quinta-feira, 18 de abril de 2019

Compunção


Compunção

Péricles Capanema

Era pouco antes das sete da noite, segunda-feira pacata de abril, e de repente em Paris o fogo, parecendo vomitado do inferno, estralejou violento no madeirame da catedral de Notre-Dame de Paris. Subia, ardia, baixava, lambia e devorava o que encontrava, diante de espectadores aterrados. O mundo, estarrecido e aturdido, julgava ter diante dos olhos o que não podia acontecer. Continuou por horas o espetáculo dantesco.

Pouco a pouco, na capital francesa, depois do choque inicial, pairou o silêncio, a dor, aqui e ali magotes rezavam e entoavam cânticos. Houve também silêncio, dor, desnorteamento, orações no mundo inteiro. Perplexidade. Por fim, cintilou uma nota de alívio. As duas torres estavam salvas. Aos poucos, foi sendo divulgado que muita coisa não tinha sido consumida pelas labaredas. Acidente? Atentado? Por enquanto é prematuro concluir.

Perdoem o chavão, tentei ouvir o silêncio, explicitar o imponderável. Pus atenção nas reações do povo de Paris e do mundo inteiro. De forma particular, nos magotes em torno da catedral crucificada pelas chamas. Havia um denominador comum, a compunção, muito relevante na multidão que rezava e cantava hinos religiosos.

Não pretendo aqui repetir o que outros já comentaram com talento, em especial, valor simbólico, perda, prognósticos. Foco em outro ponto, tem relação próxima com a compunção que, esperançado, observei surpreso.

Imaginei situações diversas, comparações, sempre admitindo a origem acidental do incêndio. Tudo muda, existindo mão criminosa. Se o fogo tomasse a catedral da Milão, também joia da arquitetura gótica, que reações desencadearia entre os milaneses? Na Itália? No mundo? E se o incêndio fosse na catedral de Colônia? Em Chartres? Em Reims? Catedral de Sevilha? Basílica de São Marcos? Na própria catedral de São Pedro? Como reagiriam os nacionais? Como reagiria o mundo?

Ampliei a figuração. Fogo na abadia de Westminster? No Kremlin? Na estátua da Liberdade? No Taj Mahal? Na Esfinge ou nas pirâmides? De que forma reagiria o mundo?
Lembrei-me do horror mundial quando o Estado Islâmico ▬ no caso, de forma criminosa ▬ destruiu dezenas de sítios arqueológicos no Iraque e na Síria.

Entre nós, se o fogo acabasse com o Cristo Redentor? A imagem da Aparecida?

Existe, parece-me certo, em muitos aspectos, traços mais fortes, uma comoção maior, por ter sido Notre-Dame de Paris. Tem relação com o templo, extraordinária expressão da alma medieval, com a ordem temporal cristã, com a França. E com seus reflexos na cultura ocidental.

Por associação, lembrei-me de sermão pronunciado pelo cardeal Eugênio Pacelli, futuro Pio XII, na ocasião legado pontifício, na catedral de Notre-Dame de Paris ▬ 13 de julho de 1937. Foi leitura minha anos atrás, na ocasião fiquei impressionado. Recolhi alguns pequenos extratos: “Como exprimir, meus irmãos, tudo o que evoca no meu espírito, na minha alma, igual na alma e no espírito de todo católico, até direi, em toda alma reta e em todo espírito culto, o nome de Notre-Dame de Paris! Porque aqui é a própria alma da França, a alma da filha primogênita da Igreja”. O Purpurado diz que ali ecoam as vozes de Clóvis, de santa Clotilde, de Carlos Magno, sobretudo a voz de são Luís IX. Ele parece escutá-las. E se pergunta a causa de tanto simbolismo em Notre-Dame. O futuro Pio XII pôs de lado raça e determinismos como causas: “É inútil invocar fatalismo ou determinismo racial. À França de hoje que lhe pergunta, a França de outrora responderá dando a tal herança seu nome verdadeiro: vocação”

Vocação, chamado providencial, realidade superior, imponderável por vários lados, evocada de forma incomparável por Notre-Dame de Paris. Na compunção pela agressão ao símbolo, ainda que de forma germinativa, havia abertura para o simbolizado, a vocação da França.

O impulso extraordinário para reconstruir a catedral, expresso em doações gigantescas (família Pinault, grupo LVMH, família Arnault, família Bettencourt-Meyers, grupo L’Oréal, Apple, para citar alguns grandes doadores) é sintoma do horror que causou na opinião francesa e mundial a devastação do incêndio. Tem importância ímpar. Traz, porém, no bojo uma ameaça: tornar fashion, prestigioso, o movimento pela reconstrução. Com isso, facilmente poderá sair do foco a compunção. Iria minguando, chegaria até ao esquecimento. Semente de restauração, a compunção vale mais que qualquer riqueza.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Anemia do abril vermelho


Anemia do abril vermelho

Péricles Capanema

Desde 1997 o MST promove o abril vermelho. Financiado com dinheiro público, o gigantesco show de agitações reclamou sempre a radicalização da reforma agrária e a implantação de outras pautas da esquerda, etapas para a sonhada sociedade socialista (caminho para a presente situação da Venezuela, na realidade). O MST, na linha de frente, era ajudado em particular pela  CPT e INCRA, trinca do barulho..

Há muitos lustros o agro tem sido atacado por vários meios ▬, um dos quais, invasões de fazendas ▬, em especial pela ação concertada dessas três entidades. O MST (primeira), organização comunista, braço do PT, e a CPT (segunda), extrema-esquerda eclesiástica, protegida pela CNBB (à vera, não apenas protegida, é órgão dela). A terceira, o INCRA.

Nos governos de esquerda, no INCRA diretoria, superintendências e enxames de funcionários solícitos encarniçadamente conluiados com PT, MST e CPT agrediam a propriedade particular no campo. No governo Temer, infelizmente continuou o INCRA a favorecer objetivos do MST (um pouco menos escancaradamente). Agora, sofreu uma trava. Continuam, porém, agentes do órgão em obstinada atuação deletéria, papocam aqui e ali funcionários efetivos e superintendências empurrando no rumo antigo. As três organizações formaram na prática um pactum sceleris (formaram no passado; a realidade ainda existe hoje, diminuída).

