segunda-feira, 11 de junho de 2018

Sem cultura nova, nada feito


Sem cultura nova, nada feito

Péricles Capanema

Eleições próximas, avulta a perspectiva macabra de os eleitos serem do mesmo nível ou ainda piores que nossos representantes atuais. A respeito dos eleitores os analistas falam em indecisão, letargia, indiferença, rejeição, nojo. De forma congruente, chovem nas rodinhas de bar os comentários desanimados, o problema é a cultura brasileira; enquanto não mudar, e vai demorar, nada feito.

De outro modo, empacados em pântano, cabeça confusa e pernas fracas, constatamos aterrados que o problema somos nós. Vamos distinguir, há planos nessa realidade, uns mais fundos, outros chegados à superfície.

As regiões de menor renda necessitam mais do Estado, tendem a votar em programas assistencialistas. O voto assistencialista pode ajudar o populismo e o esquerdismo, tem ajudado ▬ especialmente por favorecer tantas vezes o estatismo e o intervencionismo ▬ mas é apressado confundi-lo com os dois. Muitas vezes esse eleitor apresenta nas camadas mais profundas de sua personalidade preciosos depósitos conservadores.

As regiões de melhor nível econômico precisam menos do Estado, tendem a confiar mais nos instrumentos da sociedade. O foco não é o assistencialismo acima referido, é outro tipo de assistência. Propendem a exigir mais segurança para proteger vida, bens e possibilidades de crescer. E odeiam a bandalheira no Estado, que drena recursos públicos, saídos do bolso do contribuinte.

Em resumo, nos dois casos, vale em primeiro lugar o interesse imediato, muitas vezes legítimo e razoável. O voto aqui, via de regra, tem baixo conteúdo ideológico.

A situação lembra a hoje célebre frase de James Garville, estrategista-mor dos democratas em 1992, “It’s the economy, stupid”, [É a economia, estúpido], dita a outros que com ele trabalhavam na campanha vitoriosa de Bill Clinton. A razão principal do triunfo de Bill Clinton seria a crise econômica. Em março de 1991, economia indo bem, 90% dos norte-americanos aprovavam George Bush. Pouco mais de um ano depois, economia em dificuldades, os eleitores elegeram Clinton

Existe outro tipo de voto, agora com forte carga ideológica. A galáxia do que se poderia chamar esquerda católica, em boa parte de origem burguesa, formada especialmente nas organizações da Ação Católica, vota na esquerda. Foi e vem sendo longo trabalho de esquerdização da juventude, começado já nos anos 30. Constituem exemplos maiores de tal orientação, entre vários, Plínio de Arruda Sampaio, Franco Montoro, Paulo de Tarso. Hoje, seu mais estridente representante é o frei Betto. Dali surgiu também o ex-frei Boff. Nas últimas décadas, deve-se incluir ainda como voto com forte conteúdo ideológico o oriundo das comunidades eclesiais de base, em geral de origem não burguesa.

Outro voto ideológico é de parte da burguesia letrada. Esse pessoal sai da universidade com utopias igualitárias, imagina que seus devaneios revolucionários equivalem a amor à humanidade, desejo de sociedade mais justa. A vida prática às vezes arredonda tais posições, mais pontiagudas na faculdade e nos primeiros anos de formados. Fica a toxina. É provável, encaixa-se aqui a maior parte dos políticos brasileiros, aninhados em todos os partidos. E eles têm eleitorado expressivo, além de serem tarimbados nas tretas de manipular votantes. Entre milhares saltam à memória FHC e Serra. Está aqui a grande maioria dos políticos do PT, PSOL Rede, PDT. Todo esse universo, mesmo que alguns falem em apoiar candidato de centro, quer um rumo esquerdista para o Brasil. Quando menos, seu centro tem viés de esquerda.

O conjunto acima pode facilmente empurrar o Brasil para a esquerda em 7 de outubro. E rumo esquerdista é namoro com a tragédia venezuelana ou cubana. Nunca é bom esquecer: o populismo favorece o esquerdismo; este, o comunismo.

Indispensável ainda notar a presença no quadro de uma mentalidade estatizante e intervencionista em amplas parcelas do público. É um público que tem faixas inimigas da bandalheira e favorecedora da ordem pública; em tais casos, pode apoiar medidas contrárias às esquerda.

Rota diversa. Outro voto ideológico é o denominado, com muita amplitude, evangélico, em geral conservador em matéria moral. Tende a sufragar a chamada ▬ por vezes de forma irônica, em outras até mesmo depreciativa, em outras simpática ▬ bancada BBB, Boi, Bala, Bíblia, bancada ruralista, bancada defensora de maior segurança, bancada evangélica.

Ainda se deve ver como voto ideológico na mesma direção a crescente postura favorável à privatização, iniciativa privada, Estado menor. São agora impensáveis atitudes como a de Geraldo Alckmin em 2006 se deixando fotografar canhestra e ridiculamente com logos das estatais na jaqueta.

O quadro acima repercutirá profundamente em 7 de outubro. E, tudo o indica, também nas próximas eleições. São fenômenos por demais enraizados para acabarem da noite para o dia. Falei de realidades no curto prazo, a seguir voltarei atenções para o longo prazo.

Viremos o disco. No longo prazo, tem razão o pessoal lembrado acima, a situação da opinião pública no Brasil não muda de chofre e enquanto persistir a presente cultura, não nos assiste o direito de prognosticar dias melhores.

Entramos na parte mais importante do artigo, que coincide com seu final. Veremos abaixo, simples assim, apenas o revigoramento do que nossa cultura tem de melhor, pode garantir futuro de grandeza cristã para o Brasil.

(Não é desvio). Amigo muito caro, hispano, olhar fino e objetivo, conhecedor do Brasil, dias atrás quis falar comigo sobre aspectos de nossa cultura. Por que lhe interessa a conversa? Entre outros motivos, percebe, quem sabe com inteira clareza, o debate do tema lhe pode aperfeiçoar a alma, aspiração nobre. Assoma aqui aspecto importante, a universalidade da cultura brasileira (de fato, de qualquer cultura, umas mais, outras menos). Compreendê-la bem, enriquece, torna mais saudável e viva a própria cultura.

