiria saída, chamar o Meirelles.

 

Apoio desconcertante, com ufana e confessada base na realidade. O financista só agiria com base nos fatos, infenso às ilusões, refratário às expectativas vazias. Ou enganosas. Meados de setembro último, dias antes do 1º turno, o antigo ministro da Fazenda se apressou em declarar apoio a Lula. Ensaiou tomada de posição retumbante, contribuiu para diminuir temores nos setores mais ligados à livre iniciativa, em especial mercado financeiro ▬ mais ainda, no Brasil inteiro. Meirelles esperaria contrapartidas? Compromissos? Teria recebido promessas de retificação de rumos? Algum dia talvez a História revele conversas e acordos de bastidores, cumpridos ou abandonados. O antigo presidente do Banco de Boston exsudava segurança e confiança: “Quero me ater a fatos específicos e que mostram a comparação brutal. Quando trabalhamos juntos no governo, trabalhamos oito anos. Nesse período, mais de dez milhões de empregos foram criados, isso é um fato, não é questionável”. Continuou acelerado no mesmo rumo, crescimento, retirada de pessoas da pobreza: “Durante aquele período, além de um crescimento forte, inflação na meta”. Aproveitou para criticar a inflação atual, “corrói todo o padrão de vida da população".

 

Proclama de novo, os fatos estão na origem do apoio enfático. O que interessa são os fatos, assegura, com esteio neles vamos ter avanços em ambiente favorável à geração de emprego e renda. E então, de novo, diante de Lula, mostrou que o caminho aparecia ensolarado: “Isto é, na minha opinião, o que interessa. Eu olho e vejo o resultado do seu governo, isso nos faz estar aqui. Estou aqui com tranquilidade, com confiança, porque eu sei o que funciona e o que pode funcionar no Brasil”. Ele sabe, é do ramo. Confiante, tranquilo, dava o diapasão para o Brasil na possível administração petista. Voltou às loas dias depois: “Meu apoio ao Lula deriva da minha confiança na possibilidade de ele agir para mudar esse quadro. De entender o que é necessário ser feito e de fazer o que é suficiente para recuperar a nossa economia. Com responsabilidade fiscal e social. Eu tomo decisões baseado em fatos e isto ocorreu quando ele foi Presidente”. Apoio com base em fatos, reafirmava. Acenava a investidores: “Hoje, o nível de confiança do investidor no nosso País é baixo. É o que acontece, quando há dúvidas sobre o cumprimento de compromissos, sobre o respeito a regras. Quando não há previsibilidade e confiabilidade na condução da economia. Quando as políticas fiscal e monetária caminham em sentidos opostos”. Lula permanecia tergiversando, fugindo de compromissos, pedindo união pela democracia aos nvos convertidos. Mas só.

 

Fatos? O caminho hoje já não se apresenta ensolarado. Está sombrio, destino incerto. O fato bruto e chapado, incontroverso era e continua o mesmo, a ambiguidade permanente e a desconversa contínua de Lula. Não se comprometeu com nenhum programa econômico. E nem vai se comprometer. O PT tem pronto seu plano econômico de governo (e das outras áreas também), vai aplicá-lo. Rui Falcão, ex-presidente do PT, um dos chefes da campanha, avisou há pouco aos navegantes ainda inadvertidos: “O que se cobra do Lula é assumir um programa que não é o nosso". O programa “nosso” não será modificado, vai ser aplicado, já o foi nas administrações passadas. É regressivo, intervencionista, estatizante; e assim, pela fuga de capitais e pouca inovação, empobrecedor. Receita para o atraso. Menos investimentos, menos empregos, salários com viés de baixa. Como historicamente aconteceu nos países que atraem a admiração petista, Cuba, Venezuela, Nicarágua, entre outros, atolados no retrocesso e na exclusão das grandes maiorias das rotas que levam ao crescimento e à prosperidade.

 

A desilusão. O tom de Meirelles mudou. Não só o tom, o conteúdo também. Ele “caiu na real”, A menos de quinze dias do segundo turno, os ouvintes eram membros da conceituada consultoria Eurasia Group, quando Henrique Meirelles, talvez inadvertidamente, confessou que agira com escasso ou nenhum discernimento poucos dias antes.

