A Escola de Frankfurt: mitos e realidade em olhar
retrospectivo
Péricles Capanema
Toxinas duradouras
Em 14 de março último faleceu Jürgen Habermas (1929-2026),
em nossos dias principal figura da Escola de Frankfurt (2ª geração). Anos
antes, 12 de janeiro de 2020, falecera sir Roger Vernon Scruton (1944-2020),
renomado scholar inglês, autor de pertinentes críticas, amplamente divulgadas,
à referida escola. Dos dois, não tratarei, fogem deste foco. A eles aludi
apenas para dirigir a atenção dos leitores para corrente de ideias que não
morreu, repercute a todo momento, embebe ambientes e, à vera, está muito viva e
intoxica o mundo inteiro. Viva, note-se, mormente em seus rebentos. O assunto
do artigo é a Escola de Frankfurt, aventado embora de forma sintética. Reitero,
porém, é a matéria, ainda que por vezes envolta em mitos, de enorme importância.
Já de há muito, décadas, as doutrinas de contestação e análises da sociedade
atual que ali tiveram nascedouro estão na raiz de grande parte do labor de desmanche
do que chamamos civilização ocidental, realizado sobretudo pelas correntes de
esquerda e por setores chamados progressistas, mesmo quando atacam o progresso.
De fato, regressistas.
Rebentos peçonhentos
Com efeito, os fármacos dos laboratórios frankfurtianos
constituíram ingredientes essenciais do arcabouço doutrinário de correntes de
opinião que depois se espalharam mundo afora, ▬ com frequência se diluindo para
facilitar a difusão ▬, sempre carregadas de toxinas mortíferas, moldando
personalidades e instituições. No meio da investida generalizada, entre tais
movimentos de desagregação, destaco aqui a contracultura, a revolta estudantil,
principalmente a dos anos 60, os ataques ao capitalismo, a agenda LGBT. Ainda
se poderiam lembrar a recusa da família monogâmica, da sociedade patriarcal, dos
hábitos culturais prevalentes no Ocidente, campanhas contra a chamada discriminação
de gênero, favoráveis a comportamentos libertários, à família plural, ao poliamor.
Tanta coisa mais haveria para colocar, o ataque é multifacético. Releva deixar
dito, de passagem, por vezes tais correntes se aproveitam de vícios reais, que
devem ser combatidos, para alardear propostas corrosivas.
“Um fantasma ronda a Europa, o fantasma do comunismo”
Adiante. A Escola de Frankfurt é, para muitos, avantesma
parecido com o fantasma brandido por Karl Marx e Friedrich Engels no Manifesto
Comunista de 1848: “um fantasma ronda a Europa, o fantasma do comunismo”. O
comunismo não foi apenas fantasma aterrorizador; foi e é flagelo pavoroso. A
Escola de Frankfurt não é apenas fantasma aterrador; foi e é flagelo destrutor de
enorme expansão, em especial no campo das concepções, dos costumes e da
consciência revolucionária, minadouro de torrentes hoje intituladas em geral de
“marxismo cultural”. Anos atrás, era apodada comumente de marxismo ocidental. Algumas
palavras, pingos históricos, para leitores que talvez dela nunca tenham conhecido
senão fiapos ou até nada tenham escutado.
Uma comparação pode lançar luz. Os fenômenos da
estratosfera, ainda que despercebidos da maioria, regulam o clima. A Escola de
Frankfurt foi fenômeno sobretudo de estratosfera. Na troposfera, onde ocorre o
turbilhão dos fatos, o olhar desatento usualmente exclui referida corrente de
ideias de sua atenção. Contudo, a mirada percuciente perceberia suas causas nas
ocorrências da troposfera. Sob outra luz, por sua doutrina e análises, a Escola de Frankfurt não criou diretamente
os movimentos sociais revolucionários mais em evidência, mas forneceu o
arcabouço filosófico e sociológico que fundamenta sua ação.
