segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Realismo como vacina ao utopismo

 

Realismo como vacina ao utopismo

 

Péricles Capanema

 

Espinhos. Abri o jornal (sou espécie em extinção, ainda abro o jornal pela manhã), e tomei um tapa na cara: o PIB brasileiro no segundo trimestre de 2020 teve contração de 9,7% em comparação com os primeiros três meses do ano. Esperada embora, a retração é a maior da série histórica do IBGE, iniciada em 1996. Segundo pesquisadores da FGV, desde 1980 não há registro de queda pior em trimestre. De passagem, temos outra fonte de informação a mais dos números, sofremos espinhos pontiagudos na própria carne. Tudo dói ao redor nosso.

 

O realismo, vacina contra quimeras. O que me empurra incoercivelmente para mais além da crise, para a região das convicções e mentalidade, de onde procedem as escolhas. E tantas vezes nós brasileiros temos feito opções tóxicas. Encruzilhada inevitável: abraçamos o realismo, enfrentando o que nos agride ▬ sem servilismos a modas estrangeiras (ou nacionais), fincados serenamente em nossas possibilidades ▬ ou vamos preferir escapulir pelo buraco do utopismo, embaídos por miragens enganadoras? A segunda escolha é responsável, em boa parte, pela situação trágica em que agora estamos atirados, com a economia desmoronando por vários lados. O realismo nos teria poupado amazonas de sofrimentos e apreensões.

 

Na tempestade, notícias animadoras. Realismo não é só ver de frente notícias ruins. É também fixar o olhar nas esperançosas. Vamos agora entrar por aqui na economia. Mesmo no ambiente da pandemia, o agronegócio brasileiro continua apresentando resultados positivos. (Destaco, ele foi fruto do realismo). É um alívio, evita a quebra generalizada, o desabastecimento e o desemprego maciço; depois será o motor da recuperação.

 

Vocação natural. Em parte tal pujança se deve à ação lúcida do ministro Alysson Paulinelli nos anos 70, cuja visão de governo (formação ampla de especialistas, pesquisa científica bem orientada, estímulo à inovação) esteve na origem de enorme aumento de produtividade, que vem beneficiando o campo ao longo de décadas Sua ação clarividente, ajudado por muitos outros na mesma direção, sublinhou realidade negada por muitos: cada vez mais o agronegócio se firma como vocação natural do Brasil. É suicídio menosprezar o caminho disposto pela realidade. Aqui toco conceito central do artigo: vocação natural. Natureza e realismo andam juntos. Tal conformação foi agredida pela fixação artificial de políticas estatais por muito tempo em desenvolvimentos induzidos, de base industrial; discussões e planos que marcam há quase um século a vida pública brasileira. Os debates tiveram ponto alto nos anos 40, aos quais vou me referir, pois lançam luz no quadro presente. Continuam vivos, de fato atualíssimos, com potencial para determinar o rumo nosso no futuro.

 

Coletivismo larvado. O embate ao qual me refiro não opôs diretamente, de um lado, propriedade privada e livre iniciativa; de outro, coletivismo deslavado. Foi antes o choque entre intervencionistas (partidários do desenvolvimento induzido e acelerado com utilização maciça de instrumentos estatais), representando, em grau menor ou maior, um coletivismo larvado, e, do outro lado, aqueles que acreditavam que o progresso da economia deveria vir do respeito a suas leis. Escorado na propriedade privada e livre iniciativa, buscar o caminho do que se intitulava o aproveitamento das vantagens comparativas. E aí aparecia logicamente a urgência de fazer progredir a agricultura e, por meio dela, sem prejudicá-la, fazer a indústria contribuir de forma crescente ao progresso nacional. Tal fato se refletiria naturalmente na vida social, educacional e política. Era o fortalecimento da vocação da agricultura; hoje se diria do agronegócio, um pouco simplificadamente. De outro modo, maior presença do agronegócio no PIB brasileiro. Na pauta da discussão estavam o papel do Estado, industrialização, projeto nacional, segurança pátria. No fundo do quadro, por vezes de maneira confusa, noções diferentes e até conflitantes de grandeza nacional.

 

Duas posições em choque. Na já recuada década de 40 duas foram suas principais figuras. De um lado, Roberto Cochrane Simonsen (1889-1948); de outro Eugênio Gudin (1886-1986). A discussão teve início e escancarou posições quando Alexandre Marcondes Filho (1892-1974), ministro do Trabalho, Indústria e Comércio solicitou um relatório ao Conselho Nacional de Política Industrial e Comercial que trouxesse subsídios para uma política industrial e comercial. Dele foi encarregado o dr. Simonsen, membro da mencionada comissão. Em 16 de agosto de 1944 apresentou o estudo “A planificação da economia brasileira”. Conceitos centrais: planejamento, presença do Estado ▬ indutor, financiador, direcionador de recursos ▬, industrialização acelerada. Seria a fórmula para desenvolvimento rápido, melhoria da renda e geração de empregos. Era um eco de tendência em ascensão mundo afora, o planejamento econômico estava na moda no mundo desenvolvido, e aqui se poderia incluir setores importantes dos Estados Unidos. Seu prestígio provinha até mesmo da União Soviética, com os então famosos e prestigiados planos quinquenais, promovidos por Stalin.

 

Reação fundamentada. Também participava da mencionada comissão o engenheiro e economista Eugênio Gudin. Defendia a industrialização, mas paulatina e com base no fortalecimento da agricultura, onde via enormes vantagens comparativas do Brasil, clima e terras férteis. Refratário a ficções, fincado seguramente no que de fato tínhamos, temia atalhos artificiais. Em sua resposta, datada de 23 de março de 1945, o economista carioca observava com visão de longo prazo: “O conselheiro Roberto Simonsen filia-se [...] à corrente dos que veem no ‘plano’ a salvação de todos os problemas econômicos, espécie de palavra mágica que a tudo resolve, mística de planificação que nos legaram o fracassado New Deal americano, as economias corporativas da Itália e de Portugal e os planos quinquenais da Rússia. [...] A verdade é que temos caminhado assustadoramente no Brasil para o capitalismo de Estado”. Sobre sua posição, comentou Roberto Campos: “Gudin insistia que o processo industrializante deveria observar as linhas de vantagens comparativas e deveria caber principalmente ao setor privado, sem relegar a agricultura à posição de vaca leiteira para financiar a industrialização”. A polêmica entre os dois líderes brasileiros está registrada, é fácil compulsar os argumentos de ambos. Não é o caso de aqui os evocar, pois meu objetivo, abaixo exposto, é outro. Só lembro que na década de 40 as convicções já estavam cristalizadas e sistematizadas em dois corpos de doutrinas.

 

Segregação e exclusão. Eugênio Gudin representou o pé no chão; sem o citar explicitamente, defendia o princípio de subsidiariedade, o papel supletivo do Estado em relação à sociedade. Suas posições estavam distantes da purpurina dos “cinquenta anos em cinco”, “Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)” e tantas mirabolâncias parecidas, fruto de ufanismos vazios, quando não de velhacaria política. Não foram vitoriosas, mas ajudaram, apesar de dificuldades, para, em longa decantação, amadurecer argumentos e formar correntes de opinião. E foi só muito depois dos anos 40 que se desvelou aos olhos do mundo a ilusão demolidora da mania dos planos econômicos; em especial evidenciada pelo desastre econômico dos países da antiga União Soviética. Mas quando a impostura se patenteou o mundo já havia padecido os retrocessos civilizatórios, que excluíram de padrões mínimos de dignidade humana durante décadas a bilhões de pessoas. Em última análise, pela recusa consciente e culposa do princípio de subsidiariedade. Aqui está um objetivo do artigo: realçar a importância do princípio de subsidiariedade, vacina contra ficções destruidoras, motor de avanços..

