terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Bolo em camadas


Bolo em camadas

Péricles Capanema

Meu primeiro impulso foi pôr aí em cima o equivalente, mais expressivo, gâteau de couches e não bolo em camadas. Gâteau de couches nos remete a mais sabores e a formas mais bonitas, à pâtisserie (doceria, confeitaria) francesa, produtos que são verdadeiras obras de arte, pequenos andares de delícias de diferentes gostos.

A ideia de fundo é a de soma, adição de realidades harmônicas e complementares. Como metáfora, serve para quê? Para os mais variados fins, no meu caso para representar virtude, para muitos amarga e dura, a seriedade. O contrário, a seriedade é atitude que torna suave a vida. Seriedade é objetividade; vou procurar tê-la como inspiração e ser objetivo ao tratar dos dados divulgados pelo PISA mais recente. Não me esqueço, como os bolos, temos seriedade de uma camada, seriedade de duas, de várias camadas, a seriedade simples do porteiro e a seriedade elaborada do general.

De início, vamos considerar com seriedade simples (bolo de uma camada), sem desviar o olhar, os dados devastadores do PISA de 2018 (Programme for International Student Assessment – PISA, em inglês, Programa Internacional de Avaliação de Alunos), exame aplicado a cada três anos em 79 países a estudantes de até 15 anos; mais de 600 mil avaliados, dos quais 17,5 mil brasileiros. São dados controversos, mas apontam uma direção. O Brasil ficou na 66ª posição. Em leitura, 54ª, ciências, 67ª, em matemática, na 70ª. Na China, 16% dos estudantes estão no nível mais alto da disciplina, com raciocínio matemático considerado avançado. Entre os países da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento), apenas 2,4% dos alunos chegam a esse patamar.

Outro ponto. Os colégios de elite brasileiros colocam o país na 5ª posição da leitura, ao lado da Estônia. O resultado das escolas públicas nesse quesito é o 65º. Escolas privadas de elite, o Brasil em ciências fica no 12º no mundo. Escola pública em ciências, Brasil no 71º. Privada de elite em matemática, 30º lugar. Púbica em matemática, 75º. 10% dos jovens do mundo conseguem diferenciar fato de opinião. No Brasil, total bem menor, 2%. Nenhum aluno das classes mais pobres conseguiu fazer tal distinção. Parte dos alunos das privadas de elite termina os estudos no Exterior e não volta ao Brasil.

O quadro desolador vem do que tem sido nossa educação fundamental há décadas. Se não for mudado, esqueçam o Brasil entre as nações mais prósperas da terra para as próximas décadas. Estamos dentro da sociedade do conhecimento. O começo do caminho ▬ não é o único, mas essencial ▬ para a prosperidade do Brasil é aumentar o padrão do ensino fundamental das escolas públicas. Vale tritrilhões de vezes mais que ficar tagarelando e papagaiando frases feitas como “resgatar a pobreza”, “pagar a dívida social”, “eliminar a desigualdade”, “distribuir renda”, e vai por aí afora. Pior ainda seria moldar o ensino fundamental segundo doutrinas demolidoras como as de Paulo Freire ou a ideologia de gênero. Acabaria de afundar.

Não vou ser conselheiro Acácio, temos grandes técnicos na área que sabem exatamente o que propor e fazer. O óbvio ululante é que nos últimos 50 anos o rumo foi frouxo e cheio de defeitos. Repito, se não for consertado o ensino fundamental, a rabeira será nosso destino permanente. Sei, boa instrução não basta para a prosperidade. Mas é essencial. E, quem nasceu pobre, via de regra, só tem uma oportunidade de crescer na vida; fazer, nos seus primeiros anos, um bom curso fundamental.

Vou deixar o bolo em uma camada, vamos para o bolo em duas camadas. De outro modo, colocar mais algumas questões no quadro. Por vezes com boas razões se criticam no Brasil as desigualdades gritantes, a infância desamparada, o uso que o crime organizado faz de crianças. Como diminui-los? Ao lado do ensino fundamental, base dele, faz falta a primeira educação familiar. O ambiente familiar é o mais importante para a formação do caráter e o florescimento do que a instrução fora de casa poderá proporcionar. O que acontece até os 5 anos marca fundo a vida toda. Se no Brasil faz muita falta a primeira educação familiar, é porque a família está falhando. E assim, quem a defende com unhas e dentes, luta por causa social de generalizado impacto na diminuição da pobreza. O economista professor Roberto Macedo, discorrendo sobre educação, em especial a infantil, ressaltou ponto de enorme importância: “Tive circunstâncias educacionais muito favoráveis, pois minha mãe deixou o magistério para cuidar dos seus oito filhos. Na época, famílias desse tamanho eram comuns. Ela levou todos à escola, e nossa casa era também uma escola, pois ela ensinava várias coisas, e cobrava desempenho escolar. Havia também muitos livros e até jornais diários, que atraíam nossa atenção. E jogos infantis, muita conversa com ela e entre irmãos, tudo isso estimulando nossa cabeça já na primeira infância. E, ainda, a interação com os filhos de famílias vizinhas, também ajudando no desenvolvimento intelectual e social

As duas primeiras camadas eram até certo ponto previsíveis. A terceira, acho, nesse bolo em três camadas, é que traz novidade. Relia partes do livro “Minha vida de menina” de Helena Morley (pseudônimo de Alice Dayrell Caldeira Brant) ▬ do qual Georges Bernanos certa vez comentou com o ministro Capanema: “obra genial, livro único, impossível de traduzir, um milagre” ▬ e topei com cena instrutiva de fins do século XIX em Diamantina: “Hoje tive o maior espanto de minha vida. Vovó, todos os sábados, manda um de meus irmãos ao Palácio, que é perto da Chácara, trocar uma nota em borruquês do Bispo. Põe tudo numa caixa de papelão e fica sentada na sala de jantar, à espera das pobres delas. A cada uma dá um borruquê novo de duzentos réis. São elas, Chichi Bombom, Frutuosa Pau-de-Sebo, Teresa Doida, Aninha Tico-Tico, Carlota Pistola, Teresa Buscapé, Eufrásia Boaventura, Maria Pipoca e siá Fortunata. [...] Eu sempre fico por perto ouvindo as queixas”.

Uma avó, com a neta por perto, recebe na sala mulheres pobres para dar esmola. Ambiente descontraído, acolhedor, simples, respeitoso, onde, imersas num ar difícil de definir, pretas, brancas, mulatas conversam, trocam opiniões e depois as pobres vão embora. Se o Brasil quer de fato um dia ser grande ▬ grande de grandeza cristã, a única que interessa ▬ e não apenas próspero, este ar difícil de definir não pode morrer. Digo mais, não pode definhar. Enfatizo: tem que se firmar, aperfeiçoar-se e conquistar espaços.

 É esse o ambiente do Brasil antigo, também percebido nas palavras do professor Macedo. Definha, infelizmente, está morrendo. Se desaparecer por inteiro, de nada vai adiantar estarmos na primeira fila do ensino fundamental. E concluo, para ser proveitosa, a análise da formação infanto-juvenil entre nós requer olhares de profundidade diferentes. Só então se apresentará apetitosa, atraente e nutritiva como um bolo em camadas.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Função social às avessas


Função social às avessas

Péricles Capanema

No Brasil, como em qualquer lugar do mundo, ramos de negócio existem às dezenas de milhares. De outro jeito, ninguém sabe quantos galhos seguram a árvore da atividade econômica. Bancos, postos de gasolina, armazéns, açougues, padarias, escolas, cervejarias. Nunca acaba. Quando a empresa produz pouco, vendas mirradas, vira galho seco, em geral afunda e quebra. Triste a falência, preocupante a recuperação judicial; contudo, são fatos corriqueiros, acontecem todos os dias. E a vida segue.

