segunda-feira, 22 de março de 2021

Vacina contra maldição brasileira

 

Vacina contra maldição brasileira

 

Péricles Capanema

 

Variante perigosa. O Brasil padece uma espécie de bruxedo (falo abaixo dele) ▬ entre vários, e para quem quer bem ao país, bom conhecê-los. Com efeito, em qualquer âmbito, saber das debilidades constitui prudência indispensável para a ação eficaz. O cardeal Mazarino (1602-1661), grande político, começa seu livro “Breviário dos Políticos” apontando como primeira providência o discernimento das próprias fraquezas ▬ físicas, mentais, morais. Mapeá-las e então neutralizá-las no possível. “Pergunta-te em que ocasiões tens tendência a perder o controle sobre ti mesmo, a deixar-te levar para desvios de linguagem e de conduta”. Vale para o indivíduo, vale para famílias, vale para nações (para o Brasil, naturalmente).

 

Curas na raiz. Falava de uma espécie de maldição, sortilégio potente que está na raiz de persistentes desgraças nossas. Vem de longe, aqui está ele: temos o vezo de escolher mal nossos representantes. E depois, povo, imprensa e academia se dedicam ao esporte nacional de malhar o Judas, no caso, os políticos. Na próxima eleição, comporta-se igual o eleitorado, escolhe mal de novo. Ou piora, para lembrar a lamentação desiludida de Ulysses Guimarães: “Se você acha que o atual Congresso é ruim, espere pelo próximo, vai ser pior”. Inescapável, pelo menos boa parte da culpa respinga no representado que passou descuidado a procuração para o representante errado. Vai mudar? Dá para exorcizar seus efeitos? Difícil. Referida situação permanecerá a menos que mude a postura do público, aconteça o saneamento das raízes para então os galhos crescerem saudáveis e a árvore dar bons frutos. Que venha a maturidade, generalize-se uma educação qualificada, sejam cultivados a honestidade e os hábitos de reflexão. Nada disso será possível sem famílias revigoradas por forte senso religioso. Solução por aí. Quem descura do aperfeiçoamento das famílias, impulsiona o retrocesso social. Hoje, 21 de março, o Estadão traz comentário elucidativo a respeito da mencionada situação. Ouvido pela reportagem, influente deputado federal do PL, partido do Centrão, disse “de São Paulo para baixo, o PL é Bolsonaro, para cima é Lula”. Situações assim, sinais prenunciativos de desgraças futuras, pejadas de descarado oportunismo, ovante primarismo ideológico e deprimente falta de princípios, repetem-se Brasil afora.

 

Critérios de seleção. Trata-se em especial de critérios políticos, mas se refletem em outras áreas. Recordo aqui um político, Francisco Campos (1891-1968), o Chico Ciência, destacada presença no Brasil décadas atrás e cuja figura, por contraste, evidencia o enorme tombo na representação que sofremos ao longo do tempo. Pertencia, é certo, ao Brasil que contava (e quais são os critérios decisivos para contar no Brasil de hoje?). Teria defeitos e virtudes da época, foi homem de posições até hoje combatidas e com bons motivos, mas representou com traços fortes um tipo de personalidade que ascendia à direção do país. Outros homens públicos poderiam igualmente servir de ilustração; aconteceu, contudo, cair sob meus olhos discurso do prócer mineiro.

 

Gente com cabedal relevante e autêntico era chamada ao governo, sufragada, eleita. Oswaldo Aranha foi ainda exemplo. Antes, o barão do Rio Branco; muitos ainda haverá. É um primeiro critério, nascido de bom senso milenar, sobre o qual se pode construir solidamente. É, em suma, a atração para a vida pública dos mais capazes nos espaços da inteligência, elite autêntica com amplas condições de trabalhar pelo bem comum e assim promover a inclusão social com viés de alta ▬ ascensão judiciosa, enérgica e ampla.  Foi outrora em boa medida o caso no Brasil. Quando, pelo contrário, pululam nos postos de mando figuras sem nenhuma qualidade para relevo real, hoje tantas vezes nosso caso, não há governo que preste e possa dar certo. Inexiste até mesmo a possibilidade da consciência objetiva dos problemas mais importantes e urgentes. “O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota”, escreveu Nelson Rodrigues.

 

Exemplo entre muitos. Professor de Direito Constitucional, Chico Campos foi deputado estadual, deputado federal, secretário, ministro. Logo depois da Revolução de 1930, no governo provisório, ocupou a pasta da Educação entre 1930 e 1932 ▬ o primeiro ministro da Educação do Brasil. Nesta condição, recebeu convite para paraninfar turma da Faculdade de Ciências Econômicas em Salvador. Falou longamente sobre administração e economia, era o prato de resistência, mas antes apresentou, e era simples discurso de paraninfo, rápida visão de conjunto sobre características da Bahia e sua inserção no Brasil. Aqui temos perfume civilizador que se dispersou, fruto de ambiente que continha princípios ativos de aperfeiçoamento. Sumiu por inteiro dos rarefeitos ares oficiais e de outros ares a cortesia superior, constatada a seguir, esteada na observação luminosa do real ▬ impulso de progresso benéfico. Vinha de Minas o ministro e encontrava na Bahia “a mesma simplicidade, o mesmo acolhimento, a mesma doçura, amenidade e gentileza de maneiras”. Percebia, contudo, uma nota diferente: “a graça e o sabor”. Os frutos “são na Bahia mais doces, mais saborosos e mais belos”.

 

Prossegue: “Aqui raiou a madrugada do Brasil. No berço da Bahia embalou-se a sua infância”. Amplia: “Os brasileiros revemos na Bahia o Brasil, os seus traços característicos e significativos, aqueles que as mãos e o espírito baianos imprimiram no Brasil, os traços que nos definem como nação, as linhas da inteligência e do caráter”. Caminha para o fim da abertura: “Nessa terra de bênçãos e de paz”, de “gênio pacífico”, ele via “as tradicionais virtudes de sobriedade, de reflexão e de firmeza”, “ancoradas nesse misterioso e insondável subsolo da alma baiana”. E a conclui: “Aqui, nessa luminosa Bahia, é onde se sente, em toda a amplitude de sua onda, a vibração da alma brasileira, no ritmo da língua, no compasso da música, na expressão dos sentimentos cívicos, de maneira a se poder dizer que a Bahia é o padrão do Brasil”. Realçou: “Nela se encontram, nas suas formas típicas, as categorias espirituais, por cujo intermédio se exprimem e se traduzem inteligência e coração do Brasil”.