 

O vento fresco do princípio de subsidiariedade. Falei em maturação. Em 1931, já se vão quase cem anos, Pio XI publicou a “Quadragesimo Anno”, encíclica de doutrina social católica. Ali colocou como pilar da doutrina social católica o princípio de subsidiariedade: “Assim como é injusto subtrair aos indivíduos o que eles podem efetuar com a própria iniciativa e trabalho, para o confiar à comunidade, do mesmo modo passar para uma comunidade maior e mais elevada o que comunidades menores podem realizar é uma injustiça, um grave dano e perturbação da boa ordem social. O fim natural da sociedade e da sua ação é coadjuvar os seus membros, e não os destruir nem os absorver.” Representa golpe duro contra o intervencionismo estatal e contra toda forma de coletivismo; afirma o caráter supletivo do Estado em relação à sociedade. Tivéssemos dado ouvidos a tal ensinamento e muito melhor estaria a situação no Brasil. Contudo, pouco a pouco em algumas áreas vai deitando raízes. Um exemplo, na PEC da reforma administrativa, encaminhada recentemente pelo governo ao Legislativo, consta modificação do artigo 37 da Constituição. Passam a figurar como princípios da administração pública, entre outros, a proporcionalidade e a subsidiariedade. É fato promissor; que a brisa se transforme logo em vendaval de restauração e sanidade.

 

Família, a segunda estaca. Falei da subsidiariedade como fundamento da vida econômica. Era uma grande esquecida ▬ hoje não mais. O que é promissor e a pandemia pôs em evidência tal aspecto. Meu segundo propósito, realçar a importância do fortalecimento da família, também fundamental para o progresso econômico. Tal realidade foi recordada com talento e realismo por Ettore Gotti Tedeschi, antigo presidente do Banco do Vaticano: “Numa família se originam projetos que exigem maiores compromissos na geração de riqueza, poupança, investimento. No seio da família surgem estímulos competidores saudáveis, sobretudo graças à educação e treinamento de cada membro, que em perspectiva se torna motor da produção de riqueza que beneficia toda a sociedade. Além disso ela absorve os problemas sociais e econômicos de seus membros, sem transferi-los ao Estado; tende a ajudar e proteger seus membros mais fracos e vulneráveis, que de outra forma sempre pesariam para a sociedade. A família assume três áreas de valor social, criando as condições para o crescimento do PIB, formando e educando, limitando os custos do Estado assistencial. Portanto a família é fonte de investimento em capital humano, fonte de maior comprometimento produtivo, de autoprodução e redistribuição de renda dentro dela. Por isso ela é o primeiro posto de criação de riqueza da sociedade. Ignorar ou mesmo degradar este papel, ao invés de incentivá-lo, é uma das primeiras causas do declínio socioeconômico e cultural da sociedade. Se um país não acreditar na família, verá ruir o crescimento da riqueza produzida e do seu bem-estar econômico e social”. Em resumo, sem família saudável, no longo prazo não haverá economia saudável.

 

Pandemia, hora de padecimento; em especial, de reflexão e oração. Ocasião para analisar o passado (acima pequena e expressiva parte dele), esclarecer situações; e, com isso, preparar futuro de autêntica grandeza cristã. O presente artigo procurou ser modesta contribuição para tal, chamando a atenção para a vocação natural do Brasil, a agricultura, posta em evidência pela gravidade da crise. E salientando dois pontos para caminharmos no rumo certo: princípio de subsidiariedade e família, vacinas contra recaídas.

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Comparações esclarecedoras

 

Comparações esclarecedoras

 

Péricles Capanema

 

Outro título para o artigo: cruzado no queixo ▬ do brasileiro. Podia ser: divagações melancólicas. Um a mais, angústias perenes. Ainda: opção preferencial pelo desmoronamento. Luzes depois da tormenta indicaria resistência ao infortúnio. Tantos mais haverá; depois de respigar algumas ideias do texto, os escassos leitores verão qual escolheriam. Certamente, espero, teriam boas ideias, distantes das apagadas atrás enfileiradas.

 

Entro no assunto. Amigo antigo, observador agudo, enviou-me lista de políticos hoje praticamente desconhecidos, engolidos pelo turbilhão dos acontecimentos. Acompanhava-a apenas a frase: ▬ “Compare, ainda tem jeito? Divulgue.” Compare, ainda tem jeito? Entendi o desafio, era para comparar os nomes constantes da lista com a (tive a tentação de escrever) fauna política. que nos rodeia, em que campeiam a desorientação, a boçalidade, primarismos, grosserias, ladroeiras. Na lista, em sentido contrário, havia figuras de reconhecida cultura, inteligência refinada, educação cuidada, capacidade testada de gestão e governo, figuras de destaque provenientes do mundo da ciência e da experiência. E eram políticos correntes na época, o arroz com feijão.

 

E o “ainda tem jeito”? A que vinha? Entendi também, referia-se à situação em Pindorama. Com os dirigentes que temos, exceções de praxe, ainda haveria esperanças de aperfeiçoamento e progresso no Brasil? Ou não haveria mais jeito, a vaca já foi para o brejo? De passagem, acho que ainda tem esperança, só que o começo da solução não está em eleições, em políticos e em poder político.

 

Adiante. Li a lista, reli. E me veio ao espírito a conhecida observação de Ulisses Guimarães, provavelmente de 1991, tantas vezes repetida, com versões ligeiramente diferentes, resposta a pessoa que lamentava a baixa competência dos membros do Congresso Nacional: “Está achando ruim essa composição do Congresso? Então espera a próxima. Será pior. E pior e pior. Temos algumas poucas cabeças boas aqui. É necessário juntá-las, onde quer que estejam, e fazê-las trabalhar num rumo só: para a frente. Sempre.”

 

Para o vivido político, a péssima representação política brasileira, cada vez pior, seria como que abracadabra macabro nosso, cujos eflúvios mefíticos fatalmente nos empurrariam ladeira abaixo. Rumo ao quê? Óbvio, rumo ao desastre, provocado em especial pela degringolada moral e escasso valor humano dos dirigentes que vencem as eleições com promessas ocas e engodos indecentes, constituindo na prática (outra vez, eliminando as honrosas exceções) triste amontoado incapaz das mais comezinhas noções de bem comum e senso de governo; a mais, foco de roubalheiras, indiferença à sorte popular e desconhecimento do que seja aperfeiçoamento da sociedade e do Estado. Para muitos dos brasileiros, a qualificação correta vai mais fundo, seriam menos que amontoados, constituiriam, à vera, monturos, lupanares autênticos, onde se traficam honra, propinas e favores torpes.

 

A trágica situação evidencia opção preferencial pelo atraso. E, aqui, em especial exclusão sobretudo dos mais gabaritados e melhores, que teriam condições de contribuir mais para a ascensão popular. Significa, de outro lado, adiar, sabe Deus para quando, a inclusão social de milhões, impedindo-lhes vida digna. Crueldade de insensíveis.

