domingo, 30 de junho de 2019

Quem avisa, amigo é


Quem avisa, amigo é

Péricles Capanema

A Wahrton Business School da Universidade da Pensilvânia, fundada em 1881, é tida como a escola de negócios mais antiga do mundo. Seu prestígio não vem só daí; ainda hoje é dos mais importantes centros mundiais de ensino de negócios, buscado por alunos brilhantes do mundo inteiro. Da lista de 400 bilionários de 2018 da revista Forbes 19 tinham estudado na Wharton, 13 em Yale, 12 em Stanford, 12 na Southern Califórnia e 10 em Harvard. Um dos antigos alunos da Wharton é Donald Trump.

Seu reitor Geoffrey Garrett, no posto desde 2014, por óbvio é figura luminar do mundo acadêmico e empresarial. Estando no Brasil por uns dias ao Estadão fez declarações de enorme importância: “Sempre fomos conhecidos como uma das melhores escolas de finanças do mundo. Agora temos uma veia de big data”.

Finanças e big data são as atuais duas linhas principais da Wharton. Big data, sabe-se, são zilhões de informação trabalhados com tecnologia de ponta. Permitem entrar nos gostos, costumes, inclinações, posições, dados sensíveis do cidadão privado e a orientação de governos. Poderosíssimo instrumento de controle, virou objeto de preocupação de governos e instituições de estudo. A liberdade do particular e a soberania do Estado estão em jogo.

Geoffrey Garrett pôs o dedo na ferida. Chamou a atenção para as presentes relações entre Estados Unidos e China: “Não estamos vivendo uma guerra de tarifas. Vivemos uma batalha global por inovação. Estamos hoje desenvolvendo tecnologias que têm uma forte implicação de segurança nacional ▬ algo que não nos importou muito nos últimos 30 anos, justamente por conta desse otimismo global”.

Ou, por outra, essa guerra comercial não envolve apenas comércio. Vai além. Segurança nacional tem relação próxima com independência, soberania, interesses estratégicos. No verso da moeda, com dependência, protetorado, colonização. E não so dos Estados Unidos. Continua Geoffrey Garret: “Há um ponto sério que pouca gente discute. Xi Jinping, presidente chinês, já disse a toda empresa privada que, se o governo chinês quiser ter acesso a dados dos usuários, ele deverá ser concedido”.

De outro modo, o governo chinês (e o Partido Comunista Chinês, para ser mais claro) aqui têm franqueza brutal, para não deixar dúvida. Se os dados forem requeridos, é preciso entregá-los. Qualquer dado, de qualquer usuário de empresas privadas chinesas, potencialmente pertence ao governo chinês. Usará deles, se necessário.

Tal declaração, dada em solo brasileira, tem enorme relevância para o Brasil e para cada um de seus habitantes. A empresa chinesa Huawei, com apoio de parlamentares até de direita, vem tentando instalar no Brasil gigantescos equipamentos de estrutura de comunicações e vigilância. Obterá dados de praticamente todos os brasileiros. Estarão à disposição do governo chinês, é o presidente da China que garante.

Autoridades do governo brasileiro, entre as quais o vice-presidente general Hamilton Mourão, declararam que o Brasil não impedirá a empresa chinesa de operar e implantar a tecnologia 5G: “A Huawei vem sendo acusada de repassar os dados que ela tem ao governo chinês. Conversei com ele [Ren Zhengfei, presidente-executivo da Huawei] que tem que criar um clima de confiança. Enquanto houver esse clima de confiança não tem problema nenhum. O Brasil não tem nenhum plano (de restringir as atividades da empresa)”. O general Hamilton Mourão ressaltou que só quatro empresas no mundo dominam a tecnologia do 5G, duas finlandesas e duas chinesas, a Huawei entre elas.

Aqui está a exigência brasileira: manter cima de confiança. Com clima de confiança, a Huawei pode agir à vontade. Haverá leilão em 2020 para a frequência 5G.

Os Estados Unidos acham que clima de confiança é insuficiente. Não querem correr riscos e para tal ouvem especialistas. E se os argumentos são convincentes, seguem as recomendações. Na prática, estão temerosos, tomaram medidas. Colocaram a empresa na lista negra do governo americano por ameaçar a segurança dos Estados Unidos, o que a impedirá de fazer negócios com corporações norte-americanas.

Artigo circunstanciado do Financial Times de 9 de junho último assinado por três correspondentes (Jude Webber – Cidade do México, Andres Schipani – São Paulo, Benedict Mander – Buenos Aires) mostra que o problema é muito maior. Brasil, Argentina, Chile, México e Cuba não pretendem tomar medidas contra a Huawei. A situação ficará mais cômoda para a empresa chinesa se a chapa de esquerda Alberto Hernández – Cristina Kirchner vencer as eleições em 27 de outubro.

O estudo dos três correspondentes é longo e bem fundamentado. Não tenho espaço para resumi-lo aqui. Só transcrevo declarações do chanceler de Cuba, Bruno Rodriguez Parrilla: “Temos laços comerciais tradicionais com a Huawei e Cuba tem confiança inteira na tecnologia chinesa e nessa empresa em particular”. Os Estados Unidos estão perdendo “a guerra tecnológica”.

A posição brasileira tem relação com as vendas de produtos agrícolas para a China. Tem ainda relação com o desejo de ter investimentos chineses no Brasil (na prática, de estatais chinesas). E ainda com que a tecnologia chinesa é a mais avançada e mais barata,  afirmam os três jornalistas do Financial Times. Ninguém se iluda, já é o garrote chinês apertando nosso pescoço.

O recente acordo da União Europeia como Mercosul, se bem implementado, levará ar aos pulmões do Brasil. Ficaremos um pouco menos dependentes e um pouco mais senhores de nossa soberania, cada vez mais formal e menos real, se trilharmos caminho em que já andamos um tanto. É notícia alvissareira num quadro que preocupa há muito tempo e começa a alarmar. A advertência de Geoffrey Garrett foi de amigo, ficou credor de nossa gratidão. Quem avisa, amigo é.

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Lamparina na praça de máquinas


Lamparina na praça de máquinas

Péricles Capanema

Título sugestivo escolheu Roberto Campos para suas memórias: a lanterna na popa. A proa fende as águas da vida, é o presente. Parte de trás, a popa, é o passado. O texto do memorialista, a lanterna, o iluminava.

O movimento revolucionário pode ser comparado a um grande navio. Singra os mares da história humana. Tem parte pouco visitada, a praça de máquinas, onde estão seus motores, aquilo que o impulsiona. Vou entrar lá com uma lamparina, ali mostrar certos desvãos.