Empurrando de lado o folhetinesco
Desconsidero, convém notar, para avaliar a importância do
“fenômeno Frankfurt”, o que tantas vezes em literatura folhetinesca se tacha
com o rótulo vago de teorias da conspiração. No rumo oposto, considero a enorme
lida doutrinária e de análise sociológica produzido pelas penas dos corifeus de
tal escola ▬ produção e oferta regidas pelas leis da vida intelectual ▬ que
encontraram eco ao longo dos anos sobretudo nas universidades, partidos
políticos, sindicatos, igrejas, em dezenas de milhões de espíritos ávidos de
justificação para sua ação revolucionária ▬ demanda e consumidores. Reitero, eles
consumiram (colocaram em miúdos, esclareceram, adaptaram, ampliaram, divulgaram)
o material intelectual que vinha dos formuladores doutrinários da escola de Frankfurt.
Outro ponto a notar é que de há muito a ação das correntes revolucionárias, em
boa medida, mesmo com doutrina ainda articulada insuficientemente, já era consonante
com as doutrinas explicitadas e postas em evidência no século 20 por
frankfurtianos. O papel delas em parte foi tornar claro, fundamentado, notório e
inquestionável o rumo que deveria ser tomado. Apenas, como exemplo, vários
movimentos das correntes apodadas pelos marxistas de socialismo utópico já agiam
amplamente de acordo com elas, ainda que não as pudessem formular.
Pedras no caminho
Em 1917, Lenine tomou o poder na Rússia e, inspirado no marxismo,
iniciou a implantação do comunismo em área de mais de 22 milhões de quilômetros
quadrados, onde viviam cerca de 170 milhões de pessoas. Fulgiam imensas a
oportunidade e a esperança revolucionárias. Recordando a utopia coletivista da
época, ali começava a era dos “amanhãs que cantam”. Imaginava boa parte dos revolucionários,
quem sabe a maioria, os amanhãs que cantam constituiriam propaganda
irresistível para o socialismo. E assim, para amplos círculos de esquerda
política e de setores progressistas, vitórias esmagadoras pairavam iminentes.
Operariado reticente, prognósticos falsos
Contudo, já no começo da caminhada padeceram dificuldades
enormes. Evoco algumas: com ares de perene se petrificava ditadura feroz na
Rússia, caía o nível de vida do operariado russo e, mais próximo e mais lacerante,
nos países ocidentais o operariado não votava majoritariamente no comunismo. Contingentes
enormes da classe operária lhe tinham repulsa. Em sentido contrário, os
partidos burgueses, no geral, carreavam a maioria dos votos dos trabalhadores. A
mais, revelavam-se falsos os prognósticos do marxismo. Repasso alguns: não
havia revolta notável no proletariado, os salários subiam, a classe média
aumentava, a propriedade se disseminava. No horizonte, não aparecia no panorama
o mítico sujeito revolucionário, o operariado cada vez mais explorado, cada vez
mais revoltado. De outro modo, o marxismo se revelava instrumento errôneo para análise
da realidade. Era incoercível, nas hostes revolucionárias, aos milhões, começavam
a grassar desconcerto e incompreensão, lavravam sintomas reveladores de
desagregação, não raro o desânimo. Qual a razão da recusa maciça e das falhas
da doutrina? Ou quais as razões? A Escola de Frankfurt as buscou. E Gramsci
também.
