quinta-feira, 29 de junho de 2017

Queijos bem partidos, queijos mal partidos

Queijos bem partidos, queijos mal partidos

Péricles Capanema

Ouvi um tanto de vezes: “Por aí, assim o queijo fica bem partido”. Situação encaminhada de forma satisfatória, com senso das proporções. Ainda: “Caso sem saída, queijo mal partido”. Equivale a situação resolvida sem levar em conta todos os fatores, cada um na devida proporção. O caso da NATO corre risco de virar queijo mal partido. Com efeitos enormes, quem sabe apocalípticos, ao longo das décadas.

O presidente Donald Trump, em sua primeira viagem internacional, foi a Riad, Jerusalém e Roma. Ali participou da reunião do G-7 e ainda visitou alguns países da Aliança Ocidental. Mais uma vez, o compromisso norte-americano com a defesa da Europa deixou a desejar. E nesse copo alarma a menor trinquinha.

Um destaque, em discurso no novo quartel general da NATO Trump evitou mencionar o artigo 5 do Tratado que era o ponto esperado, até mesmo por sua equipe de segurança. Afirma: “As Partes concordam em que um ataque armado contra uma ou várias delas na Europa ou na América do Norte será considerado um ataque a todas, e, consequentemente, concordam em que, se um tal ataque armado se verificar, cada uma, no exercício do direito de legítima defesa, individual ou coletiva, [...] prestará assistência à Parte ou Partes assim atacadas, praticando sem demora, individualmente e de acordo com as restantes Partes, a ação que considerar necessária, inclusive o emprego da força armada, para restaurar e garantir a segurança na região do Atlântico Norte”.

A omissão, deixando pairar no ar a hipótese do descompromisso e distanciamento, enraizou desconfianças que já existiam desde a campanha eleitoral. Por exemplo, os Estados Unidos não mais defenderiam alguma pequena nação agredida pela, nem precisaria dizer, Rússia?

Nesta mesma ocasião, a chanceler Ângela Merkel, ecoando preocupação comum entre europeus, declarou: “Os tempos em que podíamos contar inteiramente com o apoio de outros de alguma maneira já estão no passado. Tive esta experiência nos últimos dias [ela havia se encontrado com Donald Trump recentemente] Tudo o que posso dizer é que nós, os europeus, devemos tomar nosso destino em nossas próprias mãos, naturalmente com relações amigas com os Estados Unidos e Inglaterra. [...] até com a Rússia. Mas precisamos reconhecer que devemos lutar pelo nosso futuro como europeus”.

A principal queixa de Donald Trump, os europeus, em especial os alemães, não estão pagando o que seria razoável [fair share]. Enriqueceram, são os maiores interessados, mas relutam em meter a mão no bolso. E ainda que a Alemanha tem um superávit comercial gigantesco com os Estados Unidos.

“Temos um gigantesco déficit comercial com a Alemanha, e além disso os alemães pagam muito menos que deveriam para a NATO e em despesas militares, isso vai mudar”, tuitou o Presidente. Tem razão. Em 2016 o déficit foi de 67,8 bilhões de dólares. Os Estados Unidos utilizam 3,6% de seu PIB em gastos militares (75% do orçamento da NATO está nas costas do tio Sam). A Alemanha gasta 1,2%. Em 2014, os na ocasião 28 membros da NATO prometeram empregar 2% do PIB em despesas militares. De momento, só 5 dos agora 29 membros cumprem tal meta.

Afirmei, Trump tem razão. Pergunto: tem inteira razão? Busco ditado francês le ton fait la chanson, o tom muitas vezes é mais importante que o conteúdo da canção. Complemento da minha pergunta: Está bem calibrado o tom da exigência? É hora própria? Tenho cá minhas dúvidas

A NATO começou com o Tratado de Bruxelas, aliança contra a ameaça soviética, assinado em 17 de março de 1948 por Bélgica, Holanda, Luxemburgo, França, Reino Unido. Veio o bloqueio de Berlim e o golpe de Praga. Na atmosfera de Guerra Fria os Estados Unidos se juntaram aos europeus; em 4 de abril de 1949 foi firmado o Tratado do Atlântico Norte. Além dos cinco países, acima referidos, a nova aliança incluía Estados Unidos, Canadá, Portugal, Itália, Noruega, Dinamarca, Islândia. Em 1952, Grécia e Turquia, em 1955, Alemanha, uniram-se à NATO. O objetivo primeiro sempre foi ser uma barreira contra as agressões do comunismo soviético. Em resposta, 1955, a Rússia criou o Pacto de Varsóvia.

Com a queda do Muro de Berlim, o fim do Pacto de Varsóvia, a reunificação alemã, o quadro se modificou rapidamente. Hoje a NATO abarca 29 países, além de três na fila: Bósnia e Herzegovina, Geórgia e Macedônia. Debaixo do guarda-chuva dos Estados Unidos se protegem das investidas do expansionismo russo, jihadismo islâmico e ciberataques. E se o guarda-chuvas se fechar? Desamparados, para onde rumarão?

Não custa lembrar, mutatis mutandis, os Estados Unidos, como protetores da ordem, representam hoje o que, no passado, foram o Papa e o Imperador do Sacro Império. Asseguravam a existência normal da Cristandade. A Europa é o que restou da Cristandade. Ali estão (e seus herdeiros) os países de raízes cristãs ou, se quisermos, a civilização ocidental e cristã, expressões que evocam a origem medieval. Temos realidade mais fundamental para a perenidade da Fé e da civilização? A discussão de reivindicações justas em ambiente acerbo, enquadrada por horizontes limitados, facilmente criará caldo de cultura em que pululem toda sorte de ressentimentos e dilacerações.


Na presente quadra histórica, o esfacelamento da NATO pode gerar efeitos parecidos com o fim do Império Romano em 476, ele também exercendo funções políticas com traços comuns às discutidas acima, tutela do espaço de convivência civilizada na Antiguidade. Abriu as portas para invasões e período de grande instabilidade. Esse queijo de agora precisa ser muito bem cortado.

terça-feira, 27 de junho de 2017

A esmola rara da verdade

A esmola rara da verdade

Péricles Capanema

“Tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e foste me ver” (Mt 25; 35-36). Na mesma direção, poderíamos acrescentar: sedento da verdade, ouvi-a de ti.