 

Depois de recordar o que hoje se encarapita no mundo oficial, obedeço de novo a meu amigo e revelo o que dele recebi. A lista é a representação federal mineira nas eleições de 1954, 39 deputados federais. Entre eles, Ovídio de Abreu, Bilac Pinto, José Maria Alkmin, Israel Pinheiro, Magalhães Pinto, Último de Carvalho, Milton Campos, Carlos Luz, Nogueira da Gama, Oscar Dias Corrêa, José Bonifácio, Gustavo Capanema, Afonso Arinos, Otacílio Negrão de Lima, Artur Bernardes, Rondon Pacheco, Pinheiro Chagas, Mário Palmério, Tristão da Cunha, Gabriel Passos. Dos 39, escolhi 20, um tanto aleatoriamente. Os não constantes, regra geral, fazem também boa figura. Não analiso aqui posições políticas, nem sua contribuição positiva ou negativa ao Brasil. Todo político é controvertido. Meu foco é outro: tipos humanos, padrão, personalidade, gente moldada para a vida pública, apta a trabalhar com eficiência pelo bem comum. Via de regra, os referidos representantes viviam imersos em ambientes embebidos de hábitos de sobriedade, morigeração, decência, cortesia ▬ ali moldavam a personalidade, instrução, exemplos, até por osmose. E, sem restauração de tais cadinhos de norte a sul, o Brasil não tem jeito. Se a eles dermos as costas, serão inúteis, por vezes contraproducentes, esforços por um mundo mais justo e solidário; mais cristão, enfim. Nenhuma árvore é viçosa sem raízes saudáveis.

 

Recuo 20 anos, foco num aspecto da Constituinte de 1933. Plinio Corrêa de Oliveira, seu deputado mais jovem e mais votado, assim descreve o clima ali reinante  em artigo para “O Legionário” (10-12-1933): “À medida que vão passando os dias, os diversos tipos de deputados se vão definindo perfeitamente e os hábitos, usos e costumes da nova Constituinte são consolidados pela prática. A primeira impressão que me deu a Constituinte foi a de um enorme e suave aquário de água morna, banhado por uma luz brandamente pálida, em que evoluíam, com a discrição silenciosa com que só os peixes sabem evoluir, os tubarões ou as sardinhas da política nacional. Só quem conhece o Palácio Tiradentes pode apreciar a justeza da comparação. Tudo nele é rico, discreto e acolchoado, desde a poltrona em que pontifica o Sr. Antônio Carlos, até a cadeira de engraxate instalada na barbearia. Neste ambiente [...] circulam os representantes da nação brasileira, com uma gentileza recíproca sem igual. Realmente, a cortesia é a nota característica de nossa Constituinte. [...] Outro aspecto curioso é a diferenciação das atividades. Há os deputados de tribuna, e há os de corredor. Os primeiros são os líderes dos grandes torneios oratórios. Sua ação é essencialmente explosiva e detonante. São a artilharia pesada. Ao lado destes, há os de corredor. São os líderes do cochicho e da confabulação. Afetam um desdém condescendente para com os grandes debates oratórios, de que não sabem participar. O tipo intermediário mais característico é o do líder da maioria, Sr. Oswaldo Aranha. Ora S. Exa. conversa discretamente com algum colega, alheio ao discurso, mesmo quando está em causa na verrina do orador, ora intervém nas menores questões, aparteando com frases proferidas no tom em que Júpiter tonante desfechava seus raios. Dado o aparte, volta-se para os circunstantes, a procurar com os olhos um contendor, para continuar mais baixo a discussão entabulada. Retira-se depois do recinto, com a fisionomia satisfeita de si mesmo, distribuindo para a esquerda e para a direita sorrisos mágicos, que eletrizam e enchem de sol o semblante dos beneficiados. Com o olhar admirado e solícito, certos deputados ainda o acompanham de longe, com a vista. E, no seu porte dobradiço e na sua atitude reverente, há alguma coisa que diz aos profanos: Voilà le soleil (Eis o sol)”.

 

Do texto, destaco informação especialmente reveladora, o ambiente afável ▬ discrição, cortesia e gentileza realçou o prof. Plinio Corrêa de Oliveira. O que sobrou de tais tesouros no Brasil contemporâneo? Repito, o ar ali existente era reverberação de costumes generalizados em círculos familiares. Saber valorizá-los seria começo enérgico no rumo certo. O Brasil progrediria, com grande vantagem em especial para seus setores mais vulneráveis.

 

Solução? Antes de qualquer esboço a respeito, transcrevo opinião de Gilberto Amado, contém partes da solução: “É um axioma da ciência política verdadeiro em todos os regimes — no regime democrático como nos demais — que a sociedade deve ser dirigida pelos mais avisados (sages), pelos mais inteligentes, pelos mais capazes, pelos melhores, em uma palavra pela elite. [...] O nosso papel aqui, ao estudarmos a marcha do sistema representativo, é procurar os meios normais, fixar as etapas sucessivas, desse esforço da grei humana na sua ascensão para o governo livre. É um axioma, como dissemos no começo, que todo sistema de governo [...] só se pode realizar pela escolha dos mais capazes, dos mais inteligentes, dos mais instruídos. Essa escolha no sistema democrático está nas mãos do sufrágio universal.” Sem tal caminho, flui das palavras de Gilberto Amado, não caminhamos (ascendemos) para um governo livre. De outro modo, a degradação da representação política é marcha para a tirania e o retrocesso.

 

Enfim, a classe política de que dispõe o país quase só traz decepções amargas. Bastaria recordar uma das manifestações disparatadas e até meio delirantes da presidente Dilma Rousseff, um dos mais luzentes exemplares dela, esta em Nova York, diante de jornalistas pasmos: “Até agora, até agora, a energia hidroelétrica é a mais barata. Em termos do que ela dura, da sua manutenção e também pelo fato da água ser gratuita. I da genti podê istocá. Cê, o vento podia sê isso também, mas ocê num conseguiu ainda tecnologia pra istocá vento. Então se a contribuição dos outros países, vamos supô que seja, desenvolver uma tecnologia que seja capaz de na eólica istocá, ter uma forma docê istocá, porque o vento ele é diferente em horas do dia, então vamos supô que vente mais à noite, cumé queu faria pra istocá isso. Hoje nós usamos as linhas de transmissão, cê joga de lá pra cá, de lá pra lá, pra podê capturá isso, mais si tivé uma tecnologia desenvolvida nessa área, todos nós nos beneficiaremos, o mundo inteiro”.

 

De fato, poderíamos beneficiar a nós e ao mundo inteiro se pudéssemos ter um conjunto de homens públicos à altura da nobre missão de governar. O primeiro passo na direção correta, obrigação de cidadania ativa, é ter o problema claro. Outro ponto, recuperar a noção da importância dos ambientes domésticos (ou seja, da família). Só ali em geral se engendram fundamentos reais para a posterior formação de lideranças benfazejas ao bem comum ▬ políticas, é certo, mas necessárias em todos os âmbitos da vida social. Sei que não é exposição da solução, não resolve a gravidade do quadro, mas, creio, traz à baila aspecto por vezes esquecido, que da solução está no eixo principal.

 

As boas comparações esclarecem; em particular se delas brotar a clareza, nutriente para esperanças fundadas na realidade e não em utopismos desviantes ou romantismos paralisantes.

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Advertências necessárias e oportunas

 

Advertências necessárias e oportunas

 

Péricles Capanema

 

Dias atrás o empresário Salim Mattar demitiu-se da Secretaria Especial de Desestatização, Desinvestimento e Mercados. Compreensivelmente, foi enorme o desconcerto, em especial no mercado. Todos sabem, pela sua trajetória era o maior símbolo, junto com o ministro Paulo Guedes, da obediência do governo ao programa enunciado na campanha de apoio à propriedade privada, livre iniciativa e desestatização. Menos governo, menos Estado, mais sociedade civil, objetivos expressos de algum modo no slogan “Menos Brasília, mais Brasil”.

 

Salim Mattar deixou o governo, mas não bateu a porta, nem saiu atirando. Homem de grandes responsabilidades familiares, empresariais e defensor há décadas dos princípios do liberalismo econômico, esteve à altura da ocasião com comportamento discreto, firme e educado. Com isso, preservou posições, a partir das quais pode continuar a ser voz ouvida nos debates nacionais. Mas o empresário oliveirense percebeu que o mercado e em especial a opinião nacional dele esperavam palavras de esclarecimento. Não podia simplesmente pedir o chapéu e sair calado. E o fez particularmente em artigo prudentemente revelador intitulado “Por que saí do Governo”. Está na rede. Deixa claro na matéria: “Continuo apoiando a pauta econômica do ministro Paulo Guedes e também do governo Bolsonaro”.