Assomou para desgraça do Brasil respiro importante para o MST. Em encontro com representantes da organização criminosa em fevereiro passado, Rodrigo Maia, presidente da Câmara, comprometeu-se a não pautar (colocar para votação) projetos que o criminalizem. Criminalizar a atuação do MST ficou para as calendas. Foi promessa de campanha ▬ espera-se que apenas de momento arquivada. “Toda ação do MST e do MTST deve ser tipificada como terrorismo”, repetia o candidato Jair Bolsonaro. Com o incumprimento do compromisso, o MST preservaria suas possibilidades de ação no futuro.

Amarelou em 2019 o abril vermelho. Só pequena agitação em Salvador, onde um petista, Rui Costa, é inquilino do Palácio de Ondina. A própria Abin não julgou necessário alertar o governo sobre possíveis agitações. Por quê?

Porque o abril vermelho desde sempre foi show totalmente artificial, viveu do dinheiro público. Não representa em nada o sentimento do homem do campo. Em parte, o INCRA, por causa da nova direção, já não impulsiona abertamente a ação concertada do MST-CPT. Ficaram ainda focos infeccionados, já disse. O presidente Jair Bolsonaro apontou outro fator: Incra registra só 1 ocupação no 1º trimestre diante 43 ações no mesmo período de 2018. O MST está mais fraco pela facilitação da posse de armas, iniciativa que terá derivações pelo governo, falta de financiamento do setor público e de ONG”.

O ponto maior é esse, faltou dinheiro público para o abril vermelho. Por exemplo, acabou a farra dos convênios. Contudo, estão intactas as leis e, em boa medida, as estruturas utilizadas pelas mencionadas três organizações. A anemia acabará no dia em que o dinheiro público voltar a fluir.

Lamento prever, gostaria de estar errado, mas vai continuar intacta a legislação e boa parte das estruturas. Não é politicamente correto acabar com a infecção. Temos no Brasil tumores de estimação. São cancerígenos, matam as possibilidades de avanço, prejudicam os pobres, mas são nossos tumores de estimação. Um dos mais virulentos é o programa da reforma agrária.

É, repito, politicamente incorreto enunciar o óbvio ululante: desde o início, lá pelos anos 60, a implantação da reforma agrária representou retrocesso monumental, um atraso de proporções amazônicas. Se nunca no Brasil se tivesse falado de reforma agrária, os pobres hoje estariam mais bem de vida no campo e na cidade, os alimentos estariam mais baratos, seríamos hoje potência agrícola mais poderosa. E as montanhas de dinheiro que foram desperdiçados no programa maluco poderiam ter atendido larga e beneficamente a saúde e a educação.

Inexistisse o xodó pelo tumor, a medida mais comezinha e lógica seria acabar imediatamente com o programa da reforma agrária. Aqui não. E continuam as declarações bestas do tipo: “Vamos aplicar a legislação, o programa da reforma agrária não parou, vai ficar sério”. “Vamos aproveitar os lotes abandonados”.

Todos sabem, são centenas de milhares de lotes com contratos de gavetas, abandonados, empregados para outros fins, produtividade baixíssima. Já foram utilizados 880 mil quilômetros quadrados nessa doidice (o Estado de Minas Gerais, 586. 528 km2, área do Rio Grande do Sul, 281.748 km2; soma dos dois 868.266 km2). Ou seja, se somarmos a área de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul não dá a área esperdiçada na maluquice do programa de reforma agrária (disseminação de favelas rurais, roubalheira, pobreza, clientelismo de movimentos sociais). O agronegócio salva a economia brasileira, garante a balança comercial, distribui riquezas, dá empregos. Sabem com que área? Vejam esse dado: em 2016, a Embrapa Territorial havia calculado a ocupação com a produção agrícola em 7,8% (65.913.738 hectares. 659.137 km2.

Relatório do TCU de 2016 indicava que o valor das áreas com indícios de situação irregular dentro do programa de reforma agrária era de R$159 bilhões, utilizada a avaliação do IBGE. Se for em valor de mercado, pode facilmente chegar a R$300 bilhões. Terra tratada na esbórnia, na desorganização, no desconhecimento. Advertia que bilhões de reais emprestados poderiam não ser pagos (claro, nunca foram). Vejam o disparate nas palavras do relatório do TCU: “Conforme informado pelo INCRA, os créditos eram concedidos a estruturas associativas formais ou informais e distribuídos entre os integrantes dos PAs (projetos de assentamento), não havendo registro individualizado organizado sobre quem recebeu os créditos, ou seja, o prejuízo pode ser muito maior.” Entenderam? Sociedades informais (patotas de privilegiados dos movimentos sociais), sem registro individualizado recebiam dinheiro público.

R$300 bilhões de terras na bagunça. Coloque os empréstimos não devolvidos, os perdões de dívidas, a assistência técnica estatal para aproveitadores, o controle tirânico dos assentamentos pelos agentes do MST, a venda ilegal de madeira. Os escândalos do mensalão e do petrolão são fichinha perto do escândalo do programa da  reforma agrária.

Mas, é claro, não se pode extinguir o programa. Razão técnica? Nenhuma. Não aumenta a produtividade. Razão social? Nenhuma. Piora a situação dos pobres. Razão de paz social? Nenhuma. Tensiona a região em que se implantam os assentamentos. Mas trona e sobrepassa tudo uma razão inamovível. É tumor de estimação. Tumores de estimação são intocáveis.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Ensinar a enxergar é o maior presente do educador


Ensinar a enxergar é o maior presente do educador

Péricles Capanema

Vou falar de assunto que nunca sai de moda. Meio distraído, tardava o olhar pela “Oração aos Moços” de Ruy Barbosa (já a conhecia, pincei-a lá pelos quinze anos na biblioteca de um tio desembargador), quando tomei um susto. Fixei a vista: “Os que madrugam no ler convém madrugarem também no pensar. Vulgar é o ler, raro o refletir. O saber não está na ciência alheia, que se absorve, mas, principalmente, nas ideias próprias, que se geram dos conhecimentos absorvidos, mediante a transmutação, por que passam, no espírito que os assimila. Um sabedor não é armário de sabedoria armazenada, mas transformador reflexivo de aquisições digeridas”.

