quinta-feira, 5 de novembro de 2026

A bandeira atual da Cristandade

 

 

A bandeira atual da Cristandade

 

Péricles Capanema*

 

Por muito pouco que sejais, muito façais na santa Cristandade

 

“Cristãos atrevimentos”, eloquente título do site (iniciativa do IPEC ▬ Instituto Português de Estudos Contemporâneos), todos o sabem, recorda Camões. “Não faltarão cristãos atrevimentos; nesta pequena casa lusitana; de África tem marítimos assentos; é na Ásia mais que todas soberana; na quarta parte nova os campos ara; e se mais mundo houvera, lá chegara”. Atrevimentos, no “Lusíadas”, em século de conquistas e glórias militares, significava ter como habituais a valentia e o arrojo; em suma, cataratas de audácias heroicas, tantas vezes roçando na temeridade. E no adjetivo cristãos reluz a raiz católica do país. A escolha do nome para o site deixa ver, para nossos dias e acontecimentos, ousadia, horizontes amplos, “saber de experiências feito”, ainda que em geral com recursos limitados. “Vós, portugueses, poucos quanto fortes; que o fraco poder vosso não pesais; [...] que vós, por muito poucos que sejais, muito façais na santa Cristandade: que tanto, ó Cristo, exaltas a humildade!”.

 

Ordem temporal cristã, anseio católico perene

 

Camões respirava o ar da Cristandade, a sociedade das nações cristãs. Vivia naquele ambiente, considerava-o normal. Como se sabe, ela foi realização histórica da ordem temporal cristã (ou da civilização cristã, duas expressões de idêntico significado), anelo imorredouro da Igreja Católica, com berço em sua doutrina, expressa em numerosos documentos do Magistério. Nunca será anacronismo votado à extinção, enquanto a alma dos fiéis estiver perfumada e animada pela recordação do que outrora foi a Cristandade. Com alegria percebi, a primeira inspiração do site, seu “cristão atrevimento” de maior presença, é a bandeira desfraldada pela ordem temporal cristã, ainda que expressa em temas de especial atualidade para o público de nossos dias. Para tal, valoriza situações injustamente colocadas à sombra, quando não guerreadas ferozmente. Combate em seus posts o progressismo e o esquerdismo, mostrando-os como escravos de dogmas vazios e preconceitos injustificáveis. No total, presenciamos meritório “agere contra” inaciano, ágil, oportuno, tantas vezes indispensável.

 

Cristandade, atrevimento cristão e postura civilizatória

 

Em nossos dias, dói dizê-lo, a defesa desassombrada da ordem temporal cristã, ou de algumas de suas características, representa real atrevimento cristão, pois são muitos seus detratores e poucos seus paladinos, todavia, bem considerada, é também, e cada vez mais, atitude civilizatória, diante dos ataques letíferos pelos quais passam incessantemente os valores ocidentais. E assim, a defesa da Cristandade, como se verá, impede retrocessos, ao mesmo tempo que torna mais difíceis as tentativas de promover medidas deletérias contra a presente ordem ainda em vigor no Ocidente.

 

As fundações do Ocidente estão na Cristandade

 

Vamos a uma mais bem cuidada explicação. Descansam nos costumes e leis vigentes na Cristandade as bases sobre as quais se assenta o Ocidente, em linhas gerais as traremos à tona abaixo. Defendê-la, a Cristandade ▬ se quisermos, marcos da ordem temporal cristã ▬, significa fortalecer as raízes das liberdades atuais e as relações civilizadas entre pessoas, povos e Estados. Infelizmente, no seio da Igreja Católica, correntes progressistas (involuntariamente, espero, promotoras de regressão civilizatória) trabalham para que a ideia de Cristandade seja soterrada na indiferença geral. O trabalho correto seria outro, desenterrá-la (simbolicamente, claro), adorná-la dos melhores adereços para destarte, com ufania, mostrá-la ao público, tarefa necessária, diria mesmo indispensável; passa além, contudo, do escopo limitado do presente trabalho.

