terça-feira, 15 de junho de 2021

Cento e trinta anos à deriva

 

Cento e trinta anos à deriva

 

Péricles Capanema

 

Lia no Estadão dias atrás artigo de Pedro Malan (O terceiro inverno do governo Bolsonaro), quando, de repente, trombei com esta: “O processo que nos trouxe até aqui está em curso há décadas. Estamos há mais de 130 anos em busca de uma República democrática digna desse nome”.

 

Crise velhíssima. De outro modo, até hoje, não terá havido entre nós república digna de tal nome. À vera, Malan recorda o óbvio. Ela começou com uma quartelada, logo despencou num bonapartismo caboclo que esfrangalhou as liberdades reinantes na monarquia, a seguir eleições “a bico de pena” e de lá para cá barafusta meio bêbada entre golpes, anarquia administrativa, roubalheiras e ditaduras. Currículo consagrador, dúvida nenhuma.

 

Infelizmente, pelo sacolejar costumeiro da carruagem, Deus nos proteja, parece que não teremos caminho fácil pela frente, pelo menos até onde a vista alcança. República digna do nome? Peraí, devagar, dr. Pedro. Vamos esclarecer um ponto. Talvez o articulista tenha se referido à república romana, inspiração para muitos republicanos ao longo da história. Quereria um país com homens públicos dotados da “gravitas”, “prudentia”, “honestas”, varões de Plutarco. Se, contudo, tiver como ideal, a república francesa, nascida de 1789, santo Deus! Assassinatos, terror, opressão, tirania, guerras sem fim, e vai por aí afora. Seria então congruente termos com a mão no leme do Estado a homens públicos despreparados, inescrupulosos, toscos, aproveitadores, arrivistas, debochados, useiros e vezeiros da linguagem chula e do palavrão, na realidade, hedionda caquistocracia. Marat, Fouchet e Fouqier-Tinville constituiriam lídimos marcos para comportamentos “autenticamente republicanos” do segundo modelo. A propósito, sobre a Revolução Francesa, um de seus corifeus, Georges Clemenceau (1841-1929), afirmava que, por coerência, era preciso aceitá-la “en bloc”; nada de fatiamentos, uns comestíveis, outros intragáveis. “A Revolução Francesa é um bloco, um bloco do qual nada pode ser retirado. Esta revolução admirável ainda não acabou, continua, somos dela os atores”. E ainda, na mesma direção: “A Revolução Francesa é um bloco, que é preciso aceitar ou rejeitar em sua integralidade”.

 

Deixo de lado a alusão ao modelo que animaria Malan, não sei se o da Antiguidade, se o sanguinolento da Modernidade. Ou se seria outro, quem sabe mescla de várias realizações históricas.

 

Desalmado processo de décadas. Nota ainda o celebrado economista, padecemos desestabilizador processo de décadas, coisa longa, confusa e desagregadora. Bosqueja traços dessa construção empobrecedora, cujo resultado é cruel exclusão social; ao longo dos anos milhões e milhões de brasileiros impedidos de ter vida melhor.  Processo aponta para ação concatenada, fio de meada. Qual processo? Explica ele meio atabalhoadamente: “Ações e omissões, erros e acertos, paixões e interesses, conflitos e compromissos que nos trouxeram, como país, ao que somos hoje. Entender como um país se tornou o que é, e o que poderia vir a ser, exige consciência do peso ou do empuxo do passado”. Deveras, está descrevendo processo que em muitos traços se poderia chamar de demolição. E o conserto não pode vir só de uma eleição, de troca de gerentes, de medidas entufadas, aparatosas e estrepitosas ▬ vazias, no miolo. Requer muito mais, mas desborda os limites do artigo o trato circunstanciado dos remédios contrários ao retrocesso. De qualquer maneira, já é um avanço ter clara a noção do buraco em que nos metemos.

 

Barco no meio da borrasca. Malan lembra o clima de incerteza, os riscos atuais à liberdade, a possibilidade concreta das surpresas desagradáveis. Borrasca, barlavento e sotavento em mutação rápida, rajadas desorientadoras sacudindo o navio (ou o Brasil). De fato, confessa-o chapada e candidamente, estamos há décadas agredidos pelo fracasso estrondoso da república.

 

Conscientização. Vamos, pelo menos muito por alto, aludir à consciência e ao peso do passado, circunstâncias lembradas pelo antigo ministro da Fazenda. Cento e trinta anos batendo cabeça, crâneo lotado de galos doloridos, olhos cansados divisando fantasmas no fundo do panorama. Inevitável a conclusão, a solução (emplastro) gizada às pressas e irrefletidamente pelo marechal Deodoro não funcionou; deu com os burros n’água. Na prática, ova emplastro infeccionou ainda mais a ferida.

 

A “ordem e progresso”, no real, a regressão bagunçada, nasceu da credulidade, enraizada no mimetismo subserviente, de acreditar em fórmulas cerebrinas que, aliás, já caminham celeremente para o ostracismo: positivismo e bonapartismo. Caudatários apaixonados de correntes já meio moribundas e desvalorizadas nas origens, empurraram na época, goela abaixo do Brasil, poções pretensamente mágicas de feiticeiros desmoralizados. Intoxicou, enrijeceu; desnaturou.

 

Peso do passado. O peso a que alude Malan é a carga jogada nos ombros do povo pelos descaminhos da era republicana. Existe outro passado, anterior ao republicano: teve pesos, mas também teve empuxo e até luz. Não sustento que a monarquia, como existiu entre nós, constituiu governos sem máculas. Longe disso. Apenas que foi começo promissor, carregado de esperanças bem fundadas e realizações de valor. O Brasil poderia ter dado muita coisa boa para seu povo e para o mundo.

 

Gravitas. Chamo a atenção para um ponto.  A “gravitas”, “honestas” e “prudentia” da generalidade dos homens públicos do Império era penhor de caminhada na direção de um bem comum cada vez mais amplo, criador de espaços de oportunidades e realizações, aperfeiçoando pessoas e instituições. A tal perspectiva foram dadas as costas e despencamos. Um exemplo só, revelador, e para fechar: qual foi o homem público mais prestigioso da república, o maior de seus ministros, exemplo de lucidez na ação, clareza de rumos e proficiência para a pátria? Em sua procura de respeitabilidade e eficiência, a república o buscou no Império: o barão do Rio Branco. Que, aliás, nunca deixou de usar o título em ocasiões públicas e privadas. Na república triunfante, seguro, perfil de medalha, ostentava-o: era “o barão”.

 

Governo do bom exemplo. Por que lembrei tudo isso? Melhor, recordo; repito o que já tenho escrito. Se quisermos progresso para todos, será condição indispensável o cultivo lúcido de elites aptas a conduzir a nau pública com elevado senso do bem comum. Competentes e preparadas, é o início indispensável, mas também com a clara noção do dever da exemplaridade. O bom exemplo dos governantes é fundamento de aperfeiçoamento nacional, pressuposto para amplíssima e benéfica política de inclusão social.

 

 

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