 

Gato por lebre. Palavras do homem que se gabava, só acreditava em fatos: “A eleição é muito apertada neste momento. As chances de Lula são maiores, mas ainda acredito que o presidente Jair Bolsonaro tem uma chance real de vencer” Meirelles dividiu o período petista, 14 anos, em três governos diferentes, o primeiro, com responsabilidade fiscal, o segundo, com certo afrouxamento fiscal, o terceiro recessivo. E observa: “A grande questão agora é qual Lula tomará posse. Se você pegar seu atual programa de governo, seria uma má notícia”.

 

Retrocesso na economia. Segundo Meirelles, de momento, o mais provável é termos de engolir uma “má notícia”, no caso da vitória de Lula, está vitorioso o terceiro período. O programa econômico anunciado é intervencionista e estatista, desestimularia a iniciativa privada. Rui Falcão já avisou, o programa é o “nosso”. Meirelles julga que o programa foi elaborado com concepções que predominavam no período Dilma Rousseff: “Quem desenvolveu o programa foi um grupo de economistas que acreditam fortemente no papel do Estado e das empresas estatais na promoção do desenvolvimento. Essa visão prevalece neste momento”. Pairava no ambiente um dado talvez promissor, o novo Congresso tem feitio conservador. Pontuou Meirelles: “Minha resposta para saber se ele [o governo]  se tornaria mais conservador por causa dos resultados do Congresso é não".

 

A realidade esbofeteada. Em suma, em seu apoio açodado (pouco refletido, para dizer o mínimo) à volta de Lula, Meireles deu as costas para os fatos, estapeou a realidade, deixou-se embair por patranhas ilusionistas. Sua credulidade não apunhalou apenas ele. Foi além, corroeu no público resistências à agressão não somente estatizante em curso, à vera totalitária, travestida, na tentativa de vencer oposições enormes, de roupagem democrática e pena dos pobres. Resistências hoje mais necessárias que nunca.

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

Embuste

 

Embuste

 

Péricles Capanema

 

Ambiguidade, tática generalizada. Até agora, com surpreendente êxito, pelo que se percebe. Políticos e personalidades dos mais variados âmbitos da vida pública (melhor, da vida que se publica) brasileira estão manifestando apoio a Lula no 2º turno, alegando como razão principal ou única o compromisso com a democracia da chapa petista ▬ PT, PCdoB, PV, PSB, PSOL, Rede, Solidariedade, Avante e Agir. Compromisso que autenticamente não pode existir se o PT não renegar princípios e atuação política de décadas num mesmo rumo. Conduta e princípios, reitero. Se renegar, o que sinceramente duvido, ótimo. Estaria aberto o caminho para aceitar o compromisso de não lesar a democracia e respeitar a Constituição. Se não renegar, o compromisso (que até agora de forma inequívoca não houve, haja vista a recorrente afirmação de regulamentar a imprensa), será hipócrita, oco, mero engodo para obter apoios políticos e votos. Outra razão alegada pelos adesistas (kerenskys de 2022), a expectativa de condução responsável da economia, mesmo com atropelos na prática democrática. Haverá tal condução? Análise madura, enraizada na experiência anterior e na história de partidos semelhantes, apontam para destruição dos fundamentos saudáveis da economia, três dos quais, já se vê, inexistirão certamente: âncora fiscal, segurança jurídica, atração de investimentos. Daí, menos emprego, menos renda, salários mais baixos. O que se ouviu até agora da parte de economistas e figuras do setor financeiro foi decepcionante, para dizer o mínimo, aceitação de um cheque em branco. Na prática, a coligação lulista recebe os apoios, mas continua nadando no pântano das ambiguidades. Nenhuma clareza, nenhum compromisso formal.

 

Retrocesso, atraso, obscurantismo. A ausência de limpidez, a fuga célere dos esclarecimentos, a obscuridade empregada como arma política, a persistente e difusa ambiguidade, a manutenção obstinada incerteza quanto aos rumos, a confusão em que potenciais aliados são mantidos, a opacidade cultivada (não transparência) geram profunda suspeição quanto à conduta futura, degradam a vida pública e adensam o ambiente obscurantista, já pesadamente tóxico. São retrocessos na dura caminhada nacional rumo a uma vida pública decente. Esta ambiguidade, contudo, no caso esconde clareza solar, facilmente perceptível para observadores atentos. As razões últimas do procedimento petista são diáfanas: já existem os compromissos e as intenções e eles não serão abandonados. No máximo, se pressionados, serão aplicados com gradualismo ▬ é programa de asfixia progressiva de direitos, possibilidades e liberdades.