 

Vale a leitura. O mais importante do texto densamente informativo são as advertências. Salim Mattar disse a verdade, mas a prudência guiou a pena e a fez parcimoniosa. O leitor, contudo, com base no que escreveu, caminhando por conta própria, levado por lógica incoercível, pode compor quadro verossímil, bem fundamentado, de um importante bloco de problemas brasileiros. É o que, em parte, procurarei fazer aqui.

 

Vamos às advertências: “A lógica do governo não é a lógica da iniciativa privada”. Não fala em tese, refere-se aqui ao governo no Brasil; óbvio, não tem em vista o governo nos Estados Unidos, em que outro é o ritmo, animado por lógica diferente. Continua: “São mundos absolutamente distintos, mundos que deveriam se complementar, mas, ao contrário, competem entre si”. Precisa bem, o ideal seria complementaridade, o que existe é concorrência. São adversários. O saudável, digo na esteira de Salim Mattar, seria a obediência ao princípio de subsidiariedade em que o Estado, atuando supletivamente, complementasse o que a sociedade, família e grupos intermediários, não pudesse realizar. Não é o que observou entristecido e desgostado o dr. Mattar. Uma casta (ele vai discorrer a respeito) faz do Estado na prática, o adversário da sociedade, de onde suga o nutrimento. É uma disputa destrutiva, prejudicial ao Brasil.

 

Prossegue o empresário em explicação didática: “Se no mundo dos negócios a orientação é mudar para melhorar, no governo é permanecer as coisas como são para manter do jeito que estão”. Mattar aponta descalabro de emperramento, geradora de retrocesso. Por causa de uma burocracia incrustada na administração pública, o Brasil permanece emperrado, vítima de imobilismo parasitário, situação profundamente antissocial.

 

Constata de forma surpreendente: “Os liberais ‘de fora’ que vieram para o governo cabem num micro-ônibus”. De outro modo, tal minoria ínfima procura dar ao Brasil um rumo, rejeitado por ambiente dominado por intervencionistas e estatistas. Mattar viu-se diante de um mastodôntico mundo oficial sevado e viciado no estatismo, que vive bem no meio da incompetência, roubalheira e desleixo próprios às sociedades coletivistas. E agora não surpreende a conclusão: “A tese liberal de reduzir o tamanho do Estado para desonerar o cidadão é aplaudida, mas pouco apoiada”. Com isso, recursos dilapidados. De outro modo, aplausos quase tão-somente para a galeria, atendendo a uma opinião pública de tendência conservadora, mas à vera ação governamental em sentido contrário, de enrijecimento do estatismo. Tal fato se reflete nas dificuldades legais para transferir empresas para o setor privado: “O arcabouço legal do processo de desestatização é complexo e moroso. São quinze agentes envolvidos, do presidente ao ministro setorial, do TCU ao BNDES. Tudo torna o processo burocrático, lento”.

 

O líder empresarial enumera então o que chama de Establishment, ou seja, grupos e pessoas formal ou informalmente articulados para a defesa e promoção de determinado estado de coisas: “O Establishment composto diretamente pelos empregados públicos, sindicatos, fornecedores, comunidades, políticos locais, partidos de esquerda e lideranças políticas” trabalha pelo triunfo do estatismo e dificulta a privatização. São a vanguarda do atraso, responsáveis diretos pela paradeira econômica, crueldade em especial em relação aos pobres. Chamo a atenção para alguns dos responsáveis apontados pelo dr. Salim: os partidos de esquerda, em primeiro lugar. Em segundo, fornecedores, isto é, empresas que trabalham para o setor público. A elas interessa o ambiente de laxismo, propinas, roubalheiras e lucros fáceis. O mensalão, o petróleo o provam. E se impede a eclosão do elotrolão, que mostraria a mesma realidade. Finalmente, políticos de várias orientações, que vivem de indicar apaniguados para estatais, de onde tiram o financiamento para as campanhas e, por vezes, argun para o bolso.

 

Ainda sobre as estatais, informa ele: “As estatais que sobrevivem com subvenções e aportes da União totalizaram um rombo de R$190 bilhões nos últimos 10 anos, dinheiro suficiente para se construir e doar 1,9 milhões de casas populares”. Não é vender as casas a juros subvencionados, vejam bem, é dar de graça. Seria muito mais útil socialmente do que torrar a dinheirama em estatais perdulárias. Também informa que enganosamente foi informado que o Brasil (só o governo federal) tinha 134 estatais, o que já seria um disparate: “Iniciamos uma análise mais detida e encontramos 698 empresas. O Estado-empresário é gigantesco e não quer ser amputado”. A isso se devem somar as estatais dos poderes estaduais e municipais.

 

Ainda pipocam outras advertências no texto de Salim Mattar. Vão na mesma direção do que acima foi mencionado. Explica, por fim, o motivo determinante de sua saída: “Deixei o governo porque, em minha análise de esforço despendido versus resultados, a conta foi negativa. Dedicando meu tempo aos institutos liberais Brasil afora, posso continuar contribuindo para a construção de um país melhor, com menos Estado, menos oneroso para o cidadão e menor interferência na vida privada”. Boa sorte ao dr. Salim, que Deus o proteja.

domingo, 16 de agosto de 2020

Retrocesso, atraso, preconceito e obscurantismo

 

Retrocesso, atraso, preconceito e obscurantismo

 

Péricles Capanema

 

Desprestígio e prestígio. Retrocesso, atraso, preconceito, obscurantismo ▬ tantas vezes mortíferas armas de combate publicitário ▬ são correntemente desfechados como impropérios, repisados a todo propósito. Manifestam, opinião frequente, bom-mocismo, espírito aberto, arejado, compassivo; enfim, pessoal inconformado com a suposta dureza dos adversários diante do sofrimento humano ▬ se não dureza, ignorância, hábitos ronceiros, má-fé. Curto, gente do bem contra gente errada; autores prestigiados, desprestigiadas as vítimas, em geral com pechas afrontosas.

 

São, já se vê, conceitos politicamente corretos. Nos casos acima mencionados, flecha ou punhal contra adversários. Podem também bafejar. Exemplo, inclusão social. Outro, solidariedade. Mais um: avanço civilizatório. Prestigiam quem recebe o apodo e até quem o enuncia. Elitismo deprecia quem dele for alvo. De fato, temos sem-número de termos, punhais ou bafejo, conforme o caso; aparecem a todo momento.

 

Palavras-talismãs. Constituem vocábulos comuns, usuais no dia a dia, transformados em palavras-talismãs. Explico-me. O professor Plinio Corrêa de Oliveira em ensaio “Baldeação ideológica inadvertida e diálogo”, publicado em 1965, cunhou a expressão “palavras-talismãs”, termos que, por artes da propaganda, passam a ter no público o efeito de um talismã (um bruxedo). Lançam eflúvios, criam clima; dependendo do caso, encantam, seduzem, modificam temperamentos, agem nas tendências e convicções. Em rumo contrário, com carga emocional oposta, inibem, atemorizam e até neutralizam pessoas e grupos sociais por elas atingidos. Reitero, têm efeitos parecidos à ação do que hoje se intitula o politicamente correto.