 

“Nova Cristandade”, à vera, nem cristandade, nem nova

 

Convém agora voltar o holofote da atenção sobre marco importante na ladeira do declive. Na faina de fazer esquecida a Cristandade (e até mesmo recusada), certamente o passo de mais vasta repercussão, foi o proselitismo intelectual de Jacques Maritain (1882-1973). Em estudo amplamente divulgado, “O Humanismo Integral” (1936), que teve como subtítulo “Problemas temporais e espirituais de uma nova cristandade”, o celebrado filósofo francês propôs, como na capa do livro se alardeia, uma “nova cristandade”, compendiada no lema “sociedade laica, vitalmente cristã”. Sua tese colocava de lado o objetivo tradicional de restauração da ordem temporal cristã ▬ estraçalhada em larga medida pela penetração generalizada dos princípios da Revolução Francesa ▬, substituindo-o pela propaganda de uma sociedade laica (na prática, enraizada no enciclopedismo, fonte contínua de laicismo intolerante), supostamente animada por valores cristãos. Pelos anos afora as teses maritainistas, abraçadas como programa renovador, tiveram enorme repercussão em setores do Clero e da intelectualidade católica, com reflexos na vida política de muitos países. Por que não é Cristandade? Por amputar de sua proposta traços essenciais da Cristandade. Por que não é nova? Por repaginar a já então antiga proposta dos católicos liberais do século XIX. Com seu triunfo, repiso, se apagaria no horizonte o ideal de restauração da ordem temporal cristã. Com a “Nova Cristandade” se deu ruptura real, ainda que normalmente inconfessada, com longa série de documentos emanados do Magistério dos Papas, ademais com dilatada ação apostólica do Clero e do laicato durante o século XIX e parte do XX. “Cristãos Atrevimentos” não fez assim; com posições fundadas em doutrina sempre ensinada, padecendo discriminações injustas, hasteia brioso o ideal da continuidade, e assim reafirma adesão ao Magistério tradicional e fidelidade a linha de ação multissecular de boa parte do Clero e do laicato. É sua primeira linha de batalha, veremos a seguir, rememorando inicialmente o ensinamento pontifício e, a seguir, transcrevendo extratos significativos de documentos de “Cristãos Atrevimentos”.

 

Continuidade do Magistério

 

A encíclica Quas Primas (11/12/1925) de Pio XI (1922-1939) é o diploma de maior influência neste particular. Representou a continuação de impulso de décadas e condensou ensinamentos e conduta apostólica constante. Entre o acervo doutrinário anterior, merecem relevo especial a “Quanta Cura” e o “Syllabus” (1864) de Pio IX (1846–1878), a “Diuturnum Illud” (1881), a Immortale Dei (1885), a Rerum Novarum (1891), em muitos de seus tópicos, e a Annum Sacrum (1899) de Leão XIII (l878–1903). Após Leão XIII, a “Quas Primas” de Pio XI tem consonância profunda com todo o magistério e governo de são Pio X (1903-1914), que se desenvolveram sob o inequívoco lema de “Instaurare omnia in Christo” (Restaurar tudo em Cristo). No pontificado de Bento XV (1914-1922) há aspecto que convém destacar aqui: o incentivo à devoção ao Sagrado Coração de Jesus como caminho fundamental para alcançar o Reinado Social de Nosso Senhor Jesus Cristo. Voltemos à encíclica do pontífice Ratti.

 

A Festa de Cristo Rei

 

Pela “Quas Primas”, Pio XI instituiu a festa litúrgica de Cristo Rei, originalmente fixada para o último domingo de outubro, ou seja, no domingo que precedia a festa de Todos os Santos. A reforma de 1969 a transferiu para o último domingo do Ano Litúrgico. Em 2026 será celebrada em 22 de novembro. O Pontífice a instituiu explicitamente para promover e fixar na mente dos fiéis o conceito do Reinado Social de Cristo, de outro modo, a Cristandade. “Quas Primas” enumera argumentos escriturísticos e teológicos decisivos, mas aqui, por falta de espaço, só colocarei o fundamento realçado por são Cirilo de Alexandria (375-444), Padre da Igreja grego: “Numa palavra, [Jesus Cristo] possui o domínio de todas as criaturas, não por ter arrebatado com violência, senão em virtude de sua essência e natureza”. Prossegue Pio XI: “Esse poder dimana daquela admirável união que os teólogos chamam de ‘hipostática’”. Mais adiante, liga, como proveniente do mesmo impulso de restauração, a prática da consagração ao Sagrado Coração de Jesus com a Festa de Cristo Rei: “A autoridade e a realeza de Cristo foram já reconhecidas pela piedosa prática de se consagrarem e dedicarem ao Sagrado Coração de Jesus famílias inumeráveis. E não só famílias, mas também estados e reinos praticaram o mesmo ato. Mais, por iniciativa e direção de Leão XIII, todo o gênero humano foi felizmente consagrado a este Coração Santíssimo”.