Pode surpreender, mas o texto me tomou o espirito enquanto ouvia discurso aos cubanos do presidente Donald Trump, em Miami. Martelava verdades silenciadas na imprensa e há muito evitadas pelos Chefes de Estado e até por eclesiásticos. A patrulha as proíbe, a tirania do politicamente incorreto as sufoca na garganta de quase todos. Contudo, indispensáveis na atualidade, em especial para a América Latina. Recebi agradecido a esmola rara da verdade.

Vou ecoá-las, resumidamente em alguns trechos (a íntegra está na rede): “Os exilados e dissidentes hoje aqui testemunharam o comunismo destruir uma nação, como sempre acontece onde o comunismo é aplicado. Contudo não mais nos manteremos silenciosos diante da opressão comunista. No ano passado eu prometi ser uma voz a favor da liberdade do povo cubano. Os Estados Unidos divulgarão os crimes do regime castrista e apoiarão o povo cubano em sua luta pela liberdade. Pois sabemos que é melhor para os Estados Unidos que haja liberdade em nosso hemisfério, seja em Cuba ou na Venezuela. Por quase seis décadas, o povo cubano sofreu debaixo do domínio comunista. Até hoje o povo cubano é dirigido pelas mesmas pessoas que mataram dezenas de milhares de seus próprios cidadãos, que tentaram disseminar sua ideologia fracassada e repressiva em nosso hemisfério. O regime castrista enviou armas para a Coréia do Norte e provocou o caos na Venezuela. Ao mesmo tempo que prendia inocentes, acolheu assassinos de policiais, sequestradores e terroristas. Apoiou o tráfico de humanos, o trabalho forçado e a exploração no mundo inteiro. Esta é a verdade simples sobre o regime castrista. Meu governo não esconderá tais fatos, não os desculpará, não os glamoralizará. Nunca será cego para eles. Vou cancelar imediatamente o acordo parcial feito pelo governo anterior. Anuncio agora uma nova política com Cuba. Procuraremos um acordo mais vantajoso para o povo cubano e para os Estados Unidos. Não suspenderemos as sanções contra o regime cubano até que todos os prisioneiros políticos sejam libertados, haja liberdade de reunião e expressão, partidos políticos legalizados, eleições livres sob supervisão internacional e com data marcada. Quando Cuba estiver pronta para dar passos concretos nessa direção, nós também estaremos prontos, desejosos e capazes de oferecer um acordo muito melhor para os cubanos. Um acordo justo, um acordo que faça sentido. Respeitaremos a soberania cubana, mas nunca daremos as costas ao povo cubano”.

Não custa lembrar, quem discursava diante de uma colônia tantas vezes incompreendida e rejeitada era o Chefe de Estado da mais poderosa nação da Terra. Não eram apenas palavras bonitas, significavam e política de rumo novo, promissor. O acontecimento autorizava esperança de extirpação do câncer cubano, que infecciona a América desde finais da década de 50.

Ficou ainda mais escandaloso o apoio escancarado (rios de dinheiro do BNDES) e tantas vezes o silêncio de numerosos governos latino-americanos à ditadura sanguinária. Ficou ainda mais escandaloso o apoio que o castrismo sempre recebeu no Brasil da esquerda política e da esquerda eclesiástica. Reproduzo ignóbeis palavras de Lula: “o maior de todos os latino-americanos, comandante em chefe da revolução cubana, meu amigo e companheiro Fidel Castro”. Lembro escandalosas palavras de dom Paulo Evaristo Arns em carta a Fidel Castro: “O povo de seu País conseguiu resistir às agressões externas para erradicar a miséria. Hoje em dia Cuba pode sentir-se orgulhosa de ser exemplo de justiça social. A fé cristã descobre nas conquistas da Revolução um ensaio do Reino de Deus”.


Volto ao início. Tive fome, e destes-me de comer. Libertar Cuba do comunismo vai abrir o caminho para o aumento da produção, e para que o povo deixe décadas de privação e fome. Era estrangeiro, e hospedastes-me. Hoje o comunismo tornou Cuba estrangeira ao seu mais poderoso vizinho, estrangeira a tantas nações, irmãs por laços de sangue, civilização e religião. O fim do comunismo fará com que volte ao convívio normal nas Américas. Estive na prisão e foste me ver. Com a queda do castrismo, as prisões políticas se abrirão e os cubanos, hoje prisioneiros nas próprias casas, poderão livremente falar e influir nos destinos de Cuba. Uno-me às esperanças dos cubanos.

domingo, 25 de junho de 2017

A CNBB, mais uma vez, agrava a exclusão social

A CNBB, mais uma vez, agrava a exclusão social

Péricles Capanema

Em comunicado de 17 de maio o CIMI (Conselho Indigenista Missionário) agrediu o relatório da chamada CPI da FUNAI/INCRA (solicitou o indiciamento de 14 missionários), com expressões como as abaixo transcritas: “A CPI da FUNAI/INCRA mostrou-se parcial do início ao fim dos trabalhos. Criada e relatada por ruralistas para atender os interesses ruralistas e atacar os povos originários. Descomprometidos com a verdade, os ruralistas tentam criminalizar mais de uma centena de lideranças indígenas, indigenistas, religiosos e cientistas sociais. Tentativa de retorno ao escravagismo no campo e venda do território brasileiro para estrangeiros por parte dos ruralistas [suposto objetivo dos deputados ruralistas e de seus apoiadores]. Chama a atenção a forma racista de os ruralistas se referirem a lideranças e povos indígenas. Trata-se de ranço colonialista que acentua o preconceito contra os povos originários de nosso país. Outrossim, preocupa a onda de massacres cruéis cometidos por fazendeiros e seus jagunços contra povos indígenas, quilombolas e camponeses Brasil afora”.

Longe da concórdia, que nasce da caridade, esse é o tom do órgão que supostamente coordena atividades de missionários, cuja missão é arrancar os indígenas do paganismo e conduzi-los ao Catolicismo. Labuta de pregação, convencimento, conversão, de fato, altamente civilizatória. Tarefa de harmonia e de inclusão.

Missão é uma coisa; trabalho efetivo, outra. Exemplo da atividade real: intolerante, o CIMI investe contra os fazendeiros. Alguém no Brasil acredita que exista “onda de massacres” promovidas por fazendeiros, dirigida contra índios, quilombolas e camponeses? E que os ruralistas procuram reinstalar a escravidão no campo e vender suas terras a estrangeiros? O órgão unido à CNBB prejudica os pobres, ao jogá-los contra o agronegócio, que está evitando a quebra do Brasil e a precipitação numa miséria como a da Venezuela e Cuba, para onde nos conduzirá a ação das correntes que apoiam o CIMI, como MST, CPT, CUT, entidades e partidos afins.

