sábado, 12 de novembro de 2022

Escravos do óbvio

 

Escravos do óbvio

 

Péricles Capanema

 

Verdades apunhalam. O que traz prestígio? Tanta coisa. Uma delas, saber espalhar otimismo, mesmo sem base sólida? Pode acontecer; temos o conhecido “keep smiling”. Prometer êxitos, ainda que altamente improváveis? Também. Livros de autoajuda e defender o tal pensamento positivo são formas de prometer êxitos, quase sempre fumaças da imaginação; contudo, viraram moda, prestigiam em geral quem os maneja bem. Ser leniente com ameaças crescentes? Aconteceu historicamente e às vezes rendeu popularidade. Abaixo, vou tratar de um homem público prestigiado no fim da vida, mas que passou anos anunciando as piores perspectivas, vaticinando derrotas, recriminando a leniência. Não escondeu o sacrifício provável, não ocultou traços vergonhosos de seu meio social, advertiu contra a desídia na consideração do perigo. No fim do caminho, ficou célebre, ninguém, a muitos títulos, teve maior prestígio que ele. Até hoje.

 

Enfiar a cabeça na areia. Repete-se muito, diante da ameaça, o avestruz enfia a cabeça na areia. É falso, a ave foge quando se vê em apuros; é veloz, tem pernas imensas, passadas largas. Não importa o fato da vida selvagem, a imagem expressiva se enraizou no imaginário popular, o uso a consagrou. Diante da ameaça crescente do hitlerismo, boa parte, se não a grossa maioria, da classe dirigente inglesa escolheu enfiar a cabeça na areia: foi otimista, crédula e leniente. Como muita gente agora no Brasil está enfiando a cabeça quente na areia fresquinha, evitando olhar de frente o perigo que cresce. Vou tratar em traços muito gerais de um homem público que foi banido dos círculos de prestígio e desterrado dos gabinetes de decisão por anos a fio em sua própria terra por haver escolhido manter o pescoço erguido, a cabeça alta e os olhos abertos. A verdade parecia dura, amarga, decepcionante e trágica. Depois concluirei voltando o olhar para o Brasil. Será artigo de muitas e longas citações.

 

O bom exemplo inglês. Vamos ao assunto. Foi o que, em amplíssima proporção, fez Winston Churchill (1874-1965). Padeceu degredo interno, bebeu o cálice de um “émigré à l’intérieur”, exilado entre os seus por muitos anos, em especial no seu partido e nos meios intelectuais e sociais que frequentava, até que, em situação desesperadora, a Inglaterra se voltou para o experiente homem público, colocou-lhe nas mãos as rédeas do governo e lhe confiou seu destino por cinco anos terríveis (maio de 1940 a maio de 1945). Expatriado moralmente, quando pareceu um pessimista obstinado, passou a ser visto anos depois como homem de lucidez extraordinária.

 

Respigando exemplos. Leio de momento biografia elucidativa de Winston Churchill. Quase 1.300 páginas, trabalho fruto de pesquisa séria, tem maturidade e profundidade de análise, minuciosa e densamente informativa. Por alguns críticos vem sendo considerada a melhor obra até hoje escrita sobre a vida do estadista inglês. Andrew Roberts é o autor, o título em português “Churchill, caminhando com o destino” (Churchill: walking with destiny, em inglês), primeira edição em 2018.

 

Ostracismo. O que agora pretendo destacar é que, por muitos anos, quase vinte, em especial nos seis anos que precederam a 2ª Guerra Mundial, qualificados pelo autor de “anos de desterro”, Churchill foi um pária moral; de outro modo, isolado, banido e proscrito em seu próprio país. De forma especial, entre políticos e eleitorado conservadores. O homem de Estado passou boa parte de sua vida pública relegado a cruel ostracismo por razão simples: era objetivo, não fantasiava, foi escravo do óbvio. Deixarei aqui apenas um exemplo. Hitler queria a anexação dos sudetos, região tcheca habitada majoritariamente por população de origem alemã. Winston Churchill preconizava a resistência, a aliança com a Tchecoslováquia como forma de evitar a entrega e ainda a guerra. Advertiu na Câmara dos Comuns em março de 1938: “Se não enfrentarmos os ditadores agora, estaremos apenas preparando o dia em que teremos de enfrentá-los em condições muito mais adversas. Dois anos atrás era seguro, três anos atrás era fácil, e quatro anos atrás um simples despacho poderia ter retificado a situação. Mas onde estaremos daqui a um ano? Onde estaremos em 1940?”. A incúria generalizada levou a Inglaterra à guerra mundial.

 

E o vento levou. Continuou: “Tenho visto esta famosa ilha descer sem moderação nem prudência pela escada que leva a um abismo tenebroso. No começo é uma bela escadaria larga, mas, um pouco depois, termina o tapete. Um pouco mais adiante, só há as lajes do pavimento. E ainda um pouco mais adiante, elas se quebram sob os pés de vocês”. Adverte: [Os historiadores] nunca entenderão como foi que uma nação vitoriosa, com tudo nas mãos, tolerou ser subjugada e que se jogasse fora tudo o que ganhara com imensurável sacrifício e absoluta vitória ▬ e o vento levou”.

 

Total e absoluta derrota. Pouco depois, setembro de 1938, o primeiro-ministro Neville Chamberlain foi a Berlim e de lá retornou com um tratado de paz que supostamente garantiria a paz na Europa por uma geração. Foi aclamado no país inteiro, popularidade lá em cima. Comentou com suas irmãs, Hitler “era um homem em quem se podia confiar, quando dava sua palavra; sou o homem mais popular na Alemanha”. Minado pela popularidade esmagadora de Chamberlain e sufocado pela esperança aliciante da paz duradoura, Winston Churchill, na ocasião apreço público muito baixo, iniciou discurso na Câmara dos Comuns com a seguinte frase: “Quero, portanto, começar dizendo a coisa mais impopular e mais indesejável. Começarei dizendo o que todos gostariam de ignorar ou esquecer, mas que, mesmo assim, precisa ser declarado, a saber, que sofremos uma total e absoluta derrota”. Estava certo, era derrota acachapante. Chamberlain hoje afundou no desprezo público por sua conduta. Naqueles dias, não, vivia nos galarins; Churchill se arrastava nos grotões, bradando verdades que apunhalavam, ainda que pouco levadas em conta.

 

O óbvio ululante. Dou um cavalo de pau na narrativa. Aparentemente. O fio será mantido. Saio da Inglaterra de 1938, vou para o Rio de Janeiro. Ali viveu e morreu Nelson Rodrigues (1912 – 1980). O célebre jornalista criou e popularizou a expressão “óbvio ululante”, que até hoje frequenta os meios de divulgação. Certa vez, lá pelos anos 70, na crônica “Vai falar o óbvio ululante” escreveu ele que nada tinha feito de relevante em sua vida até que, imaginando uma pergunta de Deus, veio-lhe iluminação súbita: “Eu promovi e consagrei o óbvio. aí está o grande feito de toda a minha vida. O óbvio vivia relegado a uma posição secundária ou nula. Fui eu que, com minha pertinácia, arranquei-o da obscuridade, da insignificância. Hoje, o óbvio tem trânsito em todas as áreas. O óbvio já adquiriu personalidade internacional. Todavia, ao apresentar o óbvio, eu fiz a seguinte e fundamental ressalva ▬ ninguém o enxerga. Milhões de sujeitos são cegos para ele. E acrescentei: ‘Gênio, santo ou profeta é aquele que enxerga o óbvio’”.