Li de novo, devagar. Belas palavras, mas tomei outro susto. O famoso brasileiro, já então septuagenário, no texto, aconselhava a seus paraninfados, os moços da turma de 1920 da Faculdade de Direito do Largo São Francisco a levantar cedo (tudo bem) e a batalhar na aquisição do conhecimento. Como? Primeiro passo: ler, ler, ler. Chama a isso ocupação vulgar, no sentido de comum, corriqueira, menos importante. Ótima coisa. Muitos leem. Segundo passo, e agora o principal, refletir. Seria coisa rara e essencial para a boa formação, pensar sobre o que se leu. Pela transmutação, fazer do conhecimento ingerido, inerme, ativa ciência própria. Anima os paraninfados à peleja extra, a ruminação que os levaria a aproveitar bem o esforço da leitura. Aí chegaríamos ao homem sabedor, a pessoa que passa além do mero erudito, qualificado pelo douto jurisconsulto de “armário de sabedoria armazenada”. Não mais estante, peça inanimada, que empilha conhecimentos, o sabedor, espírito vivo, atinge o patamar de “transformador reflexivo de aquisições digeridas”.

O método bosquejado por Ruy Barbosa funciona na prática? Se funcionar, é suficiente para uma boa formação, fazer uma pessoa culta? No frigir dos ovos, soou-me um tanto cerebrino, descolado da realidade. Vou meter minha colher de pau.

Tudo se resume, afinal de contas, a conhecer, melhorando, a entender a realidade. O capiau a conhece e entende a seu modo sem nunca ter lido um livro. Dou de barato, é insuficiente, lamento, mas muitas vezes não percebemos em seus comentários mais senso do real que em observações eruditas de homens de gabinete? O frescor de suas expressões não reflete em várias de suas facetas percepção mais exata da realidade? Tal olhar tem valor inestimável.

Enfileiro a seguir, como pipocam na cabeça, alguns provérbios populares. Cada macaco no seu galho. Apressado come cru e quente. Antes só que mal acompanhado.  Casa de ferreiro, espeto de pau. Escreveu, não leu, o pau comeu. A cavalo dado não se olham os dentes. Em terra de cego quem tem olho é rei. Deus escreve certo por linhas tortas. Cachorro mordido de cobra tem medo de linguiça. Seguro morreu de velho e o desconfiado ainda vive. Para baixo, todo santo ajuda. Um dia é da caça, outro do caçador.

Poderia continuar sem fim. Foram necessários livros para burilar tais ditos? Não. Bastou explicitar, sintética e graciosamente, o que a vida ia ensinando. E é só um aspecto da cultura popular. O livro, porém, precisa deles, sob pena de, muitas vezes, ser digressão de nefelibatas. Adiante. O problema (talvez o maior) da cultura não tem sido sempre a erudição cortada da realidade? E sem o hábito de decifrar a realidade miúda terão vida reflexões sobre livros lidos? Ou serão folhas secas?

Amplio. Onde colocar no método do celebrado tribuno baiano a enorme contribuição de conhecimento que nos invade pelos cinco sentidos ▬ visão, olfato, paladar, audição, tato ▬ aprendizado direto do que sem cessar acontece ao redor nosso? E então, sem preguiça e de forma proveitosa unir as impressões que nos entram pelos sentidos, explicitá-las com critério, e incluir tal conhecimento em nosso acervo?

Tenho escutado muita gente que lê e reflete sobre o que lê. Mas tem preguiça em ver, cheirar, tocar. Observa pouco, não tira suco do convívio e da contemplação da natureza. Dispara comentários desfocados. Faltam ali conversas com mãe, tias, primos, o bate-papo com pessoas de todas as idades e condições sociais, a observação da natureza em sua vida miúda. A boa formação e a alta cultura precisam ter raízes na terra úmida. Não são plantas de estufa. Ensinar a enxergar é o maior presente do educador. E educadores estão em todos os ambientes. Ruminemos, sem dúvida, um olho nos livros, outro na realidade. Esse problema mexe com todo mundo, queiramos nós ou não, de sua solução depende o destino de cada um e da sociedade, nunca sai de moda.


sábado, 13 de abril de 2019

Ponto fora da curva


Ponto fora da curva

Péricles Capanema

Virou coringa a expressão “ponto fora da curva”, tem sido empregada nas mais diferentes acepções. Umas lisonjeiras; outras, nem tanto, envolvem censura, às vezes até carregam nota depreciativa. Vou usá-la como censura. Boi do couro grosso, de há muito acostumado a bordoadas, mesmo as mais inesperadas, posso bem levar mais umas hoje. Paciência. Segue a vida.

Vem da curva de Gauss (1777-1855), parece, sua origem. É uma fórmula matemática utilizada na Estatística, que se exprime, graficamente, à maneira de um sino. A imensa maioria dos eventos analisados estatisticamente cai dentro do sino. Um ou outro fica fora da curva. É o dito ponto fora da curva. Por analogia, aplica-se aos que se destacam, estão além do universo considerado. Daí “fulano é ponto fora da curva em seu meio”. Sicrano, pelo contrário, desceu muito, ficou “ponto fora da curva entre seus amigos de infância”. E assim por diante. Multiplicam-se ao infinito as aplicações analógicas da expressão com raiz na Estatística.

Vou falar do decreto 9.758 de 11 de abril de 2019, triste ponto fora da curva ▬ bagatela para os superficiais, golpe sério para quem enxerga fundo. O diploma legal obriga os membros do Poder Executivo a um só tratamento: senhor (claro, senhora, senhores, senhoras). Por óbvio, exclui da esdrúxula imposição o Legislativo, o Judiciário, comunicações com autoridades estrangeiras e outras exceções.

Vossa Excelência não pode mais, agora é só senhor. Vossa Magnificência, excluído, basta o senhor. Vossa Senhoria, rifado. Doutor, o simples e familiar doutor, banido, onde já se viu chamar alguém de doutor em comunicação oficial? Já está muito bom o senhor, para que mais? Ilustre, fora. Digno, expulso. Respeitável, idem. O tratamento nivelador vale para todos, presidente, vice-presidente, ministros, reitores, poupa ninguém. Majestade e alteza já haviam sido enxotadas faz mais de século. Ficou mais simples, é bom, ruminam alguns. Caminhemos devagar, escapando das armadilhas simplificadoras; nessa uniformizante e igualitária toada, acabaríamos despencando logo nos buracos do cumpanhero e do camarada para todo mundo. Camarada presidente.

