sexta-feira, 31 de maio de 2019

Novidade alvissareira


Novidade alvissareira

Péricles Capanema

Em 26 de maio, eco das manifestações deste dia no Brasil inteiro, o IPCO (Instituto Plinio Corrêa de Oliveira) divulgou denso e sintético documento intitulado “Está em jogo o Brasil autêntico, cristão e forte”, que contém programa mínimo de regeneração nacional. Ali se diz, para o Brasil não trair suas raízes cristãs, como preliminar, deve se manter fiel à pauta que reproduzo a seguir: seja garantida a vida da concepção à morte natural; a família seja constituída apenas por um homem e uma mulher; se respeite o sagrado direito dos pais à educação de seus filhos; e no plano socioeconômico se respeite a livre iniciativa, o direito à propriedade privada e o princípio de subsidiariedade.

Enumeração certeira, constituem reivindicações usuais de movimentos católicos, fazem parte da agenda de movimentos conservadores. Novidades aí? Inexistem. Por que então destaquei logo no cabeçalho que tinha visto novidade alvissareira? Existe uma novidade, sobre ela quero me estender.

Tive surpresa ao deparar na curta lista a defesa do princípio de subsidiariedade. Não me lembro de ter lido no Brasil em manifesto a ser firmado pelo público proclamação tão clara desse princípio fundamental da ordem temporal cristã. É sintoma de que vamos amadurecendo direito. Existem nações cujo amadurecimento revela logo sintomas de apodrecimento.

Faço pequena recordação e retifico: vi, uma vez. Conversando com o redator do discurso que Guilherme Afif Domingos, então vice-governador, proferiu em 22 de março de 2011 por ocasião do nascimento do PSD ▬ foi por aqueles dias, lá se vão uns oito anos ▬, ele me comunicou satisfeito, havia colocado na oração a defesa do princípio da subsidiariedade. Gostei, mas nada comentei a respeito com meu interlocutor. Pensei comigo, fato aparentemente pequeno que revela maturidade, reflexão, promessa de caminho no rumo certo.

Com efeito, era inédito um político brasileiro em ocasião solene defendê-lo. E era inédito que pessoa chegada a político de expressão (no caso, amigo do orador e redator de sua solene fala) estivesse convicto da importância do princípio de subsidiariedade, a ponto de julgar necessário colocá-lo explicitamente no anúncio para o Brasil inteiro de passo político de importância.

Cismado e ainda um pouco incrédulo, fui checar a veracidade do comentário, era a pura verdade, lá estava o trecho: “Defendemos uma federação justa, que descentralize sua atuação, repartindo os poderes e recursos com Estados e Municípios, dentro do princípio da subsidiariedade. Tudo o que puder ser bem feito por uma entidade menor não deve ser feito por uma entidade maior. O que puder ser feito pelos cidadãos deve ser feito por eles. O que eles não puderem fazer deve ser feito pelo município. O que o município não puder fazer deve ser feito pelo Estado. Ao governo federal caberá fazer apenas aquilo que não puder ser feito nos âmbitos individual, municipal ou estadual.”

Hélas, parece, pelo que pude constatar, morreu ali no PSD a defesa explícita do princípio de subsidiariedade nos documentos e nos lábios dos seus políticos do PSD. Precisa ressuscitar. Seria vacina contra o estatismo, o intervencionismo e o gigantismo estatal, fortalecendo a família e demais grupos intermediários. Em consequência, a tolice de esperar a salvação da ação estatal encontraria menos adeptos. O Estado age bem com efeitos benéficos quando tem ação supletiva, atravanca e emperra o progresso quando mete o bedelho onde não deve. Não é Estado mínimo, é Estado com ação necessária e proficiente em relação à sociedade, mas complementar.

Volto ao manifesto do IPCO. A proclamação de viseira erguida do princípio de subsidiariedade renova a necessidade de abandonarmos no Brasil a mentalidade jacobina de que o Estado pode tudo, relegando a segundo ponto a ação da família e de grupos intermediários. Em suma, a regeneração brasileira (e de qualquer país) começa pela tonificação da família e aqui tem seu fator mais ativo. Sem tal preocupação, todo resto é inócuo, representa desorientação.

Relembro o ensinamento de Pio XI na Quadragesimo Anno (1931) sobre o princípio de subsidiariedade: “Verdade é, e a história o demonstra abundantemente, que, devido à mudança de condições, só as grandes sociedades podem hoje levar a efeito o que antes podiam até mesmo as pequenas; permanece, contudo, imutável aquele solene princípio da filosofia social: assim como é injusto subtrair aos indivíduos o que eles podem efetuar com a própria iniciativa e capacidade, para o confiar à coletividade, do mesmo modo passar para uma sociedade maior e mais elevada o que sociedades menores e inferiores podiam conseguir, é uma injustiça, um grave dano e perturbação da boa ordem social. O fim natural da sociedade e da sua ação é subsidiar os seus membros, não destrui-los nem absorvê-los. Deixe, pois, a autoridade pública ao cuidado de associações inferiores aqueles negócios de menor importância, que a absorveriam demasiadamente; poderá então desempenhar mais livre, enérgica e eficazmente o que só a ela compete, porque só ela o pode fazer: dirigir, vigiar, urgir e reprimir, conforme os casos e a necessidade requeiram. Persuadam-se todos os que governam: quanto mais perfeita ordem hierárquica reinar entre as várias agremiações, segundo este princípio da subsidiariedade [função 'supletiva'] dos poderes públicos, tanto maior influência e autoridade terão estes, tanto mais feliz e lisonjeiro será o estado da nação”.
Já disse, ligada à defesa do princípio de subsidiariedade, está a defesa da família. Foi congruente o manifesto em comento ao propor “seja garantida a vida da concepção à morte natural; a família seja constituída apenas por um homem e uma mulher; se respeite o sagrado direito dos pais à educação de seus filhos”. Em suma, andou muito bem o IPCO pondo o foco nos pontos certos e, volto à novidade que destaquei acima, recordando a importância da subsidiariedade, em especial no Brasil, para desgraça nossa meio viciado na esperança em soluções jacobinas, que sempre dão errado.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Europa de cara nova


A cara nova da Europa

Péricles Capanema

Cara nova da Europa. Tornaram-se mais nítidos traços de preocupação, sulcos de esperança, vislumbres de rumos diferentes. Apareceram mais visíveis depois que 427 milhões de eleitores foram às urnas para eleger 751 deputados (um terço dos quais mulheres), com mandato de cinco anos.