Fundo de bom senso natural, patrimônio milenar
Tal situação de recusa, aliás, persistiu e até se agravou
em muitos casos. Em 1965, o prof. Plinio Corrêa de Oliveira observou em seu
ensaio “Baldeação ideológica inadvertida e Diálogo: “Há cem anos – em números
redondos – vem o comunismo pregando às populações operárias do mundo inteiro a
revolução social, o morticínio e a pilhagem. Para essa pregação, dispôs ele
quase continuamente, ao longo desse século, de inteira liberdade de pensamento
e de ação, em quase todos os países. Tampouco lhe faltaram recursos financeiros
imensos, bem como especialistas e técnicos dos melhores, em matéria de
propaganda. A despeito de tudo isso, as multidões se têm manifestado, em sua
grande maioria, pouco sensíveis aos acenos – que tão facilmente as poderiam
fascinar – da demagogia marxista. Em nenhum país o comunismo logrou jamais a
conquista do poder por eleições honestas. A causa desta insensibilidade está em
parte no fato de que em muitos lugares se melhorou consideravelmente a situação
das classes necessitadas. Mas é preciso não exagerar o alcance ideológico de
melhorias tais: em algumas regiões, como o Norte da Itália, por exemplo, em que
as condições do operariado não cessaram de progredir depois da segunda guerra
mundial, o comunismo alcançou desconcertantes êxitos eleitorais. A causa da
insanável inviabilidade da vitória comunista através das urnas está também, em
alguma medida, na resistência que ao marxismo opõe o fundo de bom senso natural
que constitui o patrimônio milenar e comum da humanidade. Este bom senso se
choca com o caráter essencialmente antinatural que se mostra em todos os
aspectos do comunismo. Nos povos de civilização cristã, a esse fator se
acrescenta a incompatibilidade do espírito, da doutrina e dos métodos marxistas
com o espírito, a doutrina e os métodos da Igreja. Da conjunção destes
obstáculos é que decorreu o fato inconteste e imensamente significativo de que
– repetimos – em cem anos de existência e ação, nenhum partido comunista tenha
logrado tornar-se majoritário em qualquer país. Sobre este fato jamais será
suficiente insistir, se quisermos ver em sua real perspectiva os obstáculos que
o comunismo tem por frente.”
Hegemonia cultural esteada no bom senso
O tema requer ampliação de horizontes, a saber, inclusão do
pensamento de Antônio Gramsci (1891-1937), dirigente do Partido Comunista
Italiano. Gramsci não teve relação pessoal com integrantes da Escola de
Frankfurt, mas o mesmo quadro de fundo os preocupava. Deveras, o problema não
atazanava apenas intelectuais marxistas alemães, era universal. Gramsci, por
anos, encarcerado, em cerca de trinta cadernos, anotou observações, reflexões, doutrina,
material depois compilado em obra póstuma, os “Cadernos do Cárcere” (1ª edição
entre 1948 e 1951). O problema que ele queria ver resolvido tinha um centro: o
povo, mesmo o mais modesto operariado, não adere ao comunismo, apesar de todas
as promessas. Por quê? Por causa do sentido comum, sintetizou Gramsci. Sentido
comum em Gramsci tem significado próximo do nosso bom senso. Mas vai além. Inclui
o que ele chama cultura. Gramsci para tal cunhou a expressão “hegemonia cultural”.
As classes dominantes, jargão dele, detêm normalmente a hegemonia cultural. A população
considera normais (constituem parte do seu sentido comum) instituições, valores
e hábitos que cimentam a ordem vigente. Ordem vigente, no caso analisado por
Gramsci, a Itália, era constituída pelos ecos ainda muito audíveis da ordem
temporal cristã. Enquanto persistisse aquela hegemonia cultural, seriam instáveis
e enganosos os triunfos de ordem política ▬ vencer eleições e tomar governos. O
triunfo efetivo do comunismo só viria com a criação de outra “hegemonia
cultural”, alcançada mediante a “guerra de posição”, desencadeada contra a então
cultura dominante, com a concomitante articulação de um bloco hegemônico, labuta
de décadas, talvez de mais de século.
Longa Marcha através das instituições
Ecoando a nomeada da Longa Marcha dos comunistas chineses
(1934-1935), o líder universitário Rudi Dutschke (1940-1979), principal figura
das revoltas estudantis nos anos 60 na Alemanha, cunhou em 1967 a frase “der
lange Marsch durch die Institutionen” ▬ (a Longa Marcha através das
instituições) ▬ para indicar a nova tática comunista (gramsciana, é verdade) de
conquista gradual das mentalidades, da sociedade civil e do poder. Mais que a
tática leninista da conquista violenta do Estado, geradora da ditadura
soviética, propunha Dutschke a revolução cultural lenta, mediante a ocupação
paulatina dos meios de divulgação, academia, órgãos públicos, modificações no
interior das famílias etc. A conquista política chegaria depois, seria estável,
e em consequência da ação anterior.