Entro por atalho, um exemplo conhecido vai cortar caminho. À vera, até envolto na legenda, tantas as versões sobre os diálogos, ainda que no cerne concordantes. O protagonista é Talleyrand (1754-1838), o “príncipe dos diplomatas”, causeur, brilhante presença de espírito, inteligência superior. À mesa, em ambiente fidalgo, tratava os assuntos da França e da Europa com rapidez, objetividade, leveza; eficácia. Sob as formas refinadas, um auge de senso prático. Em jantares de convívio ameno, depois de cortar a carne, um de seus recursos, com senso da medida honrava a cada conviva ao regalar um pedaço. Com o pitéu, ia junto nas palavras, no tom e no gesto certos o reconhecimento das superioridades devidas à idade, à condição social e ao mérito. Postura sempre simples e natural; nunca postiça ou enfatuada. A um eclesiástico destacado ou um príncipe: “Monseigneur, me daria a grande honra de aceitar um pedaço?” A um duque: “Poderia ter a alegria de lhe oferecer este pedaço?”. A um marquês: “Me daria a alegria de aceitar este? E assim ia, até o mais simples dos convivas.

Ambiente de século 19, restos do Ancien Régime, Paris, outros hábitos, sei bem. Resta uma constatação, sem gosto e cultivo do senso do matizes, sem apreço às variadas fulgurações do espírito, inexiste civilização. O esplendor das formas constituía ali expressão refinada da “unidade na variedade” ▬ a palavra universo vem daí. Busco em Isaac Newton: “A variedade na unidade é a lei suprema do universo”. Variedades harmônicas. Não agridamos inconsideradamente a variedade. Em resumo, o grande espetáculo de cultura do salão de jantar de Talleyrand anos a fio, repetida com variações sem-número de vezes, animou conversas, perenizou-se nas páginas das memórias do tempo, foi degustada em biografias célebres. Chegou viva até nós com seu fulgor de alta civilização. Formou personalidades.

Ao longo dos séculos admirações e imitações sensatas foram nutridas por cenas como a acima descrita em duas pobres pinceladas. Pedagógicas, alimentam o impulso da perfeição pessoal (e social), assim como um exemplo de um santo nutre o desejo da ação virtuosa. E aqui repito: precisamos buscar a simplicidade, mas fugir dos simplismos e simplificações. É raro uma solução niveladora não padecer pelo menos de simplismo; com frequência, empobrece o convívio; e, em decorrência incoercível, a própria personalidade.

Amplio. Valores do Brasil antigo levavam naturalmente a distinguir pessoas e situações com apenas um gesto, uma palavra rápida. Faziam parte do ambiente cultural que encantou muita gente de relevo que viveu por aqui. Sempre me impressionou o comentário de Fernand Braudel, dos maiores historiadores do século 20: “Foi no Brasil que me tornei inteligente. O espetáculo que tive diante dos olhos era um tal espetáculo de história, um tal espetáculo de gentileza social que eu compreendi a vida de outra maneira. Os mais belos anos de minha vida, eu passei no Brasil”.

O que ele viu, espetáculo de gentileza social ▬ de convívio ▬ que fez entender a vida de forma diversa? Para Braudel, o fundamental em um historiador era conservar o coração da criança (maravilhar-se), surpreender-se com os fatos. E olhar o passado como uma criança percebe as primeiras imagens. Entre 1935 e 1937, floriu no Brasil o coração de criança do historiador,  aperfeiçoou antenas.

Corta. Vamos ser realistas, o Brasil já não está conseguindo fazer inteligentes os homens potencialmente muito inteligentes. Porque está morrendo a nossa forma própria de enxergar a realidade, sufocados os ambientes familiares, onde ela florescia. Corremos risco iminente de já não termos o olhar que nos distinguia.

E aqui volto ao decreto 9.758 de 11 de abril. Esse malencontreux texto, para ser benévolo, é ponto fora da curva, pois vem de um governo que já editou muitas medidas saneadoras ▬ teve muita coisa dentro da curva. Nivelador, simplificador, aproxima-nos de autômatos. Vira as costas para o Brasil que cultivava matrizes de juízo e conduta, apreciava diversidades, harmonizava-as, sabia estimular umas a fortalecer as outras. E com isso criava condições para convívio enriquecedor de personalidades.

No mesmo pacote do decreto 9.758 veio o revogaço. Sugestão: incluam o 9.758 no revogaço.



sábado, 16 de março de 2019

Ganhava as batalhas com os olhos


Ganhava as batalhas com os olhos

Péricles Capanema

Guerra se vence com soldados, canhões, estratégia, boas alianças, propaganda, dinheiro. Repito aqui constatações conhecidas da sabedoria convencional. Sob outro ângulo, no período da descolonização (o pós-guerra) apareceu o dito: “A guerra nas colônias se ganha nas metrópoles”. Não era só aquilo posto acima, havia mais. De outro modo, em muitas ocasiões a guerra se vence sobretudo nos embates da opinião pública. Assim foi com os Estados Unidos, perdeu a guerra do Vietnam nas suas grandes cidades. De quase nada adiantou o poderio técnico e o heroísmo dos soldados nos campos de batalha do sudeste asiático. Assim foi com a França. Assim foi com a Inglaterra.

Napoleão Bonaparte punha outro fator na dianteira: “Raramente tirei a espada, porque ganhava as batalhas com os olhos e não com minhas armas”. Era a presença do Corso, e nela o olhar (os olhos), galvanizando as energias dos batalhões que então se lançavam com frequência irresistivelmente ao ataque. Mudou a história da Europa, até do mundo. Em geral para o mal, infelizmente.

