quarta-feira, 29 de julho de 2026

A Escola de Frankfurt: mitos e realidade em olhar retrospetivo

 

A Escola de Frankfurt: mitos e realidade em olhar retrospectivo

 

Péricles Capanema

 

Toxinas duradouras

 

Em 14 de março último faleceu Jürgen Habermas (1929-2026), em nossos dias principal figura da Escola de Frankfurt (2ª geração). Anos antes, 12 de janeiro de 2020, falecera sir Roger Vernon Scruton (1944-2020), renomado scholar inglês, autor de pertinentes críticas, amplamente divulgadas, à referida escola. Dos dois, não tratarei, fogem deste foco. A eles aludi apenas para dirigir a atenção dos leitores para corrente de ideias que não morreu, repercute a todo momento, embebe ambientes e, à vera, está muito viva e intoxica o mundo inteiro. Viva, note-se, mormente em seus rebentos. O assunto do artigo é a Escola de Frankfurt, aventado embora de forma sintética. Reitero, porém, é a matéria, ainda que por vezes envolta em mitos, de enorme importância. Já de há muito, décadas, as doutrinas de contestação e análises da sociedade atual que ali tiveram nascedouro estão na raiz de grande parte do labor de desmanche do que chamamos civilização ocidental, realizado sobretudo pelas correntes de esquerda e por setores chamados progressistas, mesmo quando atacam o progresso. De fato, regressistas.

 

Rebentos peçonhentos

 

Com efeito, os fármacos dos laboratórios frankfurtianos constituíram ingredientes essenciais do arcabouço doutrinário de correntes de opinião que depois se espalharam mundo afora, ▬ com frequência se diluindo para facilitar a difusão ▬, sempre carregadas de toxinas mortíferas, moldando personalidades e instituições. No meio da investida generalizada, entre tais movimentos de desagregação, destaco aqui a contracultura, a revolta estudantil, principalmente a dos anos 60, os ataques ao capitalismo, a agenda LGBT. Ainda se poderiam lembrar a recusa da família monogâmica, da sociedade patriarcal, dos hábitos culturais prevalentes no Ocidente, campanhas contra a chamada discriminação de gênero, favoráveis a comportamentos libertários, à família plural, ao poliamor. Tanta coisa mais haveria para colocar, o ataque é multifacético. Releva deixar dito, de passagem, por vezes tais correntes se aproveitam de vícios reais, que devem ser combatidos, para alardear propostas corrosivas.

 

“Um fantasma ronda a Europa, o fantasma do comunismo”

 

Adiante. A Escola de Frankfurt é, para muitos, avantesma parecido com o fantasma brandido por Karl Marx e Friedrich Engels no Manifesto Comunista de 1848: “um fantasma ronda a Europa, o fantasma do comunismo”. O comunismo não foi apenas fantasma aterrorizador; foi e é flagelo pavoroso. A Escola de Frankfurt não é apenas fantasma aterrador; foi e é flagelo destrutor de enorme expansão, em especial no campo das concepções, dos costumes e da consciência revolucionária, minadouro de torrentes hoje intituladas em geral de “marxismo cultural”. Anos atrás, era apodada comumente de marxismo ocidental. Algumas palavras, pingos históricos, para leitores que talvez dela nunca tenham conhecido senão fiapos ou até nada tenham escutado.

 

Uma comparação pode lançar luz. Os fenômenos da estratosfera, ainda que despercebidos da maioria, regulam o clima. A Escola de Frankfurt foi fenômeno sobretudo de estratosfera. Na troposfera, onde ocorre o turbilhão dos fatos, o olhar desatento usualmente exclui referida corrente de ideias de sua atenção. Contudo, a mirada percuciente perceberia suas causas nas ocorrências da troposfera. Sob outra luz, por sua doutrina e análises,  a Escola de Frankfurt não criou diretamente os movimentos sociais revolucionários mais em evidência, mas forneceu o arcabouço filosófico e sociológico que fundamenta sua ação.