 

Algum dos leitores leu ou ouviu algum dia texto ou discurso de político atual que se aproxime dessa introdução de Francisco Campos em simples discurso de paraninfo? Falava em perfume civilizatório; é mais, é impulso civilizatório; vidas de pensamento com tônus desse naipe não só aperfeiçoam personalidades; levam, em ondas cada vez mais extensas, ao aproveitamento das qualidades e oportunidades jacentes na população. Sua perda, evaporação trágica, dentro do desapreço amazônico, representou no Brasil retrocesso intelectual e baixa na educação social.

 

Desorientação. “Quos Jupiter vult perdere dementat prius” ▬ Júpiter enlouquece primeiro os que deseja perder. Um país que tem dirigentes com o gosto do escangalho, arrogantemente toscos, useiros e vezeiros de expressões chulas, mesmos nos mais solenes ambientes, está virtualmente enlouquecido por Júpiter, pisa estrada que desemboca em abismo.

 

Estrada abandonada. Coetâneo de Francisco Campos na vida pública foi Gilberto Amado (1887-1969), também escol da inteligência nacional. Ele coloca como condição fundamental da democracia representativa, axioma, a escolha dos melhores. Só assim o governo pode agir com energia na busca do bem comum. Leciona o político sergipano: “É um axioma de ciência política, verdadeiro em todos os regimes — no regime democrático como nos demais — que a sociedade deve ser dirigida pelos mais avisados (sages), pelos mais inteligentes, pelos mais capazes, pelos melhores, em uma palavra pela elite”. Estuda então os meios para que tal elite “possa aceder à direção da sociedade”. Não é o caso de deles tratar aqui, iria muito longe.

 

O deslumbramento beócio por concepções falseadas de democracia, contrafações tóxicas do conceito, na prática cadinho contínuo para toda sorte de contubérnios demolidores, nos fez retroagir. Um avanço, começo, seria noções mais claras do problema: conceitos e realidades na vida social. Já estivemos a respeito em situação bem melhor, nos anos do Império e em épocas do período republicano. Em rápidas pinceladas um exemplo vai acima. Foi minha intenção, no presente texto, pôr um grãozinho em tal esforço. Fim.

quinta-feira, 18 de março de 2021

O crime do esquecimento

 

O crime do esquecimento

 

Péricles Capanema

 

Vacina eficiente. Lula voltou ao proscênio da cena política, prepara sua volta em 2022 como candidato com chances de vitória. Ponto vivo da estratégia, o demiurgo petista conta com o esquecimento popular. Sabe, a memória boa é a mais eficaz vacina contra a reinfecção petista.

 

Coligação forte à vista. Tudo o indica, o morubixaba petista busca pôr em pé coligação forte para 2022; para isso certamente irá migrar rumo ao centro e escolher vice tranquilizador ▬ como o fez com êxito ao pinçar milionário, líder empresarial e político de centro para as eleições de 2002. São suas armas para reconquistar o Planalto. Como molhar a pólvora? Nenhuma amnésia. No caso, a memória boa será a salvação do Brasil.

 

Desgaste da reação antipetista. Lula conta ainda com o desgaste das desorganizadas forças direitistas e conservadoras que surgiram e surraram eleitoralmente o PT em 2018, tendo como principal combustível os avassaladores sentimentos antipetista e anticorrupção, gerados pelo horror dos desgovernos da “cumpanherada”. Por isso, em particular, o esquecimento dos desgovernos é primordial na estratégia petista.

 

Tais sentimentos perpassavam então de alto a baixo a sociedade, horrorizada com o inescrupuloso assalto ao poder pela tigrada insaciável. Debilidade a ter em vista, noto só de passagem, sentimentos e emoções costumam ser efêmeros. Cuidado com eles, precisam ser cultivados, alimentados e enraizados; permanentes são os princípios e hábitos entranhados. E é congruente, já está em curso intensa campanha de desmoralização das forças conservadoras e direitistas que emprega como munição motivações reais, inventadas ou aumentadas, pouco importa aqui. Vale tudo.

 

Por tudo isso, retomo e reitero, em 2022 a memória do passivo petista será fundamental. Décadas atrás foi muito popular lema em São Paulo, relativo à Revolução de 1932. Vale a recordação: “São Paulo não esquece, não transige, não perdoa”. Agora realço uma das três posturas, não esquecer, a primeira e mais fundamental delas. O perigo será esquecer. Com o olvido, a transigência e o perdão ficam dispensáveis; de fato, nem entram em linha de conta.

 

Anão diplomático. Vou lembrar alguns, só alguns, infindo é o rol dos pesadelos pelos quais passamos entre 2002 a 2016 ▬ e a lista voltará aumentada e agravada se o petismo triunfar em 2022. Hostilizar os Estados Unidos e a Europa, na prática, foi política de Estado. Sob o mesmo bafo e em direção contrário bajular e favorecer China, Rússia, Cuba, Venezuela, Irã, Síria e estados em situação semelhante. Claro, também a Argentina de Nestor e Cristina Kirchner. O petismo triunfante tentou criar uma aliança destrutiva da qual participavam países onde campeava a ditadura, o terrorismo e a corrupção para opô-los ao mundo desenvolvido. Era uma versão tóxica da rivalidade Norte-Sul. Ídolos da diplomacia brasileira foram Fidel Castro, Hugo Chávez, Evo Morales. Do sanguinário ditador cubano, Lula afirmou que foi “o maior de todos os latino-americanos” A disputa do governo brasileiro com Israel chegou ao ponto de o porta-voz do Estado judeu, em 2014, ter qualificado o Brasil de “anão diplomático”.

 

Modelos a imitar, Cuba e Venezuela. Na política interna, a união com partidos políticos complacentes (para dizer o mínimo) levou por anos à roubalheira solta ▬ mensalão e petrolão, e ainda não tivemos o destape do eletrolão ▬, pilharam em especial estatais, o maior assalto aos cofres públicos de que o mundo tem notícia. E à continuação da escandalosa política de promoção da reforma agrária, que empobrece o campo há décadas. Sofremos ainda no fim do governo Dilma, a paralisia econômica, a inflação em alta, o empobrecimento generalizado e a recessão. E suportamos a teimosia do PT em continuar no mesmo rumo, o abismo. Sem falar na parcialidade gritante da assim chamada Comissão da Verdade, em que pululavam favorecimentos para alguns da patota, bem como perseguições claras ou veladas aos opositores. Um autêntico ensaio dos tribunais populares, de sinistra memória nas ditaduras comunistas. No horizonte escuro, o fantasma aterrador de o Brasil virar uma nova Cuba ou uma nova Venezuela. Outra vantagem da memória boa, dificulta idealizações acarameladas dos desgovernos petistas.