 

Remate. Tudo o que ficou para trás foi para permitir maior facilidade na constatação óbvia. Repito: óbvia. Cresce o desconcerto da opinião letrada do Brasil (a que acompanha noticiário) com os sintomas cada vez mais preocupantes do rumo a ser tomado pelo próximo governo petista, que só venceu apertadas eleições pela dose maciça de credibilidade e respeitabilidade gratuitamente a ele oferecida, sem nenhuma contrapartida (cheques em branco em profusão) por Geraldo Alckmin, Meirelles, Malan, FHC, Armínio Fraga e dezenas de outras figuras de influência e orientação parecida. Os cheques entregues em br nco começam a ser preenchidos e compensados. Provocam estranhezas, recusas, até reações contundentes. A situação vai piorar, é so esperar. Em artigo postado em 7 de outubro passado, intitulado “Embuste” constatei o óbvio (se preferirem expus o óbvio): “Outra razão alegada pelos adesistas (kerenskys de 2022), a expectativa de condução responsável da economia, mesmo com atropelos na prática democrática. Haverá tal condução? Análise madura, enraizada na longa e repetida experiência anterior, padecida pelo povo em especial pelos mais desassistidos, bem como na capivara amazônica de partidos com inspiração semelhante, apontam para destruição dos fundamentos saudáveis da economia, três dos quais, já se vê, inexistirão certamente: âncora fiscal, segurança jurídica, atração de investimentos. Daí, menos emprego, menos renda, salários mais baixos. O que se ouviu até agora da parte de economistas e figuras do setor financeiro foi decepcionante, para dizer o mínimo, era, no bruto, a entrega incauta de um cheque em branco. Na prática, a coligação lulista recebe os apoios, mas continua nadando no pântano das ambiguidades. Nenhuma clareza, nenhum compromisso formal”.

 

Favorecimento do retrocesso, do atraso e do obscurantismo. Afirmei então a seguir, era favorecimento do retrocesso, atraso e obscurantismo, características da possível nova administração: “A ausência de limpidez, a fuga célere dos esclarecimentos, a obscuridade empregada como arma política, a persistente e difusa ambiguidade, a manutenção obstinada incerteza quanto aos rumos, a confusão em que potenciais aliados são mantidos, a opacidade cultivada (não transparência) geram profunda suspeição quanto à conduta futura, degradam a vida pública e adensam o ambiente obscurantista, já pesadamente tóxico. São retrocessos na dura caminhada nacional rumo a uma vida pública decente. Esta ambiguidade, contudo, no caso esconde clareza solar, facilmente perceptível para observadores atentos. As razões últimas do procedimento petista são diáfanas: já existem os compromissos e as intenções e eles não serão abandonados”.

 

Clareza solar. Clareza solar iluminava a manobra, para olhares experimentados estavaa diáfano o ar, as conclusões brotavam do óbvio ululante: existiam compromissos, existiam intenções, mas eles estavam ocultos para os novos e simplórios (qualificação minimalista) aliados. Só não seriam enunciados (nem a pau) por inviabilizar possibilidades eleitorais de vitória da coligação petista. Começam agora a ser implantados com a caça já capturada, ainda que com enunciado discreto e paulatino. Desvelados pela aplicação clara, ainda que incipiente, passam a ser percebidos por magotes que antes se encantou em encenar o apoio otimista, dava prestígio e popularidade, papel semelhante ao desempenhado por Neville Chamberlain. Ainda há tempo para reagir, mas os custos serão maiores. Aumentarão a cada dia que passa. Sejamos escravos do óbvio, mesmo quando impopular.

domingo, 6 de novembro de 2022

Avisos velhos, aviso novo

 

Avisos velhos, aviso novo

 

Péricles Capanema

 

Falsa calmaria.  Em 30 de junho de 2020, em números redondos, dois anos e meio atrás, postei em meu blog artigo intitulado “Atualidade do caso Dreyfus”. Está na rede, consulta fácil. Era uma espécie de metáfora para situações de alcance nacional e até mundial, algumas delas ainda algum tanto embrionárias, que via tomar corpo de forma ameaçadora e crescente. O artigo voltou a ficar palpitante.

 

Retrocesso civilizatório. Em suma, preocupavam-me sintomas de expansão da esquerda. O inchaço acarretaria asfixia de direitos e liberdades naturais, bem como pobreza maior e agravamento da falta de perspectivas para a maioria mais necessitada. Nas palavras, promessas de políticas inclusivas; nos fatos, cruel crescimento da exclusão. Sufocação dos melhores sonhos no âmbito pessoal, no social, atrofia de iniciativas; obscurantismo e atrasos, enfim. Na América Latina, viria (veio) a devastação de uma nova “onde rosa”, que varreria (está varrendo) resistências, abrindo caminho para epígonos castristas, chavistas e sandinistas. Para a modesta advertência, escolhi de indústria tema já antigo, o caso Dreyfus, relegado a arquivos empoeirados, mas sempre episódio histórico de enorme significado para a vida da França ▬ pública e privada. Poderia ter respigado outros acontecimentos, igualmente relevantes, seriam também atuais como padrão para comparações. Contudo, não teriam tanta carga simbólica, presente de modo inigualado no caso Dreyfus.

 

Assunto desconhecido para muita gente. Sabia, era inusitado o título, poderia até soar singular; ademais, o caso nenhuma atualidade pareceria ter. Seria atual? Era atual como metáfora; repito, alarmava-me a possibilidade da avalanche esquerdista, pipocavam sintomas de estar forte e próxima. Mas também pressentia, perdoem-me a linguagem informal, ninguém ia dar bola para o texto, distante dos fatos candentes do cotidiano. Aconteceu o que previ, o texto passou em branco. Não me importo; precisava deixar constância, representava imposição de consciência. Urgia pôr na tinta preta sobre papel branco, advertências, de fato avisos aos navegantes, lições elucidativas que o fato histórico propiciava, faróis para a tempestade, ainda nas brumas, que se formava no horizonte.

 

Miragens? Nada indicava. A figura assustadora surgia fácil. Era suficiente um olhar desintoxicado de otimismos balofos. Muito do que no artigo expunha como perspectiva ruim hoje já é realidade. Viraram avisos velhos, pouca ou nenhuma serventia, podem ir para o arquivo. Vou apenas recordar abaixo uma pequena parte, informações para compor melhor o texto. Mas meu foco é o aviso novo. Nem poderia deixar de ser.

 

Aviso novo. Sei, é antipático, pode adiantar pouco ou nada, mas está na hora do aviso novo. Será curto, poderia ser extenso, não será, vou me fixar em apenas um ponto, que não está sendo ventilado, talvez propositadamente, mas de fundamental importância para o futuro do Brasil. Lula e sua equipe proteiforme estão no início de caminhada. Primeiros sintomas, a marcha está sendo preparada para ser longa e demolidora ▬ como a de seu ídolo, o tirano Fidel Castro, que décadas a fio sufocou e empobreceu Cuba, “o maior de todos os latino-americanos”, segundo o delirante ditirambo do presidente eleito. Aumentam os riscos de despencar na barbárie, de onde será difícil voltar, lá já estão Coréia do Norte, Cuba, em boa parte, Rússia.

 

Disfarçado, mas efetivo protetorado chinês. Nesta etapa inicial, a nova equipe ainda conta com apoio insensato (o mínimo a dizer) de figuras e correntes, cujo suporte acelerará o processo, já avançado, de empurrar o Brasil para a órbita chinesa, afastando-o paulatinamente da área de influência norte-americana e europeia. É para onde rolam os amigos de Lula no Chile, Colômbia, Argentina, Cuba, Nicarágua. Nos próximos meses teremos, é o conjeturável, notícias perturbadoras.

 

Resgate urgente da esperança. É incoercível o deslizamento com o apagamento real, ainda que camuflado, da soberania nacional? Não, existem esperanças vivas e robustas de reação salvífica. Foram muito fortes as primeiras resistências ao lulismo, trazem um frescor de 2013. Raízes boas, cumpre nutri-las, diria o conselheiro Acácio. Como? De forma particular, energizando esperanças fundadas na realidade. O ministro Paulo Guedes notou que as regiões que deram vitória ao antipetismo na última eleição representam 86% do PIB nacional. De outro modo, o Brasil mais dinâmico recusa o petismo, dele tem horror. É base forte para iniciar arremetida de recuperação e vitória. E então, buscando o factível, dentro da lei, evitando promessas ilusórias, fonte de desânimos, decepções e desnorteamento, muito se poderá obter.