Preciso melhor. Às urnas foram bem menos, 50,82% do total possível, contudo a maior participação em 25 anos, revertendo tendência constante de queda desde 1979. Em 2015, o comparecimento foi de 42,6%. Agora pesou forte o temor da imigração desordenada e destrutiva, autêntica invasão; junto dele o da avalancha muçulmana. Para boa parte dos europeus, chegou a hora da reação. Sabem, a inércia é via para a morte da Europa como continente cristão e civilizado.

Reagir, sim, concordo, só mortos e moribundos não reagem. Mas o foco deve ser posto em outro ponto: como resistir e sob quais bandeiras? Se os europeus errarem aqui, abraçando escolhas falsas, a situação lá na frente aparecerá pior do que já está, agravada pela decepção e desespero. No fundo do panorama, em todos os cenários, percebe-se na bruma o olhar enigmático de Vladimir Putin.

Convém constar, em alguns países o eleitorado se mostrou pouco reativo. Por exemplo, Eslováquia (22,74%), Eslovênia (28,29%), República Checa (28,72%), Portugal (31,01%). As maiores porcentagens de comparecimento foram as da Bélgica (88,47%) e Luxemburgo (84,10%), Estados em que o voto é obrigatório, o que desnatura a amostra. Muita gente vota para não ser punida.

Da esquerda para a direita assim ficou a representação no Parlamento Europeu: Esquerda extrema (39 deputados, 5,19% dos votos); Esquerda Socialista (146 deputados, 19,44%); Verdes (69 deputados, 9,19%); Liberais (109 deputados, 14,51%); Democrata-cristãos (180 deputados, 23,97%); Conservadores (59 deputados, 7,86%); Direita eurocética – (54 deputados, 7,19%); Direita também eurocética – Europa das nações (58 deputados, 7,72%); Indeterminados (37 deputados, 4,93%).

Os grandes vitoriosos foram Marine Le Pen, Nigel Farage e Matteo Salvini, expressões da direita nacionalista, contrários à União Europeia, cujos partidos atingiram o primeiro lugar nas listas de seus países. O Reunião Nacional de Marine Le Pen conseguiu 23,31%, o Brexit Party de Nigel Farage teve 31,71% dos votos, a Liga italiana 34,3%. As correntes nacionalistas, de forma muito geral, têm programa de defesa da vida, família, nação, propriedade privada, tradição, pautas conservadoras. Sob outro ângulo, propugnam por valores pátrios ameaçados pela posição libertária e universalista da União Europeia. O quadro se agrava com a Europa assolada por hordas de imigrantes, provenientes de países conflagrados na Ásia e na África.

Todo esse sentimento inconformado se fará agora representar com mais força no Parlamento Europeu, daí reverberando para os países membros. Suscita esperanças, pode representar ânimo novo para focos de resistências na Europa inteira.

Vou focar um assunto, que bate às portas da Europa e começo com olhar retrospectivo. Embora à primeira vista surpreendente, a configuração de hoje se parece com a situação europeia de 1815. Napoleão, que havia encarnado a Revolução, “le fils botté de la Révolution”, estava no chão. Persistiam, porém, por toda parte, ameaças contra os tronos, sustentáculos da ordem antiga. Diante do perigo revolucionário, as potências conservadoras vitoriosas, no caso especificamente Rússia, Áustria e Prússia, estabeleceram pacto de defesa comum, a Santa Aliança. Agiriam em concerto. Entre outros fatores, por diferenças de concepção, fundamentação doutrinária superficial e frouxa e choques de interesses ruiu logo a Santa Aliança. Em 1830, a França mudou de orientação e em 1848 a Europa foi sacudida por onda revolucionária.

Agir em concerto, era a primeira tarefa da aliança. Hoje também faz falta um programa comum e uma ação concertada. Mas como agir em concerto? Na Europa, existem violentos choques de interesses nacionais e há miríades de concepções, tantas vezes contraditórias, como cimento de sem-número de movimentos conservadores. Aqui se aninha uma debilidade genética de tais movimentos. Se a preocupação prevalente é a nação, o interesse nacional de cada uma tenderá a se chocar com o da outra em numerosas ocasiões.
Ademais, que relações manter com duas grandes potências, Rússia e Estados Unidos, com enormes interesses no caso? Os movimentos nacionalistas europeus têm divergências fundas quanto à posição vis-à-vis de Putin. O autocrata russo financia alguns e é aliado de outros, que o veem como esteio contra a revolução libertária na Europa. É possível confiar em uma potência que na América Latina é o grande apoio de Cuba e Venezuela, ditaduras comunistas? Curto, não querer ver a ameaça russa e ter ilusões com Putin é o calcanhar de Aquiles do movimento conservador europeu.

Mais ainda, a política “America first” (pode ser traduzida como minha nação sempre em primeiro lugar) de Donald Trump facilmente pode levar à subestima dos deveres norte-americanos de defender a independência dos países europeus diante das ameaças russa e chinesa. Longe de Washington, próximo do cabresto de Pequim e Moscou. E muita gente na Europa fecha os olhos diante desse perigo que avança.

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Boa representação e voto facultativo


Boa representação e voto facultativo

Péricles Capanema

Terminou a eleição para o Parlamento Europeu, em números a segunda do mundo, 427 milhões de eleitores, só atrás da indiana, 900 milhões. Pretendo falar dela em outro artigo. Agora, destaco um ponto: a imprensa de alto a baixo festejou a participação do corpo eleitoral, a maior desde 1979. Compareceram 51% dos eleitores, revertendo tendência de queda. Em 2014 o índice foi de 43%.

Mais precisamente, votaram 50,82% do total habilitado. Alguns países pontuaram bem abaixo da média, nos quais destaco Eslováquia 22,74%; Eslovênia 28,29%; República Tcheca 28,22%; Portugal 31,01%. Portanto, abstenção em Portugal, 68,99%. Em condições semelhantes, é plausível supor que a participação do eleitor brasileiro ficaria aquém da de nossos irmãos lusos.

Nas últimas eleições presidenciais dos Estados Unidos, tomaram parte pouco menos de 60%. Quando lá têm lugar as mid-term elections (eleições para o Congresso no meio do mandato presidencial) a porcentagem oscila próxima a 40%. Falo de eleições importantíssimas, em países de boa cultura média, com a instituições funcionando normalmente ▬ 28 países da Europa e ainda os Estados Unidos.

