quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Caldo de cultura deletério

Caldo de cultura deletério

Péricles Capanema

Dia desses, numa banca de jornal, ouvi de velhote espevitado: ▬ Quem é o maior responsável moral pela roubalheira no governo? Arriscou uma moça baixinha: ▬ O big? Os políticos do PT e também os mandachuvas dos outros partidos com eles. ▬ A dona da banca, altona, meio enfezada: ▬ Só bandalheira? Tem a carestia, desemprego. ▬ Ficou por aí a conversa. Pesadão, pensei com meus botões: ▬ Tem ainda o projeto totalitário, a agenda libertária, a busca obsessiva da hegemonia.

Responsabilidade moral, não a imediata, foi a pergunta. Ontem, por acaso, passei os olhos em subsídios preciosos para uma boa resposta. Vieram de José de Souza Martins, celebrado sociólogo, aposentado da USP, 45 livros publicados. Foi ainda professor em cursos promovidos pela CNBB. Na década de 80, discípulos seus participaram da fundação do PT e, quatro anos depois, do MST. Do ramo, se vê.

Com a segurança do grande estudioso, garante ele (Veja 2.463, páginas amarelas): ▬ O Partido dos Trabalhadores surgiu no ABC paulista. Tratava-se, do ponto de vista formal, de um partido católico. O PT foi gestado desde os anos 50 pelo primeiro bispo de Santo André, dom Jorge Marques de Oliveira. Dom Jorge me disse que os trabalhadores do ABC ficavam no Centro Operário Católico jogando pingue-pongue. Ele os incentivava a ir para a porta da fábrica. Dom Jorge inventou Lula, antes que Lula soubesse disso, ao criar as bases para o surgimento do PT”.

O professor Souza Martins simplifica. Propriamente, o PT é filho da esquerda católica, nunca medraria nos campos do catolicismo conservador ou tradicional. O que houve (e há) foi condescendência, complacência, às vezes cumplicidade, do catolicismo mainstream em relação à esquerda católica.

Volto aos trilhos. Dom Jorge (1915-1989), dos expoentes dessa orientação, está entre os oito signatários brasileiros, junto com dom Hélder e dom José Maria Pires, do Pacto das Catacumbas, de cujas doutrinas nasceu a Teologia da Libertação. Com efeito, o antigo antístite de Santo André foi assistente eclesiástico da JUC, de onde, prestigiado, saltou em 1946, aos 31 anos, para o episcopado, na ocasião o bispo mais novo do mundo. Foi sempre presença destacada nos círculos da Ação Católica a partir dos anos 40 até ser substituído em 1975 na direção da diocese de Santo André [responsável pelo Grande ABC] por dom Cláudio Hummes quem, aliás, caminhou na trilha aberta por dom Jorge.

Dois pontos importantes nas observações de Souza Martins. Primeiro, dom Jorge ▬ e, digo eu, como ele, outros bispos ▬ fez com que numerosos operários católicos, antes apáticos, se tornassem ativistas, passassem a bafejar a esquerda sindical e depois nela militassem. Segundo, sem descer até tal detalhe, está no bojo das palavras de Souza Martins, o PT germinou no caldo de cultura da Ação Católica. Dom Jorge em Santo André, à vera, cultivou tais germes com maior aplicação que outros bispos de orientação parecida. E por isso ali no ABC, como em casa própria, firmaram-se lideranças de esquerda, em particular Lula.

Convém destacar aqui, para melhor entender as observações de Souza Martins, na Ação Católica eram particularmente virulentos os germes do progressismo. Na sociedade e na política, alguns de seus seguidores se radicalizaram mais, outros ficaram pelo caminho, estacionando em diferentes graus de esquerdismo. O PDC, com faixas condicionadas por hábitos conservadores, se nutriu naquelas águas. Já a Ação Popular, de mesma raiz (saiu da JUC) foi além e, na lógica dos demolidores princípios esposados, desembocou, já marxista, na guerrilha comunista.

Agora, a resposta à pergunta do velhote. A grande responsabilidade moral pela degradação generalizada causada pelos desgovernos petistas repousa nos ombros dos dirigentes da Ação Católica que, com seus vários ramos, desde a década de 30, produziu no Brasil gigantesca mudança de convicções e mentalidades, em graus diferentes favorecedoras da esquerda. É claro, o PT teve ainda o setor intelectual e o setor sindical de raízes laicas. Mas teriam importância reduzida, inexistisse o caldo de cultura produzido pela Ação Católica.


Em 1943, o prof. Plinio Corrêa de Oliveira, então presidente da Ação Católica em São Paulo, publicou com grande repercussão o livro “Em defesa da Ação Católica”, denúncia contra o progressismo e o modernismo, então em disfarçada e rápida expansão nos ambientes católicos. Sem essa vacina (e a ação subsequente de Plinio Corrêa de Oliveira na mesma direção) a situação nacional hoje seria bem pior. Com efeito, a esquerda católica ocupou espaços, conquistou posições importantes, como apontei aqui, criou o caldo de cultura no qual nasceu o PT, mas teve seu passo prejudicado pelo olhar desconfiado de muita gente que, esclarecida pelas posições do livro, com lucidez ali não via luta por justiça, mas ação favorecedora do socialismo, sempre flagelo dos pobres a quem enganadoramente proclama defender.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

A imaginação no poder

A imaginação no poder

Péricles Capanema

Em maio de 1968 os estudantes na Paris convulsionada proclamavam comunismo de face nova, autogestionário e utópico, oposto ao socialismo burocrático da União Soviética. Dois slogans provocaram coceira mais intensa: L’imagination au pouvoir e Soyons réalistes, demandons l’impossible (a imaginação ao poder; sejamos realistas, reclamemos o impossível). Têm algo de boutade, mas eram anúncio de enorme mudança.