 

Todas as agendas de ideologia do gênero, promoção do aborto, “normalização” social e institucional da “família”, sob as mais absurdas formas, receberão impulso novo, o que não impedirá à CNBB, CPT e entidades congêneres de darem apoio a tais governos, que trabalharão efetivamente para eliminar restos ainda vivos da evangelização em solo brasileiro.

 

As CEBs fundaram o PT. Convém reproduzir diálogo entre o ex-frei Leonardo Boff e Lula ▬ está na rede. Temos ali a responsabilização da esquerda católica pelos padecimentos populares de 2002 a 2016, o Brasil atolado no pântano do atraso. Diz o antigo franciscano: “As CEBs, as comunidades eclesiais de base, que eu acompanhei tantas, não entraram no PT, elas fundaram as células do PT, isso é muito mais que entrar num partido, é fundar um partido”. O líder do PT comenta: “O PT não existiria do jeito que ele existe, se não fossem as comunidades eclesiais de base, se não fosse a Teologia da Libertação, eu sei o que é o valor de um padre progressista numa cidade pequena.”

 

De outro modo, segundo os dois corifeus da extrema esquerda, as comunidades eclesiais de base formaram o caldo de cultura indispensável para fazer germinar no Brasil partido que trouxe no bojo, o retrocesso, a intolerância, o desenho de uma sociedade socialista, com atrofia enorme das possibilidades de realização pessoal. E cuja implantação invariavelmente acarretou exclusões brutais, sufocamento da liberdade, fuga dos pobres apavorados com a generalização da miséria, uma forma de inferno na terra.

 

O esquecimento, causa de tragédias. Dou um cavalo de pau e recorro a exemplo imaginário ▬ já aconteceu coisa assim. Um pai estaciona o carro na rua, dia de muito calor, deixa os vidros fechados, o filho pequeno fica no banco. O pai vai cuidar da vida, faz negócios, demora, esquece que o filho está trancado. Quando volta, desespero, a criança está morta por insolação e asfixia. Não quis o fato, não agiu para que acontecesse. Foi culpado? Sim, pela lei e jurisprudência. Negligenciou atenção que deveria dar à situação em que era garantidor. Situações desse tipo configuram os chamados crimes de olvido ou de esquecimento. Reza o artigo 13 do Código Penal: “O resultado, de que depende a existência do crime, somente é imputável a quem lhe deu causa. Considera-se a causa a ação ou omissão sem a qual o resultado não teria ocorrido”. E está no § 2º do mesmo artigo: “A omissão é penalmente relevante quando o omitente devia e podia agir para evitar o resultado. O dever de agir incumbe a quem: a) tenha por lei obrigação de cuidado, proteção ou vigilância”.

 

Crimes de esquecimento. Por que fui tão longe e dei o cavalo de pau no texto? Para lembrar um ponto, mesmo de forma inconsciente, até desejando o contrário, o esquecimento não raras vezes leva a tragédias e até ao crime. A criança do exemplo pode no futuro lembrar o Brasil. O pai, qualquer um de nós, se negligentes; faltaríamos no caso ao dever de cuidado.


terça-feira, 2 de março de 2021

Olhares que enxergam longe

 

Olhares que enxergam longe

 

Péricles Capanema

 

Bênçãos desprezadas. São uma bênção, para si e para os próximos, os olhares que divisam o remoto na neblina do futuro. Desvelam a via e assim preparam os caminhantes contra adversidades. Contudo, é a realidade, em geral, são menosprezados. Pois cansam, podem parecer falta de senso prático. Espiar dez, vinte anos à frente? Para quê? A percepção voltada ao imediato, pelo contrário, distrai, às vezes reflete senso do real. Como não se fatigar da vista fixada longamente no horizonte, e então procurar o necessário repouso nas coisas próximas? O remanso também é necessário. Pode restaurar forças, pode dispersar. O gracioso é nutrimento da vigilância varonil; o vulgar é seu tóxico. Quem se enchafurda no vulgar, criará anticorpos recusará espiar o horizonte carregado.

 

Advertência histórica. Com a competência a ele própria, o prof. Roberto de Mattei escreveu erudito e esclarecedor artigo sobre o conde Joseph de Maistre (1753-1821), dos maiores pensadores contrarrevolucionários do século XIX ▬ está na rede o trabalho. Não pretendo aqui glosar aspectos levantados pelo mencionado estudo. De fato, tudo no texto me chamou a atenção, mas quero destacar ponto crucial, em geral subestimado, vale para todas as épocas.

 

Joseph de Maistre foi enviado em 1802 pelo rei da Sardenha, Vitor Emanuel I, como embaixador junto ao czar Alexandre I. Na Rússia viveu 14 anos, deixou-a em 27 de março de 1817, lá concebeu boa parte de sua grande obra intelectual. Consciencioso, além de avançar nas tarefas de pensador, enviava informações pormenorizadas e análises agudas a seu soberano, que entretanto, misérias da vida, irritava-se com elas. Não pelo conteúdo que certamente reconhecia denso, mas pelo esforço intelectual que dele solicitava. Grandes demais, graves demais, profundas demais; não lhe caíam bem, queria coisa mais leve, tangível, vida mansa, enfim. Aristocrata da alta nobreza, família real antiga, aparentava-se em espírito com o Jeca da conhecida canção:”Êh vida marcada, num dianta fazê nada, e pruquê si esforçá, se não paga a pena trabaiá”. E aí, fugindo do esforço, seus frutos seriam também os que amealhava o desidioso Jeca: “De manhã cedo eu óio pra rocinha; Pra ver se as veiz nasceu quarqué coisinha; Mas qual o quê, num nasceu nada não; Prantando nasce, mas num pranto não”

 

O amigo angustiado. Certamente, de todos os embaixadores da Sardenha, era o mais amigo do rei; aquele que não pretendia distrai-lo, mas se esforçava em contribuir para sua formação e governo. Que enxergasse longe, avistasse através da bruma as sombras ameaçadoras do porvir. Enfim, era quem cujos conselhos poderia salvar o trono, manter a honra da dinastia, evitar desvios nos quais se meteu. Poderia ainda influir de forma favorável no Congresso de Viena. Vitor Emanuel I não o escolheu, todavia, como representante.