No Brasil, a abstenção no 1º turno nas eleições de 2018 foi de 20,3%, comparecimento de quase 80%. Foi abstenção habitual, no quesito ganhamos de goleada da União Europeia e dos Estados Unidos. Na verdade, é o contrário, perdemos de goleada. A razão, voto facultativo lá, voto obrigatório aqui. A propósito, o voto é facultativo na grossa maioria dos países; entre eles: Estados Unidos, Áustria, Alemanha, Inglaterra, França, Itália, Japão. É obrigatório na minoria, entre eles: Brasil, Bolívia, Honduras, Chile, Argentina, Congo, República Dominicana, Costa Rica, Honduras.

O retrocesso do voto obrigatório foi imposto e pomposamente celebrado pelo constituinte de 1988 e logo se tornou fator adicional de nosso renitente atraso. Curiosamente, folheando projetos de reforma política, não vi (não estou afirmando que não há, digo que não vi) proposta de troca do voto obrigatório pelo voto facultativo. Não é mais democrático? Vota quem quer. Constatação entristecida: nossos políticos na esquerda e na direita preferem manter o eleitorado no cabresto, mantendo o entulho autoritário e despropositado.

Maior autenticidade na vida pública seria a primeira consequência da introdução do voto facultativo. Autenticidade no caso é o sufragado representar de fato o representado, dele ser porta-voz lídimo. Sabemos, é tênue, quando existe, o vínculo no Brasil entre representante e representado. Pesquisa divulgada em janeiro de 2018 pelo Instituto Idea Big Data indicava que 8 em 10 eleitores brasileiros não sabiam em que haviam votado para deputado federal em 2014.

Chute, no Brasil, em geral iriam até as urnas de 20% a 30% do eleitorado potencial; entre 70% e 80% ficariam de fora. A maioria prefere ficar em casa, está nem aí. Acabaria assim de saída a atmosfera deformante da “celebração democrática”, milhões e milhões votando nas ruas, gigantescos números de votos nos candidatos. Mais decisivo, diminuiria a presença do emocional, do eleitor impressionável, da demagogia, seria mais difícil a vitória do candidato folclórico. Fator importantíssimo, cairia brutalmente o custo das campanhas eleitorais, hoje caríssimas, e ingrediente ativo da corrupção no meio político. Pouquíssimos têm recursos para bancar a campanha com meios próprios (e menos ainda pretendem torrar dinheiro seu na campanha). Com campanhas fundadas em ideias e programas, menos dinheiro seria gasto e daí decorreria saneamento generalizado. Outro fator a considerar, com programas e ideias contando mais, subiria o nível da vida pública, dominada pelo eleitor interessado e atento.

Em suma, como decorrência, subiria a qualidade de nossa representação, oqe nem de longe é panaceia, mas aponta no rumo certo. Os meios de divulgação a toda hora deixam a nu a generalizada indigência intelectual de nossos eleitos. Entre todos os exemplos (maus), nenhum até agora teve mais impacto que o antológico discurso da presidente Dilma Rousseff em Nova York, setembro de 2015, no qual propôs a estocagem do vento como grande meio para solução da crise energética: “Até agora, até agora, a energia hidroelétrica é a mais barata. Em termos do que ela dura, da sua manutenção e também pelo fato da água ser gratuita. I da genti podê istocá. Cê, o vento podia sê isso também, mas ocê num conseguiu ainda tecnologia pra istocá vento. Então se a contribuição dos outros países, vamos supô que seja, desenvolver uma tecnologia que seja capaz de na eólica istocá, ter uma forma docê istocá, porque o vento ele é diferente em horas do dia, então vamos supô que vente mais à noite, cumé queu faria pra istocá isso. Hoje nós usamos as linhas de transmissão, cê joga de lá pra cá, de lá pra lá, pra podê capturá isso, mais si tivé uma tecnologia desenvolvida nessa área, todos nós nos beneficiaremos, o mundo inteiro”.

Acabou o pesadelo. Não foi à toa que Nelson Rodrigues (1912-1980) constatou com horror divertido: “Antes, o silêncio era dos imbecis, hoje são os melhores que emudecem. Até o século 19 o idiota era apenas o idiota e como tal se comportava. E o primeiro a saber-se idiota era o próprio idiota. Não tinha ilusões. Aquele sujeito que antes limitava-se a babar na gravata passou a existir socialmente, economicamente, politicamente, culturalmente. Houve, em toda parte, a explosão triunfal dos idiotas. Outrora, os melhores pensavam pelos idiotas, hoje, os idiotas pensam pelos melhores”. E concluía: “O grande acontecimento do século [20] foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota”.

Invadiu e dominou a cena pública. Nossas assembleias são disso exemplo destruidor para o bem do Brasil. E agora, para limpar o panorama, trago à baila observações de um dos homens mais inteligentes do Brasil, Gilberto Amado (1987-1969), deputado e senador na República Velha. Sobre a necessidade de, para o bem do Brasil, termos grandes representantes, discorreu sobre o tema em “Eleição e Representação”, título de conhecido livro seu. Falava solto, década de 20, sem sentir as peias do politicamente correto, que hoje tem inibido em tantos a expressão livre do pensamento: “É axioma da ciência política, a sociedade deve ser dirigida pelos mais avisados, pelos mais inteligentes, pelos mais capazes, pelos melhores, em uma palavra, pela elite. Esquecemo-nos na prática de votar o alvo a atingir ▬ a escolha dos bons, dos melhores, dos mais ilustres. Não é no votar o povo livremente que consiste a democracia; a democracia consiste em votar inteligentemente. O valor do governo depende do homem que o exerce. Nenhuma instituição pôde ainda prescindir do fator pessoal. Eleição e representação são coisas diferentes. Se nós queremos realizar a democracia no Brasil, isto é, o governo dos mais capazes, só o poderemos conseguir tornando realidade a representação”. Sem muitos representantes de escol, capazes de dar o tom na vida pública, patejaremos indefinidamente na véspera de crises e na falta de rumos. Um adendo, a inteligência no caso precisa estar embebida em altíssimo senso do bem comum. O que dá rumo ao homem público é o senso agudo do bemcomum.

Para concluir, um dos passos para melhorar a representação será a introdução do voto facultativo. Os políticos brasileiros precisam parar de ter medo dele. Voto obrigatório prejudica a qualidade.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Meu teste do tornassol


Meu teste do tornassol

Péricles Capanema

Ponha o papel (ou o líquido) do tornassol na solução. Teste simples, para pH entre 4,5 e 8,3, mostra de cara se alcalino ou ácido o meio. Ficou azul? Alcalino. Avermelhou? Ácido. O tornassol fica vermelho em baixas concentrações de pH; coloração azul, pH lá em cima. Simples assim.