Para os estudantes, era hora de a fantasia chegar ao poder. De outro modo, a inteligência vencida, perdia o governo isolado, que passava a ser compartilhado pela imaginação, até então la folle du logis (a louca da casa). E ela tornaria alcançáveis aspirações outrora consideradas delirantes. Para ambiente político novo, novas forças mobilizadoras. Turbinadas pelas emoções, se tornou crescente a importância do sonho e da utopia. Empurram para o fundo do palco os antigos programas de conteúdo estruturado, bafejados no fundo pelo iluminismo, esteado no culto da razão.

Na ocasião, como reagiu a França, vista em geral como o país do racionalismo? No primeiro momento, com pasmo e horror. O presidente Charles de Gaulle comandou gigantesca mobilização e manifestações populares contra o que chamou de chienlit (o desbordamento, a bagunça). As eleições parlamentares resultaram em enorme maioria gaullista, nunca antes alcançada, 394 deputados de um total de 487. Parecia a derrota definitiva do programa novo. Mas o maio de 1968 não era sobretudo parlamentar, nem acontecimento restrito à França.

Era parte de fenômeno universal, que visava modificar doutrinas, mas também hábitos, mentalidades, cultura. Nesses anos o movimento hippie levava ao paroxismo costumes libertários que depois, em versão menos espinhenta, tomaram o mundo inteiro. John Lennon a ele emprestou sua voz em Imagine (composta em 1971), canção recebida em delírio pela juventude burguesa no mundo inteiro:

Imagine, não existe o Paraíso [...]
Imagine todas as pessoas
Vivendo apenas para o presente

Imagine não existir países [...]
Nada pelo que matar ou morrer
E nenhuma religião também
Imagine todas as pessoas
Vivendo a vida em paz

Você pode dizer
Que sou um sonhador
Mas não sou o único
Tenho a esperança de que um dia
Você se juntará a nós
E o mundo será como um só

Imagine não existir propriedades [...]
Uma irmandade do homem
Imagine todas as pessoas
Compartilhando todo o mundo

Em 1975 Paulo VI advertiu que “psicólogos e sociólogos afirmam ter o homem moderno ultrapassado já a civilização da palavra [...] e viver a civilização da imagem”. Repito, a palavra, expressão da lógica, decaía; a imagem, aninhada na fantasia, subia. Em consequência, na política, de forma crescente, o inesperado e o despropositado vão estar presentes no cenário, com riscos evidentes.

Em 2011, dois movimentos, o Occupy Wall Street nos Estados Unidos e os Indignados na Espanha, ecos longínquos do maio de 1968, repercutiram mundo afora, com apelos contestatários e anticapitalistas. Na Espanha, efeito imediato, surgiu o Podemos que, nas últimas legislativas, obteve 20,6% dos votos e 69 cadeiras numa câmara de 350. Nos Estados Unidos, o Occupy Wall Street tem sensível influência nas posições do senador Bernie Sanders, que disputa com Hillary Clinton a indicação democrata. A eleição de Barack Obama já se deveu muito à emoção e ao sonho.

Não só à esquerda se aninha a coceira pelas fórmulas salvadoras, de grande carga emocional. Contamina também a área conservadora. Exemplo, a ascensão desnorteante de Donald Trump. Jeb Bush, em certo momento, com seu ar razoável, meio sem graça, foi o candidato com maiores chances. Dificilmente se reerguerá, escrevo logo depois das primárias de Iowa.


Donald Trump muda de partido, muda de opinião, tem posições claramente irrealizáveis, agride sem razão, por vezes desagrega o universo conservador. Nada em seu passado afiança que no poder será fiel à pregação de campanha. Mas desperta sonhos. Continua formigando no público conservador o comichão de apoiá-lo. Outro traço preocupante, pregação com indisfarçável nota bonapartista, o chamarisco da eficiência simplificadora. Lembro, diante do país esfacelado pela Revolução Francesa, o povo buscava desesperadamente um salvador; para restabelecer a ordem se apresentou um general jovem, resoluto, vitorioso (nada faz tanto sucesso como o sucesso). Outra possibilidade, a França tinha, longe, esfumaçado, um pretendente (o conde de Provença, futuro Luís XVIII) imerso nas brumas inglesas, ornado apenas com os encantos da legitimidade. Aclamou Napoleão, vieram a seguir, de cambulhada, cerca de quinze anos de guerras e convulsões sociais. Finalmente foi chamado Luís XVIII que, na pátria devolvida a seus limites naturais, repôs as coisas num caminho de normalidade. A propósito, difícil negá-lo, Jeb Bush em algo lembra Luís XVIII. Moral da história, sempre arriscado a imaginação tomar o poder.

domingo, 17 de janeiro de 2016

Privatização selvagem

Privatização selvagem

Péricles Capanema

Defendo a privatização, só traz problemas o Estado agigantado. Seguidor da doutrina social católica, de outro modo, do princípio de subsidiariedade, as tarefas estatais, em princípio, são as que o particular não pode levar a cabo. E a economia é tarefa dos particulares.