Tudo estava nas mãos do comunismo. Em 1917 o comunismo mais radical, sob o comando de Lênin, por meio de golpe de Estado, conquistou um império gigantesco, a Rússia. Implantou rápida e brutalmente ditadura total, governou balizado por concepções totalitárias, dominou o Estado, massacrou a oposição; enfim, o Partido Comunista tinha tudo nas mãos. Caminho desimpedido, seu objetivo, a sociedade sem Estado dos livres e iguais poderia ser implantado com celeridade, se necessário a ferro e fogo. E dali, pelo exemplo e pelos aparatos da expansão imperialista (em especial a Internacional Comunista) logo conquistaria o mundo encantado com as maravilhas da sociedade comunista ▬ os amanhãs que cantam. Havia enorme esperança no poder redentor do Estado. A superpotência comunista, o poder militar, o financiamento do comunismo no Ocidente de fato ajudaram o proselitismo e a expansão do comunismo. É realidade conhecida, a cara da moeda.

Obstáculos. Vou pôr em destaque agora o outro lado, a coroa da moeda. O mundo logo reagiu horrorizado aos espetáculos dantescos do bolchevismo. O Partido Comunista registrou o baque, não conseguia ganhar eleições em boa parte por causa da realidade no país dos sovietes. O horror da situação na Rússia cristalizou fortíssimo sentimento anticomunista e possibilitou a formação de movimentos dessa orientação no mundo inteiro, muitos dos quais tomaram o poder. Os próprios socialistas, ainda que concluindo alianças eleitorais, marcavam distâncias. Pior. O homem novo da utopia comunista não estava se formando na Rússia soviética. A liberação legal dos costumes ocorrida nos primeiros anos que deu origem a pavorosa desagregação social, foi trocada pelo enrijecimento da legislação, sob Stalin, a ponto de certas partes da legislação civil, por exemplo, as relativas ao divórcio, serem mais restritivas que disposições semelhantes vigentes em países democráticos. De outro modo, a liberação moral prometida pela doutrina era limitada pela prática, pois Stalin precisava da disciplina social para industrializar a Rússia ▬ praticava-se um capitalismo de Estado. Mais ainda. Lá o comunismo não transformava fundo as mentalidades. O russo comum era parecido com o russo sob o tsarismo.

Tudo estava nas mãos do comunismo? O Estado estava nas suas mãos, as instituições, ensino, polícia, empregos sob inteiro controle. Contudo, não o interior das pessoas, suas crenças, aspirações, gostos, costumes. Saltava à vista para os dirigentes, na política e nas esferas intelectuais, não bastava ter o Estado nas mãos para acelerar a criação do homem novo comunista. Mais ainda, era pouco ter o Estado nas mãos. E, olhando o Ocidente, era pavoroso o exemplo de sociedade comunista (tirania e miséria) que o comunismo russo lhe dava. Dele fugia o povo. Em curto, havia um impasse e a pura doutrina marxista, determinista, e tudo fazendo derivar de realidades econômicas, era incapaz de apresentar a solução.

Saídas. De passagem, em artigo anterior, “Dominação e emancipação”, postado no meu blogue (periclescapanema.blogspot.com) em 26 de junho, prometi voltar a tratar da Escola de Frankfurt. Cumpro aqui parcialmente a promessa, espero ainda discorrer mais longamente do tema. Várias foram as correntes e pensadores comunistas de partido e mesmo anarquistas que procuraram saídas para o impasse acima referido. Destacaram-se no cipoal das opiniões em choque, duas delas, o gramscismo e as doutrinas cuja origem de maneira um pouco simplificada podemos colocar na Escola de Frankfurt. É o que hoje via de regra se qualifica de forma abrangente de marxismo cultural. Antônio Gramsci (1891-1937) mostrou a importância de conquistar a sociedade civil (uma grande marcha no interior das famílias, das igrejas, do ensino, dos meios de divulgação) antes de busca o poder no Estado, etapa posterior. E Escola de Frankfurt abriu a mente de milhões de pessoas nas correntes comunistas abrigadas nos PCs ou em torno dele para a importância da destruição da família tradicional, da generalização da moral libertária, da criação de novas mentalidades e costumes, da valorização do instinto com a consequente desvalorização da razão, antes de visar obsessivamente o poder político. Em resumo, é preciso empapar sobretudo o interior das personalidades e a sociedade inteira com novos costumes e novas concepções de caráter libertário e desagregador. O poder político figura apenas como um dado a mais. Entre seus mais conhecidos representantes são mais conhecidos Herbert Marcuse (1898-1979), Max Horkheimer (1895-1973), Theodor Adorno (1903-1965), Walter Benjamin (1892-1940), Erich Fromm (1900-1980).

Um exemplo. Daniel Cohn-Bendit, Dany Le Rouge, foi ícone da revolução de maio de 68 na França. A evolução ao longo de 50 anos do que então ele representava desembocou no que hoje chamamos de marxismo cultural. Em maio de 1968 concedeu ele entrevista ao Magazine littéraire da qual transcrevo extratos. “Se quiser, sou marxista, como Bakunin. Sou muito antileninista, contra o centralismo democrático. Existem três temas importantes: a luta contra a repressão democrática, contra o autoritarismo e a hierarquia. Estes três fenômenos se encontram no Leste e no Oeste. Sou contra a sociedade soviética, sou contra a sociedade capitalista. A classe operária russa não tem nenhum poder de decisão. Não me interessa dialogar com o mito Mao. O estalinismo é a forma absoluta de repressão, uma sociedade burocratizada. Lutamos contra a repressão sexual. Marcuse na sua crítica da sociedade capitalista e na sua recusa da sociedade dita socialista é para nós um ponto de apoio”.

De forma muito resumida, é o que o prof. Plinio Corrêa de Oliveira no livro “Revolução e Contra-Revolução” intitula 4ª Revolução (sucedânea da 1ª Revolução, a Revolução Protestante, da 2ª Revolução, a Revolução Francesa, e da 3ª Revolução, a Revolução Comunista). E os temas levantados por tais correntes têm relação próxima com o que o pensador católico chama de revolução nas tendências, que em seu ensaio embasa a revolução nas ideias e depois nos fatos ▬ as três profundidades da Revolução.

A conversa desfiada


A conversa desfiada

Péricles Capanema

Provocada pelo clima de Brasília, despenca sobre nós, sem fim, a saraivada do escarcéu, desgoverno, desorientação, boçalidade e baixaria. Debaixo do granizo, difícil perceber o impulso decisivo de toda boa ação política, o agudo senso do bem comum.