Ofensiva em cinco frentes
Para conseguir mudar a cultura (de fato, em nossa
linguagem, melhor, a civilização; estruturas, valores, princípios, hábitos que
esteiam e embebem uma ordem temporal), Gramsci indicou a necessidade de agir em
cinco frentes em sua “guerra de posição”. De outro modo, em vez de um assalto
frontal e violento ao Estado (“guerra de movimento”), ocupação gradual das
instituições da sociedade civil:
1ª) Meios de divulgação. Jornais, revistas, rádio e
livros que formam a opinião pública e moldam o senso comum. Hoje seria preciso
incluir TV e redes sociais. Em resumo, embebê-los de pessoal revolucionário e,
com linguagem revolucionária, torná-los veículos de formação, propaganda e
intimidação.
2ª) Igreja. Gramsci analisava a Itália, referia-se
especificamente à Igreja Católica. Tem grande capilaridade a Igreja, vai até a
ponta da sociedade, unifica visões de mundo (Weltanschauung), forma valores
morais, orienta o comportamento. O Clero, religiosos, teólogos, professores das
instituições educativas católicas precisavam ser propagadores da nova hegemonia
cultural. Contudo, combatidos, silenciados, no caso de constituírem obstáculos
a ela.
3ª) Academia e Escola. São os locais de formação dos
intelectuais, propagam ideologias, desenvolvem consciência crítica. Para o
pensador italiano, os intelectuais organizam a cultura e a sociedade. Constroem
a hegemonia ▬ de ideias, moral, política. Sem eles, não é factível a hegemonia
cultural, nem o bloco hegemônico.
4ª) Família. Base primária, é o espaço inicial de socialização
e coerção, molda condutas, transmite valores, as primeiras e mais fundamentais
noções de autoridade, comportamento e visão do mundo. Normaliza o modo de vida e
a disciplina social vigentes. Tem aqui sua raiz o senso comum.
5ª) Partidos políticos e sindicatos. Formam, coordenam, formulam
projetos. O partido político na Itália tinha funções de agregação, formação e
ação. Era o “intelectual coletivo”, organizaria a vontade das classes subalternas,
trabalharia pela hegemonia, rumo à mudança na sociedade.
Pela ação contínua no interior de tais grupos se formaria,
com base popular crescentemente estável, o consenso revolucionário,
atingir-se-ia, por fim, a hegemonia cultural, da que derivaria o bloco
hegemônico. Em duas palavras, acima, linhas gerais da doutrina e práxis
gramscianas. Eram necessárias para bem colocar o foco nas doutrinas da Escola
de Frankfurt.
Esboroamento na doutrina e nos fatos
Na origem, dificuldades graves, já em parte acima
relatadas, formaram o caldo de cultura dentro do qual germinou a referida escola.
Assombrava o fato bruto, percebido por todos: no “socialismo real” (a Rússia
soviética) inexistiam amanhãs que cantam, mas apareciam cada vez mais amanhãs
que urravam de opressão, fome, dor e desespero. E no Ocidente, o operariado não
aderia ao comunismo, nem se esforçava pela revolução social. Sua ambição
generalizada, percebida com facilidade, pelo contrário, era melhorar de vida, imitar
no possível o estilo de vida burguês. Estava notório, a doutrina tinha furos. De
outro ângulo, aos olhos de muitas correntes imbuídas de comunismo se apagava a
credibilidade da utopia marxista.
Busca da solução
Como sair da enrascada? Trato aqui de Frankfurt, atalho
entre vários tentados, de fato, o mais relevante. Outras tentativas existiram, em
geral, caminhos empedrados de fracassos. Como disse, estão fora do âmbito do
presente afã.