Sun Tzu, quatro séculos antes de Cristo, ensinou em “A Arte da Guerra”: “Os que conseguem que se rendam impotentes os exércitos inimigos sem lutar, são os melhores mestres da arte da guerra. Um verdadeiro mestre das artes marciais vence forças inimigas sem batalha, conquista cidades sem assediá-las. A vitória completa se produz quando o exército não luta, a cidade não é assediada”. Curto, a guerra se ganha ou se perde no dinamismo das convicções e propensões interiores, antes que nas armas.

Presenciei fato que tem analogias com as realidades acima ventiladas. Foi há uns quinze anos em sala festiva; não darei os nomes, pois as pessoas estão por aí. Era comemoração, sentava-me distraído atrás de um ex-presidente da República e de seu antigo ministro da Justiça. Falava o homenageado, episódios da vida na empresa, plateia entretida. O antigo ministro da Justiça sussurrou nos ouvidos do ex-presidente: “Está explicado o sucesso da construtora, o homem tem estilo”. Para o político ladino, o grande êxito do empresário não vinha do dinheiro, não vinha dos técnicos, não era marketing: “o homem tem estilo”.

Pode parecer outro pulo, mas continuo no mesmo rumo. Corria março de 1958 (três meses antes da Copa do Mundo), jogo simples entre o América do Rio e o Santos. Pelé tinha 17 anos, relativamente pouco conhecido, era apenas um entre vários no campo. Nelson Rodrigues, na crônica da partida, intitulada “A realeza de Pelé”, comentou: “Anda em campo com uma dessas autoridades irresistíveis e fatais. Dir-se-ia um rei. Do seu peito, parecem pender mantos invisíveis.  O que nós chamamos de realeza é, acima de tudo, um estado de espírito. E Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável ▬ a de se sentir rei, da cabeça aos pés. Com Pelé no time ninguém irá para a Suécia com a alma dos vira-latas. Os outros é que tremerão diante de nós”. O Brasil, três meses depois, pela primeira vez ganhou a Copa.

Existe, às vezes benéfica, por ocasiões maléfica, indefinível força interior, constatada por todos ou, quando menos pelo que sabem ver, impressionante, decisiva, que se exprime no estilo, atitude, olhar, passo, conduta, porte, segurança, carisma. No jeitão. As vitórias e derrotas humanas, mais que o dinheiro, os ótimos silogismos e a organização, devem-se a fatores imponderáveis (ou muito dificilmente ponderáveis e explicitáveis), como os relatados acima. O que são? Impulsos potentíssimos, não raro bafejados pela graça ou pela tentação. Contra eles, quando aviventam o mal, existe reação possível? É difícil, mas o começo está na temperança, cabeça fria e raciocínios claros.

Pretendia falar sobre a situação do Brasil. O que estará nos esperando na esquina, já agora maquinado debaixo de nossos narizes? Daqui a quatro anos, o que supor que enfrentaremos? Pensando bem, tratei da situação brasileira, ainda que tenha deixado de lado no momento a corrupção, privatização, estatismo, reforma da Previdência, posição da alta magistratura, Lava Jato, articulação da esquerda (CNBB, PT, PSOL, sei lá mais o quê), avanço da China, Venezuela, pingos ácidos de desmoralização sobre correntes antipetistas. Reconheço, sem nenhuma reserva, são assuntos fundamentais, reclamam análise urgente, embebida de discernimento. Mas ficam para próximo texto, meu espeço acabou.

Guerra se vence com soldados, canhões, estratégia, boas alianças, propaganda, dinheiro. Com olhos. Não nos esqueçamos nunca, no panorama podem estar atuando fatores pouco notados, enormemente importantes ▬ fatos, pessoas, modas, estímulos, proibições tácitas. Espero, o texto terá o condão de atrair, ainda que brevemente, a atenção sobre eles. Dar-me-ia por satisfeito.

quinta-feira, 14 de março de 2019

Desacordos esclarecedores


Desacordos esclarecedores

Péricles Capanema

O texto poderia ter como cabeçalho “Necessidade urgente de discriminação positiva”. Com efeito, faz falta ação afirmativa para grupo de vulneráveis, no caso enormemente relevante. Vou começar uma agora. Já que ninguém fala por ele, serei eu o pequeno porta-voz autonomeado.

Grupos vulneráveis, sabemos todos, são coletividades que necessitam de proteção especial do Poder Público (ou, de forma análoga, estendendo o conceito, da opinião pública). São as vítimas da seleção natural (ou da seleção cultural). Então o Estado faz em relação a eles a intitulada discriminação positiva, favorece-os de alguma maneira para assim restabelecer a igualdade proporcional. Privilegia-os, às vezes sensatamente. A palavra vem hoje carregada de preconceito, é manipulada por esquerdistas e progressistas. Na análise fria, trata-se da criação de privilégios, alguns razoáveis, repito, avanços; outros absurdos, retrocessos, quando inibem a competição justa e o prêmio ao mérito justificado.

Privilégios, ensina a etimologia, são leis privadas, só valem para determinada coletividade. É necessário notar, no presente os movimentos revolucionários utilizam a discriminação positiva para tentar impor a igualdade gradual em setores da sociedade, prejudicando a harmonia social, mais amplamente, o bem comum.

Temos ações afirmativas em relação a crianças, adolescentes, empregados, idosos, mulheres, negros, colégios públicos, homossexuais, índios, pobres, deficientes físicos e mentais, refugiados. A lista não para de crescer.

Transporte público gratuito e preferência nas filas, por exemplo, para idosos (gente que já passou dos sessenta anos). Outro, cota de 30% para as mulheres nas listas de candidatos dos partidos; e ainda 30% do Fundo Eleitoral. Na prática, tem sido terreno fértil para falcatruas. Uma terceira, critério especial para vagas nas instituições federais de ensino superior (para as de ensino médio federais os critérios são praticamente os mesmos), a chamada lei das cotas. 50% das vagas (mínimo) estão destinadas a alunos provenientes de escolas públicas; os outros 50% vão para os aspirantes de procedência diversa, em geral do ensino pago. Dos 50% destinados à rede pública, a metade fica com pretendentes provenientes de unidades familiares com renda igual ou menor a um e meio salário mínimo por cabeça. A outra metade vai para os postulantes de unidades familiares com renda superior a um e meio salário mínimo por cabeça. Nas vagas destinadas à rede pública, porcentagem no mínimo igual à do último censo do IBGE para a região de negros, pardos, indígenas e pessoas com deficiência é destinada a tal grupo. Discriminações positivas.