Uma entidade afim: a CNBB (para tristeza dos católicos). Em comunicado de 22 de junho a CNBB se apressou em defender o CIMI: “O Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, reunido em Brasília - DF, nos dias 20 a 22 de junho de 2017, manifesta seu total apoio e solidariedade ao Conselho Indigenista Missionário (CIMI) diante das infundadas e injustas acusações que recebeu da Comissão Parlamentar de Inquérito, denominada CPI da Funai e Incra. O indiciamento de missionários do CIMI é uma evidente tentativa de intimidar esta instituição tão importante para os indígenas. Tenha-se em conta ainda que as proposições da CPI se inserem no mesmo contexto de reformas propostas pelo governo, especialmente as trabalhista e previdenciária, privilegiando o capital em detrimento dos avanços sociais. Tais mudanças apontam para o caminho da exclusão social”. Assinam o documento dom Sérgio, cardeal-arcebispo de Brasília, dom Murilo, arcebispo de Salvador e dom Leonardo, bispo-auxiliar de Brasília, respectivamente, presidente, vice-presidente e secretário-geral da CNBB.

O avanço social no Brasil está ligado ao estímulo dos investimentos, tanto o público como o privado, os quais dependem fortemente de reformas sensatas nos âmbitos trabalhista e previdenciário. Fracassando, minguarão as aplicações, a produtividade tenderá a estacionar. Na prática, a proposta da CNBB petrifica o atraso. E, no bojo de outras de igual inspiração, favorecerá o retrocesso, com o agravamento da miséria. De passagem avanço social autêntico é o que propicia, com proporção, condições para que os membros do corpo social atinjam a plenitude de suas potencialidades e não o que favorece desnaturadas políticas igualitárias.

Dois pontos finais a destacar. Primeiro, convém ter em vista dados divulgados pela revista EXAME e em particular pelo dr. Evaristo de Miranda. Existem hoje no País 584 terras indígenas, ocupam 114.699.057 ha, por volta de 14% do território nacional. Deambulam no Brasil 869,9 mil indígenas, aproximadamente 0,42% da população. Os 0,42% povoam os 14% do território nacional a eles destinados? Que nada. Um em cada três dos índios (36,2%) reside nas cidades, 63,8% habitam áreas rurais. Entre os que estão fora das terras indígenas, só 12,7% falam alguma língua indígena. Dentre os íncolas das terras demarcadas, 78,9 mil se declaram de outra raça, dos quais 70% pardos. Dos 869,9 mil, 147,2 mil não sabem a qual etnia pertencem. Em geral vivem em casas. Nas terras demarcadas, 2,9% moram em ocas. Nas terras indígenas, a energia elétrica chega a 70,1% dos domicílios. 76,7 dos índios são alfabetizados em português. Resumo, o CIMI, força do atraso, em sua ação revolucionaria, afirma defender um índio que quase não existe mais, se um dia existiu. A maioria deles, como o brasileiro em geral, quer é crescer na vida.


O segundo ponto registro alegre por dever de justiça. Em nenhum momento a CNBB afirma, houve unanimidade no Conselho Permanente. Levanta a suspeita de oposição interna mesmo que muda. A propósito, ainda, em março, dom Odilo, cardeal-arcebispo de São Paulo, marcou distância em relação às posições oficiais da CNBB: “Penso que de toda maneira há necessidade de reformas tanto na lei trabalhista como na lei da Previdência. Sim, acho que é necessário fazê-las e fazê-las bem”.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

A Europa sitiada

A Europa sitiada

Péricles Capanema

Na esteira de ataques terroristas muçulmanos anteriores, 2015 e 2016, em 2017 atentados com traços parecidos traumatizaram França, Inglaterra e Alemanha e ainda outras nações da Europa. Provavelmente indicam padrão que tenderá a se repetir. Em jogo, o futuro do Velho Continente.

Lembro alguns poucos. Em janeiro de 2015, série de cinco ataques na região de Paris deixou 17 mortos e 22 feridos. Em novembro do mesmo ano, a casa de shows Bataclan e vários outros locais sofreram atentados de radicais muçulmanos, 137 mortos, 368 feridos. Em 14 de julho de 2016, festa nacional francesa, extremista muçulmano jogou caminhão contra multidão que, distendida, passeava em Nice, 87 mortos, 434 feridos. Na Inglaterra, em março de 2017, na Westminster Bridge, terrorista atropelou pedestres, esfaqueou policiais e deixou cinco mortos e cerca de 50 feridos. Manchester, em maio, atentado suicida em show da cantora Ariana Grande deixou 22 mortos, 129 feridos. Logo depois, em junho, terroristas muçulmanos jogaram uma van contra transeuntes na London Bridge e esfaquearam pessoas nas imediações; 7 mortos, 44 feridos. Na Alemanha, em dezembro de 2016, em mercado de Natal em Berlim, um terrorista dirigindo um caminhão matou 12 pessoas e feriu 56. Na Suécia, abril de 2017, caminhão utilizado como arma matou 5 e feriu 15 pessoas. Evoco ao final o padre Jacques Hamel, degolado por militantes do Estado Islâmico em julho de 2016.

São apenas exemplos das agressões terroristas por toda a Europa. Seus mentores esperam acarneirar a população; de outro modo, torná-la mais flexível a soluções favorecedoras dos objetivos islamitas. E os atentados fazem parte de realidade maior, destruidora se a ela a Europa não resistir vitoriosamente.

Vamos a alguns dados fundamentais. É de 1,6 a taxa de natalidade das mulheres alemãs, abaixo da porcentagem de simples reposição, 2,1. Ou seja, cai continuamente a população, hoje por volta de 82 milhões. O país necessita de 300 mil imigrantes anuais nos próximos 40 anos para manter população estável e, no médio prazo, garantir o Estado do bem-estar social, ali construído desde fins da 2ª Guerra Mundial. Tais imigrantes, muçulmanos na maioria, têm vindo em particular da África, Ásia e Oriente Médio. Convém ter em vista, a Alemanha chegou à atual população por causa de além de 1 milhão de imigrantes em 2015 e 750 mil em 2016. E na decisão de Angela Merkel, autorizar a entrada de mais de 1,5 milhão de imigrantes terão pesado não apenas razões humanitárias. Havia a necessidade de mão de obra jovem para manter viável o Estado de bem-estar social.