Em outra comparação, a vida pública brasileira já de há décadas vem rolando em precipícios dos quais não se vê o fundo. A previsão de Ulisses Guimarães tem se verificado doloridamente, foi mais ou menos assim: “Está achando ruim essa composição do Congresso? Então espera a próxima, vai ser pior”. Imaginem, a atual já apavora, a pífia consolação é que a próxima virá pior. Toda profissão depende da qualidade de seus membros. Com tais atores, a peça não vai ter sucesso. Mas não vou jogar tudo no cangote dos políticos no Planalto Central. Fomos nós, os eleitores, que os mandamos para lá.

Não pretendo prescrever panaceias para tal situação. Faço outra coisa, da remedama necessária, tiro do estoque e ponho na vitrine só um vidrinho, cujo recheio tanto serve para a vida pública quanto para a particular. Assim, não abandono inteiramente a matéria, mas trago à baila modesta contribuição para a solução do problema, útil igualmente para a vida de todos os dias de qualquer brasileiro.

Passo a desfiar o assunto. Em política, quem sabe conversar, já tem meio caminho andado. E dou o primeiro passo com frase conhecida, política é conversa, o resto é conversa fiada, da lavra, parece, de Otávio Mangabeira. Política e tanta coisa mais é conversa, o resto é conversa fiada. Número enorme de atividades humanas descansa na conversa.

O começo é ouvir. A língua faz muita gente surda. Nada escuta, tomada pelo gosto da parolagem compulsiva e oca; quem muito fala, muito erra e muito enfada. Ouvir supõe interesse, paciência, compreensão. Benevolência. As duas primeiras estacas, interesse e paciência, seguram o andar superior, a compreensão, entender até o fundo e em todos os matizes o que está dizendo ou está querendo expor o outro. Se queres ser bom juiz, ouve o que cada um diz.

Qualquer um, qualquer outro, até os mais simples. O interesse no pequeno é estrada para entender o grande. “Aperfeiçoa-te na arte de escutar, só quem ouviu o rio pode ouvir o mar”, advertência de Altino Caixeta de Castro, o Leão de Formosa, bom poeta do Triângulo Mineiro. Nelson Rodrigues marcou o Brasil e até hoje não foi esquecido (morreu em 1980) em especial porque entre outras qualidades sabia escutar: “Posso não ter outras virtudes, e realmente não as tenho. Mas sei escutar. Direi, com a maior e mais deslavada imodéstia, que sou um maravilhoso ouvinte. O homem precisa ouvir mais do que ver. Qualquer conversa me fascina [...]. E, se duas pessoas se falam, a minha vontade é parar e ficar escutando. Uma simples frase, ainda que pouco inteligente, tem a sua melodia irresistível”.

Sentir as ocasiões dos silêncios, modular a ênfase, o timbre da voz, ter maestria nas pausas são tão ou mais eloquentes que a o impacto da palavra. Fala o olhar, o gesto fala, a atitude fala, pode valer mil palavras o sorriso. O bocejo ou um gesto brusco tantas vezes cortam mais que refutações veementes. A presença, enfim. Existem presenças estimuladoras, presenças sabotadoras, presenças opacas. Dizia-se do príncipe de Metternich que a conversa dele fazia os interlocutores se sentirem mais inteligentes.

Deixei o miolo para o fim. O anterior ajudava a realçar o principal, o conteúdo. Como enriquecê-lo? Alguns recursos, observação, explicitação das impressões, leituras, bem como, sob outro aspecto, nas ocasiões adequadas, formação sistemática e estudos. Tudo isso enobrecido pelo caráter. Aí a pessoa tem muita coisa a dizer e é útil a todos a disposição de comunicá-la.

Desfio o assunto um pouco mais. A vida política tem aspecto pouco comentado, a exemplaridade. O rei, sob tantos aspectos o mais importante político de uma nação, é naturalmente modelo para o povo, objeto de sua atenção, aprendizado e entretenimento. Basta ver a atenção que provoca a rainha Elisabeth II. O político, a seu modo e proporção, é um pequeno rei. Tem também o dever da exemplaridade. E saber conversar bem o ajudaria a cumprir tal missão.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Dominação e emancipação


Dominação e emancipação

Péricles Capanema

Amigos me solicitaram, escrevesse de novo sobre o chamado marxismo cultural ▬ de momento tão relevante e na moda em decisivos meios de esquerda e na direita ▬ e, de forma congruente, pusesse no texto informações pertinentes à Escola de Frankfurt, atemorizador negotium perambulans in tenebris para tantos e com bons motivos. Apenas como informação provavelmente inócua, o artigo anterior “Esclarecimentos sobre o marxismo cultural”, está em meu blog (periclescapanema.blogspot.com) desde 25 de fevereiro último.

Certo. Obediente, volto ao assunto. De passagem, o hoje denominado marxismo cultural foi também chamado de marxismo ocidental, aqui e ali é qualificado de Teoria Crítica, marxismo da Teoria Crítica, um dos fundamentos doutrinários da revolução cultural. Nem faz falta realçar a importância da revolução cultural (e a consequente necessidade de estudar doutrinas e métodos seus e como a eles fazer frente).

Para cortar caminho, deixar claro o desatino da escola, embarafusto antes por atalho pouco trilhado, pinceladas rápidas sobre dominação e emancipação, duas das obsessões da referida escola. Seus mais conhecidos representantes blasonavam (não custa lembrar, o marco inicial da escola poderia ser cravado em 1923, estamos em sua terceira e quarta geração) o ideal de extinguir a dominação e levar até limites ainda impensados a emancipação humana. E continuam a alardeá-lo. Não custa lembrar por cima, cada vez que líderes de orientação igual ou parecida afirmavam aplicar o marxismo à sociedade, na prática levavam a dominação e sufocavam a emancipação a extremos delirantes. A Coreia do Norte está aí, Cuba que o diga, a Venezuela sofre efeitos dantescos dos partidários da emancipação.

Sempre é bom lutar contra a dominação? Em todas as situações deve ser buscada a emancipação? Dominação vem de dominus, senhor. Dominação é o ato próprio do senhor. Se é má a condição de senhor, maus serão seus atos. Emancipação, o que é? Emancipação igualmente tem origem latina (mancipium, qualidade do proprietário). Emancipar é extinguir a tutela do proprietário sobre outro ser.

Acontece que é boa e nobre a condição de senhor. E assim, seus atos são bons. E são bons e nobres a condição de súdito e o ato de obedecer. Censuráveis, excessos e carências em ambos os casos, senhor e súdito.