 

Empurrando de lado o folhetinesco

 

Desconsidero, convém notar, para avaliar a importância do “fenômeno Frankfurt”, o que tantas vezes em literatura folhetinesca se tacha com o rótulo vago de teorias da conspiração. No rumo oposto, considero a enorme lida doutrinária e de análise sociológica produzido pelas penas dos corifeus de tal escola ▬ produção e oferta regidas pelas leis da vida intelectual ▬ que encontraram eco ao longo dos anos sobretudo nas universidades, partidos políticos, sindicatos, igrejas, em dezenas de milhões de espíritos ávidos de justificação para sua ação revolucionária ▬ demanda e consumidores. Reitero, eles consumiram (colocaram em miúdos, esclareceram, adaptaram, ampliaram, divulgaram) o material intelectual que vinha dos formuladores doutrinários da escola de Frankfurt. Outro ponto a notar é que de há muito a ação das correntes revolucionárias, em boa medida, mesmo com doutrina ainda articulada insuficientemente, já era consonante com as doutrinas explicitadas e postas em evidência no século 20 por frankfurtianos. O papel delas em parte foi tornar claro, fundamentado, notório e inquestionável o rumo que deveria ser tomado. Apenas, como exemplo, vários movimentos das correntes apodadas pelos marxistas de socialismo utópico já agiam amplamente de acordo com elas, ainda que não as pudessem formular.

 

Pedras no caminho

 

Em 1917, Lenine tomou o poder na Rússia e, inspirado no marxismo, iniciou a implantação do comunismo em área de mais de 22 milhões de quilômetros quadrados, onde viviam cerca de 170 milhões de pessoas. Fulgiam imensas a oportunidade e a esperança revolucionárias. Recordando a utopia coletivista da época, ali começava a era dos “amanhãs que cantam”. Imaginava boa parte dos revolucionários, quem sabe a maioria, os amanhãs que cantam constituiriam propaganda irresistível para o socialismo. E assim, para amplos círculos de esquerda política e de setores progressistas, vitórias esmagadoras pairavam iminentes.

 

Operariado reticente, prognósticos falsos

 

Contudo, já no começo da caminhada padeceram dificuldades enormes. Evoco algumas: com ares de perene se petrificava ditadura feroz na Rússia, caía o nível de vida do operariado russo e, mais próximo e mais lacerante, nos países ocidentais o operariado não votava majoritariamente no comunismo. Contingentes enormes da classe operária lhe tinham repulsa. Em sentido contrário, os partidos burgueses, no geral, carreavam a maioria dos votos dos trabalhadores. A mais, revelavam-se falsos os prognósticos do marxismo. Repasso alguns: não havia revolta notável no proletariado, os salários subiam, a classe média aumentava, a propriedade se disseminava. No horizonte, não aparecia no panorama o mítico sujeito revolucionário, o operariado cada vez mais explorado, cada vez mais revoltado. De outro modo, o marxismo se revelava instrumento errôneo para análise da realidade. Era incoercível, nas hostes revolucionárias, aos milhões, começavam a grassar desconcerto e incompreensão, lavravam sintomas reveladores de desagregação, não raro o desânimo. Qual a razão da recusa maciça e das falhas da doutrina? Ou quais as razões? A Escola de Frankfurt as buscou. E Gramsci também.