 

A seguir, abaixo vai um extrato do que na ocasião delas explicitou o prof. Plinio Corrêa de Oliveira para os conceitos que atraem o prestígio: “Trata-se de uma palavra cujo sentido legítimo é simpático e por vezes até nobre; comporta ela, porém, certa elasticidade. Empregando-se tal palavra tendenciosamente, começa ela a refulgir para o paciente com brilho novo, que o fascina e o leva muito mais longe do que poderia pensar. Citemos alguns desses sadios e até nobres vocábulos. Torcidos, atormentados, deturpados, violentados, de vários modos, a quanto equívoco, a quanto erro, a quanto desacerto têm eles servido de rótulo! Pode-se mesmo dizer que os efeitos dessa técnica são tanto mais nocivos quanto mais digno e elevado é o conteúdo da palavra de que assim se abusa: ‘corruptio optimi pessima’. Entre as palavras portadoras de um conteúdo digno, assim transformadas em enganosos talismãs a serviço do erro, podem ser citadas: justiça social, ecumenismo, diálogo, paz, irenismo, coexistência, etc”.

 

Simpatias e fobias. Ou xodós e birras. Mostra ele que cada vocábulo desses, trabalhado e retorcido por ambientes culturais que atuam como caldo de cultura, suscita uma constelação de simpatias e fobias: “Assim incubados por um espírito novo, cada um desses vocábulos suscita nas pessoas que se encontram no estado de espírito indicado acima [...] toda uma constelação de impressões e emoções, de simpatias e fobias. Esta constelação, como adiante veremos, vai orientando tais pessoas para novos rumos ideológicos: para o relativismo filosófico, o sincretismo religioso, o socialismo, a chamada política da mão estendida, a franca cooperação com o comunismo e, por fim, a aceitação da doutrina marxista”.

 

Tais termos, lembra o autor, são dotados de irradiantes qualidades publicitárias: “Para esses rumos ideológicos a vítima do processo de baldeação vai sendo cada vez mais atraída pelo prestígio da propaganda. As palavras-talismãs correspondem ao que os órgãos de publicidade reputam, em geral, moderno, simpático, atraente. Por isto, os conferencistas, oradores ou escritores, que empregam tais palavras, só por esse fato veem aumentadas suas possibilidades de boa acolhida na imprensa, no rádio e na televisão. É este o motivo por que o radiouvinte, o telespectador, o leitor de jornal ou revista encontrará a todo propósito essas palavras, que repercutirão cada vez mais a fundo na sua alma”. Palavras-talismãs têm como sinônimo expressões-talismãs.

 

Diminuição das desigualdades sociais. Em resumo, são comummente recursos de guerra publicitária, seja psicológica, seja ideológica. Sobre uma expressão-talismã, de impacto devastador, pela sua importância, trato agora. Em todos os meios de divulgação, quando se analisam políticas públicas, ações de governo, trabalho social, legislação, surge sempre a preocupação: diminuição das desigualdades sociais. É solicitude de si legítima, nobre em certas ocasiões, urgente em outras. Pode ser ocasião, contudo, e infelizmente tem sido com relativa frequência, para políticas de coerção ilegítima do potencial de pessoas e grupos sociais. Um destaque indispensável: envolve de prestígio quem expressa tal cuidado. Virou expressão-talismã.

 

Corta, o panorama vai mudar radicalmente. Em relação a outro âmbito, temos apatia ou desconhecimento; sua menção não traz prestígio e ainda pode provocar incompreensão. Não deveria ser assim, tal âmbito está mais ligado à obtenção da felicidade pessoal, objeto primeiro de todos nós.

 

A ação da família, das sociedades intermediárias e até a do próprio Estado, todos seres morais, deveria buscar em primeiro lugar o bem da pessoa humana, ser substancial, deles participante. No caso do Estado, é clássico, o Estado busca o bem comum. Podemos dizer, para todos vale o objetivo de buscar a felicidade; de outro modo, é o ensino  de Aristóteles, entre outros, a busca da perfeição da natureza humana, que é o que traz a felicidade real.

 

Tal concepção, aliás, reflete-se, pelo menos parcialmente, nos documentos fundamentais dos Estados Unidos. Influenciados pelo Direito Natural, os scholars que redigiram a declaração de independência ▬ recordando os principais, Jefferson, John Adams, Benjamin Franklin, Roger Sherman, Robert Livingston ▬, ecoando opinião comum na época, colocam como direitos inatos, fundamentais e inalienáveis, conferidos pelo Criador, “vida, liberdade e a busca da felicidade”. A busca da felicidade (“pursuit of happiness”) supõe, claro, a vida e a liberdade. Posta tais premissas, fica no centro do desvelo a busca da felicidade, indispensável para a promoção da verdadeira dignidade humana.

 

Coerção das potencialidades. Como se obtém a perfeição da natureza humana, e com ela o caminho da felicidade real? Muito resumidamente, fugindo da atrofia da personalidade, marchando resolutamente na estrada da transformação das potencialidades em atos ▬ o virtual em real. De outro modo, reconhecendo as possibilidades de cada um, as mais variadas, e favorecendo sua concretização. A imposição fria de um princípio geral [no caso, tantas vezes, impor a diminuição irrefletida das desigualdades pessoais e sociais] sufoca esperanças, cerceia caminhos, mingua possiblidades.

 

Potencialidades estimuladas. Em sentido contrário, estimular a busca pelos extremos das possibilidades de cada um oxigena o ambiente, eleva a sociedade, favorece o bem comum. Criar condições ou favorecê-las para a consecução da felicidade pessoal, aqui está: o que mais deveria chamar a atenção, constituir a primeira preocupação de quem quer promover o bem social. Cuidado não só de particulares, mas dos homens públicos. Seria grande obra de justiça social a desobstrução das vias para a plena expansão das potencialidades, evitando coibir de forma artificial, na obediência servil ao dogma revolucionário da igualdade, uma sociedade enormemente variada, harmonicamente desigual. E feliz. Repito, ecoando doutrina aristotélico-tomista, a felicidade virá com a expansão do potencial de cada um, de outro modo, na busca da plenitude.

 

As noções de bem comum, bem social, bem pessoal, deveriam vir nutridas por tais concepções; aliás, prévias e básicas em qualquer iniciativa benéfica. Aí sim, teríamos acelerados avanços civilizatórios, estariam postas bases para solidariedade efetiva, bem como assistiríamos a rápida e gradual inclusão social de setores cada vez mais amplos, hoje infelizmente reprimidos em muitas de suas qualidades. Constitui retrocesso evidente evitar tal caminho, traz atrasos dolorosos em especial para os mais pobres, são políticas que nascem de pré-conceitos (entre eles, a crendice de que o igualitarismo favorece o progresso, quando, de fato, atrofia o desenvolvimento humano), perpetuam o obscurantismo, de outro modo, a falta de clareza a respeito do que à vera representa o progresso na vida. Finalmente, impede a formação de elites nas mais variadas condições sociais, indispensáveis à promoção pujante do bem comum. Aqui estão as bases da ordem temporal cristã.

quinta-feira, 30 de julho de 2020

De novo a opção preferencial pela exclusão


De novo a opção preferencial pela exclusão

Péricles Capanema

A jornalista Mônica Bergamo divulgou na “Folha de São Paulo”, 26 de julho, “carta ao povo de Deus”, manifesto assinado por 152 bispos (boa parte, resignatários), que deveria ser dado à publicidade um pouco antes, 22 de julho.  Signatários dela, pelo que afirma a colunista, queriam, antes de propagá-la, esperar a opinião da Comissão Permanente da CNBB, cuja reunião para análise do texto e sua oportunidade está marcada para 5 de agosto próximo. E temiam que a chamada ala conservadora da CNBB impedisse sua divulgação. Tem sólidos fundamentos o temor do choque em setores conservadores. E não só da CNBB, em qualquer lugar, pois é traumático o conteúdo; trata-se de lídimo libelo petista, poderia ser assumido pela Comissão Executiva Nacional do PT. De fato, na 2ª feira, 27 de julho, em nota a CNBB se distanciou (pelo menos, por enquanto) da mencionada tomada de posição, “nada tem a ver”, é “responsabilidade dos signatários”. Teria então havido um vazamento para impedir o engavetamento do texto. Aqui não se trata de apoio ao governo Bolsonaro. É normal a oposição, cumpre papel necessário, terá justificativas que devem ser ponderadas. O chocante no caso é a assunção da linguagem e das bandeiras da esquerda, mesmo a mais extremada, o apelo a um trabalho coordenado, cujo êxito colocará o Brasil em situação próxima à da Venezuela ou Cuba, retrocesso cruel para todos, em especial para os pobres.

