terça-feira, 30 de agosto de 2022

Relho no agronegócio

 

Relho no agronegócio

 

Péricles Capanema

 

Na superfície, afagos; na profundidade, recado com ameaças. Em relação ao agronegócio, as palavras de Lula na recente entrevista ao Jornal Nacional tiveram duas profundidades. Na superfície, a renovada tentativa de dissolver resistências, buscar aproximação, tudo fazer para obter votos. Mais fundo, foram advertência, aviso; potencial, mas efetiva declaração de guerra, condicionada à atitude do agronegócio em relação ao possível novo governo de esquerda. Se a reação for ativa e lúcida, o petismo tentará esmagá-la até as raízes, como foram triturados os adversários em Cuba, Venezuela e Nicarágua, cujos governos ▬ sempre convém lembrar, a recordação sinaliza possíveis rumos futuros entre nós ▬ são admirados e festejados pelos líderes do PT.

 

“No opposition, Thomas”. Enquanto lia ou assistia a trechos da referida entrevista, em sequência me assaltavam a mente cenas impressionantes do filme “A man for all seasons” ▬ “Um homem para qualquer situação” em tradução livre; aqui no Brasil teve o título “O homem que não vendeu sua alma”. No trecho memorado, Henrique VIII estava em visita a são Tomás Morus, então chanceler do Reino (1529-1532), espécie de primeiro-ministro. O rei convidou o anfitrião para caminhada no amplo parque da residência, bonito casarão rural. No meio de amabilidades, de quando em quando, o monarca inglês repetia: “No opposition, Thomas, no opposition”. Não admitiria oponentes ao seu novo casamento, nem mesmo do homem público mais importante da Inglaterra. Aviso claro. A conversa entre os dois retomava o tom jocoso e cordial. Em suma, são Thomas Morus poderia fazer o que quisesse, teria honras ainda maiores das que já havia recebido, desde que não fosse, nem parecesse opositor ao repúdio arbitrário de Catarina de Aragão e enlace posterior com Ana Bolena. “No opposition Thomas”. No caso, foi intolerável até o silêncio de Tomás Morus (à vera eloquente e inequívoco) a respeito do divórcio real. O crime venceu; depois de processo escandaloso, o chanceler foi decapitado em 1535, tinha 57 anos. A Igreja Católica o canonizou como mártir. O paralelismo das situações ficava marcante para mim. Na entrevista referida, cordialidade, certo tom jocoso, brincadeira; pelo meio, recados. Será perseguido o agronegócio se fizer oposição eficaz ao eventual novo governo petista. A ameaça valia em particular para seus setores mais atuantes na esfera pública. Como aconteceu com as oposições na Nicarágua, Cuba e Venezuela (trucidadas), governos amigos e apoiados pelo petismo, reitero.

 

Confusão dissimulação, ameaças. A entrevistadora Renata Vasconcellos (RV) afirmou, o agronegócio [em linguagem caseira, os fazendeiros, os produtores rurais, os que vivem do campo e fazem negócios relacionados com a agricultura e pecuária] ou pelo menos “grande parte” dele não apoiava o candidato Luiz Inácio Lula da Silva (LILS). Lula respondeu: “A nossa luta contra o desmatamento faz com que eles sejam contra nós”. RV treplicou: “Mas o agronegócio e o meio ambiente caminham juntos”. Lula discordou: “Eles são contra”. Ou seja, o agronegócio é contra o meio ambiente; de outro modo, agride o meio ambiente. RV ponderou que Lula parecia dizer que o agronegócio “faz oposição ao meio ambiente”. LILS foi claro: “Faz”. RV discordou: “O que não é verdade”. Lula reiterou em frase confusa, mas de intenção e compreensão clara: “O agronegócio sabe que é fascista, é direitista, porque os empresários sérios que trabalham no agronegócio, que têm comércio com o exterior, que exportam para a China, esses não querem desmatar. Mas você tem um monte que quer”. Saem do foco os exportadores (por interesse); a acusação de “fascista”, direitista” e “desmatador” cai sobre o “monte” de empresários do agronegócio, presumivelmente a maioria. Política clara, derrocar o monte. Continua a cantilena, apontando o futuro para a região amazônica: “Nós não precisamos plantar milho, soja ou cana, nem criar gado na Amazônia”. RV pergunta sobre um ponto central: “E qual será o papel do MST no seu governo?”. Lula não responde, saiu pela tangente, dizendo que o MST hoje produz e que está muito diferente do que era trinta anos atrás.

 

O agro sentiu o clima tóxico e percebeu as ameaças de perseguição. O “monte” foi gratuita e injustamente acusado de “fascista” e “desmatador”. De outro modo, composto de gente criminosa. O agro sentiu que, com instrumentos de governo da mão, esta será a atitude do petismo quando no governo. Foi advertência, recado. Ou acerta o passo, ou será perseguido implacavelmente pelos gabinetes do ódio do petismo, já hoje estruturados.

 

Retrocesso e exclusão. Virão à pencas acusações aptas para estear processos, tão ou mais gratuitas e vazias que as objurgações de Lula arremessadas na entrevista ao JN contra um setor que está garantindo o avanço econômico do Brasil, impedindo o retrocesso que virá com a aplicação do programa demolidor. Retrocesso cheio de espinhos, empobrecimento, agonia da liberdade, asfixia das possibilidades de crescimento. Fortíssima exclusão dos brasileiros das trilhas da prosperidade.