Com efeito, a autoridade existe para o bem do súdito. Removê-la em determinadas circunstâncias lesa o inferior. De forma análoga, a emancipação prematura prejudica o emancipado. Enquanto dura em condições adequadas, favorece o tutelado. Retirar o filho menor da tutela do pai, emancipá-lo antes da hora, compromete presente e futuro. Mais ainda, a autoridade e a dependência prolongam bons efeitos vida afora, perfumam-na. Anos atrás, conversei com prima distante, três filhos criados, casada com advogado rico em Belo Horizonte. Aparentemente tudo ia bem. Uma queixa ia e vinha, a morte da mãe anos antes, fazia pouco o pai. Fechava e abria a mão direita. “Me sinto um cachorro sem dono”, espetou o dedo.

Em suma, é destruidor para o desenvolvimento pessoal arrebentar todas as formas de dominação e promover a desenfreada emancipação. Que o digam em lamentos lancinantes algumas regiões da pobre e devastada África. Aqui rui nas bases o edifício da Escola de Frankfurt, verdadeira Torre de Babel de incontáveis correntes de esquerda, laboriosamente edificado ao longo dos anos.

Em boa hora para a esquerda (péssima para nós) brotou a Escola de Frankfurt. Abriu-lhe horizontes, pôs em evidência matérias imprescindíveis que a doutrina marxista empurrava para o canto ou negava na bruta; enfim, fincou estacas doutrinárias a uma ação revolucionária de maior profundidade que latejava por se expandir.

Movimento intelectual, sobretudo filosófica e sociológica, passou longe do grande público, o que não significa que teve pouca importância. Lembro a propósito, cinco camadas envolvem a Terra: troposfera, estratosfera, mesosfera, termosfera e exosfera. Existem fenômenos nas quatro camadas superiores, que influenciam a troposfera, ainda que desconhecidos de nós nela imersos. Assim na sociedade humana. A Escola de Frankfurt influenciou a vida acadêmica e os estratos intelectualizados dos movimentos revolucionários no mundo inteiro. E daí seus conceitos embeberam meios de divulgação, a política, outros ambientes intelectualizados e, finalmente, a sociedade em geral. Apenas uma pequena ilustração, o maior guru do maio de 1968 e das agitações de Berkeley, um pouco antes, foi Herbert Marcuse (1898-1979), dos principais representantes da referida escola.

O marxismo, materialista, determinista e evolucionista procura explicar toda a realidade pela economia, de outro modo, pelas forças de produção. Afirmei no artigo acima mencionado: “Segundo o marxismo, o determinante na história é a economia. E na economia os meios de produção, [...] base das relações de produção. As forças produtivas e as relações de produção dariam origem aos modos de produção. Existem sete modos de produção: primitivo, asiático, escravagista, feudal, capitalista, socialista e comunista. Um leva ao outro. Temos aqui a infraestrutura. A superestrutura são as ideias e instituições (entre elas, o Estado) que justificariam e garantiriam os modos de produção. O socialismo nasceria apenas depois de a sociedade capitalista estar bem desenvolvida. Por sua vez, o comunismo só depois do desenvolvimento do socialismo. Para o momento, o importante é o determinismo da doutrina marxista. Em doutrina, por ser determinista, desvaloriza o ato volitivo e relativiza por inteiro o bom, o mau, o belo, o feio, o justo e o injusto, colocados na superestrutura, dependentes das relações de produção. Até a ação política e o proselitismo. Na prática, os partidos comunistas nunca agiram segundo a pura doutrina marxista. Não foram deterministas, esperavam da ação partidária a aceleração do dia em que surgisse o homem novo sonhado pela utopia.”

Antes, tínhamos o marxismo focado em fatores econômicos. Não só deformava, limitava o horizonte. A Escola de Frankfurt propôs a revolução não só na sociedade, mas no interior do homem, privilegiou instintos, advertiu contra os perigos da razão [em especial denunciou a razão instrumental, instrumento favorecedor da sociedade capitalista em suas digressões]. Propugnou a liberação moral, como atividade emancipadora. Enfatizou o papel central dos hábitos, das mentalidades, das ideias. Enfim, do que se chamou a cultura e não apenas do econômico. Daí ser titulada de marxismo cultural. Era marxismo ainda? Nas bases, não. Mas era doutrina profundamente revolucionária, que servia como luva para o avanço do comunismo no interior do homem e na sociedade. Voltarei ao tema.

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Novidade alvissareira


Novidade alvissareira

Péricles Capanema

Em 26 de maio, eco das manifestações deste dia no Brasil inteiro, o IPCO (Instituto Plinio Corrêa de Oliveira) divulgou denso e sintético documento intitulado “Está em jogo o Brasil autêntico, cristão e forte”, que contém programa mínimo de regeneração nacional. Ali se diz, para o Brasil não trair suas raízes cristãs, como preliminar, deve se manter fiel à pauta que reproduzo a seguir: seja garantida a vida da concepção à morte natural; a família seja constituída apenas por um homem e uma mulher; se respeite o sagrado direito dos pais à educação de seus filhos; e no plano socioeconômico se respeite a livre iniciativa, o direito à propriedade privada e o princípio de subsidiariedade.

Enumeração certeira, constituem reivindicações usuais de movimentos católicos, fazem parte da agenda de movimentos conservadores. Novidades aí? Inexistem. Por que então destaquei logo no cabeçalho que tinha visto novidade alvissareira? Existe uma novidade, sobre ela quero me estender.

Tive surpresa ao deparar na curta lista a defesa do princípio de subsidiariedade. Não me lembro de ter lido no Brasil em manifesto a ser firmado pelo público proclamação tão clara desse princípio fundamental da ordem temporal cristã. É sintoma de que vamos amadurecendo direito. Existem nações cujo amadurecimento revela logo sintomas de apodrecimento.

Faço pequena recordação e retifico: vi, uma vez. Conversando com o redator do discurso que Guilherme Afif Domingos, então vice-governador, proferiu em 22 de março de 2011 por ocasião do nascimento do PSD ▬ foi por aqueles dias, lá se vão uns oito anos ▬, ele me comunicou satisfeito, havia colocado na oração a defesa do princípio da subsidiariedade. Gostei, mas nada comentei a respeito com meu interlocutor. Pensei comigo, fato aparentemente pequeno que revela maturidade, reflexão, promessa de caminho no rumo certo.

Com efeito, era inédito um político brasileiro em ocasião solene defendê-lo. E era inédito que pessoa chegada a político de expressão (no caso, amigo do orador e redator de sua solene fala) estivesse convicto da importância do princípio de subsidiariedade, a ponto de julgar necessário colocá-lo explicitamente no anúncio para o Brasil inteiro de passo político de importância.