 

Fundo de bom senso natural, patrimônio milenar

 

Tal situação de recusa, aliás, persistiu e até se agravou em muitos casos. Em 1965, o prof. Plinio Corrêa de Oliveira observou em seu ensaio “Baldeação ideológica inadvertida e Diálogo: “Há cem anos – em números redondos – vem o comunismo pregando às populações operárias do mundo inteiro a revolução social, o morticínio e a pilhagem. Para essa pregação, dispôs ele quase continuamente, ao longo desse século, de inteira liberdade de pensamento e de ação, em quase todos os países. Tampouco lhe faltaram recursos financeiros imensos, bem como especialistas e técnicos dos melhores, em matéria de propaganda. A despeito de tudo isso, as multidões se têm manifestado, em sua grande maioria, pouco sensíveis aos acenos – que tão facilmente as poderiam fascinar – da demagogia marxista. Em nenhum país o comunismo logrou jamais a conquista do poder por eleições honestas. A causa desta insensibilidade está em parte no fato de que em muitos lugares se melhorou consideravelmente a situação das classes necessitadas. Mas é preciso não exagerar o alcance ideológico de melhorias tais: em algumas regiões, como o Norte da Itália, por exemplo, em que as condições do operariado não cessaram de progredir depois da segunda guerra mundial, o comunismo alcançou desconcertantes êxitos eleitorais. A causa da insanável inviabilidade da vitória comunista através das urnas está também, em alguma medida, na resistência que ao marxismo opõe o fundo de bom senso natural que constitui o patrimônio milenar e comum da humanidade. Este bom senso se choca com o caráter essencialmente antinatural que se mostra em todos os aspectos do comunismo. Nos povos de civilização cristã, a esse fator se acrescenta a incompatibilidade do espírito, da doutrina e dos métodos marxistas com o espírito, a doutrina e os métodos da Igreja. Da conjunção destes obstáculos é que decorreu o fato inconteste e imensamente significativo de que – repetimos – em cem anos de existência e ação, nenhum partido comunista tenha logrado tornar-se majoritário em qualquer país. Sobre este fato jamais será suficiente insistir, se quisermos ver em sua real perspectiva os obstáculos que o comunismo tem por frente.”

 

Hegemonia cultural esteada no bom senso

 

O tema requer ampliação de horizontes, a saber, inclusão do pensamento de Antônio Gramsci (1891-1937), dirigente do Partido Comunista Italiano. Gramsci não teve relação pessoal com integrantes da Escola de Frankfurt, mas o mesmo quadro de fundo os preocupava. Deveras, o problema não atazanava apenas intelectuais marxistas alemães, era universal. Gramsci, por anos, encarcerado, em cerca de trinta cadernos, anotou observações, reflexões, doutrina, material depois compilado em obra póstuma, os “Cadernos do Cárcere” (1ª edição entre 1948 e 1951). O problema que ele queria ver resolvido tinha um centro: o povo, mesmo o mais modesto operariado, não adere ao comunismo, apesar de todas as promessas. Por quê? Por causa do sentido comum, sintetizou Gramsci. Sentido comum em Gramsci tem significado próximo do nosso bom senso. Mas vai além. Inclui o que ele chama cultura. Gramsci para tal cunhou a expressão “hegemonia cultural”. As classes dominantes, jargão dele, detêm normalmente a hegemonia cultural. A população considera normais (constituem parte do seu sentido comum) instituições, valores e hábitos que cimentam a ordem vigente. Ordem vigente, no caso analisado por Gramsci, a Itália, era constituída pelos ecos ainda muito audíveis da ordem temporal cristã. Enquanto persistisse aquela hegemonia cultural, seriam instáveis e enganosos os triunfos de ordem política ▬ vencer eleições e tomar governos. O triunfo efetivo do comunismo só viria com a criação de outra “hegemonia cultural”, alcançada mediante a “guerra de posição”, desencadeada contra a então cultura dominante, com a concomitante articulação de um bloco hegemônico, labuta de décadas, talvez de mais de século.

 

Longa Marcha através das instituições

 

Ecoando a nomeada da Longa Marcha dos comunistas chineses (1934-1935), o líder universitário Rudi Dutschke (1940-1979), principal figura das revoltas estudantis nos anos 60 na Alemanha, cunhou em 1967 a frase “der lange Marsch durch die Institutionen” ▬ (a Longa Marcha através das instituições) ▬ para indicar a nova tática comunista (gramsciana, é verdade) de conquista gradual das mentalidades, da sociedade civil e do poder. Mais que a tática leninista da conquista violenta do Estado, geradora da ditadura soviética, propunha Dutschke a revolução cultural lenta, mediante a ocupação paulatina dos meios de divulgação, academia, órgãos públicos, modificações no interior das famílias etc. A conquista política chegaria depois, seria estável, e em consequência da ação anterior.