Desde décadas, tem sido excluída a maioria silenciosa dos católicos. Existem cerca de 500 bispos atuando no Brasil, pouco mais de 300 efetivos, pouco menos de 200 resignatários. Dos 152 subscritores, repito, parte importante é resignatária. O fato tem sua importância. Convém recordar, o bispo emérito não tem obrigações de pastorear diocese, está mais distante dos fiéis e do Clero, sente-se assim mais livre para agir segundo suas preferências ronceiras; no caso, a militância esquerdista, que por razões prudenciais preferiria esconder quando à frente de dioceses. Ali, precisariam pelo menos fingir levar em conta o clamor da maioria silenciosa e silenciada do povo; recordando linguagem bíblica, não poderiam atirar uma pedra para filhos pedindo pão, nem poderiam arrojar uma serpente ao escutá-los pedindo peixe. Com efeito, observando a orfandade em que se encontra desde décadas a imensa maioria do laicato católico, excluída de forma intolerante pela opção preferencial pela esquerda levada a cabo por parte dos pastores, é normal se lembrar de passagens bíblicas atinentes. “Tenho visto atentamente a aflição do meu povo, que está no Egito, e tenho ouvido o seu clamor” (Ex 3, 7). E qual o pai de entre vós que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, também, se lhe pedir peixe, lhe dará por peixe uma serpente?” (Lc 11, 11). Para os aflitos, a política habitual tem sido pedras e serpentes. O manifesto em análise constitui, dói dizê-lo, mais um dos episódios lacerantes do misterioso processo de autodemolição da Igreja, em que tantas vezes o pastor espanca a ovelha indefesa, abre as portas do redil e saúda alegremente o lobo que avança.

Radicalização da exclusão. Mais um ponto a ter em vista. Os 152 signatários podem estar redondamente iludidos a respeito da real influência que seu demolidor libelo terá na opinião nacional, em especial na católica. Na prática, vai demolir pouca coisa, se tanto. O brasileiro é pacato, abomina agitações e dilacerações. E o intolerante texto as instiga. Imaginarão que sua condição de bispos da Igreja Católica dá à sua voz eco que no caso não existe? Na prática, incomodado com a ácida linguagem revolucionária, o laicato majoritariamente fechará os ouvidos à mensagem. Outro aspecto importante. Nosso Senhor no Evangelho ensinou: “As minhas ovelhas conhecem a minha voz” (Jo, 10, 27). O sensus fidei faz com que o católico conheça o timbre da voz do bom pastor. Quando é estranho o timbre, dele se afasta. Em resumo, o palavrório amazônico terá repercussão escassa. Os católicos, em geral desgostosos com o disparatado do texto, sentir-se-ão ainda mais excluídos.

Outra maioria silenciosa. Certamente bem mais que 152 bispos foram sondados para dar seu apoio ao texto intoxicado por um esquerdismo primário e descabelado. Recusaram. Temos aqui uma maioria silenciosa, um pouco menos de 350 ▬ destes, quantos foram sondados, não tenho como saber ▬, que por razões as mais várias, inclusive desconhecimento, imagino, abstiveram-se. Preferiram guardar distância do texto revolucionário. Isolaram-se assim dos 152 signatários, tangidos pelo vezo incoercível de se juntar às reinvindicações da esquerda, mesmo as mais radicalizadas.

Em 1976, o professor Plinio Corrêa de Oliveira publicou livro de grande repercussão “A Igreja ante a escalada da ameaça comunista ▬ Apelo aos bispos silenciosos”. O trabalho continha o pedido para que os então bispos silenciosos, maioria clara, tomassem a frente do palco, tirando o protagonismo quase monopolístico dos bispos de esquerda. Agora, também, a maioria está silenciosa. Dizia ele na ocasião: “Importa, com efeito, não ver em tal silêncio apenas a posição cômoda de quem está longe da luta. Mas também o desapego e a retidão que evitam obstinadamente a complacência ativa com o mal. [...] Nas mãos dos silenciosos, pôs Deus todos os meios que ainda podem remediar a situação: são eles numerosos, dispõem de posições, de prestígio e de cargos. Atuem. Nós lhos imploramos. Falem, ensinem, lutem”. Estamos hoje em situação parecida. Os excluídos na Igreja, ansiando por inclusão e compreensão, hoje não pedem outra coisa a seus pastores. Não aprofundem ainda mais as valas da exclusão.

Apelo à união da esquerda em torno de programa demolidor. O libelo dos 152 está na rede e na imprensa escrita. Dele extraio trechos de maior significado. Ponto central, recusa qualquer complacência com o governo: “É dever [...] posicionar-se claramente. [...] A narrativa que propõe a complacência frente aos desmandos do Governo Federal, não justifica a inércia e a omissão”. Aos que não têm nenhuma complacência (os sem complacência) com o governo, a proposta: “O momento é de unidade. [...] Por isso, propomos um amplo diálogo nacional”.  A finalidade de tal frente popular salta do texto apaixonado: “As reformas trabalhista e previdenciária mostraram-se como armadilhas. [...] É insustentável uma economia que insiste no neoliberalismo. [...] uma ‘economia que mata’. [...] O desprezo pela educação, cultura, saúde e diplomacia também nos estarrece. [...] Demonstrações de raiva pela educação pública. [...] escolha da educação como inimiga. [...] No plano econômico, o ministro da economia [...] privilegiando apenas grandes grupos [...] grupos financeiros que nada produzem. [...] O governo federal demonstra rechaço pelos mais pobres e vulneráveis” [...] Este tempo não é para divisões”.

Esperemos que a CNBB recuse seu apoio a um texto favorecedor de retrocessos e exclusões. E que, enfim, para o bem do Brasil, falem os silenciosos do Episcopado.

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Fascinação recíproca


Fascinação recíproca

Péricles Capanema

A França tem nova embaixadora no Brasil, Brigitte Collet; assume o posto em momento de dificuldades nas relações entre os dois países. Passo ao lado dos assuntos espinhosos, não têm relação próxima com o tema de que vou me ocupar. Objeto também espinhoso. As matérias rugosas precisam ser ventiladas.

A nova representante gaulesa fez saudação de praxe aos franceses residentes no Brasil. Está na rede (“Premier message à la communauté française de l’ambassadrice, Mme Brigitte Collet”). Nela, a diplomata mencionou realidade cada vez menos lembrada, a “fascinação cultural recíproca” existente entre o Brasil e a França. Vem de longe, está inscrita na história dos dois países. Só vou analisar, na fala da embaixadora, a expressão acima referida, o resto fica para outra hora, se ensejo houver.

Nada mais verdadeiro, nada mais justificável que recordar a “fascinação cultural recíproca”, campo com enorme poder evocativo. Contudo, verdade triste, não apenas é expressão cada vez menos lembrada; pior, está se apagando por causas várias o fascínio recíproco, tanto na França, como no Brasil. É tragédia sem nome, estávamos em uma aurora, ainda imersa na neblina, que, afastados os efeitos das tempestades, poderia ter dado origem a progressos autênticos.