Contudo, analisei com desconfiança o anúncio de que a Petrobrás, premida por agudos problemas de caixa, vai vender ativos. De começo, sua fatia na  Braskem, 36%, e parte da BR Distribuidora. Anunciou ainda a venda da Transpetro (54 navios, 49 terminais, estações de bombeamento, fora o resto) no pacote. Ivan Monteiro, diretor da Petrossauro, comunicou, outros ativos estarão à venda, entre 20 e 30, para arrecadar, só em 2016, em torno de 14,4 bilhões de dólares: “14,4 bilhões de dólares em desinvestimento é o nosso piso, e não a meta”. Privatização gigantesca. De si, ótimo; se os ativos do sistema Petrossauro estivessem há muito tempo em mãos privadas, gasolina mais barata, produção lá em cima, teriam lucrado o Brasil e o povo.

No caso em pauta, péssimo, é minha convicção. Podem escrever, vem aí entrega maciça de ativos valiosíssimos, patrimônio público, a preço de banana, privatização selvagem. Mesmo sem a habitual roubalheira, é o que se deve esperar da incompetência petista. E é a melhor hipótese.

De momento, é outra a hipótese mais provável. Selvagem, mas direcionada. A Petrobrás fala em capitais nacionais e estrangeiros interessados nas compras. Até aí, tudo bem. Só até aí. Um palpite: o capital estrangeiro que vai se interessar será sobretudo o chinês. Já se fala que os chineses estão interessados em duas unidades da Petrobrás, ainda em construção, localizadas em Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. Ponto delicado, não será capital chinês privado, será dinheiro de estatal; atrás dele está o Estado e o PC da China. Prestem atenção, se nas compras aparecerem os acrônimos CNPC, Petrochem e CNOOC, siglas da China National Petroleum Corporation, China Petrochemical Corporation e China National Offshore Oil Corporation, é grana estatal, é o PC chinês enfiando mais suas garras no Brasil, nesse misterioso processo de submissão do país à China, que caminha célere, envolto por silêncio enigmático. Avanço no palpite. Já vão mar alto as conversações entre membros do PT e do PC chinês para entregar na bacia das almas tais ativos à China. O futuro dirá se tenho razão. Se estiver errado, ótimo. Recordo, a China tem interesse em neutralizar sua dependência de alimentos brasileiros, exemplo a soja, e uma maneira é se fazer forte aqui dentro. Outra lembrança, mais importante, os líderes do PC chinês não são comerciantes, são ideólogos revolucionário, com plano de conquista e hegemonia mundial.

Volta à trilha. E se nem a venda dos ativos tapar os buracos da Petrobrás? Elementar, meu caro Watson. Você vai tapá-los, contribuinte, o governo já está preparando o público para o Tesouro entrar com a dinheirama. Em 15 de janeiro, café da manhã, respondendo à pergunta simples da jornalista: “A União pode vir a ajudar a Petrobrás a se capitalizar”? a Presidente respondeu em palavras objetivas, claras, concisas, elegantes, enquadradas por raciocínios precisos. Extratos aqui, integra no site da Presidência: “Ô gente, cês lembram, nós começamo a falá qui tinha chegado ao fim do superciclo das commodities, nós mesmos, é, levamos um tempo pra percebê, nós e o mundo, essa, num fomos só nós não, mas se vocês perceberem houve uma inflexão bastante grande no final, hoje, olhando de agora a gente vê isso, né?, começô a havê uma inflexão a partir do final de 2013, tem gente qui diz qui isso veio de antes. Né, tem analistas econômicos qui dizem qui veio antes. Começô os indícios antes. Mas nós tamos assistindo a esse fim do superciclo qui afeta não só o petróleo, afeta minério de forma profunda, né, o minério inclusive cai é de forma tão acelerada quanto o petróleo. No caso do petróleo, dizem que tem três razões. Uma razão seria um excesso de oferta, uma outra razão seria uma queda na demanda, que é o outro lado do excesso de oferta por razões diversas e um terceiro lado qui diz também qui tem uma variante financeira, tá?, porque o mercado é financeirizado, qui leva a uma pressão baixista. Sem sombra de dúvida, um petróleo a preços mais baixos vai alterar de forma, mais baixo que os trinta dólares, então vai alterar de forma substantiva a economia internacional. O que acontecerá com o petróleo qui pelo menos eu acho qui você desde o final da década de 90 até hoje ele nunca esteve aos níveis qui alguma alguns bancos internacionais tão dizendo que ele vai chegá. Agora, se ele vai chegá, num sei e ninguém sabe porque ninguém pudia dizê no final, aliás, até o final de 14 que ele chegaria a trinta. Ninguém puderia dizê. Mas são dois fatores, ele e a desaceleração da China qui eu acho qui criam um quadro novo no cenário internacional. Não é só a Petrobrás qui tem de pensá o qui vai fazê. [...] O que cada um vai fazê, vai sê algo qui vai sê objeto duma imensa discussão e está sendo já e não afeta exclusivamente a Petrobrás. A Petrobrás é uma das maiores empresas desse país. O governo sempre estará preocupado com a Petrobrás, principalmente quando os fatores que levam a esta situação são fatores exógenos a ela, que ela não controla. Então nós todos teremos de nos preocupá bastante com o que ocorrerá agora. Esse é um processo que tem de se evitá o máximo [...] a fazê projeções sinistras. É fácil que nós, outro dia eu li num jornal dizendo o seguinte, a Petrobrás para cum o petróleo a trinta, para não, para nada, tanto que não para que ela continua, né? Tanto qui não para que num é essa situação qui leva a nós nos preocupá com a Petrobrás. Agora todas as empresas de petróleo, as chamadas majors, estão preocupadas, porque o petróleo a trinta, por exemplo, tem segmentos internacionais, como aquelas areias do Canadá que parece, vô falá parece, segundo alguns analistas econômicos da área do petróleo, parece que não são mais viáveis.[...] Nós não descartamos [...] qui vai sê necessário fazê uma avaliação se esse processo continuá, agora, não é nós governo brasileiro qui descarta, nenhum governo vai descartá, inclusive a política do FED de redução de juros. Todo mundo vai olhá o qui vai acontecê. Agora eu acredito qui os fatores eles têm essa dinâmica qui a parti de um certo momento os próprios fatores qui levam à queda começam a contê o patamar de queda. Quais sejam? Eu posso dizê”