Fazem parte de tendência universal e são em geral chamadas de ações afirmativas. Negam na prática, ou pelo menos deixam de lado, o princípio darwiniano do survival of the fittest (sobrevivência dos mais aptos), base da seleção natural, a espinha dorsal do evolucionismo.

Vou propor agora uma ação afirmativa de alcance universal (calma, não é norma positivada). Valeria até mais que norma legal, se entrasse fundo nos espíritos. Acima, muitas vezes para promover a igualdade setores revolucionários desconsideram a lei darwiniana, tida como natural do survival of the fittest. Os menos aptos são protegidos.

Aqui, no segundo caso, com veremos, em geral para justificar uma sociedade libertária, apegam-se à teoria da evolução e, com isso, pelo menos na prática, contestam a ação de um Ser transcendente, legislador e providente (Deus). Lá em cima, dão uma banana para Darwin. Aqui em baixo, vira um quase deus.

Aos fatos. Inimigos efetivos da civilização ocidental, das mais variadas procedências, pretendem impor, de maneira intolerante e obscurantista, o darwinismo como dogma universal. Esteadas nele, a corrente de opinião criacionista e os partidários do Intelligent Design (Desígnio inteligente) são furiosamente atacados nos Estados Unidos (aqui também e alhures). Certamente você já leu e ouviu muita gente, com escora na teoria de Darwin, descer a madeira nos criacionistas, como se todos eles fossem propagadores de disparates.

Aos fatos. Circula desde 2001, sem grande divulgação, manifesto intitulado “Dissent statement” (em tradução livre, “Posição discordante). Esse “Dissent Statement” já tem mais de mil signatários. Não são zé-manés, como é corrente em proclamações de pretensos eruditos por aqui. Colocaram ali suas assinaturas grandes especialistas dos Estados Unidos, Rússia, Hungria, Inglaterra, França, Israel, para citar alguns países. Entre outros, são doutores e professores de Harvard, Yale, Princeton, MIT, Cambridge, Universidade Ben-Gurion de Israel. Inclui grandes nomes em biologia molecular, bioquímica, entomologia, química quântica computacional, microbiologia, psiquiatria, biologia marítima, física, antropologia; paro por aqui.

Formulam pedido sensato e, quem sabe, por causa da sensatez, furiosamente atacado: “Somos céticos a respeito das afirmações da possibilidade da mutação fortuita e da seleção natural serem responsáveis (e causa) da complexidade da vida. Deve ser encorajado o exame cuidadoso das razões apresentadas como fundamento da teoria de Darwin. Existe discordância científica em relação ao darwinismo. Merece ser ouvida”. Enfim, reclamam estudo e reexame, mas nem isso é tolerado. E alguns deles colocam uma evidência inafastável: nunca houve um exemplo documentado de uma mutação genética que acrescentou informação genética em vez de destruí-la. O dr. Michael Egnor da Stony Brook, instituição nova-iorquina de nome, sustenta que “intuitivamente os cientistas sabem que o darwinismo explica algumas coisas, mas não outras” E continua, os partidários do darwinismo “nunca se colocaram de maneira científica se a mutação fortuita e a seleção natural podem gerar a informação contida nos seres vivos”.

São milhares de bons cientistas empurrados de lado, silenciados por repressão implacável. Sabemos, a “peer pressure” e a sanção social podem ser piores que a lei da mordaça inscrita em códigos. Tais homens de estudo vivem hoje em situação de vulnerabilidade, e só por isso merecem que de começo já se lhes seja destravada a língua. Pelo bem da ciência, pelo progresso da humanidade, por pena deles, são claros credores de ação afirmativa, de serem discriminados positivamente para que se restabeleça certa igualdade em relação a colegas seus prestigiados por posições, microfones, divulgação e dinheiro.

quarta-feira, 6 de março de 2019

Purpurina suja


Purpurina suja

Péricles Capanema

De forma obsessiva, o Carnaval tomou conta da televisão, dos jornais, das revistas, de blogues e sites sem-número. Estadeia visibilidade no topo. Viro a moeda, agora miro a coroa. Tomou conta da conversa das pessoas? De suas preocupações? Está de vera em ascensão rumo ao auge?

Corta. No turbilhão de notícias, saraivadas sucessivas, desventrando o caos em que se encontra o Brasil, há anos venho seguindo fenômeno alvissareiro: o Brasil amadurece. Lenta e continuadamente. Por que digo o Brasil? Por ser fenômeno generalizado.

Em vários pontos, emergem gradualmente, tendendo a serem majoritárias, opiniões que supõem reflexão, amplitude de vistas, sopesamento sereno de vários fatores, condições inafastáveis para caminhar na direção certa. Exemplos. Meses atrás li observação do jornalista Otávio Frias Filho (1957–2018), impressionou-me: “Eu fui bem socialista, digamos, entre 76 e 78 ou 79. Mas sempre com visão crítica. Daí eu recebi um convite da parte da Economist pra visitar a Grã-Bretanha. Era programa muito bom, você ficava um mês conhecendo instituições e parlamentos, além da Redação da revista. Era a época Thatcher, e eu fiquei impressionado: quanto mais velha a pessoa que eu entrevistava, mais de esquerda ela era. Quanto mais jovem, mais de direita. Eu disse a mim mesmo: ‘Tem alguma coisa errada aqui, não é normal o que está acontecendo’”.

Nada tinha de errado, era normal o que acontecia, a Inglaterra estava amadurecendo, deixava de lado fantasias deformantes, refletia com menos amarras. Em suma, passava por avanço social sério; o socialismo, retrocesso evidente, parecia velheira nefasta a setores cada vez maiores, em especial na juventude. O Brasil, na época, infelizmente ainda estava numa juventude transviada, verde para posição mais lúcida. Gostava de acreditar em devaneios românticos, observava pouco, fantasiava sonhador sobre a ordem temporal. Melhorou bastante, com tropeços andou no rumo certo, amadureceu. E hoje teses de direita são defendidas de forma crescente por jovens.