 

Embuste e exclusão social. Uma vida pública estaqueada despudoradamente sobre a ambiguidade significará a aceitação permanente do embuste como componente da política brasileira. Levará para a exclusão, afugentará da benéfica participação nos assuntos do bem comum milhões e milhões, dispersos em todas as condições sociais, desgostosos com o ambiente carente de decência, clareza e firmeza. O que, obviamente, dificultará a inclusão social crescente, sempre urgente, proveitosa e necessária dos excluídos da sociedade brasileira. Inibirá avanços civilizatórios.

 

Democracia fake como recurso eleitoral. Para legitimamente afirmar que o PT e Lula representam garantia democrática, já disse e repito por necessário, é indispensável deles exigir previamente a censura às ditaduras liberticidas do mundo inteiro. Não quer a democracia e nem a garante quem apoia Cuba, Venezuela, Nicarágua, Rússia e China. E repetidamente os apresenta como inspiração. Todos viram, os tiranos no mundo inteiro ficaram eufóricos com a vitória de Lula no 1º turno. A euforia das tiranias evidencia rumo incontroverso em possível vitória petista. Exemplo disso constitui a carta jubilosa de Daniel Ortega, o cruel ditador da Nicarágua, que anda encarcerando os bispos católicos que cometem a ousadia suprema de discordar de sua repressão dos anseios populares: “Querido companheiro e irmão Lula: a luta continua e a vitória é certa, estamos com vocês, com Rosângela, Dilma, Gleisi, percorrendo novos caminhos”.

 

Princípios liberticidas. Não basta exigir que reneguem o comportamento. Por obrigação de coerência, imposição da incoercível força da lógica, é preciso ir além e mais fundo. A persistente e reveladora conduta liberticida do PT, que vem desde sua fundação há mais de 40 anos, apoiando por todos os modos, até financeiramente, tiranias mundo afora (antidemocráticas, em outras palavras) está em consonância com seus princípios fundacionais; melhor, decorre deles. Uma coisa é pendor autoritário, outra, pior, é doutrina totalitária. E é totalitária a doutrina fundacional do PT, alma propulsora da organização e de seu modo de agir, nunca renegada, exposta, aliás, de modo aberto, em sua “Carta de Princípios”, datada de 1º de maio de 1979, postada há anos com destaque no site do partido. Proclama ali basear sua concepção de governo na democracia direta ▬ nenhuma palavra de compreensão para a democracia representativa ▬ dirigida pelos trabalhadores [uma das maneiras de afirmar que visa o governo dos sovietes]: “[o PT] afirma, outrossim, que buscará apoderar-se do poder político e implantar o governo dos trabalhadores, baseado nos órgãos de representação criados pelas próprias massas trabalhadoras com vista a uma primordial democracia direta”. Conselho de trabalhadores; soviet em russo é conselho. Não só o PT desperta preocupação. O mais importante aliado do PT na chapa, o PSB, tem programa descarado (meta ambicionada, a ser perseguida paulatinamente) que nega a propriedade privada no campo ▬ estatização total. No futuro, segundo os delírios programáticos do PSB, o agro nacional será composto de grandes fazendas estatais, “kolkhozes”, modelo já aplicado por décadas, para ser claro. O PSB em seu programa reconhece disfarçadamente realidade em geral ocultada: o desastre pavoroso do atual modelo de reforma agrária que empilha fracassos, vai abandoná-lo. O texto traz pequena concessão ao estatismo delirante: para pequenas propriedades, será facultado usufruto para particulares, quando necessário, mantido o domínio estatal. Aqui vai o programa do PSB, postado no site do partido: “Da terra: a socialização progressiva será realizada [...] organizando-se em fazendas nacionais e fazendas cooperativas assistidas. [...] O programa de latifúndio será resolvido por este sistema de grandes explorações, pois sua fragmentação trará obstáculos ao progresso social. [...] Será facultado o parcelamento das terras da nação em pequenas porções de usufruto individual, onde não for viável a exploração coletiva”. Não esclarece se o domínio das fazendas coleitvas será do Estado; é o que seria coerente com a inspiração geral do programa de funda raiz socialista, ódio à propriedade particular. De outro modo, dezenas de milhões de empregados do Estado ou dele dependentes, sujeitos a gigantescas estruturas burocráticas. Receita certa para atraso, retrocesso, tirania, pobreza, roubalheira. E o modelo conselhista de governo (sovietes), ambicionado pelo PT, também, na prática, trouxe, não o mítico governo dos trabalhadores, mas a tirânica direção burocrática partidária do Partido Comunista, que tudo esmagou. Tirania e pobreza para o povo, no meio do desperdício generalizado, roubalheira correndo solta, atrofia e asfixia sociais. É o resultado, já comprovado pelas experiências históricas, da aplicação na prática dos delírios ideológicos do PT e do PSB. De momento, realidade macabra que nos ameaça, de momento pelo emprego amplíssimo do embuste, ainda que com aplicação compassada.