Corta. Vocês já ouviram falar de alguma firma que sofra desapropriação se for considerada improdutiva por órgão do governo? Produziu pouco? Governo em cima. Já escutaram, supermercado improdutivo, desapropriação nele? O boteco comercia pouca cachaça e salgadinhos? Vai ser desapropriado, onde já se viu. O banco tem empregados preguiçosos, produtividade pequena segundo índices do governo? Vai passar para outras mãos, estatais. Seus funcionários virarão barnabés e aí sim, a produtividade irá para as alturas. Nunca, né?

Para infelicidade social, temos segmento econômico no Brasil, só um, que, se você for considerado improdutivo, pode sofrer a punição da desapropriação, em linhas muito gerais logo que dê na telha dos donos do poder (deixo de lado aqui o lote urbano, tem algo longinquamente parecido) Para tal, índices foram aplicados fraudulentamente, agitações foram orquestradas, laudos fajutos foram feitos às pencas. Está no campo, é a novela macabra da reforma agrária, um dos tumores de estimação dos brasileiros. No caso de que vou tratar abaixo, destaca-se autarquia aparelhada para a perseguição ▬ o INCRA.

No conjunto, considerando tudo, o programa da reforma agrária no Brasil, velho de mais de 50 anos, autenticamente poderia ser titulado de a prática obsessiva e fanática da função social às avessas. Sempre deu com os burros n’água, sempre agrediu objetivos sociais, mas não tem importância, é tumor cancerígeno de estimação nosso, a gente tem xodó dele. Fôssemos objetivos, desapegados de retrocessos sociais, seria extinto; é exigência imperiosa da justiça social acabar com ele. Não só ajudaria a sociedade como um todo, facilitaria o combate à pobreza.

Em duas palavras, continua entre nós esse disparate renitente, que já foi abandonado pela maior parte dos países que algum dia entraram nessa fria. É jabuticaba nossa (dizem, sei lá se é verdade, jabuticaba só dá no Brasil). Tem apoiadores, promotores do atraso, por exemplo, em 22 de dezembro, Lula e Chico Buarque vão jogar futebol no campo do MST em Saquarema. Pedro Stédile certamente estará presente.

O programa da reforma agrária no Brasil sempre teve como base um fundamentalismo refratário aos dados da realidade. É clara opção preferencial pela atrofia. Com efeito, diminui a produtividade (baixíssima a produtividade nas áreas assentada), desperdiça dinheiro público (quando não é roubalheira descarada) que poderia minorar problemas sociais, traz insegurança jurídica, exaspera tensões sociais, favorece fuga de capitais do campo. Tal política, xodó da esquerda e do progressismo das sacristias, se não for desinfetada zelosamente com o confronto da realidade, assepsia permanentemente necessária para quem acha que ele ajuda os pobres, continuará a provocar tragédias pelas décadas na frente,  pobrezas, exclusões e regressões sociais.

Vou lembrar dois exemplos. o IPEA em relatório informou que até 2011 já haviam sido gastos 7,6 bilhões de dólares no programa. Até hoje? Não achei o número amazônico. Se essa montanha de dinheiro tivesse sido aplicada em programas sociais de verdade (escola, saúde, infraestrutura), muito melhor estaria a situação dos pobres e da economia no Brasil.
E temos ainda a considerar os gastos gigantescos com o INCRA, 30 superintendências, funcionários, viagens etc.

O site do INCRA informa quanto já foi gatunado [desapropriado] assim ao longo de mais de 50 anos. 87.953.588 milhões de hectares [879 mil km2], área muito maior que a Bahia e o Rio Grande do Sul somados, muito mais do que o agronegócio brasileiro usa para nos colocar na dianteira do mundo na agricultura e pecuária. Segundo dados de 2017, o Brasil utiliza 63.994.479 hectares para agricultura.

Vou continuar no site do INCRA e reproduzir aqui um objetivo da entidade: “em relação aos beneficiários, a atuação do Incra no campo é norteada pela promoção da igualdade de gênero”. É isso, a ideologia de gênero, combatida oficialmente, está colocada pelo INCRA como objetivo seu no campo.

Lembrei de forma passageira apenas alguns pontos, que a imprensa gosta de esquecer, mas agora divulgo trechos esparsos de artigo do advogado Paulo Márcio Dias Mello no Consultor Jurídico (8 de dezembro de 2019 – íntegra no site) que põe a nu a bagunça com que se tocam as coisas no Brasil. O título do trabalho já é evidência do descalabro “O INCRA não existe, é uma autarquia fantasma”. Continua o advogado: “o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária não existe como autarquia federal, dotada de personalidade jurídica própria, há mais de 32 anos. O Incra foi criado pelo artigo 1º do Decreto-lei 1.110, de 1970 como entidade autárquica. Em 21 de outubro de 1987, o Instituto foi extinto pelo decreto-lei nº 2.363/1987, sendo criado, no seu lugar, outra autarquia, o Inter – Instituto Jurídico de Terras Rurais. O decreto-lei 2.363/1987 encontrava-se em tramitação no Congresso Nacional, quando foi promulgada a Constituição de 1988, que atribuiu competência diretamente à União, em seu artigo 184, para ‘desapropriar por interesse social, para fins de reforma agrária’. A regra do §1º, I, do art. 25 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias: § 1º Os decretos-lei em tramitação no Congresso Nacional e por este não apreciados até a promulgação da Constituição terão seus efeitos regulados da seguinte forma: I - se editados até 2 de setembro de 1988, serão apreciados pelo Congresso Nacional no prazo de até cento e oitenta dias a contar da promulgação da Constituição; II - decorrido o prazo definido no inciso anterior, e não havendo apreciação, os decretos-lei ali mencionados serão considerados rejeitados’. Assim, o decreto-lei nº 2.363/1987 foi rejeitado expressamente pelo Congresso Nacional pelo Decreto Legislativo nº 2/1989. O Decreto Legislativo teve, portanto, dois efeitos: confirmar a extinção do Incra e promover a extinção do Inter. Os atos praticados pelo ‘Instituto’ durante todos esses anos são eivados de vício. O INCRA é entidade fantasma”.

Alguém imaginava essa? Cabe aos especialistas do Direito Constitucional e do Direito Administrativo resolver o caso que bem podia acabar com fantasma que assombra o Brasil. Menos um. E com ele a esdrúxula função social às avessas com a qual convivemos há tantas décadas.


domingo, 15 de dezembro de 2019

Migração redentora


Migração redentora

Péricles Capanema

Sempre me impressionaram as soltas de pombos-correio. Voam em círculos largos, duas ou três voltas e, súbito, como que acabada a indecisão, tomam rumo, flechas no retorno ao pombal. Por que os círculos ascensionais das aves? Não sabem que curso escolher? De qualquer modo, fazem imagem linda das divagações do espírito. Umas, perda de tempo, não se alteiam como eles. Diferente outras, sobem, volteiam, mas, bem colocadas, antecedem de pouco a fixação do objetivo. Por vezes de uma vida toda, como os voos dos pombos-correio, não raro linhas de mil quilômetros até os columbários.

Permito-me divagar um pouco sobre migrações, mas tenho norte ▬ hoje pode surpreender. Migrações lembram caminhadas, jornadas, marchas, percurso, trajetória. E depois, termo, parada, chegada, êxito, triunfo. Ou fracassos e decepções.

Em incontáveis casos, repletas de simbolismos, as migrações brilham pelos séculos com enorme poder evocativo. Rememoro duas de raiz bíblica. A migração dos judeus, os filhos de Jacó, para o Egito, precedida da venda de José como escravo pelos irmãos a mercadores ismaelitas. Pretexto do crime dos irmãos: José era um sonhador. Aliás, não custa lembrar, pela vida afora, muitos de nós, “sonhadores”, somos como José, vendidos por quem menos se espera, na busca de vantagens passageiras.