 

Aa alocuções ao Patriciado e à Nobreza Romana de Pio XII

 

Após Pio XI, é indispensável salientar o ensino da doutrina social de Pio XII (1939-1958), realçado por circunstância reveladora: entre 1940 e 1958 o Pontífice fez catorze alocuções ao Patriciado e à Nobreza Romana. Destacá-las aqui, expressiva continuidade do magistério pontifício anterior, tem particular relevância por ligação próxima com “Cristãos Atrevimentos”, como veremos. De início, o ensino pontifical ministrado em ambiente solene a duas instituições de grande relevância na Itália, as mais qualificadas representantes da ordem temporal cristã na Península, evidenciava o apreço que o Papa Pacelli tinha por elas e pela ordem social em que germinaram e sempre estiveram inseridas. Em tais alocuções, Pio XII indicou que, por meio da continuidade familiar, era possível preservar e aperfeiçoar na sociedade humana bens materiais e espirituais de enorme relevância para o progresso, ou, talvez melhor, para o aperfeiçoamento social. Mostrou ainda, desigualdades sociais, desde que proporcionais e harmônicas, em ambiente de prática religiosa séria, tinham função social destacada, favoreciam o bem comum e nobilitavam a dignidade humana. Apontou a conveniência de que instituições (e realidade social) com traços parecidos aos do Patriciado e da Nobreza Romana, enfim, de perfil moral e cultural semelhantes, aparecessem mundo afora, nutrindo assim impulsos ascensionais, indispensáveis ao bom funcionamento de ordens temporais saudáveis. E finalmente enfatizou, pela exemplaridade, em nossa época a nobreza, o patriciado e elites análogas teriam e têm enorme papel social, pois são chamadas a ser modelo de excelência e virtude. As catorze alocuções de Pio XII representaram proposta de autêntica restauração da ordem temporal.

 

Nobreza e elites tradicionais análogas nas alocuções de Pio XII ao Patriciado e à Nobreza romana

 

Meio século depois, “grosso modo”, das referidas alocuções do Papa Pacelli, foi publicado em 1993 pelo prof. Plinio Corrêa de Oliveira (1908-1995) um livro (título acima), amplamente difundido e que se tornou referência no tema. E aqui entra de maneira particular a relação próxima de “Cristãos Atrevimentos” com a defesa da ordem temporal cristã. Com efeito, retro, no final do item “‘Nova Cristandade’, à vera, nem cristandade, nem nova”, prometi relacionar ensinamentos tradicionais pontifícios com posições de “Cristãos Atrevimentos, começando por aqueles e, a seguir, apontando posições deste. É o próximo passo.

 

Objetivos do site “Cristãos Atrevimentos”

 

Clique no “Sobre nós” do site “Cristãos Atrevimentos” e ali lerá: “Somos uma organização de católicos em defesa da Tradição, Família e Propriedade”. Logo após, surge o objetivo: “Influenciar a Opinião Pública em defesa da Tradição, Família e Propriedade e demais valores da Civilização Cristã”. De modo distinto, sua meta primeira é lutar pela ordem temporal cristã. E foi o que despertou de início minha simpatia. A aspiração do site, lembro uma vez mais, iniciativa do IPEC, é ser referência em Portugal na labuta ideológica contrarrevolucionária. Impulsionado por quais princípios? Aqueles enunciados em “Revolução e Contra-Revolução”, o principal livro do prof. Plinio Correa de Oliveira. Noto aqui, apenas de passagem, recebi convite de um dos dirigentes de “Cristãos Atrevimentos” para postar outro artigo no site ▬ o primeiro foi “A Escola de Frankfurt — mitos e realidade em olhar retrospectivo”, parece, com boa recepção. Quem me convidou deixou em aberto o assunto. Pensei na presente matéria, texto em que tudo é de inteira e única responsabilidade minha, expressão singela de meu agrado pela orientação e título dados ao site.