terça-feira, 30 de agosto de 2022

Relho no agronegócio

 

Relho no agronegócio

 

Péricles Capanema

 

Na superfície, afagos; na profundidade, recado com ameaças. Em relação ao agronegócio, as palavras de Lula na recente entrevista ao Jornal Nacional tiveram duas profundidades. Na superfície, a renovada tentativa de dissolver resistências, buscar aproximação, tudo fazer para obter votos. Mais fundo, foram advertência, aviso; potencial, mas efetiva declaração de guerra, condicionada à atitude do agronegócio em relação ao possível novo governo de esquerda. Se a reação for ativa e lúcida, o petismo tentará esmagá-la até as raízes, como foram triturados os adversários em Cuba, Venezuela e Nicarágua, cujos governos ▬ sempre convém lembrar, a recordação sinaliza possíveis rumos futuros entre nós ▬ são admirados e festejados pelos líderes do PT.

 

“No opposition, Thomas”. Enquanto lia ou assistia a trechos da referida entrevista, em sequência me assaltavam a mente cenas impressionantes do filme “A man for all seasons” ▬ “Um homem para qualquer situação” em tradução livre; aqui no Brasil teve o título “O homem que não vendeu sua alma”. No trecho memorado, Henrique VIII estava em visita a são Tomás Morus, então chanceler do Reino (1529-1532), espécie de primeiro-ministro. O rei convidou o anfitrião para caminhada no amplo parque da residência, bonito casarão rural. No meio de amabilidades, de quando em quando, o monarca inglês repetia: “No opposition, Thomas, no opposition”. Não admitiria oponentes ao seu novo casamento, nem mesmo do homem público mais importante da Inglaterra. Aviso claro. A conversa entre os dois retomava o tom jocoso e cordial. Em suma, são Thomas Morus poderia fazer o que quisesse, teria honras ainda maiores das que já havia recebido, desde que não fosse, nem parecesse opositor ao repúdio arbitrário de Catarina de Aragão e enlace posterior com Ana Bolena. “No opposition Thomas”. No caso, foi intolerável até o silêncio de Tomás Morus (à vera eloquente e inequívoco) a respeito do divórcio real. O crime venceu; depois de processo escandaloso, o chanceler foi decapitado em 1535, tinha 57 anos. A Igreja Católica o canonizou como mártir. O paralelismo das situações ficava marcante para mim. Na entrevista referida, cordialidade, certo tom jocoso, brincadeira; pelo meio, recados. Será perseguido o agronegócio se fizer oposição eficaz ao eventual novo governo petista. A ameaça valia em particular para seus setores mais atuantes na esfera pública. Como aconteceu com as oposições na Nicarágua, Cuba e Venezuela (trucidadas), governos amigos e apoiados pelo petismo, reitero.

 

Confusão dissimulação, ameaças. A entrevistadora Renata Vasconcellos (RV) afirmou, o agronegócio [em linguagem caseira, os fazendeiros, os produtores rurais, os que vivem do campo e fazem negócios relacionados com a agricultura e pecuária] ou pelo menos “grande parte” dele não apoiava o candidato Luiz Inácio Lula da Silva (LILS). Lula respondeu: “A nossa luta contra o desmatamento faz com que eles sejam contra nós”. RV treplicou: “Mas o agronegócio e o meio ambiente caminham juntos”. Lula discordou: “Eles são contra”. Ou seja, o agronegócio é contra o meio ambiente; de outro modo, agride o meio ambiente. RV ponderou que Lula parecia dizer que o agronegócio “faz oposição ao meio ambiente”. LILS foi claro: “Faz”. RV discordou: “O que não é verdade”. Lula reiterou em frase confusa, mas de intenção e compreensão clara: “O agronegócio sabe que é fascista, é direitista, porque os empresários sérios que trabalham no agronegócio, que têm comércio com o exterior, que exportam para a China, esses não querem desmatar. Mas você tem um monte que quer”. Saem do foco os exportadores (por interesse); a acusação de “fascista”, direitista” e “desmatador” cai sobre o “monte” de empresários do agronegócio, presumivelmente a maioria. Política clara, derrocar o monte. Continua a cantilena, apontando o futuro para a região amazônica: “Nós não precisamos plantar milho, soja ou cana, nem criar gado na Amazônia”. RV pergunta sobre um ponto central: “E qual será o papel do MST no seu governo?”. Lula não responde, saiu pela tangente, dizendo que o MST hoje produz e que está muito diferente do que era trinta anos atrás.