 

Sintomas crescentes de borrasca. Para concluir, recordo trechos (excertos) do referido artigo. Ilustram o presente, contribuem para tornar mais clara a caminhada, espancando as sombras do obscurantismo mental. Donald Trump governava os Estados Unidos, campanha de reeleição no começo, por muitos, aqui e lá, tida como garantida. Bolsonaro surfava no meio do mandato. Escrevi então: “Acho que é opinião geral, nada mais anacrônico que o caso Dreyfus. Tenho conjetura diferente, é palpitante. A situação pela qual passamos o evoca. Vislumbro perspectivas difíceis para os próximos anos. Tratarei delas nas hipóteses abaixo; e aí ficará clara, espero, a atualidade do caso Dreyfus ▬ ferramenta de interpretação”.

 

Caso Dreyfus, aqui simples ferramenta de interpretação. Se quisermos, metáfora ▬ símbolo, imagem, semelhança ▬ para entender com maior objetividade e profundeza o que estava se delineando. Continuava o texto: “‘Historia magistra vitae’, Cícero. Virou chavão, não deixa de ser verdadeiro e instrutivo. Para os leitores que ainda não o conhecem, durou 12 anos o caso Dreyfus, 1894 a 1906. Rachou a França de alto a baixo repercutindo nos âmbitos religioso, militar, político, social, moral, psicológico. Foi o maior escândalo do fim do século XIX, dos maiores da História gaulesa. A França então se dividiu em duas ▬ sem-número de famílias fendidas, pai contra filho, mulher contra marido ▬, de um lado, “dreyfusards”; na banda oposta, “antidreyfusards”. No primeiro campo, visão por alto, posicionaram-se republicanos, esquerda radical, esquerda socialista, intelectuais antimilitaristas, pacifistas, maçons. No segundo, também a “vol-d’oiseau”, monarquistas, defensores do Exército, católicos conservadores e tradicionalistas, parte da Hierarquia eclesiástica, antissemitas; de forma especial, boulangeristas e outros grupos do nacionalismo extremado. Os dois lados tiveram imprensa violenta tensionando o ambiente. Até hoje não se sabe bem como o caso começou”.

 

Marcos do caso Dreyfus. Mais informações no referido artigo: “Em pinceladas rápidas, alguns episódios. Alfred Dreyfus (1859-1935), personagem central, servia como oficial de artilharia, origem alsaciana, família judia. Então capitão, foi acusado de espionar para a Alemanha, inimigo histórico, acabou condenado pela justiça militar em 22 de dezembro de 1894 à degradação e prisão perpétua. Partiu preso para as Guianas em 21 de fevereiro de 1895. O coronel Marie-Georges Picquart, em 2 de março de 1896, descobriu que o espião provável era o major Esterhazy. O coronel Picquart investigou a situação e nele a suspeita se transformou em certeza. O caso começou a tomar rumo distinto. Em 11 de janeiro de 1898 o Conselho de Guerra absolveu Esterhazy. O “J’accuse” de Émile Zola foi estampado na primeira página do “L’Aurore” de Georges Clemenceau, 13 de janeiro de 1898. Foi anulada a sentença contra Dreyfus em 3 de junho de 1899; ele imediatamente deixou a Ilha do Diabo, onde cumpria pena. Dreyfus foi condenado novamente por tribunal militar em 9 de setembro de 1899, agora a 10 anos de prisão com atenuantes, perdoado dez dias depois pelo presidente da República. Nas eleições de 1902, vitória das esquerdas; Jean Jaurès em 7 de abril de 1903 relançou o caso Dreyfus. Em 13 de julho de 1906 a Câmara votou lei que reintegrou Dreyfus ao Exército com grau de major. Em 12 de julho de 1906, a Corte de Cassação anulou o julgamento do Conselho de Guerra, reabilitou o capitão, reconhecendo inocência. Alfred Dreyfus, 21 de julho de 1906, recebeu a mais alta condecoração francesa, a Legião de Honra, grau de cavaleiro. Em 26 de outubro de 1906, o (agora) general Marie-Georges Picquart foi nomeado ministro da Guerra”.

 

Vantagens revolucionárias. Enumerava então alguns efeitos do caso Dreyfus, são ensinamentos: “Em seu conjunto, o caso fortaleceu a república, enfraqueceu o movimento monarquista; lançou nota de descrédito sobre a alta hierarquia da Igreja, bafejou o anticlericalismo do início do século XX, favoreceu o laicismo oficial e a perseguição às congregações religiosas. Facilitou a vitória nas eleições legislativas do Bloco das Esquerdas. A mais, deslustrou o Exército, em especial a oficialidade de origem aristocrática. Finalmente, foi trombeteado como vitória da razão e da justiça (enraizadas na esquerda) contra o preconceito e a intolerância (aninhados na direita e em setores conservadores). Uma parte da direita se consolidou com base em justificativas que causarão sua demolição em anos futuros”.

 

O rumo dos Estados Unidos. Tratava mais embaixo do papel dos Estados Unidos: “Ponto fundamental, como agirão os Estados Unidos? Estamos a quatro meses da eleição presidencial. De momento, são boas as chances de Joe Biden bater Donald Trump. Notório, parece-me, Donald Trump está com a reeleição ameaçada. Nas últimas eleições presidenciais, Hillary Clinton obteve 65.853.514 votos, Donald Trump, 62.984.828; perdeu por 2.868.686 votos (no Colégio Eleitoral, Trump ficou com 304 votos, Hillary 227). Sua aprovação não subiu; existem fatores que podem baixá-la: economia em declínio, pandemia em ascensão, agitações sociais em vários pontos do país. A vitória de Biden animará as esquerdas no mundo inteiro”.

 

Boicote a governos conservadores. Continua o já antigo artigo: “Governos de direita serão boicotados, em especial na Europa e na América Latina, com bafejo à oposição interna de esquerda. Outro ponto provável, a agenda chamada “social” terá mais virulenta aplicação. Social aqui significa estimular a desagregação da sociedade com fortalecimento de movimentos LGBT, ideologia do gênero, liberalização ainda maior do aborto, entre outros”.

 

Resistência, reação, reconstrução. I adiante: “Para as forças conservadoras, se as perspectivas aqui rabiscadas se realizarem no todo ou em parte, serão anos de resistência, reação e reconstrução. Importa lembrar, para um movimento muitas vezes mais vale a legenda que dele evola que a realidade que expressa. Para o retorno triunfante (ou, pelo menos, exitoso) preservar a aura, a legenda, mais caseiramente, o bom nome, é fundamental. A reconstrução será favorecida se ao conservadorismo estiverem ligadas as noções de ordem, razoabilidade, senso de proporção, limpeza ética, religiosidade. Tudo será mais difícil se no espírito público aos grupos conservadores, no poder ou fora dele, por meio de campanhas conduzidas de forma eficaz ficarem correntemente associadas as pechas da irreflexão, irresponsabilidade e insensibilidade. Mais ainda, corrupção e falta de escrúpulos. Como infelizmente se deu após o caso Dreyfus, parte da reconstrução poderia trabalhar sobre alicerces corroídos. Em resumo, o que acontecer agora poderá determinar ou limitar condutas nos previsíveis períodos de resistência, reação e reconstrução. E será utilizado implacavelmente por forças revolucionárias para sufocar quaisquer movimentos que se oponham a seus objetivos. Fui pessimista? Espero que não. Olhemos ao redor. Foram simples conjeturas, feitas com intenção de ajudar a lutar num futuro que pode ser difícil”.

 

Conclusão. São reflexões já antigas, que agora readquiriram atualidade diante do futuro preocupante. Concluí assim: “Para poder enfrentá-lo, se acontecer. Sem ilusões. Tenho presente a ‘boutade’ de Agripino Grieco: “O pior dos erros é acertar sozinho contra muita gente”. Às vezes é preciso errar.