 

Volta ao leito

 

De outro modo, para entender melhor “Cristão Atrevimentos”, fariam ainda falta no artigo uma mais ampla exposição sobre a doutrina social que fundamenta os ideais de Plinio Corrêa de Oliveira. Para tal, sob o ângulo que estamos analisando, é útil ter sob os olhos parte do editorial, redigido em janeiro de 1951 por aquele líder católico para o número inicial de “Catolicismo”. Lembro, tal publicação é mensário de cultura, inicialmente editado sob a égide da diocese de Campos, no Brasil, e hoje propriedade da Editora Padre Belchior de Pontes Ltda, com sede em São Paulo, sempre sob o mesmo ideário. O referido editorial aponta o rumo: “É o que procuramos definir na enumeração de princípios, marco liminar de nossa atividade”. Define, o objetivo é a luta pela civilização cristã, e para tal recorre a Leão XIII: “Quando o conhecimento do Redentor se espalhou ao longe, quando sua virtude penetrou até os veios íntimos da sociedade, dissipando as trevas e os vícios da sociedade, então se operou aquela transformação que, na era da civilização cristã, mudou inteiramente a face da Terra”.

 

Nossa finalidade, grande ideal, a civilização de base católica

 

Mais adiante, em glosa, observa o Autor: “A cultura e a civilização são fortíssimos meios de agir sobre as almas. [...] Como, pois, pode a Igreja desinteressar-se em produzir uma cultura e uma civilização? [...] O católico deve aspirar a uma civilização católica como o homem encarcerado num subterrâneo deseja o ar livre, e o pássaro aprisionado anseia por recuperar os espaços infinitos do Céu. É esta nossa finalidade, nosso grande ideal”. Bem mais tarde, maio de 1980, no livro “Meio século de epopeia anticomunista”, que narra parte de sua vida pública, o professor Plinio Corrêa de Oliveira, de forma resumida condensou de novo o ideal que o moveu vida afora: “Quando ainda muito jovem; Considerei enlevado as ruínas da Cristandade; A elas entreguei meu coração; Voltei as costas para meu futuro; E fiz daquele passado carregado de bênçãos; O meu porvir”.

 

A bandeira atual da Cristandade, dois significados

 

Chegamos à parte final do trabalho, a mais ligada aos fatos presentes. O título do presente artigo tem dois significados, ambos desejados, ambos corretos, ambos relevantes. De alguma maneira, conteúdo e forma. O estudo da Cristandade, por sua importância intrínseca e relevância, bem como por certos traços fundamentais de enorme influência no presente, é assunto sempre atual. Na presente quadra histórica, temos ecos dela, se quisermos, resquícios da Cristandade.

 

Conteúdo

 

Comecemos pelo conteúdo. Fixemos o olhar em traços relevantes da Cristandade, hoje percebidos em geral em numerosas circunstâncias como resquícios dela no Ocidente, por tantos lados seu herdeiro no tempo. Podemos considerá-la, por exemplo, como sociedade de direitos, tipos humanos, expressão política, presença militar, realidade religiosa, realidade econômica. Ampliando, como cultura e civilização. Ou área de civilização. Em traços gerais, o Ocidente é constituído pela Europa (excluída a Rússia) e o mundo que dela nasceu. Fazem dele parte Estados Unidos, Canadá, América Latina, Austrália, Nova Zelândia, Filipinas e até o Japão e algumas outras potências asiáticas de pequeno ou médio porte. Nos últimos casos, por absorver e adotar a civilização ocidental, baseada na família (mesmo hoje estraçalhada), propriedade privada, livre inciativa, princípio de subsidiariedade, governo limitado por leis, prevalência do direito sobre o arbítrio. Esta área de civilização jamais existiria sem que a Cristandade fosse realidade viva, por séculos, na Europa, em especial na Europa medieval. Cumpre salvaguardar e aperfeiçoar seus resquícios atuais.