Cismado e ainda um pouco incrédulo, fui checar a veracidade do comentário, era a pura verdade, lá estava o trecho: “Defendemos uma federação justa, que descentralize sua atuação, repartindo os poderes e recursos com Estados e Municípios, dentro do princípio da subsidiariedade. Tudo o que puder ser bem feito por uma entidade menor não deve ser feito por uma entidade maior. O que puder ser feito pelos cidadãos deve ser feito por eles. O que eles não puderem fazer deve ser feito pelo município. O que o município não puder fazer deve ser feito pelo Estado. Ao governo federal caberá fazer apenas aquilo que não puder ser feito nos âmbitos individual, municipal ou estadual.”

Hélas, parece, pelo que pude constatar, morreu ali no PSD a defesa explícita do princípio de subsidiariedade nos documentos e nos lábios dos seus políticos do PSD. Precisa ressuscitar. Seria vacina contra o estatismo, o intervencionismo e o gigantismo estatal, fortalecendo a família e demais grupos intermediários. Em consequência, a tolice de esperar a salvação da ação estatal encontraria menos adeptos. O Estado age bem com efeitos benéficos quando tem ação supletiva, atravanca e emperra o progresso quando mete o bedelho onde não deve. Não é Estado mínimo, é Estado com ação necessária e proficiente em relação à sociedade, mas complementar.

Volto ao manifesto do IPCO. A proclamação de viseira erguida do princípio de subsidiariedade renova a necessidade de abandonarmos no Brasil a mentalidade jacobina de que o Estado pode tudo, relegando a segundo ponto a ação da família e de grupos intermediários. Em suma, a regeneração brasileira (e de qualquer país) começa pela tonificação da família e aqui tem seu fator mais ativo. Sem tal preocupação, todo resto é inócuo, representa desorientação.

Relembro o ensinamento de Pio XI na Quadragesimo Anno (1931) sobre o princípio de subsidiariedade: “Verdade é, e a história o demonstra abundantemente, que, devido à mudança de condições, só as grandes sociedades podem hoje levar a efeito o que antes podiam até mesmo as pequenas; permanece, contudo, imutável aquele solene princípio da filosofia social: assim como é injusto subtrair aos indivíduos o que eles podem efetuar com a própria iniciativa e capacidade, para o confiar à coletividade, do mesmo modo passar para uma sociedade maior e mais elevada o que sociedades menores e inferiores podiam conseguir, é uma injustiça, um grave dano e perturbação da boa ordem social. O fim natural da sociedade e da sua ação é subsidiar os seus membros, não destrui-los nem absorvê-los. Deixe, pois, a autoridade pública ao cuidado de associações inferiores aqueles negócios de menor importância, que a absorveriam demasiadamente; poderá então desempenhar mais livre, enérgica e eficazmente o que só a ela compete, porque só ela o pode fazer: dirigir, vigiar, urgir e reprimir, conforme os casos e a necessidade requeiram. Persuadam-se todos os que governam: quanto mais perfeita ordem hierárquica reinar entre as várias agremiações, segundo este princípio da subsidiariedade [função 'supletiva'] dos poderes públicos, tanto maior influência e autoridade terão estes, tanto mais feliz e lisonjeiro será o estado da nação”.
Já disse, ligada à defesa do princípio de subsidiariedade, está a defesa da família. Foi congruente o manifesto em comento ao propor “seja garantida a vida da concepção à morte natural; a família seja constituída apenas por um homem e uma mulher; se respeite o sagrado direito dos pais à educação de seus filhos”. Em suma, andou muito bem o IPCO pondo o foco nos pontos certos e, volto à novidade que destaquei acima, recordando a importância da subsidiariedade, em especial no Brasil, para desgraça nossa meio viciado na esperança em soluções jacobinas, que sempre dão errado.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Europa de cara nova


A cara nova da Europa

Péricles Capanema

Cara nova da Europa. Tornaram-se mais nítidos traços de preocupação, sulcos de esperança, vislumbres de rumos diferentes. Apareceram mais visíveis depois que 427 milhões de eleitores foram às urnas para eleger 751 deputados (um terço dos quais mulheres), com mandato de cinco anos.

Preciso melhor. Às urnas foram bem menos, 50,82% do total possível, contudo a maior participação em 25 anos, revertendo tendência constante de queda desde 1979. Em 2015, o comparecimento foi de 42,6%. Agora pesou forte o temor da imigração desordenada e destrutiva, autêntica invasão; junto dele o da avalancha muçulmana. Para boa parte dos europeus, chegou a hora da reação. Sabem, a inércia é via para a morte da Europa como continente cristão e civilizado.

Reagir, sim, concordo, só mortos e moribundos não reagem. Mas o foco deve ser posto em outro ponto: como resistir e sob quais bandeiras? Se os europeus errarem aqui, abraçando escolhas falsas, a situação lá na frente aparecerá pior do que já está, agravada pela decepção e desespero. No fundo do panorama, em todos os cenários, percebe-se na bruma o olhar enigmático de Vladimir Putin.

Convém constar, em alguns países o eleitorado se mostrou pouco reativo. Por exemplo, Eslováquia (22,74%), Eslovênia (28,29%), República Checa (28,72%), Portugal (31,01%). As maiores porcentagens de comparecimento foram as da Bélgica (88,47%) e Luxemburgo (84,10%), Estados em que o voto é obrigatório, o que desnatura a amostra. Muita gente vota para não ser punida.

Da esquerda para a direita assim ficou a representação no Parlamento Europeu: Esquerda extrema (39 deputados, 5,19% dos votos); Esquerda Socialista (146 deputados, 19,44%); Verdes (69 deputados, 9,19%); Liberais (109 deputados, 14,51%); Democrata-cristãos (180 deputados, 23,97%); Conservadores (59 deputados, 7,86%); Direita eurocética – (54 deputados, 7,19%); Direita também eurocética – Europa das nações (58 deputados, 7,72%); Indeterminados (37 deputados, 4,93%).

Os grandes vitoriosos foram Marine Le Pen, Nigel Farage e Matteo Salvini, expressões da direita nacionalista, contrários à União Europeia, cujos partidos atingiram o primeiro lugar nas listas de seus países. O Reunião Nacional de Marine Le Pen conseguiu 23,31%, o Brexit Party de Nigel Farage teve 31,71% dos votos, a Liga italiana 34,3%. As correntes nacionalistas, de forma muito geral, têm programa de defesa da vida, família, nação, propriedade privada, tradição, pautas conservadoras. Sob outro ângulo, propugnam por valores pátrios ameaçados pela posição libertária e universalista da União Europeia. O quadro se agrava com a Europa assolada por hordas de imigrantes, provenientes de países conflagrados na Ásia e na África.