 

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Rápida desilusão do crédulo

 

Rápida desilusão do crédulo

 

Péricles Capanema

 

Currículo impressionante. Henrique Meirelles foi presidente do Banco Central no governo Lula, secretário da Fazenda em São Paulo no governo Doria e ministro da Fazenda no governo Temer. Antes, fizera carreira como banqueiro internacional, chegando a presidente do Banco de Boston. São funções, se bem executadas, incompatíveis com credulidade, ingenuidade e precipitação. Candidato à Presidência, um de seus slogans foi “Chama o Meirelles”; isto é, quando a situação ficar preta, ainda existiria saída, chamar o Meirelles.

 

Apoio desconcertante, com ufana e confessada base na realidade. O financista só agiria com base nos fatos, infenso às ilusões, refratário às expectativas vazias. Ou enganosas. Meados de setembro último, dias antes do 1º turno, o antigo ministro da Fazenda se apressou em declarar apoio a Lula. Ensaiou tomada de posição retumbante, contribuiu para diminuir temores nos setores mais ligados à livre iniciativa, em especial mercado financeiro ▬ mais ainda, no Brasil inteiro. Meirelles esperaria contrapartidas? Compromissos? Teria recebido promessas de retificação de rumos? Algum dia talvez a História revele conversas e acordos de bastidores, cumpridos ou abandonados. O antigo presidente do Banco de Boston exsudava segurança e confiança: “Quero me ater a fatos específicos e que mostram a comparação brutal. Quando trabalhamos juntos no governo, trabalhamos oito anos. Nesse período, mais de dez milhões de empregos foram criados, isso é um fato, não é questionável”. Continuou acelerado no mesmo rumo, crescimento, retirada de pessoas da pobreza: “Durante aquele período, além de um crescimento forte, inflação na meta”. Aproveitou para criticar a inflação atual, “corrói todo o padrão de vida da população".

 

Proclama de novo, os fatos estão na origem do apoio enfático. O que interessa são os fatos, assegura, com esteio neles vamos ter avanços em ambiente favorável à geração de emprego e renda. E então, de novo, diante de Lula, mostrou que o caminho aparecia ensolarado: “Isto é, na minha opinião, o que interessa. Eu olho e vejo o resultado do seu governo, isso nos faz estar aqui. Estou aqui com tranquilidade, com confiança, porque eu sei o que funciona e o que pode funcionar no Brasil”. Ele sabe, é do ramo. Confiante, tranquilo, dava o diapasão para o Brasil na possível administração petista. Voltou às loas dias depois: “Meu apoio ao Lula deriva da minha confiança na possibilidade de ele agir para mudar esse quadro. De entender o que é necessário ser feito e de fazer o que é suficiente para recuperar a nossa economia. Com responsabilidade fiscal e social. Eu tomo decisões baseado em fatos e isto ocorreu quando ele foi Presidente”. Apoio com base em fatos, reafirmava. Acenava a investidores: “Hoje, o nível de confiança do investidor no nosso País é baixo. É o que acontece, quando há dúvidas sobre o cumprimento de compromissos, sobre o respeito a regras. Quando não há previsibilidade e confiabilidade na condução da economia. Quando as políticas fiscal e monetária caminham em sentidos opostos”. Lula permanecia tergiversando, fugindo de compromissos, pedindo união pela democracia aos nvos convertidos. Mas só.

 

Fatos? O caminho hoje já não se apresenta ensolarado. Está sombrio, destino incerto. O fato bruto e chapado, incontroverso era e continua o mesmo, a ambiguidade permanente e a desconversa contínua de Lula. Não se comprometeu com nenhum programa econômico. E nem vai se comprometer. O PT tem pronto seu plano econômico de governo (e das outras áreas também), vai aplicá-lo. Rui Falcão, ex-presidente do PT, um dos chefes da campanha, avisou há pouco aos navegantes ainda inadvertidos: “O que se cobra do Lula é assumir um programa que não é o nosso". O programa “nosso” não será modificado, vai ser aplicado, já o foi nas administrações passadas. É regressivo, intervencionista, estatizante; e assim, pela fuga de capitais e pouca inovação, empobrecedor. Receita para o atraso. Menos investimentos, menos empregos, salários com viés de baixa. Como historicamente aconteceu nos países que atraem a admiração petista, Cuba, Venezuela, Nicarágua, entre outros, atolados no retrocesso e na exclusão das grandes maiorias das rotas que levam ao crescimento e à prosperidade.

 

A desilusão. O tom de Meirelles mudou. Não só o tom, o conteúdo também. Ele “caiu na real”, A menos de quinze dias do segundo turno, os ouvintes eram membros da conceituada consultoria Eurasia Group, quando Henrique Meirelles, talvez inadvertidamente, confessou que agira com escasso ou nenhum discernimento poucos dias antes.

 

Gato por lebre. Palavras do homem que se gabava, só acreditava em fatos: “A eleição é muito apertada neste momento. As chances de Lula são maiores, mas ainda acredito que o presidente Jair Bolsonaro tem uma chance real de vencer” Meirelles dividiu o período petista, 14 anos, em três governos diferentes, o primeiro, com responsabilidade fiscal, o segundo, com certo afrouxamento fiscal, o terceiro recessivo. E observa: “A grande questão agora é qual Lula tomará posse. Se você pegar seu atual programa de governo, seria uma má notícia”.

 

Retrocesso na economia. Segundo Meirelles, de momento, o mais provável é termos de engolir uma “má notícia”, no caso da vitória de Lula, está vitorioso o terceiro período. O programa econômico anunciado é intervencionista e estatista, desestimularia a iniciativa privada. Rui Falcão já avisou, o programa é o “nosso”. Meirelles julga que o programa foi elaborado com concepções que predominavam no período Dilma Rousseff: “Quem desenvolveu o programa foi um grupo de economistas que acreditam fortemente no papel do Estado e das empresas estatais na promoção do desenvolvimento. Essa visão prevalece neste momento”. Pairava no ambiente um dado talvez promissor, o novo Congresso tem feitio conservador. Pontuou Meirelles: “Minha resposta para saber se ele [o governo]  se tornaria mais conservador por causa dos resultados do Congresso é não".

 

A realidade esbofeteada. Em suma, em seu apoio açodado (pouco refletido, para dizer o mínimo) à volta de Lula, Meireles deu as costas para os fatos, estapeou a realidade, deixou-se embair por patranhas ilusionistas. Sua credulidade não apunhalou apenas ele. Foi além, corroeu no público resistências à agressão não somente estatizante em curso, à vera totalitária, travestida, na tentativa de vencer oposições enormes, de roupagem democrática e pena dos pobres. Resistências hoje mais necessárias que nunca.

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

Embuste

 

Embuste

 

Péricles Capanema

 

Ambiguidade, tática generalizada. Até agora, com surpreendente êxito, pelo que se percebe. Políticos e personalidades dos mais variados âmbitos da vida pública (melhor, da vida que se publica) brasileira estão manifestando apoio a Lula no 2º turno, alegando como razão principal ou única o compromisso com a democracia da chapa petista ▬ PT, PCdoB, PV, PSB, PSOL, Rede, Solidariedade, Avante e Agir. Compromisso que autenticamente não pode existir se o PT não renegar princípios e atuação política de décadas num mesmo rumo. Conduta e princípios, reitero. Se renegar, o que sinceramente duvido, ótimo. Estaria aberto o caminho para aceitar o compromisso de não lesar a democracia e respeitar a Constituição. Se não renegar, o compromisso (que até agora de forma inequívoca não houve, haja vista a recorrente afirmação de regulamentar a imprensa), será hipócrita, oco, mero engodo para obter apoios políticos e votos. Outra razão alegada pelos adesistas (kerenskys de 2022), a expectativa de condução responsável da economia, mesmo com atropelos na prática democrática. Haverá tal condução? Análise madura, enraizada na experiência anterior e na história de partidos semelhantes, apontam para destruição dos fundamentos saudáveis da economia, três dos quais, já se vê, inexistirão certamente: âncora fiscal, segurança jurídica, atração de investimentos. Daí, menos emprego, menos renda, salários mais baixos. O que se ouviu até agora da parte de economistas e figuras do setor financeiro foi decepcionante, para dizer o mínimo, aceitação de um cheque em branco. Na prática, a coligação lulista recebe os apoios, mas continua nadando no pântano das ambiguidades. Nenhuma clareza, nenhum compromisso formal.