 

Barreira contra o sórdido, o criminoso e a tirania

 

Em choque com tal área de civilização, por alto, temos no plano externo a China, ladeada por sua, cada vez mais notório, potência vassala, a Rússia, a mais da Coreia do Norte, Irã, Cuba, Nicarágua, entre outros países. No plano interno, de modo distinto, dentro da supra referida área de civilização, assistimos ainda a graves e persistentes processos de autodemolição, merecem atenção especial no momento os Estados Unidos. Acentuo, a autodemolição é generalizada, cobre a bem dizer todos as facetas da vida doméstica, social, política, religiosa, diplomática, psicológica, artística, econômica. O triunfo das forças antiocidentais, quer no campo externo, quer no interno, fará despencar o mundo no lodaçal do sórdido, do criminoso e da tirania. Daí, a enorme e inafastável atualidade e importância da defesa dos valores e reais interesses ocidentais.

 

O Ocidente tem suas raízes na Cristandade

 

Recapitulo o que arriba prometi. Napoleão observou certa vez: “A repetição é a mais forte figura de retórica”. Convém aqui evocar fatos, tantas vezes esquecidos. Longinquamente, na Antiguidade, está a raiz original da Cristandade, a ambição romana, bafejada pela cultura helênica, de criar no mundo um espaço de convivência civilizada. Fora de tal espaço, tantas vezes o ameaçando, pulsava o que os romanos qualificavam de povos bárbaros. Tal ambição civilizatória, que, sob o fluxo dos decênios e centúrias, refletiu-se em leis, estruturas políticas, estilos de vida, organização social, aspirações, foi cristianizada (pela evangelização, purificada e aperfeiçoada) e deu origem, sob o alento dos Papas, com o passar também de décadas e séculos, à Cristandade. Foi incipiente em vários aspectos, teve carências, defeitos, chagas políticas e sociais. Contudo, o rumo geral foi ascensional, favorecia o bem comum, estimulava a perfeição “tous azimuts” de quem ali vivia. A Revolução Protestante, a Revolução Francesa e, finalmente, a Revolução Comunista, bem como correntes como o humanismo renascentista, o iluminismo, o nacionalismo, o absolutismo, despedaçaram a Cristandade, reduziram-na a farrapos, pálida realização do que outrora fora. Restaram saudades, ecos e resquícios, da doçura de vida então reinante em algumas manifestações de sua vida social, persistiu a veneração à atmosfera social e a instituições nascidas da pujança familiar e regional, a atenção foi atraída pelo respeito então em vigor ao direito dos grupos sociais nos vários estratos da sociedade e, por fim, houve consciência da paulatina elevação do tônus das relações humanas que germinava forte em partes da Europa. São Pio X na “Notre Charge Apostolique” tinha a Cristandade em vista quando ensinou sobre a questão social em 25 de agosto de 1910: “Sobre esta matéria os princípios da doutrina católica são fixos, e a história da civilização cristã aí está para atestar sua fecundidade benfazeja. Nosso Predecessor, de feliz memória, recordou-os em páginas magistrais, que os católicos ocupados em questões sociais devem estudar e ter sempre sob os olhos”.

 

Estudá-la e tê-la sempre sob os olhos

 

Concluiu o santo Pontífice: “Não, a civilização não mais está para ser inventada nem a cidade nova para ser construída nas nuvens. Ela existiu, ela existe; é a civilização cristã”. A civilização cristã a que se refere são Pio X foi a Cristandade, todos o sabem. De passagem este escrito é modesto cumprimento da diretriz do Papa Sarto. Trato agora de objeção que pipoca aqui e ali. De maneira superficial muitos assentam que a difusão do racionalismo com suas variantes está na origem da presente civilização ocidental; de modo diferente, do Ocidente, como o conhecemos hoje. Com esteio na soberania popular, teríamos o triunfo da razão que levaria ao governo limitado e à sociedade sujeita ao direito. Falso. Historicamente, a primeira grande experiência iluminista no mundo, a Revolução Francesa, levou imediatamente ao Terror e à ditadura militar, afogando a Europa em duas décadas de carnificinas e destruição de direitos. Mas deixemos tais “realizações” de lado. O racionalismo está na base da modernidade, não há dúvida. Todavia, o governo limitado e a prevalência do direito vêm de muito antes, tendiam a se generalizar, já estavam enraizadas nos costumes europeus, de forma particular na “common law” que, em intensidade diferentes, teve seus princípios fundamentais aplicados em todo o continente. Outro exemplo, a realidade viva dos “fueros”, aqui lembrados como ilustração do direito de famílias, profissões e regiões que deviam ser respeitados pelo poder soberano. E não apenas nos locais de fala hispânica. Uma ilustração mais, o moleiro de Sanssouci com sua frase celebrizada “ainda há juízes em Berlim” ao resistir a Frederico II da Prússia, ecoava costumes antigos, anteriores a 1785. No conto, François Andrieux apenas literatiza realidade amplamente existente de há muito, e não apenas na Prússia, ainda que antipatizada e minada pelo absolutismo. Poderia empilhar outros exemplos, a concisão o impede.