Fazemos testes de tornassol a toda hora. Uma pergunta ágil, como resposta um silêncio por vezes constrangido e já supomos (em geral na mosca), por onde caminham preferências do interlocutor ▬ mais azuis ou chegadas ao vermelho. Nos mais variados ambientes, é dos mais empregados recursos de orientação. Simples assim.

Gestos, atitudes, insinuações, olhares, silêncios (tantas vezes mais que palavras claras e posições inequívocas) delatam disposições interiores, desmascaram intenções, expõem situações até então ocultas. Lembro ainda, no mundo oficial, de modo particular, o abuso escandaloso dos eufemismos (o emprego correto tem vantagens óbvias). Os grandes políticos nas suas guerras sem tréguas são mestres na artilharia dos eufemismos. Quando o emprego de tais recursos favorece só um rumo, temos claro ora um padrão de conduta, ora uma mentalidade, ora uma diretriz.

Proponho hoje meu teste de tornassol para ser utilizado como meio de esclarecimento. Não é de hoje acompanho com um pé atrás o noticiário relativo a visitas políticas e empresariais à China. Nelas transparece sempre o compreensível receio de retaliações do governo chinês que possam vir a lesar o enorme superávit comercial com a China, bem como possibilidades de investimento e de crescente comércio. As presentes disputas entre Pequim e Washington tornam ainda mais candente o quadro.

Para que não despenque logo sobre mim uma saraivada de acusações sem base, repito abaixo o que escrevi em dezembro de 2018 em artigo intitulado “O chinês mais rico do mundo”: “Não estou obcecado, procuro o contrário, que todos vejam [...]. Nem sou catastrofista. Busco evitar a catástrofe, apontando a pirambeira no caminho. E nem vou repetir razões já por mim expressas vezes sem conta. Acho que deve haver comércio com a China, é sensato aproveitar oportunidades comerciais, temos que considerar sempre necessidades e conveniências da economia brasileira, mas é imperioso, para mantermos de fato a soberania e possibilidades de futuro digno para filhos e netos que saiamos gradualmente da armadilha ▬ dependência excessiva e suicida da economia chinesa ▬, fruto sobretudo da política entreguista do período lulopetista. Como? Em especial, martelo, fortalecendo laços econômicos com Estados Unidos, Japão e Europa. Sem o apoio dos Estados Unidos, muito dificilmente escaparemos da enrascada na qual nos metemos por dessiso, irreflexão e leviandade”.

O presente, agora. Todas as notícias enviadas da China nas últimas semanas sobre a passagem por lá de autoridades e empresários brasileiros falam que houve contatos com empresários e investidores chineses interessados em investir no Brasil. Transcrevo parte de uma, que ilustra bem o tom: “A ministra [...] apresentou dados do setor agropecuário e áreas com potencial de crescimento para um grupo de 40 investidores chineses com projetos no Brasil, nesta segunda-feira, 13 [de maio], em Xangai, na China. O encontro foi organizado pelo Banco do Brasil em parceria com o consulado brasileiro. Os investidores informaram que pretendem aumentar o montante aplicado no Brasil, em setores de sementes, suinocultura, infraestrutura e ferrovias”.

Procurei com esmero nos sites do Itamarati e do Banco do Brasil o nome dos 40 grupos econômicos, empresas e investidores convidados. Nada encontrei, nenhum nome. Isto poupou um desconforto aos promotores da viagem. Estou certo, todos os 40 convidados, os tais empresários e investidores (para ser cordial, pelo menos a esmagadora maioria deles) são empresas estatais. Se houver algum grupo privado entre os 40, até poderia ser, não dará um espirro sem a anuência do governo e do Partido Comunista Chinês.

Foi oferecido a eles (ou a elas, as estatais) como amostra de possibilidade de investimento em obras ferroviárias na Ferrogrão entre Sinop e Itaituba, projeto orçado em 3,7 bilhões de dólares, com edital previsto para fins de 2019. Outra obra, a Fiol que ligará Ilhéus a Figueirópolis; mais uma, ferrovia Norte-Sul. Não há total, serão dezenas de bilhões de dólares lançados ao apetite voraz de estatais chinesas em leilões, concorrências e parcerias. Significam compra de ativos e concessões para muitas décadas em obras de infraestrutura.

Em nenhum momento, em nenhuma notícia, em nenhum comentário as expressões eufemísticas “investidores chineses”. “empresários chineses” ou “capitais chineses” foram trocadas por palavras que traduziriam realidade óbvia e incontestável: o Brasil estava oferecendo oportunidades de negócio para estatais chinesas. Poderia ser item, de um lado, de nova iniciativa, o Programa Transparência Zero. De outro, parte do espetacular Programa de Privatizações à Brasileira.

Vou dar um exemplo, fato quente de hoje. Enquanto redigia o presente artigo lia notícias veiculadas pela imprensa relativas à construção de aciaria em Marabá, no Pará, investimento de R$1,5 bilhão, com produção destinada ao mercado interno. A Vale vai financiar o empreendimento, a Concremat será sua proprietária e o executará. Começará a operar em 2023. A Concremat é controlada pelo grupo chinês CCCC (China Communications Construction Company). Em nenhuma notícia constava a informação de que a CCCC é estatal chinesa. No português claro, o governo comunista de Pequim vai ter uma aciaria importante no estado do Pará. Os brasileiros não têm direito de conhecer tal informação? Não é relevante? Mais uma realização do Programa Transparência Zero associado ao Programa de Privatizações à Brasileira.

Coloco os fatos acima ao lado de outra realidade ululante: as estatais chinesas são dirigidas por inteiro pelo governo chinês. O governo chinês, imperialista, coletivista, tirânico e ateu é dirigido de alto a baixo, por dentro e por fora, pelo Partido Comunista Chinês (PCC). Os diretores das estatais são na esmagadora maioria dos casos (e em todos os postos decisivos) membros do PCC, com fidelidade canina às diretrizes governamentais e partidárias.