 

Em legítima defesa, enérgicas tomadas de posição. De norte a sul, associações de produtores rurais reagiram com intrepidez, autorizando esperanças de um futuro brasileiro livre e próspero. O “monte” se revelou repositório de promessas salvíficas, oxalá nunca sofra derrocadas. Destaco aqui algumas poucas manifestações, tiradas de baú onde se juntam dezenas, talvez centenas, de brados de indignação semelhantes. Resumem a inconformidade dos produtores rurais e expressam com fidelidade o teor dos argumentos esgrimidos. A FAEC (Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará) divulgou nota de repúdio, na qual afirma, as acusações de Lula foram “levianas e criminosas”. Apregoa ainda a nota: “Ao qualificar o agronegócio como ‘fascista’ o candidato demonstra completo desconhecimento da realidade. Diferente do candidato, que nega o assalto aos cofres públicos da Nação quando estava no poder ▬ crime confessado por seus partidários ▬ os produtores rurais que fazem o agronegócio brasileiro são trabalhadores incansáveis. Durante a crise da covid o agronegócio brasileiro não parou. Fez isso, apesar dos delinquentes que invadem terras e atrapalham quem verdadeiramente produz. Delinquentes que contam com o apoio do candidato. A FAEC subscreve as palavras o presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), João Martins, que afirmou ‘não há mais espaço nesse país para uma equipe corrupta e incompetente; e muito menos para o retorno de um candidato que foi processado e preso como ladrão’”. Por seu lado, a Federação de Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul denunciou igualmente a forma leviana e criminosa com que Lula qualificou os integrantes do agronegócio no Brasil. Finalmente, a Associação Brasileira de Criadores de Zebu, por intermédio de seu presidente, divulgou nota de repúdio da qual destaco: “A Associação Brasileira dos Criadores de Zebu vem a público manifestar seu repúdio às declarações do candidato à presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva, proferidas nesta quinta-feira (25) em entrevista ao Jornal Nacional, da Rede Globo. Durante sua participação no telejornal, Lula nominou como ‘fascista’ o agronegócio brasileiro, demonstrando completa ignorância sobre a importância e a realidade do nosso setor”.

 

Relho no agronegócio. Foi dado o recado, está posta a tentativa de intimidação. Como enfrentá-la? Pela inconformidade cada vez mais acesa, lúcida e refletida. Fervor, devoção, sacrifício, lucidez, reflexão. Só assim o chicote do autoritarismo de inspiração soviética, ameaça de fato contra todo o povo brasileiro, não lanhará as costas do agronegócio. Perseverando em tal conduta, o setor conseguirá com rapidez o oposto: a expansão, aumento da credibilidade assim como da respeitabilidade; e finalmente, a vitória de seus objetivos.

 

domingo, 28 de agosto de 2022

O logro do arroz orgânico

 

O logro do arroz orgânico

 

Péricles Capanema

 

Estacas firmes nos pântanos da credulidade. O PT vive de iludir. Tem vida para muitos anos, infelizmente existe gente à beça que é desatenta, ingênua, ou até que gosta de ser enganada. Caso recente, o elogio do MST como produtor rural, feito por Lula na recente entrevista ao Jornal Nacional. Vamos esmiuçá-lo, olhar de perto, é exemplo valioso do vezo petista de tapear.

 

É essencial diminuir a rejeição. Para ganhar a eleição, o morubixaba petista precisa baixar a rejeição a ele e ao PT, associados no imaginário popular a roubalheira, carestia, amizade com ditaduras. Um dos pontos em carne viva é o MST e logo atrás, na mesma linha, INCRA, invasões de propriedades e reforma agrária. O MST é ainda associado ao terrorismo. Na campanha de 2018, o então candidato Jair Bolsonaro chegou a declarar: “Nós temos que tipificar suas ações [do MST] como terrorismo”. E aqui, decorrência lógica, perseguição ao produtor rural. O pacote macabro tem outros componentes. Em suas gestões, Lula e Dilma, o PT entregou o INCRA às suas bandas mais extremadas. A presidência do INCRA e as superintendências regionais eram consideradas quase como couto da corrente interna Democracia Socialista, que abrigava os setores mais extremados da seita petista. Aboletados no INCRA, os corifeus da Democracia Socialista agiam em sintonia com os chefes do MST. Lula, José Dirceu e outros da direção partidária se distanciavam assim dos desmandos da organização chefiada por Pedro Stédile, ainda que solidários com ela. O bloco controlador do partido pertencia ao grupo Construindo um Novo Brasil (CNB), abrigo dos políticos que alardeavam programa menos assustador. Não nos iludamos. Se Lula ganhar, volta renovado e fortalecido, por inteiro, esse show lúgubre. O INCRA, de novo, será entregue às alas mais extremadas. E boa parte de suas superintendências. Nos bastidores, o acordo já está feito e prometido o botim. O MST, sob o comando de Pedro Stédile, sintonizado com a nova direção do órgão estatal pilotado por extremistas, voltará a aterrorizar o país.

 

Me engana que eu gosto. Na sua necessidade inafastável de baixar a rejeição, Lula declarou na entrevista ao Jornal Nacional: “O MST está fazendo uma coisa extraordinária: está cuidando de produzir. Não sei se você sabe, o MST, hoje, tem várias cooperativas e o MST é o maior produtor de arroz orgânico do Brasil. Você tem que visitar uma cooperativa do MST, Renata. Você vai ver que aquele MST de 30 anos atrás não existe mais”. Nada mais simpático que a produção de alimentos orgânicos. Nada impressiona melhor que ser, na modalidade orgânica, o maior produtor nacional de alimento básico na mesa do brasileiro, o arroz. Cereja no bolo, o MST mudou, está manso, produz.

 

Os fatos. O candidato petista se referia à produção do MST no Rio Grande do Sul, que colhe 70% do arroz orgânico produzido no Brasil. Na safra de 2022, os assentamentos do MST (dados deles) colheram 15,5 mil toneladas ▬ Cooperativa Agropecuária Nova Santa Rita, assentamento Capela, região metropolitana de Porto Alegre, expectativa de produção, 15,5 mil toneladas de arroz orgânico. O Brasil é autossuficiente na produção do arroz, colheita e consumo em torno de 11 milhões de toneladas anuais. Exporta em torno de 1,5 milhão de toneladas, importa arroz da Argentina e Paraguai. O consumo diário de arroz no Brasil está por volta de 33 mil toneladas. Esteado sobre tais dados, a produção de arroz orgânico trombeteada pelo MST daria para atender a aproximadamente 11 horas de consumo no Brasil. Menos da metade de um dia. E aqui estou admitindo como inteiramente idôneos os dados fornecidos pelo MST (useiro e vezeiro na utilização de fraudes e mentiras), total de produção e inexistência do uso de agrotóxicos.