 

Ofensiva em cinco frentes

 

Para conseguir mudar a cultura (de fato, em nossa linguagem, melhor, a civilização; estruturas, valores, princípios, hábitos que esteiam e embebem uma ordem temporal), Gramsci indicou a necessidade de agir em cinco frentes em sua “guerra de posição”. De outro modo, em vez de um assalto frontal e violento ao Estado (“guerra de movimento”), ocupação gradual das instituições da sociedade civil:

 

1ª) Meios de divulgação. Jornais, revistas, rádio e livros que formam a opinião pública e moldam o senso comum. Hoje seria preciso incluir TV e redes sociais. Em resumo, embebê-los de pessoal revolucionário e, com linguagem revolucionária, torná-los veículos de formação, propaganda e intimidação.

2ª) Igreja. Gramsci analisava a Itália, referia-se especificamente à Igreja Católica. Tem grande capilaridade a Igreja, vai até a ponta da sociedade, unifica visões de mundo (Weltanschauung), forma valores morais, orienta o comportamento. O Clero, religiosos, teólogos, professores das instituições educativas católicas precisavam ser propagadores da nova hegemonia cultural. Contudo, combatidos, silenciados, no caso de constituírem obstáculos a ela.

3ª) Academia e Escola. São os locais de formação dos intelectuais, propagam ideologias, desenvolvem consciência crítica. Para o pensador italiano, os intelectuais organizam a cultura e a sociedade. Constroem a hegemonia ▬ de ideias, moral, política. Sem eles, não é factível a hegemonia cultural, nem o bloco hegemônico.

4ª) Família. Base primária, é o espaço inicial de socialização e coerção, molda condutas, transmite valores, as primeiras e mais fundamentais noções de autoridade, comportamento e visão do mundo. Normaliza o modo de vida e a disciplina social vigentes. Tem aqui sua raiz o senso comum.

5ª) Partidos políticos e sindicatos. Formam, coordenam, formulam projetos. O partido político na Itália tinha funções de agregação, formação e ação. Era o “intelectual coletivo”, organizaria a vontade das classes subalternas, trabalharia pela hegemonia, rumo à mudança na sociedade.

 

Pela ação contínua no interior de tais grupos se formaria, com base popular crescentemente estável, o consenso revolucionário, atingir-se-ia, por fim, a hegemonia cultural, da que derivaria o bloco hegemônico. Em duas palavras, acima, linhas gerais da doutrina e práxis gramscianas. Eram necessárias para bem colocar o foco nas doutrinas da Escola de Frankfurt.

 

Esboroamento na doutrina e nos fatos

 

Na origem, dificuldades graves, já em parte acima relatadas, formaram o caldo de cultura dentro do qual germinou a referida escola. Assombrava o fato bruto, percebido por todos: no “socialismo real” (a Rússia soviética) inexistiam amanhãs que cantam, mas apareciam cada vez mais amanhãs que urravam de opressão, fome, dor e desespero. E no Ocidente, o operariado não aderia ao comunismo, nem se esforçava pela revolução social. Sua ambição generalizada, percebida com facilidade, pelo contrário, era melhorar de vida, imitar no possível o estilo de vida burguês. Estava notório, a doutrina tinha furos. De outro ângulo, aos olhos de muitas correntes imbuídas de comunismo se apagava a credibilidade da utopia marxista.

 

Busca da solução

 

Como sair da enrascada? Trato aqui de Frankfurt, atalho entre vários tentados, de fato, o mais relevante. Outras tentativas existiram, em geral, caminhos empedrados de fracassos. Como disse, estão fora do âmbito do presente afã.