 

Transcrevo parte do artigo: “A observação de Alphonse de Lamartine, segundo a qual ‘teria sido impossível encontrar o conde Joseph de Maistre sem imaginar que se estava a passar diante de algo grande’, entende-se bem folheando os despachos que o representante do Rei da Sardenha na corte dos Czares enviou a seu soberano (cf. Joseph de Maistre, Napoleone, la Russia, l’Europa, Donzelli, Roma 1994). Pelos despachos de Petersburgo, acompanhamos, passo a passo, o avanço de Napoleão, num jogo em que ‘está em aposta o mundo’. Mais que despachos, trata-se de amplos relatórios, ricos em observações eruditas e profundos aforismos, não compreendidos por Vítor Emanuel I, honesto mas de medíocre inteligência, que, por meio do seu primeiro escudeiro, fez chegar esta mensagem a seu ministro em Petersburgo: ‘Pelo amor de Deus, diga ao conde de Maistre para escrever despachos e não dissertações!’” Amolação.

 

Da Sardenha para o Brasil. Agripino Grieco (1888-1973), crítico ferino, mas certeiro; certa vez observou: “O pior dos erros é acertar sozinho contra muita gente”. Tem razão, divisar o ruim que irromperá a bem dizer necessariamente, destrói amizades, possibilidades de carreira e de convívio. E é sina corriqueira de quem tem o que às vezes foi chamado de olhar de lince; e, impulsionado pela lógica, não foge das conclusões, mesmo das mais duras.

 

Por que comento tudo isso? Não parece distante? Não é. Em retrospectiva. A Casa de Savoia teve percurso conturbado, em especial no século XIX, liderou o movimento de unificação da Itália, colocou-se contra os Papas. Manchou-se, com a invasão de Roma o rei foi excomungado por Pio IX, situação que se manteve por sessenta anos. Acabou despojada de todos os seus domínios. É conjeturável, outra teria sido sua história, da Itália e até mesmo da Europa, se Vitor Emanuel I tivesse dado ouvidos aos despachos que recebeu de Joseph de Maistre, utilizasse-os para formação do espírito e valioso subsídio político. Constituiu fato aparentemente pequeno e desimportante (não era), despercebido por quase todos, mas exigia esforço e ajuste de vistas. O soberano preferiu a maciota, apoiar-se molemente em opiniões cômodas, a tragédia engoliu seus descendentes. Em prospectiva. Brasileiros de espírito objetivo estão advertindo sobre a gravíssima situação do país, sobre necessidade de medidas duras; enfim, sobre ser imperativa a seriedade na percepção dos horizontes. Em resumo, fuga da mentira, da conduta cafajeste, da inconsequência e da irresponsabilidade. O preço a ser pago será alto, se a superficialidade agora impedir rumo certo. As advertências poderão cair no vácuo. Mas ainda há tempo, não repitamos Vitor Emanuel I. E tantos outros. Mais proximamente, escapemos de hábito generalizado em Pindorama: “Se o sór tá quente a gente arruma a rede; Garra a viola presa na parede; Acende o pito, cospe e passa o pé; E deixa a vida como Deus quisé”. Deus não quer.

 

segunda-feira, 1 de março de 2021

Obsessões genocidas

 

Obsessões genocidas

 

Péricles Capanema

 

O artigo poderia ter outro título: obsessões homicidas. De quem? Nossas, infelizmente temos obsessões homicidas. Fácil apontá-las, curá-las é tarefa hercúlea. Estamos enterrados em gravíssima crise sanitária, cresce o número de mortes em decorrência da disseminação do COVID-19 e de suas variantes. Governos, mundo afora, para evitar contágio, fecharam suas portas a viajantes provenientes do Brasil ▬ viramos um leprosário para eles. Não há como fugir da comparação, temos semelhanças com os leprosos de épocas passadas, os povos nos evitam e nos isolam na tentativa de impedir a disseminação da enfermidade mortífera. O toque de recolher, o lockdown (fecha tudo), as restrições à circulação estão na ordem do dia. O perigo é nos transformarmos, culpa nossa, em leprosário de enfatuados obsedados. Mais disso abaixo.

 

É urgente escapar da enrascada. Mas como sair dela? Cortando as raízes do problema. Existe um consenso, a bem dizer geral, quase unanimidade, aqui vai: com a maior velocidade possível, generalizar a aplicação das vacinas. População vacinada significa vidas salvas e reabertura da economia. Sob certo ângulo, vida e prosperidade contra morte e penúria. Em resumo, o programa básico de salvação nacional se enuncia de forma simples, bastaria comprar muitas vacinas autorizadas pela ANVISA e aplicá-las.

 

Fomos lerdos, hoje temos só o Butantan (governo do Estado de São Paulo) e Fiocruz (governo federal), na linha de frente. Ótimo, ainda bem, pelo menos duas instituições respeitadas fornecem, ainda que menos do que seriam necessárias, as vacinas. Ambas trabalham com insumos provenientes da China, o que nos sujeita de certo modo ao governo chinês. Não é a hora de realçar que, além dos acordos com a AstraZeneca, certamente poderiam ter sido firmados acordos com empresas ocidentais, com sede nos Estados Unidos ou na Europa. Foi o que fizeram países europeus, asiáticos e latino-americanos.

 

Um deles, o Chile, serve de exemplo. Graças em parte ao faro empresarial do seu presidente, em fins de junho já terá vacinado toda a população. “El País” ainda destaca a “a musculatura comercial de uma das economias mais abertas do mundo”. O país firmou acordos com Pfizer, Sinovac, Johnson & Johnson, AstraZeneca. Quanto a nós, no ritmo atual, oxalá se acelere, por ora aplicação de 250 mil doses por dia, vamos precisar para lá de dois anos para vacinar toda a população. México, Colômbia, Peru, Uruguai e Paraguai já pediram ajuda às autoridades chilenas. Um bom exemplo para o Brasil, pedir ajuda também, foi enormemente mais competente que nós, valeria a pena entrar na fila, ainda que no último lugar. Receio que o bom exemplo, humildade construtiva, seja inútil. Nossas obsessões cegam, impedem até soluções simples, apontam outro rumo, intervenção, estatismo, controle burocrático. O povo paga a conta, mas que importa? Caminhamos nesse passo rumo ao paraíso venezuelano ou cubano. Um dia chegaremos lá, é só ter paciência.

 

Diante da gravidade do quadro presente, insuficiência clara da ação federal (eufemismo), o normal seria a complementação com a conjunção de esforços de todos os que tenham possibilidade de ajudar. Um exemplo de tal suplementação está em curso, pode dar bons resultados, é a cooperação de governadores para comprar vacinas. Depois, se possível, espetarão a conta no Executivo federal. Foi o que pontuou há pouco Renato Casagrande (PSB-ES), expressando, informalmente, opinião de todos. Dezoito deles (27 no total, os ausentes manifestaram apoio à iniciativa) foram a Brasília na 3ª feira, 2 de fevereiro, para falar com autoridades, com laboratórios e tentar destravar o caso, fazendo jorrar o mais rápido possível cachoeiras de vacinas no país inteiro.