 

Mais fatos. Em 26 de agosto, Vlamir Brandalizze, engenheiro agrônomo altamente considerado no ramo, teve palavras esclarecedoras, divulgadas pela Gazeta do Povo: “O consumo diário de arroz pelo brasileiro é de 33 mil toneladas. Se fosse viver do arroz orgânico do MST, teríamos alimento só para meio dia de consumo da população, ou nem isso, apenas 10 horas. E nem sei se é garantido que se colha tudo isso, porque o arroz é uma cultura exigente no controle de pragas e doenças”. Continuou o especialista: “É um nicho muito específico, que atende uma fatia muito pequena da população. E para conseguirem viabilizar isso, eles têm que vender muito caro”. A “Gazeta do Povo” pesquisou os preços. Arroz orgânico Tio João custa R$15,89 o quilo. Arroz convencional do mesmo tipo R$5,19 o quilo. De outro modo, o MST produz para nichos ricos, é produto “premium”. Pobre não compra arroz orgânico. Observou ainda Vlamir Brandalizze, para ser viável economicamente, é preciso colher entre 8 e 10 toneladas de arroz por hectare. Enfatizou: “Em qualquer lugar do mundo, seja na China, na Tailândia, na Indonésia ou no Brasil. O pessoal do orgânico colhe de 3 a 4 toneladas, eles não conseguem produtividade. Daí, não tem como ser barato. Podem não gastar com fertilizante e defensivos, mas também não colhem”.

 

O logro do MST pacificado. O MST será, no governo petista, não o produtor do arroz orgânico, mas, como sempre foi, o espantalho a ser brandido para tornar mais flexível a classe de produtores rurais às imposições do governo petista. O arroz orgânico colhido pelo MST é mais uma mistificação do arsenal petista de artimanhas para embair a opinião pública. Deixando de lado fantasias, o partido pode até ter êxito na manobra, mesmo que parcial, o que já seria meia vitória: existem crédulos em todos os lugares e condições sociais, impressionam-se facilmente com patranhas bem empacotadas.

sábado, 27 de agosto de 2022

Democracia sem hipocrisia e cegueira

 

Democracia sem hipocrisia e cegueira

 

Péricles Capanema

 

Avalanche publicitária acachapante. Nas últimas semanas o Brasil assistiu a enorme avalanche publicitária em apoio da democracia ▬ entrevistas sem conta e alguns manifestos, sobressaindo-se a “carta” às brasileiras e brasileiros lida em 11 de agosto nas Arcadas. Nesse clima, o Datafolha constatou o maior índice histórico de brasileiros a seu favor: 75% (democracia é sempre melhor). Em fevereiro de 1992, segundo o mesmo instituto, o índice patinava em 43%. Nada tenho contra a defesa das liberdades naturais, a limpidez na votação e o respeito ao resultado das urnas. Sou a favor, sempre fui, reitero-o agora. hoje está cada vez mais necessário enfatizar o óbvio.

 

Fuga do efeito manada. Não gosto, contudo, de chover no molhado; de diferente ângulo, praticar a adesão fácil, que pode levar ao efeito de manada mental. E, todos viram, houve adesão fácil ao movimento, tinha ficado bonito e muitos baixaram a guarda. O que me faria tendente ▬ razão circunstancial, não determinante ▬ a não me juntar ao bando que então se manifestava. São águas passadas. Aponto agora ponto relevante da questão.

 

Veracidade e lucidez, pré-condições de arena pública saudável. A avalanche virou enxurrada, está se transformando em filete. “Flopou”. Por quê? Faltou autenticidade. Ficou notório, o movimento era inautêntico no miolo, eivado de contradições: de fato, tinha rumo, favorecia a candidatura petista. Marco Aurélio Mello, ministro aposentado do STF, ecoando sentimento generalizado, declarou à CNN: “"Se soubesse que o manifesto seria usado como instrumento político para fustigar o atual governo e apoiar um candidato de oposição, no caso o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, eu não o teria assinado. Se arrependimento matasse, vocês estariam encomendando a minha missa de sétimo dia”. Embeiçado pelo palavreado sedutor, foi na onda. Pulou fora ddo retrocesso que até então patrocinava. Com ele, incontáveis. Desvelada a falsidade, recuaram; com a lucidez recobrada, deram as costas para o logro.

 

Inautenticidade e contradições. Ponto fundamental da autenticidade é a ausência de contradições; coerência, enfim. A apologia da hoje tão celebrada democracia precisa ser ampla, geral e irrestrita. Ser a favor dela aqui e com sinceridade também defendê-la lá fora. Não foi o que aconteceu. Um sem número de políticos e pessoas com presença nos meios de divulgação, partidários notórios da ditadura na Rússia, China, Venezuela, Nicarágua e Cuba, apresentaram-se e foram aceitos como lídimos paladinos da democracia. Esta incoerência logo que melhor percebida, esvaziou o entusiasmo da ala que recusava a inautenticidade. A duplicidade (dos simpatizantes de ditaduras) estava intoxicando o ambiente.

 

Ilustração amarga. Deixo aqui apenas um exemplo, sintoma relevante de posições de efeitos nefastos para o futuro brasileiro, infelizmente bastante generalizadas. A| ex-presidente Dilma Rousseff foi palmeada por ter firmado a carta lida em 11 de agosto nas Arcadas. Por aqueles dias deu declarações turibulárias sobre a ditadura comunista chinesa, onde o PCC oprime centenas de milhões de pessoas. A China, afirma ela, é “modelo admirável”. Modelo para quem? Certamente para o Brasil, chamado para babar de admiração pelos dirigentes do Partido Comunista que a aplicam. “Representa uma luz nessa situação de absoluta decadência e escuridão que é atravessada pelas sociedades ocidentais”. Sendo assim, as sociedades ocidentais, trevosas, são ofuscadas pelo fulgor da política aplicada pelo Partido Comunista da China. Contradições assim, aberrantes e ovantes, eliminam a seriedade na assinatura de qualquer manifesto a favor da democracia. Quem as aceifa, evidencia cegueira. Quem as pratica, como poderá evitar o epíteto de conduta hipócrita, que nasce natural, impulsionado de forma incoercível pela força da lógica?