Hoje, a Alemanha abriga mais de 6 milhões de muçulmanos. Tal contingente cresce aproximadamente 77 mil pessoas por ano. Outro ponto, as populações muçulmanas na Europa têm média de idade menor que a alemã. E a taxa de natalidade das mulheres muçulmanas é maior que a das teutas. Persistindo as presentes tendências, mesmo desconsiderando o efeito da lei das reunificações familiares (um asilado, sob certas condições, pode trazer parentes), em 2060 mais de 25% por cento da população alemã será muçulmana. E situação parecida será vivida por outras nações europeias.

Problemas já hoje graves tomarão dimensão nova com o paulatino enraizamento e aumento de populações maometanas. Entre eles, tribunais da Sharia (justiça privada e grupal), aumento da criminalidade, poligamia, mutilação genital feminina, casamento de crianças, violências, por vezes até o assassinato, em nome da honra. Outros ainda, extremismo islâmico, antissemitismo árabe, lutas nacionais e étnicas. A Europa pode se tornar sementeira de terroristas, situação em parte já existente, pelo generalizado recrutamento de homens-bomba e jihadistas para grupos extremistas no interior de comunidades muçulmanas, protegidas pelas leis nacionais e tornadas viáveis pelas redes de proteção social.

Como assimilar tal população? Aqui está a principal questão. Há um fenômeno amplo, os muçulmanos gradualmente estão se integrando à população. Em qual velocidade e até que ponto? Faltam pesquisas conclusivas, embora se crê que na Europa exista situação parecida com a dos Estados Unidos. Ali, 32% dos educados no Islamismo não mais professam tal religião na idade adulta. E 18% do mesmo grupo admitem não ter religião. Na Alemanha, metade dos 4,2 milhões de pessoas de origem muçulmana não se declaram muçulmanos quando adultos. É o agnosticismo disseminado, atinge também todas as religiões cristãs.

Em sentido contrário, subsistem e resistem raízes étnicas e costumes. É pequena a porcentagem dos muçulmanos que casam fora de sua religião. Na Alemanha, apenas 7,2% dos homens e 0,5% das mulheres são casados com pessoa de outra religião. Leo Lucassen e Charlotte Laarman da Universidade de Leiden estudaram o assunto. Considerando Alemanha, Bélgica, Holanda, Grã-Bretanha e França, na segunda geração, apenas 11% dos muçulmanos casavam fora de sua religião.

Em resumo, temos assimilação difícil, tanto mais que na Europa seus antigos moradores tendem para um multiculturalismo esfarelado. Pouca prática religiosa, agnosticismo generalizado, confusão mental. Apenas como exemplo, pesquisa recente indicou que 19% dos suecos disseram ter alguma religião, 23% dos tchecos, 26% dos holandeses, 30% no Reino Unidos e 34% na Alemanha. A ausência de religião tem reflexos na conduta moral e na orientação das concepções sócio-políticas.

A Europa se guiou outrora pelo ideal de Cristandade. Deu as costas a ele. Triunfou no campo secular um ideário em torno de princípios do Iluminismo, como democracia, direitos humanos, paz universal, apresentados como os novos fatores de união. Vão perdendo força, esfarelando, disse acima. No horizonte sobe ameaçadora a possibilidade da islamização. A Europa a venceu militarmente em 1456, 1571 e 1683. Volta ela contudo no século 21, mais insidiosa sob novos véus.

O que fazer? Falo como católico. Em primeiro lugar, súplices pedirmos o auxílio da Providência. Confiança, oração. Foi o primeiro e grande recurso de são João de Capistrano, são Pio V e do beato Inocêncio XI. A seguir, examinar o quadro inteiro com objetividade, não enterrando a cabeça na areia como muitos erroneamente pensam ser a atitude idiota do avestruz. E apoiar medidas de oposição à derrocada das muralhas, precisam estar rígidas.


A saída vitoriosa, hoje distante, é reatar com os princípios que inspiraram a Cristandade, forças vivas em 1456, 1571 e 1683, aplicando-os, adaptados a nossos dias. À vera, a Europa, mais que sitiada, está doente. O que a torna especialmente vulnerável à ameaça muçulmana. E nós latino-americanos, filhos espirituais de princípios lá triunfantes, em boa medida, para desgraça nossa, padecemos as mesmas enfermidades.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Aviltamento acinzentado

Aviltamento acinzentado

Péricles Capanema

O Brasil, chocado, teve notícia da delação premiada do empresário Joesley Batista, um dos donos da JBS, a gigante do agronegócio brasileiro. Deixo de lado o primarismo intelectual, a linguagem chula e o deboche, pelo visto correntes em escolhidas esferas do dinheiro e da política. Trato aqui da naturalidade com que o delator relata telefonema de Lula para ele. O ex-presidente solicitava que João Pedro Stédile o procurasse para pedir dinheiro para o MST; depois com a bufunfa ▬ antes certamente fácil nos governos Lula e Dilma, de momento escassa ▬ iria invadir fazendas, formar militância e promover quebra-quebra.

“Ele [Lula] me ligou esses dias, pediu para mim [sic!] atender os sem-terra. Eu digo ‘ô presidente’(risos) ‘Joesley, eu tô aqui com o [João Pedro] Stédile não sei o que ele precisa falar com você’ ...’Tá bom, presidente, manda ele vir aqui. Eu atendo ele, tá bom’”. Para nosso caso, importa pouco se houve o encontro.

Importa outra coisa. Dos maiores empresários do agronegócio, com inteira naturalidade, aceita dar dinheiro para movimento (MST) cujo fim confessado é o coletivismo no campo, o que implica, a destruição dos fazendeiros. Recordo abaixo a já muito divulgada declaração de Stédile, marxista com ligações com a Teologia da Libertação: “Nós, marxistas, lutamos junto com o papa para parar o diabo”. O diabo, para Stédile, são “o capital financeiro, os bancos, as grandes multinacionais. Os inimigos do povo são esses. Como diria o papa, esse é o diabo”. Outra lembrança, a ameaça de Lula, em fevereiro de 2015 de colocar o exército do MST nas ruas: “Também sabemos brigar. Sobretudo quando o Stédile colocar o exército dele nas ruas”. De passagem, a JBS é uma grande multinacional.