 

Aqui começam os sintomas do que acima qualifiquei de obsessão homicida. Declarou o governador do Espírito Santo: “Não haverá a formalização de um consórcio. Nossa ideia é comprar cotas proporcionais à população de cada Estado. Nenhum Estado comprará mais do que o equivalente ao percentual de sua população”.

 

À primeira vista, tem ares de política equitativa, compassiva, serena, sensata. Um bom começo, à vera, desde que seguida por medidas arejadas. iniciativas mais amplas. Conservando-se na primeira estação, será apenas desnecessário e tosco engessamento.

 

Com efeito, existindo Estados mais ricos e com folga de caixa, por que não buscar vantagens para todos, privilegiando os com maior liberdade e capacidade de ação? De outro modo, pôr em execução medidas esteadas em acordo amplo, que não prejudiquem a nenhum participante. Em resumo, deixar que os mais providos de recursos resolvam mais rápido seu caso. E assim, comprariam mais vacinas, atenderiam logo às populações, tirariam peso das costas do SUS, até poderiam ajudar a outros entes mais pobres. Suas economias se abririam mais cedo, acarretando reflexos positivos no País inteiro. Seráp ossível esse caminho, ou haverá sabotagem nos três níveis de poder, com inevitáveis sequelas de inércia econômica e atraso no combate à pandemia? Nossas obsessões avassalam-nos tanto que acho pouco provável.

 

Tem pior. O consórcio dos governadores, nas palavras do dirigente capixaba, propõe a ajuda empresarial de maneira “sui generis”: “Vemos, por exemplo o movimento Vacina para Todos, esforço que a Luíza Trajano está fazendo. Está tentando articular a participação dos empresários junto ao ministério da Saúde e os Estados. Acho que todo mundo tem de comprar para entregar ao plano nacional. Há empresários dispostos a comprar. Comprar e entregar para o ministério da Saúde. Defendo que as empresas que se dispuserem a adquirir vacinas repassem 100% das doses para o ministério da Saúde. Não é correto permitir que quem tem dinheiro se vacine primeiro”.

 

Você entendeu direito, leitor. A empresa compra, embala e depois entrega tudo para o governo. Não fica nem com unzinha vacina. É louvável, não resta dúvida. Estimula a vacinação? Óbvio ululante, não. Se a vedação doidivanas não enterrar de vez a iniciativa, pelo menos a inibirá de alto a baixo, atrasará horrores a solução do problema urgente. Teremos aqui exemplo inolvidável de opção preferencial pelo retrocesso. Prejuízo para a economia, aumento do número de mortes, desemprego maior, tudo com base em um só e mambembe argumento: “não é correto permitir que quem tem dinheiro se vacine primeiro”

 

Contudo, o digno governador capixaba não está só, seria querer demais. Enuncia opinião generalizada, compartilhada por espíritos suposta e ufanamente equânimes. São multidão. O normal, em país sem obsessões e xodós, diante da gravidade da crise, seria, vamos combinar, dentro de plano coordenado pelos poderes públicos, esporear as empresas a comprar vacinas para funcionários e familiares ▬ que doassem parte do lote para o SUS, ótimo. Haveria enorme e generalizado estímulo, benéfico a todos, traria significativo alívio para os cofres públicos, de momento exauridos.

 

Todavia, infortúnio antigo, vivemos em país (organismo doente), tem tumores de estimação já deitando metástases há décadas. Um deles é a idolatria do estatismo, a crendice tola e demolidora de que o intervencionismo em suas várias gradações, de regra boçal, sempre será benéfico. Na prática, retrocesso, atraso e ladroagem; o estatismo (e seu irmão, o intervencionismo) asfixia liberdades, gera pobreza, sufoca criatividade, atrofia personalidades. Tais obsessões enraizadas, pavoneadas tantas vezes com petulância, “à la longue”, matam mais que muitos vírus que ora nos agridem.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

A fuga da solução

 

A fuga da solução

 

Péricles Capanema

 

Andrés Manuel López Obrador (AMLO), presidente do México, populista de esquerda, entre outros horrores, favorece o castrismo e é leniente com o chavismo. Até por atavismo estimula movimentos revolucionários. Como numerosos dirigentes de mesma orientação, privilegia na área econômica políticas regressivas, ou seja, intervencionistas e estatistas. E assim permanece hoje plantado no atraso. Por exemplo, a PEMEX mexicana, estatal foco de roubalheira e desperdício, não muito diferente de nossa PETROBRAS, pode estar tranquila durante seu mandato de seis anos.

 

AMLO tem problema sério para resolver, vacinar com urgência a população do país contra a COVID-19. Se fracassar, além de causar mortes perfeitamente evitáveis e agravar o fechamento econômico, sua popularidade se arrastará pelo chão. Isso, não quer o experimentado político. O problema, aliás, não é apenas dele, constitui preocupação que vagueia pela cabeça de todo governante em nossos dias.

 

Para vacinar, AMLO usa com força total os recursos do Estado. Em fins de março, é o plano do governo, haverá 15 milhões de vacinados no país ▬ população de aproximadamente 130 milhões. De outro modo, mais de 21 milhões de doses aplicadas, soma de quatro fontes, Pfizer-BioNTech, CanSinoBIO, AstraZeneca e Sputinik.

 

No Brasil, fins de março, população de aproximadamente 210 milhões, segundo planos oficiais, teremos 9 milhões de vacinados. Oxalá. Como se vê, e todos sabem, nossa situação não é nada boa, dito de forma eufêmica. Por que faço o contraste? Por angústia, chamo a atenção para a urgência e relevância da situação e assim, clara como água de pote, fica posta a necessidade de arregimentar toda ajuda de que possamos dispor.

 

Volto ao México. Por coerência com seu passado, AMLO afastará a contribuição da iniciativa privada na resolução da questão. Irá pelo estatismo e intervencionismo. Certo? Errado. Redondamente errado.

 

AMLO, embora certamente não o confesse, conhece por experiência própria a agilidade paquidérmica do setor público, a habitual falta de rumos, as usuais negligência e incompetência. Conhece ainda a corrupção, a roubalheira e os favorecimentos escandalosos. Temerá seus efeitos, pouca vacinação, lentidão, economia parada, mortes em subida, raiva do público. Sua popularidade irá por água abaixo.