Disse, enfiada sem fim de obviedades. português e lógica espancados impiedosamente. Em resumo, se necessário, o governo põe dinheiro na Petrobrás. Então, se a privatização selvagem não for suficiente, o governo, com seu dinheiro, vai tapar os buracos que ele mesmo cavou. Para isso, tira da saúde, da educação, dos aposentados, sei lá mais o quê, tudo o que for preciso para salvar a Petrossasuro. Aviso final: olho nos novos donos, entre eles, destacado, pode estar o PC da China. Se continuarmos dormindo, mais dias, menos dias, será o nosso dono.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Horror divertido

Horror divertido

Péricles Capanema

A presidente Dilma Rousseff em 7 de janeiro último durante café da manhã concedeu sua primeira entrevista de 2016 aos jornalistas acreditados no Planalto. Discorreu em especial sobre a política econômica do governo. Não leu, apenas respondeu a perguntas. O vídeo e o áudio estão no site da Presidência da República, consulta livre. Ocorreu o que sempre acontece quando a presidente não lê textos preparados por outros. Com empáfia, do começo ao fim, a locução estapafúrdia, evidência do pensamento confuso, acompanhada de explicações professorais de assuntos corriqueiros, sintomas da vagueação primária. A plateia a escuta com horror divertido. Para nós, já que nunca se viu gente de reflexões desnorteadas apontar o norte, sem fatos supervenientes, com sorte, teremos para o Brasil direção atrabiliária até 2018, com sofrimentos em especial para os mais desassistidos. Muitos deles, perfeitamente evitáveis.

“Eu quiria comprimentá vocês, dizê que nós tamos fazendo  essa essa conversa que tinha qui sê pré o dia 31 de dezembro tradicional, nós tamo fazendo pós, mas não tem importância porque estamos comemorando aí o 24, o 31 e o Dia dos Reis, que foi ontem, hi. Então, tá tudo nos conformes. Eu quiria comprimentá cada um dos jornalistas aqui presentes que cobrem tradicionalmente o Palácio do Planalto, cobrem aqui em Brasília, dizê que nós estamos aqui com o ministro Edinho, o secretário de imprensa e o nosso conselheiro Carlos Villanova. Quiria dizê também qui eu prifiro hoje que a gente faça perguntas, comece com perguntas. Na medida qui as perguntas vão ocorrendo, né?, eu falo. Por que isso? Por que nós vamos ter um tempo menor. Mas mesmo tendo um tempo menor, eu quiria que vocês tivessem um tempo maior. [...]

Pergunta: Catarina Alencastro, d’O Globo. O ministro Jaques Wagner ontem disse que não tem um coelho na cartola para salvar a economia. Eu queria saber qual é a estratégia econômica que o governo está programando para esses próximos tempos. Obrigada.

Presidente: “Olha, eu acho qui num tem uma, não tem um coelho numa cartola, porque a questão da istabilidade macroeconômica, ela tem a ver cum algum, eu diria assim, dois grandes, duas grandes ações, qui uma está ligada a outra, qui nós temos de encaminhá. A primeira é a istabilidade macroeconômica. A istabilidade macroeconômica, ela tem o seguinte componente fundamental: o reequilíbrio fiscal do país, né? Nós viemos perdendo receitas de forma sistemática. Mesmo com os cortes significativos que fizemos nas despesas, nós tivemos quase 104 bilhões, nós não conseguimos superá a queda acentuada da arrecadação decorrente do fato de tê havido uma redução de juros, aliás desculpa, de lucros e salários. A arrecadação também sofreu profundamente com o fato di qui houve nos últimos dois anos, si ocê considerá todo o ano de 14 e o de 15 uma queda qui evidencia o fim do superciclo das commodities. Então também todas aquelas commodities qui são base da arrecadação do país, porque vamo lembrá qui são base da arrecadação, tanto as minerárias como as petroleiras. Uma das fontes fundamentais de arrecadação do governo federal é tributar toda essa atividade. Então considerando que tudo isso caiu de forma bastante acentuada e hoje por exemplo não há quem discuta se há ou se não há o fim do superciclo das commodities, isso é dado, porque havia, no final de 2014 havia. Achavam que não tinha, qui isso era o governo que tava falando para por algum outro motivo. Isso provocou uma queda das receitas. Então nós tivemos de cortar bastante despesas, se a gente olhá os dos 134 bilhões de redução de despesas qui nós fizemos né?, nós reduzimos discricionárias e também de reduzimos obrigatórias. Se eu não me engano, 82 e pouco de discricionárias e 25,6 de obrigatórias. A diferença disso pra 134 é o que nós aumentamos de receita. Ou seja, muito pouco. Para explicar o porquê qui mesmo assim você tem um problema fiscal ainda. Então, a primeira questão nessa nossa equação é enfrentar o reequilíbrio fiscal. Isso é muito importante porque enfrentar o reequilíbrio fiscal impacta também na melhoria das condições de inflação e as duas questões têm a vê também cum um o segundo elemento da nossa cunversa qui é a volta do crescimento. É sabido qui é muito difícil você fazer um processo de reequilíbrio fiscal se, pelo menos, parar com a queda da atividade econômica, porque a atividade econômica alimenta os outros dois fatores, né? A atividade econômica, ela sustenta essa redução, tanto das necessidades de receitas e cortes de despesas, ela vai aumentar a arrecadação naturalmente e também ela tem um efeito bastante significativo quando melhora ao equilíbrio fiscal ela impacta também de forma bastante positiva na questão do crescimento. Então, esses dois fatores, resumindo, estabilidade com crescimento, são fundamentais. Um vai garantir a estabilidade fiscal e o combate à inflação, e o outro vai realimentar isso de forma sustentável para que a gente possa, de fato, superar esse processo. Então, hein, vamos dizê, no conceito geral, seria isso. A curto prazo, tá?, nós temos, nos próximos três meses ações que nós vamos perseguir. Primeira ação: eu vou tentar sintetizar em três. Mas a primeira ação. Nós temos de aprovar as medidas provisórias tributárias que estão no Congresso. Uma qui além, que a gente pode sintetizar, chamando de juros do capital próprio, ou seja, uma alteração nas condições de tributação dos juros sobre o capital próprio, e a outra só sobre ganhos de capital. Além dessa duas medidas tributárias, é fundamental depois a gente pode fazê uma fala só sobre essa questão, a aprovação da DRU e da CPMF”.