Judas, na História, foi o traidor prototípico. Chamar alguém de judas, dois milênios após o ato infame, ainda era o pior insulto (agora, tenho minhas dúvidas). Mas ele se sabia traidor, agiu como traidor, teve fim consoante o crime inqualificável. Seu ato, por gerações foi qualificado infame. Era corrente a vida moral ancorada em noções claras de honestidade, coerência, abjeção, honra, decência, degradação, aviltamento. Em muitos ambientes desapareceu sua nitidez, examino um deles.

A atitude de Joesley, acima mencionada, objetivamente atraiçoa os ruralistas. Alguém ouviu alguém falar de felonia? Clima hostil para tal. No geral, os comentários sobre o ato, quando papocados, seguem na linha da distensão do delator: “Tá bom, presidente, manda ele vir aqui. Eu atendo ele”.

Há laivo de chantagem da parte de Lula, oportunismo do lado de Joesley. Um fazendeiro decepcionado com as lideranças rurais me disse: “Dificidimais. Kátia Abreu, fogo, apoiando o PT. O Joesley, pecuarista forte, dando dinheiro para o MST. Tem isso, quando os agitadores do Stédile passarem na frente de uma porteira da JBS, não vão invadir. Entram na próxima, de gente que não socou dinheiro neles”. Método mafioso comum, as FARC utilizaram tal expediente, extorquiam empresários contra promessa de não serem sequestrados. Poderá existir chantagem no caso do MST? Não estou informado, fico longe de negar a possibilidade. Não é tudo, porém. Em parte do público e dos participantes do drama formigam critérios morais distantes da nitidez do preto e do branco. Zonas cinzentas. Bruxuleia ali a noção, certos limites nunca podem ser transpostos. E isso é de importância sem medida para o futuro do Brasil.

Outra. Chegam notícias a todo instante da tortura dos venezuelanos, manietados e esfomeados. Conhecemos alguns dos responsáveis: Lula, PT, demais partidos de esquerda, Odebrecht, João Santana, Mônica Moura. As campanhas eleitorais milionárias, responsáveis pelo assalto ao poder dos torcionários Hugo Chávez e Nicolás Maduro, foram regadas por dinheiro desviado do contribuinte brasileiro mediante o agora conhecido mecanismo ▬ revelado no bojo da Operação Lava-Jato ▬ dos carteis, superfaturamento, porcentagem de obras para bolso e campanha de dirigentes favorecedores do comunismo. Já são quase vinte anos de sofrimento na Venezuela, cuja responsabilidade em parte pesa nas costas do governo e de empresários brasileiros. Onde a inconformidade com o apoio de grandes capitalistas e empresas brasileiras ao coletivismo, sempre causador de miséria? É muito mais grave que o mero roubo de dinheiro público.

“Todas as coisas têm o seu tempo [...] há tempo de amor e tempo de ódio, há tempo de guerra, e tempo de paz”, ensina o Eclesiastes. Agora é tempo da inconformidade nutrindo reflexões que iluminem as raízes da crise. Na busca da clareza total encontraremos a saída. Sem ela, passo a passo aumentará a desorientação dos espíritos; daí, facilmente escorregarão para o cansaço, a indiferença e a atonia. A seguir, rápido, teremos a rota aberta para aventuras e tragédias.


Não será a primeira vez. Ocorre-me uma delas, a queda repentina da monarquia com o público em céu de brigadeiro. Assim a descreveu Aristides Lobo, ministro do primeiro governo da República: “O povo assistiu àquilo bestificado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava. Muitos acreditaram seriamente estar vendo uma parada”. O atual aviltamento acinzentado também bestifica o povo que dele não se defender, para desgraça nossa.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Servilismo ideológico, combustível do sofrimento popular


Péricles Capanema

Em 1927, Julien Benda publicou na França “Trahison des clercs”, livro controvertido, que fez história. Apontava generalizada a traição dos letrados, cegos à realidade, subservientes diante do poder totalitário. Em linguagem mais atual seriam intelectuais, clérigos, artistas, grandes milionários, cuja ação favorece a servidão comunista. George Orwell os qualificava de esquerda moral: “Os intelectuais são levados para o totalitarismo muito mais que as pessoas comuns”. Raymond Aron acoimou tal fenômeno de “passagem da consciência livre à servidão voluntária”. A trahison des clercs virou moeda corrente na vida pública francesa. A maior rumorosa delas foi a degradação de Jean-Paul Sartre diante das ditaduras comunistas da Rússia e da China. Nelson Rodrigues tachou-o de “canalha translúcido”.

Lembrei-me da expressão ao, confrangido, passar os olhos no volumoso noticiário sobre Antônio Cândido de Mello e Souza (1918-2017), crítico literário, presente na vida pública desde muitas décadas. O comentário do crítico Sérgio Augusto sobre o escritor falecido dá o tom da cobertura: “Era, sem hipérbole, o maior brasileiro vivo. Sua morte, sem clichê, marca o fim de uma era”.

Vejamos seu pensamento. Transcrevo partes de entrevista que concedeu em agosto de 2011: “O socialismo é uma doutrina totalmente triunfante no mundo”. A agressão à realidade não poderia ser maior. Emendou, consertando: “Chamo de socialismo todas as tendências que dizem que o homem tem de caminhar para a igualdade. Comunismo, socialismo democrático, anarquismo, solidarismo, cristianismo social, cooperativismo”. No mínimo está pouco matizada e delirantemente imprecisa a junção indiferenciada de todas as mencionadas correntes na tentativa de esconder o amazônico fracasso socialista. Volta-se então para o capitalismo: “O capitalismo não tem face humana nenhuma. O capitalismo é baseado na mais-valia e no exército de reserva como Marx definiu”. Na vida real, os pobres do mundo tentam entrar de todas as maneiras na nação capitalista, os Estados Unidos. E sempre fugiram como da peste de todas as nações comunistas. Que construíram muros, cercas e treinaram polícias para mantê-los encarcerados no próprio país.

O entrevistado tinha um problema, o socialismo como existiu na prática, dirigindo tudo, invariavelmente oprimiu e empobreceu o povo. Escapou com uma pirueta: “O socialismo só não deu certo na Rússia. Virou capitalismo. A revolução russa serviu para formar o capitalismo. O socialismo deu certo onde não foi ao poder”. Outra vez, oculta o real. A Rússia não foi o único desastre. O socialismo fracassou na proporção de sua realização em todos os países em que foi aplicado.