Continuamos a pisar, dói dizê-lo, as veredas da tragédia anunciada, a servidão. Permito-me lembrar afirmações minhas em “O realejo estridente” de dezembro de 2018: “Desde 2003 até hoje, segundo a Secretaria de Assuntos Internacionais (SEAIN) do Ministério do Planejamento em 269 projetos houve investimentos chineses anunciados e confirmados de 124 bilhões de dólares. Desse total, segundo o Conselho Empresarial Brasil-China, 87% foram de origem estatal, 13% de origem privada. Vou, de novo, escrever o que ninguém ou quase ninguém põe no papel com clareza: esses 87% é dinheiro de empresas estatais chinesas, que trabalharão pelos objetivos do PCC, e cujos diretores se alinham sempre com a estratégia do partido. Os 13% restantes, via de regra, são de empresas que acertam o passo com o governo chinês”.

Entre outras políticas reveladoras a China apoia na Ásia a Coreia do Norte e na América Latina as ditaduras de Cuba e Venezuela. Maduro não caiu ainda, em parte por causa do apoio chinês. Tivesse Fernando Haddad ganho as presidenciais de 2018, teríamos agora a aliança Rússia-China-Brasil para defender a tirania venezuelana. Seria uma primeira manifestação da aviltante sujeição brasileira aos objetivos chineses, que nos ameaça.

O Brasil não está recebendo capital chinês. Ou, por outra, está recebendo maciço capital chinês estatal. Já é enorme sua presença na infraestrutura. Aqui não vale o mantra dos “setores estratégicos” que devem permanecer em mãos do Estado? Estão sim, mas cada vez mais nas mãos do Estado chinês.

Tudo isso é verdade. Não obstante, aqui vai minha previsão fácil (fiz outras de igual teor, acertei todas), nada vai mudar nos discursos e nos comentários dos meios de divulgação. Vamos continuar a escutar e ler “investidores chineses”, “oportunidades de investimento de capitais chineses”. Não leremos nem ouviremos a realidade inquestionável: é dinheiro de estatais chinesas.

A razão salta incoercível: na prática, mentalmente, em largas faixas falantes, da opinião que se publica, já temos as reações de protetorado chinês. Caminhamos rumo a situação parecida com a da Finlândia da época da Guerra Fria, formalmente soberana, na verdade protetorado efetivo da União Soviética. Finlandizados já também estamos nós em certa medida. A Finlândia não soltava um pio contra os interesses de Moscou. Ainda há tempo para tomar rumo oposto.

Meu teste de tornassol. Quem, ao tratar de economia, soberania, interesses estratégicos, independência nacional, nunca se refere com preocupação à presença crescente das estatais chinesas na economia brasileira, evidencia que mentalmente já vive em atmosfera de protetorado. Tem necrosado o amor à independência brasileira. Quem, ao ventilar os mesmos assuntos, pelo menos de quando em vez faz o contrário e se refere a tal presença, apontando perigos, ainda se vê como cidadão de país soberano. Deu vermelho? Meio ácido, dominante no espírito o complexo do protetorado. Deu azul? Meio alcalino, dominante na alma o ar fresco da soberania.


quinta-feira, 18 de abril de 2019

Compunção


Compunção

Péricles Capanema

Era pouco antes das sete da noite, segunda-feira pacata de abril, e de repente em Paris o fogo, parecendo vomitado do inferno, estralejou violento no madeirame da catedral de Notre-Dame de Paris. Subia, ardia, baixava, lambia e devorava o que encontrava, diante de espectadores aterrados. O mundo, estarrecido e aturdido, julgava ter diante dos olhos o que não podia acontecer. Continuou por horas o espetáculo dantesco.

Pouco a pouco, na capital francesa, depois do choque inicial, pairou o silêncio, a dor, aqui e ali magotes rezavam e entoavam cânticos. Houve também silêncio, dor, desnorteamento, orações no mundo inteiro. Perplexidade. Por fim, cintilou uma nota de alívio. As duas torres estavam salvas. Aos poucos, foi sendo divulgado que muita coisa não tinha sido consumida pelas labaredas. Acidente? Atentado? Por enquanto é prematuro concluir.

Perdoem o chavão, tentei ouvir o silêncio, explicitar o imponderável. Pus atenção nas reações do povo de Paris e do mundo inteiro. De forma particular, nos magotes em torno da catedral crucificada pelas chamas. Havia um denominador comum, a compunção, muito relevante na multidão que rezava e cantava hinos religiosos.

Não pretendo aqui repetir o que outros já comentaram com talento, em especial, valor simbólico, perda, prognósticos. Foco em outro ponto, tem relação próxima com a compunção que, esperançado, observei surpreso.

Imaginei situações diversas, comparações, sempre admitindo a origem acidental do incêndio. Tudo muda, existindo mão criminosa. Se o fogo tomasse a catedral da Milão, também joia da arquitetura gótica, que reações desencadearia entre os milaneses? Na Itália? No mundo? E se o incêndio fosse na catedral de Colônia? Em Chartres? Em Reims? Catedral de Sevilha? Basílica de São Marcos? Na própria catedral de São Pedro? Como reagiriam os nacionais? Como reagiria o mundo?

Ampliei a figuração. Fogo na abadia de Westminster? No Kremlin? Na estátua da Liberdade? No Taj Mahal? Na Esfinge ou nas pirâmides? De que forma reagiria o mundo?
Lembrei-me do horror mundial quando o Estado Islâmico ▬ no caso, de forma criminosa ▬ destruiu dezenas de sítios arqueológicos no Iraque e na Síria.

Entre nós, se o fogo acabasse com o Cristo Redentor? A imagem da Aparecida?

Existe, parece-me certo, em muitos aspectos, traços mais fortes, uma comoção maior, por ter sido Notre-Dame de Paris. Tem relação com o templo, extraordinária expressão da alma medieval, com a ordem temporal cristã, com a França. E com seus reflexos na cultura ocidental.

Por associação, lembrei-me de sermão pronunciado pelo cardeal Eugênio Pacelli, futuro Pio XII, na ocasião legado pontifício, na catedral de Notre-Dame de Paris ▬ 13 de julho de 1937. Foi leitura minha anos atrás, na ocasião fiquei impressionado. Recolhi alguns pequenos extratos: “Como exprimir, meus irmãos, tudo o que evoca no meu espírito, na minha alma, igual na alma e no espírito de todo católico, até direi, em toda alma reta e em todo espírito culto, o nome de Notre-Dame de Paris! Porque aqui é a própria alma da França, a alma da filha primogênita da Igreja”. O Purpurado diz que ali ecoam as vozes de Clóvis, de santa Clotilde, de Carlos Magno, sobretudo a voz de são Luís IX. Ele parece escutá-las. E se pergunta a causa de tanto simbolismo em Notre-Dame. O futuro Pio XII pôs de lado raça e determinismos como causas: “É inútil invocar fatalismo ou determinismo racial. À França de hoje que lhe pergunta, a França de outrora responderá dando a tal herança seu nome verdadeiro: vocação”

Vocação, chamado providencial, realidade superior, imponderável por vários lados, evocada de forma incomparável por Notre-Dame de Paris. Na compunção pela agressão ao símbolo, ainda que de forma germinativa, havia abertura para o simbolizado, a vocação da França.