Os anos passaram, José, o escravo fracassado e vendido, teve carreira fulgurante. E nos deixou grande lição de perdão. Aos irmãos envergonhados, as palavras doces do rebento rejeitado, pelas mãos de Deus alçado a ministro do faraó, mandachuva de um império, que apenas diz: “Eu sou José, vosso irmão, a quem vendestes para o Egito”. Depois de 400 anos, outra migração, os judeus estão de volta, guiados por Moisés, vagueiam quarenta anos pelo deserto do Sinai, no retorno à terra prometida, Canaã.

Outro exemplo, migrou também o filho pródigo da casa paterna, levando a herança rica, que dilapidou na farra. E depois, pobre, arrependido, fez a jornada de volta. “Pai, pequei contra o céu e contra ti. Já não sou digno de ser chamado teu filho”.

Tantas outras migrações e das mais variadas naturezas. Vou tratar de uma delas, das mentalidades, no seio da opinião pública e no mundo oficial. Acontece no Brasil e é migração que tem potencialidades para ser redentora.

Vamos ao ponto. Em 17 de novembro de 1889 o governo provisório expulsou a Família Imperial do Brasil. Em 21 de dezembro o decreto de banimento foi publicado. Dom Pedro II e família não podiam voltar, não podiam os membros da Família Imperial possuir bens imóveis aqui; se tivessem estavam obrigados a vendê-los em dois anos, extintas ficavam as dotações oficiais. Começava tentativa de varrê-los da história brasileira. Era uma forma de passar borracha no passado, recurso de legitimação da república. Com a consequente batalha em torno de símbolos, imagens e comemorações se iniciava uma nova era que proclamava e desejava ser inequívoca ruptura com a anterior.

Não aconteceu e não funcionou. De fato, pouco depois, espontaneamente, o Brasil de alto a baxo se recusou a tomar uma atitude jacobina e deu início a movimento oposto, a reaproximação com a Família Imperial. Multiplicavam-se em escolas, rodovias, edifícios, empresas, os nomes de Pedro II, Leopoldina, Princesa Isabel. Cidades eram memória viva, Teresópolis, Petrópolis, Joinville. E começavam a ser apresentados na Câmara um atrás do outro projetos para cancelar o banimento da Família Imperial, o primeiro dos quais em 5 de agosto de 1891, menos de dois anos depois do golpe de 15 de novembro, da lavra dos deputados Caetano e Albuquerque e Anfilófio de Carvalho. Não prosperou, claro.

Um marco dessa migração (reencontro, outro nome), pelo impacto enorme, merece recordação especial: o retorno ao Brasil do barão do Rio Branco (1845 – 1912) em 1º de dezembro de 1902, depois de 26 anos no Exterior para assumir o ministério das Relações Exteriores. Fruto autêntico do ambiente social e político do 2º Reinado, permaneceu na chefia da diplomacia brasileira ao longo de quatro presidentes ▬ Rodrigues Alves, Afonso Pena, Nilo Peçanha e Hermes da Fonseca. Faleceu no cargo, marcou direção até hoje prevalente.

Rio Branco triunfara na Europa e nos Estados Unidos em questões delicadas de fronteiras com consagradoras manifestações de inteligência, erudição e tato. Coberto de louros, convidado para o ministério, foi apoteótica e reveladora sua chegada no Rio de Janeiro. O navio que o trouxe entrou no porto rodeado de embarcações. Ao meio dia saltou em terra, onde multidão enorme o esperava. Fisionomia serena e senhorial, bigode forte, presença e domínio de cena impressionante, lembrava tanta coisa, os modos e o jeito de Bismarck, recordava em especial o Império e seus homens públicos, evocava a Família Imperial, revivia um mundo que deixara saudades e que se recusava a morrer. Ali era seu mais qualificado representante.

Segundo Álvaro Lins, foi assim que o povo e o mundo oficial celebraram Rio Branco: “O percurso pelas ruas da cidade veio a constituir uma cena espetacular. Do préstito faziam parte representações de todas as classes e entidades sociais: do Governo, da Câmara e do Senado, do Exército, da Marinha, do corpo diplomático, do corpo consular, das escolas militares, dos colégios oficiais e particulares, de associações religiosas, de sociedades culturais e literárias, de instituições científicas, de clubes mundanos, das escolas de Direito, Medicina e Engenharia, do comércio, da indústria, das repartições públicas de diversos ministérios, dos veteranos da guerra do Paraguai. Clarins e bandas de música anunciavam a sua passagem. Por toda parte se via o seu retrato. As ruas estavam embandeiradas, num espetáculo festivo de cores e dísticos, e das sacadas atiravam-lhe flores. Coberta de flores também estava, desde a véspera, a estátua do Visconde do Rio-Branco.”. Este mundo estava banido?

O nome, José Maria da Silva Paranhos Júnior. Poderia ser chamado de dr. José Maria, dr. José, seu Juca, o Paranhos, Juquinha, Zeca Paranhos, Juninho. Nada pegaria. Era o barão ou Rio Branco. Firmava Rio Branco, o jamegão valia; não dava bola para a supressão do título, lavra da república, nem para a obrigação de utilizar seu nome de registro. Desinibidamente usou o título supresso e nunca escondeu as convicções monarquistas. Estava banido o Império? Estava banida a Família Imperial? Nada mais artificial, brutal e postiço.

Por que deixou a Europa, depois de 26 anos lá?  O governo necessitava dele não apenas para negociações diplomáticas importantes. Precisava de sua irradiação para se cobrir de respeitabilidade. Punha à frente da pasta do Exterior e como figura de proa dos homens públicos um garantidor da ordem, um expoente da cultura, modelo de eficiência e senso prático na gestão dos negócios estrangeiros. Elevava assim sua estatura nas Américas e até no mundo. O retrocesso republicano prejudicava, era urgente um avanço, imprescindível acabar com o descompasso entre o Brasil e o mundo civilizado. Para tudo isso Rio Branco servia como uma luva.

No fundo do palco cuja figura principal era o barão, desenhava-se a figura da Família Imperial, sem cuja ação dificilmente se formariam figuras públicas como a que dominava a cena pública nacional. Ela voltava aos poucos, reconquistava espaços. O reencontro se consolidava, evaporava-se o plano de confiná-la, esquecida, na Europa.

Em dezembro de 1919, depois da derrota de numerosos projetos semelhantes extinguindo o banimento, o deputado mineiro Francisco Valadares (aparentado com o senador Benedito Valadares), mais uma vez, propôs o fim do banimento. Já estava escandaloso o caso. O Congresso aprovou-o. Em 3 de setembro de 1920, foi assinado no Catete o decreto que revogava o banimento. A Família Imperial podia voltar; era véspera do centenário da Independência, realizada por um de seus membros.

Voltou, ela que nunca deveria ter saído. Houve gradual reinserção de figuras da Família Imperial na sociedade brasileira. Acelerou-se a trajetória da Família Imperial para o centro da vida nacional e continuou a derrubada das barreiras artificiais entre ela e a opinião nacional.

Um salto sobre muitos acontecimentos. Hoje temos dom Bertrand homem público, dom Luiz Philippe homem público, dom Rafael começando a se firmar: “Fomos ensinados desde pequenos a ser vistos como exemplos”. O presidente Bolsonaro declara a dom Luiz Philippe: “Você deveria ter sido meu vice, e não esse Mourão aí”. E o ministro da Educação escreve textos assim: “Não estou defendendo que voltemos à Monarquia, mas o que, diabos, estamos comemorando hoje? Há 130 anos foi cometida uma infâmia contra um patriota, honesto, iluminado, considerado um dos melhores gestores e governantes da História”. E ainda: “O Império teve seus dois principais atos assinados por mulheres educadas, inteligentes e honestas. Elas nos governaram bem antes de Dilma. A Lei Áurea e nossa Independência foram assinadas respectivamente pela Princesa Isabel e por Dona Leopoldina”.