Antônio Cândido teve o descaramento de propor um modelo “formidável”: “O socialismo humanizou o mundo. Em Cuba eu vi o socialismo mais próximo do socialismo. Cuba é uma coisa formidável, o mais próximo da justiça social. Não a Rússia, a China, o Camboja”. A tirania dos irmãos Castro é o modelo a ser exaltado e copiado.

Coerente na hora de votar: “Quando eu era militante do PT ▬ deixei de ser em 2002, quando o Lula foi eleito ▬ era da ala do Lula, da Articulação, mas só votava nos candidatos da extrema esquerda”. A Articulação é uma espécie da Centrão dentro do PT, tem programa mais gradualista. O crítico literário, na hora do voto, evitava sufragar sua corrente, procurava fortalecer a extrema esquerda. Era ainda coerente com sua matriz ideológica: “Tenho muita influência marxista ▬ não me considero marxista, mas tenho muita influência marxista na minha formação e também muita influência da chamada escola sociológica francesa, que geralmente era formada por socialistas”.

Antônio Cândido aqui é sobretudo um exemplo. Exemplo de dezenas, talvez centenas de milhares de intelectuais, clérigos e milionários brasileiros (no mundo todo, à vera) que, cegos à realidade, trotam fanatizados atrás de delírios sociais igualitários. São corresponsáveis das piores tragédias sociais do século 20 e 21. Dom Paulo Evaristo Arns, que convidou o ateu e em boa parte marxista Antônio Cândido para a Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, foi desses clérigos. Compartilhou o entusiasmo do escritor pela tirania castrista. Em carta ao ditador comunista, derreteu-se o prelado brasileiro: “Aproveito a viagem do frei Betto para lhe enviar um abraço e saudar o povo cubano por ocasião deste 30º aniversário da Revolução. Hoje em dia Cuba pode sentir-se orgulhosa de ser no nosso continente um exemplo de justiça social. A fé cristã descobre, nas conquistas de Revolução, os sinais do Reino de Deus”. E vai por aí afora, num deprimente exemplo de sabujismo a um regime torcionário.

Diante de nossa porta temos o caso da Venezuela, outra aplicação do socialismo. Informa o jornalista venezuelano Moisés Naim no Estadão: “Não é Maduro que importa. Tirá-lo do poder não basta. Ele é simplesmente o bobo útil dos que realmente mandam na Venezuela: os cubanos, os narcotraficantes e a viúvas do chavismo. E, obviamente, os militares ▬, ainda que, tristemente, as Forças Armadas tenham sido subjugadas e estejam a serviço dos verdadeiros donos do país. O componente mais importante dessa oligarquia é o governo cubano. Para Cuba não há prioridade maior que continuar controlando e saqueando a Venezuela. E Havana sabe como fazer isso. Os cubanos aperfeiçoaram as técnicas do Estado policial. Acima de tudo, os cubanos sabem como se proteger de um golpe militar. Não é por acaso que a Venezuela tem hoje mais generais que a OTAN ou os Estados Unidos. Ou que muitos ex-generais estejam exilados. Narcotraficantes. Eles constituem o outro grande poder. Os herdeiros políticos de Chávez são o terceiro grande componente do poder real na Venezuela”. Os cubanos comunistas, lembrando Antônio Cândido, constroem lá agora, uma vez mais, uma sociedade “formidável”.


Termino. Sofremos apocalíptica mistificação, promovida pela opinião que se publica. Opinião pública é outra coisa. Os setores que perenizam a “trahison des clercs” alardeiam humanismo, tolerância, amor aos pobres. É a face da fantasia. Na outra face, a da realidade, tornam possível a implantação do comunismo repressor, implacável, disseminador da miséria. Desmitificá-los de há muito se tornou obra prioritária de salvação nacional e caridade social.

sábado, 13 de maio de 2017

Choque da realidade abala utopismo democrático

Choque da realidade abala utopismo democrático

Péricles Capanema

Imagine um júri popular. O Conselho de Sentença, vamos supor nove, não sete, como no Brasil, dividido em três partes. Um terço presta atenção nos argumentos da acusação e da defesa. Outro terço, enfastiado, faz nenhum esforço para formar juízo. Na hora decidirá. O terceiro, também sem prestar atenção, vai condenar ou absolver segundo gostou ou não gostou do jeitão do acusado; na cabeça trotam preconceitos, xodós e birras. O réu é condenado à morte.

Corta. Ainda sobretudo acadêmica, mas já com amplos reflexos nos meios de divulgação, está em curso nos Estados Unidos enorme discussão sobre os fundamentos da democracia moderna. É instrumento hábil? Em que proporção? Inábil na presente configuração? Por quê? Como diminuir injustiças e desastres?

Já um pouco antiga, a controvérsia foi engrossada pelo bem argumentado livro Against Democracy de Jason Brennan, filósofo político da Universidade de Georgetown. O estudioso parte de constatação manifestada em pesquisas provenientes dos mais variados quadrantes. A maior parte dos votantes nos Estados Unidos não se interessa por eleições e políticos. A mais, na grossa maioria, os eleitores são ignorantes dos temas em discussão, além de ter comportamento irracional. Aqui estão suas palavras: “Cientistas políticos, psicólogos e economistas estudaram a conduta do eleitor por mais de sessenta anos. Fizeram milhares de estudos, compilaram enorme acervo de dados. Linha geral, suas conclusões são uniformes e deprimentes. Via de regra os eleitores são ignorantes, mal informados e preconceituosos”.

Aumentar informação ajuda? Em termos. As pessoas, é o comum, procuram “digeri-la” dentro dos grupos de que são afins. E continuam com as mesmas convicções. Finalmente, constata o eleitor, seu voto pesa quase nada. Outro modo, inexistem incentivos para se informar bem. Resultado, procura se interessar por outras atividades, que não a vida pública. A situação no Brasil, ninguém duvida, bem pior.

Brennan recorda, os eleitores não estão escolhendo o sanduíche que mais lhes apeteceria. O voto decide temas como a guerra e a paz, rumos de prosperidade ou de pobreza, crescimento ou estagnação. Ainda, sua decisão, se majoritária, recai sobre os eleitores contrários, ausentes, crianças, estrangeiros. E aqui o referido autor ilustra com o exemplo do conselho de sentença, decidindo a vida e a morte de uma pessoa. Declara-o culpado, mas não pela ponderação dos argumentos. Acrescenta ele, o mínimo que um réu exige é jurados competentes e de boa fé. Qualquer advogado de defesa, podendo provar que o conselho de sentença assim agiu, pediria anulação (pelo menos por lá).