(Volto). Não tratarei das várias acepções de cultura. Só de uma, sua acepção mais ampla. André Malraux tem definição à altura do gênio francês; “la culture est l'héritage de la noblesse du monde” ▬ a cultura é a herança da nobreza do mundo. Assim, a cultura é a herança perene de tudo o que é nobre em um país. No caso nosso, é cultura brasileira todo o acervo do que foi nobre no Brasil. Compete a nós preservá-lo, aperfeiçoá-lo, reclama aprimoramentos de alto a baixo em todas as condições sociais.

A narrativa ganhará luz caso, a respeito do conceito de cultura, contemplarmos faíscas do professor Plinio Corrêa de Oliveira em conferência de 13 de novembro de 1954 no Seminário Central de São Leopoldo: “No âmago da noção de aprimoramento, está a ideia de que todo homem tem em seu espírito qualidades susceptíveis de desenvolvimento e defeitos passíveis de repressão. Significa crescimento do que é bom, poda do que é mau. A reflexão é o primeiro dos meios dessa ação positiva. Contudo, a mera reflexão não basta. O homem não é puro espírito. Por uma afinidade que não é apenas convencional, existe um nexo entre as realidades superiores que ele considera com a inteligência, e as cores, os sons, as formas, os perfumes que atinge pelos sentidos. O esforço cultural só é completo quando o homem embebe todo o seu ser, por estas vias sensíveis, dos valores que sua inteligência considerou. O canto, a poesia, a arte têm exatamente este fim. E é por um acurado e superior convívio com o belo, que a alma se embebe inteiramente da verdade e do bem”.

Continua Plinio Corrêa de Oliveira: “É bem de ver que a cultura, assim conceituada, deve ser nutrida pela seiva doutrinária da Religião verdadeira. Só da atmosfera espiritual criada pelo convívio de almas profundamente católicas pode nascer a cultura perfeita”.

Falei de realidades imediatas, depois elevei o olhar, tratei a questão sob o prisma do longo prazo. Acabou o espaço, não dá para entrar em características da cultura brasileira. Ficam para outro dia. O título do artigo poderia ser: Sem cultura autêntica, nada feito. Ou, mais preciso: Sem cultura verdadeira, pouca coisa a fazer.

domingo, 3 de junho de 2018

Carga pesada


Carga pesada

Péricles Capanema

Vai e vem; e vem e vai sem fim. Em evidência nos últimos dias, o caminhoneiro é das profissões mais simpáticas do Brasil. Trabalho duro, perigoso, espinhento. Sofre trombadas, não capota, segue na pista. Empreendedor, esbanja energia para crescer; sabe, vitamina de motorista é poeira. O carroceiro é seu parceiro, pequeno caminhoneiro das antigas cidades do interior (e até das capitais). Foram longe na estrada da vida, grandes fortunas no Brasil têm origem na carroça, no assento e no burro (hoje, na carroceria, na boleia e no motor).

Breca. No começo da paralisação recente veio desse acervo grande parte do enorme apoio público de que gozaram. Gente sofrida, era preciso apoiá-la. Imediatamente depois a paralisação foi vista como oposição a “tudo o que está aí”, corrupção, privilégios malucos, gastança. Era também para consertar o Brasil, ampliou em muito a aprovação.

O apoio murchou na hora em que as telas mostraram as cenas de desabastecimento, apodrecimento e morte da produção, suspensão de cirurgias, gritarias de produtores rurais, advertências de economistas, comida faltando na mesa. Como um pêndulo o sentimento popular correu ligeiro para o outro extremo. De fato, ficou impopular a paralisação, mas se manteve o apreço pelos caminhoneiros. Os políticos e os formadores de opinião, temerosos de lhes faltar chão nos pés, também oscilaram fortemente em poucos dias, o apoio inicial caloroso se fez silêncio ou crítica.

Uma primeira lição, já clara no rescaldo dos protestos de 2013 (lembro outro, também no movimento do Cansei): bobagem confundir oposição séria com exasperação emocional. Na irritação do sentimento existe oposição, mas é pouco aproveitável na maior parte dos casos. E, no longo prazo, ou a emoção se faz princípio e aí gera decisão estável, ou, nada feito.

Na raiz da paralisação está um ponto cada vez mais destacado por fundamental. O crédito subsidiado do BNDES no governo Dilma levou a excesso de compra de caminhões. Financiamento fácil, caminhões demais. Daí excesso de oferta de frete, pois houve queda na demanda por ele. O movimento dos caminhões nas estradas de momento é 26% menor do existente entre 2003 e 2007. Entre 2014 e 2016, último ano nas estatísticas, foram fechadas 72 mil vagas de motoristas. Com a crise, já de uns cinco anos, o setor está asfixiado. O único modo de ter fretes melhores é com o desenvolvimento da economia ▬ aí cresce a necessidade por fretes e sobe seu preço. Não dá para mexer nesse quadro em poucos dias.

Pior ainda, nas últimas semanas subiram forte as cotações do barril do petróleo no mercado internacional, o maior patamar em duas décadas. Provocaram ajustes contínuos no mercado interno no diesel e na gasolina.

A insatisfação explodiu. Como paliativos, foram oferecidos tabelamento, contratação sem licitação por órgãos públicos, diminuição de R$0,46 por litro de óleo. Nos órgãos públicos, aplica-se a tabela. Ali, o caminhoneiro lucra, perde o contribuinte.

Em muitos casos, de particular para particular, o contratante do frete vai fazer cotação. E o caminhoneiro, que já vivia mal, mas vivia desembolsando os R$0,46 que agora não paga, vai baixar ainda mais sua proposta para não ficar parado. A vantagem aqui irá para o contratante do frete. Vai ter um extra à custa do contribuinte. Nota Armando Castelar, economista da FGV: “A concorrência vai aumentar, clientes podem pedir desconto. Esses fatores podem reduzir o valor do frete”. Uma vez mais, o perigo das soluções artificiais.