Alicerces
Em 1923, o acadêmico Félix Weil, jovem marxista
milionário, doou os recursos necessários para a fundação do “Institut für Sozialforschung”
[Instituto de Pesquisa Social], que deu corpo definido a um grupo destacado de
intelectuais marxistas, depois conhecido como a Escola de Frankfurt. O nome preferido
inicialmente foi “Instituto de Pesquisas Marxistas”, logo abandonado; o primeiro
diretor escolhido foi György Lukács (1885-1971), intelectual marxista húngaro,
considerado precursor da Escola de Frankfurt. Natural o nome: o instituto,
ligado à universidade de Frankfurt, funcionava nesta cidade; tinha ali um edifício
de sete andares. Com a ascensão do nazismo, seus líderes (a maioria de
ascendência judaica) fugiram da Alemanha e se estabeleceram em especial nos
Estados Unidos. O instituto foi transferido em 1934 para Nova York, ligou-se à
Universidade de Colúmbia e só voltou para a Alemanha em 1950. Herbert Marcuse
permaneceu na Califórnia.
Radicalismos novos
Foram anos de lida, publicações, congressos. No curto, a
solução revolucionaria foi encontrada aos poucos e teve seu rumo, caracterizado
por (i) radicalizar a proposta revolucionária em vigor [o marxismo leninismo
que fracassava]; (ii) aprofundar a dissolução até o interior da família [caldo
de cultura e nascedouro da sociedade hierárquica]; (iii) e ainda do próprio
homem [p. ex., personalidades intituladas de autoritárias e com vincos que
perenizavam a ordem antiga], sem a qual repetiriam fracassos evidentes; bem
como (iv) apontar adversários novos, até então despercebidos; (v) ademais de deixar
de lado velharias estorvantes; (vi) e, finalmente, admitir táticas graduais, de
onde poderia vir o triunfo.
“Ni dieu, ni maître”
“Nem deus, nem senhor” ou “Nenhum deus, nenhum senhor”.
Esta conhecida divisa anarquista e socialista do século 19, proclamando desafiante
a rejeição de quaisquer autoridades, divina, política, social ou patronal, poderia
ter sido lema adequado da Escola de Frankfurt. Em relação ao programa do século
19, a difusão de seu pensamento o aprofunda em dois pontos: o esboroamento da
autoridade familiar (com o ataque à formação da chamada personalidade
autoritária) e ainda a denúncia da prevalência da razão (ênfase na
instrumental) reprimindo emoções e instintos no interior das personalidades
(amálgama da psicanálise como divulgada pela referida escola e do freudismo com
o ideário marxista).
Extinguir a dominação, generalizar a emancipação
De verdade, a tarefa levada a cabo pela Escola de
Frankfurt, simplificando, resume-se a duas: extinção da dominação e promoção da
emancipação. Dominação se relaciona com domínio, com senhorio, com senhor
(dominus). Em todas as esferas, o mal causado pelo senhorio precisaria ser
erradicado. A dominação acabará com a generalização da emancipação (ou
desalienação). A etimologia de emancipar também esclarece muito. Emancipare
(latim) junta o prefixo ex (fora, afastamento) com mancipium (ato de tomar
posse, agarrar); por sua vez este junta manus (mão) e capere (pegar, capturar).
Alienare significa entregar a outro Numa palavra, é o programa para livrar-se da
ascendência do outro, qualquer deles, Deus, pai, mãe, patrão, razão.
Corifeus
Enumero a seguir alguns de seus mais conhecidos corifeus.