Jason Brennan divide o eleitorado norte-americano em três categorias: hobbits, hooligans e vulcans. Os hobbits (anãozinho mítico) têm pouco ou nenhum interesse em política, baixíssimo nível de conhecimento político. Os hooligans (torcedores fanatizados) têm um pouco mais de conhecimento, nenhuma sofisticação, votam como tomam partido os mais ardidos torcedores de times de futebol. A soma dos dois constitui a grossa maioria do eleitorado. Os vulcans (vulcões) são os informados, que votam racionalmente, minoria ínfima. O conjunto é fortemente influenciado por políticos inescrupulosos e grupos de interesse. Aqui o quadro se agrava com a presença dos spin doctors nas campanhas eleitorais modernas. Especialistas em enganar pela distorção e exageros, manipulam o noticiário para moldar a percepção pública. Conclusão do especialista: estamos diante de repetidas injustiças contra a população, decorrentes de concepção erradas e estruturas viciadas. E são insuficientes os recursos de defesa das democracias contra desatinos decorrentes de sua concepção e estrutura, como chamados os freios e contrapesos, entre os quais revisões judiciais, barreiras constitucionais, legislaturas bicamerais, burocracia autônoma.

Para ele, qual o caminho? A epistocracia ou epistemocracia. Em resumo, normas de seleção para poder participar da vida pública. Formas semelhantes já forma propostas ao longo da História, começando com a república dos sábios de Platão. Nos modernos se destaca, entre muitos, John Stuart Mill. O voto qualificado, outra tentativa, existiu em vários países. Reflexo discreto de tal concepção, na Inglaterra o aluno de Oxford podia votar duas vezes até décadas atrás.

Jason Brennan propõe como medida preliminar um teste mínimo de conhecimento político. Quem passasse, votaria. Reprovado, poderia tentar outras vezes. Argumenta ele, na prática já se aplica tal critério nos Estados Unidos. Antes dos 18 anos, ninguém vota lá. O que é isso? Parece simples bom senso, à vera decorre da noção de que a imaturidade e a ignorância impedem o exercício do voto; mais ainda, a participação nos destinos nacionais. Lembra, milhões de norte-americanos adultos são mais ignorantes e imaturos que milhões de jovens menores de 18 anos. Outra, o imigrante legal só pode votar se passar por um teste de civismo. A maioria dos norte-americanos nele seria reprovada. Qual a razão para não aplicar a mesma lógica a toda a população? Na vida privada, sempre agimos assim. Se aparece um problema hidráulico na casa, chamamos o encanador. Doentes dos olhos, corremos ao oculista. Jason quer o mesmo critério na vida pública.


O autor defende a democracia norte-americana, não em sua atual configuração. Contesta dela ainda certos princípios, afirmando que a História revelou podridão em suas raízes. Desmitifica-a, para ele mero instrumento, cheio de lacunas (que pretende combater), destinado a produzir políticas eficientes. Acha absurdo o culto que lhe é prestado, uma espécie de “religião oficial do Ocidente”. Compara-a a um martelo. Ele deve pregar bem os pregos. Se encontrarmos um martelo melhor, trocamos. Assim como nos Estados Unidos, deveríamos nós aqui também abrir um debate, deslocando-a do terreno do mito, enraizado no pensamento mágico e não na realidade percebida, cujo efeito é lançar a cabeça no mundo imaginário e os pés num beco sem saída. Seria uma boa maneira de tirar peso dos ombros do povo.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Experimentações totalitárias em crianças

Experimentações totalitárias em crianças

Péricles Capanema

Tal pai, tal filho; filho de peixe, peixinho. Ainda, o filhote do tigre é listrado. De outro modo, quer conhecer alguma coisa? Estude as raízes, sempre um começo bom. Farei. O criador da ideologia do gênero é John Money, psicólogo e sexólogo neozelandês, nascido em 1921, falecido em 2006. Deu nova acepção à palavra inglesa gender (gênero). Em 1972, precisou sua teoria no livro Man & Woman, Boy & Girl. O livro tem como ponto de partida o episódio David Reimer, paciente dele. Era a prova de que ia no rumo certo sua teoria do gênero construído, conceito relacionado com o de atribuição sexual e neutralidade de gênero.

Vamos aos fatos. David Reimer, no batismo Bruce Reimer, nasceu em Winnipeg, Manitoba, 1965, criança normal do sexo masculino. Teve um irmão gêmeo, Brian. Com oito meses foi neles realizada operação de fimose. A circuncisão, usando método novo, lesou o pênis de Bruce. Os pais decidiram não realizar o procedimento em Brian. Angustiados, procuraram o dr. John Money no Johns Hopkins Hospital. Tinham visto uma entrevista do psicólogo, na qual defendia a teoria da neutralidade de gênero. O clínico propôs que Bruce Reimer (que foi renomeada Brenda Reimer e mais tarde virou David Reimer) como menina tivesse maturação sexual por meio da aprendizagem social. Os pais aceitaram. Aos 22 meses lhe foram retirados os testículos, vestiram na criança roupas de menina e o dr. Money começou a divulgar seu grande caso clínico, do qual ele trombeteou êxitos em artigos (falsamente, veremos). Em Brenda Reimer foi injetado estrógeno para que lhe crescessem mamas. O dr. John Money lhe deu assistência psicológica por dez anos. Escreveu: “O comportamento da criança é claramente o de uma menininha ativa, muito diferente dos modos masculinos de seu irmão gêmeo”.

Vou resumir o embuste escabroso. Brenda, de fato, não se identificou como menina. Teve infância traumática. Aos 13 anos, disse aos pais que se suicidaria se o levassem mais uma vez ao dr. John Money. Aos 14 anos, decidiu assumir identidade masculina e se autodenominou David. Em 1980, os pais lhe disseram a verdade (o pobre menino tinha sido cobaia de um grupo de estudiosos obcecados e mitomaníacos). David passou a tomar o hormônio masculino testosterona, fez ablação das mamas. Mais tarde, em 1997, contou sua situação ao psicólogo Milton Diamond que publicou os relatos, acusando John Money de falsificar pesquisas. A história de mentiras, fraudes e desvarios ideológicos foi publicada por John Colapinto em livro best-seller As Nature Made Him: The Boy Who Was Raised As A Girl. Curto, o irmão Brian morreu em 2002 de overdose de antidepressivos. Em 5 de maio de 2004 David se suicidou com um tiro na cabeça. Tinha 38 anos.

