sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Voto pelo pirulito

 

Voto pelo pirulito

 

Péricles Capanema

 

O obelisco desencadeou um “brainstorm”. O Estadão publicou enorme foto de argentinos comemorando no Obelisco, ponto central e turístico de Buenos Aires, o tricampeonato mundial de futebol. Mar de gente festejando a conquista, impressionava, mas, desconheço o motivo, meu pensamento foi atraído por recordação antiga. Deixou agradavelmente o presente e deslizou suave para outra ordem de realidade bem diferente, não ignota embora, já me havia despertado a atenção no começo da juventude. E que me intriga desde então. Até hoje não resolvi o enigma, ou, por outra, não encontrei as razões que resolvem de fundo a pergunta. À vera, é raro esgotar reflexões (voltam sempre) nascidas de fatos que chamam muito a atenção. Convite ao leitor, tente resolver o enigma, que abaixo exponho.

 

Fiapos de reflexão. Compartilho aqui reflexões, fiapos, brotam de constatação inesperada e divertida, quando tinha, sei lá, 14 ou 15 anos. Obelisco, todos sabem, é monumento comemorativo, origem no Antigo Egito, em geral de pedra monolítica vertical, base quadrangular, que afunila gradualmente. Em cima se transforma em pequena pirâmide. Obeliskos, palavra grega, significa pilar ou espeto. Temos obeliscos famosos, entre eles o do Vaticano, o de Washington, tratei do obelisco de Buenos Aires, em São Paulo divisamos imponente o obelisco do Ibirapuera. Denominação: obelisco, sempre, palavra de origem erudita, utilizada universalmente.

 

O Pirulito da Praça Sete. Universalmente? Peraí, nem sempre. Em Belo Horizonte não é assim. Ali obelisco é pirulito. Em nenhum outro lugar obelisco é chamado de pirulito. Andava pela Avenida Afonso Pena, 14 ou 15 anos, tomei um susto, quando ouvi a frase: “Vou estar lá, é perto do Pirulito da Praça Sete”. Pulou logo a pergunta interna, entre intrigado, desconcertado e divertido: “Por que pirulito? Por que não obelisco? Todos dizem obelisco. O que tem aqui?”. Não sabia, ainda não sei, agora disponho, porém, de fiapos de resposta, manados deste entretenimento intelectual que, convicção minha, é sério e proveitoso.

 

Dados. Raízes importam; históricas, psicológicas, morais, culturais. Ao fato. O centro de Belo Horizonte é a Praça Sete de Setembro. No centro da Praça Sete de Setembro se ergue um obelisco. Sete metros de granito semelhante a uma agulha sobre base de pedra de 6,57 metros, enfeitado com quatro postes fincados em cada um de seus vértices, dando-lhe assim um ar de monumentalidade. A pedra fundamental foi colocada solenemente em 7 de setembro de 1922, com inauguração em 7 de setembro de 1924. Chuva de setes. Contudo, nenhum mineiro, é nenhum mesmo, referindo-se ao monumento da Praça Sete de Setembro, dirá: “O obelisco da Praça Sete de Setembro”. Todos, sem exceção, é sem exceção mesmo, dirão: “O Pirulito da Praça Sete”. Pelo que sei, o único lugar no mundo em que um obelisco é chamado no cotidiano de pirulito é Belo Horizonte. Obelisco? Soa normal mundo afora. Em Belo Horizonte, para se referir ao mais conhecido monumento da capital, soaria artificial, pedante, pretensioso, empolado, petulante, meio ridículo, rebuscado demais. Por quê? Foi a pergunta de saltou lá atrás de dentro da minha cachola.

 

Pergunta antiga. Vou explicar a respeito um pouquinho mais. Por oito anos, dos 14 aos 22 anos, morei em Belo Horizonte. Vindo do interior, cursei ali o Científico e a Escola de Engenharia. E logo me deparei com o fato curioso, a metáfora viva, o uso coloquial generalizado. Percebi, ali havia o gosto do singelo, o costume de prestar atenção na realidade imediata, levá-la em consideração, certa recusa do postiço, de concepções cerebrinas, do encadernado sem naturalidade, que dificulta a objetividade simples e esclarecedora do olhar despretensioso. A primeira coisa que vem à mente quando olhamos para o monumento da Praça Sete de Setembro é um pirulito, doce comum, caseiro, gostoso, barato, guloseima de criança. Mas vem ao espírito de quem? Em especial daqueles acostumados com a vida singela, com hábitos de vida descomplicada, enraizados no ambiente rural. Naquela metáfora se sentiam palpitantes o olho e a fala do mineiro do interior. Raízes importam, repito, merecem cultivo e nutrição. Dali nascem a boa diversidade e as diferenças saudáveis. Raízes pecas ou até mortas levam a toda forma de desastres. Por isso, tem meu voto enfático o uso habitual de pirulito para, em Belo Horizonte, designar obelisco; vejo como manifestação inesperada, inteligente e simpática da vivacidade das raízes culturais do homem do interior, que constituía (talvez ainda constitua) a maioria dos belo-horizontinos. Sei bem, o que veio antes não esgota o assunto, é simples talisca de pensamento, contudo, com base nele, permito-me a esperança de que sirva para reflexões distendidas e proveitosas (complementações) de algum leitor sobre a mesma matéria ou fato parecido. Já me daria por bem pago.

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