 

Retrocesso, atraso, obscurantismo. A ausência de limpidez, a fuga célere dos esclarecimentos, a obscuridade empregada como arma política, a persistente e difusa ambiguidade, a manutenção obstinada incerteza quanto aos rumos, a confusão em que potenciais aliados são mantidos, a opacidade cultivada (não transparência) geram profunda suspeição quanto à conduta futura, degradam a vida pública e adensam o ambiente obscurantista, já pesadamente tóxico. São retrocessos na dura caminhada nacional rumo a uma vida pública decente. Esta ambiguidade, contudo, no caso esconde clareza solar, facilmente perceptível para observadores atentos. As razões últimas do procedimento petista são diáfanas: já existem os compromissos e as intenções e eles não serão abandonados. No máximo, se pressionados, serão aplicados com gradualismo ▬ é programa de asfixia progressiva de direitos, possibilidades e liberdades.

 

Embuste e exclusão social. Uma vida pública estaqueada despudoradamente sobre a ambiguidade significará a aceitação permanente do embuste como componente da política brasileira. Levará para a exclusão, afugentará da benéfica participação nos assuntos do bem comum milhões e milhões, dispersos em todas as condições sociais, desgostosos com o ambiente carente de decência, clareza e firmeza. O que, obviamente, dificultará a inclusão social crescente, sempre urgente, proveitosa e necessária dos excluídos da sociedade brasileira. Inibirá avanços civilizatórios.

 

Democracia fake como recurso eleitoral. Para legitimamente afirmar que o PT e Lula representam garantia democrática, já disse e repito por necessário, é indispensável deles exigir previamente a censura às ditaduras liberticidas do mundo inteiro. Não quer a democracia e nem a garante quem apoia Cuba, Venezuela, Nicarágua, Rússia e China. E repetidamente os apresenta como inspiração. Todos viram, os tiranos no mundo inteiro ficaram eufóricos com a vitória de Lula no 1º turno. A euforia das tiranias evidencia rumo incontroverso em possível vitória petista. Exemplo disso constitui a carta jubilosa de Daniel Ortega, o cruel ditador da Nicarágua, que anda encarcerando os bispos católicos que cometem a ousadia suprema de discordar de sua repressão dos anseios populares: “Querido companheiro e irmão Lula: a luta continua e a vitória é certa, estamos com vocês, com Rosângela, Dilma, Gleisi, percorrendo novos caminhos”.

 

Princípios liberticidas. Não basta exigir que reneguem o comportamento. Por obrigação de coerência, imposição da incoercível força da lógica, é preciso ir além e mais fundo. A persistente e reveladora conduta liberticida do PT, que vem desde sua fundação há mais de 40 anos, apoiando por todos os modos, até financeiramente, tiranias mundo afora (antidemocráticas, em outras palavras) está em consonância com seus princípios fundacionais; melhor, decorre deles. Uma coisa é pendor autoritário, outra, pior, é doutrina totalitária. E é totalitária a doutrina fundacional do PT, alma propulsora da organização e de seu modo de agir, nunca renegada, exposta, aliás, de modo aberto, em sua “Carta de Princípios”, datada de 1º de maio de 1979, postada há anos com destaque no site do partido. Proclama ali basear sua concepção de governo na democracia direta ▬ nenhuma palavra de compreensão para a democracia representativa ▬ dirigida pelos trabalhadores [uma das maneiras de afirmar que visa o governo dos sovietes]: “[o PT] afirma, outrossim, que buscará apoderar-se do poder político e implantar o governo dos trabalhadores, baseado nos órgãos de representação criados pelas próprias massas trabalhadoras com vista a uma primordial democracia direta”. Conselho de trabalhadores; soviet em russo é conselho. Não só o PT desperta preocupação. O mais importante aliado do PT na chapa, o PSB, tem programa descarado (meta ambicionada, a ser perseguida paulatinamente) que nega a propriedade privada no campo ▬ estatização total. No futuro, segundo os delírios programáticos do PSB, o agro nacional será composto de grandes fazendas estatais, “kolkhozes”, modelo já aplicado por décadas, para ser claro. O PSB em seu programa reconhece disfarçadamente realidade em geral ocultada: o desastre pavoroso do atual modelo de reforma agrária que empilha fracassos, vai abandoná-lo. O texto traz pequena concessão ao estatismo delirante: para pequenas propriedades, será facultado usufruto para particulares, quando necessário, mantido o domínio estatal. Aqui vai o programa do PSB, postado no site do partido: “Da terra: a socialização progressiva será realizada [...] organizando-se em fazendas nacionais e fazendas cooperativas assistidas. [...] O programa de latifúndio será resolvido por este sistema de grandes explorações, pois sua fragmentação trará obstáculos ao progresso social. [...] Será facultado o parcelamento das terras da nação em pequenas porções de usufruto individual, onde não for viável a exploração coletiva”. Não esclarece se o domínio das fazendas coleitvas será do Estado; é o que seria coerente com a inspiração geral do programa de funda raiz socialista, ódio à propriedade particular. De outro modo, dezenas de milhões de empregados do Estado ou dele dependentes, sujeitos a gigantescas estruturas burocráticas. Receita certa para atraso, retrocesso, tirania, pobreza, roubalheira. E o modelo conselhista de governo (sovietes), ambicionado pelo PT, também, na prática, trouxe, não o mítico governo dos trabalhadores, mas a tirânica direção burocrática partidária do Partido Comunista, que tudo esmagou. Tirania e pobreza para o povo, no meio do desperdício generalizado, roubalheira correndo solta, atrofia e asfixia sociais. É o resultado, já comprovado pelas experiências históricas, da aplicação na prática dos delírios ideológicos do PT e do PSB. De momento, realidade macabra que nos ameaça, de momento pelo emprego amplíssimo do embuste, ainda que com aplicação compassada.

terça-feira, 30 de agosto de 2022

Relho no agronegócio

 

Relho no agronegócio

 

Péricles Capanema

 

Na superfície, afagos; na profundidade, recado com ameaças. Em relação ao agronegócio, as palavras de Lula na recente entrevista ao Jornal Nacional tiveram duas profundidades. Na superfície, a renovada tentativa de dissolver resistências, buscar aproximação, tudo fazer para obter votos. Mais fundo, foram advertência, aviso; potencial, mas efetiva declaração de guerra, condicionada à atitude do agronegócio em relação ao possível novo governo de esquerda. Se a reação for ativa e lúcida, o petismo tentará esmagá-la até as raízes, como foram triturados os adversários em Cuba, Venezuela e Nicarágua, cujos governos ▬ sempre convém lembrar, a recordação sinaliza possíveis rumos futuros entre nós ▬ são admirados e festejados pelos líderes do PT.