 

Alicerces

 

Em 1923, o acadêmico Félix Weil, jovem marxista milionário, doou os recursos necessários para a fundação do “Institut für Sozialforschung” [Instituto de Pesquisa Social], que deu corpo definido a um grupo destacado de intelectuais marxistas, depois conhecido como a Escola de Frankfurt. O nome preferido inicialmente foi “Instituto de Pesquisas Marxistas”, logo abandonado; o primeiro diretor escolhido foi György Lukács (1885-1971), intelectual marxista húngaro, considerado precursor da Escola de Frankfurt. Natural o nome: o instituto, ligado à universidade de Frankfurt, funcionava nesta cidade; tinha ali um edifício de sete andares. Com a ascensão do nazismo, seus líderes (a maioria de ascendência judaica) fugiram da Alemanha e se estabeleceram em especial nos Estados Unidos. O instituto foi transferido em 1934 para Nova York, ligou-se à Universidade de Colúmbia e só voltou para a Alemanha em 1950. Herbert Marcuse permaneceu na Califórnia.

 

Radicalismos novos

 

Foram anos de lida, publicações, congressos. No curto, a solução revolucionaria foi encontrada aos poucos e teve seu rumo, caracterizado por (i) radicalizar a proposta revolucionária em vigor [o marxismo leninismo que fracassava]; (ii) aprofundar a dissolução até o interior da família [caldo de cultura e nascedouro da sociedade hierárquica]; (iii) e ainda do próprio homem [p. ex., personalidades intituladas de autoritárias e com vincos que perenizavam a ordem antiga], sem a qual repetiriam fracassos evidentes; bem como (iv) apontar adversários novos, até então despercebidos; (v) ademais de deixar de lado velharias estorvantes; (vi) e, finalmente, admitir táticas graduais, de onde poderia vir o triunfo.

 

“Ni dieu, ni maître”

 

“Nem deus, nem senhor” ou “Nenhum deus, nenhum senhor”. Esta conhecida divisa anarquista e socialista do século 19, proclamando desafiante a rejeição de quaisquer autoridades, divina, política, social ou patronal, poderia ter sido lema adequado da Escola de Frankfurt. Em relação ao programa do século 19, a difusão de seu pensamento o aprofunda em dois pontos: o esboroamento da autoridade familiar (com o ataque à formação da chamada personalidade autoritária) e ainda a denúncia da prevalência da razão (ênfase na instrumental) reprimindo emoções e instintos no interior das personalidades (amálgama da psicanálise como divulgada pela referida escola e do freudismo com o ideário marxista).

 

Extinguir a dominação, generalizar a emancipação

 

De verdade, a tarefa levada a cabo pela Escola de Frankfurt, simplificando, resume-se a duas: extinção da dominação e promoção da emancipação. Dominação se relaciona com domínio, com senhorio, com senhor (dominus). Em todas as esferas, o mal causado pelo senhorio precisaria ser erradicado. A dominação acabará com a generalização da emancipação (ou desalienação). A etimologia de emancipar também esclarece muito. Emancipare (latim) junta o prefixo ex (fora, afastamento) com mancipium (ato de tomar posse, agarrar); por sua vez este junta manus (mão) e capere (pegar, capturar). Alienare significa entregar a outro Numa palavra, é o programa para livrar-se da ascendência do outro, qualquer deles, Deus, pai, mãe, patrão, razão.