Continua na mesma toada até o fim, mais de uma hora depois. Pensando bem, teria sido melhor dar ao artigo outro título: Degradação.

domingo, 10 de janeiro de 2016

O Brasil servo

O Brasil servo

Péricles Capanema

A bancada do PT na Câmara Federal encaminhou ao governo documento contendo sugestões para combater a crise econômica na qual o partido jogou o país. O texto reconhece de saída “o segundo mandato da presidenta Dilma se iniciou com a necessidade do ajuste das contas públicas visando evitar perda do grau de investimento; essa perda aumentaria o custo do financiamento externo e reduziria o volume de crédito para as empresas brasileiras e para o setor público”. Roubalheira, incompetência, total irresponsabilidade e ainda a cegueira ideológica nos lançaram da altura de bons pagadores para o buraco dos caloteiros, a perda do mencionado grau de investimento; agora, mais pobres, com dinheiro mais curto e mais caro, o PT se aproveitou da situação e tirou da cartola proposta explosiva. Pior, dela não se fala.

As medidas de recuperação incluem as habituais e controvertidas receitas, taxação sobre grandes fortunas, elevação da alíquota do imposto de renda das pessoas físicas para até 40%, volta da CPMF e legalização dos jogos do azar. Delas não falo aqui.

Trato de outra, facada no coração do Brasil: “A China tem um conjunto de bancos de fomento que ofertam linhas de crédito e investem em projetos no exterior. Esses bancos têm incrementado sua presença na América Latina. Recentemente, o Banco de Desenvolvimento da China (BDC) assinou um contrato de financiamento com a Petrobrás no valor de US$3,5 bilhões de dólares a ser desembolsado entre 2015 e 2016. A possibilidade de captação de linhas de financiamento de bancos estatais chineses deve ser melhor explorada. (...) Existe possibilidade de acordos com a China para captar linhas de financiamento de capital de giro de empresas nacionais”

Até aqui o documento do PT. À vera, vem de longe a política chinesa de estabelecer Estados clientes na América do Sul. Os deputados do PT, evidenciando o apoio do partido a esse plano, só empurram mais na direção do Brasil manietado. Além dos empréstimos, no mesmo rumo, estão os tratados comerciais que, proporcionalmente, vão nos afastando da área europeia, norte-americana e japonesa e nos atando ao mercado chinês. A China já é a maior parceira do Brasil, somos grandes fornecedores de commodities, matérias primas e alimentos; em troca, recebemos de forma crescente produtos industrializados. Lembra – não pouco, aliás – a situação das antigas colônias em relação às metrópoles. Também em relevo, a compra frenética pelos chineses de ativos no Brasil e ampla política de softpower como cursos de mandarim, exposições, viagens. E estão no horizonte as pressões sobre empresas brasileiras na China.

O PT está encharcado do internacionalismo revolucionário, em especial de raiz marxista, que considera nações e Estados anacronismos a serem extintos na fase da vitória final do proletariado, com a generalização da vida comunal igualitária sonhada por seus ideólogos. E então, por razão doutrinária, a massa de seus dirigentes faz pouco caso do que considera a velheira obsoleta do amor ao país, de onde brota o apreço pela soberania. Em harmonia com sua inspiração ideológica, cumprindo de fato missão revolucionária, estimula e adensa política entreguista, alinha o Brasil aos objetivos do PC chinês. O texto é claro, os empréstimos devem ser pedidos a órgãos estatais da China, de outra forma, ao Estado chinês, dirigido pelo Partido Comunista. E que, em hora oportuna, ninguém de bom senso duvida, objetiva e implacavelmente, vai usar tais instrumentos para fazer valer suas vontades.

Por falar nisso, em nenhum momento, o documento do PT sugere buscar financiamentos no Japão, Estados Unidos, países da União Europeia. Foge deles como o diabo da Cruz.