 

“No opposition, Thomas”. Enquanto lia ou assistia a trechos da referida entrevista, em sequência me assaltavam a mente cenas impressionantes do filme “A man for all seasons” ▬ “Um homem para qualquer situação” em tradução livre; aqui no Brasil teve o título “O homem que não vendeu sua alma”. No trecho memorado, Henrique VIII estava em visita a são Tomás Morus, então chanceler do Reino (1529-1532), espécie de primeiro-ministro. O rei convidou o anfitrião para caminhada no amplo parque da residência, bonito casarão rural. No meio de amabilidades, de quando em quando, o monarca inglês repetia: “No opposition, Thomas, no opposition”. Não admitiria oponentes ao seu novo casamento, nem mesmo do homem público mais importante da Inglaterra. Aviso claro. A conversa entre os dois retomava o tom jocoso e cordial. Em suma, são Thomas Morus poderia fazer o que quisesse, teria honras ainda maiores das que já havia recebido, desde que não fosse, nem parecesse opositor ao repúdio arbitrário de Catarina de Aragão e enlace posterior com Ana Bolena. “No opposition Thomas”. No caso, foi intolerável até o silêncio de Tomás Morus (à vera eloquente e inequívoco) a respeito do divórcio real. O crime venceu; depois de processo escandaloso, o chanceler foi decapitado em 1535, tinha 57 anos. A Igreja Católica o canonizou como mártir. O paralelismo das situações ficava marcante para mim. Na entrevista referida, cordialidade, certo tom jocoso, brincadeira; pelo meio, recados. Será perseguido o agronegócio se fizer oposição eficaz ao eventual novo governo petista. A ameaça valia em particular para seus setores mais atuantes na esfera pública. Como aconteceu com as oposições na Nicarágua, Cuba e Venezuela (trucidadas), governos amigos e apoiados pelo petismo, reitero.

 

Confusão dissimulação, ameaças. A entrevistadora Renata Vasconcellos (RV) afirmou, o agronegócio [em linguagem caseira, os fazendeiros, os produtores rurais, os que vivem do campo e fazem negócios relacionados com a agricultura e pecuária] ou pelo menos “grande parte” dele não apoiava o candidato Luiz Inácio Lula da Silva (LILS). Lula respondeu: “A nossa luta contra o desmatamento faz com que eles sejam contra nós”. RV treplicou: “Mas o agronegócio e o meio ambiente caminham juntos”. Lula discordou: “Eles são contra”. Ou seja, o agronegócio é contra o meio ambiente; de outro modo, agride o meio ambiente. RV ponderou que Lula parecia dizer que o agronegócio “faz oposição ao meio ambiente”. LILS foi claro: “Faz”. RV discordou: “O que não é verdade”. Lula reiterou em frase confusa, mas de intenção e compreensão clara: “O agronegócio sabe que é fascista, é direitista, porque os empresários sérios que trabalham no agronegócio, que têm comércio com o exterior, que exportam para a China, esses não querem desmatar. Mas você tem um monte que quer”. Saem do foco os exportadores (por interesse); a acusação de “fascista”, direitista” e “desmatador” cai sobre o “monte” de empresários do agronegócio, presumivelmente a maioria. Política clara, derrocar o monte. Continua a cantilena, apontando o futuro para a região amazônica: “Nós não precisamos plantar milho, soja ou cana, nem criar gado na Amazônia”. RV pergunta sobre um ponto central: “E qual será o papel do MST no seu governo?”. Lula não responde, saiu pela tangente, dizendo que o MST hoje produz e que está muito diferente do que era trinta anos atrás.

 

O agro sentiu o clima tóxico e percebeu as ameaças de perseguição. O “monte” foi gratuita e injustamente acusado de “fascista” e “desmatador”. De outro modo, composto de gente criminosa. O agro sentiu que, com instrumentos de governo da mão, esta será a atitude do petismo quando no governo. Foi advertência, recado. Ou acerta o passo, ou será perseguido implacavelmente pelos gabinetes do ódio do petismo, já hoje estruturados.

 

Retrocesso e exclusão. Virão à pencas acusações aptas para estear processos, tão ou mais gratuitas e vazias que as objurgações de Lula arremessadas na entrevista ao JN contra um setor que está garantindo o avanço econômico do Brasil, impedindo o retrocesso que virá com a aplicação do programa demolidor. Retrocesso cheio de espinhos, empobrecimento, agonia da liberdade, asfixia das possibilidades de crescimento. Fortíssima exclusão dos brasileiros das trilhas da prosperidade.

 

Em legítima defesa, enérgicas tomadas de posição. De norte a sul, associações de produtores rurais reagiram com intrepidez, autorizando esperanças de um futuro brasileiro livre e próspero. O “monte” se revelou repositório de promessas salvíficas, oxalá nunca sofra derrocadas. Destaco aqui algumas poucas manifestações, tiradas de baú onde se juntam dezenas, talvez centenas, de brados de indignação semelhantes. Resumem a inconformidade dos produtores rurais e expressam com fidelidade o teor dos argumentos esgrimidos. A FAEC (Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará) divulgou nota de repúdio, na qual afirma, as acusações de Lula foram “levianas e criminosas”. Apregoa ainda a nota: “Ao qualificar o agronegócio como ‘fascista’ o candidato demonstra completo desconhecimento da realidade. Diferente do candidato, que nega o assalto aos cofres públicos da Nação quando estava no poder ▬ crime confessado por seus partidários ▬ os produtores rurais que fazem o agronegócio brasileiro são trabalhadores incansáveis. Durante a crise da covid o agronegócio brasileiro não parou. Fez isso, apesar dos delinquentes que invadem terras e atrapalham quem verdadeiramente produz. Delinquentes que contam com o apoio do candidato. A FAEC subscreve as palavras o presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), João Martins, que afirmou ‘não há mais espaço nesse país para uma equipe corrupta e incompetente; e muito menos para o retorno de um candidato que foi processado e preso como ladrão’”. Por seu lado, a Federação de Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul denunciou igualmente a forma leviana e criminosa com que Lula qualificou os integrantes do agronegócio no Brasil. Finalmente, a Associação Brasileira de Criadores de Zebu, por intermédio de seu presidente, divulgou nota de repúdio da qual destaco: “A Associação Brasileira dos Criadores de Zebu vem a público manifestar seu repúdio às declarações do candidato à presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva, proferidas nesta quinta-feira (25) em entrevista ao Jornal Nacional, da Rede Globo. Durante sua participação no telejornal, Lula nominou como ‘fascista’ o agronegócio brasileiro, demonstrando completa ignorância sobre a importância e a realidade do nosso setor”.

 

Relho no agronegócio. Foi dado o recado, está posta a tentativa de intimidação. Como enfrentá-la? Pela inconformidade cada vez mais acesa, lúcida e refletida. Fervor, devoção, sacrifício, lucidez, reflexão. Só assim o chicote do autoritarismo de inspiração soviética, ameaça de fato contra todo o povo brasileiro, não lanhará as costas do agronegócio. Perseverando em tal conduta, o setor conseguirá com rapidez o oposto: a expansão, aumento da credibilidade assim como da respeitabilidade; e finalmente, a vitória de seus objetivos.

 

domingo, 28 de agosto de 2022

O logro do arroz orgânico

 

O logro do arroz orgânico

 

Péricles Capanema

 

Estacas firmes nos pântanos da credulidade. O PT vive de iludir. Tem vida para muitos anos, infelizmente existe gente à beça que é desatenta, ingênua, ou até que gosta de ser enganada. Caso recente, o elogio do MST como produtor rural, feito por Lula na recente entrevista ao Jornal Nacional. Vamos esmiuçá-lo, olhar de perto, é exemplo valioso do vezo petista de tapear.