Fala-se que o governo cedeu muito por estar fraco, sangrando com as denúncias de corrupção. Correto e insuficiente. A razão maior é outra: 7 de outubro. Os políticos governistas estão pressionando, temerosos de derrotas e consequente fim de carreira pública. Podemos esperar mais subsídios, descarados ou disfarçados, no gás de cozinha e na gasolina. Depois das eleições, a conversa provavelmente mudará de tom. Sempre foi assim, são maravilhas da democracia.

Termino com um quem avisa amigo é. Em vários momentos da paralisação, juntaram-se as gritarias da esquerda e de certas direitas, reclamando ou celebrando. Para mim, recordaram de forma canhestra o pacto Ribbentrop-Molotov que uniu os interesses da Rússia Soviética e Alemanha nazista, de Stalin e Hitler, de 23 de agosto de 1939 a 22 de junho de 1941. Fortaleceu ainda a união nazi-comunista o Acordo Comercial Germano-Soviético de fevereiro de 1940. Dois anos, grosso modo, trabalharam em uníssono. Partilharam a Polônia, a Rússia anexou territórios, enviou matéria-prima para o esforço de guerra nazista. E tanta coisa mais. Por que agora trago à baila o pacto Ribbentrop-Molotov? Para despertar desconfianças. Quando virem uniões de esquerda e direita, desconfiem, a direita provavelmente será inautêntica. E a boa causa (em outras palavras, o que resta da ordem temporal cristã) acabará prejudicada. Seguro morreu de velho, o desconfiado ainda vive.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Tudo o que é quebrado pode ser restaurado


Tudo o que é quebrado pode ser restaurado

Péricles Capanema

Com Nossa Senhora Aparecida, tudo o que é quebrado pode ser restaurado. É o que ▬ esteada na misericórdia de Maria, onipotência suplicante ▬ recorda a “nota de reparação” divulgada pela Arquidiocese de Aparecida. No caso, pela bondade de Nossa Senhora Aparecida, o pedido de perdão do arcebispo, do reitor do santuário e do provincial redentorista repararia o escândalo causado pelo lulopetismo desbragado do pe. João Batista, reitor do Santuário. Com efeito, repercutiu feio a escandalosa missa, entremeada de ditirambos à política petista e de orações pela libertação de Lula, celebrada em 20 de maio pelo referido sacerdote no Santuário Nacional de Aparecida.

Plena consciência da falta (do mal feito), intenção séria de não a repetir e reparação dos danos são necessários para autêntico pedido de perdão. Reparação e restauração, dois conceitos que sempre fizeram falta, especialmente na Igreja de hoje. Um deles vem na nota.

Toca a manifestação humilde de um pedido de perdão. Nada mais evangélico, nada mais bíblico. É o começo do caminho. O católico vê esperançado qualquer recomeço no rumo direito, reza para que dê certo. Sem deixar de lado a prudência, o “vamos ver”.

Vou me deter agora no “vamos ver”. Não fui totalmente fidedigno. O texto não traz o que seria normal: “com Nossa Aparecida”, expressão piedosa, popular, arraigada na alma dos católicos. Enfia ali a expressão nova, “com a Mãe Aparecida”. Fica artificial. Entristece a obstinação em impô-la como substituta da expressão consagrada pela piedade tradicional, Nossa Senhora. Você, leitor, já ouviu alguma pessoa de seus círculos dizer: vou rezar para a Mãe Aparecida? Nunca, né? Pois bem, os sacerdotes em Aparecida escondem do povo a expressão popular tradicional e impõem expressão sem arraigo popular. Afastam-se conscientemente do gosto do povo, na sujeição subserviente a doutrinas igualitárias (não é tão difícil conjeturar, o que antipatiza é a afirmação filial e amorosa da superioridade ▬ minha Senhora, Nossa Senhora).

Adiante. “Não defendemos uma posição político-partidária, que é contrária ao Evangelho.” De fato, mais contrário ao Evangelho é defender posições que favoreçam uma ordem temporal coletivista [outro nome para o comunismo], como está no ideário do PT. É secundário no caso apoiar ou não determinado partido político.

Um ponto mais. O pedido de perdão não foi por ter tomado atitude censurável, favorecedora de programa ateu, abortista, estatista, metas do PT. Foi por ter ferido sentimentos. “Manifestamos nosso profundo pesar pelo desapontamento que causamos a todos. Pedimos perdão pela dor que geramos. [...] Eu, pe. João Batista, reitor do Santuário Nacional, peço o perdão de todos os que se sentiram ofendidos pela maneira como conduzi a celebração da missa das 14 horas”.

Em entrevista ao jornal O Vale (24 de maio), o padre João Batista repisa o tema: “Existe no País uma situação de intolerância. Achamos por bem pedir perdão pela dor que causamos”. Do ato em si, nada. É só pela dor, que talvez nem surgisse, inexistisse a situação de intolerância.

Elenca pontos parecidos que não causaram tanta dor: “Em 2017, uma escola de samba homenageou Nossa Senhora e fomos levar a imagem. Também levamos a imagem a um templo budista. Promovemos oração pela paz com representantes de todas as religiões. Tivemos congresso mariológico com participação de um sheik e de um pastor que vieram dar palestra”.

Ninguém reagiu (ou pouca gente), a coisa correu tranquila. Agora, muita gente reagiu (“apareceu a situação de intolerância”). Complicou. Veio o pedido de perdão. O reitor do Santuário resume a questão: “Pedimos perdão por termos causado sentimento ruim nas pessoas. Embora tenhamos cumprido a missão do Santuário”.

Então não teria havido negação da missão do Santuário Nacional na missa pró-petista. Pelo contrário, teria havido cumprimento. O problema real, o estopim, foi a reatividade dos fiéis, que ele chama de “sentimento ruim”. Já é alguma coisa tê-lo em vista. Antes, nem isso.

Tudo o que é quebrado pode ser restaurado. Sob certas condições, acima expostas. No caso, inexistiram. Contrista; não houve autêntico pedido de perdão. Mais uma fake news. O vaso continua quebrado.

sábado, 26 de maio de 2018

Já está comprometido o nosso futuro


Já está comprometido o nosso futuro
Péricles Capanema

O Direito Penal considera culposa conduta em que seja evidenciada negligência, imperícia ou imprudência. E dolosa a conduta em que esteja presente a má intenção. O leitor, no fim do artigo, julgue como classificaria posições abaixo caracterizadas.

Recebi de médico amigo texto elucidativo de José Batista Pinheiro, coronel da reserva (não o conheço). A matéria me prendeu a atenção bem mais que final de Copa do Mundo, o Brasil jogando. Não sou especialista no tema ventilado ▬ a gigantesca expansão do agronegócio no Brasil ▬ nem conheço bem os acontecimentos narrados. Só sei que houve o barateamento dos alimentos e o setor tem sido a salvação da economia do Brasil ▬ anos a fio. Apenas digo, os fatos constantes no mencionado escrito, relatados com minúcias, são verossímeis. Têm efeito pedagógico.

O alto oficial conta que ▬ provavelmente por ter ouvido boas referências ▬ o presidente Ernesto Geisel quis conversar com Alysson Paulinelli, jovem secretário da Agricultura de Minas Gerais. Professor em Lavras, o engenheiro agrônomo Paulinelli ali teve brilhante carreira universitária. Geisel se impressionou com as concepções expressas no encontro e fez dele seu ministro da Agricultura (1974-1979).

Agora é o coronel que escreve: “[Paulinelli] chamou o presidente da adormecida Embrapa, Irineu Cabral, e o diretor de Recursos Humanos Eliseu Alves e estabeleceram o rumo das ações. Não queremos cientistas para resolver problemas da ciência, mas para resolver os problemas da produção da nossa agricultura. Pegaram uma verba de US$200 milhões e escolheram nas melhores universidades brasileiras 1.600 recém-formados e os mandaram para fazer mestrado ou doutorado nas melhores universidades do mundo: Califórnia nos Estados Unidos, França, Espanha, Índia, Japão e outras. Plantaram a semente da maior revolução na agricultura já realizada na América Latina. Eliseu Alves que havia chegado dos Estados Unidos com bagagem mundial como cientista e como gestor de ciência e tecnologia assumiu a presidência da Embrapa e implantou as linhas de trabalho: 1) criou 14 centros de pesquisa em 14 regiões do País para pesquisar 14 produtos [...] soja em Londrina e em todo o Paraná, mandioca e fruticultura em Cruz das Amas na Bahia [...] gado de corte em Campo Grande e seringueira em Manaus. 2) Criou 4 centros de pesquisas de recursos genéticos para o cerrado, em Brasília. [...] Trinta anos depois, explodiu a agricultura brasileira.”

Em apenas um campo, a agropecuária, o ensino e a pesquisa executados de forma sistemática, séria e inteligente, geraram esse efeito espetacular. Fui então procurar o que comentava a respeito o próprio Alysson Paulinelli. Em janeiro de 2011, notava ele: “Não somente o governo federal criou a Embrapa, mas também 17 Estados ou criaram ou fizeram evoluir as suas já tradicionais instituições de pesquisas, num esforço sem precedente, cujos resultados não demoraram a aparecer. Pode-se dizer que, em menos de 30 anos aqui, se desenvolveu a primeira e mais competitiva AGRICULTURA tropical do globo. O País, mesmo com as dificuldades financeiras pelo acúmulo das três crises, teve a lucidez de acreditar que os investimentos em ciência e tecnologia valeriam a pena. Antes de desperdício poderia ser essa a solução de tantos e infindáveis problemas de um Brasil que necessitava se afirmar, e não se curvar diante das ameaças. De País consumidor de alimentos mais caros do mundo, na década 70, que chegava a consumir quase a metade da renda média familiar só em alimentação, chegamos aos anos 2 mil com um dos mais baratos alimentos do mundo, conforme prova o Ipea em sua última pesquisa sobre custos com alimentação, onde esse gasto não passa de 13,6% da renda familiar. De país receptor ou importador de alimentos à custa da conta café, produto tropical que dominávamos, passamos a ser exportador de comida, fibras, outras matérias-primas agrícolas, óleos e até da energia renovável que o mundo tanto necessita. Criamos em 30 anos uma nova e competitiva AGRICULTURA tropical. [...] O agricultor, aqui, para o nosso cidadão urbano desinformado (ou, intencionalmente, mal informado), continua como o vilão de toda a história, como um eterno latifundiário, explorador de mão de obra, caloteiro e aproveitador ou destruidor dos nossos recursos naturais. Numa verdadeira fúria legiferante, procura imputar ao produtor nacional todas as culpas, crimes e responsabilidades por todos os males e tormentas climáticas que nos assolam. Arbitram-lhes multas impagáveis ou penas insuportáveis, numa ansiedade de justificar sua insanidade estranhamente criada pelos benefícios que receberam em redução de preços de seus alimentos, pela qualidade melhor dos produtos. [...] Esse tem sido o preço que o produtor rural brasileiro está pagando por gerar quase US$ 60 bilhões anuais líquidos para nossa balança comercial. [...] Os 24 anos de apagão que viveu a Embrapa são injustificáveis, pois ela só não sucumbiu nesse período de martírio porque tinha e tem uma sinergia própria, convincente, o que não ocorreu com as 17 instituições estaduais de pesquisas que hoje estão em verdadeira penúria”.

O que tivemos foi um bem-sucedido esforço de enorme aperfeiçoamento de capital humano. O resto veio como consequência. Por que tal fórmula não foi estendida a outros setores da sociedade? Por que foi deixada de lado? Culpa? Dolo?

Saiu há pouco a lista do IMD (International Institute for Management Development) sobre os países mais competitivos do mundo. É índice respeitado, avalia a facilidade para empreender, o estímulo para trabalhar, a liberdade e decência no mundo da produção. O país mais competitivo do mundo são os Estados Unidos (por alguma razão é a primeira potência mundial há décadas, quiçá mais de um século). No segundo lugar está Hong Kong. O terceiro, Cingapura. Quarto, Holanda. Quinto, Suíça. Décimo-terceiro, pasmem, China comunista. O primeiro país latino-americano que aparece na lista é o Chile (35º). Depois México (51º), Peru (54º). O Brasil aparece na 60º posição. No ano passado estava na 61ª, subiu uma casa. Melancólico.

O fato apresenta relação próxima com dados há pouco publicados pelo PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) do IBGE. Indicam que falta de alto a baixo oque se viu intensamente nos homens e mulheres que elevaram o agronegócio brasileiro ao patamar em que hoje plaina. Respigo alguns. Dos 48,5 milhões de pessoas que tinham entre 15 e 29 anos em 2017, 11,2 milhões, 23% do total, não trabalham, não estudam e não se qualificam. No ensino médio, apenas 68% dos estudantes estavam na etapa necessária e na idade esperada, apesar das facilidades de aprovação. Em 2017, 7,2% da população com mais de 25 anos não tinham instrução; 33,8% não tinham o fundamental completo. Em resumo, 41% da população adulta é analfabeta funcional. Sabem escrever o nome, mas não conseguem ler e compreender manuais de instrução. É mão de obra não apenas com baixa qualificação, tornou-se em grande parte inqualificável.

Dados semelhantes podem ser despejados sem fim, mas vou parar por aqui. Tal desastre que compromete o futuro nacional, ocorreu por negligência? Imperícia? Imprudência? Ou houve dolo, pelo menos, digamos, o eventual? Havia ciência de que a tragédia poderia vir e nada ou quase nada foi feito para evitá-la? O leitor julgue agora com seus botões. Um dia o tribunal da História pronunciará seu veredito. Deus, sobretudo.



sexta-feira, 25 de maio de 2018

O martírio prolongado dos venezuelanos


O martírio prolongado dos venezuelanos

Péricles Capanema

Foram divulgados os números finais da pantomina eleitoral da Venezuela, reeleito o boçal ditador Nicolás Maduro com quase 70% dos votos válidos, participação de 46% do eleitorado, fraude e intimidação generalizadas. Na tragédia, tem culpa o governo brasileiro. O chavismo medrou no país vizinho com dinheiro da Odebrecht (de fato, propina decorrente de contratos superfaturados), marqueteiros ligados ao PT e patrocínio de Lula e Dilma.

Estivesse o PT ainda no poder, Brasília seria um dos apoios vergonhosos da situação venezuelana. Com efeito, a reeleição vem sendo celebrada pelas linhas auxiliares do PT, como PC do B, entre os partidos, e Guilherme Boulos, entre os políticos. O PC do B em nota intitulada “Vitória retumbante do povo venezuelano” trombeteou: “O Partido Comunista do Brasil regozija-se com o povo venezuelano, o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), o Partido Comunista da Venezuela (PCV) e demais forças políticas que comandaram a batalha”. Boulos, o candidato do PSOL à Presidência, apoiado entre outros por frei Betto, declarou: “Maduro foi eleito democraticamente, Cuba não é ditadura e impeachment foi golpe”.

Além da satisfação da esquerda brasileira, por vezes evidenciada em silêncio revelador, em outras ocasiões com desfaçatez ruidosa, na América Latina não faltou a Maduro o esperado endosso enfático de Cuba e Bolívia. Em resumo, Maduro tem esteios fortes na América Latina. Na cena internacional, o Irã, a China e a Rússia defenderam a farsa venezuelana.

Interessa especialmente Rússia e China. São os dois grandes apoios à tirania chavista. Sem eles, dificilmente Maduro se manteria no poder. O governo de Vladimir Putin atacou a oposição proveniente do exterior: “Lamentamos que nessas eleições, além dos dois tradicionais participantes - o povo e os candidatos - existiu também um terceiro participante: os governos que abertamente pediram boicote ao voto", declarou Alexander Schetinin, diretor do Departamento de América Latina da chancelaria russa. Com descaramento completou: "As eleições foram realizadas e o resultado tem caráter irreversível: dois terços dos votos foram para Nicolás Maduro". Esconde escandalosamente a fraude, a pressão do aparato chavista, o garrote aos opositores.

A China foi na mesma direção: "As partes envolvidas devem respeitar a decisão do povo venezuelano", disse o porta-voz da chancelaria chinesa, Lu Kang. Para Pequim, disputas sobre o resultado devem ser resolvidas nos tribunais. Deixa de lado o fato óbvio: os tribunais foram transformados em marionetes do chavismo.

É um passo a mais da descarada e inescrupulosa ingerência russa e chinesa nos negócios da América Latina. Daqui a algum tempo vai ficar patente a ainda agora secreta contrapartida recebida ▬ nesses meses de isolamento venezuelano ▬, por russos e chineses em troca de tal apoio. Com toda probabilidade, lastreadas em contratos, promessas de gigantescas vantagens relacionadas com a exploração do petróleo. A Venezuela detém as maiores reservas provadas do mundo. Para comparação, segundo dados recentes, tem 297 bilhões de barris, a Rússia, 60 bilhões, a China, 16 bilhões. O Brasil, 25 bilhões. (1 barril equivale a 159 litros). A aliança disfarçada, mas efetiva, com Rússia e China dá sobrevida a um governo cujo coletivismo delirante [o chamado socialismo do século 21] destruiu o país. É rota de maus auspícios, no fim dela a Venezuela despencará para a condição de protetorado inconfessado.

Generalizada e enérgica tem sido a reação oficial ao regime venezuelano. Foi tão ampla a repulsa aos métodos chavista, que a oposição inclui importantes políticos socialistas, como Felipe González e Ricardo Lagos, cuja inércia escandalizaria seguidores seus. Por exemplo, em documento também firmado pelos dois, 23 ex-presidentes e ex-primeiros-ministros ibero-americanos apelam à a comunidade internacional para que não reconheça a "farsa eleitoral" na Venezuela. Pedem ainda que os países chamem seus embaixadores, aumentem sanções, congelem ativos provenientes do crime e da corrupção do governo. Reclamam a seguir a suspensão da Venezuela da OEA, sugerem que Estados membros do Estatuto de Roma levem à Corte Penal Internacional o relatório sobre os crimes de lesa-humanidade da ditadura de Nicolás Maduro preparado pela Secretaria Geral da OEA. Denunciam ainda “sequelas de mortos pela violência criminosa desbordada, fome, migração maciça, endividamento ilimitado, falência, hiperinflação, fatos sem paralelo e sem precedentes na história do mundo”.

Lech Walesa, ex-presidente da Polônia foi mais duro: “A Venezuela está sequestrada por um grupo de neotraficantes e terroristas. Mais cedo ou mais tarde será preciso uma intervenção de forças coligadas para preservar a paz na região”.

Estados Unidos, União Europeia, países da América Latina tomaram medidas severas contra o governo venezuelano. Mike Pence, vice-presidente dos Estados Unidos, em nota oficial afirmou: “A eleição na Venezuela foi uma impostura. O resultado ilegítimo deste processo fraudulento é um novo golpe contra a altiva tradição democrática da Venezuela. Todos os dias milhares de venezuelanos fogem da opressão brutal e da torturante pobreza”.

14000% é a inflação estimada em 2018. Queda estimada do PIB em 2018, 15%, quinto ano de recessão. Por que não cai o regime? Deixo de lado a reação internacional, poderia ser mais efetiva. Lembro outros fatores, a brutal repressão interna inspirada por agentes do serviço secreto cubano, vantagens escandalosas conferidas ao alto oficialato das Forças Armadas (forma de compra e chantagem) e o apoio da China e da Rússia. Importa sobretudo agora ter em vista o último ponto, atalho para a servidão. Antecipa situações que outros países da América Latina poderão viver. O Brasil também poderá passar por um martírio prolongado, caminhamos na beira do abismo.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Vaquinhas sem leite


Vaquinhas sem leite

Péricles Capanema

Estão proibidas as doações de empresas (pessoas jurídicas) para a campanha eleitoral. Foi medida amplamente trombeteada como moralizadora. A partir de 15 de maio, o eleitor (pessoa física) pode aquinhoar legalmente seu candidato. Existem limitações e entre elas o doador só pode contribuir com até 10% do rendimento bruto declarado no IR, CPF obrigatório, ajuda acima de R$1.064,10 apenas por TED.

Em inglês, este sistema é chamado de crowdfunding (financiamento na multidão, em tradução livre). Em português é a conhecida vaquinha. A respeito, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Luiz Fux declarou: “A possibilidade de impulsionar o seu candidato, através do voto e do financiamento, gera no eleitor a sensação de disputa e de que está integrado ativamente no processo eleitoral”. Na mesma direção opinou a jornalista Eliane Catanhêde: “A ‘vaquinha virtual’ é uma forma de mobilizar a sociedade e de engajar o eleitor no projeto de seu candidato”. Vai mobilizar a sociedade! Vai promover integração ativa dos cidadãos no processo eleitoral! Santo Deus! Que medida! Um colosso! Vamos baixar a bola e espiar ao nosso redor.

Luiz Fux é de momento a mais alta autoridade eleitoral do Brasil, jurista respeitado. Aqui vai apenas como exemplo de fenômeno generalizado no mundo oficial brasileiro ▬ a realidade óbvia debaixo dos olhos, fácil de observar, não impressiona. Sua animada declaração padece do que é generalizado entre políticos e até na alta magistratura: na melhor das hipóteses, a preguiça de observar a realidade. Em alguns a cautela em disfarçá-la. Não à toa Talleyrand, político consumado, escreveu certa vez, a palavra nos foi dada para disfarçar a realidade.

Vamos à análise ▬ em inglês é corrente a expressão ser agredido pela realidade; sejamos então agredidos por ela. Leitor, você sabe de algum pobre diabo ou escutou falar de alguém que está com sensação de disputa ou de integração ativa no processo eleitoral por ter pensado transferir uns caraminguás a determinado candidato? Uma mãe dinah lhe sussurrou que a faculdade de pingar moedas nos pires dos candidatos mobilizará a sociedade? E ainda desencadeará engajamentos? Paro por aqui, nada disso vai acontecer; e qualquer zé-mané da rua apanha isso sem muito esforço. Até me veio ao espírito o trecho do Evangelho: “Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e os prudentes, e as revelaste aos pequeninos”.

Contudo, para desgraça do Brasil, opiniões assim de meios formadores de opnião, bobagens (perdoem-me), altissonâncias vazias, verdadeiras cavalgadas no vácuo, são generalizadas. Em todos os âmbitos. No caso tal blá-blá-blá justifica o que se poderia chamar de mitologia democrática (ou as pajelanças da participação popular). Descoladas da realidade, turvam a percepção do que realmente acontece em torno de nós. E de momento temos no entorno, vago desejo do novo imerso no torpor e desesperança.

Nada mais desejável e necessário que a autêntica participação popular, intensa e proporcionada. Para tal, o passo inicial é ver a situação com objetividade e exprimi-la direito. Sem ele, impossíveis os outros no rumo certo. A visão do real falseada no nascedouro por preguiças, clichês e ideologias politicamente corretas necessariamente acarretará análises tortas.

Na prática, repito, e não estou descobrindo a América, será fiasco retumbante a doação das pessoas físicas para a campanha de 2018, mixarias as moedas atiradas nas burras dos candidatos em comparação com o custo real das campanhas. O financiamento sério será buscado alhures. E a vaquinha ainda vai dar lugar a ilegalidades.

A proibição da doação empresarial ensejou formas de burlar a lei, ocorridas nas eleições de 2016, aliás destacadas há pouco pelo ministro Gilmar Mendes, o anterior presidente do TSE, de momento figura controvertida, mas no caso com observações oportunas: “Estamos na pré-campanha, quem está financiando essa gente? [...] Quem está financiando? [...] Vou dar os números: 730 mil doadores [...] na doação para eleições de 2016, eleição municipal, modesta. Trezentos e cinquenta mil sem capacidade financeira. É o maior laranjal do mundo. Produzimos isso e assumamos a nossa responsabilidade. E esperem as eleições de 2018”.

Assumamos as nossas responsabilidades, reclama ele dos colegas. O utopismo do STF produziu uma legislação descolada da realidade, de fato demolidora, afirma o ministro. É mais uma manifestação de desprezo à realidade.

E logo pergunta: quem está financiando agora as eleições? “Off the record”, dizem os operadores das pré-campanhas, os políticos de todos os partidos já estão recheando o caixa 2, na perspectiva dos gastos que virão. Sem essa grana, confessam, não dá para fazer campanha. É muito mais dinheiro que os números esquálidos que vão aparecer de doações de pessoas físicas. Parte das quais será usada por outros que não querem aparecer.

O grande temor do pessoal que presta é dinheiro de fontes criminosas financiando candidatos nas eleições daqui a pouco (se já não está vindo). O mesmo Gilmar Mendes, quando presidente do TSE, advertiu: “Nós acabamos com o sistema de financiamento (empresarial) descolado do sistema eleitoral. [...] Certamente, teremos um número elevado de candidatos, porque as coligações estão mantidas, e aí entra a questão do financiamento. Eu temo muito pelo financiamento das eleições por organizações as mais diversas, inclusive as criminosas. [...] A liberdade do voto está fortemente ameaçada. [...] Esse fundo é insuficiente para financiar as eleições, e continuamos dependendo das doações privadas. [...] É o que eu chamo de caça ao CPF, e isso pode alimentar o laranjal. É aí que entra o crime organizado. Não podemos ser ingênuos. A situação praticamente de domínio de certos territórios, como ocorre no Rio de Janeiro, não permite um voto livre. [...] Temos que monitorar esse quadro, porque esse é o pior dos mundos. [...] É óbvio que a liberdade do eleitor está comprometida”.

Tem saída? No longo prazo, com eleitorado mais informado e reflexivo. No curto, só enorme sobressalto na opinião pública poderia garantir contra desastres nas urnas, já agora próximos; grosso modo estamos a quatro meses das eleições, 7 de outubro.

Não haverá sobressalto, tudo o indica, e permanecerá a desorientação generalizada. Alguns dados. A última pesquisa CNT/MDA indica no voto espontâneo (sem apresentar candidato) para presidente, 60% cravou branco/nulo, indeciso. Com candidato, voto estimulado, 45,7% na mesma faixa. Imaginem hoje o número de brancos, nulos e indecisos para as eleições de governadores, senadores, deputados federais e estaduais, senadores, das quais pouco se fala. Sei bem, à medida que se aproximar 7 de outubro, tais porcentagens cairão.

A indefinição do quadro contém outro componente, as altas rejeições: Ciro Gomes (46,4%), Fernando Haddad (46,1%), Alckmin (55,9%), Meirelles (48,8%), Bolsonaro (52,8%), Lula (46,8%), Marina (56,5%), Temer (87,8%), Rodrigo (55,6%). Em resumo, de um lado, desorientação, torpor e desinteresse do eleitorado; de outro, rejeição da política, irritação generalizada com políticos. As portas estão abertas para a demagogia.

Por que destaco o fato? Para evitar as más surpresas. Ainda há tempo para medidas de contenção, cada um no seu âmbito. Por exemplo, conversar com amigos e escolher candidatos com histórico de honestidade, mas que também tenham posições favoráveis aos bons costumes, queiram segurança para o cidadão, punição para o crime e a subversão, favoreçam leis que estimulem o aumento da produtividade. Sem isso, vamos ter daqui a quatro meses, ministrado pelo eleitor desorientado, mais (doses) do mesmo e antigo remédio (já tóxico). Que Deus nos ajude!

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Yalta 2 no horizonte?



Péricles Capanema

No balneário de Yalta, entre 4 e 11 de fevereiro de 1945, como vencedores da Alemanha nazista, reuniram-se Franklin Delano Roosevelt (Estados Unidos), Winston S. Churchill (Grã-Bretanha) e Josef Stalin (União Soviética). Decidiriam o destino do mundo no pós-guerra. Em boa medida a ingenuidade de Roosevelt e a impotência de Churchill deixaram o caminho aberto para o triunfo de Stalin. Os acordos ali assinados (e o espírito dominante na reunião, de paz irênica) marcaram tragicamente o mundo até 1991, quando ruiu a União Soviética. Tipos de relações, zonas de influência, formas de colaboração, tudo foi lá tratado ou contaminado.

Complementando o combinado em Yalta, poucos meses depois se reuniram em Potsdam de 17 de julho a 2 de agosto de 1945, Harry Truman ▬ Roosevelt havia falecido ▬ (Estados Unidos), Winston Churchill e logo depois Clement Attlee (Grã-Bretanha) ▬ o antigo primeiro-ministro havia perdido as eleições gerais ▬ e Josef Stalin (União Soviética). A conferência de Yalta foi preparada pelo encontro de Teerã, entre 28 de novembro de 1º de dezembro de 1943. Stalin, como se sabe, não cumpriu a promessa de eleições democráticas na Europa Oriental, feita em Yalta, fraudou-as todas por vários meios, e colocou Polônia, Tchecoslováquia, Hungria, Romênia e Bulgária sob o tacão russo. Além da Alemanha Oriental. Logo veio o período da Guerra Fria.

A conferência de Yalta nasceu de necessidade premente, assegurar a paz e a segurança, enfim a ordem internacional, depois de anos de guerra. Não foi pioneira. Logo após as guerras napoleônicas, a mesma necessidade provocou o Congresso de Viena entre maio de 1814 e junho de 1815. Ali Rússia, Prússia, Inglaterra, Áustria e França, sob a orientação muito geral de Metternich, “o cocheiro da Europa”, estabeleceram bases para paz e segurança duradoras no Velho Continente. Igual premência determinou o tratado de Versalhes, assinado em 28 de junho de 1919, que pôs fim à 1ª Guerra Mundial e estabeleceu fundamentos, infelizmente precários, para a estabilidade na Europa. Dele, quando o conheceu, afirmou presciente o marechal Ferdinand Foch, o grande vencedor militar da guerra: “Não é a paz, é armistício de vinte anos”.

Em 1991 a preeminência dos Estados Unidos era de tal monta que, naqueles anos, o historiador Francis Fukuyama julgou estável o triunfo da democracia liberal e do capitalismo. Com raiz em ditos de Hegel, ficou célebre sua afirmação de que assistíamos ao fim da História, pois, acreditava, começaria etapa da evolução desprovida de grandes choques.

Inexistindo choques, estavam afastadas as grandes guerras e a disputa por áreas de influência. Ficavam sem sentido iniciativas como as que determinaram os três acordos acima mencionados, destinados a harmonizar grandes atores internacionais. Só havia um grande ator: os Estados Unidos. O tempo passou, estamos a 27 anos de 1991. A Federação Russa se recompôs, a China se agigantou.

Não só os Estados Unidos é grande ator no momento. Temos de início um contraponto. Após o Brexit, a Europa tem dificuldades de se apresentar unida. Ângela Merkel, até pouco a voz que falava pelo Velho Continente; debilitou-se muito internamente. Emmanuel Macron tenta substitui-la, mas ainda não dispõe da estatura requerida. A Índia tem mediana expressão internacional. O mesmo se pode afirmar do Japão.

São só três os grandes atores no cenário internacional ▬ Estados Unidos, China, Federação Russa ▬, segundo documento oficial do governo dos Estados Unidos, divulgado em abril pelo Departamento de Defesa. Título: “Resumo da Estratégia Nacional de Defesa dos Estados Unidos da América”.

Afirma o texto que, após período de atrofia estratégica, os Estados Unidos se preparam ativamente para os próximos anos. Sua primeira preocupação não é mais o terrorismo: “A competição estratégica entre os Estados, e não o terrorismo, é agora a principal preocupação da segurança nacional dos Estados Unidos”.

Contra quem? Rússia e China. “A China é competidora estratégica que usa a economia de forma predatória para intimidar vizinhos, ao mesmo tempo que militariza a região do Mar do sul da China. A Rússia violou as fronteiras de nações a ela próximas e procura ter direito de veto nas decisões econômicas, diplomáticas e relativas à segurança de seus vizinhos. [...] Voltou a competição estratégica de longo prazo entre as nações. [...] A China e a Rússia, agindo dentro do sistema, estão agora minando a ordem internacional”.

Continua: “O fracasso na obtenção de nossos objetivos de defesa resultará na diminuição da influência global dos Estados Unidos. A erosão da coesão entre aliados e parceiros [esfarelamento] e queda no acesso a mercados favorecerá o declínio da prosperidade e do padrão de vida”.

As três conferências (ou quatro, ou cinco, tanto faz) aqui referidas aconteceram depois de guerras pavorosas, em clima de instabilidade e insegurança. Procuravam criar situações políticas e firmar princípios que garantiriam a ordem, a segurança e a paz entre as nações. Não estamos em fim de grandes guerras. Vivemos, porém, clima de instabilidade e insegurança crescentes. Ficou concebível, quase premente, um encontro entre os três atores para estabelecer critérios de convivência que garantam um mínimo de ordem, segurança e paz. De outro jeito, ficou natural uma Yalta 2. E o encontro hoje não precisa de balneários, nem de papel. Tudo pode ser decidido de onde estão os responsáveis, e fica valendo tacitamente. Como, parece, já está acontecendo na Síria. Seria até conveniente a discrição, evitaria susceptibilidades de potências não participantes.

Virá algo parecido a Yalta? Uma Yalta2? Não sei, não tenho bola de cristal. Digo apenas, estão postas as condições; e estas podem permanecer por anos. Contudo, a aceleração dos fatos pode vir num átimo. Até poucas semanas atrás alguém julgava provável um encontro próximo entre Donald Trump e Kim Jong-um? Está na bica. Entre Kim Jong-um e Moon Jae-in? Já aconteceu. Daí podem borbotar fatos gigantescos, bons, é verdade, mas, revirando, até mesmo apocalípticos.

Falei em fatos apocalípticos. Foram dantescas, para os países da Europa Oriental, as consequências de Yalta. Do mesmo modo, para nações da Ásia. Para ficar por aqui. O encontro dos três grandes do mundo contemporâneo para alegadamente regulamentar a ordem internacional, pode trazer fatos bons, mas, em sentido contrário, catástrofes. Para a América Latina, para o Brasil, para cada um de nós.

A América Latina não está citada no diploma do governo norte-americano. E também nenhum país latino-americano. Nem a Venezuela, ameaça notória para a estabilidade da região. Constato com tristeza a omissão. Que seja motivos para enrijecer resistências saudáveis, que desviem de nossas cabeças desgraças parecidas às que despencaram sobre países da Europa Oriental, em decorrência das decisões de três políticos reunidos em 1945 em um balneário do Mar Negro.

Concluo. O desenrolar dos fatos dependerá de muitos fatores. Em particular da lucidez e vivacidade da opinião pública dos Estados Unidos, bem como de suas equipes dirigentes.