Esses empréstimos, vários e vultosos, feitos pela Petrobrás na China têm cláusulas secretas. A própria empresa alegou confidencialidade (eufemismo para secreto) das condições de financiamento. E já aqui, sem conhecê-las, arrisco palpite com 100% de acerto: tais cláusulas contêm contrapartidas lesivas aos interesses do Brasil.

Dou um exemplo na vizinha Argentina. Ali desperta enorme preocupação a cessão de duzentos hectares na província sulista de Neuquén para uma estação espacial chinesa. Ricardo Adrián Runza, engenheiro especialista em defesa e segurança adverte: “Nossos políticos nacionalistas e populistas entregaram nossa soberania a uma potência estrangeira. A empresa responsável pela execução deste trabalho e que terá a responsabilidade de operá-lo depende das Forças Armadas da China”. A cessão é por cinquenta anos, renováveis por mais cinquenta. A oposição falou em cláusulas secretas. É só o começo. E nem é o mais importante o braço militar chinês sobre duzentos hectares da Patagônia. O decisivo é a inserção chinesa na economia, na sociedade e na política, lá como cá.

Para concluir, dias atrás Lúcio Vieira Lima, destacado deputado peemedebista, hoje partidário do rompimento da aliança com o PT, apontou o óbvio ululante: “É um governo totalitário. O chavismo no governo sempre foi um sonho do PT, e agora passa a ser o Brasil o polo mais importante desse projeto hegemônico e totalitário das esquerdas da América do Sul”.


Assim, contra o Brasil se fecham as duas pinças da turquesa: de um lado, pressão do PC chinês; do outro, o projeto hegemônico. Processo longo para uma vida humana, curto para a História. Descuidados, saímos aos poucos a liberdade e afundamos na servidão dos Estados satélites. Remédio?, fim do desleixo, cuidarmos do caso.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Até o futuro não é o que foi

Até o futuro não é o que foi

Péricles Capanema

Andamos tão encalacrados que murchou a ilusão do futuro radiante; tem um lado bom, começa a aparecer mais claro um problema generalizado entre nós, o voluntarismo onírico. A fuga da realidade tem jogado o país seguidas vezes no fundo do poço. Seduzidos por miragens, que não era difícil perceber, elegemos Lula e Dilma, no total quatro vezes. E chapinhamos agora na bandalheira como sistema beirando perigosamente o totalitarismo. Existem atenuantes? Sim, o mais eficaz deles, as mentiras da última campanha impactando em especial os dependentes do Bolsa Família.

Recordo dois fatos de relevo em nossa história. Lá atrás, a novidade, espécie de bruxedo, já enfeitiçava; a República pôs para fora o Império. E logo o governo Deodoro da Fonseca aplicou uma política econômica, nos traços gerais igual à nova matriz econômica do governo Dilma: crédito farto sem lastro com o fito de gerar, artificialmente, crescimento. As consequências da gastança foram as de hoje, inflação, fuga de capitais, crise fiscal e dificuldades de pagamento da dívida pública. O encilhamento e na mesma ocasião a ditadura de Floriano desmoralizaram o lero-lero ufanista que havia acompanhado a proclamação da República. Campos Sales repôs a política econômica nos trilhos do realismo. O segundo, recaída ainda recente, a Nova República de 1985 praticou longamente o voluntarismo mais que onírico, delirante. Os políticos proclamavam eufóricos, estavam varrendo o entulho autoritário e aplicando medidas de salvação da pátria. O delírio rápido deixou sequelas graves: o país empacou, a inflação disparou; na década de 80 foi de 36.850.000%. Fora o resto; por exemplo, quem seguiu as votações na Constituinte se lembra do desparafusado artigo 192, o dos juros de no máximo 12% ao ano, posteriormente quase todo eliminado pela Emenda Constitucional nº 40. O Plano Real, algumas emendas constitucionais e leis de responsabilidade fiscal permitiram ao povo respirar. As doidices da nova matriz econômica aliada à incompetência e à ladroagem nos jogaram de novo no fundo do poço.

Existe o perigo de nova recaída? Basta observar a movimentação dos políticos que, sentindo o cheiro dos votos, deixam suas agremiações e se alistam na Rede Sustentabilidade (a pajelança nova, com nota desagregadora e libertária semelhante à do Podemos espanhol). E o novo partido, que nem quer ser chamado de partido, vai seduzindo multidões atrás de novidades. É sabido, a chefe, Marina Silva, cevada por décadas nas alas mais à esquerda do PT, sempre foi grã-xamã na difusão de sonhos demolidores. E vem aí o (ou a?) Raiz Movimento Cidadanista da deputada Erundina, mesmo descaminho.

Simplifico, trato só de um aspecto, fica mais fácil. O que pode fazer o Brasil deixar de ser eternamente o país do futuro, exprime-se em três palavras: aumento da produtividade. Em 1980, a produtividade do trabalhador brasileiro era 40% da existente nos Estados Unidos. Hoje, caiu para 24%. Produtividade influencia crescimento, salários, padrão de vida, competitividade, políticas sociais. Nenhuma vontade política substitui a criação de riqueza. Produtividade aqui é o Produto Interno Bruto dividido por trabalhador empregado.