 

É essencial diminuir a rejeição. Para ganhar a eleição, o morubixaba petista precisa baixar a rejeição a ele e ao PT, associados no imaginário popular a roubalheira, carestia, amizade com ditaduras. Um dos pontos em carne viva é o MST e logo atrás, na mesma linha, INCRA, invasões de propriedades e reforma agrária. O MST é ainda associado ao terrorismo. Na campanha de 2018, o então candidato Jair Bolsonaro chegou a declarar: “Nós temos que tipificar suas ações [do MST] como terrorismo”. E aqui, decorrência lógica, perseguição ao produtor rural. O pacote macabro tem outros componentes. Em suas gestões, Lula e Dilma, o PT entregou o INCRA às suas bandas mais extremadas. A presidência do INCRA e as superintendências regionais eram consideradas quase como couto da corrente interna Democracia Socialista, que abrigava os setores mais extremados da seita petista. Aboletados no INCRA, os corifeus da Democracia Socialista agiam em sintonia com os chefes do MST. Lula, José Dirceu e outros da direção partidária se distanciavam assim dos desmandos da organização chefiada por Pedro Stédile, ainda que solidários com ela. O bloco controlador do partido pertencia ao grupo Construindo um Novo Brasil (CNB), abrigo dos políticos que alardeavam programa menos assustador. Não nos iludamos. Se Lula ganhar, volta renovado e fortalecido, por inteiro, esse show lúgubre. O INCRA, de novo, será entregue às alas mais extremadas. E boa parte de suas superintendências. Nos bastidores, o acordo já está feito e prometido o botim. O MST, sob o comando de Pedro Stédile, sintonizado com a nova direção do órgão estatal pilotado por extremistas, voltará a aterrorizar o país.

 

Me engana que eu gosto. Na sua necessidade inafastável de baixar a rejeição, Lula declarou na entrevista ao Jornal Nacional: “O MST está fazendo uma coisa extraordinária: está cuidando de produzir. Não sei se você sabe, o MST, hoje, tem várias cooperativas e o MST é o maior produtor de arroz orgânico do Brasil. Você tem que visitar uma cooperativa do MST, Renata. Você vai ver que aquele MST de 30 anos atrás não existe mais”. Nada mais simpático que a produção de alimentos orgânicos. Nada impressiona melhor que ser, na modalidade orgânica, o maior produtor nacional de alimento básico na mesa do brasileiro, o arroz. Cereja no bolo, o MST mudou, está manso, produz.

 

Os fatos. O candidato petista se referia à produção do MST no Rio Grande do Sul, que colhe 70% do arroz orgânico produzido no Brasil. Na safra de 2022, os assentamentos do MST (dados deles) colheram 15,5 mil toneladas ▬ Cooperativa Agropecuária Nova Santa Rita, assentamento Capela, região metropolitana de Porto Alegre, expectativa de produção, 15,5 mil toneladas de arroz orgânico. O Brasil é autossuficiente na produção do arroz, colheita e consumo em torno de 11 milhões de toneladas anuais. Exporta em torno de 1,5 milhão de toneladas, importa arroz da Argentina e Paraguai. O consumo diário de arroz no Brasil está por volta de 33 mil toneladas. Esteado sobre tais dados, a produção de arroz orgânico trombeteada pelo MST daria para atender a aproximadamente 11 horas de consumo no Brasil. Menos da metade de um dia. E aqui estou admitindo como inteiramente idôneos os dados fornecidos pelo MST (useiro e vezeiro na utilização de fraudes e mentiras), total de produção e inexistência do uso de agrotóxicos.

 

Mais fatos. Em 26 de agosto, Vlamir Brandalizze, engenheiro agrônomo altamente considerado no ramo, teve palavras esclarecedoras, divulgadas pela Gazeta do Povo: “O consumo diário de arroz pelo brasileiro é de 33 mil toneladas. Se fosse viver do arroz orgânico do MST, teríamos alimento só para meio dia de consumo da população, ou nem isso, apenas 10 horas. E nem sei se é garantido que se colha tudo isso, porque o arroz é uma cultura exigente no controle de pragas e doenças”. Continuou o especialista: “É um nicho muito específico, que atende uma fatia muito pequena da população. E para conseguirem viabilizar isso, eles têm que vender muito caro”. A “Gazeta do Povo” pesquisou os preços. Arroz orgânico Tio João custa R$15,89 o quilo. Arroz convencional do mesmo tipo R$5,19 o quilo. De outro modo, o MST produz para nichos ricos, é produto “premium”. Pobre não compra arroz orgânico. Observou ainda Vlamir Brandalizze, para ser viável economicamente, é preciso colher entre 8 e 10 toneladas de arroz por hectare. Enfatizou: “Em qualquer lugar do mundo, seja na China, na Tailândia, na Indonésia ou no Brasil. O pessoal do orgânico colhe de 3 a 4 toneladas, eles não conseguem produtividade. Daí, não tem como ser barato. Podem não gastar com fertilizante e defensivos, mas também não colhem”.

 

O logro do MST pacificado. O MST será, no governo petista, não o produtor do arroz orgânico, mas, como sempre foi, o espantalho a ser brandido para tornar mais flexível a classe de produtores rurais às imposições do governo petista. O arroz orgânico colhido pelo MST é mais uma mistificação do arsenal petista de artimanhas para embair a opinião pública. Deixando de lado fantasias, o partido pode até ter êxito na manobra, mesmo que parcial, o que já seria meia vitória: existem crédulos em todos os lugares e condições sociais, impressionam-se facilmente com patranhas bem empacotadas.

sábado, 27 de agosto de 2022

Democracia sem hipocrisia e cegueira

 

Democracia sem hipocrisia e cegueira

 

Péricles Capanema

 

Avalanche publicitária acachapante. Nas últimas semanas o Brasil assistiu a enorme avalanche publicitária em apoio da democracia ▬ entrevistas sem conta e alguns manifestos, sobressaindo-se a “carta” às brasileiras e brasileiros lida em 11 de agosto nas Arcadas. Nesse clima, o Datafolha constatou o maior índice histórico de brasileiros a seu favor: 75% (democracia é sempre melhor). Em fevereiro de 1992, segundo o mesmo instituto, o índice patinava em 43%. Nada tenho contra a defesa das liberdades naturais, a limpidez na votação e o respeito ao resultado das urnas. Sou a favor, sempre fui, reitero-o agora. hoje está cada vez mais necessário enfatizar o óbvio.

 

Fuga do efeito manada. Não gosto, contudo, de chover no molhado; de diferente ângulo, praticar a adesão fácil, que pode levar ao efeito de manada mental. E, todos viram, houve adesão fácil ao movimento, tinha ficado bonito e muitos baixaram a guarda. O que me faria tendente ▬ razão circunstancial, não determinante ▬ a não me juntar ao bando que então se manifestava. São águas passadas. Aponto agora ponto relevante da questão.

 

Veracidade e lucidez, pré-condições de arena pública saudável. A avalanche virou enxurrada, está se transformando em filete. “Flopou”. Por quê? Faltou autenticidade. Ficou notório, o movimento era inautêntico no miolo, eivado de contradições: de fato, tinha rumo, favorecia a candidatura petista. Marco Aurélio Mello, ministro aposentado do STF, ecoando sentimento generalizado, declarou à CNN: “"Se soubesse que o manifesto seria usado como instrumento político para fustigar o atual governo e apoiar um candidato de oposição, no caso o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, eu não o teria assinado. Se arrependimento matasse, vocês estariam encomendando a minha missa de sétimo dia”. Embeiçado pelo palavreado sedutor, foi na onda. Pulou fora ddo retrocesso que até então patrocinava. Com ele, incontáveis. Desvelada a falsidade, recuaram; com a lucidez recobrada, deram as costas para o logro.

 

Inautenticidade e contradições. Ponto fundamental da autenticidade é a ausência de contradições; coerência, enfim. A apologia da hoje tão celebrada democracia precisa ser ampla, geral e irrestrita. Ser a favor dela aqui e com sinceridade também defendê-la lá fora. Não foi o que aconteceu. Um sem número de políticos e pessoas com presença nos meios de divulgação, partidários notórios da ditadura na Rússia, China, Venezuela, Nicarágua e Cuba, apresentaram-se e foram aceitos como lídimos paladinos da democracia. Esta incoerência logo que melhor percebida, esvaziou o entusiasmo da ala que recusava a inautenticidade. A duplicidade (dos simpatizantes de ditaduras) estava intoxicando o ambiente.