Todo esse sentimento inconformado se fará agora representar com mais força no Parlamento Europeu, daí reverberando para os países membros. Suscita esperanças, pode representar ânimo novo para focos de resistências na Europa inteira.

Vou focar um assunto, que bate às portas da Europa e começo com olhar retrospectivo. Embora à primeira vista surpreendente, a configuração de hoje se parece com a situação europeia de 1815. Napoleão, que havia encarnado a Revolução, “le fils botté de la Révolution”, estava no chão. Persistiam, porém, por toda parte, ameaças contra os tronos, sustentáculos da ordem antiga. Diante do perigo revolucionário, as potências conservadoras vitoriosas, no caso especificamente Rússia, Áustria e Prússia, estabeleceram pacto de defesa comum, a Santa Aliança. Agiriam em concerto. Entre outros fatores, por diferenças de concepção, fundamentação doutrinária superficial e frouxa e choques de interesses ruiu logo a Santa Aliança. Em 1830, a França mudou de orientação e em 1848 a Europa foi sacudida por onda revolucionária.

Agir em concerto, era a primeira tarefa da aliança. Hoje também faz falta um programa comum e uma ação concertada. Mas como agir em concerto? Na Europa, existem violentos choques de interesses nacionais e há miríades de concepções, tantas vezes contraditórias, como cimento de sem-número de movimentos conservadores. Aqui se aninha uma debilidade genética de tais movimentos. Se a preocupação prevalente é a nação, o interesse nacional de cada uma tenderá a se chocar com o da outra em numerosas ocasiões.
Ademais, que relações manter com duas grandes potências, Rússia e Estados Unidos, com enormes interesses no caso? Os movimentos nacionalistas europeus têm divergências fundas quanto à posição vis-à-vis de Putin. O autocrata russo financia alguns e é aliado de outros, que o veem como esteio contra a revolução libertária na Europa. É possível confiar em uma potência que na América Latina é o grande apoio de Cuba e Venezuela, ditaduras comunistas? Curto, não querer ver a ameaça russa e ter ilusões com Putin é o calcanhar de Aquiles do movimento conservador europeu.

Mais ainda, a política “America first” (pode ser traduzida como minha nação sempre em primeiro lugar) de Donald Trump facilmente pode levar à subestima dos deveres norte-americanos de defender a independência dos países europeus diante das ameaças russa e chinesa. Longe de Washington, próximo do cabresto de Pequim e Moscou. E muita gente na Europa fecha os olhos diante desse perigo que avança.

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Boa representação e voto facultativo


Boa representação e voto facultativo

Péricles Capanema

Terminou a eleição para o Parlamento Europeu, em números a segunda do mundo, 427 milhões de eleitores, só atrás da indiana, 900 milhões. Pretendo falar dela em outro artigo. Agora, destaco um ponto: a imprensa de alto a baixo festejou a participação do corpo eleitoral, a maior desde 1979. Compareceram 51% dos eleitores, revertendo tendência de queda. Em 2014 o índice foi de 43%.

Mais precisamente, votaram 50,82% do total habilitado. Alguns países pontuaram bem abaixo da média, nos quais destaco Eslováquia 22,74%; Eslovênia 28,29%; República Tcheca 28,22%; Portugal 31,01%. Portanto, abstenção em Portugal, 68,99%. Em condições semelhantes, é plausível supor que a participação do eleitor brasileiro ficaria aquém da de nossos irmãos lusos.

Nas últimas eleições presidenciais dos Estados Unidos, tomaram parte pouco menos de 60%. Quando lá têm lugar as mid-term elections (eleições para o Congresso no meio do mandato presidencial) a porcentagem oscila próxima a 40%. Falo de eleições importantíssimas, em países de boa cultura média, com a instituições funcionando normalmente ▬ 28 países da Europa e ainda os Estados Unidos.

No Brasil, a abstenção no 1º turno nas eleições de 2018 foi de 20,3%, comparecimento de quase 80%. Foi abstenção habitual, no quesito ganhamos de goleada da União Europeia e dos Estados Unidos. Na verdade, é o contrário, perdemos de goleada. A razão, voto facultativo lá, voto obrigatório aqui. A propósito, o voto é facultativo na grossa maioria dos países; entre eles: Estados Unidos, Áustria, Alemanha, Inglaterra, França, Itália, Japão. É obrigatório na minoria, entre eles: Brasil, Bolívia, Honduras, Chile, Argentina, Congo, República Dominicana, Costa Rica, Honduras.

O retrocesso do voto obrigatório foi imposto e pomposamente celebrado pelo constituinte de 1988 e logo se tornou fator adicional de nosso renitente atraso. Curiosamente, folheando projetos de reforma política, não vi (não estou afirmando que não há, digo que não vi) proposta de troca do voto obrigatório pelo voto facultativo. Não é mais democrático? Vota quem quer. Constatação entristecida: nossos políticos na esquerda e na direita preferem manter o eleitorado no cabresto, mantendo o entulho autoritário e despropositado.

Maior autenticidade na vida pública seria a primeira consequência da introdução do voto facultativo. Autenticidade no caso é o sufragado representar de fato o representado, dele ser porta-voz lídimo. Sabemos, é tênue, quando existe, o vínculo no Brasil entre representante e representado. Pesquisa divulgada em janeiro de 2018 pelo Instituto Idea Big Data indicava que 8 em 10 eleitores brasileiros não sabiam em que haviam votado para deputado federal em 2014.

Chute, no Brasil, em geral iriam até as urnas de 20% a 30% do eleitorado potencial; entre 70% e 80% ficariam de fora. A maioria prefere ficar em casa, está nem aí. Acabaria assim de saída a atmosfera deformante da “celebração democrática”, milhões e milhões votando nas ruas, gigantescos números de votos nos candidatos. Mais decisivo, diminuiria a presença do emocional, do eleitor impressionável, da demagogia, seria mais difícil a vitória do candidato folclórico. Fator importantíssimo, cairia brutalmente o custo das campanhas eleitorais, hoje caríssimas, e ingrediente ativo da corrupção no meio político. Pouquíssimos têm recursos para bancar a campanha com meios próprios (e menos ainda pretendem torrar dinheiro seu na campanha). Com campanhas fundadas em ideias e programas, menos dinheiro seria gasto e daí decorreria saneamento generalizado. Outro fator a considerar, com programas e ideias contando mais, subiria o nível da vida pública, dominada pelo eleitor interessado e atento.

