quarta-feira, 30 de março de 2022

Brados penetrantes de George Soros

 

Brados penetrantes de George Soros

 

Péricles Capanema

 

Figura de posições controvertidas. De pais judeus, George Soros nasceu em Budapeste, 1930. Fugindo da perseguição nazista, a família homiziou-se na Inglaterra. De lá, em 1956, Soros emigrou para os Estados Unidos. Empregou-se no setor bancário e ali fundou em 1973 a Soros Fund Management, estabelecendo-se com rapidez como dos mais destros financistas de Wall Street. Ainda jovem, ficou bilionário. Vem praticando o que qualifica de filantropismo político, além de outras formas de filantropismo. Fundou as “Open Society Foundations” em 1993; são várias as fundações, com frequência uma em cada país, daí o plural (desde 1979 já agia como filantropo político). Canaliza para ela bilhões de dólares e custeia entidades que promovem a “sociedade livre”; à vera, com muita frequência as chamadas causas progressistas. Em 2017, doou 80% de seu patrimônio para a entidade por ele instituída ▬ mais de 32 bilhões de dólares no total, desde o início. Por suas atividades, é figura controvertida e muito combatida, tantas vezes com fundamentos sólidos. Ninguém, contudo, nega a George Soros inteligência privilegiada, autoridade e hábito dos assuntos internacionais. Escreveu recentemente, 11 de março, artigo sobre a guerra da Ucrânia, que ontem me chegou ontem às mãos: “Vladimir Putin and the Risk of World War III” ▬ Vladimir Putin e o risco da 3ª Guerra Mundial. Na matéria manifesta Soros o desejo de que Putin e Xi Jinping sejam depostos para o bem da humanidade. Mas não é sobre isso que pretendo chamar a atenção. Chama atenção outra coisa, o contraste do estado de espírito, profundidade de observação e seriedade de análise de lá e o de cá. Para vantagem deles e tristeza nossa..

 

Advertências que não se ouvem no Brasil e nem até aqui chegam. Convém, de passagem, antes de me reportar ao artigo acima referido, destacar recente pronunciamento de Soros na Hoover Institution, dos mais prestigiados think tanks norte-americanos, 31 de janeiro de 2022: “[Xi Jinping], em vez de deixar o setor privado prosperar, impôs seu próprio ‘sonho chinês’, que pode ser resumido em duas palavras: controle total. Xi Jinping   acredita piamente no comunismo. Mao Tsé-Tung e Lênin são seus ídolos. Na comemoração do 100º aniversário do Partido Comunista Chinês ele usava túnica Mao enquanto o resto vestia terno. Xi, inspirado em Lênin, tem controle total sobre os militares e domina as instituições de repressão e supervisão. Xi Jinping acredita que está pondo de pé sistema de governo superior à democracia liberal”.

 

Circunspecção. Vale como advertência de “insider” de Wall Street, vale ainda mais como sintoma de opinião presente nos círculos frequenta\ados por George Soros. Circunspecção, o olhar vigilante ao redor de si de setores expressivos na mais poderosa nação da Terra.

 

A guerra só começou depois da luz verde chinesa. Agora, o artigo mencionado. Assim George Soros dá o pontapé nicial: “Depois de receber luz verde do presidente chinês XI Jinping, o presidente russo começou sua guerra”. O megacapitalista se dirige em especial aos colegas de Wall Street, acadêmicos e, em geral, figuras de expressão dos Estados Unidos. Garante com certeza, Putin só começou a guerra depois de receber luz verde do dirigente comunista chinês. Sem o “vá em frente” não teria havido guerra.

 

A batuta chinesa. O que leva a supor que o desenvolvimento da guerra de alguma maneira obedece a conveniências políticas do Partido Comunista Chinês. Soros chama a atenção para este ponto: o foco dos analistas deve estar em Xi Jinping. De outra maneira, como a China estará colocada logo após o fim do tsunami provocado pela agressão russa. Circunspecção, de novo.

 

Análise objetiva\, fugir do escapismo. Permito-me chamar a atenção para recente post meu, 20 de março, em que expressava apreensão parecida: “Escapismo. Relaciono agora a matéria com a atualidade mundial. É normal, louvável, indispensável mesmo que, a propósito da agressão russa à Ucrânia, os olhares se voltem para a possibilidade da 3ª Guerra Mundial. Entre muitos males dantescos, poderia ser nuclear, acarretar morte de milhões, talvez bilhões de pessoas, representar o fim da era histórica em que nos encontramos. Contudo, postas as informações que me chegam, não é o mais provável. Vislumbram-se pistas de acomodação e acordo. O que, de momento, parece mais provável e está sendo colocado em segundo plano, pelo menos no material que conheço? Enfraquecida e mais isolada por causa da investida criminosa na Ucrânia, a Rússia está se afastando ainda mais da Europa e dos Estados Unidos e se aproximando ▬ aumento da dependência ▬ da China. O antigo Império do Meio joga parado, fortalece seu cacife e seu jogo. Cada vez mais se coloca em condição de grande “player”. Em tais circunstâncias, constitui escapismo não ficar o olhar em fatores de aumento e consolidação da área de influência chinesa. Ou sino-russa, para o caso, a mesma não faz diferença”.

 

O que se lê e se ouve no Brasil. Apontei circunspecção acima. Mesmo em ambientes progressistas, vislumbram-se olhares apreensivos e lúcidos para aspectos fundamentais de perigos que rondam os Estados Unidos (e o Mundo Livre).

 

Dessiso, leviandade, inconsequência. E mentiras a granel. Tratarei agora, para desgraça nossa, de dessiso, leviandade e inconsequência. O portal UOL, 27 de março, divulgou ampla matéria sobre tema candente no País, o preço da gasolina e do diesel. Título: “Refinaria privatizada tende a vender combustível mais caro, dizem analistas”. Afirma o texto, a gasolina e o diesel, vendidos pela refinaria de Mataripe, responsável por 14% do refino nacional, está quase 30% acima dos preços praticados pela Petrobrás. E que será essa a tendência da privatização do setor, com a lógica do lucro imperando. Numerosas matérias tratam da “refinaria privatizada” e seus preços.

 

Estatização selvagem. Só falta um detalhe: a refinaria de Mataripe (refinaria Randulpho Alves) não foi privatizada, houve ali à veraprocesso de estatização selvagem, retrocesso pavoroso. Ela pertencia antes a uma sociedade de economia mista (Petrobrás), com maioria de capital privado, em torno de 65%, mas com controle estatal, pouco mais de 50% das ações ordinárias com direito a voto pertencem à União. Agora é propriedade de uma empresa inteiramente estatal, o Fundo Mubadala, por inteiro dependente do governo de Abu Dhabi. De forma enganosa a imprensa divulga quer ali houve um processo de privatização e desestatização. O que seria um bom avanço. Um segundo ponto, relacionado com o anterior. A CTG Brasil publicou material propagandístico de página inteira no “Estado de S. Paulo”, 29 de março último. Informa a propaganda da CTG: “Desde que iniciou atividades no Brasil em 2013, a empresa já investiu R$23 bilhões no País. A CTG Brasil é a segunda maior geradora privada de energia do País”. Existe um erro aqui? Sim, informou de forma a enganar. A CTG Brasil não é geradora privada, é estatal chinesa, dirigida pelo governo de Pequim ▬ se quisermos, “longa manus” do Partido Comunista Chinês. No citado diário, impulso de mesma\ direção, 28 de março, consta entrevista do CEO da empresa Azimut Brasil (gestora de ativos). Seu presidente Giuseppe Perrucci, aconselha os investidores brasileiros, na busca de estabilidade e rentabilidade, a investir nas empresas que compõem o índice de Xangai. Por dinheiro nas empresas com ações na bolsa chinesa. Das três empresas em que sugere aplicações, duas, PetroChina e China Life, são estatais. O conselho é esse, então: para obter segura\nça, estabilidade, rentabilidade, compre ações de estatais chinesas.