 

Ilustração amarga. Deixo aqui apenas um exemplo, sintoma relevante de posições de efeitos nefastos para o futuro brasileiro, infelizmente bastante generalizadas. A| ex-presidente Dilma Rousseff foi palmeada por ter firmado a carta lida em 11 de agosto nas Arcadas. Por aqueles dias deu declarações turibulárias sobre a ditadura comunista chinesa, onde o PCC oprime centenas de milhões de pessoas. A China, afirma ela, é “modelo admirável”. Modelo para quem? Certamente para o Brasil, chamado para babar de admiração pelos dirigentes do Partido Comunista que a aplicam. “Representa uma luz nessa situação de absoluta decadência e escuridão que é atravessada pelas sociedades ocidentais”. Sendo assim, as sociedades ocidentais, trevosas, são ofuscadas pelo fulgor da política aplicada pelo Partido Comunista da China. Contradições assim, aberrantes e ovantes, eliminam a seriedade na assinatura de qualquer manifesto a favor da democracia. Quem as aceifa, evidencia cegueira. Quem as pratica, como poderá evitar o epíteto de conduta hipócrita, que nasce natural, impulsionado de forma incoercível pela força da lógica?

 

Conluio da cegueira com a hipocrisia. Aliança mistificadora, ainda que inconfessada e até despercebida, mais comum que se costuma pensar, esteada no romantismo e na superficialidade, sempre prenhe de catástrofes. Entre outros efeitos, leva a opinião nacional a se acostumar com o engodo e a dissimulação. À vera, é caldo de cultura para miséria material e moral, fortalecendo condições para perpetuação de governos ditatoriais. Em especial nesse clima eleitoral, a opinião nacional estará sujeita a mistificações que ofuscarão seus olhos e farão os ouvidos mais abertos à hipocrisia. Quanto não à mentira descarada.

sábado, 20 de agosto de 2022

Submissão total aos objetivos comunistas ou implacável perseguição religiosa

 

Submissão total aos objetivos comunistas ou implacável perseguição religiosa

 

Péricles Capanema

 

Perseguição religiosa na campanha presidencial brasileira. A campanha política no Brasil (eleições em outubro próximo) começa com tema inesperado: o assunto quente da perseguição religiosa. Nada tem de artificial; é gravíssimo, à vera, para qualquer católico. Lula, em repetidas ocasiões, tenta escapar do tema. Quer varrê-lo do debate. Poderá ser colocado por baixo do tapete, mas continua realidade a ser considerada com muita seriedade.

 

Falso anacronismo. Colocou0o na ordem do dia pessoa queridinha da esquerda brasileira ▬ xodó intocável. O ditador da Nicarágua destampou o caixão e escancarou para todos a realidade escondida. Ou os católicos acertam o passo com a revolução ou serão perseguidos. Foi assim no passado, continua igual. A perseguição religiosa parecia realidade longínqua, coisa para Coreia do Norte, fato quotidiano dos regimes soviéticos, já desaparecidos, e, ainda hoje, do chinês, disfarçado embora. Por aqui, não. Ortega evidenciou: por aqui, sim.

 

A companheira de viagem fortaleceu o carrasco. Um fato deformava o quadro real. Por décadas a esquerda católica vem sendo companheira de viagem do petismo. A esquerda no poder favoreceria atividades da Igreja, era a esperança. Com uma condição, cuidadosamente escondida: subserviência e colaboração.

 

De volta a agressão. Por razão brutal a perseguição religiosa deixou de semelhar anacronismo: sem rebuços, um dos maiores e mais queridos aliados do PT (o ditador Daniel Ortega) está perseguindo a Igreja Católica na Nicarágua. Acusa-a de “golpista”, “terrorista”. Ou o que lhe vier aos lábios; para justificar o retrocesso, qualquer mentira vale, aos montes teremos “fake news” em estado puro. O governo sandinista prende bispos, padres e leigos, fecha rádios e organizações católicas, reprime na Igreja quem ousa levantar a cabeça. Por quê?

 

Pão e liberdade. A razão é simples: os católicos estão sofrendo com a tirania e a miséria dominantes e crescentes na Nicarágua. Revoltam-se, têm reivindicação singela, pão e liberdade. Afinal, o sandinismo, menina dos olhos da esquerda católica e do petismo, manda no país há décadas e já passou da hora de melhorar alguma coisa na vida dos . E não mudou nada (aliás, mudou muito, e para pior): miséria no povo, o somozismo é fichinha diante da repressão sandinista, continua o favorecimento dos apaniguados, a roubalheira corre solta. Crescente presença imperialista da China. Com apoio, claro, dos irmãos Castro, de Maduro, da esquerda latino-americana, muito especialmente do PT e aliados no Brasil.

 

Ortega, o intocável. Querem sintoma expressivo? Alguém conhece algum dirigente do PT que censure Daniel Ortega  pela roubalheira, fraude nas eleições, perseguição religiosa e favorecimento escandaloso de familiares? Pelo contrário, é objeto de admiração. Sobre Daniel Ortega, em novembro de 2021, afirmou Lula: “Temos que defender a autodeterminação dos povos. Sabe, eu não posso ficar torcendo. Por que que a Angela Merkel pode ficar 16 anos no poder e Daniel Ortega não?” Havendo condições, não nos iludamos, repetirão no Brasil o que Maduro, Ortega e Castro ▬ os intocáveis ▬ impuseram e infligem a seus povos. E aqui se inclui a perseguição religiosa. Há precedente macabro: a perseguição religiosa, com sem-número de mártires existiu gravíssima na antiga Cortina de Ferro, seus epígonos latino-americanos farão o mesmo aqui, se a tal as conveniências revolucionárias os aconselharem.

 

Recordações dolorosas e reveladoras. Em fevereiro e março de 1980, o progressismo católico, dele então corifeus dom Paulo Evaristo Arns, dom Pedro Casaldáliga e frei Betto, entre outros, promoveu em São Paulo grande celebração da revolução sandinista. Dom Pedro Casaldáliga, na ocasião, afirmou: “Eu me sinto, vestido de guerrilheiro, como me poderia sentir paramentado de padre. É a mesma celebração que nos empurra à mesma esperança. Apenas para terminar, gostaria de pedir para todos vocês, que sejamos consequentes. O que estamos celebrando, o que estamos aplaudindo nos compromete até o fim. Nicarágua nos deu o exemplo: todos nós, todos os povos da América Latina, todos os povos do Terceiro Mundo, vamos atrás!” E dom Paulo Evaristo Arns fechou da seguinte maneira: “Como concluir? Não há uma conclusão. A coisa apenas começou. Vejam esta pergunta — chega de teologia e vamos à prática: onde estão os grupos que vão para a Nicarágua, para aprender? Eu respondo: sei que, em São Paulo, há grupos se preparando e de malas prontas para partir. Até com a permissão do Arcebispo de São Paulo”. Os pastores bradavam em defesa dos lobos. E, então, os lobos uivavam em defesa dos pastores.

 

Nicarágua hoje. Tomo como base informações divulgadas pela swissinfo.ch, instituição reputada como das mais sérias da Europa. São sintomas de situação que pode se agravar. Dom Rolando Álvarez, bispo da diocese da Matagalpa foi preso na madrugada de 6ª feira 19 de agosto. Policiais invadiram violentamente, 3h20, hora local, a sede da cúria episcopal. É acusado de “organizar grupos viOlentos” para “DESESTABILIZAR O Estado da Nicarágua e atacar as autoridades constitucionais”. Com o bispo foram presos sete colaboradores e um operador de câmera. Quatro sacerdotes foram presos, dois seminaristas. A polícia distribuiu comunicado: “Na madrugada de hoje foi realizada nas instalações da cúria\ da cidade de Matagalpa uma operação que permitiu que as famílias e a cidadania de Matagalpa recuperassem a normalidade”. Como se vê, comunicado à altura do que divulgaria qualquer governo da antiga União Soviética.

 

Submissão total aos objetivos comunistas ou implacável perseguição religiosa. Coloquei como título do artigo “submissão total aos objetivos comunistas ou implacável perseguição religiosa”. Não foi exagero. É isso mesmo. O resto é ilusão e mito.