O impulso extraordinário para reconstruir a catedral, expresso em doações gigantescas (família Pinault, grupo LVMH, família Arnault, família Bettencourt-Meyers, grupo L’Oréal, Apple, para citar alguns grandes doadores) é sintoma do horror que causou na opinião francesa e mundial a devastação do incêndio. Tem importância ímpar. Traz, porém, no bojo uma ameaça: tornar fashion, prestigioso, o movimento pela reconstrução. Com isso, facilmente poderá sair do foco a compunção. Iria minguando, chegaria até ao esquecimento. Semente de restauração, a compunção vale mais que qualquer riqueza.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Anemia do abril vermelho


Anemia do abril vermelho

Péricles Capanema

Desde 1997 o MST promove o abril vermelho. Financiado com dinheiro público, o gigantesco show de agitações reclamou sempre a radicalização da reforma agrária e a implantação de outras pautas da esquerda, etapas para a sonhada sociedade socialista (caminho para a presente situação da Venezuela, na realidade). O MST, na linha de frente, era ajudado em particular pela  CPT e INCRA, trinca do barulho..

Há muitos lustros o agro tem sido atacado por vários meios ▬, um dos quais, invasões de fazendas ▬, em especial pela ação concertada dessas três entidades. O MST (primeira), organização comunista, braço do PT, e a CPT (segunda), extrema-esquerda eclesiástica, protegida pela CNBB (à vera, não apenas protegida, é órgão dela). A terceira, o INCRA.

Nos governos de esquerda, no INCRA diretoria, superintendências e enxames de funcionários solícitos encarniçadamente conluiados com PT, MST e CPT agrediam a propriedade particular no campo. No governo Temer, infelizmente continuou o INCRA a favorecer objetivos do MST (um pouco menos escancaradamente). Agora, sofreu uma trava. Continuam, porém, agentes do órgão em obstinada atuação deletéria, papocam aqui e ali funcionários efetivos e superintendências empurrando no rumo antigo. As três organizações formaram na prática um pactum sceleris (formaram no passado; a realidade ainda existe hoje, diminuída).

Assomou para desgraça do Brasil respiro importante para o MST. Em encontro com representantes da organização criminosa em fevereiro passado, Rodrigo Maia, presidente da Câmara, comprometeu-se a não pautar (colocar para votação) projetos que o criminalizem. Criminalizar a atuação do MST ficou para as calendas. Foi promessa de campanha ▬ espera-se que apenas de momento arquivada. “Toda ação do MST e do MTST deve ser tipificada como terrorismo”, repetia o candidato Jair Bolsonaro. Com o incumprimento do compromisso, o MST preservaria suas possibilidades de ação no futuro.

Amarelou em 2019 o abril vermelho. Só pequena agitação em Salvador, onde um petista, Rui Costa, é inquilino do Palácio de Ondina. A própria Abin não julgou necessário alertar o governo sobre possíveis agitações. Por quê?

Porque o abril vermelho desde sempre foi show totalmente artificial, viveu do dinheiro público. Não representa em nada o sentimento do homem do campo. Em parte, o INCRA, por causa da nova direção, já não impulsiona abertamente a ação concertada do MST-CPT. Ficaram ainda focos infeccionados, já disse. O presidente Jair Bolsonaro apontou outro fator: Incra registra só 1 ocupação no 1º trimestre diante 43 ações no mesmo período de 2018. O MST está mais fraco pela facilitação da posse de armas, iniciativa que terá derivações pelo governo, falta de financiamento do setor público e de ONG”.

O ponto maior é esse, faltou dinheiro público para o abril vermelho. Por exemplo, acabou a farra dos convênios. Contudo, estão intactas as leis e, em boa medida, as estruturas utilizadas pelas mencionadas três organizações. A anemia acabará no dia em que o dinheiro público voltar a fluir.

Lamento prever, gostaria de estar errado, mas vai continuar intacta a legislação e boa parte das estruturas. Não é politicamente correto acabar com a infecção. Temos no Brasil tumores de estimação. São cancerígenos, matam as possibilidades de avanço, prejudicam os pobres, mas são nossos tumores de estimação. Um dos mais virulentos é o programa da reforma agrária.

É, repito, politicamente incorreto enunciar o óbvio ululante: desde o início, lá pelos anos 60, a implantação da reforma agrária representou retrocesso monumental, um atraso de proporções amazônicas. Se nunca no Brasil se tivesse falado de reforma agrária, os pobres hoje estariam mais bem de vida no campo e na cidade, os alimentos estariam mais baratos, seríamos hoje potência agrícola mais poderosa. E as montanhas de dinheiro que foram desperdiçados no programa maluco poderiam ter atendido larga e beneficamente a saúde e a educação.

Inexistisse o xodó pelo tumor, a medida mais comezinha e lógica seria acabar imediatamente com o programa da reforma agrária. Aqui não. E continuam as declarações bestas do tipo: “Vamos aplicar a legislação, o programa da reforma agrária não parou, vai ficar sério”. “Vamos aproveitar os lotes abandonados”.

Todos sabem, são centenas de milhares de lotes com contratos de gavetas, abandonados, empregados para outros fins, produtividade baixíssima. Já foram utilizados 880 mil quilômetros quadrados nessa doidice (o Estado de Minas Gerais, 586. 528 km2, área do Rio Grande do Sul, 281.748 km2; soma dos dois 868.266 km2). Ou seja, se somarmos a área de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul não dá a área esperdiçada na maluquice do programa de reforma agrária (disseminação de favelas rurais, roubalheira, pobreza, clientelismo de movimentos sociais). O agronegócio salva a economia brasileira, garante a balança comercial, distribui riquezas, dá empregos. Sabem com que área? Vejam esse dado: em 2016, a Embrapa Territorial havia calculado a ocupação com a produção agrícola em 7,8% (65.913.738 hectares. 659.137 km2.