 

Esfera de influência. Por que trago tais fatos à atenção do leitor? Para que não esqueçamos, o Brasil está realizando um perigoso deslizamento, afasta-se da área ocidental e se afunda no pântano chinês. Não é atitude de homens de bem circunspectos. Revela, no mínimo, falta de siso, leviandade, inconsequência. Rumo contrário ao que foi constato acima, vivo em setores dos Estados Unidos. É um bom exemplo, pode nos afastar de maus caminhos. Ainda há tempo para mudar o rumo. Cada vez mais, irá ficando mais difícil.

 

domingo, 20 de março de 2022

Esperando na borrasca

 

Esperando na borrasca

 

Péricles Capanema

 

Esperança na borrasca. Pequeno fato, espoleta do artigo, a seguir relatado, deu-se no já distante 1964, quando estudava em Belo Horizonte, começo do segundo ano do científico. Lendo o mensário “Catolicismo” (ano XIV, nº 160 ▬ abril de 1964), deparei-me com título que me impressionou de imediato. Nunca o esqueci. “Pensando, criticando, matizando e esperando na borrasca do século XX”. Encimava coluna do professor Plínio Corrêa de Oliveira, análise de fatos da atualidade, que não se perpetuou na publicação, seria uma espécie de sucessora do “7 Dias em Revista” do antigo Legionário. A borrasca era o fato bruto, dele não se escapava. Contudo, no meio dela, nada de desorientação e abatimento, indispensável manter a esperança. Mais ainda, espera ativa, vigorosa, com profícua atividade intelectual: pensando, criticando, matizando. Essencial a matização; não basta empilhar slogans e chavões, repetir frases e pensamentos empacotados. Nos últimos dias a frase esclarecedora voltou quase obsessivamente: pensar, criticar, matizar sobre fatos da atualidade borrascosa.

 

Previsão infelizmente certa. Escrevi em meu artigo “O dia da vergonha”, postado em 17 de fevereiro último: “Viajou com o presidente [para Moscou] um nutrido acompanhamento militar para estabelecer “cooperação técnico-militar”, aliás explicita e sintomaticamente citada no comunicado: “fortalecimento da cooperação e intercâmbio militar”, como uma das metas da viagem. Compra de material militar russo? Técnicos russos assessorando o Exército brasileiro? Na América Latina a Rússia já vende material militar e oferece assessoramento para Nicarágua, Cuba e Venezuela”. Sinal dos tempos, são as novas companhias do Brasil. China, também. Às vezes, Coreia do Norte. Voltamos as costas para Estados Unidos, Alemanha, Austrália, Japão, Inglaterra. Outros mais, do mesmo campo.

 

Brasil – Rússia: cooperação na produção de energia nuclear para os campos civil e militar. Menos de mês após o artigo acima mencionado, informa Igor Gielow na Folha de S. Paulo de 16 de março sobre tratativas de cooperação entre Brasil e Rússia que veem de anos, foram meritoriamente freadas pelo anterior chanceler Ernesto Araújo, contrário ao afastamento em relação aos Estados Unidos, mas que agora caminham celeremente. “A recusa dos Estados Unidos em ajudar o Brasil em seu projeto de submarino nuclear levou o presidente Jair Bolsonaro a pedir apoio de Vladimir Putin, o que foi acertado na sua polêmica viagem de fevereiro a Moscou e agora está em xeque devido à guerra na Ucrânia. [...] Bolsonaro foi convidado e aceitou visitar o Kremlin, quando o russo já era acusado abertamente pelo Ocidente de preparar a invasão da Ucrânia ▬ que aconteceu uma semana depois de o brasileiro deixar a Rússia. [...] Nada foi citado na viagem sobre a questão dos submarinos, mas o ministro das Minas e Energia, almirante da reserva Bento Albuquerque, confirmou que conversou com a estatal russa de energia atômica Rosatom acerca da participação dela na usina de Angra 3, que o governo quer ver finalizada até 2026. Isso seria a face civil do acerto. [Existe, portanto, parte militar nas tratativas]. Bolsonaro, contudo, escorregou. Em encontro com empresários depois da visita a Putin, falou brevemente sobre os temas da viagem e citou interesse na área nuclear "por causa da propulsão do nosso submarino". O Brasil dá as costas para países ocidentais que detêm a tecnologia e se lança nos braços da Rússia. Escolha de campo. É o campo onde, na América Latina, já estão bem enraizadas Cuba, Venezuela, Nicarágua.

 

Reações em Washington. O Brasil tem acordo de 2009 com a França para a propulsão nuclear de submarinos. Está atrasado o cronograma: “O atraso é claro: o submarino que deveria chegar ao mar em 2025 não o fará antes do fim da próxima década. Isso se o fizer, dadas as implicações geopolíticas subjacentes não só ao namoro com os russos. As resistências americanas são perceptíveis”. De outro modo, os Estados Unidos observam com evidente, compreensível e justificado desagrado o escandaloso namoro do Brasil com a Rússia. Namoro, decorrência necessária, manifestado em praticamente todas as votações do Brasil em órgãos internacionais de importância a propósito da crise ucraniana. De um lado, tem sido o normal, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra, Japão, Austrália etc. Do outro, China, Brasil, Rússia, Belarus etc. Situação, aliás, constatada com satisfação por Sergey Lavrov, ministro das Relações Exteriores da Rússia: “Há atores que nunca aceitariam uma aldeia global com um xerife americano. China, Índia, Brasil, Argentina, México. Tenho certeza de que esses países não querem estar em uma posição em que o Tio Sam lhes ordene fazer algo e eles digam 'Sim, senhor'”. Em resumo, é o fato borrascoso, o Brasil tem manifestado subserviência em relação aos objetivos da diplomacia russa e, ao mesmo tempo, age com frieza e distanciamento em relação a Washington, Londres, Berlim, Viena, Roma. Tóquio. Para horror e vergonha do Brasil que presta.

 

Migração para nova área de influência. A sinalização prenunciativa é de migração para nova área de influência, com abandono trágico da área de influência dos Estados Unidos. É congruente, já pipoca no noticiário a subserviência em relação a Pequim e Moscou, sonho da diplomacia petista. Se Lula ganhar as próximas eleições presidenciais, tal processo será acelerado, ninguém duvida. Se Bolsonaro ganhar, entre as forças que terão contribuído para a vitória eleitoral, haverá setores ponderáveis que, embora fazendo parte da coligação vitoriosa, abominam a migração, propugnam pela continuidade do Brasil na área ocidental. Serão freio para impulso demolidor. Estamos em meio de borrasca violenta. Mantenhamos esperança, olhos abertos, discernimento, visão panorâmica; hora de vigília, pensar, criticar, matizar. Daí poderá vir a vitória.