 

O agro sentiu o clima tóxico e percebeu as ameaças de perseguição. O “monte” foi gratuita e injustamente acusado de “fascista” e “desmatador”. De outro modo, composto de gente criminosa. O agro sentiu que, com instrumentos de governo da mão, esta será a atitude do petismo quando no governo. Foi advertência, recado. Ou acerta o passo, ou será perseguido implacavelmente pelos gabinetes do ódio do petismo, já hoje estruturados.

 

Retrocesso e exclusão. Virão à pencas acusações aptas para estear processos, tão ou mais gratuitas e vazias que as objurgações de Lula arremessadas na entrevista ao JN contra um setor que está garantindo o avanço econômico do Brasil, impedindo o retrocesso que virá com a aplicação do programa demolidor. Retrocesso cheio de espinhos, empobrecimento, agonia da liberdade, asfixia das possibilidades de crescimento. Fortíssima exclusão dos brasileiros das trilhas da prosperidade.

 

Em legítima defesa, enérgicas tomadas de posição. De norte a sul, associações de produtores rurais reagiram com intrepidez, autorizando esperanças de um futuro brasileiro livre e próspero. O “monte” se revelou repositório de promessas salvíficas, oxalá nunca sofra derrocadas. Destaco aqui algumas poucas manifestações, tiradas de baú onde se juntam dezenas, talvez centenas, de brados de indignação semelhantes. Resumem a inconformidade dos produtores rurais e expressam com fidelidade o teor dos argumentos esgrimidos. A FAEC (Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará) divulgou nota de repúdio, na qual afirma, as acusações de Lula foram “levianas e criminosas”. Apregoa ainda a nota: “Ao qualificar o agronegócio como ‘fascista’ o candidato demonstra completo desconhecimento da realidade. Diferente do candidato, que nega o assalto aos cofres públicos da Nação quando estava no poder ▬ crime confessado por seus partidários ▬ os produtores rurais que fazem o agronegócio brasileiro são trabalhadores incansáveis. Durante a crise da covid o agronegócio brasileiro não parou. Fez isso, apesar dos delinquentes que invadem terras e atrapalham quem verdadeiramente produz. Delinquentes que contam com o apoio do candidato. A FAEC subscreve as palavras o presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), João Martins, que afirmou ‘não há mais espaço nesse país para uma equipe corrupta e incompetente; e muito menos para o retorno de um candidato que foi processado e preso como ladrão’”. Por seu lado, a Federação de Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul denunciou igualmente a forma leviana e criminosa com que Lula qualificou os integrantes do agronegócio no Brasil. Finalmente, a Associação Brasileira de Criadores de Zebu, por intermédio de seu presidente, divulgou nota de repúdio da qual destaco: “A Associação Brasileira dos Criadores de Zebu vem a público manifestar seu repúdio às declarações do candidato à presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva, proferidas nesta quinta-feira (25) em entrevista ao Jornal Nacional, da Rede Globo. Durante sua participação no telejornal, Lula nominou como ‘fascista’ o agronegócio brasileiro, demonstrando completa ignorância sobre a importância e a realidade do nosso setor”.

 

Relho no agronegócio. Foi dado o recado, está posta a tentativa de intimidação. Como enfrentá-la? Pela inconformidade cada vez mais acesa, lúcida e refletida. Fervor, devoção, sacrifício, lucidez, reflexão. Só assim o chicote do autoritarismo de inspiração soviética, ameaça de fato contra todo o povo brasileiro, não lanhará as costas do agronegócio. Perseverando em tal conduta, o setor conseguirá com rapidez o oposto: a expansão, aumento da credibilidade assim como da respeitabilidade; e finalmente, a vitória de seus objetivos.