No caso, na Inglaterra, antes blasonava dominante a opinião de que o Estado estava chamado a resolver os problemas, a sociedade vinha em segundo lugar. Era convicção sem dúvida deletéria. Naquele momento, a convicção antiga murchava nos espíritos. O Estado voltava a seu papel suplementar em relação à sociedade. Os jovens não queriam se ligar ao que presenciavam definhando.

Otávio Frias Filho se espantou com o que enxergou no mundo desenvolvido, oposto ao que sentia no Brasil de então, chapinhando no subdesenvolvimento. Contou ainda o jornalista: “Eu já estava na faculdade, sob influência enorme daquele movimento estudantil bem esquerdizado da época, na São Francisco”. Na ocasião, o mundo intelectual brasileiro que se publicava era maciçamente de esquerda. A juventude inglesa estava noutra, caminhava para a direita. Hoje, é menor entre nós o domínio intelectual da esquerda nos ambientes da intelligentsia, isto é, burguesia culta, jornalistas, docência universitária. Apagou-se em parte o deslumbramento esquerdista.

No Brasil de então, apenas para lembrar um fato, o assunto privatização começava a fazer seu caminho. Surgiram enormes resistências e não apenas na esquerda clássica que deblatera até hoje contra o processo. Houve, ao longo dos anos, marcha gradual para chegar à convicção saudável de que a solução dos problemas nacionais descansa sobretudo na sociedade e não no Estado, a saber, nas pessoas, nas famílias, nas empresas, nas escolas, na vida religiosa. Hoje, proporcionalmente, mais gente, em especial na juventude, apoia a política de privatizações (se bem-feita, claro) que no já longínquo 1979. Amadurecimento.

Outro ponto de amadurecimento, emagreceu nosso ufanismo infantil com o futuro do Brasil. A bem dizer sumiram ditirambos como os do simpático conde Afonso Celso em “Por que me ufano de meu país”: “Não há no mundo país mais belo do que o Brasil. Quantos o visitam atestam e proclamam essa incomparável beleza.” Caíram também no descrédito as bobagens de que somos os melhores em quase tudo, inigualáveis no futebol, reis do jeitinho, criativos como ninguém e vai por aí afora. O óbvio ganha espaços, antes ocupados por fantasia lisonjeante. Está mais difundida a opinião severa (e objetiva) de que um futuro de grandeza supõe como hábito de décadas, para começo de conversa, cultivo sério da inteligência, o esforço, a disciplina, vida ativa, regrada e austera. Aqui também houve amadurecimento. Roberto Campos, jocosamente (ou tristemente), com frequência trazia à baila, martelava Gilberto Amado sempre, ele daria pulos de alegria quando encontrasse um brasileiro capaz de ligar causa e efeito. Campos constatava, continuamos incapazes de ligar causa e efeito. Constato o oposto: começamos em vários campos a ligar causa e efeito, prenúncio de rumo certo.

Agora volto ao tema do artigo: o carnaval está no auge da popularidade? De um auge, sim, melhorando, de um fundo de poço: 2019 representou explosão de espírito libertário, de paganismo debochado e desbragado, lembrou os cultos a Baal da antiguidade pagã.

Em 2019 ficou claro também ▬ primeira vez, pelo que atino ▬ um distanciamento crítico da maioria da população em relação ao carnaval, desagradada de ver montanhas de dinheiro público torrado na proteção e promoção da devassidão. Causa e efeito ligados.

Pesquisa do instituto Paraná desenterrou realidade em geral oculta. Feita a pergunta: “Algumas prefeituras do Brasil decidiram reduzir a verba do carnaval para investir em áreas como saúde, educação, infraestrutura, entre outras. O sr (a) concorda ou discorda dessa iniciativa?” No Brasil inteiro, 85,8% concordam. Discordam 8,6%. No Sul, mais escolarizado e de maior padrão de vida, 90,2% concordam. Segundo quesito: “Em sua opinião, o carnaval deve ser: (72,6%) totalmente patrocinado pela iniciativa privada; (21,2%) metade patrocinado pelo poder público e a outra metade pela iniciativa privada; (2,4%) totalmente patrocinado pelo poder público. No Sul, 82,5% querem o Poder Púbico fora do Carnaval, 12,9% meio a meio, 1,2% acham que o Poder Público deve patrociná-lo totalmente. Terceira pergunta: “O carnaval é a principal festa popular do Brasil?”, 53,5% responderam Não; 41,7% responderam Sim. Existe aqui clara opinião de reserva, até mesmo de oposição.

Somando e subtraindo, os brasileiros, em sua grande maioria, prefeririam o dinheiro público aplicado em escolas, postos de saúde, creches, segurança ao invés de vê-lo torrado irresponsavelmente nos três dias de carnaval; é sinal de maturidade e seriedade de espírito. De longe, brilha a purpurina da popularidade. De perto, apresenta manchas. No caso, bom começo, desperta esperanças.

sexta-feira, 1 de março de 2019

A igualdade estrangula a plenitude


A igualdade estrangula a plenitude

Péricles Capanema

CLAP na Venezuela significa Comitê Local de Abastecimento e Produção. São dezenas de milhares pelo país, distribuem e, por escassas vezes, produzem um pouquinho de alimentos. Vendem bolsas de alimentos a preços subsidiados apenas às pessoas neles registradas. O registro supõe inexistência de militância oposicionista e alguma forma de adesão ao regime. Sem registro, nada das doações dos alimentos de primeira necessidade. Comunicado da TV estatal afirma, os CLAPs “constituem a nova forma de organização popular encarregada da distribuição, casa por casa, dos produtos de primeira necessidade”. Casa por casa. Num país esfomeado, controlam grande parte da comida entregue a conta-gotas aos pobres. É, na prática, instrumento eficaz de pressão, perseguição e prêmio, enfim, de meticuloso controle social. Estrangula as reações no nascedouro. Enorme retrocesso humano, sem dúvida, mas gigantesco avanço revolucionário. Em inglês, clap significa aplaudir. Os partidários dos comitês têm ainda essa missão, havia me esquecido: aplaudir a tirania no poder até as mãos ficarem em carne viva.