 

Malhando em ferro frio

 

Malhando em ferro frio

 

Péricles Capanema

 

Voz que clama no deserto. Pensei em outros títulos: por exemplo, perdendo tempo ou voz que clama no deserto. Claro, emprego “voz que clama no deserto” no sentido moderno, falar debalde, gritar para quem não quer escutar, argumentar inutilmente. É que escritos meus a respeito podem semelhar realejo, tocariam ramerrão enfadonho já há uns dez anos. Resultados? Nulos, ou quase tanto, é o que aparenta. De passagem, já se vê, o significado da expressão passa longe do que ensinam os exegetas sobre o texto de Isaias, que ecoou nos Evangelhos. Encarando a mesma matéria sob outro ângulo, imaginei ainda “escapismo” por título. Seria aviso. Fiquei, por fim, no que acima encima o texto.

 

A necessária repetição. Resultados a bem dizer nulos? Salta incoercível a pergunta: para que continuar na trilha já bem batida? Valerá a pena? Adianta, convicção minha. Não importa o clamor sem eco aparente, o certo é prosseguir ▬ e assim progredir; agir diferente é retrocesso. Ainda que que poucos a ele agora deem ouvidos, a semente está colocada debaixo da terra, tem condições de frutificar, e dessa forma poderia ser obstáculo a tragédia grave, lesiva à independência e prosperidade nacionais, que assoma no horizonte.

 

Rejeição pelo oxigênio e atração pelo tóxico. Em duas palavras, dela tratarei abaixo, temos o Brasil se distanciando de área de influência de linhas gerais saudáveis e se precipitando em outra intensamente tóxica. Perspectiva apocalíptica, persuasão de anos. Sob o título “voz que clama no deserto”, postei dois artigos, um em 19 de dezembro de 2017, outro em 22 de janeiro de 2019. E ainda quase dois anos antes, “Clamando no deserto”, 18 de fevereiro de 2016, que remetia ao anterior “O Brasil servo”, de 10 de janeiro de 2016, mais de seis anos atrás. Avisos.

 

O Brasil servo. Aliás, é para este ignominioso estado, a servidão, normalmente processo de décadas, que desgraçadamente vamos sendo arrastados pelo menos desde o governo FHC. Bastaria recordar o fortalecimento rápido dos laços comerciais com a China comunista (com a inevitável interdependência e dependência daí resultantes), levada adiante com concomitante subestima da necessidade premente de, pelo menos, ao mesmo tempo, revigorar relações de igual natureza com Estados Unidos, União Europeia, Japão, Austrália. De momento, o Brasil, em especial seus setores produtivos, pensa duas vezes antes de tomar qualquer posição que possa desagradar a China. O impacto econômico interno poderia ser enorme, imediato e desastroso. Taís ponderações são compreensíveis, lógicas, limitantes; mal direcionadas, têm potencial perigoso. De outro modo, tal impulso, se ganhar velocidade, situação claramente concebível, conjugado a outros fatores, que também pesarão mais ao longo dos anos, farão o Brasil reagir à maneira de protetorado (inconfessado, talvez, mas real) possivelmente da China, quem sabe igualmente da Rússia ▬, caso o rumo, felizmente ainda tateante não for energicamente interrompido, minha obstinada esperança. Concluo o parágrafo puxando Nelson Rodrigues para minha sardinha: “O que é escrito ou falado uma única vez permanece rigorosamente inédito”. E ainda recordando Napoleão Bonaparte: “A repetição é a mais forte das figuras da retórica”.

 

Entre nós, gigante estatal de país comunista é empresa privada. Embuste deste naipe só tem vida no Brasil. Enumero a seguir outro fator de dependência. O Estadão de 10 de março de 2022, caderno Negócios, estampa a notícia “Chinesa CTG vai instalar eletropostos entre SP e MS”, texto de Cleide Silva. Começa assim: “Segunda maior geradora privada do País, a China Three Gorges (CTG), que hoje tem investimentos em hidrelétricas e parques eólicos, vai expandir seus negócios”. Informa que a companhia irá instalar 18 pontos de recarga elétrica em trajeto de 1,8 mil quilômetros que liga São Paulo a Mato Grosso do Sul. Explica ainda, a gigantesca firma chinesa (CTG) chegou ao país em 2013 e hoje tem investimentos em 17 hidrelétricas (das quais opera 14) e é sócia em 14 parques eólicos. Entrará igualmente no ramo da energia solar. A propósito, o Brasil tem hoje 1.250 postos de recarga e aproximadamente 80 mil veículos movidos a energia elétrica, mercado em rapidíssima expansão. A CTG atua em 47 países, o Brasil é o mais importante mercado para o grupo estatal fora da China. E o que aqui relato faz parte de quadro maior, porcentagem grande da infraestrutura brasileira caiu nas mãos de estatais estrangeiras, em especial da China. A situação pode piorar. É ameaça séria, mesmo que de momento latente, à soberania nacional.

 

Logros empilhados. País de engazopados. Onde malho em ferro frio? Ou clamo no deserto? Está claro na primeira frase da notícia: “Segunda maior geradora privada no País”. Geradora privada, permitam-me, é mentira repetida há anos pela imprensa. Não é geradora privada, é estatal chinesa. Tal patranha a propalam repetida e continuadamente os meios de divulgação. Dir-se-ia, no particular, o brasileiro não tem direito à verdade ▬ contudo, óbvio ululante. Aventar o assunto é, tudo o indica, malhar em ferro frio. Matéria conexa, silêncio preocupante sobre a provável nova configuração das zonas de influência. Tratar do caso, igualmente, malhar em ferro frio.

 

Descaso suicida. Este é o clima psicológico ▬ desleixo, imprevidência e indiferença com temas centrais ao bem comum ▬ que cria o caldo de cultura propício para um país decair da condição de soberano para a de protetorado. Um dos componentes de tal atmosfera é total desatenção para a entrega parcial, mas altamente significativa, da infraestrutura nacional a empresas estatais de países comunistas. A revista “Exame” (11/10/2016), pertencente a grupo diverso do controlador do Estadão, anunciou: “Em apenas três anos, a elétrica China Three Gorges Corporation (CTG) se transformou na maior geradora privada do Brasil. O último lance para a conquista da posição foi anunciado na segunda-feira, 10, com a compra dos ativos brasileiros da americana Duke Energy, em operação no País desde 1999, quando o setor elétrico estava sendo privatizado.” A Duke Energy, empresa privada norte-americana, foi comprada pela CTG, estatal chinesa ▬ providência característica e reveladora do programa brasileiro de desestatização e privatização. Em suma, a direção anterior, um grupo de acionistas privados, foi substituída por burocratas a mando do Partido Comunista Chinês. Autêntica privatização à brasileira.