Max Horkheimer (1895-1973), criador da Teoria Crítica, corpo doutrinário central
nas concepções da Escola de Frankfurt, exposta no livro “Dialektik der
Aufklärung (Dialética do Iluminismo). Dominação e emancipação são os conceitos
vetores na Teoria Crítica. A razão no iluminismo teria se tornado instrumento
de dominação, degenerou-se, passou a tratar a natureza e o homem como objetos
de exploração, gerando uma nova forma de servidão e alienação. Foca a denúncia
no que qualifica de razão instrumental, orientada para o cálculo, utilidade e
eficácia. A ciência e a técnica passam a ser instrumentos de escravização,
úteis para dominar a natureza e outros seres humanos. Theodor Adorno
(1903-1969). Com a “Crítica do Iluminismo”, escrita em conjunto com Horkheimer,
também procurou derruir a crença na primazia acrítica da razão, considerada instrumento
de dominação. A Revolução Francesa colocou uma mulher, escassamente vestida,
representando a deusa Razão na catedral de Notre-Dame. Era símbolo da posição
revolucionária no ápice na época, a razão humana, finalmente libertada de
preconceitos, deveria ser adorada. Inauguraria época ade felicidade, liberdade
e progresso. Sobre tal base mítica se edificou o século 19, grande parte do 20.
Até hoje sobe tais pressupostos se edifica largamente a estrutura da presente civilização.
As doutrinas de Adorno (e de Horkheimer) derrubavam tal divindade, vista como
opressora, fator de dominação, obstáculo à igualdade. Antônio Gramsci não levou
seu extremismo revolucionário ao ponto de atacar a primazia da razão como
ordenadora da conduta humana. Neste ponto, e em vários outros, foi homem do
Iluminismo. Walter Benjamin (1892-1940). Abre caminho para a arte revolucionária,
distanciada e contestatária de seus conceitos clássicos. Contestou a ideologia
do progresso “incoerente, imprecisa”. Via o nazismo como expressão patológica do
Iluminismo, da modernidade civilizada. Benjamin suicidou-se quando fugia do
nazismo, pouco antes de atravessar a fronteira francesa. Erich Fromm (1900-1980),
psicanalista, denunciou as regras morais como opressoras, causa de neuroses, propugnava
a vida e a sociedade libertárias. Foi um integrante do grupo de Frankfurt que
procurou unir marxismo e psicanálise, criando o chamado freudo-marxismo e a
psicologia social analítica. A estrutura econômica da sociedade moldaria
desejos e comportamento. O indivíduo internalizaria (aspiraria) tal realidade,
da qual precisaria se emancipar. No mesmo rumo de Fromm, convém lembrar, entre
outros, Wilhelm Reich (1897-1957) e Otto Fenichel (1897-1946). Herbert Marcuse
(1898-1981), por muitos anos o mais célebre dos membros da Escola de Frankfurt,
por ser considerado o guru dos movimentos estudantis libertários na Califórnia
nos anos 60, sobretudo em Berkley, e do maio de 68 francês ▬ diga-se de passagem,
não apenas francês, nem só californiano, foi universal a contestação libertária,
de raiz anarquista.
Novos sujeitos revolucionários
As concepções de Herbert Marcuse tiveram repercussão
mundial. Entre elas, uma embebeu a bem dizer toda a esquerda e o progressismo.
Marcuse afirmava, nos maiores países capitalistas a classe operária tinha
perdido seu potencial revolucionário. Buscava o bem-estar próprio, não era o “sujeito”
da revolução, concebido em teoria. Os novos “sujeitos” estavam alhures; eram os
grupos marginalizados e periféricos que sofriam com o sistema vigente, estudantes
radicais, minorias raciais, imigrantes, movimentos feministas e
contraculturais, negros, índios, inimigos da família tradicional, grupos
favoráveis ao fim da repressão dos desejos sexuais. Hoje se acrescentariam
outros, como o “Sul Global”, os adversários de Israel; enfim, quaisquer pessoas
ou grupos que contestam o Ocidente, seus esteios, em particular o sistema capitalista
e os Estados Unidos. São os novos “sujeitos” da revolução. O conjunto de tais
movimentos formaria o que Marcuse chamava “A Grande Recusa”, negação inteira
dos valores da então ordem prevalente. A transformação não viria maiormente de fenômenos
econômicos, mas de oposição cultural, moral e de vida aos fundamentos da
civilização ocidental.