Espiadela sobre razões do apagamento.  O deslumbramento a que alude a sra. Collet não é (ou era) apenas cultural. Ou era cultural em acepção ampla; como André Malraux via a cultura, “herança da nobreza do mundo”; de outro modo, junção harmoniosa de altas perfeições vicejando nos vários âmbitos da vida humana. O fascínio mútuo, encarando mais fundo era a percepção de traços de personalidade, de valor extraordinário que, pelo enlevo assimilativo, completariam os “role models” predominantes nas duas culturas.

De nossa parte, olhos daqui para lá, lembrando a distinção filosófica entre ato e potência, fascinava-nos sobretudo atos, realidades já construídas; uma ou outra vez energias latentes se transformando em atos. Examinando de lá para cá, minha opinião, os franceses eram sobretudo fascinados por potencialidades que avistavam no Brasil (em especial nas pessoas com as quais entravam em contato, para ser mais preciso). Tais pessoas, em geral, ou eram de condição social privilegiada, ou eram de inteligência e cultura privilegiadas. Ou ambas. Constituíam escol, representativo do que de melhor o Brasil, país ainda muito pobre, poderia na época oferecer ao mundo. Por indução, com base em tais amostras, era possível conceber noção real, traços gerais, esboço um tanto brumoso, do que o Brasil um dia poderia chegar a ser, se, entre outros esforços, continuasse aperfeiçoando e tornasse patrimônio comum do povo os valores psicológicos e morais percebidos naqueles encontros, expressos no comportamento.

Tal realidade incipiente de enorme riqueza potencial foi destroçada quase por inteiro. Não foi só desleixo. Houve ação contra, por vezes encarniçada. Se, em vez de lançar pedras, impulsionadas por preconceitos obscurantistas, tais grupos sociais ▬ pessoas, também ▬ fossem, com senso das proporções, prestigiados na vida da nação, ao longo das décadas teríamos tido das mais benéficas e produtivas iniciativas de inclusão social. Uma política autenticamente popular, e sem gastar um tostão do erário nisso. Por contato e admiração, círculos cada vez mais amplos, de forma gradual, partilhariam, ainda que de maneira diferenciada, tais maneiras de ver a vida, de grande potencial de ascensão (fonte de fascínio de estrangeiros que viviam no Brasil, em particular de franceses) florescentes então em particular em ambientes pequenos.

Nada ou quase nada disso aconteceu. Tais grupos informais ▬ moldados por valores, percepções delicadas, modos de viver próprios ▬, repito, foram sufocados pela desatenção geral, quando não objeto de mofa e desprestígio. Surgiram outros “role models”, ocuparam a cena, relegando os anteriores, como velheiras inúteis, aos desvãos não frequentados das casas.

E era em tais grupos, ilhas no interior dos mundos cultural e da sociedade educada, que latejava mais forte o fascínio pela França. Em direção contrária, ali em geral estava mais brilhante a origem do fascínio que o Brasil exercia na França. Fascinação recíproca, lembrou a embaixadora. Restam fiapos.

Em vez da subida em número e qualidade de setores autenticamente representativos e da ascensão popular generalizada, disse atrás, novos “role models” dominaram, postiços e caricatos, e com eles se impuseram socialmente em grande número de casos desigualdades desagregadoras e igualitarismos atrofiantes. Primarismos, boçalidades, má educação, incompreensão da vida, quando não a imoralidade solta, em boa parte são marcas distintivas dos primeiros lugares nas cenas pública e social do Brasil de hoje. Basta observar o que vemos e comparar com o que tivemos como figuras de expressão. São marcas da opção preferencial pelo atraso.

“Até o século XIX o idiota era apenas o idiota e como tal se comportava. E o primeiro a saber-se idiota era o próprio idiota. Não tinha ilusões. Julgando-se um inepto nato e hereditário, jamais se atreveu a mover uma palha, ou tirar uma cadeira do lugar. Em 50, 100 ou 200 mil anos, nunca um idiota ousou questionar os valores da vida.[...] Descobriram que são em maior número e sentiram a embriaguez da onipotência numérica. [...] Houve, em toda parte, a explosão triunfal dos idiotas. ...] Os idiotas vão tomar conta do mundo [...] O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota” (Nelson Rodrigues). Aconteceu no Brasil, restam fiapos dos ambientes de inundados de simplicidade, finura de percepção e cultivo da educação, onde desabrochavam pessoas com possibilidades de orientar a sociedade e encantar quem nos visitava. Contrastam com tantos homens de relevo do Brasil contemporâneo, figuras grotescas, toscas, contrafações popularescas ou arrogantes do que outrora hove, ainda que em ambientes limitados. Quase diria, uma bênção que evolou deixou no lugar maldição cuja fedentina se entranha em tudo.

Vou dar um exemplo notável de traços do Brasil de outrora (já tenho aludido a ele) que hoje impulsionariam avanços civilizatórios, escolhido entre vários, mas já enterrado na história. Postas as condições atuais, não mais acontecerão, desapareceram os ambientes em que nasciam e se firmavam. Vem de Fernand Braudel (1902-1985), muitas vezes considerado o maior historiador francês do século passado. Morou no Brasil entre 1935 e 1937 (ainda em1947), lecionando na então recém-fundada USP. Conheceu e privou com muitos brasileiros, parte deles intelectuais de expressão, estudou autores nacionais, imergiu na vida intelectual do país. Não só isso. Frequentou casas de família, ouviu observações de pessoas de todas as condições; de outro modo, escutou as palavras e delas percebeu o tom e os entretons. Viajou. Sentiu o calor, o perfume e a cor da sociedade brasileira; sua realidade e seu passado profundos. Ao lado da instrução, veio o embebimento, a educação por osmose.

Em simpósio sobre sua obra, realizado em Châteauvallon, 1985, ano do falecimento, explicou Fernand Braudel: “Eu me tornei inteligente indo ao Brasil. O espetáculo que tive diante dos olhos era um tal espetáculo de história, um tal espetáculo de gentileza social que eu compreendi a vida de outra maneira. Os mais belos anos de minha vida eu passei no Brasil”. Em outra ocasião, meses antes, na Academia Francesa, afirmou: “O Brasil foi o grande período de nossas vidas”. Ainda, “eu me tornei menos banal [no Brasil]”. Constatou agradecido, “foi no Brasil que me tornei o que sou hoje”. Sua grande obra foi “La Méditerranée et le monde méditerranéen à l’époque de Philippe II”. Dela disse: “Não creia que eu teria escrito sobre o Mediterrâneo um livro diferente dos outros, se eu não tivesse estado antes no Brasil”. Perguntado sobre o significado de se ter tornado inteligente no Brasil, respondeu sorrindo: “Talvez tenha sido porque lá eu aprendi a ser feliz”. Claro, em boa medida, é força de expressão dizer que se tornou inteligente no Brasil, utilizada para ressaltar com mais força a gratidão sentida pelo fato de a frequentação de ambientes nacionais lhe ter aberto horizontes mentais decisivos para sua vida intelectual.

Tendo como fundo as palavras de Fernand Braudel, é melancólico constatar, fechou-se um horizonte para nós, perdeu-se inconsideradamente ativo importante. Não haverá um Braudel 2. Por razão simples: mudaram os ambientes de formação, o principal dos quais era o interior das famílias, e com isso o Brasil perdeu uma de suas mais importantes características, digamos assim, nas pegadas do historiador francês, a de fazer os outros mais inteligentes, motor de progresso real. Seria possível recobrá-la? Sem dúvida. Duas palavras a respeito. A primeira coisa, lamentar a perda. Suporia reatar com aspectos do passado, um meia volta volver; quase uma ressureição. Para tal, pedir a Deus, claro. E ainda conhecer direito o que terá encantado tanta gente, pôr de lado contrafações. Daí, ambientes domésticos, comportamentos e “role models” renovados. Outro título para o artigo: brado de afeto e angústia.


segunda-feira, 20 de julho de 2020

O COVID-19 e santo Antão


O COVID-19 e santo Antão

Péricles Capanema

Não mais tolerando o confinamento, muitos estão jogando a toalha. Como que sufocados, querem sair logo de casa, tomar um ar, espairecer, pelo menos dar umas voltinhas no quarteirão; estão enjoados com as pessoas que veem todos os dias, precisam já ver gente diferente, sentir outras pessoas em volta, conversar sem a máscara. E, não menos importante, machuca muito a sensação do abandono, tantas vezes acabrunhante, em especial a falta de contato com familiares e amigos. Enfim, o isolamento para muitos está cobrando preço quem sabe excessivo. Abertura já, flexibilização já. Não ligam para fases, nem para cores, seja o que Deus quiser.