Em suma, como decorrência, subiria a qualidade de nossa representação, oqe nem de longe é panaceia, mas aponta no rumo certo. Os meios de divulgação a toda hora deixam a nu a generalizada indigência intelectual de nossos eleitos. Entre todos os exemplos (maus), nenhum até agora teve mais impacto que o antológico discurso da presidente Dilma Rousseff em Nova York, setembro de 2015, no qual propôs a estocagem do vento como grande meio para solução da crise energética: “Até agora, até agora, a energia hidroelétrica é a mais barata. Em termos do que ela dura, da sua manutenção e também pelo fato da água ser gratuita. I da genti podê istocá. Cê, o vento podia sê isso também, mas ocê num conseguiu ainda tecnologia pra istocá vento. Então se a contribuição dos outros países, vamos supô que seja, desenvolver uma tecnologia que seja capaz de na eólica istocá, ter uma forma docê istocá, porque o vento ele é diferente em horas do dia, então vamos supô que vente mais à noite, cumé queu faria pra istocá isso. Hoje nós usamos as linhas de transmissão, cê joga de lá pra cá, de lá pra lá, pra podê capturá isso, mais si tivé uma tecnologia desenvolvida nessa área, todos nós nos beneficiaremos, o mundo inteiro”.

Acabou o pesadelo. Não foi à toa que Nelson Rodrigues (1912-1980) constatou com horror divertido: “Antes, o silêncio era dos imbecis, hoje são os melhores que emudecem. Até o século 19 o idiota era apenas o idiota e como tal se comportava. E o primeiro a saber-se idiota era o próprio idiota. Não tinha ilusões. Aquele sujeito que antes limitava-se a babar na gravata passou a existir socialmente, economicamente, politicamente, culturalmente. Houve, em toda parte, a explosão triunfal dos idiotas. Outrora, os melhores pensavam pelos idiotas, hoje, os idiotas pensam pelos melhores”. E concluía: “O grande acontecimento do século [20] foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota”.

Invadiu e dominou a cena pública. Nossas assembleias são disso exemplo destruidor para o bem do Brasil. E agora, para limpar o panorama, trago à baila observações de um dos homens mais inteligentes do Brasil, Gilberto Amado (1987-1969), deputado e senador na República Velha. Sobre a necessidade de, para o bem do Brasil, termos grandes representantes, discorreu sobre o tema em “Eleição e Representação”, título de conhecido livro seu. Falava solto, década de 20, sem sentir as peias do politicamente correto, que hoje tem inibido em tantos a expressão livre do pensamento: “É axioma da ciência política, a sociedade deve ser dirigida pelos mais avisados, pelos mais inteligentes, pelos mais capazes, pelos melhores, em uma palavra, pela elite. Esquecemo-nos na prática de votar o alvo a atingir ▬ a escolha dos bons, dos melhores, dos mais ilustres. Não é no votar o povo livremente que consiste a democracia; a democracia consiste em votar inteligentemente. O valor do governo depende do homem que o exerce. Nenhuma instituição pôde ainda prescindir do fator pessoal. Eleição e representação são coisas diferentes. Se nós queremos realizar a democracia no Brasil, isto é, o governo dos mais capazes, só o poderemos conseguir tornando realidade a representação”. Sem muitos representantes de escol, capazes de dar o tom na vida pública, patejaremos indefinidamente na véspera de crises e na falta de rumos. Um adendo, a inteligência no caso precisa estar embebida em altíssimo senso do bem comum. O que dá rumo ao homem público é o senso agudo do bemcomum.

Para concluir, um dos passos para melhorar a representação será a introdução do voto facultativo. Os políticos brasileiros precisam parar de ter medo dele. Voto obrigatório prejudica a qualidade.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Meu teste do tornassol


Meu teste do tornassol

Péricles Capanema

Ponha o papel (ou o líquido) do tornassol na solução. Teste simples, para pH entre 4,5 e 8,3, mostra de cara se alcalino ou ácido o meio. Ficou azul? Alcalino. Avermelhou? Ácido. O tornassol fica vermelho em baixas concentrações de pH; coloração azul, pH lá em cima. Simples assim.

Fazemos testes de tornassol a toda hora. Uma pergunta ágil, como resposta um silêncio por vezes constrangido e já supomos (em geral na mosca), por onde caminham preferências do interlocutor ▬ mais azuis ou chegadas ao vermelho. Nos mais variados ambientes, é dos mais empregados recursos de orientação. Simples assim.

Gestos, atitudes, insinuações, olhares, silêncios (tantas vezes mais que palavras claras e posições inequívocas) delatam disposições interiores, desmascaram intenções, expõem situações até então ocultas. Lembro ainda, no mundo oficial, de modo particular, o abuso escandaloso dos eufemismos (o emprego correto tem vantagens óbvias). Os grandes políticos nas suas guerras sem tréguas são mestres na artilharia dos eufemismos. Quando o emprego de tais recursos favorece só um rumo, temos claro ora um padrão de conduta, ora uma mentalidade, ora uma diretriz.

Proponho hoje meu teste de tornassol para ser utilizado como meio de esclarecimento. Não é de hoje acompanho com um pé atrás o noticiário relativo a visitas políticas e empresariais à China. Nelas transparece sempre o compreensível receio de retaliações do governo chinês que possam vir a lesar o enorme superávit comercial com a China, bem como possibilidades de investimento e de crescente comércio. As presentes disputas entre Pequim e Washington tornam ainda mais candente o quadro.

Para que não despenque logo sobre mim uma saraivada de acusações sem base, repito abaixo o que escrevi em dezembro de 2018 em artigo intitulado “O chinês mais rico do mundo”: “Não estou obcecado, procuro o contrário, que todos vejam [...]. Nem sou catastrofista. Busco evitar a catástrofe, apontando a pirambeira no caminho. E nem vou repetir razões já por mim expressas vezes sem conta. Acho que deve haver comércio com a China, é sensato aproveitar oportunidades comerciais, temos que considerar sempre necessidades e conveniências da economia brasileira, mas é imperioso, para mantermos de fato a soberania e possibilidades de futuro digno para filhos e netos que saiamos gradualmente da armadilha ▬ dependência excessiva e suicida da economia chinesa ▬, fruto sobretudo da política entreguista do período lulopetista. Como? Em especial, martelo, fortalecendo laços econômicos com Estados Unidos, Japão e Europa. Sem o apoio dos Estados Unidos, muito dificilmente escaparemos da enrascada na qual nos metemos por dessiso, irreflexão e leviandade”.