 

Escapismo. Relaciono agora a matéria com a atualidade mundial. É normal, louvável, indispensável mesmo que, a propósito da agressão russa à Ucrânia, os olhares se voltem para a possibilidade da 3ª Guerra Mundial. Entre muitos males dantescos, poderia ser nuclear, acarretar morte de milhões, talvez bilhões de pessoas, representar o fim da era histórica em que nos encontramos. Contudo, postas as informações que me chegam, não é o mais provável. Vislumbram-se pistas de acomodação e acordo. O que, de momento, parece mais provável e está sendo colocado em segundo plano, pelo menos no material que conheço? Enfraquecida e mais isolada por causa da investida criminosa na Ucrânia, a Rússia está se afastando ainda mais da Europa e dos Estados Unidos e se aproximando ▬ aumento da dependência ▬ da China. O antigo Império do Meio joga parado, fortalece seu cacife e seu jogo. Cada vez mais se coloca em condição de grande “player”. Em tais circunstâncias, constitui escapismo não ficar o olhar em fatores de aumento e consolidação da área de influência chinesa. Ou sinorrussa, para o caso, a mesma coisa.

 

(1) O sentimento isolacionista nos Estados Unidos. Está forte? Declinou? Segundo pesquisa do USSC (United States Studies Centre), dezembro de 2021, o sentimento isolacionista cresceu em relação à pesquisa anterior entre eleitores democratas e republicanos. Não é boa notícia. Pois da noção viva no público de lá da responsabilidade natural que a Providência e a História colocaram nos ombros dos Estados Unidos vai depender, provavelmente de forma decisiva, as posições dos políticos no Executivo e no Legislativo, o que condicionará a efetividade da reação do Ocidente. Em consequência, a amplitude e a eficácia da zona de influência dos Estados Unidos (aqui incluo, entre outros, União Europeia, Japão, Coreia do Sul, Austrália, Canadá).

 

(2) América Latina desliza. Há uma nova Guerra Fria em formação e, compete-nos em especial perceber que a América Latina emite fortes sintomas de deslize trágico rumo à zona de influência chinesa. O distanciamento em relação aos Estados Unidos e à União Europeia de vários de seus países no caso da Ucrânia, a mais das sequelas, aponta rumos. Sem falar (3) na entrega de setores importantes da infraestrutura (o problema não é só brasileiro) para estatais chinesas, de outro modo, para a direção política do governo da China comunista.

 

Evasão. Não parece saudável apontar a gravíssima ameaça de conflito maior, mas permanecer desatento para o crescimento de perigo mais provável e mais próximo, o escorregão progressivo da América Latina (e aqui incluo o Brasil) rumo à China. Ampliemos o quadro, existe perigo batendo à porta. Malhar sempre, mesmo que seja (ou pareça ser) em ferro frio.

 

segunda-feira, 7 de março de 2022

Privatização à brasileira - 4

 

Privatização à brasileira ▬ 4

 

Péricles Capanema

 

Coerência e seriedade pelo ralo. Artigos vários escrevi sobre o programa de privatização (desestatização, o mesmo) no Brasil. Tinham um fundo comum, a ausência de coerência e seriedade. Sua aplicação criava graves problemas, ainda que de momento latentes. Pelo menos parte deles, algum dia explodirá, como bombas de fragmentação, em cima da cabeça dos brasileiros. Advirto de novo: sou a favor do programa de privatização, que expanda, abarque mais, que fique mais rápido, idôneo e eficiente para qaue possa entregar à iniciativa privada tudo aquilo que ela pode gerir melhor e com real proveito para o bem comum. Enfim, que o país aplique de fato o princípio de subsidiariedade. Meu foco é outro: é a desprevenção contra perigos evidentes que lesam a segurança nacional e, em consequência, as possibilidades de futuro livre e próspero para o Brasil.

 

Privatização para aumento da presença de estatal estrangeira? Ponto inicial de minhas ponderações: se era programa de privatização, as empresas participantes e vencedoras deveriam ser empresas privadas, não importando, em princípio, se brasileiras ou estrangeiras. A realidade tem sido outra; boa parte, se não a maioria das empresas vencedoras foi estatal (ou daqui ou do Exterior). Tem sido, e até agora nada indica mudança de rumos, em proporção muito alta, um programa de transferência de propriedade estatal brasileira para outra estatal brasileira ou para estatal do Exterior. Às vezes a estatal estrangeira que ganhava o leilão tinha proporção de capital estatal maior do que o capital estatal na empresa brasileira que cedia o ativo. Sob capa de desestatização, no bojo, estatização por vezes selvagem. Sobre isso, aliás, todo mundo se mantém calado, como se o problema não existisse. Existe. Um dia explodirá. Incluo, por razões compreensíveis, os programas de desinvestimento do setor público dentro do programa de privatização. O desinvestimento, via de regra, procura, pelo menos em tese, diminuir a presença do Estado na economia (desestatizar) e aumentar a eficiência dos fatores de produção. Por que transferir o ativo para outra estatal? O problema permanece no mesmo pé.

 

Governos estrangeiros ativos em setores da economia brasileira. Qualquer analista político com sensibilidade patriótica percebe o perigo; estatais nas mãos de governos estrangeiros, são, em tese, fatores importantes de ação na política interna. No Brasil, número elevado de casos foram estatais chinesas as que ganharam os leiloes, ou seja, agirão, as circunstâncias impondo, como “longa manus” do PCC (Partido Comunista Chinês). Estatais de outros países tenderão a agir de forma semelhante.

 

Influência política indevida e persistente. É outra doença da privatização no Brasil, as decisões continuam em boa medida influenciadas pelas direções políticas atuantes em especial em Brasília. “Um treco lá em tese independente, na prática o candidato da gente acaba ganhado”. Ficou bem conhecido um exemplo. Em 6 de maio de 1997 foi privatizada a Vale do Rio Doce. Na delação de Joesley Batista, uns vinte anos depois, consta o seguinte trecho sobre a escolha do presidente da megaempresa: “Aí ele [Aécio] falou, ‘não pode porque eu já nomeei’. Parece que a Vale tem uma governança pra ter uma independência pra escolher presidente, mas parece que eles têm algum jeito de fraudar esse troço e virar presidente alguém com nomeação política. Ele [Aécio] me explicou isso, disse ‘nós fizemos um treco lá que em tese é independente, mas na prática o candidato da gente acaba ganhando’. Ele disse que eu poderia escolher qualquer uma das quatro diretorias, que eu escolhesse e que ele botava quem eu quisesse, se fosse o Dida, ele botava o Dida”. Didas têm aparecido em empresas privatizadas Brasil afora.

 

Estatal russa na Amazônia. É o ponto mais atual do artigo. Ontem, dei com os olhos em notícia recente, desperta preocupação, devia suscitar discussão quente. Vai haver nada infelizmente. A ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) informou que seguirá normalmente em execução o contrato com a concessionária russa Rosneff para exploração de petróleo no Amazonas. De momento, a Rosneff é concessionária de três blocos, SOL-T-169, SOL-T-170, SOL-T-192, localizados na bacia do rio Solimões. A agência estatal, questionada se há intenção de romper os contratos, tendo em vista a guerra na Ucrânia, respondeu que não. Tudo continua normal.  A Rosneff tem até 31 de outubro de 2025 para declarar a comercialidade das áreas que lhe foram concedidas. A estatal Rosneff pertence ao governo russo,  atuará obviamente em harmonia com os interesses de Vladimir Putin. Ou de outros governante no futuro. Caso sejam descobertas no Rio Solimões grandes jazidas de petróleo, para alegria nossa, quem terá a mão na torneira será o governo russo. Se necessário, será possível tirar a mão dele da torneira? A que custo? Precisava?