Chamo a atenção para ponto quase nunca enfatizado: a naturalidade generalizada com tal situação, da qual dei poucos exemplos acima. Todo mundo acha normal fatos assim, se tirarmos a minoria jacobina, petrificada em preconceitos gastos. Razão? Não são raios em sol sereno, inserem-se naturalmente dentro de processo já velho de mais de um século, que vem ganhando volume, com o qual todos convivemos. Dois movimentos: a Família Imperial caminhou, em longa marcha, para o centro da vida nacional; o segundo, o Brasil andou, décadas afora, em direção a ela. Penso, sintoma da migração, um plebiscito como o de 1993, causa bem apresentada e propaganda bem conduzida, daria muito mais que os 10% da época.

Até onde nos conduzirão as duas migrações? Não sei, ninguém sabe. Mas sei, enquanto a Família Imperial representar honestidade, moralidade, simplicidade, esplendor, harmonia, em suma, ser esperança de garantidora de uma sociedade estaqueada na família e promovendo incontáveis plenitudes de natureza vária de que o Brasil necessita e pode abrigar, muito dificilmente terá fim tal migração. São os 40 anos no Sinai. E estou certo, terá sido migração redentora. Que são Pedro de Alcântara, padroeiro da Família Imperial, lhe ajude e ajude a todos nós nessa caminhada, que é pelo bem nacional.

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

O futuro chegou antes da hora


O futuro chegou antes da hora

Péricles Capanema

Amigo meu de décadas, como poucos culto, amável e inteligente, enviou-me dito francês conhecido “savoir dire, savoir plaire, savoir faire” (saber dizer, saber agradar, saber fazer), como possível tradução da locução inglesa “soft skills”, por mim examinada em texto recente ▬ “Foco no sucesso”, desde 27 de outubro em meu blog periclescapanema.blogspot.com.

Perguntava eu no artigo se alguém tinha em mente tradução adequada para o que hoje significa “soft skills” no mundo dos negócios, em que de forma especial exprime qualificações necessárias para ali alcançar posições de destaque (eu não tinha). Minha intenção primeira no presente texto era discorrer sobre em que a viva construção francesa acima transcrita parece exprimir corretamente o “soft skills” e em que, a meu entender, deixava de lado certos aspectos.

Todo o artigo já estava na cachola, era só limar um ou outro pormenor e pôr no papel. No texto imaginado por mim havia um ponto que só uma vez ouvi levantado (aliás, por político mineiro que já nos deixou há tempos) como fundamental na vida: a importância do convívio com homens inteligentes. O experiente homem público julgava indispensável para a formação intelectual, para moldar a personalidade, para as obrigações de pai de família e de profissional o tal convívio. “Procure sempre o convívio dos homens inteligentes”. Claro, homens no sentido normal da palavra, mulheres, crianças, moços, idosos (seres humanos). Ousaria rematar com um pontinho: busque o convívio dos bons observadores. Nada soma quem não sabe ver direito a realidade. Os raciocínios brotam desfocados se os olhos antes não captam realidade objetiva e rica.

Corta, o resto fica para depois. De repente fui agredido pela realidade e me vejo obrigado a tratar agora de outro assunto. O amigo acima mora em Frankfurt. Outro amigo, residente em Paris, a quem não vejo faz muito tempo, muito tempo mesmo, o que lamento, têm algo em comum: o mau gosto de ler textos meus. Passou os olhos pelo “Preocupa” (postado no blog também em 27 de outubro) e se viu na obrigação de me avisar: o futuro já chegou. Pensei comigo: antes da hora (para os incautos). O futuro em tela estava marcado para 2047.

Todos sabem, o “Le Monde” é jornal de enorme importância, com viés de centro-esquerda (não é um “Le Figaro”). E assim em geral ecoa mal ou não ecoa as vozes que vêm da direita. O “Le Monde” edita uma espécie de revista “Le magazine du Monde”, cujo número 424 de 1/11/2019 traz informativo artigo de Florence de Changy intitulado “Les entreprises étrangères sous pression chinoise” (As empresas estrangeiras debaixo da pressão chinesa).

Não são empresas pequenas, são mamutes famosos, alguns dos quais do mundo do alto luxo. Florence de Changy começa relatando o caso da NBA (National Basketball Association), a gigante norte-americana que coordena o basquete nos Estados Unidos. Um simples tuíte de Daryl Morey, dirigente do Houston Rockets, apoiando os combatentes pela liberdade em Hong Kong (atenção, só reclamam o que consta dos textos legais), desencadeou furor na China continental, o que causou prejuízos grandes aos maiores clubes dos Estados Unidos. Alguém duvida que o furor não foi instigado pelas autoridades chinesas? Retaliada no bolso, a NBA entrou logo na linha. O recado, e não é o primeiro, ficou mais claro: o governo chinês exige lealdade absoluta (se quiserem troquem lealdade por submissão, fidelidade, vassalagem, subserviência, dá no mesmo). Não admite ninguém pisando fora da linha traçada pelo PCC (Partido Comunista Chinês).

Outro caso. Tem sede em Hong Kong uma linha aérea grande e reputada, a Cathay Pacific. Em agosto, o governo chinês exigiu da empresa que demitisse imediatamente duzentos empregados que participaram dos presentes protestos na cidade. Ou, menos que isso, de alguma maneira manifestaram algum apoio, mesmo que discreto. Ordem dada, ordem cumprida. Foram logo demitidos os pouco mais de duzentos funcionários. Rua. E ainda três dirigentes. A punição não terminou aí, funcionários de grandes empresas chinesas estão proibidos de voar na Cathay Pacific. Avery Ng, deputado social-democrata, nota: “O governo chinês deu o recado: qualquer pessoa, qualquer uma mesmo, que ousar tomar posição não conforme à linha determinada pelo Partido Comunista Chinês, será punida ou demitida. É aviso ameaçador para todas as empresas que tenham o menor interesse no mercado chinês”.

Poucas semanas depois, foi a vez do BNB Paribas, banco francês. Funcionário seu em Hong Kong ousou colocar no Facebook particular expressão de alguma maneira depreciativa com a China continental e favorável aos Estados Unidos. Sofreu avalanches de ataques das milícias digitais. Teve de sair do banco (a reportagem não deixa claro se pediu demissão ou foi demitido; na prática, a mesma coisa, rua).

Resumindo o clima, observou francês residente há quinze anos em Hong Kong: “Começamos a ter medo de nossa própria sombra. É enorme o efeito da intimidação chinesa. Todo mundo sabe, mas não se pode falar a respeito. Além do mais, de que adiantaria? É a nova realidade”.

De momento, todas as grandes empresas de Hong Kong, e aqui estão incluídas as francesas, muito presentes no setor do luxo e das finanças, temem o passo em falso fatal. Têm uma única escolha: obedecer Beijing. Versace, Givenchy, Coach, Delta Airlines, Zara, entre outros, já pagaram por seus erros.

A vigilância inclui o Tibete e a China Nacionalista. Estão proibidos comentários ou quaisquer manifestações que destoem da linha oficial do Partido Comunista. Beijing nos dois assuntos não tolera ponderações contrárias a seus interesses. A Dior, numa apresentação interna, projetou um mapa da China. Por distração, não constava nele Taiwan. Guerra das milícias digitais. A Dior se dobrou em desculpas, reconheceu publicamente o dogma comunista da “China única”, “respeito constante pelo princípio da China única”. E assim vai.