 

Conluio da cegueira com a hipocrisia. Aliança mistificadora, ainda que inconfessada e até despercebida, mais comum que se costuma pensar, esteada no romantismo e na superficialidade, sempre prenhe de catástrofes. Entre outros efeitos, leva a opinião nacional a se acostumar com o engodo e a dissimulação. À vera, é caldo de cultura para miséria material e moral, fortalecendo condições para perpetuação de governos ditatoriais. Em especial nesse clima eleitoral, a opinião nacional estará sujeita a mistificações que ofuscarão seus olhos e farão os ouvidos mais abertos à hipocrisia. Quanto não à mentira descarada.

sábado, 20 de agosto de 2022

Submissão total aos objetivos comunistas ou implacável perseguição religiosa

 

Submissão total aos objetivos comunistas ou implacável perseguição religiosa

 

Péricles Capanema

 

Perseguição religiosa na campanha presidencial brasileira. A campanha política no Brasil (eleições em outubro próximo) começa com tema inesperado: o assunto quente da perseguição religiosa. Nada tem de artificial; é gravíssimo, à vera, para qualquer católico. Lula, em repetidas ocasiões, tenta escapar do tema. Quer varrê-lo do debate. Poderá ser colocado por baixo do tapete, mas continua realidade a ser considerada com muita seriedade.

 

Falso anacronismo. Colocou0o na ordem do dia pessoa queridinha da esquerda brasileira ▬ xodó intocável. O ditador da Nicarágua destampou o caixão e escancarou para todos a realidade escondida. Ou os católicos acertam o passo com a revolução ou serão perseguidos. Foi assim no passado, continua igual. A perseguição religiosa parecia realidade longínqua, coisa para Coreia do Norte, fato quotidiano dos regimes soviéticos, já desaparecidos, e, ainda hoje, do chinês, disfarçado embora. Por aqui, não. Ortega evidenciou: por aqui, sim.

 

A companheira de viagem fortaleceu o carrasco. Um fato deformava o quadro real. Por décadas a esquerda católica vem sendo companheira de viagem do petismo. A esquerda no poder favoreceria atividades da Igreja, era a esperança. Com uma condição, cuidadosamente escondida: subserviência e colaboração.

 

De volta a agressão. Por razão brutal a perseguição religiosa deixou de semelhar anacronismo: sem rebuços, um dos maiores e mais queridos aliados do PT (o ditador Daniel Ortega) está perseguindo a Igreja Católica na Nicarágua. Acusa-a de “golpista”, “terrorista”. Ou o que lhe vier aos lábios; para justificar o retrocesso, qualquer mentira vale, aos montes teremos “fake news” em estado puro. O governo sandinista prende bispos, padres e leigos, fecha rádios e organizações católicas, reprime na Igreja quem ousa levantar a cabeça. Por quê?

 

Pão e liberdade. A razão é simples: os católicos estão sofrendo com a tirania e a miséria dominantes e crescentes na Nicarágua. Revoltam-se, têm reivindicação singela, pão e liberdade. Afinal, o sandinismo, menina dos olhos da esquerda católica e do petismo, manda no país há décadas e já passou da hora de melhorar alguma coisa na vida dos . E não mudou nada (aliás, mudou muito, e para pior): miséria no povo, o somozismo é fichinha diante da repressão sandinista, continua o favorecimento dos apaniguados, a roubalheira corre solta. Crescente presença imperialista da China. Com apoio, claro, dos irmãos Castro, de Maduro, da esquerda latino-americana, muito especialmente do PT e aliados no Brasil.

 

Ortega, o intocável. Querem sintoma expressivo? Alguém conhece algum dirigente do PT que censure Daniel Ortega  pela roubalheira, fraude nas eleições, perseguição religiosa e favorecimento escandaloso de familiares? Pelo contrário, é objeto de admiração. Sobre Daniel Ortega, em novembro de 2021, afirmou Lula: “Temos que defender a autodeterminação dos povos. Sabe, eu não posso ficar torcendo. Por que que a Angela Merkel pode ficar 16 anos no poder e Daniel Ortega não?” Havendo condições, não nos iludamos, repetirão no Brasil o que Maduro, Ortega e Castro ▬ os intocáveis ▬ impuseram e infligem a seus povos. E aqui se inclui a perseguição religiosa. Há precedente macabro: a perseguição religiosa, com sem-número de mártires existiu gravíssima na antiga Cortina de Ferro, seus epígonos latino-americanos farão o mesmo aqui, se a tal as conveniências revolucionárias os aconselharem.

 

Recordações dolorosas e reveladoras. Em fevereiro e março de 1980, o progressismo católico, dele então corifeus dom Paulo Evaristo Arns, dom Pedro Casaldáliga e frei Betto, entre outros, promoveu em São Paulo grande celebração da revolução sandinista. Dom Pedro Casaldáliga, na ocasião, afirmou: “Eu me sinto, vestido de guerrilheiro, como me poderia sentir paramentado de padre. É a mesma celebração que nos empurra à mesma esperança. Apenas para terminar, gostaria de pedir para todos vocês, que sejamos consequentes. O que estamos celebrando, o que estamos aplaudindo nos compromete até o fim. Nicarágua nos deu o exemplo: todos nós, todos os povos da América Latina, todos os povos do Terceiro Mundo, vamos atrás!” E dom Paulo Evaristo Arns fechou da seguinte maneira: “Como concluir? Não há uma conclusão. A coisa apenas começou. Vejam esta pergunta — chega de teologia e vamos à prática: onde estão os grupos que vão para a Nicarágua, para aprender? Eu respondo: sei que, em São Paulo, há grupos se preparando e de malas prontas para partir. Até com a permissão do Arcebispo de São Paulo”. Os pastores bradavam em defesa dos lobos. E, então, os lobos uivavam em defesa dos pastores.

 

Nicarágua hoje. Tomo como base informações divulgadas pela swissinfo.ch, instituição reputada como das mais sérias da Europa. São sintomas de situação que pode se agravar. Dom Rolando Álvarez, bispo da diocese da Matagalpa foi preso na madrugada de 6ª feira 19 de agosto. Policiais invadiram violentamente, 3h20, hora local, a sede da cúria episcopal. É acusado de “organizar grupos viOlentos” para “DESESTABILIZAR O Estado da Nicarágua e atacar as autoridades constitucionais”. Com o bispo foram presos sete colaboradores e um operador de câmera. Quatro sacerdotes foram presos, dois seminaristas. A polícia distribuiu comunicado: “Na madrugada de hoje foi realizada nas instalações da cúria\ da cidade de Matagalpa uma operação que permitiu que as famílias e a cidadania de Matagalpa recuperassem a normalidade”. Como se vê, comunicado à altura do que divulgaria qualquer governo da antiga União Soviética.

 

Submissão total aos objetivos comunistas ou implacável perseguição religiosa. Coloquei como título do artigo “submissão total aos objetivos comunistas ou implacável perseguição religiosa”. Não foi exagero. É isso mesmo. O resto é ilusão e mito.

 

sábado, 23 de julho de 2022

O anestesista multifunção

 

O anestesista multifunção

 

Péricles Capanema

 

Anestesista polivalente. Geraldo Alckmin, médico anestesista, em 2022 escolheu ser político anestesista. No início da vida profissional anestesiava pacientes em geral deitados em macas, padeceriam cirurgias dolorosas, traumáticas e com risco de morte. Subiu de patamar. Busca agora anestesiar todo o eleitorado brasileiro que, espera, encontrará passivo, como seus pacientes de antanho, resignados, deitados em maca. Na chapa petista para a presidência da República, tem o triste papel de diminuir resistências à operação violenta e traumática, retrocesso pavoroso que a nação pode sofrer a partir de outubro próximo. Aqui também há risco de morte, o Brasil pode agonizar como nação cristã, ligada aos valores ocidentais. E se alinhar a Cuba, Venezuela, China, Rússia.

 

Sedação profunda para criar espaço ao extremismo. Onde em especial se localizará o trabalho de sedação, encomenda que recebeu o tucano vira-casaca, direta ou tacitamente, dos estrategistas da campanha petista para, com seu auxílio, dominar a máquina pública brasileira? Setores visados de forma particular: agronegócio, Brasil da roça (interiorzão), política externa, área social. Aqui, serão aplicadas altas as doses políticas de propofol, lidocaina e bupivacaina. Com efeito, o radicalismo petista ocupará largas faixas da política e da máquina pública, já prometidas em acordos de bastidor, convenientemente ocultados do público, no eventual novo governo. Fica então indispensável diminuir já, antes das eleições, o horror do futuro que nos espera, sob risco de inviabilizar a possível vitória eleitoral. A conta será pesada. Seremos aliados, confessos ou pelo menos efetivos, de frente antiocidental, capitaneada pela China, procurará minar a influência dos Estados Unidos no mundo. Alinhados, ajudaremos Cuba, Nicarágua, Venezuela e outros governos de esquerda. No Brasil, o INCRA, como aconteceu nas anteriores administrações petistas, será entregue aos extremados do partido, para gáudio de João Pedro Stédile e apaniguados do MST.

 

Contradição aberrante e silenciada. Melhorando, não é apenas silenciada, é escondida. Para ter êxito em sua empreitada como anestesista político, o médico anestesista Alckmin, era o normal, deveria ter se abrigado em partido ligado ao agronegócio, aos interesses ocidentais, ao Brasil empreendedor, amigo da propriedade privada e da livre iniciativa. Não foi o que fez. Correndo, foi buscar abrigo em partido com programa extremista, soviético. Ali festejou, com nutrida assistência, sua adesão de fato, mas escondida, a objetivos soviéticos. Resultados da aplicação de tal programa? Atraso, roubalheira, ditadura, pobreza. Ao se filiar ao Partido Socialista Brasileiro (PSB), é inevitável a constatação, declarou-se de acordo com o Estatuto, Programa e Manifesto do Partido. Repito, situação silenciada, ninguém sobre ela escreve. Resolvi andar na contramão, e uma das razões é que o antigo governador de São Paulo está escalado para falar com o agronegócio e interior do Brasil para ali angariar votos e sedar. Vamos às metas para o campo, expostas pelo PSB em programa oficial, sonho seu para o Brasil do futuro.

 

O radicalismo rural do PSB. Aqui está, “ipsis verbis” a estrutura do campo como a deseja o PSB: “Da terra: A socialização progressiva será realizada segundo a importância democrática e econômica das regiões e a natureza da exploração rural, organizando-se em fazendas nacionais e fazendas cooperativas assistidas, material e tecnicamente, pelo Estado. O programa de latifúndio será resolvido por este sistema de grandes explorações, pois sua fragmentação trará obstáculos ao progresso social. Entretanto, dada a diversidade do desenvolvimento econômico das diferentes regiões, será facultado o parcelamento das terras da nação em pequenas porções de usufruto individual, onde não for viável a exploração coletiva”. A tática é do passo a passo “socialização progressiva do campo” (estatização), rumo a porvir de miséria e ditadura, como o revelam os precedentes históricos. O futuro terá quase só grandes propriedades. Só que as grandes propriedades não serão privadas: serão estatais (nacionais) e comunitárias (cooperativas de trabalhadores). O conjunto será, é claro, dirigido por burocratas socialistas (como aconteceu na URSS), com emprego amplo das patotas sindicais que sugarão a “plusvalia” (para lembrar a tolice marxista) mirrada das explorações. É, via de regra, pessoal chegado numa propina. Aqui está o futuro da agricultura brasileira, desenhado pelos socialistas. A vida como ela é, para recordar Nelson Rodrigues.

 

Usufruto, e olhe lá, para o pequeno. Notei acima, o futuro terá quase só grandes propriedades. Não haveria um cantinho para o pequeno proprietário? Para o pequeno, sim. Para o proprietário, nem pensar. Será usufrutuário, o dono será o Estado. Imagina, o pequeno pode querer ficar médio; e o médio virar grande. Onde iríamos parar? Usufruto já está bom. Mais que isso, de jeito nenhum. Servos da gleba, na prática.  Seriam tolerados os servos da gleba (usufrutuários) no paraíso socialista para o qual nos convida hoje o neoconverso Geraldo Alckmin, o anestesista polivalente. Mesmo o usufruto (a condição de moderno servo da gleba) será concedido a contragosto: será apenas facultado, quando inevitável. O ideal é gente trabalhando nas gigantescas fazendas estatais ou nas fazendas de cooperativas de trabalhadores. Dependem do Estado e das burocracias sindicais. Em pleno século 21, estamos diante de programa ditatorial, asfixiante da prosperidade, delirantemente coletivista. Representa retrocesso cruel, generaliza miséria, favorece exclusão social.

 

Coerência. Quem divulga programa desse naipe, não pode, sem manifesta hipocrisia, defender a liberdade, a autonomia, o empreendedorismo. Mesmo que sejam políticos como Geraldo Alckmin que deram as costas para seu passado. Um político correto deve ter, como condição prévia para a vida pública,  a decência de defender o próprio programa. Indica coerência e transparência. O contrário é abrir campo para a acusação fundada de hipocrisia.