 

Informação antes falsa, agora exata. Tratarei agora de pequeno progresso rumo à transparência. Sigo com atenção notícias divulgadas na imprensa sobre programas de privatização. Pela primeira vez, em 16 de dezembro de 2021, pelo que me lembro, trombei com informação exata. Segundo “O Estado de S. Paulo”, o comprador da refinaria Randulpho Alves (programa de desinvestimento e desestatizzação), antes propriedade da Petrobrás, foi o fundo soberano Mubadala Investment Company, “estatal dos Emirados Árabes Unidos”. A informação é exata, representa avanço informativo. A Petrobrás, sociedade de economia mista, com maioria de capital privado (pouco mais de 50% das ações ordinárias pertencem à União, o que lhe dá o controle) vendeu a refinaria para uma estatal, 100% propriedade de um Estado. Os Emirados Árabes Unidos agora são donos da refinaria.

 

Conclusão. Reitero pela enésima vez, a privatização em si é saudável, necessária, indispensável, mas não é salutar entregar parcelas significativas da infraestrutura brasileira para governos estrangeiros. E é o que acontece quando uma estatal de lá compra importantes ativos brasileiros. Não é coerente com a inspiração de autêntico programa de desestatização (privatização), também não é sério.

sábado, 5 de março de 2022

Edificante posição episcopal

 

Edificante posição episcopal

 

Péricles Capanema

 

Olhar retrospectivo. A palavra edificante, ali no título, de repente, por associação de pessoas e princípios, despertou recordações intensas em mim. Têm, aliás, relação próxima com a matéria do artigo. Compartilho-as abaixo, rapidamente, a figura que me veio à mente, merece atenção especial, não deixarei ninguém roído de curiosidade. Privei, conversas de grande proveito, anos a fio, uns quinze, imagino, uma ou duas vezes por semana, com dr. Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira. Outros também estavam sempre no grupo pequeno, em geral cinco ou seis pessoas, dois dos quais seus irmãos. De quando em vez, pessoas que moravam no Exterior, participavam dos encontros. Os convivas ali se reuniam pela manhã (no início, em uma sala de hotel; depois, na residência dele) por vários motivos, mas eram determinantes a atração pelo seu fulgor da inteligência e solidez da cultura religiosa e filosófica, embebidas em bom senso e despretensão. O ambiente e os temas alimentavam o que sentia palpitar ali, vivacidade doutrinária. Hoje, já afundadas no passado aquelas reuniões, saudoso ▬ dr. Arnaldo faleceu em setembro de 2018 ▬ em mais que merecida homenagem, inclino-me diante de sua memória, reverente e agradecido.

 

O poder existe para construir. Edificar, verbo que remete ao princípio lembrado por mim. O poder existe para edificar; é da sua essência. Quando foge gravemente da finalidade, são nulos seus atos. Sei, a aplicação a casos concretos é delicada, mas o princípio é este, lembrado sempre por dr. Arnaldo. Era-lhe muito caro, tinha-o a justo título por básico no Direito Natural, em parte do Direito Positivo, bem como no Direito Canônico. Tratava dele repetidas vezes. É nula ordem de um pai que manda o filho pular de janela alta. Ou que exige que tome veneno.

 

Pensador de criação e complementação. Continuo rememorando. Foi pensador que quando não criava, completava e matizava princípios conhecidos. Senso psicológico agudo, clareza de pensamento e exposição, espírito prático, encontrava com facilidade surpreendente saídas simples e luminosas para situações intrincadíssimas. A simplicidade da conclusão nascia lenta, surgia ao longo dos encontros. Assim germinava a solução, cada vez mais convincente, cada vez mais clara, cada vez mais simples. Seus campos de eleição eram a Teologia (matizava situações e distinguia posições de maneira exímia) e a Filosofia.

 

A alegria de elogiar. Viro o disco. As recordações acima jorraram de um ato edificante e de enorme importância, infelizmente menos comum do que os desejariam a maioria dos fiéis. Os bispos católicos do rito latino da Ucrânia, diante da criminosa ofensiva das forças russas, pediram oficialmente ao Papa Francisco que consagre publicamente a Ucrânia e a Rússia ao Imaculado Coração de Maria, conforme rogos de Nossa Senhora em Fátima. Seria atitude digna do Sucessor de Pedro, de grande valor simbólico e sobrenatural. Os bispos lembram, imploram “nesta hora de dor incomensurável e calvário terrível para nossos povos”, como resposta a numerosos pedidos de consagração a eles endereçados pelos fiéis: “Respondendo a esta oração, pedimos humildemente a Vossa Santidade que faça publicamente o ato de consagração da Rússia e da Ucrânia ao Coração Imaculado de Maria, como pediu a Santíssima Virgem em Fátima”. Os bispos ucranianos igualmente publicaram em sua página na rede um texto atualizado (em ucraniano) de antigo ato de consagração da Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria, solicitando que seja rezado em privado depois de cada missa.

 

Piedade corajosa. A solicitação episcopal (extraordinário poder da súplica de hierarcas dotados de governo fundado no Direito divino, profundamente edificante no caso) será atendida? Lamento a previsão, dói- me fazê-la, provavelmente será ignorada. Poderá até ser malvista, considerada inoportuna e quem sabe desatenciosa. E por isso sua postura tem um traço de coragem. Não importa. Está feita, brota do dever pastoral. “Sursum corda”. O ato piedoso tocará o coração da Rainha da Ucrânia nos céus, diante de Nossa Senhora produzirá efeitos. Não importa também que os bispos católicos de rito latino representem apenas aproximadamente 1% da população do país, seis dioceses sufragâneas da arquidiocese Lviv (ou Leópolis). A maioria dos católicos pertence ao rito greco-católico, no total cerca de 9 milhões de ucranianos em população de 44 milhões. Certamente juntam seus corações às suplicas dos antístites do rito latino.

 

Esperança fortificada. Importa sobremaneira aqui ressaltar um fato: a atitude corajosa e edificante dos bispos ucranianos de rito latino que, em atmosfera generalizada de agnosticismo, ateísmo e anticlericalismo, pedem ao Papa Francisco que caminhe na trilha apontada por Nossa Senhora em Fátima. Seria consagração de valor sobrenatural dificilmente mensurável. Rezemos para que, em que pesem circunstâncias adversas fortíssimas, o Pontífice, sensível às preces dos fiéis e da Hierarquia de rito latino, martirizados, caminhe nesta direção e,  finalmente, atenda ao que pediu Nossa Senhora em Fátima faz mais de século. E que nada tem de especialmente inovador, aliás, era continuação de prática piedosa generalizada ao longo do século XIX, que ecoou, em linhas gerais, até os anos 50. Um ponto era inovador: vinha acompanhada de promessas, se os homens as levassem a sério. Ainda há tempo.

 

terça-feira, 1 de março de 2022

Flertando com a podridão

 

Flertando com a podridão

 

Péricles Capanema

 

O horror da podridão. A podridão horroriza os seres saudáveis. Via de regra, flertam com a podridão os seres, em particular os morais, que se precipitam para a morte.

 

A obrigação moral de apoiar a Ucrânia. Mergulhemos no grave e urgente. Será necessário lembrar sucintamente textos anteriores. Em meu último artigo “A guerra em muitas frentes”, postado em 20 de fevereiro (está na rede), coloquei como parágrafo final: “O Brasil tem o dever de fugir do cansaço. É claro, o Brasil sofrerá na carne os efeitos da guerra na Europa. Em defesa do interesse nacional ▬ e por dever de consciência ▬ precisaríamos manter viva a recusa da agressão injusta à nação martirizada pelo agressor imperialista. Não podemos cair na tentação do cansaço de pugnar pela Ucrânia. E, é congruente, merece ainda apoio ardente a posição das potências ocidentais e da NATO em defesa dela.” Em síntese, apontava eu o dever moral ▬ no caso, também o mais evidente interesse ▬ de pessoas e nações apoiarem incansável e ardorosamente a Ucrânia. Em suma, quem presta, apoia a Ucrânia, a banda podre apoia a Rússia. A indiferença e uma suposta equidistância (chamada por vezes de neutralidade) na busca de equilíbrio hipócrita são formas de favorecer a banda podre. Vou um passo além. É dever do Brasil fugir do cansaço. É dever de todos, claro, mas meu foco especial hoje é a América Latina, toda ela precisa evitar o cansaço de defender a Ucrânia.

 

A exigência ética de estar a favor do Ocidente. Volto a lembrar textos anteriores. Em 30 de janeiro, publiquei longo, até muito longo, artigo, quase um ensaio, intitulado “Tesouros em vasos de barro” (está na rede). Nele procuro mostrar a obrigação moral de defender o Ocidente que, de momento, de forma a bem dizer unânime e ativa, coloca-se contra a infame agressão de Vladimir Putin. E cuja causa é harmônica à da Ucrânia. Meu presente texto ecoa os dois trabalhos acima mencionados. E ainda inúmeros outros, igualmente divulgados ao longo de anos por mim na rede, no mesmo rumo. Entre eles ressalto “O dia da vergonha”, de 17 de fevereiro. Todos eles retratam colocações que venho sustentando em sucessão contínua. O primeiro deles postado sob o título “Luzes do passado”, 21 de setembro de 2010; reproduzia artigo meu (com título diferente) “Um aspecto da pietas austriaca pouco considerado”, publicado na revista romana “Radici Cristiane” nº 35, junho de 2008. Continuidade. Enfim, são quase 14 anos de reafirmação da mesma atitude, ora de um modo, ora de outro. E assim, um dos motivos da rememoração, nada aqui é posição precipitada, redigida de afogadilho, nada há de pessoal.

 

Um dia a Ucrânia inteira poderá ter a mesma sorte que hoje já tem parte dela, a Crimeia. Antes de continuar na mesma via, faço parada rápida para recordar perigo enorme, o da acomodação, que se tornará realidade, se nos cansarmos da defesa da Ucrânia e do Ocidente ▬ cansaço da banda que presta, claro; a outra (a putrefata) já favorece a Rússia e antipatiza com o Ocidente. Em 30 de junho de 2018 (outro registro, já se vão quase quatro anos), postei artigo intitulado “Copa do Mundo em Helsinque”, que tratava do encontro entre Vladimir Putin e Donald Trump. A Crimeia era tema da agenda: “O caso da Crimeia está na pauta. Pelo jeito, os Estados Unidos caminharão para acomodação, deixando a Europa isolada. Com o tempo, a Europa tenderá também à acomodação, é a esperança de Moscou. De outro lado, a situação da Ucrânia apresenta pontos semelhantes. Daí, como ficarão as nações que fazem fronteira com a Rússia? Que valor têm as atuais garantias norte-americanas relativas à efetiva independência delas? O grande tema do encontro começa a aparecer claro: zonas de influência. Os Estados Unidos deixarão que imerja uma ainda não oficial zona de influência russa? Existiu na prática durante toda a Guerra Fria. Voltará?” Avisava sobre o óbvio: as zonas de influência voltavam, a situação da Ucrânia apresentava pontos semelhantes à da Crimeia. Era congruente, a Rússia partiria para cima dela. Outras nações seriam ameaçadas a seguir. A Finlândia e a Suécia já estão ameaçadas.

 

Acomodação derrotista e suicida. A acomodação norte-americana com a anexação da Crimeia, clara na ocasião do encontro (julho de 2018), era coerente com a política isolacionista de Donald Trump. Poderia levar à acomodação europeia. Levou. E com isso, a Ucrânia se tornou o próximo alvo. Sucedeu o previsível. Haverá acomodação gradual com a hoje previsível e indesejada deglutição da Ucrânia? É de se temer, se for insuficiente a reação e posteriormente sobrevier o cansaço, etapa prévia da indiferença.

 

Quebrar a resistência, o principal. A propósito, por esses dias estão sendo divulgadas pesquisas preocupantes sobre a força crescente do sentimento isolacionista na opinião pública dos Estados Unidos. Batendo o cansaço, no longo prazo, a Rússia terá vencido sem lutar. Sun Tzu advertia: “Lutar e vencer todas as batalhas não é a glória suprema. A glória suprema consiste em quebrar a resistência do inimigo sem lutar.

 

Agressão celerada levada a cabo por governo celerado. Volto ao estradão. Temos nação pequena (Davi, 603.458 km2, 45 milhões de habitantes), a Ucrânia, injustamente agredida por agressor celerado (Golias, 17.130.000 km2, 150 milhões de habitantes), inescrupuloso, implacável e tirânico. O pequeno e fraco procura desesperadamente se defender para manter a independência e a possibilidade de futuro próspero para seus nacionais. Pede ajuda. Em resumo, o dever é fazer frente comum com as potências que estão ajudando os ucranianos nessa hora em que são massacrados e martirizados.

 

Motivos de alegria. Foi com renovada esperança de que o direito mais evidente e os restos da ordem temporal cristã ainda vigentes (prenúncio de desejada restauração) acabariam por levar a melhor que assisti à levée de boucliers (oposição maciça, onda de protestos) diante da abjeta agressão do forte criminoso contra o fraco injustiçado.

 

Pintalgados da resistência. A reação, surpresa boa, veio maciça e enérgica, dela exporei poucos exemplos. Em primeiro lugar, os Estados Unidos, posições claras e decisivas. Destaco aqui apenas a manifestação de Mike Pompeo, secretário de Estado da administração anterior e homem influente no Partido Republicano: “Torço para que a administração Biden tenha sucesso. Desejo a ela todo o sucesso”. Claro, refere-se à crise na Ucrânia. Os Estados Unidos já anunciaram envio de material militar para a Ucrânia.

 

A Europa inteira assume protagonismo. Mais enérgica que os Estados Unidos, assumindo protagonismo, reagiu a Europa. Não poderia deixar de lado a posição da Polônia, saiu na frente, foi o primeiro país a prometer material militar. Da França, que também prometeu material militar para Kiev. Por seu lado, a Alemanha também enviará material militar. Portugal, Espanha, Turquia (fechou a passagem de navios militares da Rússia rumo ao Mar Negro). A própria Hungria condenou com veemência a invasão russa. Vieram sanções econômicas fortes. Mesmo a Suíça, rompendo seu tradicional neutralismo, colocou-se decididamente ao lado da Ucrânia. E ainda um sem-número de países, Reino Unido, Itália, Canadá, Japão, Austrália. Registro com satisfação particular que o Brasil apoiou a posição dos Estados Unidos na resolução submetida ao Conselho de Segurança da ONU (vetada pela Rússia), indicando que, apesar dos temores generalizados, prevaleceu ali, alvíssaras, é o que informa a imprensa, a posição da diplomacia brasileira e de numerosos outros setores no Brasil entre os quais oficias da ativa e da reserva_ que viam com horror o rumo que o país estava tomando.

 

Contragolpe violento no mesmo dia. No mesmo dia em que o Brasil apoiou a resolução patrocinada pelos Estados Unidos no Conselho de Segurança da ONU os presidentes do Mercosul, reunidos em Assunção (Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai) divulgaram declaração condenando a invasão russa. Argentina, Uruguai, Paraguai a condenaram, O Brasil não assinou a declaração.

 

Logo após, outro contragolpe. Também na mesma ocasião, a Organização dos Estados Americanos (OEA) divulgou nota condenando a invasão russa.  Todos os Estados da OEA a assinaram, menos Argentina, Bolívia, Cuba, Nicarágua. E Brasil.

 

Declarações escandalosas do presidente Jair Bolsonaro. No litoral de São Paulo, o presidente Jair Bolsonaro deixou claro que a simpatia dele estava com a Rússia. De fato, a posição brasileira está, com pequenos disfarces, alinhada, entre outros participantes da Banda podre, à de Cuba, China comunista, Coreia do Norte, Venezuela, Nicarágua.

 

Patranha lamentável e entristecedora. No Guarujá em folga pelo Carnaval, o presidente Jair Bolsonaro falou à imprensa “Estive há pouco conversando com o presidente Putin, mais de duas horas de conversa ao telefone. Tratamos de muita coisa, a questão dos fertilizantes foi das mais importantes. Obviamente ele falou alguma coisa sobre a Ucrânia, eu me reservo aí como segredo de não entrar em detalhes da forma como vocês gostariam”. Sobre a ação das tropas russas, foi restritivo: “É um exagero falar em massacre”. Em Brasília, o Itamaraty desmentiu o telefonema entre Bolsonaro e Putin. Inexistiu. Ainda no Guarujá declarou o presidente: “Nós não vamos tomar partido, nós vamos continuar pela neutralidade”. Logo depois, também em Brasília, de novo o Itamaraty. Declarou o chanceler Carlos França: “A posição do Brasil é de equilíbrio e não de neutralidade”. Ociosos eventuais comentários.

 

Desautoriza posição brasileira no Conselho de Segurança. O Brasil, no Conselho de Segurança, apoiou a resolução patrocinada pelos Estados Unidos, que fala em agressão russa. No Guarujá, o presidente garantiu: “Não tem nenhuma sanção ou condenação ao presidente Putin. O voto do Brasil não está definido”. Nenhuma necessidade de comentários.

 

Debique contra os ucranianos e tom depreciativo em relação ao presidente da Ucrânia. Afirmou o primeiro mandatário da nação: “[a nação] confiou em um comediante, o comediante que foi eleito presidente da Ucrânia, o povo confiou em um comediante para traçar o destino da nação”. Dispensa comentários. Inaudito.

 

A verdade esbofeteada. A Rússia está invadindo Kiev, ameaça cidades no país inteiro, entrou no país, por três locais. Afirmou Bolsonaro: “Eu entendo que não há interesse por parte do líder russo de praticar um massacre. Ele está se empenhando em duas regiões do Sul da Ucrânia que, em referendo, mais de 90% da população quis se tornar independente, se aproximando da Rússia”. Não há necessidade de comentar. Nada aqui faz sentido.

 

Indiferença desdenhosa com a sorte da Ucrânia. Anatoliy Tkach, encarregado de Negócios da Ucrânia no Brasil levantou a possibilidade de um telefonema de Jair Bolsonaro ao presidente Zelensky: “Eu penso que o presidente do Brasil está mal informado. Talvez fosse interessante ele conversar com o presidente ucraniano. Estamos em um momento delicado quando estamos decidindo o futuro não só da Ucrânia, mas da Europa e do mundo. Não se trata apoio à Ucrânia, mas apoio aos valores democráticos”. Resposta do presidente brasileiro: “No momento, não tenho o que conversar com ele”.

 

Um esquecido da banda podre: o PT. Esqueci-me de colocar na banda podre um partícipe que pode se tornar daqui a pouco fator decisivo na determinação da política brasileira, externa e interna. A bancada do PT do Senado divulgou o comunicado abaixo (depois o apagou do site do partido):”PT no Senado. Nota oficial. O PT no Senado condena a política de longo prazo dos EUA de agressão à Rússia e de contínua expansão da Otan em direção às fronteiras russas. Trata-se da política belicosa, que nunca se justificou, dentro dos princípios que regem o Direito Internacional Público. Essa política imperialista produziu o quadro geopolítico que explica o atual conflito na Ucrânia. Tal conflito, frise-se, é basicamente um conflito entre os EUA e a Rússia. Os EUA não aceitam uma Rússia forte e uma China que tende a superá-los economicamente”.

 

Um olhar nas brumas do futuro. É claro que a mudança de rumos do Brasil é o que mais desejam os anticomunistas traumatizados, muitos dos quais foram às ruas entre 2013 e 2018 e, via de regra, sufragaram maciçamente Jair Bolsonaro em 2018. Virá? Não sei. O mais importante do artigo vem agora. O esclarecimento e a vigilância entre brasileiros de bem podem impedir desastre de proporções dificilmente imagináveis. Com efeito, na presente crise de nada adiantaram os numerosos apelos ao Brasil dos Estados Unidos e da União Europeia, entre outros muitos. O país continuou ao lado da Rússia, com pequenos e até infantis disfarces ▬ como aliás, está fazendo até mesmo a China, cuja política foi classificada pelo “Financial Times” de neutralidade pró-Rússia.

 

Flertando com a podridão. Não nos enchafurdamos na podridão ostensiva, mas durante toda a presente crise flertamos sem cessar com ela. Como maça boa em cesto de maçãs podres, tal conduta, com o tempo, fará o Brasil apodrecer como o país livre. Felizmente, há reações vivas, penhor de futuro de liberdade e prosperidade, é o que informa a imprensa, entre as quais o corpo do Itamaraty que procura evitar desatinos pró-Putin e até declarações como as do general Hamilton Mourão, ecoando preocupações das Forças Armadas.