Fator essencial para o aumento da produtividade é qualidade na mão de obra. A respeito, Renato Janine, ministro da Educação até outubro último, mostrou quadro aterrador: “Em 2014, dos alunos de terceiro ano do fundamental na escola pública do Brasil inteiro, isto é, meninos e meninas em torno dos 8 anos de idade, 22% não sabiam ler, 34% escrever e 57% não dominavam as quatro operações matemáticas. O problema é que, a partir do quarto ano, a escola vai tratá-los como se soubessem ler, escrever e fazer contas. Pensem nisso: três quintos das crianças não sabem calcular direito. Essa multidão terá um futuro profissional e pessoal limitado. O Brasil se dá assim ao luxo de descartar quase 60% dos seres humanos que poderiam ser bons profissionais e cidadãos informados. Tenderão a ficar numa segunda classe da sociedade. Alguns podem ser “salvos” depois. Mas, se não deu certo na hora certa, corrigir os danos mais tarde será caro e improvável”. Aponta causa determinante: “Um dos erros estruturais que o País cometeu foi descuidar da formação dos alfabetizadores. As antigas escolas normais, que eram estabelecimentos de ensino médio, formavam professoras alfabetizadoras. Na década de 1990, decidiu-se que professores da educação básica precisavam de graduação universitária, mas isso deixou a formação dos alfabetizadores em segundo plano. Hoje, precisamos fazer as correções na formação dos professores”. Ninguém vai fazer, infelizmente. A Pátria Educadora vive de sonhos.

Na mesma direção, os cursos de capacitação melhorariam a eficiência da mão de obra. Vejam a diferença. Hugo Braga Tadeu, da Fundação Dom Cabral, observa, em treinamentos de qualificação um americano recebe anualmente entre 120 e 140 horas. No Brasil, são 30 horas.

Além da qualificação da mão de obra, a produtividade seria favorecida por medidas como boa infraestrutura de transportes, inovação tecnológica, processos administrativos eficazes. Em outro plano, clima favorável aos investimentos, refletido na estabilidade dos contratos, garantias para a propriedade privada e livre iniciativa. O normal entre nós são inesperadas mudanças de rumo e seguidas loas ao estatismo. Faz pouco José Guimarães, líder do governo na Câmara declarou que “nesse momento o Brasil precisa de mais Estado e menos mercado". Imaginem o calafrio na espinha de possíveis investidores, aqui e lá fora. Não espanta, dos 121 países pesquisados pela respeitada instituição The Conference Board, sediada em Nova York, o Brasil, em produtividade, está na posição 81.

Por que afirmo, até o futuro já não é o que foi? Antes, em alta o ufanismo nacionalista, ouviam-se ditirambos a toda hora, somos o país do futuro, até modelo de civilização, pois temos povo cordato, grandes recursos naturais, clima bom, ausência de calamidades na natureza, grandeza territorial e ainda a beleza da terra. Coisas assim. Emudeceram, sintoma de maior disciplina mental e atenção crescente nas vantagens do esforço metódico.


Lembro comentário cáustico de Clemenceau, exato há mais de século: “Le Brésl est um pays d’avenir et qui le restera longtemps” Em tradução livre, o Brasil é país de futuro, ficará assim por muito tempo. Para desmenti-lo, urgente a renúncia ao voluntarismo onírico. Tem mais coisa, sei, mas acho útil destacar este ponto. “O início da sabedoria (no caso, do esforço inteligente e sistematizado) é o temor de Deus”, dirá alguém, falta isso. Corretíssimo. E acrescento, no capítulo, o autor sacro compara a sabedoria ao governo da mãe de família. Para o Brasil, seria grande começo o realismo dela. Feliz 2016!

domingo, 20 de dezembro de 2015

Tinindo nos cascos

Tinindo nos cascos

Péricles Capanema

Quinta-feira passada, 17 de novembro, o Supremo definiu o rito do impeachment, decisão acolhida com satisfação pelo Palácio do Planalto. Destacou-se ali a dissidência lúcida dos ministros Gilmar Mendes, José Antônio Dias Toffoli e Luiz Edson Fachin. Dia seguinte, Gilmar Mendes fez gravíssimas considerações à Jovem Pan: “Lembra que eu tinha falado de cooptação da Corte? Imagine, diante desse quadro de grave crise de corrupção, nós vamos ficar fazendo artificialismos jurídicos para tentar salvar, colocar um balão de oxigênio em alguém que já teve morte cerebral. É claro, há todo um processo de bolivarização da Corte. Como se opera em outros ramos do Estado. Ontem, nós demos mostras disso”.

Dois pontos tocados pelo ministro: o Supremo está sendo cooptado; o outro, padece processo de bolivarização. Cooptar é tornar alguém cúmplice de ação comum; no caso do governo. Bolivarizar uma instituição é fazê-la agir como agem as instituições na Venezuela, na prática funcionários submissos do partido no poder. No caso, seria julgar como quer o PT e o governo.

Passo agora a outras declarações, também de ministro do Supremo, de momento na presidência. Em 2007, Ricardo Lewandowski, no auge do mensalão, falou por telefone com o irmão Marcelo; Vera Magalhães, repórter da Folha, ao lado dele, ouviu partes do diálogo. E publicou. A respeito da condenação dos petistas graúdos, Lewandowski afirmou: “A imprensa acuou o Supremo. Todo mundo votou com a faca no pescoço. A tendência era amaciar para o Dirceu”. Mesmo ele, o mais macio com os graúdos do PT, teria sido mais brando não fosse a posição dos meios de divulgação: “Não tenha dúvida. Eu estava tinindo nos cascos”. Ia dar coices ainda mais favorecedores ao PT, claro. Ellen Gracie, na ocasião presidente do Supremo, ecoou em nota o mal-estar dos demais ministros: “O Supremo Tribunal Federal vem reafirmar o que testemunham sua longa história e a opinião pública nacional, que são a dignidade da Corte, a honorabilidade de seus ministros e a absoluta independência dos seus julgamentos”.