Encurtei, pus de lado, entre as várias experimentações delirantes, os ensaios de atos sexuais entre os irmãos promovidos pelo psicólogo, um deles intitulado “jogos sexuais infantis, importantes para uma identidade de gênero adulta saudável”. A história hoje está em numerosos artigos e livros. A realidade aqui foi além dos mais macabros filmes de terror. Assim nasceu a ideologia do gênero; é compreensível que seus partidários prefiram calar sobre tais origens.

Hoje, no mundo inteiro, correntes libertárias e governos de esquerda estão tentando impô-la, por vezes apenas como doutrina pedagógica. É mais, embute uma visão do homem. Na França, o governo socialista de François Hollande se viu compelido a recuos depois de forte reação popular. Entre as vozes que denunciaram o perigo esteve em primeiro plano Bérénice Levet, escritora conhecida. Em 31 de janeiro de 2014 ela afirmou ao Figaro: “Sem dúvida, a teoria do gênero enquanto tal não é ensinada na escola primária, mas muitos postulados seus ali são difundidos”. Ou seja, serve de fundamento pedagógico. Continua a conhecida autora: “Os teóricos da ideologia do gênero afirmam: a partir da convicção que tudo pode ser construído, tudo pode ser descontruído”. Observou ela, o governo, com as crianças, lançando a escola numa política de engenharia social, sem nenhum escrúpulo está brincando de aprendiz de feiticeiro. Ponderou com acerto: “Na escola primária as crianças têm necessidade de identificação, e não de desindentificação. Estamos abandonando nossas crianças a estereótipos kitsch [reles, contrafações ordinárias, se quisermos] de desenhos animados”. E advertiu: “Se existe alguma coisa a guardar dos totalitarismos nazistas e estalinistas é que o homem não é um simples material que se pode moldar. Com a ideologia de gênero, a aposta é antropológica”. Ou seja, está em jogo a própria noção de pessoa humana.

No artigo anterior, tratei do desprezo e da desobediência de tradicional colégio religioso a advertências de Bento XVI e do Papa Francisco a respeito. Continuo na mesma direção. Em abril de 1998, a Conferência Episcopal Peruana, por meio da Comissão Episcopal do Apostolado Leigo e da Comissão da Mulher emitiu advertência gravíssima a respeito: “Tem-se ouvido durante estes últimos anos a palavra ‘gênero’ e muitos imaginam que é apenas uma outra maneira de se referir à divisão da humanidade em dois sexos. Porém, por detrás desta palavra se esconde toda uma ideologia que pretende modificar o pensamento dos seres humanos acerca dessa estrutura bipolar. Os proponentes de tal ideologia querem afirmar que as diferenças entre o homem e a mulher, fora as óbvias diferenças anatômicas, não correspondem a uma natureza fixa que torne alguns seres humanos homens e, a outros, mulheres. Além disso, pensam, as diferenças de pensar, agir e valorizar a si mesmos são produto da cultura de um país e de uma época determinadas, que atribui a cada grupo de pessoas uma série de características que se explicam pelas conveniências das estruturas sociais de certa sociedade. Querem se rebelar contra isto e deixar à liberdade de cada um o tipo de “gênero” a que deseja pertencer, todos igualmente válidos. Isto faz com que homens e mulheres heterossexuais, os homossexuais, as lésbicas e os bissexuais sejam apenas modos de comportamento sexual produto da escolha de cada pessoa, liberdade que todos os demais devem respeitar. Não é necessária muita reflexão para se dar conta de quão revolucionária é esta posição e das consequências que implicam a negação de que há uma natureza dada a cada um dos seres humanos por seu capital genético. Dilui-se a diferença entre os sexos como algo convencionalmente atribuído pela sociedade e cada um pode ‘inventar’ a si mesmo. Toda a moral fica à livre decisão do indivíduo e desaparece a diferença entre o permitido e o proibido nesta matéria. As consequências religiosas são também óbvias. É conveniente que o público em geral perceba claramente o que tudo isto significa, pois os proponentes da mencionada ideologia usam sistematicamente linguagem equívoca para poder se infiltrar mais facilmente no ambiente, enquanto habituam as pessoas a pensar como eles”

Estamos diante de investida mundial levada a cabo por pessoas e grupos de mentalidade totalitária, pretendem tiranicamente moldar o homem e a sociedade a suas alucinações igualitárias. Anos atrás, 2006, publiquei livro “Horizontes de Minas” em que, numa parte, procurei descrever o perigo social que representam tais grupos e pessoas: “Pessoas de mentalidade totalitária (não são poucas, basta observar ao redor nosso) consideram o homem e a sociedade como massa amorfa, argila, plasticina, barro, sei lá, para ser modelada segundo as doutrinas que trotam na cabeça delas. Pretensiosas, impacientes, em geral arrogantes, observam mal e superficialmente. Irritam-se facilmente com a realidade. Têm obsessões. É, de fato, uma forma de mitomania. E tantas vezes essa mentalidade é a dos governantes ou do partido no poder. Tragédia certa. Dois exemplos dos Tempos Modernos: a Revolução Francesa e a Revolução Russa. Segundo seus líderes, o homem e a sociedade precisavam entrar em moldes novos. Mas os pobres destinatários da experiência social não a queriam e nem cabiam nas fôrmas. Não fazia mal. Para tais teóricos da revolução existia um remédio: terror, carnificina, ditadura. Aí esse recurso fica válido, não tem problema, pois o remédio delirante tinha por objetivo inaugurar a era da felicidade humana e da sociedade perfeita. Mas, de fato, nem a tarraxa nem a sangueira adiantam, pois a natureza humana continua a mesma. Resultado: escombros sem conta. Sem conta, não: a conta a pagar é altíssima. Isso não acontece apenas nos governos dos Estados. Situações semelhantes sucedem em empresas, escolas, famílias. Onde existem pessoas de mentalidade totalitária, e elas existem em todos os lugares”.


A ideologia do gênero tem versões girondinas (supostamente moderadas). Em suas correntes jacobinas, que levam seus pressupostos doutrinários a suas últimas consequências lógicas, postas certas circunstâncias, tem potencial diabólico (não vou fugir do termo) para repetir o terror da Revolução Francesa, da Revolução Russa e do nazismo. Reajamos logo; se demorarmos, pode ficar tarde.