E assim irá. Pelo tratado com a Inglaterra, a administração de Hong Kong só passará a ser chinesa em 2047. A China perdeu a paciência, mandou às favas escrúpulos, e já está sinalizando sobre o que teremos pela frente. O futuro está chegando antes. Para Macau, a data é 2049, mas ali o futuro já chegou. Eles não piam contra a China, que já domina tudo. Hong Kong e Macau recebem hoje tratamento que, se não acordarmos, será o nosso daqui a algum tempo. Quando? Não sei. Uma coisa sei, para nós, o futuro também pode chegar antes da hora.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Cruzado no queixo do povo


Cruzado no queixo do povo

Péricles Capanema

Hoje quero ser todo mundo. Sei não, anda sumido todo mundo, precisa de quando em vez aparecer e dar o ar da graça. Areja, todo mundo não é romântico, fantasia pouco, tem os pés no chão.

O baiano (soteropolitano) Acelino “Popó” Freitas foi tetracampeão mundial de boxe em duas categorias. Grande carreira no esporte. A seguir, tentou outro ringue, a política e nele se deu mal. Em 2010, pelo PRB elegeu-se suplente de deputado federal com 60.216 votos ▬ exerceu o mandato. Em 2014, tentou de novo, perdeu a eleição, obteve 23.017 votos. Em 2018, outra derrota, não passou dos 4.884 votos. Tomou do eleitorado um direto no queixo.

Desiludiu-se com a política; hoje afirma: “A população é muito corrupta. Ela consegue ser até mais corrupta que o próprio político. Ela só quer o seu voto se você der uma dentadura, uma cesta básica, um material de construção, bola, colete. Não tinha dinheiro. Sem dinheiro, você não vai. ‘E aí, vai me dar quanto pra gente conseguir um monte de voto aqui no bairro?’. ‘Não tenho’, eu respondia. ‘Então, tchau. Tem outro aqui fazendo oferta pra gente’”.

Em português sofrível, Popó explica o dia a dia do político normal – e ele era deputado federal, imagine o deputado estadual e o vereador: “A minha chateação é porque eu percebi que ser político é você ser errado. [...] Se eu fizesse tudo errado, ou eu estava preso, ou ganhava a reeleição. [...] Só para Salvador eu mandei quase R$ 7 milhões para Neto de emenda. E com projetos, para academias sociais debaixo de viadutos, construção de quadras. Esse projeto eu destinei alguns projetos para a Rótula do Abacaxi, para todos esses novos viadutos. Eu destinei alguns projetos já com verba, já com tudo 3D para a Secretaria de Esportes. E não saiu. E o estado que mais dá títulos à Bahia é o boxe. Fiz como deputado federal mais de 70 projetos de lei [...] E quando as pessoas vinham para me ajudar... eu dizia: 'Eu faço esse campo e um posto de saúde e em contrapartida eu quero que vocês me apoiem.' Aí o pessoal dizia: 'Não, eu quero que você banque mais de 40 pessoas por mês com mais de R$ 1 mil de salário'. A própria população se torna mais corrupta que o deputado. E aí eu senti na pele o que é ser político, o que é fazer política”.

Exposição um tanto confusa, mas dá para entender. Popó compreensivelmente queria votos como retribuição por ter conseguido o dinheiro para melhorias na Bahia. Precisava deles para continuar na política. Todo mundo sabe, deputado age assim, cabem nos dedos da mão as exceções. Os eleitores exigiam mais. Popó não tinha mais. Perdeu. Resumiu o que todo mundo sabe, sem dinheiro você não vai.

Como sem dinheiro a coisa não vai, uma forma para ir é arrancar da viúva a bufunfa para as campanhas. Dinheiro público, autorizado, tudo legal. Todo mundo deblatera ▬ e com razão ▬ contra as verbas públicas bilionárias jorrando no bolso dos partidos (Fundo Especial de Assistência Financeira aos Partidos Políticos e Fundo Especial de Financiamento de Campanha). São verbas para campanhas de autopromoção, entre outras necessidades prementes, retiradas da construção de postos de saúde e escolas.

Não bastam os dois fundos referidos. Saem outras verbas para campanhas dos cargos em comissão, e aí é preciso não esquecer as rachadinhas. Os titulares dos cargos em comissão, além de ter algumas vezes de rachar o salário com o eleito, muitas vezes são apenas cabos eleitorais. Única função: cabos eleitorais por quatro anos pagos com dinheiro público, milhares Brasil afora. Fabrício Queiroz, do ramo, há pouco foi gravado dizendo: “Tem mais de 500 cargos lá na Câmara, no Senado. Pode indicar para qualquer comissão, alguma coisa, sem vincular a eles em nada, em nada. Vinte continho para a gente caía bem [...] Um salariozinho bom desses aí, cara, para a gente que é pai de família, caía igual a uma uva”.

Sem dinheiro, você não vai, fica parado, constatou o boxeador nocauteado em ringue dominado por profissionais de outro esporte. Tem ainda tem o caixa 2. Todo mundo sabe, muitos doadores não querem aparecer nas listas oficiais, mas aceitam ajudar. “Toma aqui, leva, boa sorte, não quero recibo, assim tá bão, senão você me complica”. E o candidato precisando de dinheiro, leva. É raro o político que não tem o caixa 2.

Muita gente de grande qualificação profissional fica longe da política por causa dos vícios acima apontados. Com isso privam o Brasil das luzes de seus talentos, deixando o campo livre para aventureiros, arrivistas, inescrupulosos e nulidades ▬ nossos legisladores e governantes em geral, com as exceções que a praxe comanda. Cheguei até aqui e lembro: ▬ todo mundo sabe que é assim, todo mundo finge que não sabe que é assim.

Quereria destacar hoje apenas um ponto. Debate-se continuamente reforma política e reforma eleitoral ▬ todo mundo fala nelas. Parte da corrupção no mundo político vem dos custos altíssimos das campanhas eleitorais. É imperioso baixá-los. Os custos da monarquia inglesa são dinheiro de pinga (e lá atraem milhões de turistas) se comparados com os custos das campanhas eleitorais da democracia brasileira, e daqui os turistas fogem espavoridos.

Proponho medida factível para gastar menos dinheiro. O voto facultativo baratearia as campanhas. Melhoraria a qualidade da representação. E nada mais democrático que ele. O voto é direito do eleitor. Quer exercitá-lo, vota. Não quer, fica em casa. Sem penalidades. Nada mais civilizado. Os países mais democráticos e civilizados têm voto facultativo. Temos voto facultativo, entre outros países, nos Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Espanha, Canadá. Voto obrigatório: Bolívia, Honduras, Panamá, República Democrática do Congo, Egito, Tailândia, Líbia. Nossa companhia. Esse atraso é mais um fruto venenoso da Constituição de 1988, está na hora de acabar com tal entulho autoritário, retrocesso que entrava a autêntica representação popular.

