quinta-feira, 29 de março de 2018

A Equipe


A Equipe

Péricles Capanema

Nos já distantes começos dos anos 70 alguém intitulou ▬ não me lembro quem ▬ de A Equipe a um conjunto de grandes atores da cena internacional. Nixon, Kissinger, