A
bandeira atual da Cristandade
Péricles
Capanema*
Por muito pouco
que sejais, muito façais na santa Cristandade
“Cristãos atrevimentos”,
eloquente título do site (iniciativa do IPEC ▬ Instituto Português de Estudos
Contemporâneos), todos o sabem, recorda Camões. “Não faltarão cristãos
atrevimentos; nesta pequena casa lusitana; de África tem marítimos assentos; é
na Ásia mais que todas soberana; na quarta parte nova os campos ara; e se mais
mundo houvera, lá chegara”. Atrevimentos, no “Lusíadas”, em século de
conquistas e glórias militares, significava ter como habituais a valentia e o arrojo;
em suma, cataratas de audácias heroicas, tantas vezes roçando na temeridade. E no
adjetivo cristãos reluz a raiz católica do país. A escolha do nome para o site deixa
ver, para nossos dias e acontecimentos, ousadia, horizontes amplos, “saber de
experiências feito”, ainda que em geral com recursos limitados. “Vós, portugueses,
poucos quanto fortes; que o fraco poder vosso não pesais; [...] que vós, por
muito poucos que sejais, muito façais na santa Cristandade: que
tanto, ó Cristo, exaltas a humildade!”.
Ordem temporal
cristã, anseio católico perene
Camões respirava o ar
da Cristandade, a sociedade das nações cristãs. Vivia naquele ambiente, considerava-o
normal. Como se sabe, ela foi realização histórica da ordem temporal cristã (ou
da civilização cristã, duas expressões de idêntico significado), anelo imorredouro
da Igreja Católica, com berço em sua doutrina, expressa em numerosos documentos
do Magistério. Nunca será anacronismo votado à extinção, enquanto a alma dos fiéis
estiver perfumada e animada pela recordação do que outrora foi a Cristandade. Com
alegria percebi, a primeira inspiração do site, seu “cristão atrevimento” de
maior presença, é a bandeira desfraldada pela ordem temporal cristã, ainda que expressa
em temas de especial atualidade para o público de nossos dias. Para tal, valoriza
situações injustamente colocadas à sombra, quando não guerreadas ferozmente. Combate
em seus posts o progressismo e o esquerdismo, mostrando-os como escravos de
dogmas vazios e preconceitos injustificáveis. No total, presenciamos meritório “agere
contra” inaciano, ágil, oportuno, tantas vezes indispensável.
Cristandade,
atrevimento cristão e postura civilizatória
Em nossos dias, dói
dizê-lo, a defesa desassombrada da ordem temporal cristã, ou de algumas de suas
características, representa real atrevimento cristão, pois são muitos seus
detratores e poucos seus paladinos, todavia, bem considerada, é também, e cada
vez mais, atitude civilizatória, diante dos ataques letíferos pelos quais
passam incessantemente os valores ocidentais. E assim, a defesa da Cristandade,
como se verá, impede retrocessos, ao mesmo tempo que torna mais difíceis as
tentativas de promover medidas deletérias contra a presente ordem ainda em
vigor no Ocidente.
As fundações do
Ocidente estão na Cristandade
Vamos a uma mais bem
cuidada explicação. Descansam nos costumes e leis vigentes na Cristandade as
bases sobre as quais se assenta o Ocidente, em linhas gerais as traremos à tona
abaixo. Defendê-la, a Cristandade ▬ se quisermos, marcos da ordem temporal cristã
▬, significa fortalecer as raízes das liberdades atuais e as relações
civilizadas entre pessoas, povos e Estados. Infelizmente, no seio da Igreja
Católica, correntes progressistas (involuntariamente, espero, promotoras de
regressão civilizatória) trabalham para que a ideia de Cristandade seja soterrada
na indiferença geral. O trabalho correto seria outro, desenterrá-la (simbolicamente,
claro), adorná-la dos melhores adereços para destarte, com ufania, mostrá-la ao
público, tarefa necessária, diria mesmo indispensável; passa além, contudo, do
escopo limitado do presente trabalho.
“Nova
Cristandade”, à vera, nem cristandade, nem nova
Convém agora voltar o
holofote da atenção sobre marco importante na ladeira do declive. Na faina de
fazer esquecida a Cristandade (e até mesmo recusada), certamente o passo de mais
vasta repercussão, foi o proselitismo intelectual de Jacques Maritain
(1882-1973). Em estudo amplamente divulgado, “O Humanismo Integral”
(1936), que teve como subtítulo “Problemas temporais e espirituais de uma nova
cristandade”, o celebrado filósofo francês propôs, como na capa do livro se alardeia,
uma “nova cristandade”, compendiada no lema “sociedade laica, vitalmente
cristã”. Sua tese colocava de lado o objetivo tradicional de restauração da
ordem temporal cristã ▬ estraçalhada em larga medida pela penetração generalizada
dos princípios da Revolução Francesa ▬, substituindo-o pela propaganda de uma
sociedade laica (na prática, enraizada no enciclopedismo, fonte contínua de
laicismo intolerante), supostamente animada por valores cristãos. Pelos anos
afora as teses maritainistas, abraçadas como programa renovador, tiveram enorme
repercussão em setores do Clero e da intelectualidade católica, com reflexos na
vida política de muitos países. Por que não é Cristandade? Por amputar de sua proposta
traços essenciais da Cristandade. Por que não é nova? Por repaginar a já então antiga
proposta dos católicos liberais do século XIX. Com seu triunfo, repiso, se
apagaria no horizonte o ideal de restauração da ordem temporal cristã. Com a
“Nova Cristandade” se deu ruptura real, ainda que normalmente inconfessada, com
longa série de documentos emanados do Magistério dos Papas, ademais com dilatada
ação apostólica do Clero e do laicato durante o século XIX e parte do XX. “Cristãos
Atrevimentos” não fez assim; com posições fundadas em doutrina sempre ensinada,
padecendo discriminações injustas, hasteia brioso o ideal da continuidade, e
assim reafirma adesão ao Magistério tradicional e fidelidade a linha de ação multissecular
de boa parte do Clero e do laicato. É sua primeira linha de batalha, veremos a seguir,
rememorando inicialmente o ensinamento pontifício e, a seguir, transcrevendo extratos
significativos de documentos de “Cristãos Atrevimentos”.
Continuidade do
Magistério
A encíclica Quas
Primas (11/12/1925) de Pio XI (1922-1939) é o diploma de maior influência neste
particular. Representou a continuação de impulso de décadas e condensou
ensinamentos e conduta apostólica constante. Entre o acervo doutrinário
anterior, merecem relevo especial a “Quanta Cura” e o “Syllabus” (1864) de Pio
IX (1846–1878), a “Diuturnum Illud” (1881), a Immortale Dei (1885), a Rerum
Novarum (1891), em muitos de seus tópicos, e a Annum Sacrum (1899) de Leão XIII
(l878–1903). Após Leão XIII, a “Quas Primas” de Pio XI tem consonância profunda
com todo o magistério e governo de são Pio X (1903-1914), que se desenvolveram
sob o inequívoco lema de “Instaurare omnia in Christo” (Restaurar tudo em
Cristo). No pontificado de Bento XV (1914-1922) há aspecto que convém destacar
aqui: o incentivo à devoção ao Sagrado Coração de Jesus como caminho
fundamental para alcançar o Reinado Social de Nosso Senhor Jesus Cristo. Voltemos
à encíclica do pontífice Ratti.
A Festa de Cristo
Rei
Pela “Quas Primas”,
Pio XI instituiu a festa litúrgica de Cristo Rei, originalmente fixada para o último
domingo de outubro, ou seja, no domingo que precedia a festa de Todos os Santos.
A reforma de 1969 a transferiu para o último domingo do Ano Litúrgico. Em 2026
será celebrada em 22 de novembro. O Pontífice a instituiu explicitamente para
promover e fixar na mente dos fiéis o conceito do Reinado Social de Cristo, de
outro modo, a Cristandade. “Quas Primas” enumera argumentos escriturísticos e teológicos
decisivos, mas aqui, por falta de espaço, só colocarei o fundamento realçado
por são Cirilo de Alexandria (375-444), Padre da Igreja grego: “Numa palavra, [Jesus
Cristo] possui o domínio de todas as criaturas, não por ter arrebatado com
violência, senão em virtude de sua essência e natureza”. Prossegue Pio XI: “Esse
poder dimana daquela admirável união que os teólogos chamam de ‘hipostática’”.
Mais adiante, liga, como proveniente do mesmo impulso de restauração, a prática
da consagração ao Sagrado Coração de Jesus com a Festa de Cristo Rei: “A
autoridade e a realeza de Cristo foram já reconhecidas pela piedosa prática de
se consagrarem e dedicarem ao Sagrado Coração de Jesus famílias inumeráveis. E
não só famílias, mas também estados e reinos praticaram o mesmo ato. Mais, por
iniciativa e direção de Leão XIII, todo o gênero humano foi felizmente
consagrado a este Coração Santíssimo”.
Aa alocuções ao
Patriciado e à Nobreza Romana de Pio XII
Após Pio XI, é
indispensável salientar o ensino da doutrina social de Pio XII (1939-1958),
realçado por circunstância reveladora: entre 1940 e 1958 o Pontífice fez catorze
alocuções ao Patriciado e à Nobreza Romana. Destacá-las aqui, expressiva continuidade
do magistério pontifício anterior, tem particular relevância por ligação
próxima com “Cristãos Atrevimentos”, como veremos. De início, o ensino pontifical
ministrado em ambiente solene a duas instituições de grande relevância na
Itália, as mais qualificadas representantes da ordem temporal cristã na
Península, evidenciava o apreço que o Papa Pacelli tinha por elas e pela ordem
social em que germinaram e sempre estiveram inseridas. Em tais alocuções, Pio
XII indicou que, por meio da continuidade familiar, era possível preservar e
aperfeiçoar na sociedade humana bens materiais e espirituais de enorme
relevância para o progresso, ou, talvez melhor, para o aperfeiçoamento social. Mostrou
ainda, desigualdades sociais, desde que proporcionais e harmônicas, em ambiente
de prática religiosa séria, tinham função social destacada, favoreciam o bem
comum e nobilitavam a dignidade humana. Apontou a conveniência de que
instituições (e realidade social) com traços parecidos aos do Patriciado e da
Nobreza Romana, enfim, de perfil moral e cultural semelhantes, aparecessem
mundo afora, nutrindo assim impulsos ascensionais, indispensáveis ao bom
funcionamento de ordens temporais saudáveis. E finalmente enfatizou, pela
exemplaridade, em nossa época a nobreza, o patriciado e elites análogas teriam
e têm enorme papel social, pois são chamadas a ser modelo de excelência e
virtude. As catorze alocuções de Pio XII representaram proposta de autêntica
restauração da ordem temporal.
Nobreza e
elites tradicionais análogas nas alocuções de Pio XII ao Patriciado e à Nobreza
romana
Meio século depois,
“grosso modo”, das referidas alocuções do Papa Pacelli, foi publicado em 1993 pelo
prof. Plinio Corrêa de Oliveira (1908-1995) um livro (título acima), amplamente
difundido e que se tornou referência no tema. E aqui entra de maneira
particular a relação próxima de “Cristãos Atrevimentos” com a defesa da ordem
temporal cristã. Com efeito, retro, no final do item “‘Nova Cristandade’, à
vera, nem cristandade, nem nova”, prometi relacionar ensinamentos tradicionais pontifícios
com posições de “Cristãos Atrevimentos, começando por aqueles e, a seguir, apontando
posições deste. É o próximo passo.
Objetivos do site “Cristãos
Atrevimentos”
Clique no “Sobre nós”
do site “Cristãos Atrevimentos” e ali lerá: “Somos uma organização de católicos
em defesa da Tradição, Família e Propriedade”. Logo após, surge o objetivo:
“Influenciar a Opinião Pública em defesa da Tradição, Família e Propriedade e
demais valores da Civilização Cristã”. De modo distinto, sua meta primeira é lutar
pela ordem temporal cristã. E foi o que despertou de início minha simpatia. A
aspiração do site, lembro uma vez mais, iniciativa do IPEC, é ser referência em
Portugal na labuta ideológica contrarrevolucionária. Impulsionado por quais princípios?
Aqueles enunciados em “Revolução e Contra-Revolução”, o principal livro do
prof. Plinio Correa de Oliveira. Noto aqui, apenas de passagem, recebi convite
de um dos dirigentes de “Cristãos Atrevimentos” para postar outro artigo no
site ▬ o primeiro foi “A Escola de Frankfurt — mitos e realidade em olhar
retrospectivo”, parece, com boa recepção. Quem me convidou deixou em aberto o
assunto. Pensei na presente matéria, texto em que tudo é de inteira e única
responsabilidade minha, expressão singela de meu agrado pela orientação e título
dados ao site.
Volta ao leito
De outro modo, para
entender melhor “Cristão Atrevimentos”, fariam ainda falta no artigo uma mais
ampla exposição sobre a doutrina social que fundamenta os ideais de Plinio
Corrêa de Oliveira. Para tal, sob o ângulo que estamos analisando, é útil ter sob
os olhos parte do editorial, redigido em janeiro de 1951 por aquele líder
católico para o número inicial de “Catolicismo”. Lembro, tal publicação é mensário
de cultura, inicialmente editado sob a égide da diocese de Campos, no Brasil, e
hoje propriedade da Editora Padre Belchior de Pontes Ltda, com sede em São
Paulo, sempre sob o mesmo ideário. O referido editorial aponta o rumo: “É o que
procuramos definir na enumeração de princípios, marco liminar de nossa
atividade”. Define, o objetivo é a luta pela civilização cristã, e para tal
recorre a Leão XIII: “Quando o conhecimento do Redentor se espalhou ao longe,
quando sua virtude penetrou até os veios íntimos da sociedade, dissipando as
trevas e os vícios da sociedade, então se operou aquela transformação que, na
era da civilização cristã, mudou inteiramente a face da Terra”.
Nossa finalidade, grande
ideal, a civilização de base católica
Mais adiante, em
glosa, observa o Autor: “A cultura e a civilização são fortíssimos meios de
agir sobre as almas. [...] Como, pois, pode a Igreja desinteressar-se em
produzir uma cultura e uma civilização? [...] O católico deve aspirar a uma civilização
católica como o homem encarcerado num subterrâneo deseja o ar livre, e o
pássaro aprisionado anseia por recuperar os espaços infinitos do Céu. É esta
nossa finalidade, nosso grande ideal”. Bem mais tarde, maio de 1980, no livro
“Meio século de epopeia anticomunista”, que narra parte de sua vida pública, o
professor Plinio Corrêa de Oliveira, de forma resumida condensou de novo o
ideal que o moveu vida afora: “Quando ainda muito jovem; Considerei enlevado as
ruínas da Cristandade; A elas entreguei meu coração; Voltei as costas para meu
futuro; E fiz daquele passado carregado de bênçãos; O meu porvir”.
A bandeira atual
da Cristandade, dois significados
Chegamos à parte
final do trabalho, a mais ligada aos fatos presentes. O título do presente
artigo tem dois significados, ambos desejados, ambos corretos, ambos relevantes.
De alguma maneira, conteúdo e forma. O estudo da Cristandade, por sua
importância intrínseca e relevância, bem como por certos traços fundamentais de
enorme influência no presente, é assunto sempre atual. Na presente quadra
histórica, temos ecos dela, se quisermos, resquícios da Cristandade.
Conteúdo
Comecemos pelo
conteúdo. Fixemos o olhar em traços relevantes da Cristandade, hoje percebidos em
geral em numerosas circunstâncias como resquícios dela no Ocidente, por tantos
lados seu herdeiro no tempo. Podemos considerá-la, por exemplo, como sociedade
de direitos, tipos humanos, expressão política, presença militar, realidade religiosa,
realidade econômica. Ampliando, como cultura e civilização. Ou área de
civilização. Em traços gerais, o Ocidente é constituído pela Europa (excluída a
Rússia) e o mundo que dela nasceu. Fazem dele parte Estados Unidos, Canadá, América
Latina, Austrália, Nova Zelândia, Filipinas e até o Japão e algumas outras potências
asiáticas de pequeno ou médio porte. Nos últimos casos, por absorver e adotar a
civilização ocidental, baseada na família (mesmo hoje estraçalhada),
propriedade privada, livre inciativa, princípio de subsidiariedade, governo
limitado por leis, prevalência do direito sobre o arbítrio. Esta área de
civilização jamais existiria sem que a Cristandade fosse realidade viva, por
séculos, na Europa, em especial na Europa medieval. Cumpre salvaguardar e
aperfeiçoar seus resquícios atuais.
Barreira contra o
sórdido, o criminoso e a tirania
Em choque com tal área
de civilização, por alto, temos no plano externo a China, ladeada por sua, cada
vez mais notório, potência vassala, a Rússia, a mais da Coreia do Norte, Irã, Cuba,
Nicarágua, entre outros países. No plano interno, de modo distinto, dentro da supra
referida área de civilização, assistimos ainda a graves e persistentes processos
de autodemolição, merecem atenção especial no momento os Estados Unidos. Acentuo,
a autodemolição é generalizada, cobre a bem dizer todos as facetas da vida doméstica,
social, política, religiosa, diplomática, psicológica, artística, econômica. O
triunfo das forças antiocidentais, quer no campo externo, quer no interno, fará
despencar o mundo no lodaçal do sórdido, do criminoso e da tirania. Daí, a
enorme e inafastável atualidade e importância da defesa dos valores e reais
interesses ocidentais.
O Ocidente tem
suas raízes na Cristandade
Recapitulo o que arriba
prometi. Napoleão observou certa vez: “A repetição é a mais forte figura de
retórica”. Convém aqui evocar fatos, tantas vezes esquecidos. Longinquamente, na
Antiguidade, está a raiz original da Cristandade, a ambição romana, bafejada
pela cultura helênica, de criar no mundo um espaço de convivência civilizada. Fora
de tal espaço, tantas vezes o ameaçando, pulsava o que os romanos qualificavam
de povos bárbaros. Tal ambição civilizatória, que, sob o fluxo dos decênios e centúrias,
refletiu-se em leis, estruturas políticas, estilos de vida, organização social,
aspirações, foi cristianizada (pela evangelização, purificada e aperfeiçoada) e
deu origem, sob o alento dos Papas, com o passar também de décadas e séculos, à
Cristandade. Foi incipiente em vários aspectos, teve carências, defeitos,
chagas políticas e sociais. Contudo, o rumo geral foi ascensional, favorecia o
bem comum, estimulava a perfeição “tous azimuts” de quem ali vivia. A Revolução
Protestante, a Revolução Francesa e, finalmente, a Revolução Comunista, bem
como correntes como o humanismo renascentista, o iluminismo, o nacionalismo, o
absolutismo, despedaçaram a Cristandade, reduziram-na a farrapos, pálida realização
do que outrora fora. Restaram saudades, ecos e resquícios, da doçura de vida
então reinante em algumas manifestações de sua vida social, persistiu a veneração
à atmosfera social e a instituições nascidas da pujança familiar e regional, a
atenção foi atraída pelo respeito então em vigor ao direito dos grupos sociais nos
vários estratos da sociedade e, por fim, houve consciência da paulatina elevação
do tônus das relações humanas que germinava forte em partes da Europa. São Pio
X na “Notre Charge Apostolique” tinha a Cristandade em vista quando ensinou
sobre a questão social em 25 de agosto de 1910: “Sobre esta matéria os
princípios da doutrina católica são fixos, e a história da civilização cristã
aí está para atestar sua fecundidade benfazeja. Nosso Predecessor, de feliz
memória, recordou-os em páginas magistrais, que os católicos ocupados em
questões sociais devem estudar e ter sempre sob os olhos”.
Estudá-la e tê-la
sempre sob os olhos
Concluiu o santo
Pontífice: “Não, a civilização não mais está para ser inventada nem a cidade
nova para ser construída nas nuvens. Ela existiu, ela existe; é a civilização
cristã”. A civilização cristã a que se refere são Pio X foi a Cristandade,
todos o sabem. De passagem este escrito é modesto cumprimento da diretriz do
Papa Sarto. Trato agora de objeção que pipoca aqui e ali. De maneira
superficial muitos assentam que a difusão do racionalismo com suas variantes está
na origem da presente civilização ocidental; de modo diferente, do Ocidente,
como o conhecemos hoje. Com esteio na soberania popular, teríamos o triunfo da
razão que levaria ao governo limitado e à sociedade sujeita ao direito. Falso. Historicamente,
a primeira grande experiência iluminista no mundo, a Revolução Francesa, levou
imediatamente ao Terror e à ditadura militar, afogando a Europa em duas décadas
de carnificinas e destruição de direitos. Mas deixemos tais “realizações” de
lado. O racionalismo está na base da modernidade, não há dúvida. Todavia, o
governo limitado e a prevalência do direito vêm de muito antes, tendiam a se
generalizar, já estavam enraizadas nos costumes europeus, de forma particular
na “common law” que, em intensidade diferentes, teve seus princípios
fundamentais aplicados em todo o continente. Outro exemplo, a realidade viva
dos “fueros”, aqui lembrados como ilustração do direito de famílias, profissões
e regiões que deviam ser respeitados pelo poder soberano. E não apenas nos locais
de fala hispânica. Uma ilustração mais, o moleiro de Sanssouci com sua frase
celebrizada “ainda há juízes em Berlim” ao resistir a Frederico II da Prússia,
ecoava costumes antigos, anteriores a 1785. No conto, François Andrieux apenas
literatiza realidade amplamente existente de há muito, e não apenas na Prússia,
ainda que antipatizada e minada pelo absolutismo. Poderia empilhar outros exemplos,
a concisão o impede.