 

O que fez AMLO? Afirmou sem rebuços, favorecerá a presença do setor privado na solução do caso espinhoso. Um esquerdista de décadas, digo eu, agredido pela realidade e que navega no caso em mares menos encapelados que os nossos, convida, como outros governos, a iniciativa privada para participar da solução do problema. Informa a Associated Press, despacho de 28 de dezembro último, o presidente mexicano quer a ajuda do setor privado para resolver a questão. “Não nos opomos à comercialização da vacina, a que empresas privadas importem o produto e o vendam a quem possa pagar”. Para tal, ele coloca certas condições que não vem ao caso aqui relatar. E não trata, pelo menos não está no despacho da AP, do caso de empresas importarem o produto, não para vendê-lo, mas para vacinar funcionários e familiares seus, além de doar parte dele para utilização na rede pública, como aqui e ali, foi ventilado por empresários na imprensa brasileira.

 

É mais que justificável, é mesmo necessário e louvável, a distribuição das vacinas ampla e gratuita, privilegiando os mais necessitados, pelo Poder Público. Quanto mais, melhor. O que é absurdo é inibir o setor privado ─ de fato, barrar seus passos ─ a agir na mesma direção, ou seja, contribuir para vacinar logo toda a população. E, com isso, além de expandir a vacinação, diminui o peso no ombro do setor estatal.

 

Por que não acontece? Embora de início autoridades federais tenham levantado a possibilidade de chamar o setor privado para ajudar a resolver a situação, houve retrocesso. Na reunião do Conselho Superior Diálogo pelo Brasil, realizada na FIESP, 13 de janeiro, foi comunicada aos empresários a proibição governamental de os empresários comprarem vacinas para imunizar funcionários. Na ocasião declarou Paulo Skaf, presidente da FIESP: “Uma empresa que tenha 100 mil funcionários, se ela quiser ir ao mercado, comprar uma vacina e vacinar seus funcionários, isso não pode. A campanha de vacinação será orientada pelo governo, pelo Ministério da Saúde, que vai adquirir as vacinas que estiverem aprovadas pela Anvisa e distribuir aos Estados. Então essa possibilidade foi negada”.

 

Perguntei, por que não acontece o chamamento à iniciativa privada? Venho solicitando a atenção ao longo dos anos e em numerosas ocasiões para aspecto verdadeiramente pavoroso de nossa realidade: temos entranhados tumores de estimação, cuidamos deles. Nosso xodó por eles é amazônico. O estatismo é um deles. A reforma agrária, outro. Tem mais.

 

É vital para o Brasil se livrar dessa infecção, causadora de retrocessos sem fim. Enfraquece, estiola, atrofia, debilita, exaure, prostra, depaupera, enlameia o organismo socioeconômico do Brasil. Por fim, as metástases, se não eliminadas, irão matá-lo, como matam todas as sociedades sufocadas pelo coletivismo. Em resumo, de momento tal infecção, que corrói a aplicação do princípio de subsidiariedade entre nós, corta a possibilidade de o Brasil tomar o lugar natural que lhe reservam suas potencialidades.

 

Calo-me e deixo a palavra a palavra para empresário de valor que sentiu na carne a infecção letal dos tumores de estimação. Salim Mattar foi para o governo com intenção de ajudar, saiu quando percebeu a virtual inutilidade de sua presença. Coloco a seguir algumas constatações do corajoso líder empresarial: “Os liberais que vieram para o governo cabem num micro-ônibus e são vistos como pessoas sonhadoras”. E, à vera, são os de espírito objetivo, que buscam evitar as destruições causadas pelo tumor do estatismo, utopia letal.

 

Observa Salim Mattar sobre estatais, sorvedouro de recursos públicos que poderiam ser utilizados para melhorar a vida dos pobres: “Nós poderemos fechar todas as empresas que são deficitárias. Nós temos 18 empresas, hoje, que dependem do orçamento público para sobreviver. O orçamento para 2020 foi de R$ 20 bilhões de reais. Estamos tirando isso do bolso dos cidadãos pagadores de impostos e colocando em 18 empresas que dão prejuízo”.

 

Prossigo, agora ecoando o sofrimento, a perplexidade e a angústia de milhões, inconformados com a lerda vacinação no Brasil. Uma das formas de acelerá-la, talvez mesmo de resolvê-la rápida e definitivamente, seria, de forma sensata e ágil, por meio de legislação adequada, buscar a mais ampla e efetiva colaboração da iniciativa privada. Por que paira sobre nós, como nuvem tóxica, a determinação de evitá-la? Ou, de outro modo, uma vez mais, tumores de estimação impedirão a saúde? Não fujamos do problema, evitá-lo é política suicida.

 

domingo, 27 de dezembro de 2020

Exclusão e empobrecimento

 

Exclusão e empobrecimento

 

Péricles Capanema

 

Dias atrás, 21 de dezembro, o Papa Francisco em mensagem de Natal para a Cúria Romana repentinamente desfechou: “E recordo o que dizia aquele santo bispo brasileiro: ‘Quando me ocupo dos pobres, dizem de mim que sou um santo; mas, quando me pergunto e lhes pergunto: ‘Por que tanta pobreza?”, chamam-me ‘comunista’”.

 

Também vou recordar, apontando evidências. O “santo bispo brasileiro” a quem ele se refere é dom Hélder Câmara (1909–1999). E a frase lembrada não passa de uma “boutade” de dom Hélder, frasista conhecido, foi pirueta para escapar de censura pertinente de que sua ação favorecia o comunismo.

 

 A alusão inesperada do Papa Francisco ▬ é penoso constatar, contudo inevitável, incoercível a lógica, foi propaganda mundial para dom Hélder, reflexo caloroso também recebeu o comunismo, nomeado sem reservas como movimento que luta pelos pobres ▬ suscitou esperada alegria na esquerda. Apenas como exemplo, festejou-a Fernando Haddad, candidato derrotado do PT nas últimas eleições presidenciais: “Dom Hélder foi citado pelo papa Francisco na sua mensagem de Natal. Não poderia ser mais inspirador”. Inspirador aqui significa animador. Em sentido contrário, tais palavras contristaram os setores que temem a ascensão do petismo. Desconcertaram, jogaram muitos no desânimo.

 

De passagem, em perspectiva ampla, a alusão do Pontífice é de molde a agravar a exclusão social, racha a sociedade ainda mais, piora as perspectivas para os menos favorecidos. Na prática, agride a causa dos pobres e bafeja estruturas de opressão. Falarei sobre isso abaixo.