 

Forma

 

Quais seriam as formas atuais de pelejar pela Cristandade? Tema vastíssimo, desborda em muito o presente trabalho. Contudo, alguma coisa sobre o modo já foi aventado atrás, pois ele não é senão a exibição do conteúdo da maneira mais adequada, convincente e efetiva. Não vou me estender, como disse. Apenas lembrar que qualquer forma de combate precisa evidenciar convicção e lógica, colocar-se distante da impressão de falsidade, hipocrisia, fingimento ou dissimulação. Trago à baila exemplo histórico elucidativo, ainda que talvez inesperado, o amor do povo judeu pelo Templo de Jerusalém ▬ serve como uma espécie de metáfora. O judeu ama o Templo, venera as ruínas do Templo e se o muro ocidental cair reverenciará as pedras e a poeira que dali restarem. De igual modo, respeita os vestígios dos alicerces, o Arco de Robinson, os tanques de purificação e tudo o que o lembra. Através das gerações, não tira o luto pela sua destruição. E quando vai a Jerusalém, chora, tocando o Muro das Lamentações, a destruição dos seus templos, pranto de oração, celebração e esperança. Quer salvaguardar o que sobrou, fazer das ruínas marcos de restauração. Assim deveríamos ser em relação à ordem temporal cristã. Fortaleceria as forças de atração e convencimento, e foi o que percebi nos textos postados em “Cristãos Atrevimentos”.

 

Reverência e adesão ao calvário dos ucranianos

 

Esta lida, ideológica e pacífica, posta a presente quadra histórica, tem traço primacial e inabdicável, pois esteado em doutrina. Nas duas frentes, externa e interna, o zelo empreendedor para preservar a força, a vitalidade e a capacidade de expansão do Ocidente, resquício mais importante do que foi a ordem temporal cristã. E aqui, salta aos olhos o calvário da Ucrânia, nação pequena e martirizada, atacada por ser muralha do Ocidente, que resiste há quase cinco anos (a invasão russa começou em 24 de fevereiro de 2022), que com inclemência a quer subjugar, sufocando-a no sangue e na humilhação, para lhe roubar a independência e a integridade. No fundo do horizonte, frio, o imperialismo chinês observa a situação. E tremem a Polônia e as nações bálticas, sabem bem que podem ser as próximas presas do urso das estepes.

 

Fundo de quadro de continuidade e fidelidade

 

Em suma, o fundo de quadro da ação pública de “Cristãos Atrevimentos (e do promotor, o IPEC), seu fio condutor, em que fulguram continuidade e fidelidade, é a defesa e promoção da ordem temporal cristã. A defesa de veneráveis tradições, a inconformidade pública diante de lesões ao instituto da propriedade privada, da livre iniciativa e ao princípio da subsidiariedade, a pugna pela sanidade da família são aspectos relevantes da luta que tudo engloba (a pugna pela ordem temporal cristã), proclamada aliás em motivador documentos fundacional do IPEC: “O Instituto Português de Estudos Contemporâneos (IPEC) tem por objecto a defesa e promoção dos princípios e instituições fundamentais da Civilização Cristã”. Que “Cristãos Atrevimentos” continue na mesma rota, com crescente eficácia, são meus votos.

 

* Artigo para “Cristãos Atrevimentos”