Os CLAPs têm a mesma inspiração dos sovietes implantados na Rússia em 1917. Eram conselhos operários que, rezava a teoria, controlavam todos os assuntos no patamar local e depois se articulavam para comandar o Estado. Ainda em doutrina, levavam ao extremo a autogestão. Por meio deles, supostamente, pela primeira vez na história, a igualdade triunfaria, surgiria o governo dos operários. Entre as atribuições, naturalmente está produzir, regular e distribuir a produção. Os bolchevistas em 1917 lançaram a revolução sob o lema “Todo o poder aos sovietes”. Lero-lero. Na prática, outra a realidade, o Partido Comunista dirigia tudo, os sovietes nunca passaram de “longa manus” dos líderes partidários.

Volto ao calvário da Venezuela. Do CLAP, soviete em construção, disse Nicolás Maduro: “O CLAP é ritmo, o CLAP é alegria, o CLAP é poder popular, são [os CLAPs] a expressão da igualdade, da solidariedade e da cooperação, do trabalho popular, são a expressão do futuro”.

De novo, na teoria: o trabalho se daria em conjunto, em ambiente de cooperação e solidariedade. Daí serem “expressão da igualdade”, “expressão do futuro”. De outro modo, o objetivo do futuro é a igualdade dentro dos CLAPs. Na prática o que acontecerá é a repetição de todos as tentativas anteriores: ambiente crescentemente pesado, aproveitadores, brigaria, criminalidade em alta, baixíssima produtividade, pobreza e exploração dos fracos; no fim, extinção por completa inviabilidade. Desde o século 19, os ensaios sempre deram nisso.

Nicolás Maduro reafirma obstinado a concepção totalitária, melhorando, a obsessão totalitária mitomaníaca, que sempre acompanhou o comunismo, empurrar todo mundo para dentro da igualdade nessas pequenas comunidades. A utopia comunista vive nos escombros do socialismo real, o soviete, cadinho do homem novo, para dentro do qual todos devem ser empurrados, para ali trabalhar e viver; na casca, a sociedade dos livres e iguais, no miolo, o inferno na terra. Em 1917 foi tentado assim, aconteceu desse modo em boa medida nos kibutzim judeus. Deixo de lado esboços na Espanha, Alemanha, Hungria, Polônia, Itália, expostos em ampla literatura sobre os conselhos operários. Agora o regime chavista os impõe à Venezuela. Na esquerda católica, eco fiel da utopia socialista, tivemos (e ainda temos) os sonhos (melhor, os delírios de ordem social) das comunidades eclesiais de base.

O MST se nutre dessa mesma doutrina tóxica. Os assentamentos, meninas dos olhos do INCRA e do MST, têm também aqui sua origem. Essas duas organizações ▬ o MST claramente orcrim, organização criminosa, e o INCRA, em sua atuação, vezes sem conta, também orcrim pelo contubérnio de décadas de destacados funcionários seus, de carreira ou em cargos comissionados, com MST, CPT e afins ▬ sonham com um Brasil contaminado por assentamentos, na prática pústulas cancerosas na carne da Pátria, favelas rurais. Em verdade, a inspiração maior é o soviete. Pasmem, ninguém parece ter peito para gritar o óbvio ululante: é preciso acabar de vez com essa doidice, já velha de décadas, dos assentamentos. São mais de 30 anos de fracassos, dinheiro torrado, bilhões e bilhões de reais, baixíssima produtividade, roubalheira, valhacouto de desordeiros, favorecimento de agitadores da extrema esquerda, em regra com a parceria solícita e contínua do INCRA.

De onde vem tanta desgraça, que não morre, resiste à realidade óbvia, por tanto tempo em tantos países do mundo? Da idolatria da igualdade. Para atingir sua igualdade, os revolucionários conhecedores dão origem a sabendas, quase nunca confessadamente, a homens atrofiados. São décadas a fio produzindo personalidades estioladas, sacrificadas nas aras da igualdade.

Corta. Nenhuma igualdade buscar? Sim, igualdade proporcional, de matriz aristotélica. Daí, desigualdades harmônicas, estão explicadas na doutrina social católica.

Volto. Quero tratar em especial de ponto que está lá em cima no título e é em geral enterrado nas discussões: a plenitude. Os homens, por inclinação natural, buscam e devem buscar a plenitude. Têm direito à plenitude pessoal. Dela, existem incontáveis espécies, moral, cultural, artística, financeira. Respeitada a moral, a qualquer delas. Age contra direito humano quem propõe regime que estiole e atrofie qualidades pessoais; mais no ponto, cerceie o florescimento da pessoa.

Meses atrás publiquei livro pequeno exatamente sobre esse ponto, era um conto. O título do livro, “Brigo pelos homens atrofiados”. Para ficar mais leve, o trabalho teve caráter jocoso e saiu com pseudônimo: Zeca Patafufo foi o autor. De passagem, para quem não sabe, patafufo, em Minas, é o epíteto faceto que recebe quem nasceu em Pará de Minas, nasci lá.

No meio do conto, um chefe revolucionário de expressão explica didático numa roda: “Minha opinião, a gente sempre buscou o avanço, outro modo, foi atrás da igualdade; é continuar por aí, não tem porque mudar. Lá adiante chegará a hora de matar a pessoa-rei, simples realidade datada. Não massacramos os reis? Vamos abater também esse e jogar o cadáver ao lado de Luis XVI e Nicolau II. Taqui a grande conquista progressista na rota da igualdade. Entendo, custoso se acostumar, por ora fica entre nós. Esmiúço mais: a igualdade, o fio condutor das revoluções nos Tempos Modernos, é o primeiro valor social fundante, é falar, o absoluto supremo, cuja generalização representa o fim da exploração do homem pelo homem. [...] O nivelamento só é possível por compressão das possibilidades de realização pessoal. Daí escorre: seres humanos estiolados são o barro da sociedade igualitária. No choque da igualdade amigada à atrofia, de uma banda, contra, da outra, a floração das mais variadas plenitudes, tenho lado: brigo feio pela vitória dos homens atrofiados. É o resumo de tudo”.

Brigo feio pela vitória dos homens atrofiados. Este é inconfessado o brado autêntico das hostes que procuram implantar o igualitarismo revolucionário. Estrangulam a plenitude.