Em curto, o isolamento prolongado amargura e desorienta. Sumiu o bem-estar psicológico que propiciava a vida da movimentação livre, cafezinho no bar, pastel na padaria, longas passadas e paradas diante das lojas. Em rumo contrário ▬ com a economia em queda, não obstante promissores sinais de recuperação ▬, avultam no caminho, como assombrações, a insegurança, a incerteza e o medo do futuro. Em casos sem conta também a grana curta, todavia, por outro lado, muita gente está percebendo o que antes não chamava atenção, é possível com menos viver igualmente bem.

Vivemos numa civilização do toque, do contato, do calor humano. Da conversa, da conversinha e da falação. Emoções e sentimentos se expressam pela proximidade. Estávamos acostumados com tudo isso e desapareceram da noite para o dia, mudou o panorama. Olhamos para os lados sem saber o que fazer e a quem recorrer. Será o fim da linha? Sair agora do confinamento? O preço poderá ser ainda mais alto. Não sou médico, nem autoridade pública para fazer reparos e dar orientações, cujos fundamentos, melhor que eu, conhecem os especialistas.

Corta. Meu foco aqui é outro, o entretenimento, bem de primeira necessidade. Tem muita gente mundo afora enfrentando riscos de internamento em UTIs, sequelas permanentes, até morte, para sorver com delícias alguns minutos de distração. Pesam os prós e contras e se lançam, ao voltar parcialmente à normalidade do período anterior ao COVID-19, na aventura do perigo calculado para tentar escapar da depressão, construir barreiras contra desequilíbrios psíquicos e fortalecer defesas do organismo. Os ares novos permitem desviar o olhar, que seja por pouco tempo, das perspectivas minguadas do confinamento, bem como divisar horizontes maiores e dar as costas para ambientes em que o futuro aparece toldado pela neblina das incertezas.

Entretenimento, bem de primeira necessidade, dizia. Significa divertimento, distração, diversão. Não é só isso. Dou aqui à palavra também significado pouco usual, talvez novo. O trabalho, o esforço, as provações, a seu modo, têm condições de fazer parte do entretenimento. Entreter significa também ocupar o tempo com esforço estrênuo em algo útil e, em consequência, deixar-se dominar pela sensação da vida justificada. E assim fortalecer os nervos espirituais, formando, ampliando e enrijecendo a personalidade. Um soldado numa trincheira, debaixo de saraivadas mortais de balas e granadas, pode ter em plenitude tal sensação. Igual modo, uma enfermeira exausta, lutando para salvar vidas numa UTI repleta de pacientes com COVID-19. Alegria na fina ponta da alma, mantida longe das depressões.

Corto de novo. O que faz santo Antão no título, tem alguma coisa a ver com o assunto? Tudo. Pensava nos sofrimentos do confinamento. Todos fugimos do sofrimento, mas não do confinamento. Surgiram naturalmente as figuras dos monges do deserto, que fugiam da sociedade e se afundavam no deserto, buscando voluntariamente a solidão [sob tantos aspectos forma extrema de confinamento]. Na solidão voluntária encontravam significado para a vida, imprescindível para a felicidade. E assim, por associação de ideias, surgiu esmaecida, lá no fundo, a figura de santo Antão, em muitos sentidos, o primeiro e o maior dos ermitãos, sol no nascedouro da vida monástica no Ocidente. Santo Antão tem todos os títulos para ser o padroeiro dos presentes dias de confinamento, ser nosso intercessor para que transcorram de maneira proveitosa, ao mesmo tempo entretida e virtuosa, para cada um e suas famílias. Santo Antão, rogai por nós.

Intitulado o pai de todos os monges, santo Antão, segundo seu biógrafo santo Atanásio, bispo de Alexandria, nasceu na Tebaida, no Alto Egito, em 251 e faleceu em 356. Viveu 105 anos, portanto, séculos 3º e 4º. De família aristocrática e rica, perdeu os pais por volta dos 20 anos. Logo depois, em seguimento aos conselhos evangélicos, vendeu o que tinha e distribuiu aos pobres, estabelecendo-se como penitente nos arredores da vila em que tinha nascido. Conheceu outros eremitas por ali, procurava imitá-los, frequentava a igreja. Sentiu por volta dos 35 anos chamado para vida mais distante dos homens e buscou no fundo do deserto fortificação militar antiga e abandonada, onde se trancou. Amigos seus levavam a comida (pão) que lançavam por cima do muro. Muitos o procuravam, mas em geral não os recebia a não ser muito raramente. Vinte anos depois, já caminhando para os 60 anos,  aceitou orientar pessoas que ali queriam se fixar como monges. Impressionou a todos quando deixou a fortificação, forte e sadio como aos 35 anos. Ao redor dali, sob orientação do santo, foram fundadas ermidas e comunidades que buscavam a perfeição cristã. Um sem-número de eremitas e cenobitas viviam nas proximidades sob sua luz. Santo Antão, por duas vezes deixou a região para ir a Alexandria; na primeira para apoiar cristãos perseguidos, na segunda para lutar contra o arianismo. Com fama de santidade, eram numerosos os que buscavam seus conselhos em viagens ao local ou por carta, entre os quais o imperador e seus dois filhos.

A vida monástica ali praticada, da qual ele foi o motor, repito, está na origem do monaquismo cristão, amplo e importante impulso de piedade, com enormes reflexos civilizatórios, do qual surgiu a Europa, tal qual a conhecemos. E a América. É lícito conjeturar, quase nada de grande do que produziu a Europa, teria existido sem o enérgico impulso inicial dado por santo Antão, imerso na solidão voluntária, do fundo de um deserto.

Quem não fica tocado, caminhando pela serra da Canastra, ao ver o filete de água de onde provém o rio São Francisco, a nascente histórica? Ou, mesmo olhando o começo do rio Samburá, a nascente geográfica? Ali começa tudo. Até se perder no oceano Atlântico, quase 3 mil quilômetros depois, o rio São Francisco fertiliza, alimenta, transporta, embeleza. Santo Antão é o filete de água do monaquismo, impulso inicial de incalculáveis rios de virtude, cultura, arte, oração, civilização ▬ enfim, de perfeição natural e sobrenatural. Avanço civilizatório de fato está aqui.

Concluo. Santo Antão viveu entretido até os 105 anos, a maior parte dos quais na mais completa solidão ▬ na oração, na penitência, na leitura e reflexão, nos trabalhos de cultivo e criação. Dali, por graduais e sucessivos efeito aprimorantes, via de regra em círculos cada vez mais afastados, foi surgindo sociedade mais moralizada e civilizada. Sob a luz de tal exemplo, no confinamento, para cada um, podem surgir visões mais abrangentes de considerar a vida, maneiras mais apuradas de convívio, até de preparar pratos, tanta coisa mais, que poderão melhorar para sempre a vida das pessoas, das famílias, dos círculos próximos. Mais ainda. O confinamento pode ser destrutivo, contudo  tantas vezes esconde bênçãos. Cabe a nós não as deixar passar ao largo.