Além do marxismo
A Escola de Frankfurt, com contribuições de Horkheimer,
Adorno, Benjamin, Fromm, Reich (inalou o mesmo ambiente de marxismo
contestatório) uniu ateísmo, marxismo, freudismo, psicanálise, radicalizou-os,
dando origem a um corpo doutrinário que serviu de base, já a partir dos anos
30, para todo o movimento contestatário da civilização ocidental. E assim, junto
com o gramcismo, suas concepções fizeram parte do arcabouço doutrinário da maior
parte da esquerda política e correntes ditas progressistas sobretudo a partir
dos anos 50. Expandiu-se, influenciou pensadores em diversos países, caminhou junto
com eles, como por exemplo Foucault e Derrida, investindo contra a modernidade,
nascida do Iluminismo, as intituladas várias formas de dominação, inclusive a
da razão. Estamos diante de corpo de doutrinas articulado que, sem muitas vezes
o confessar abertamente, nega os fundamentos do marxismo. Abreviando, amplia o
campo de análise, recusa, em suma, suas distinções estáticas e rígidas, seu
caráter mecanista e determinista, que amputa largas faixas da realidade. O uso
consagrou, contudo, expressões como marxismo ocidental, marxismo cultural,
marxismo freudiano. Terão vida longa. Vejamos. Recordando, o fundamento filosófico
do marxismo é o materialismo dialético ▬ nada existe além da matéria. A matéria
está em constante mutação, impulsionada por contradições internas. São forças opostas
em conflito, forças de afirmação (tese), oposição (antítese) e superação
(síntese), que incorpora os estágios anteriores. Mudanças graduais e
quantitativas se acumulam e, em certo momento, geram mudança qualitativa. Em síntese,
é isso. São postulados apriorísticos, sem provas de qualquer natureza. Quando o
método é aplicado ao estudo da sociedade e da história, gera o materialismo
histórico. O movimento rumo ao igualitarismo da sociedade comunista (objetivo) é
determinado pela luta que decorre dos meios de produção e seus instrumentos de produção
que dão origem às relações de produção. Constituem a infraestrutura, a base
econômica da sociedade, que determina e molda a superestrutura. Esta, ideologia,
leis, religião, cultura, instituições jurídicas, legitima e mantém o poder da
classe que domina os meios de produção. São também apriorismos, não explicam as
forças que agem no interior do homem, da sociedade e do Estado. Gramsci e a
Escola de Frankfurt, no bruto, como dito, ampliaram o quadro, reintroduziram
temas, que aliás em boa medida já eram estudados nos ambientes da esquerda (p.
ex. nas várias correntes do chamado socialismo utópico). Apresentaram ao mundo
um conjunto ideológico novo (ou pelo menos em alguns casos com roupagem nova), enormemente
destrutivo, que ao mostrar objetivos de maneira explicada e fundamentada, amalgamaram
e enrijeceram correntes revolucionárias, tornando ainda mais letal
(dissolvente, se quisermos) sua ação. A propósito, Jurgen Habermas, em 1987, no
seu “Discurso Filosófico da Modernidade” teve afirmação reveladora: “A Teoria
Crítica foi inicialmente desenvolvida no círculo de Horkheimer para pensar as
decepções políticas com a ausência de revolução no Ocidente, o desenvolvimento
do stalinismo na Rússia soviética e a vitória do fascismo na Alemanha. Ela
deveria explicar prognósticos marxistas equivocados, mas sem romper com as
intenções marxistas”.
Mirada nas brumas do futuro
Em retrospectiva, acima, bosquejos da ação de um
movimento apocalíptico. Agora, a prospectiva. Qual será seu desenvolvimento e influência?
Impossível saber. Como agir? O primeiro passo, conhecê-lo, divulgar sua
fisionomia, histórico, presença nos fatos atuais e potencial de expansão. Foi o
que, com limitações embora, procurou oferecer o presente esforço.