 

Corifeus

 

Enumero a seguir alguns de seus mais conhecidos corifeus. Max Horkheimer (1895-1973), criador da Teoria Crítica, corpo doutrinário central nas concepções da Escola de Frankfurt, exposta no livro “Dialektik der Aufklärung (Dialética do Iluminismo). Dominação e emancipação são os conceitos vetores na Teoria Crítica. A razão no iluminismo teria se tornado instrumento de dominação, degenerou-se, passou a tratar a natureza e o homem como objetos de exploração, gerando uma nova forma de servidão e alienação. Foca a denúncia no que qualifica de razão instrumental, orientada para o cálculo, utilidade e eficácia. A ciência e a técnica passam a ser instrumentos de escravização, úteis para dominar a natureza e outros seres humanos. Theodor Adorno (1903-1969). Com a “Crítica do Iluminismo”, escrita em conjunto com Horkheimer, também procurou derruir a crença na primazia acrítica da razão, considerada instrumento de dominação. A Revolução Francesa colocou uma mulher, escassamente vestida, representando a deusa Razão na catedral de Notre-Dame. Era símbolo da posição revolucionária no ápice na época, a razão humana, finalmente libertada de preconceitos, deveria ser adorada. Inauguraria época ade felicidade, liberdade e progresso. Sobre tal base mítica se edificou o século 19, grande parte do 20. Até hoje sobe tais pressupostos se edifica largamente a estrutura da presente civilização. As doutrinas de Adorno (e de Horkheimer) derrubavam tal divindade, vista como opressora, fator de dominação, obstáculo à igualdade. Antônio Gramsci não levou seu extremismo revolucionário ao ponto de atacar a primazia da razão como ordenadora da conduta humana. Neste ponto, e em vários outros, foi homem do Iluminismo. Walter Benjamin (1892-1940). Abre caminho para a arte revolucionária, distanciada e contestatária de seus conceitos clássicos. Contestou a ideologia do progresso “incoerente, imprecisa”. Via o nazismo como expressão patológica do Iluminismo, da modernidade civilizada. Benjamin suicidou-se quando fugia do nazismo, pouco antes de atravessar a fronteira francesa. Erich Fromm (1900-1980), psicanalista, denunciou as regras morais como opressoras, causa de neuroses, propugnava a vida e a sociedade libertárias. Foi um integrante do grupo de Frankfurt que procurou unir marxismo e psicanálise, criando o chamado freudo-marxismo e a psicologia social analítica. A estrutura econômica da sociedade moldaria desejos e comportamento. O indivíduo internalizaria (aspiraria) tal realidade, da qual precisaria se emancipar. No mesmo rumo de Fromm, convém lembrar, entre outros, Wilhelm Reich (1897-1957) e Otto Fenichel (1897-1946). Herbert Marcuse (1898-1981), por muitos anos o mais célebre dos membros da Escola de Frankfurt, por ser considerado o guru dos movimentos estudantis libertários na Califórnia nos anos 60, sobretudo em Berkley, e do maio de 68 francês ▬ diga-se de passagem, não apenas francês, nem só californiano, foi universal a contestação libertária, de raiz anarquista.

 

Novos sujeitos revolucionários

 

As concepções de Herbert Marcuse tiveram repercussão mundial. Entre elas, uma embebeu a bem dizer toda a esquerda e o progressismo. Marcuse afirmava, nos maiores países capitalistas a classe operária tinha perdido seu potencial revolucionário. Buscava o bem-estar próprio, não era o “sujeito” da revolução, concebido em teoria. Os novos “sujeitos” estavam alhures; eram os grupos marginalizados e periféricos que sofriam com o sistema vigente, estudantes radicais, minorias raciais, imigrantes, movimentos feministas e contraculturais, negros, índios, inimigos da família tradicional, grupos favoráveis ao fim da repressão dos desejos sexuais. Hoje se acrescentariam outros, como o “Sul Global”, os adversários de Israel; enfim, quaisquer pessoas ou grupos que contestam o Ocidente, seus esteios, em particular o sistema capitalista e os Estados Unidos. São os novos “sujeitos” da revolução. O conjunto de tais movimentos formaria o que Marcuse chamava “A Grande Recusa”, negação inteira dos valores da então ordem prevalente. A transformação não viria maiormente de fenômenos econômicos, mas de oposição cultural, moral e de vida aos fundamentos da civilização ocidental.