 

Agora, recordações esclarecedoras, pingo sobre alguns dos principais iis. Dom Hélder teve carreira “tous azimuts”. Integralista desenvolto nos primeiros anos de sacerdócio (ordenado em 1931), acabou aclamado por correntes de esquerda no mundo inteiro por sua ação contínua a favor da pauta dela, em especial nos anos de episcopado (sagrado em 1952). Aliás, não saiu do integralismo batendo a porta: “Nunca rompi com o integralismo”, observou em 1983.

 

Assim, depois de alguns anos como ativista saliente do integralismo, migrou resolutamente para se transformar no Brasil no mais decisivo promotor da agenda do progressismo e do esquerdismo nas fileiras do Clero e do Episcopado.

 

Ainda na década de 30 dom Hélder se aproximou do ideário e das propostas de Jacques Maritain (1882-1973), pensador de grande influência na Ação Católica. O filósofo francês, corifeu do liberalismo católico, promovia a junção das doutrinas da Revolução Francesa com o ensinamento da Igreja, expressa de forma concisa em sua formulação “sociedade laica, vitalmente cristã”. Já não se procuraria a ordem temporal cristã, ideal de restauração, mas se aceitaria (ou pelo menos se toleraria) a sociedade nascida da Revolução Francesa, objetivo de acomodação. Nela, na sociedade laica, moldada pelo racionalismo, buscar-se-ia insuflar uma vida evangélica.

 

A Ação Católica no Brasil, profundamente maritainista, da qual dom Hélder foi assistente geral e grande impulsionador, está nas nascentes da esquerdização do Clero e do laicato. Neste quadro, dom Hélder foi ainda o motor da criação da CNBB, da qual foi secretário-geral por muitos anos entre 1952 e 1964. A entidade, todos sabem, tornou-se correia de transmissão das palavras de ordem da esquerda brasileira, do PT tem sido fiel e disciplinada companheira de viagem nos últimos lustros. Da Ação Católica nasceu a JUC; no caldo de cultura da mencionada organização universitária surgiu a AP, marxista e guerrilheira ▬ e aqui lembro o fato apenas como ilustração de realidade generalizada nos ambientes da Ação Católica. Ali também medraram a JEC, JOC, JAC, todas favorecedoras de programas de esquerda radicalizados. O mais simbólico rebento da JEC é frei Betto. Do mesmo modo, daí vieram as comunidades eclesiais de base (CEBs), ali teve seu começo a Teologia da Libertação. Para a gestação e nutrição de todas essas entidades e correntes doutrinárias que pululavam no seio da Igreja Católica colaborou dom Hélder. E por isso, era natural, tornou-se a figura símbolo do esquerdismo católico no Brasil. O PT fincou um de seus esteios em dito universo agitado ▬ as CEBS e a esquerda católica em geral. As outras duas estacas foram o movimento sindical e a esquerda universitária.

 

 “Pelos frutos os conhecereis”, não pelas palavras. Os frutos pestilenciais estão à vista, corrupção, roubalheira e empobrecimento causados pelos anos do PT no poder. E apoio às tiranias na América Latina, Cuba, Venezuela, Nicarágua, onde, em situação totalitária, perpetuam a miséria.

 

Se a mencionada corrente voltar ao poder entre nós, trabalhará para fazer de país, logo que possível, uma cópia da Venezuela ou de Cuba. Para tanto, temos visto já atuando agora a CNBB, a CPT e o MST, todos ligados umbilicalmente à esquerda católica. Nas raízes estão Jacques Maritain, a Ação Católica e o ativismo de dom Hélder.

 

O que tal movimento trouxe para os pobres em todos os lugares em que venceu? Atraso, destruição dos horizontes de crescimento, agravamento da pobreza. O que mais? Estruturas de opressão na sociedade e no Estado. E exclusão social. Onde se instalou se  pavoneia arrogante a casta dirigente e padece manietado décadas afora o povo oprimido, os excluídos. E não nos iludamos, é cenário trágico de retrocesso obscurantista, mas possível, de alto a baixo, toda a América Latina está agora ameaçada por tais programas de destruição. A atuação de dom Hélder os beneficiou de forma relevante e por isso multidões de católicos estão perplexos com seu pregão pelo Papa Francisco.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Union sacrée contemporânea

 

Union sacrée contemporânea

 

Péricles Capanema

 

Desculpem-me o título na língua dos outros ▬ a união sagrada, em português. Justifico-me, a expressividade tem seus direitos, a elocução francesa aqui torna mais viva a realidade que tomou a França durante a 1ª Guerra Mundial em face das potências centrais, em especial da Alemanha. Proclamou-se na ocasião a necessidade imperiosa de uma união sagrada, fundada na trégua interna, que pudesse unir para defesa da pátria agredida todas as correntes de relevância no país, até então em choque; republicanos, monarquistas, católicos, ateus, livres-pensadores, socialistas, conservadores, tradicionalistas, progressistas. A França polarizada daria lugar à França unida na defesa da pátria atacada. Quem ficasse de fora da coligação de salvação nacional se sentia mal; rejeitado socialmente, incompreendido mesmo dos seus, poderia até acabar marcado com o labéu de covarde traidor ▬ um pária. Situações desse tipo acontecem, não são raras.

 

Essa aconteceu assim. Em 3 de agosto de 1914, a Alemanha declarou guerra à França, que penava a derrota humilhante de 1870, com a consequente perda de importantes províncias. Vieram então as gerações “revanchardes”, ansiosas por revanche e vingança. A declaração de guerra abria possibilidade para o acerto de contas, em resumo, parecia, tinha chegado a hora. Esperava-se guerra rápida, triunfo certo; veio guerra longa, sofrimentos sem fim, triunfo pela mão dos Estados Unidos.

 

Um dia antes, 2 de agosto, em ambiente de tensão altíssima entre os dois países, o estado de sítio já havia sido declarado na França, com convocação do Parlamento para o dia 4. Em 4 de agosto, René Viviani, presidente do Conselho de Ministros, leu no Parlamento mensagem de Raymond Poincaré, presidente da França: “Na guerra que começa, a França terá a seu lado o direito, do qual os povos, assim como os indivíduos, não podem desconhecer impunemente o eterno poder moral. Ela será heroicamente defendida por todos os seus filhos, nada quebrará sua união sagrada; estão hoje fraternalmente congregados em uma mesma indignação contra o agressor e em uma mesma fé patriótica”.