Por que os políticos fogem do voto facultativo? Razão principal e simples, poria a nu a farsa da democracia brasileira. O mundo político brasileiro está assentado sobre uma fraude, sua popularidade, decorrente de atávico romantismo, que falseia desde décadas a realidade. As gigantescas votações, creio, cairiam em aproximadamente 80%, ficaria claro que a população vive de costas para o mencionado mundo político. Mas, ao invés do engano, trapaça e turbação, hoje imperantes, como ótimo começo e fundamento da vida pública teríamos verdade, autenticidade e transparência, condições de democracia real e não a contrafação dela que nos empurram goela abaixo. Daí viriam debates mais qualificados, menos demagogia, eleitos com melhores condições para servir ao bem comum. E então o povo padeceria menos da demagogia que hoje o engoda e infelicita. Meu pedido, comecemos por aí, com a introdução do voto facultativo, passo, ainda que modesto, na direção certa. Como todo mundo, contudo, tenho poucas esperanças de ser atendido. Como todo mundo, vou continuar levando cruzado no queixo.

domingo, 27 de outubro de 2019

Foco no sucesso


Foco no sucesso

Péricles Capanema

Você consegue encontrar expressão portuguesa que traduza bem “soft skills”? “Soft”, todo mundo sabe, é mole, macio, suave, jeitoso. A expressão no caso provém da vida profissional, tem relação próxima com personalidade e habilidades para se manter e subir no emprego. No oposto, estão as “hard skills”, competência e conhecimentos técnicos, também necessários para atuar profissionalmente. Se ainda não tem na ponta da língua uma expressão adequada em português, vai pensando nela enquanto apresento alguns dados. Pesquisa divulgada pela inglesa Debrett’s Academy indica que via de regra 85% do sucesso no emprego é devido aos “soft and people skills” e não às destrezas e conhecimentos técnicos próprios a cada área de atividade (as “hard skills”). “Soft skills” são habilidades que faltam no mercado. É usual que as universidades, mesmo as mais conceituadas, embora a seus formandos propiciem conhecimento solido e enorme bagagem técnica, falhem na hora de proporcionarem as chamadas “soft skills” e “people skills”.

E aí a Debrett’s Academy, ligada a editora de grande prestígio e sucesso, informa que foi fundada em 2012 para enfrentar, melhor dizendo, suprir pelo treinamento o déficit nas “soft skills” da maioria dos executivos ou aspirantes a tal. A mencionada organização britânica treina executivos em primeiras impressões, impacto pessoal, falar em público, relações humanas, tutano na negociação, hospitalidade no ambiente de trabalho, etiqueta nos negócios internacionais. Tudo isso cai dentro das “soft skills”.

Na revista norte-americana Forbes, reputada publicação dedicada ao mundo dos negócios, artigo de Jacquelyn Smith trata do tema e enumera qualidades integrantes das “soft skills”. Respigo algumas a seguir. A primeira é a aptidão para se relacionar com outras pessoas, ser persuasivo, ter facilidade na palavra escrita e na oral. E daí apresentar grande capacidade de comunicação. A autora a julga a principal característica das “soft skills” (aliás, para ela “soft skills” e “people skills” são a mesma coisa; vou a partir de agora seguir nessa trilha). Outra característica, paciência com outros, agir sempre com serenidade nos seus meios. Mais uma, saber como e quando mostrar empatia, ter facilidade em se colocar no lugar dos outros quando debulha um assunto ou tenta encontrar uma saída. Capitula ainda, saber ouvir com atenção amável, deixar que as pessoas comecem e terminem a exposição do pensamento. Mais outra, interesse genuíno pelos assuntos levantados por colegas. Qualidade reputada essencial dentro das “soft skills”: saber o que, como, onde e a quem dizer [na linguagem coloquial, não ser gato louco]. Outra, conhecer e utilizar a linguagem dos gestos e posturas. Bons modos, boa educação. “Don de gente”, lembraria um hispano, é parte das “soft skills”.

A academia consegue entregar tais ferramentas? Difícil. Acho que percebo, alguns leitores já têm a resposta na ponta da língua: o local próprio para ensinar tudo isso, e desde a mais tenra infância, é a família. Mais ainda: a família e os ambientes familiares. Acertaram na mosca.

Corta. Aparentemente, vou dar um cavalo-de-pau. O liame será a importância da família no sucesso social e empresarial. Todos têm exemplos domésticos, mais relevantes ou de menor importância para provar como se adquire e quão importante são “soft skills”.

Um exemplo que vale a pena lembrar está na história e na literatura da França. Enquanto lia o artigo me vinha à mente uma família, cujos membros por mais de século e meio tiveram enorme expressão na vida da corte, na sociedade, na França em geral, com ecos na literatura: a família Mortemart-Rochechouart. Hoje, tem até verbete na wikipédia.

Não tinha fortuna grande, tropas, cargos, mas se assinalava nas “soft skills”. Destacava-se pela presença, vivacidade, arte de conversar. Atraía a admiração, influía. Foi lembrada por memorialistas famosos, como o duque de Saint-Simon, escritoras célebres como madame de Sévigné, Marcel Proust em sua obra “À la recherche du temps perdu” criou uma personagem, a duquesa de Guermantes, inspirada nas damas da família Mortemart. Talleyrand, considerado por Napoleão, o “rei da conversa na Europa” e dos maiores diplomatas franceses, em suas memórias, não deixa de notar que foi educado por sua bisavó, que era da família Mortemart. A família chegou a caracterizar um tipo de espírito, o espírito Mortemart, feito de naturalidade, precisão, vivacidade, capacidade de expressão que conjugava força, delicadeza e encanto.

Por que lembro tais fatos? Para destacar com um grande exemplo a importância da educação familiar. Bem-feita, repercute por gerações, influi de forma determinante em todos os aspectos da vida, aqui incluídos governos, finanças, carreira das armas, tanta coisa mais.

Nelson Rodrigues certa vez escreveu: “Subdesenvolvimento não se improvisa; é obra de séculos”. Quando os economistas falam do persistente subdesenvolvimento brasileiro, recomendando com razão mais investimento, maior produtividade, educação da mão-de-obra, melhoria no ambiente de negócios e outras providências, às vezes me recordo do dito provocador de Nelson Rodrigues: “subdesenvolvimento não se improvisa, é obra de séculos”. Difícil sair dele, receitas apressadas escondem muito das correntes que nos atam.

Com deixá-lo para trás? Uma via, embora insuficiente, cultivo maior das “soft skills”. De outro modo, pelo fortalecimento da educação familiar em todas as condições sociais. Supõe sanidade, é difícil tornar realidade a aspiração, mas tê-la em vista é essencial. Dos ambientes familiares nasce tudo de importante na vida das sociedades.

Para acabar, não encontrei tradução boa para “soft skills”. Uma pesca em manual técnico traz: competências transversais. Fraquíssima. Fico sem ela, mas com a noção viva. Importa mais.

Preocupa


Preocupa

Péricles Capanema

Tapar o sol com a peneira não faz meu gênero. “Amicus Plato, sed magis amica veritas”. Faz anos que manifesto preocupação [usei eufemismos, se quiserem, understatements; na verdade, são brados, urros de angústia] com a presença crescente de estatais chinesas na economia do Brasil. Favorecida pelo mutismo generalizado, erva de maldição, não para de se alastrar. No fim da rota, pode demorar anos mais, anos menos, depende da vivacidade popular, teremos nossa soberania reduzida a frangalhos, a independência nacional será palavra oca, vegetaremos sem altivez em estado de virtual protetorado, ainda que cuidadosamente disfarçado.

Expus meu pensamento, recordo, fundamentado e bem matizado, em numerosos artigos, basta ver o blogue (periclescapanema.blogspot.com), lá estão os artigos, o primeiro dos quais de 10.12.2015, intitulado “Desnacionalização suicida”; o último, ainda recente, 13.8.2019, “Advertências inúteis”. Dolentes e reiteradas advertências, inúteis pelo menos em aparência, ao longo de quatro anos, números redondos.

O texto de hoje constará quase tão-só de transcrições do primeiro e do último artigo da série acima referida. Garantia Napoleão, a melhor figura de retórica é a repetição. Vou bisar, acho que já disse e redisse quase tudo o que tinha a divulgar. Foram propaladas realidades óbvias ao alcance de qualquer um, concedo, mas sobre as quais reinava e reina silêncio. Uma coisa não declarei ainda e vou afirmar agora com modéstia e tristeza: chegará o dia, espero que distante, em que os brasileiros amantes do torrão natal chorarão lágrimas de sangue, por causa das atuais displicência e negligência. Mas talvez seja tarde.