 

Além do marxismo

 

A Escola de Frankfurt, com contribuições de Horkheimer, Adorno, Benjamin, Fromm, Reich (inalou o mesmo ambiente de marxismo contestatório) uniu ateísmo, marxismo, freudismo, psicanálise, radicalizou-os, dando origem a um corpo doutrinário que serviu de base, já a partir dos anos 30, para todo o movimento contestatário da civilização ocidental. E assim, junto com o gramcismo, suas concepções fizeram parte do arcabouço doutrinário da maior parte da esquerda política e correntes ditas progressistas sobretudo a partir dos anos 50. Expandiu-se, influenciou pensadores em diversos países, caminhou junto com eles, como por exemplo Foucault e Derrida, investindo contra a modernidade, nascida do Iluminismo, as intituladas várias formas de dominação, inclusive a da razão. Estamos diante de corpo de doutrinas articulado que, sem muitas vezes o confessar abertamente, nega os fundamentos do marxismo. Abreviando, amplia o campo de análise, recusa, em suma, suas distinções estáticas e rígidas, seu caráter mecanista e determinista, que amputa largas faixas da realidade. O uso consagrou, contudo, expressões como marxismo ocidental, marxismo cultural, marxismo freudiano. Terão vida longa. Vejamos. Recordando, o fundamento filosófico do marxismo é o materialismo dialético ▬ nada existe além da matéria. A matéria está em constante mutação, impulsionada por contradições internas. São forças opostas em conflito, forças de afirmação (tese), oposição (antítese) e superação (síntese), que incorpora os estágios anteriores. Mudanças graduais e quantitativas se acumulam e, em certo momento, geram mudança qualitativa. Em síntese, é isso. São postulados apriorísticos, sem provas de qualquer natureza. Quando o método é aplicado ao estudo da sociedade e da história, gera o materialismo histórico. O movimento rumo ao igualitarismo da sociedade comunista (objetivo) é determinado pela luta que decorre dos meios de produção e seus instrumentos de produção que dão origem às relações de produção. Constituem a infraestrutura, a base econômica da sociedade, que determina e molda a superestrutura. Esta, ideologia, leis, religião, cultura, instituições jurídicas, legitima e mantém o poder da classe que domina os meios de produção. São também apriorismos, não explicam as forças que agem no interior do homem, da sociedade e do Estado. Gramsci e a Escola de Frankfurt, no bruto, como dito, ampliaram o quadro, reintroduziram temas, que aliás em boa medida já eram estudados nos ambientes da esquerda (p. ex. nas várias correntes do chamado socialismo utópico). Apresentaram ao mundo um conjunto ideológico novo (ou pelo menos em alguns casos com roupagem nova), enormemente destrutivo, que ao mostrar objetivos de maneira explicada e fundamentada, amalgamaram e enrijeceram correntes revolucionárias, tornando ainda mais letal (dissolvente, se quisermos) sua ação. A propósito, Jurgen Habermas, em 1987, no seu “Discurso Filosófico da Modernidade” teve afirmação reveladora: “A Teoria Crítica foi inicialmente desenvolvida no círculo de Horkheimer para pensar as decepções políticas com a ausência de revolução no Ocidente, o desenvolvimento do stalinismo na Rússia soviética e a vitória do fascismo na Alemanha. Ela deveria explicar prognósticos marxistas equivocados, mas sem romper com as intenções marxistas”.

 

Mirada nas brumas do futuro

 

Em retrospectiva, acima, bosquejos da ação de um movimento apocalíptico. Agora, a prospectiva. Qual será seu desenvolvimento e influência? Impossível saber. Como agir? O primeiro passo, conhecê-lo, divulgar sua fisionomia, histórico, presença nos fatos atuais e potencial de expansão. Foi o que, com limitações embora, procurou oferecer o presente esforço.

 

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