 

Coletivismo generalizado. Quem defende a agricultura sovietizada, logicamente não pode favorecer a iniciativa privada em outros campos. É o que acontece com o programa do PSB. Para o comércio exterior, a fórmula é: “O comércio exterior ficará sob controle do Estado até se tornar função privativa deste”. Estação final, função privativa do Estado. Estatização total, selvagem. O trabalho? Será considerado direito, mas também obrigação O Estado obrigará todo mundo a trabalhar. Diferença de rendas, fundadas no esforço e no mérito? Serão eliminadas, o trabalho manual terá o mesmo valor que o intelectual: “O trabalho será considerado direito e obrigação social de todo cidadão válido, promovendo-se a progressiva eliminação das diferenças que atualmente separam o trabalho manual do intelectual.”.

 

Estatização da indústria. O setor industrial, é coerente, não escapará do estatismo selvagem. Será todo estatal, processo que começará pela estatização dos setores básicos: “Socialização progressiva dos meios de produção industrial, partir-se-á dos ramos básicos da economia.” Socialização, todos sabem, pertencer à sociedade, é eufemismo para estatização, termo que vem sendo evitado, pois é associado com os efeitos macabros que as políticas, nele inspiradas, apresentam historicamente, a saber, porrete, miséria e roubalheira.

 

Resumo do pesadelo, estatização ampla, geral e irrestrita. Ainda que gradual, evitando agressões causadoras de graves prejuízos políticos (a gradualidade anestesia), o objetivo não difere das metas clássicas dos partidos comunistas ao longo da História. Como última alusão ao Programa jurássico do PSB, a afirmação de que o Partido quer estatizar todos os meios de produção (fazendas, indústrias, lojas, oficinas): “O objetivo do Partido, no terreno econômico, é a transformação da estrutura da sociedade, incluída a gradual e progressiva socialização dos meios de produção, que procurará realizar na medida em que as condições do país a exigirem”. Ocultar tais aspectos, proclamados oficialmente, do programa socialista ajuda a anestesiar a opinião pública. O médico anestesista Geraldo Alckmin infelizmente embarcou em tal empreitada.

 

Reversão dos efeitos da anestesia. Sugamadex reverte os efeitos da anestesia em até três minutos ▬ elimina consequências de doses fortes do propofol. Alerta, esclarecimento, clareza é do que estamos necessitados ▬ sugamadex ▬ para caminhar certo e votar bem. Nunca silenciamento ▬ propofol.

quinta-feira, 21 de julho de 2022

Dom Luiz governou o Brasil

 

Dom Luiz governou o Brasil

 

Péricles Capanema

 

Permanece fúlgida a marca imorredoura. Sepultado no Cemitério da Consolação na capital paulista em 18 de julho, faleceu em 15 de julho dom Luiz de Orleans e Bragança, Chefe da Casa Imperial do Brasil. Sua bisavó, a Princesa Isabel foi a última da família que, interinamente, segurou as rédeas do governo ▬ foi Regente do Império pela terceira vez entre junho de 1887 e agosto de 1888. Tardinha começando a cair, primeiras sombras, frescor intenso no ar, profusão de coroas de flores adornadas com textos emocionantes alinhavam-se, como sentinelas, ao longo da alameda que conduzia ao túmulo já aberto. Misturei-me silente ao respeitoso magote que esperava a chegada do corpo ao cemitério. Enquanto observava a ativa movimentação de tropas da Marinha, um ou outro uniforme de alto oficial, um sacerdote que supervisionava trabalhos, a mente divagava. Reflexões sucediam-se naturalmente; como num filme, a fantasia buscava aspectos da vida e da personalidade do príncipe que em instantes ali receberia as últimas homenagens. Para os que tiveram a ventura de conhecer dom Luiz, deixa marca imorredoura. Soube unir na personalidade paternal, com cativante harmonia, qualidades raramente próximas: modesto, senso perfeito e discreto da posição, batalhador, convívio suave; mais ainda, sofredor, penitente, resignado, piedoso. A enfermidade o estigmatizou, jamais o derrotou moral e psicologicamente.

 

Governo dos comportamentos. Repentina saltou constatação: “Pena, dom Luiz nunca governou o Brasil”. Logo após assomou a pergunta: “Nunca governou?” Brotava rápida a resposta, parecia simples, incontroversa; melhorando, nem tanto, borbotava à vera simplificadora e simplória: dom Luiz nunca governou, nunca assinou um decreto, por mais desimportante que fosse. Concomitante, aparecia outra resposta, subia do fundo do espírito e ia ganhando forma; matizada, revelava realidade mais funda: “Em termos, dom Luiz, sob um ângulo, governou o Brasil. Como nenhum outro governante”. Qual ângulo?

 

Renovação de doutrina antiga. É antiga, muito conhecida, a concepção que exporei abaixo, mas nos últimos anos vem ganhando teóricos de importância, entre os quais cabe destacar Javier Gomá Lanzón (em 2012 e 2014 a revista Foreign Policy, edição em espanhol, colocou-o entre os 50 intelectuais iberoamericanos mais importantes). Na esteira de muitos outros e até do bom senso comum, o celebrado erudito espanhol afirma, o mais importante em um governante é a exemplaridade. Dar bom exemplo, em português singelo. A doutrina vai além, se há o dever do bem exemplo, o governante que dá mau exemplo causa dano moral ao povo. Acontece com frequência, o dano moral não vem só. Muitas vezes há tragédias materiais envolvidas. Em resumo, a exemplaridade é a mais importante característica do governante. E dar mau exemplo é a pior. O governante (não só o governante político, todas as pessoas em posição de destaque, a qualquer título, a começar pelo pai e pela mãe) inspira comportamentos, favorece hábitos, combate costumes. Para a obtenção do bem comum de um povo, esse deve ser o grande objetivo do dirigente político. Influi fundo, marca por décadas, até séculos.