Em reta, o temor de Gilmar Mendes é termos, como na Venezuela, ministros do Supremo, tinindo nos cascos, dispostos a escoicear fatos, pessoas e leis para favorecer um partido no caminho da conquista totalitária do poder.

Já sofremos a bandalheira dos treze anos do petismo no poder. Na bolivarização. além de aumentar a corrupção, crimes piores se tornam comuns. Os Estados Unidos detiveram no Haiti um afilhado de Nicolás Maduro, Efraim, criado por sua esposa Cilia Flores e a Francisco Flores, sobrinho dela, quando transportavam quase uma tonelada de cocaína para os Estados Unidos. Efraim vivia com o casal Maduro. Os dois detidos disseram agir a mando de Diosdado Cabello (presidente da Assembleia Nacional) e de Tareck el Aissami, governador de Aragua. Na mesma direção, em maio último havia sido detida no aeroporto Mirian Morandy, juíza do Tribunal Supremo de Justicia (o Supremo de lá), quando tentava viajar com Richard José Cammarano James, traficante conhecido. A juíza foi libertada por ordem do governo. É o mundo da bolivarismo, com tentáculos América do Sul afora.

Tem mais. Toffoli, presidente do TSE, advertiu dias atrás: “Entre as nossas maiores preocupações, está a de que campanhas venham a ser financiadas por dinheiro oriundo de narcotráfico. Não há mais pessoas jurídicas doando para campanhas, mas nós sabemos que o mundo real busca suas alternativas". O temor é que, sem empresas doando oficialmente, aumente o caixa 2; e aí jorre o dinheiro do narcotráfico, pois as campanhas eleitorais continuam caras como antes. Nessa marcha, é o futuro nacional que assoma. E nele, o Brasil que não presta, tinindo nos cascos, vai escoicear o Brasil que presta, como a oposição hoje é agredida na Venezuela.


Tudo isso afirmo só com base na autoridade de Gilmar Mendes e Dias Toffoli? Valem muito, mas há outra, maior: a realidade. Os fatos nos apedrejam.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Nos Estados Unidos, rumo na preocupação; o Brasil perdeu o norte

Nos Estados Unidos, rumo na preocupação; o Brasil perdeu o norte

Péricles Capanema

Vejam a diferença. 16% dos norte-americanos consideram o terrorismo seu mais importante problema. A porcentagem sobe para 24% entre os republicanos, desce para 9% entre os democratas e fica em 15% nos independentes. É a mais alta porcentagem em uma década. Desde 2007, estava em menos de 10%, por vezes menos de 1%. 59% dos norte-americanos consideram provável um ataque terrorrista contra os Estados Unidos nos próximos meses. 41% acham que as ameaças terroristas contra os Estados Unidos aumentaram desde 11 de setembro de 2001. Em comparação com cinco anos atrás, 39% se sentem menos seguros. A confiança do povo no governo para protegê-lo do terrorismo é a menor desde que o Gallup começou a fazer a pesquisa. Com tal fundo de quadro, mesmo que desparafusadas, tornam-se pelo menos eleitoralmente compreensíveis declarações recentes do pré-candidato Donald Trump contrárias à entrada de muçulmanos nos Estados Unidos.

Os índices refletem em parte o impacto dos recentes atentados jihadistas em Paris e San Bernardino. Mas a imagem geral é de um povo que se sente agredido, olha com desconfiança o mundo, deseja rápidas e eficazes medidas de proteção. Em reta, um povo com rumo que na caminhada vislumbra preocupado um obstáculo perigoso; não se abate, quer vencê-lo, avança contra ele.

Virando a página; no Brasil, segundo o Datafolha, para 34% a corrupção é o principal problema. Na sequência, saúde (16%), desemprego (10%), educação (8%), violência (8%), economia (5%). A sensação dominante é outra. O brasileiro se sente estonteado pelo cenário macabro da vida pública, escuta a respeito propostas inviáveis e não percebe saída factível. As outras preocupações também são imediatas: saúde, desemprego, violência, educação. Os problemas, como cachorros bravos, o assaltam. A questão urgente é escorraçar a matilha, o resto fica para depois. Mas aí se avulta barreira na aparência intransponível: não sabe como. Sem norte, patina, receia sangrar com as mordidas. No curto, cenário de filem de terror: o brasileiro saiu da estrada, entrou num lamaçal, tem cachorros mordendo o calcanhar, não sabe como voltar para ela.


Na cena macabra, em galhos bem protegidos, tem gente orientando os perdidos na lama a continuar andando pântano adentro. Um exemplo triste, Kátia Abreu, ex-presidente da CNA e ex-líder da bancada ruralista no Congresso. Faz hoje o que pode pela permanência de uma estrutura de poder inspirada por ideólogos coletivistas, inimigos do homem do campo livre e produtivo. Outros, com conduta parecida: Armando Monteiro, Afif Domingos, Cláudio Lembo. O histórico de vida os qualificava a uma presença construtiva e nobilitante entre nós. Escolheram voltar as costas para o passado. Suas ações pretéritas hoje servem de lastro para função política degradante: companheiros de viagem. Sem inocentes úteis e companheiros de viagem não haveria caminhada para o estrangulamento do Brasil desejado pela imensa maioria de seus filhos. A primeira providência no lamaçal: cabeça fria, procurar com olho vivo o caminho de volta para a estrada. E não escutar quem está gritando das árvores, bem protegidos, que o rumo é pântano adentro.