Relatório do TCU de 2016 indicava que o valor das áreas com indícios de situação irregular dentro do programa de reforma agrária era de R$159 bilhões, utilizada a avaliação do IBGE. Se for em valor de mercado, pode facilmente chegar a R$300 bilhões. Terra tratada na esbórnia, na desorganização, no desconhecimento. Advertia que bilhões de reais emprestados poderiam não ser pagos (claro, nunca foram). Vejam o disparate nas palavras do relatório do TCU: “Conforme informado pelo INCRA, os créditos eram concedidos a estruturas associativas formais ou informais e distribuídos entre os integrantes dos PAs (projetos de assentamento), não havendo registro individualizado organizado sobre quem recebeu os créditos, ou seja, o prejuízo pode ser muito maior.” Entenderam? Sociedades informais (patotas de privilegiados dos movimentos sociais), sem registro individualizado recebiam dinheiro público.

R$300 bilhões de terras na bagunça. Coloque os empréstimos não devolvidos, os perdões de dívidas, a assistência técnica estatal para aproveitadores, o controle tirânico dos assentamentos pelos agentes do MST, a venda ilegal de madeira. Os escândalos do mensalão e do petrolão são fichinha perto do escândalo do programa da  reforma agrária.

Mas, é claro, não se pode extinguir o programa. Razão técnica? Nenhuma. Não aumenta a produtividade. Razão social? Nenhuma. Piora a situação dos pobres. Razão de paz social? Nenhuma. Tensiona a região em que se implantam os assentamentos. Mas trona e sobrepassa tudo uma razão inamovível. É tumor de estimação. Tumores de estimação são intocáveis.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Ensinar a enxergar é o maior presente do educador


Ensinar a enxergar é o maior presente do educador

Péricles Capanema

Vou falar de assunto que nunca sai de moda. Meio distraído, tardava o olhar pela “Oração aos Moços” de Ruy Barbosa (já a conhecia, pincei-a lá pelos quinze anos na biblioteca de um tio desembargador), quando tomei um susto. Fixei a vista: “Os que madrugam no ler convém madrugarem também no pensar. Vulgar é o ler, raro o refletir. O saber não está na ciência alheia, que se absorve, mas, principalmente, nas ideias próprias, que se geram dos conhecimentos absorvidos, mediante a transmutação, por que passam, no espírito que os assimila. Um sabedor não é armário de sabedoria armazenada, mas transformador reflexivo de aquisições digeridas”.

Li de novo, devagar. Belas palavras, mas tomei outro susto. O famoso brasileiro, já então septuagenário, no texto, aconselhava a seus paraninfados, os moços da turma de 1920 da Faculdade de Direito do Largo São Francisco a levantar cedo (tudo bem) e a batalhar na aquisição do conhecimento. Como? Primeiro passo: ler, ler, ler. Chama a isso ocupação vulgar, no sentido de comum, corriqueira, menos importante. Ótima coisa. Muitos leem. Segundo passo, e agora o principal, refletir. Seria coisa rara e essencial para a boa formação, pensar sobre o que se leu. Pela transmutação, fazer do conhecimento ingerido, inerme, ativa ciência própria. Anima os paraninfados à peleja extra, a ruminação que os levaria a aproveitar bem o esforço da leitura. Aí chegaríamos ao homem sabedor, a pessoa que passa além do mero erudito, qualificado pelo douto jurisconsulto de “armário de sabedoria armazenada”. Não mais estante, peça inanimada, que empilha conhecimentos, o sabedor, espírito vivo, atinge o patamar de “transformador reflexivo de aquisições digeridas”.

O método bosquejado por Ruy Barbosa funciona na prática? Se funcionar, é suficiente para uma boa formação, fazer uma pessoa culta? No frigir dos ovos, soou-me um tanto cerebrino, descolado da realidade. Vou meter minha colher de pau.

Tudo se resume, afinal de contas, a conhecer, melhorando, a entender a realidade. O capiau a conhece e entende a seu modo sem nunca ter lido um livro. Dou de barato, é insuficiente, lamento, mas muitas vezes não percebemos em seus comentários mais senso do real que em observações eruditas de homens de gabinete? O frescor de suas expressões não reflete em várias de suas facetas percepção mais exata da realidade? Tal olhar tem valor inestimável.

Enfileiro a seguir, como pipocam na cabeça, alguns provérbios populares. Cada macaco no seu galho. Apressado come cru e quente. Antes só que mal acompanhado.  Casa de ferreiro, espeto de pau. Escreveu, não leu, o pau comeu. A cavalo dado não se olham os dentes. Em terra de cego quem tem olho é rei. Deus escreve certo por linhas tortas. Cachorro mordido de cobra tem medo de linguiça. Seguro morreu de velho e o desconfiado ainda vive. Para baixo, todo santo ajuda. Um dia é da caça, outro do caçador.

Poderia continuar sem fim. Foram necessários livros para burilar tais ditos? Não. Bastou explicitar, sintética e graciosamente, o que a vida ia ensinando. E é só um aspecto da cultura popular. O livro, porém, precisa deles, sob pena de, muitas vezes, ser digressão de nefelibatas. Adiante. O problema (talvez o maior) da cultura não tem sido sempre a erudição cortada da realidade? E sem o hábito de decifrar a realidade miúda terão vida reflexões sobre livros lidos? Ou serão folhas secas?

Amplio. Onde colocar no método do celebrado tribuno baiano a enorme contribuição de conhecimento que nos invade pelos cinco sentidos ▬ visão, olfato, paladar, audição, tato ▬ aprendizado direto do que sem cessar acontece ao redor nosso? E então, sem preguiça e de forma proveitosa unir as impressões que nos entram pelos sentidos, explicitá-las com critério, e incluir tal conhecimento em nosso acervo?

Tenho escutado muita gente que lê e reflete sobre o que lê. Mas tem preguiça em ver, cheirar, tocar. Observa pouco, não tira suco do convívio e da contemplação da natureza. Dispara comentários desfocados. Faltam ali conversas com mãe, tias, primos, o bate-papo com pessoas de todas as idades e condições sociais, a observação da natureza em sua vida miúda. A boa formação e a alta cultura precisam ter raízes na terra úmida. Não são plantas de estufa. Ensinar a enxergar é o maior presente do educador. E educadores estão em todos os ambientes. Ruminemos, sem dúvida, um olho nos livros, outro na realidade. Esse problema mexe com todo mundo, queiramos nós ou não, de sua solução depende o destino de cada um e da sociedade, nunca sai de moda.


sábado, 13 de abril de 2019

Ponto fora da curva


Ponto fora da curva

Péricles Capanema

Virou coringa a expressão “ponto fora da curva”, tem sido empregada nas mais diferentes acepções. Umas lisonjeiras; outras, nem tanto, envolvem censura, às vezes até carregam nota depreciativa. Vou usá-la como censura. Boi do couro grosso, de há muito acostumado a bordoadas, mesmo as mais inesperadas, posso bem levar mais umas hoje. Paciência. Segue a vida.