 

Nada quebrará sua união sagrada; aqui nasceu para a política francesa a expressão “união sagrada”; durou anos, deixou marcas profundas na vida de cada francês. O ardor da fé patriótica arredondou arestas anteriores, a aproximação soldou diferenças dos franceses de todas as tendências. O mais visível símbolo de tal coligação foi a chefia do exército confiada ao marechal Ferdinand Foch, católico conhecido, e a chefia do governo nas mãos de Georges Clemenceau, anticlerical, livre-pensador, com raízes na esquerda. Já em 2 de agosto de 1914 o ministro do Interior mandou suspender a execução de decretos que atingiam a Igreja Católica. Em outubro de 1915, Aristide Briand colocou no governo Denys Cochin, católico, encerrando longo período de hostilidade da república em relação à Igreja, iniciado em 1877.

 

Essa mesma política, intitulada na França de “union sacrée”, com base no patriotismo e na defesa da pátria, foi adotada pela Alemanha (Burgfrieden), Bélgica, Rússia, entre outros. Mas não tiveram a repercussão e a carga simbólica da “union sacrée” francesa.

 

Com o triunfo da revolução bolchevista (novembro de 1917) e o fim da Guerra, os partidos de esquerda, já em parte reticentes em relação a ela, denunciaram-na por inteiro e o quadro político voltou a ser tenso e conflitivo. Os anos 20 assistiriam ao fortalecimento dos partidos de esquerda, que suscitaram violentas reações, capitaneadas em geral pelo nazismo e fascismo, ou organizações assemelhadas. Tais movimentos atraíram e desviaram enormes contingentes católicos. Sem contar aqui a desorganização e morticínios causados pelos quatro anos de guerra.

 

Em resumo, ponto que ninguém ou quase ninguém ressalta, porém dever do analista católico salientá-lo, enorme tragédia se abateu sobre grandes possibilidades de evangelização e restauração social: não amadureceram de forma saudável em milhões de jovens os frutos de salvação que, antes da Guerra, prenunciavam colheita de decisiva importância para a Europa ▬ e o mundo. Para tal contribuíram a ingenuidade, a superficialidade, a precipitação, bem como a má direção, tanto no âmbito eclesiástico, como no temporal.

 

Por que em traços gerais lembro universo tão vasto? Por necessidade, pela enorme atualidade potencial. “Historia lux veritatis, vita memoriae, magistra vitae.”

 

Corta. Passo a relatar fato de hoje, distante mais de século dos anos da “union sacrée´´. O caso do COVID-19 explodiu em Wuhan, na China. Um ano depois, “Época” entrevistou um paulistano que lá vive, Kenviti Shindo, 27 anos, estudante de mestrado. A vida em Wuhan é de quase normalidade: “Aqui está praticamente normal, usamos máscara quando entramos em locais fechados, como bares, restaurantes ou shopping centers. Claro que existe uma preocupação de que o vírus volte, mas tudo já funciona como antes", observa Shindo. Não há registros de casos novos na província de Hubei, da qual Wuhan é a capital. Em outubro, a província atraiu 52 milhões de turistas entre os dias 1 e 7, Semana Dourada, época festiva. Em contraste lúgubre, o Ocidente ainda se debate com o vírus. O Brasil, nem falar. Não dá inveja? Dá. Quem tem inveja procura imitar.

 

Corta de novo, terceira matéria em texto reduzido. Em 2018 escrevi um livrinho “Brigo pelos homens atrofiados” sob o pseudônimo de Zeca Patafufo. Um dos personagens do conto, Adamastor Ferrão Bravo, sabido e bom observador, fez advertência que agora ficou candente. Vale apena ouvir Ferrão Bravo:

 

“— O cenário brilhante fica no Oriente. Na paradeira de atores estafados, a China e outros poucos países asiáticos disparam para tomar a boca do palco.

— Vai impingir seus intentos?

— Para lá somos arrastados. [Observou Ferrão Bravo]. Não demora, o provável, assistiremos a multidões babando de admiração pelo país que se deu bem e aí bamboleando atrás e remedando. Tem aquele tanto de sortilégio, acho. A França, quando primeira no mundo, foi trend-setter. Os Estados Unidos, passante de cem anos, ditam moda. São povos constituintes. Ainda vai escutar um bucado de mães falando: — Aula de inglês? Não é tanta prioridade, quente agora é o menino igual aprender o mandarim.

— Os Estados Unidos vão continuar na testa, está no DNA deles, seu Adamastor. Lá o pelotão da frente não brinca em serviço.

— É conforme, deix’eutifalá, têm energia para manter a mão na rédea. O século 20 foi o século americano-do-norte; o século 21 vai ser também, depende de os gringos quererem.

— A China periga dar certo? — o Cisco, espantado.

— No mundo da lua, vão agigantar tudo pela propaganda. Pode estar iminente avalancha de soft power da China, a mais do duro sharp power que começa a se generalizar e já desperta vivas reações em vários países. Dando certo a ofensiva chinesa, em cortejo, imantada, veremos atrás sarandear malemolente a bocojança, multidões sem fim. Tanta gente modernosa não achou que a Rússia dos anos 30 tinha dado certo? O Stalin, besuntado de admirações abjetas, foi ícone de cardumes de torcedores ignóbeis; décadas de chumbo aleluiadas em histeria, mais que tudo pela intelligentsia progressista; via nos intentos mitomaníacos de engenharia social, executados com frieza apavorante, a construção da utopia socialista dos ‘amanhãs que cantam’; para tal, enfiada sem fim de hojes desesperadores.

— Tem exorcismo contra tais modismos?

— Conheço um, destrinchar e divulgar preto no branco essas alquimias de fundo totalitário. Cadê o esforço intelectual e a valentia?

— Entendi, o enfeitiçamento bafeja situações ditatoriais.”

 

Flui o conto, Adamastor Ferrão Bravo ali continua com braveza aferroando, mas paro por aqui. Chamei a atenção de tal realidade para quê? Para a possibilidade de manobra de soft power. No combate ao vírus, a China sai na frente, elimina o problema, resolve. Cara da moeda. Na coroa, chapina o resto do mundo; mortes, fechamentos, abatimentos, desorientação. O mundo vai preferir cara ou coroa?  “Multidões babando de admiração e remedando”. E então poderia acontecer uma nova e adaptada “union sacrée” em nossos dias, voltada contra a pandemia, no desenrolar da qual a China despertaria admiração, atrairia simpatias e abateria barreiras, isolaria opositores. Lucro evidente para os desígnios totalitários e imperialistas do Partido Comunista Chinês. Olho vivo, moreno, seguro morreu de velho, desconfiado ainda vive.