O presente, agora. Todas as notícias enviadas da China nas últimas semanas sobre a passagem por lá de autoridades e empresários brasileiros falam que houve contatos com empresários e investidores chineses interessados em investir no Brasil. Transcrevo parte de uma, que ilustra bem o tom: “A ministra [...] apresentou dados do setor agropecuário e áreas com potencial de crescimento para um grupo de 40 investidores chineses com projetos no Brasil, nesta segunda-feira, 13 [de maio], em Xangai, na China. O encontro foi organizado pelo Banco do Brasil em parceria com o consulado brasileiro. Os investidores informaram que pretendem aumentar o montante aplicado no Brasil, em setores de sementes, suinocultura, infraestrutura e ferrovias”.

Procurei com esmero nos sites do Itamarati e do Banco do Brasil o nome dos 40 grupos econômicos, empresas e investidores convidados. Nada encontrei, nenhum nome. Isto poupou um desconforto aos promotores da viagem. Estou certo, todos os 40 convidados, os tais empresários e investidores (para ser cordial, pelo menos a esmagadora maioria deles) são empresas estatais. Se houver algum grupo privado entre os 40, até poderia ser, não dará um espirro sem a anuência do governo e do Partido Comunista Chinês.

Foi oferecido a eles (ou a elas, as estatais) como amostra de possibilidade de investimento em obras ferroviárias na Ferrogrão entre Sinop e Itaituba, projeto orçado em 3,7 bilhões de dólares, com edital previsto para fins de 2019. Outra obra, a Fiol que ligará Ilhéus a Figueirópolis; mais uma, ferrovia Norte-Sul. Não há total, serão dezenas de bilhões de dólares lançados ao apetite voraz de estatais chinesas em leilões, concorrências e parcerias. Significam compra de ativos e concessões para muitas décadas em obras de infraestrutura.

Em nenhum momento, em nenhuma notícia, em nenhum comentário as expressões eufemísticas “investidores chineses”. “empresários chineses” ou “capitais chineses” foram trocadas por palavras que traduziriam realidade óbvia e incontestável: o Brasil estava oferecendo oportunidades de negócio para estatais chinesas. Poderia ser item, de um lado, de nova iniciativa, o Programa Transparência Zero. De outro, parte do espetacular Programa de Privatizações à Brasileira.

Vou dar um exemplo, fato quente de hoje. Enquanto redigia o presente artigo lia notícias veiculadas pela imprensa relativas à construção de aciaria em Marabá, no Pará, investimento de R$1,5 bilhão, com produção destinada ao mercado interno. A Vale vai financiar o empreendimento, a Concremat será sua proprietária e o executará. Começará a operar em 2023. A Concremat é controlada pelo grupo chinês CCCC (China Communications Construction Company). Em nenhuma notícia constava a informação de que a CCCC é estatal chinesa. No português claro, o governo comunista de Pequim vai ter uma aciaria importante no estado do Pará. Os brasileiros não têm direito de conhecer tal informação? Não é relevante? Mais uma realização do Programa Transparência Zero associado ao Programa de Privatizações à Brasileira.

Coloco os fatos acima ao lado de outra realidade ululante: as estatais chinesas são dirigidas por inteiro pelo governo chinês. O governo chinês, imperialista, coletivista, tirânico e ateu é dirigido de alto a baixo, por dentro e por fora, pelo Partido Comunista Chinês (PCC). Os diretores das estatais são na esmagadora maioria dos casos (e em todos os postos decisivos) membros do PCC, com fidelidade canina às diretrizes governamentais e partidárias.

Continuamos a pisar, dói dizê-lo, as veredas da tragédia anunciada, a servidão. Permito-me lembrar afirmações minhas em “O realejo estridente” de dezembro de 2018: “Desde 2003 até hoje, segundo a Secretaria de Assuntos Internacionais (SEAIN) do Ministério do Planejamento em 269 projetos houve investimentos chineses anunciados e confirmados de 124 bilhões de dólares. Desse total, segundo o Conselho Empresarial Brasil-China, 87% foram de origem estatal, 13% de origem privada. Vou, de novo, escrever o que ninguém ou quase ninguém põe no papel com clareza: esses 87% é dinheiro de empresas estatais chinesas, que trabalharão pelos objetivos do PCC, e cujos diretores se alinham sempre com a estratégia do partido. Os 13% restantes, via de regra, são de empresas que acertam o passo com o governo chinês”.

Entre outras políticas reveladoras a China apoia na Ásia a Coreia do Norte e na América Latina as ditaduras de Cuba e Venezuela. Maduro não caiu ainda, em parte por causa do apoio chinês. Tivesse Fernando Haddad ganho as presidenciais de 2018, teríamos agora a aliança Rússia-China-Brasil para defender a tirania venezuelana. Seria uma primeira manifestação da aviltante sujeição brasileira aos objetivos chineses, que nos ameaça.

O Brasil não está recebendo capital chinês. Ou, por outra, está recebendo maciço capital chinês estatal. Já é enorme sua presença na infraestrutura. Aqui não vale o mantra dos “setores estratégicos” que devem permanecer em mãos do Estado? Estão sim, mas cada vez mais nas mãos do Estado chinês.

Tudo isso é verdade. Não obstante, aqui vai minha previsão fácil (fiz outras de igual teor, acertei todas), nada vai mudar nos discursos e nos comentários dos meios de divulgação. Vamos continuar a escutar e ler “investidores chineses”, “oportunidades de investimento de capitais chineses”. Não leremos nem ouviremos a realidade inquestionável: é dinheiro de estatais chinesas.

A razão salta incoercível: na prática, mentalmente, em largas faixas falantes, da opinião que se publica, já temos as reações de protetorado chinês. Caminhamos rumo a situação parecida com a da Finlândia da época da Guerra Fria, formalmente soberana, na verdade protetorado efetivo da União Soviética. Finlandizados já também estamos nós em certa medida. A Finlândia não soltava um pio contra os interesses de Moscou. Ainda há tempo para tomar rumo oposto.

Meu teste de tornassol. Quem, ao tratar de economia, soberania, interesses estratégicos, independência nacional, nunca se refere com preocupação à presença crescente das estatais chinesas na economia brasileira, evidencia que mentalmente já vive em atmosfera de protetorado. Tem necrosado o amor à independência brasileira. Quem, ao ventilar os mesmos assuntos, pelo menos de quando em vez faz o contrário e se refere a tal presença, apontando perigos, ainda se vê como cidadão de país soberano. Deu vermelho? Meio ácido, dominante no espírito o complexo do protetorado. Deu azul? Meio alcalino, dominante na alma o ar fresco da soberania.