 

Governo estaqueado na exemplaridade (ou bom exemplo). Vamos ao que afirma Javier Gomá Lanzón: “O espaço público está cimentado sobre a exemplaridade, esse é seu cenário mais genuíno e próprio. A política é a arte da exemplaridade”. Para estear bem o bom governo, garante o intelectual espanhol, o dirigente deve “pregar com o exemplo. Só o exemplo prega de forma eficiente”. Promessas, discursos, atos administrativos, sem o exemplo, caem no vazio. Na Grécia antiga, da democracia direta, o cidadão participava do governo debatendo e votando na praça pública (ágora). Nos tempos modernos, de democracia indireta, igualmente não só o voto configura participação na construção do bem comum. Debater, opinar, protestar, apresentar programas, sugerir soluções, à maneira do grego antigo na ágora, também é contribuir para a obtenção do bem comum. Dentro de tal quadro, dar bom exemplo é a primeira e mais importante participação. Influi no tom moral da sociedade, na criação de seus rumos e expectativas, marca o que é estimulado, o que é desaconselhado, o que é proibido. E assim, vai mais fundo que a coação legal (que age nos atos externos), alcança o interior das personalidades, pensamentos, anseios, convicções.

 

O bom exemplo de dom Luiz. Don Luiz participou da obtenção do bem comum nacional de forma insigne pelo extraordinário bom exemplo de uma vida inteira. Nesse sentido, padrão moral perene, governou na mais alta acepção. E os brasileiros de bem, diante de sua memória virtuosa ▬ e de seu governo, como Chefe da Casa Imperial e sucessor legítimo da Princesa Isabel ▬ inclinam-se hoje reverentes e agradecidos. Em certo sentido, muito real, continua a governar. Como seu ancestral, são Luiz IX (1214-1270), cujo bom exemplo até hoje orienta em alguma medida o espírito dos franceses. Assim, com inteira exatidão, sob o ângulo do bom exemplo, podemos afirmar, Dom Luiz governou. E ainda governa.

 

quinta-feira, 16 de junho de 2022

Franquezas benfazejas de patriota lúcido

 

Franquezas benfazejas de patriota lúcido

 

Péricles Capanema

 

O verdadeiro afeto nutre a sinceridade. Ou a franqueza, tanto faz. Semanas atrás recebi com especial agrado presente valioso de amigo antigo e próximo, era livro que ele sabia ser de meu gosto; encontrara-o, creio, em andanças pelos sebos. “Aparências e realidades”, o título do volume, edição de 1922 (Monteiro Lobato & Cia Ltda), reúne coletânea de Gilberto Amado (1887–1969), escritos respigados entre 1919 e 1922. Vou destacar aqui apenas trechos de um dos trabalhos “A propaganda maximalista e a sua superfluidade”. Maximalista, na linguagem da época, significava comunista. Propaganda comunista, portanto, no Brasil de 1920. Será, linhas gerais, artigo de transcrições. A matéria de Gilberto Amado ▬ hoje especialmente atual, penso, no aspecto que destaco ▬ contém análise severa sobre características do povo brasileiro. Borbota viva, ouso afirmar, do enorme afeto que tinha pelo torrão natal, esteado na veracidade, honestidade e funda percepção. São franquias, direitos concedidos ao afeto autêntico, no caso dele isento de ufanismos ocos e chavões distantes do real.

 

Atalho necessário. Faço um volteio. Para entender de forma arejada e aproveitar bem as censuras do ilustre sergipano, tido como dos homens mais inteligentes do Brasil, convém pequeno desvio. As palavras dele não brotaram de coração ressentido, borbotaram vivificadas pela benquerença. Vamos lá. Amado morreu em 27 de agosto de 1969, morava, havia pouco, algum tanto isolado e doente, no Rio de Janeiro. Amigos e admiradores fizeram-lhe homenagem prestigiosa. À maneira da época, foi organizado jantar solene, presentes personalidades de destaque, no Country Club, tendo como motivo (e pretexto) o lançamento da 3ª edição de um de seus livros ▬ Eleição e Representação. Para a noite de gala foi escolhido como orador o deputado Gustavo Capanema (1900-1985), cujo discurso de reconhecimento e homenagem, 20 de agosto, nota melancólica, antecedeu de uma semana a morte de Gilberto Amado. Na oração, é o que agora mais nos interessa, Capanema lembrou numerosas afirmações do pensador nordestino sobre o Brasil, entre elas as palavras finais do livro relançado inicialmente em 1932, a seguir transcritas: “Nós somos responsáveis pelo mais belo pedaço do planeta. Temos de polir e facetar o maior e mais admirável diamante do mundo. Aumentar-lhe o valor, afinar-lhe as arestas para que ele dê, aos olhos do mundo, toda a sua luz. Não o estraguemos com os instrumentos de uma ourivesaria bronca e primitiva, tenhamos a mão sábia no tocar essa peça prodigiosa. Quem perde a esperança no Brasil não é digno de viver”. Capanema assim terminou seu discurso: “Sempre fui fascinado pela vossa genialidade. Mas o que mais admiro em vós, ó grande Gilberto Amado, é o vosso patriotismo”.

 

Sinceridade cauterizante. Patriotismo real dá direito a franquezas. Fazem bem franquezas expressas com tato nas horas certas, cauterizam feridas infectadas de há muito. É o caso. Gilberto Amado viu muita superficialidade de espírito e imitação servil, sintomas alarmantes, cuja persistência prejudicaria gravemente o futuro pátrio, em episódios de nossa história, em geral objeto de vanglória, como, por exemplo, na independência, abolição da escravidão, proclamação da República e a separação da Igreja do Estado: “Concluímos daí uma superioridade de que nos vangloriamos. Nessa vanglória é que está a superficialidade. Dela nos deveríamos entristecer”. Seria uma tristeza restauradora.

 

Povo reflexo. Para ele, o impulso maior de todos esses movimentos foi mera imitação de modas estrangeiras. Modas intelectuais, modas políticas: “Nenhum sinal é mais forte de que não temos sido senão meros reflexos de outros povos”. Avança: “No terreno das ideias e dos sentimentos, o Brasil é um país reflexo, espelho da vida e das formas que o esforço humano vai criando e aperfeiçoando em outros ambientes”.