No artigo de 10.12.2015, constatava e informava: “Nunca fui nacionalista; vejo com simpatia a presença de empresas estrangeiras entre nós. Mas o caso agora é outro. Em 25 de novembro último, o governo colocou à venda concessões por 30 anos para as usinas de Ilha Solteira. Jupiá, Três Marias, Salto Grande, vinte e nove hidrelétricas no total. Ganharam o leilão CEMIG (estatal), COPEL (estatal), CELG (estatal), CELESC (estatal), ENEL (forte presença do governo italiano) e THREE GORGES (estatal chinesa). A estatal chinesa ficou com 80% da energia e pagou R$13,8 bilhões pela outorga. [...] Com os ativos recém-adquiridos, a CTG [China Three Gorges, a estatal chinesa] atinge capacidade instalada de 6.000 W, tornando-se a segunda maior geradora privada do país”.  Privada? Era o que saía na imprensa; de fato, estatal chinesa.

Continuava eu mais abaixo: “Quem tomou conta de boa parte da geração de energia no Brasil, à vera, foi um país totalitário e imperialista que caminha a passos gigantescos para ser a primeira potência do mundo. Vai chegar lá? Sabe Deus. E que, ponto que ninguém de bom senso nega, usa sem escrúpulos todos os instrumentos de que dispõe para impor seus objetivos. O que aconteceu em 25 de novembro não foi fato isolado, faz parte de política de longo alcance; grande parte do capital chinês investido no Brasil é estatal, controlado pela ditadura comunista. Imagine uma disputa comercial de uma estatal chinesa ─ tributos, mercados, preços, admissão e demissão de empregados, dumping, oligopólios e monopólios, sei lá mais o que ─ com o governo brasileiro. Pelo que estamos acostumados a ver, bastaria a ameaça de retaliação comercial do nosso mais importante parceiro internacional, por exemplo, cortar a importação de ferro ou carnes, perseguir empresas brasileiras instaladas na China, para Brasília piar fino. Falando em pios, a esquerda não solta um pio a respeito desta gritante desnacionalização, que carrega no bojo potencial e gravíssima ingerência externa em assuntos internos. Essa mesma esquerda que esgoelava décadas atrás contra a Light, o chamado polvo canadense, e berrou contra as privatizações do período FHC (entrega de propriedade do povo ao capital estrangeiro), vê agora, silenciosa, o governo, entre outros motivos premido por terríveis problemas de caixa, se lançar às carreiras numa política suicida de desnacionalização. Repito, o episódio das três gargantas que engoliram de uma só vez parte do potencial elétrico do Brasil não é isolado. As estatais chinesas estão ativamente comprando propriedades entre nós nas mais variadas áreas. Na década de 70 foi usual a palavra finlandização. A Finlândia havia perdido mais de 10% de seu território para a Rússia, quase 20% de seu parque industrial e, pelo temor do vizinho ameaçador e poderoso, acertava sempre o passo com Moscou, não importava o que fizessem os tiranos comunistas. Aquele antigo e civilizado país, formalmente soberano, de fato padecia uma forma larvada de protetorado. Queiramos ou não, a mesma situação, ainda que incipiente, ocorre no Brasil. Com a enorme e cada vez maior presença econômica do Estado chinês entre nós, vai chegar o dia em que o país, em numerosos assuntos internos, vai ter diante de si potência mundial imperialista. E, se colocarmos como padrão como trata os governos esquerdistas e comunistas, facilmente imaginaremos a subserviência diante do poderio chinês. Cortando caminho, vilmente protegido pelo mutismo da covardia e da cumplicidade, está em curso entre nós um processo que vai levar à perda efetiva da soberania nacional. No fundo do horizonte, terrível perspectiva, nos espera o protetorado envergonhado, mesmo que cuidadosamente disfarçado.”

Isso dizia eu em dezembro de 2015. Na mesma direção, quatro anos depois, no melancólico “Advertências inúteis” de agosto de 2019 relembrava o óbvio ululante: “Às vezes me sinto inibido em recordar o óbvio ululante. Vamos lá, conto com a benevolência do eventual leitor. A China é país comunista. Seu governo, expansionista, imperialista, ditatorial e totalitário, é exercido por um só partido, o Partido Comunista da China (PCC), marxista, coletivista e ateu. Lá, só como piada se pode falar em democracia e direitos humanos. Na América do Sul um dos dois maiores apoios à ditatura assassina de Maduro, que lota Roraima de refugiados miseráveis, é a China (o outro, a Rússia). Na Ásia, sustenta a tirania da Coreia do Norte (maior apoio dela) e tem dado sinais gritantes de que será implacável na repressão às reivindicações de liberdade da população de Hong Kong. O PCC, que infelicita a China, tem rumo ideológico claro, conduta constante e previsível, conhecida política de Estado. As empresas estatais chinesas agem segundo os interesses do PCC e do governo chinês; promovem com obediência canina a política de ambos. São, em sua esmagadora maioria dirigidas por membros do PCC. É congruente, pois, que o PT, nos governos Lula e Dilma, tenha sido fervoroso partidário de toda forma de aproximação com a China; no caso, em especial, favorecia a compra de ativos brasileiros por estatais chinesas. Até aqui, o óbvio ululante.”

Passo para a atualidade. O presidente Jair Bolsonaro acaba de deixar a China. Ao chegar em Beijing, declarou: “A China é um país capitalista”. Santo Deus! Nem vou comentar. Ao deixar o país, informa o Estadão de 26 de outubro, “Bolsonaro convidou estatais chinesas para participar da oferta de áreas de exploração no pré-sal”, marcado para 6 de novembro próximo. Continua o Presidente: “A China tem interesse em participar. E é bom para todos nós. Nunca seremos 100% afinados [com a China], mas na questão econômica, acredito que estamos bem próximos”. No mesmo contexto da visita, tratou do caso da China Nacionalista, visitada por ele como manifestação de solidariedade quando deputado. Todos sabem, Taiwan está separada do continente por razões ideológicas, meritoriamente não quer se submeter à tirania comunista. O presidente brasileiro elogiou a posição do embaixador chinês no Brasil, relativa à soberania: “China única e Brasil único”. “Quando passei por Taiwan, era apenas um parlamentar de passagem, não foi visita oficial” Era necessária a bofetada gratuita na resistente Taiwan, isolada e fraca na defesa de seus interesses legítimos, credora de justos elogios?

Adiante. Empavonou-se Bento Albuquerque, ministro de Minas e Energia, que esteve agora na China: “A China tem sido importante parceiro e investidor no setor de mineração e de energia no Brasil [calou que parceiros e investidores são as estatais chinesas]” E continuou: “No setor de mineração, há empresas chinesas fazendo investimentos no Brasil, principalmente na área de fosfato e nióbio e também de petróleo e gás. Acreditamos que agora, com a abertura do mercado de gás, a China terá uma importante participação, principalmente na infraestrutura deste importante setor para a reindustrialização do país.” [China e empresas chinesas são aqui eufemismo para estatais chinesas].

Faço um desafio, mostrem-me documento do PT, um só, que censure a aplicação de capital no Brasil por estatais chinesas, prática agora estimulada pelo atual governo. O PT sabe que a presença forte de estatais dirigidas pelo Partido Comunista Chinês na economia brasileira favorece seu objetivo de amarrar o Brasil ao bloco socialista em ascensão.

Uma vez mais, adiante. Transcrevo a seguir recente documento oficial, texto já divulgado em meu último artigo, da lavra do Conselho Empresarial Brasil-China intitulado “China – Direções globais de investimentos 2018”, responsabilidade conjunta do Conselho Empresarial Brasil-China e da Apex. A linguagem é cauta, aveludada, não é escarrapachada como a minha, mas a realidade descrita é a mesma: “Outro ponto que desperta receio é a forte presença das empresas estatais no processo de internacionalização. Nesse sentido, alguns países como os Estados Unidos, Alemanha, França, entre outros têm elevado os padrões de avaliação para a entrada do investimento chinês sob a justificativa de proteção de áreas estratégicas (World Investment Report, 2017)”. Sugestão do documento citado: “O sistema regulatório de concessões deve ser acompanhado para que não se criem monopólios de empresas estatais em áreas de infraestrutura”.