 

Traços de chavismo. Contas feitas, a atual posição brasileira, se não houver decidida e enérgica mudança de rumos, acarretará sequelas graves ao país, provenientes sobretudo dos países da União Europeia e dos Estados Unidos. Demos as costas a eles, não há como fugir da constatação. E abraçamos seus adversários. Na América Latina, por escolha, distanciados de nossa posição histórica e da área de influência ocidental, haverá atração inevitável e incoercível pela zona de influência onde hoje se albergam, uns mais, outros menos, México, Cuba, Nicarágua, Argentina, Chile, Bolívia, Peru, logo talvez Colômbia. É o mundo adversário dos Estados Unidos, pronto para se submeter às influências russa e chinesa. Caso o PT vença em outubro próximo, e é hipótese que começa a ganhar ares de provável, dificilmente escaparíamos dali; tragédia anunciada e virtualmente inevitável. Contudo, caso haja segundo mandato de Jair Bolsonaro, pela força da lógica, um temor agora se levanta inevitável no horizonte: padeceríamos governo com traços crescentemente chavistas ▬ e hoje, sentada nas maiores reservas comprovadas de petróleo no mundo, a Venezuela é o país mais pobre da América do Sul. Na presente quadra, não é possível afastar dos olhos de fato notório: o chavismo nasceu nacionalista e com forte marca castrense. O que possivelmente terá inclinado o então deputado federal Jair Bolsonaro, em 1999, a declarar à imprensa que o presidente Hugo Chávez, eleito em 1998, constituía “esperança para América Latina” e que gostaria que “sua filosofia chegasse ao Brasil”. Nada me faria mais feliz do que a constatação do inteiro infundado de minhas reflexões. Mas, sou mineiro, e, em Minas se diz “seguro morreu de velho, desconfiado ainda vive”. Quero que o Brasil viva.

 

domingo, 20 de fevereiro de 2022

A guerra de muitas frentes

 

A guerra de muitas frentes

 

Péricles Capanema

 

Guerra híbrida. Amigo caríssimo enviou-me artigo de enorme interesse sobre a crise ucraniana. Sob vários aspectos, é o mais esclarecedor entre o material que li. Original alemão, divulgado pela Deutsche Welle; tive, entretanto, sob os olhos tradução inglesa “Russia’s hybrid war against Ukraine, 18.2.2022 (A guerra híbrida da Rússia contra a Ucrânia). Híbrido aqui significa múltipla; vários tipos de guerra usados ao mesmo tempo contra a Ucrânia, mas com um só objetivo: prostrar o país. E ainda o Ocidente. Tirar dos dois, por corrosão constante, a vontade de lutar e de resistir.

 

Guerra cibernética, escaramuças militares e fake news políticas. Informa o texto, apenas na última semana, a Ucrânia sofreu ataques cibernéticos sem precedentes dirigidos contra o ministério da Defesa e contra dois bancos, Privatbank e JSC Oschadbank. Foram atingidos clientes individuais e o sistema bancário inteiro. Ao mesmo tempo havia choques no leste da Ucrânia entre rebeldes treinados por militares russos contra forças do exército ucraniano. E se divulgavam notícias de que a Duma iria reconhecer a soberania da parte leste da Ucrânia, cuja população é majoritariamente de origem russa. Esses são apenas alguns exemplos, informa o estudo, das escaramuças que a Rússia vem promovendo na Ucrânia já há oito anos.

 

Controlar a narrativa. Comenta a respeito a dra. Margareth Klein, pesquisadora do Instituto Alemão para Assuntos de Segurança (Stiftung Wissenschaft und Politik / German Institute for International and Security Affairs), especializada na Europa Oriental: “Na guerra híbrida é importante ter em vista que os métodos não militares têm papel central. Não se trata sobretudo de ocupação militar do território. Pelo contrário, o objetivo é ganhar influência. Demonstrações de poder militar como a presente aglomeração de tropas nas fronteiras com a Ucrânia, os exercícios militares na Bielorrússia, bem como a anunciada retirada de tropas, são apenas parte de um vasto instrumental, mediante o qual a primeira prioridade é controlar a narrativa. Vladimir Putin realmente sabe como conduzir ao mesmo tempo esta guerra em várias frentes”.

 

Abatimento, desgaste e acomodação. Segundo Klein, o autocrata russo quer corroer o ânimo de resistência dos ucranianos e também dos ocidentais. É o objetivo de oito anos de guerra de desgaste: “É guerra de atrição. A Rússia está tentando colocar a Ucrânia sob pressão fortíssima, em especial na frente interna, com a esperança de reviravolta e caminho novo pró-russo. Outro objetivo pode ser provocar o cansaço de defender a Ucrânia no mundo ocidental. É uma tentativa de explicação do constante ciclo de tensão e distensão na guerra. Provocar a convicção de que a liderança norte-americana é paranoica”. Explica ainda Margareth Klein que na análise de todas as comunicações russas de que tropas do país estavam se retirando, em nenhuma delas os serviços de inteligência constataram retiradas expressivas. Era jogo de propaganda ▬ buscava o que ela chamou controle da narrativa.

 

Impedir a prosperidade. A dra. Margareth Klein amplia o panorama. Afirma que existe na juventude ucraniana enorme desejo de crescer na vida, o que seria possível pela adoção no país dos princípios vigentes nas economias ocidentais. Em outras palavras, propriedade privada, livre iniciativa, princípio de subsidiariedade. Nada de estatismo e intervencionismos. Tal fato, a disseminação da prosperidade gradual na população, seria fator importante para puxar o país para a área ocidental. Com reflexos importantes em outros países da região, mesmo na Rússia. Para impedir tal movimento, Vladimir Putin pretenderia manter a Ucrânia em constante crise econômica, é a hipótese aventada pela dra. Klein. E assim, a Rússia não está apenas impedindo a Ucrânia de aderir à NATO. “A guerra híbrida semeia incertezas, afugenta investidores”. Breve, segundo o estudo da Deutsche Welle, talvez o motivo determinante da agressão russa contra a Ucrânia não seja a tentativa de impedir seu ingresso na NATO (o que, aliás, segundo a garantia do chanceler alemão, se vier, será daqui a muitos anos), mas o temor de que a experiência capitalista no país, com rápido enriquecimento e prosperidade, cada vez mais difundida, tenha como efeito afastar ainda mais as populações do Leste europeu do guarda-chuva russo.

 

Invasão iminente. O estudo da entidade alemã, que fica como pano de fundo, desperta perguntas decisivas cujas respostas (mesmo quando simples e despretensiosas tentativas com grande carga hipotética) podem enriquecer a compreensão do quadro geral. Cabe a nós procurar resposta tendo como base em especial as notícias que de lá nos chegam. No momento, alarmantes. Além dos Estados Unidos, que por suas autoridades mais importantes afirmam peremptoriamente que a invasão da Ucrânia já está decidida e é iminente (presidente da República, vice-presidente da República, secretário da Defesa), temos advertências semelhantes dos principais chefes de governo da Europa. Destaco aqui declarações de 19 de fevereiro de Boris Johnson, o primeiro-ministro inglês, a Rússia está planejando a “maior guerra na Europa desde 1945” o que poderia provocar “uma geração de derramamento de sangue e miséria”.

 

O Brasil tem o dever de fugir do cansaço. É claro, o Brasil sofrerá na carne os efeitos da guerra na Europa. Em defesa do interesse nacional ▬ e por dever de consciência ▬ precisaríamos manter viva a recusa da agressão injusta à nação martirizada pelo agressor imperialista. Não podemos cair na tentação do cansaço de defender a Ucrânia. E, é congruente, merece ainda apoio ardente a posição das potências ocidentais e da NATO em defesa dela.