Forma
Quais seriam as
formas atuais de pelejar pela Cristandade? Tema vastíssimo, desborda em muito o
presente trabalho. Contudo, alguma coisa sobre o modo já foi aventado atrás, pois
ele não é senão a exibição do conteúdo da maneira mais adequada, convincente e efetiva.
Não vou me estender, como disse. Apenas lembrar que qualquer forma de combate precisa
evidenciar convicção e lógica, colocar-se distante da impressão de falsidade,
hipocrisia, fingimento ou dissimulação. Trago à baila exemplo histórico
elucidativo, ainda que talvez inesperado, o amor do povo judeu pelo Templo de
Jerusalém ▬ serve como uma espécie de metáfora. O judeu ama o Templo, venera as
ruínas do Templo e se o muro ocidental cair reverenciará as pedras e a poeira
que dali restarem. De igual modo, respeita os vestígios dos alicerces, o Arco
de Robinson, os tanques de purificação e tudo o que o lembra. Através das
gerações, não tira o luto pela sua destruição. E quando vai a Jerusalém, chora,
tocando o Muro das Lamentações, a destruição dos seus templos, pranto de
oração, celebração e esperança. Quer salvaguardar o que sobrou, fazer das
ruínas marcos de restauração. Assim deveríamos ser em relação à ordem temporal
cristã. Fortaleceria as forças de atração e convencimento, e foi o que percebi
nos textos postados em “Cristãos Atrevimentos”.
Reverência e adesão
ao calvário dos ucranianos
Esta lida, ideológica
e pacífica, posta a presente quadra histórica, tem traço primacial e inabdicável,
pois esteado em doutrina. Nas duas frentes, externa e interna, o zelo empreendedor
para preservar a força, a vitalidade e a capacidade de expansão do Ocidente,
resquício mais importante do que foi a ordem temporal cristã. E aqui, salta aos
olhos o calvário da Ucrânia, nação pequena e martirizada, atacada por ser
muralha do Ocidente, que resiste há quase cinco anos (a invasão russa começou
em 24 de fevereiro de 2022), que com inclemência a quer subjugar, sufocando-a
no sangue e na humilhação, para lhe roubar a independência e a integridade. No
fundo do horizonte, frio, o imperialismo chinês observa a situação. E tremem a
Polônia e as nações bálticas, sabem bem que podem ser as próximas presas do
urso das estepes.
Fundo de quadro de
continuidade e fidelidade
Em suma, o fundo de
quadro da ação pública de “Cristãos Atrevimentos (e do promotor, o IPEC), seu
fio condutor, em que fulguram continuidade e fidelidade, é a defesa e promoção
da ordem temporal cristã. A defesa de veneráveis tradições, a inconformidade
pública diante de lesões ao instituto da propriedade privada, da livre
iniciativa e ao princípio da subsidiariedade, a pugna pela sanidade da família
são aspectos relevantes da luta que tudo engloba (a pugna pela ordem temporal cristã),
proclamada aliás em motivador documentos fundacional do IPEC: “O Instituto
Português de Estudos Contemporâneos (IPEC) tem por objecto a defesa e promoção
dos princípios e instituições fundamentais da Civilização Cristã”. Que
“Cristãos Atrevimentos” continue na mesma rota, com crescente eficácia, são
meus votos.
* Artigo para “Cristãos
Atrevimentos”