Vem da curva de Gauss (1777-1855), parece, sua origem. É uma fórmula matemática utilizada na Estatística, que se exprime, graficamente, à maneira de um sino. A imensa maioria dos eventos analisados estatisticamente cai dentro do sino. Um ou outro fica fora da curva. É o dito ponto fora da curva. Por analogia, aplica-se aos que se destacam, estão além do universo considerado. Daí “fulano é ponto fora da curva em seu meio”. Sicrano, pelo contrário, desceu muito, ficou “ponto fora da curva entre seus amigos de infância”. E assim por diante. Multiplicam-se ao infinito as aplicações analógicas da expressão com raiz na Estatística.

Vou falar do decreto 9.758 de 11 de abril de 2019, triste ponto fora da curva ▬ bagatela para os superficiais, golpe sério para quem enxerga fundo. O diploma legal obriga os membros do Poder Executivo a um só tratamento: senhor (claro, senhora, senhores, senhoras). Por óbvio, exclui da esdrúxula imposição o Legislativo, o Judiciário, comunicações com autoridades estrangeiras e outras exceções.

Vossa Excelência não pode mais, agora é só senhor. Vossa Magnificência, excluído, basta o senhor. Vossa Senhoria, rifado. Doutor, o simples e familiar doutor, banido, onde já se viu chamar alguém de doutor em comunicação oficial? Já está muito bom o senhor, para que mais? Ilustre, fora. Digno, expulso. Respeitável, idem. O tratamento nivelador vale para todos, presidente, vice-presidente, ministros, reitores, poupa ninguém. Majestade e alteza já haviam sido enxotadas faz mais de século. Ficou mais simples, é bom, ruminam alguns. Caminhemos devagar, escapando das armadilhas simplificadoras; nessa uniformizante e igualitária toada, acabaríamos despencando logo nos buracos do cumpanhero e do camarada para todo mundo. Camarada presidente.

Entro por atalho, um exemplo conhecido vai cortar caminho. À vera, até envolto na legenda, tantas as versões sobre os diálogos, ainda que no cerne concordantes. O protagonista é Talleyrand (1754-1838), o “príncipe dos diplomatas”, causeur, brilhante presença de espírito, inteligência superior. À mesa, em ambiente fidalgo, tratava os assuntos da França e da Europa com rapidez, objetividade, leveza; eficácia. Sob as formas refinadas, um auge de senso prático. Em jantares de convívio ameno, depois de cortar a carne, um de seus recursos, com senso da medida honrava a cada conviva ao regalar um pedaço. Com o pitéu, ia junto nas palavras, no tom e no gesto certos o reconhecimento das superioridades devidas à idade, à condição social e ao mérito. Postura sempre simples e natural; nunca postiça ou enfatuada. A um eclesiástico destacado ou um príncipe: “Monseigneur, me daria a grande honra de aceitar um pedaço?” A um duque: “Poderia ter a alegria de lhe oferecer este pedaço?”. A um marquês: “Me daria a alegria de aceitar este? E assim ia, até o mais simples dos convivas.

Ambiente de século 19, restos do Ancien Régime, Paris, outros hábitos, sei bem. Resta uma constatação, sem gosto e cultivo do senso do matizes, sem apreço às variadas fulgurações do espírito, inexiste civilização. O esplendor das formas constituía ali expressão refinada da “unidade na variedade” ▬ a palavra universo vem daí. Busco em Isaac Newton: “A variedade na unidade é a lei suprema do universo”. Variedades harmônicas. Não agridamos inconsideradamente a variedade. Em resumo, o grande espetáculo de cultura do salão de jantar de Talleyrand anos a fio, repetida com variações sem-número de vezes, animou conversas, perenizou-se nas páginas das memórias do tempo, foi degustada em biografias célebres. Chegou viva até nós com seu fulgor de alta civilização. Formou personalidades.

Ao longo dos séculos admirações e imitações sensatas foram nutridas por cenas como a acima descrita em duas pobres pinceladas. Pedagógicas, alimentam o impulso da perfeição pessoal (e social), assim como um exemplo de um santo nutre o desejo da ação virtuosa. E aqui repito: precisamos buscar a simplicidade, mas fugir dos simplismos e simplificações. É raro uma solução niveladora não padecer pelo menos de simplismo; com frequência, empobrece o convívio; e, em decorrência incoercível, a própria personalidade.

Amplio. Valores do Brasil antigo levavam naturalmente a distinguir pessoas e situações com apenas um gesto, uma palavra rápida. Faziam parte do ambiente cultural que encantou muita gente de relevo que viveu por aqui. Sempre me impressionou o comentário de Fernand Braudel, dos maiores historiadores do século 20: “Foi no Brasil que me tornei inteligente. O espetáculo que tive diante dos olhos era um tal espetáculo de história, um tal espetáculo de gentileza social que eu compreendi a vida de outra maneira. Os mais belos anos de minha vida, eu passei no Brasil”.

O que ele viu, espetáculo de gentileza social ▬ de convívio ▬ que fez entender a vida de forma diversa? Para Braudel, o fundamental em um historiador era conservar o coração da criança (maravilhar-se), surpreender-se com os fatos. E olhar o passado como uma criança percebe as primeiras imagens. Entre 1935 e 1937, floriu no Brasil o coração de criança do historiador,  aperfeiçoou antenas.

Corta. Vamos ser realistas, o Brasil já não está conseguindo fazer inteligentes os homens potencialmente muito inteligentes. Porque está morrendo a nossa forma própria de enxergar a realidade, sufocados os ambientes familiares, onde ela florescia. Corremos risco iminente de já não termos o olhar que nos distinguia.

E aqui volto ao decreto 9.758 de 11 de abril. Esse malencontreux texto, para ser benévolo, é ponto fora da curva, pois vem de um governo que já editou muitas medidas saneadoras ▬ teve muita coisa dentro da curva. Nivelador, simplificador, aproxima-nos de autômatos. Vira as costas para o Brasil que cultivava matrizes de juízo e conduta, apreciava diversidades, harmonizava-as, sabia estimular umas a fortalecer as outras. E com isso criava condições para convívio enriquecedor de personalidades.

No mesmo pacote do decreto 9.758 veio o revogaço. Sugestão: incluam o 9.758 no revogaço.