 

Proclamação da República na indiferença e cegueira generalizadas. O texto é longo, aqui deixo apenas um exemplo de suas elucidativas constatações: “A República, sim, é que é o fato característico da indiferença política da população. Ao pensar no modo pelo qual tudo se fez, que o povo brasileiro (escrevo povo brasileiro, fazendo certa violência à clareza da expressão, pois população não é povo), estava cego, e que se fez, diante dele, a mutação de cenário, sem que seus olhos se apercebessem do que se passava. Esse fato é um fenômeno colossal. O caso desse rei, nativo do Brasil, que reinou durante quase meio século, que é expulso de seu país, sem que em seu favor se levante um grito, uma palavra, um movimento de reação ou solidariedade, representa por si só uma das coisas mais espantosas de que há memória desde que o mundo é mundo. No dia 15 de novembro, às 5 horas da tarde, depois de proclamada a República, dir-se-ia ninguém se lembrava mais que tinha havido até poucos minutos, no Brasil, uma dinastia, uma monarquia, uma corte. Na retina opaca dos cegos não passou nenhuma irisação de luz, denunciando que alguma coisa de novo e de anormal acontecia. O imperador não tinha um amigo. Apeado do poder, o príncipe augusto, cujas mãos limpas e fracas acariciaram durante cinquenta anos o dorso mole do povo distraído, subitamente deixou de existir. A República se instalou serenamente. Mandou buscar seus novos costumes nos Estados Unidos”.

 

Separação da Igreja do Estado revela despreocupação religiosa. Observa Gilberto Amado: “A prontidão e a calma com que se fez a separação da Igreja do Estado, por um simples decreto, é outro dos motivos de orgulho para muitos dos comentaristas otimistas ou apressados a que aludimos de começo. Mas a verdade é que nisto se prova apenas que o Brasil é um país sem religião”. O comentário realça a ausência do fervor, mas deixa de lado ponto importante no acontecimento: a Hierarquia eclesiástica de alguma maneira se sentiu aliviada com a separação, pois o Padroado, vigente no Império, incomodava.

 

Maximalismo. Maximalismo, lembrei, na época equivalia a comunismo. Havia pequena propaganda do comunismo entre 1919 e 1922. Gilberto Amado afirma que o comunismo venceria fácil no Brasil, não pela ação dos propagandistas, mas por outro fator: “Se o maximalismo vencer na França, na Inglaterra ou nos Estados Unidos, nós o adotaremos aqui de um dia para outro, haja ou não haja preparo na propaganda”. Vai adiante: “Esperam pelo que se fizer na França, na Inglaterra, nos Estados Unidos. O que qualquer dessas nações realizadoras da nossa história fizer, nós faremos. Fazer, originariamente, porém, nos é impossível”. De outro modo, servilismo. Nenhuma originalidade, autonomia tísica; enfim, irrigação mirrada das raízes.

 

Continua o mimetismo. Hoje é diferente? No geral, para desgraça nossa, tudo permanece do mesmo jeito, subserviência generalizada, animando retrocessos. Dou só um exemplo, poderia lotar o texto com vários. A reforma agrária, entre nós, foi feita por imitação a modas estrangeiras; o disparate contínuo e empobrecedor vem desde a década de 50. Modas estrangeiras, aliás, que deram errado onde foram aplicadas. O grande responsável institucional pela gastança desenfreada de dinheiro público com prejuízo gritante da produção, da produtividade, do emprego e da renda é o Estatuto da Terra de 1964 (governo Castelo Branco), entulho autoritário, fonte perene de atraso, que até hoje nutre e estaqueia radicalismos que vieram depois, obstáculos, repito, a aumentos de produtividade, emprego e renda. Se somarmos o dinheiro público jogado no ralo com o mensalão e o petrolão, estou certo, é só fazer as contas, a soma representará porcentagem pequena em relação à riqueza surrupiada do povo e do Estado pela aplicação durante décadas da reforma agrária de inspiração socialista, com viés confiscatório. Em manifesto de dezembro de 1964, largamente difundido no Brasil, o prof. Plinio Corrêa de Oliveira e a então diretoria da TFP qualificaram o texto da nova lei de “incorreto em sua terminologia, confuso e passível eventualmente das mais perigosas interpretações; constitui para o Brasil uma verdadeira encruzilhada, a mais grave de sua história”. Estavam certos. Perderam os necessitados, perderam os proprietários, perdeu o Brasil. Informa o INCRA, dados recentes, talvez já haja mais terra desapropriada, já foram desapropriados no Brasil 87.535.596 hectares, mais que a área somada de Minas e Rio Grande do Sul. O agronegócio, que impede a quebradeira do Brasil, ocupa espaço menor. Roubalheira, contratos de gaveta, produtividade mínima, criminalidade, é o histórico macabro dos assentamentos. Visite um deles, qualquer um, pergunte aos vizinhos, fuja dos folhetos oficiais, e verificará a realidade. A respeito do desastre da reforma agrária, comentou Xico Graziano, dos maiores especialistas na área: “O Brasil cresceu, urbanizou-se, virou potência mundial agrícola, sem necessidade de reforma agrária. A terra está produtiva, gerando milhões de empregos. Gente boa, miserável, mistura-se aos oportunistas e malandros para ganhar um lote nos assentamentos. Iludidas com promessa de futuro fácil, massas são manipuladas e treinadas para invadir fazendas e erguer lonas pretas. A classe média se apieda, enquanto a burguesia, assustada, apoia veladamente. Imaginar que um pobre alienado, sem aptidão nem cultura adequada, possa se tornar um agricultor de sucesso no mundo da tecnologia e dos mercados competitivos, significa raciocinar com o absurdo. Abstraindo os picaretas da reforma agrária, que engrossam as invasões, os demais, bem-intencionados, dificilmente sobreviverão”.

 

O servilismo amordaça as bocas e entorpece as mentes. Não nos iludamos. O servilismo amordaça as bocas e entorpece as mentes. Ninguém, ou quase ninguém, ousa falar a respeito do desastre da reforma agrária. Fato óbvio, contudo. Constatação macambúzia, considerando como fator de previsão o histórico decepcionante, não iremos abandonar por agora o tóxico entorpecedor, temos xodó por esse tumor de estimação. E até é generalizada a birra com quem dele fala mal. Em resumo, no fato acima lembrado e em vários outros aspectos da realidade brasileira, para infelicidade geral, em particular dos menos assistidos, perdura a situação de povo reflexo, escravo de modas do Exterior. Gilberto Amado lá pelo início do século passado, franco e lúcido, apontou defeitos que impedem prosperidade real. Merece por isso nossa gratidão e releitura, textos atuais.