Ainda do meu artigo último a respeito: “Ou seja, Estados Unidos, Alemanha, França entre outros países de importância, temem investimento estatal chinês e querem colocar limites, regulamentar ▬ pôr o sarrafo mais alto. Na linha de grandes potências do mundo ocidental, ecoando a preocupação, o Conselho Empresarial Brasil-China e a APEX alertam para o risco de monopólios chineses estatais em áreas da infraestrutura no Brasil”

Continuava o artigo: “Sei uma coisa, estamos merecendo o título ignóbil de campeões mundiais da imprudência, pois nos despreocupa a soberania nacional, independência e interesses estratégicos, levados a sério nos Estados Unidos, Alemanha, França e em tantos outros países, como afirma o referido relatório”.

Vou terminar. Constato com tristeza e falo como observador que viu com simpatia e até entusiasmo medidas da presente administração. Mas no caso das relações com a China, a realidade diáfana deixa ver, a presente administração está percorrendo a mesma trilha já palmilhada pelo governo FHC, transitada com entusiasmo pelos governos Lula e Dilma, continuada na gestão Temer. Dei a esse artigo o título “Preocupa”. Foi equívoco. A realidade não apenas preocupa; alarma, assusta, apavora. Que Deus nos ajude!

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Dando a costas para são Pio X


Dando as costas para são Pio X

Péricles Capanema

Vou tratar tema relevante, que já não transita nas manchetes. Justifico-me, o assunto tem importância perene, vale mais que notícias palpitantes, tantas vezes irrelevantes e efêmeras. Mais ainda, no Brasil tem atualidade candente, por baixo desde uns quarenta anos, infelizmente para vergonha, desgraça e tristeza dos católicos.

Com efeito, CNBB, CPT, CIMI e entidades afins têm sido pertinazes companheiros de viagem das mais radicais correntes revolucionárias que sem trégua trabalham para arruinar o Brasil. As entidades acima referidas, nascidas no seio da Igreja Católica, de há muito bamboleiam pateticamente atrás das bandeiras de luta do PT, PC do B, MST. Lá na ponta, se tiverem êxito, vão conseguir transformar o país numa Cuba, numa Venezuela, numa Coreia do Norte, paraísos, como todos sabem, dos pobres (e dos quais, por razões desconhecidas, lutam por todos os meios para escapar).

Tem muito de misterioso essa obstinação de amplos, por vezes decisivos, setores eclesiásticos por causas gritantemente ateias e flagelo contínuo para os pobres. Presenciamos décadas de terrificante opção preferencial pela miséria (moral e material). Não espanta, muitos anos atrás, Paulo VI denunciou que a Igreja padecia “misterioso processo de autodemolição” (1968) e que “por alguma fresta, a fumaça de Satanás” (1972) havia penetrado n’Ela.

Vou tratar de tema relevante, disse acima, está no sermão de 12 de outubro último, proferido por dom Orlando Brandes, arcebispo de Aparecida. As palavras do Arcebispo, permitam-me o desabafo, despejadas sobre os ouvintes em cambulhada, são um charivari desconexo. Em nada evocam o padre Antônio Vieira, “o imperador de nossa língua”, na bonita afirmação de Fernando Pessoa, nem ecoam os ditos do inteligente e culto dom Geraldo Penido, cuja mesa frequentei, antecessor seu na sede episcopal.

Recordam contudo, é quase forçoso o paralelo, a confusão mental da ex-presidente Dilma Rousseff quando se metia em improvisos. Aqui vai uma proposta dela, exposta em Nova York, para auditório que a ouvia com horror divertido. “Até agora, até agora, a energia hidroelétrica é a mais barata. Em termos do que ela dura, da sua manutenção e também pelo fato da água ser gratuita. I da genti podê istocá. Cê, o vento podia sê isso também, mas ocê num conseguiu ainda tecnologia pra istocá vento. Então se a contribuição dos outros países, vamos supô que seja, desenvolver uma tecnologia que seja capaz de na eólica istocá, ter uma forma docê istocá, porque o vento ele é diferente em horas do dia, então vamos supô que vente mais à noite, cumé queu faria pra istocá isso. Hoje nós usamos as linhas de transmissão, cê joga de lá pra cá, de lá pra lá, pra podê capturá isso, mais si tivé uma tecnologia desenvolvida nessa área, todos nós nos beneficiaremos, o mundo inteiro”

Transcrevo alguns extratos do sermão do arcebispo de Aparecida para não pensarem que exagero (a íntegra está na rede): “Primeira leitura: órfã, adotada, pobre e principalmente, vivendo fora do seu país, exiliada, e se tornou rainha, esperança para os pobres. [...] Pequenina, eu sou a pequena serva do Senhor, se tornou então rainha do Brasil. [...] . Mãe Aparecida, precisamos sim da vida ecológica, da vida natural, da casa comum, bendito seja o Sínodo da Amazônia, que está pensando na vida daquelas árvores, daqueles rios, daqueles pássaros, mas principalmente daquelas populações. [...] A mãe quer vida intrauterina, porque ela é a Imaculada Concepção.” Chega, né?

Coloco agora o texto que desejo em particular reproduzir e comentar rapidamente: “. A segunda leitura mostrou o dragão. É claro que nas escrituras o dragão é o demônio, é o dragão, é o diabo, é o mal que se organiza no mundo. [...] Temos o dragão do tradicionalismo. A direita é violenta, é injusta, estamos fuzilando o Papa, o Sínodo, o Concílio Vaticano Segundo. Parece que não queremos vida, o Concílio Vaticano segundo, o evangelho, porque ninguém de nós duvida que está é a grande razão do sínodo, do concílio, deste santuário, a não ser a vida, como já falei.” Como se vê, o orador  empilha numa montoeira confusa várias realidades distintas, mas o objetivo fica claro: odeia o tradicionalismo, odeia a direita.

Contrasto o texto perturbador do confuso arcebispo de Aparecida com a clareza apaziguadora de um bispo como ele ▬ são Pio X (1835-1914) ▬ que ascendeu ao Trono de são Pedro e de lá iluminou o mundo com seus ensinamentos e santidade: “De todos os tempos, a Igreja e o Estado, em feliz acordo, suscitaram para isto organizações fecundas; que a Igreja, que jamais traiu a felicidade do povo em alianças comprometedoras, não precisa livrar-se do passado, bastando-lhe retomar, com o auxílio de verdadeiros operários da restauração social, os organismos quebrados pela Revolução, adaptando-os, com o mesmo espírito cristão que os inspirou, ao novo ambiente criado pela evolução material da sociedade contemporânea; porque os verdadeiros amigos do povo não são revolucionários, nem inovadores, mas tradicionalistas”. Constam da “Notre Charge Apostolique“, orientação atemporal para todos os fiéis, em especial para os católicos franceses.

Os revolucionários, adverte o Papa santo, não são amigos do povo, oportuna lembrança para a CNBB. O Papa Sarto não queria ver os bispos traindo a “felicidade do povo em alianças comprometedoras”. A admoestação seguinte contrasta com o que proclamou dom Orlando Brandes: “os verdadeiros amigos do povo não são revolucionários, nem inovadores, mas tradicionalistas”. Contudo, para decepção nossa, parece que dom Orlando deu as costas para são Pio X.

Termino. Tema relevante? Da maior importância. Tivéssemos entre nós vivo o ensinamento do santo Pontífice e, para felicidade do povo, seria inteiramente outra a história do Brasil.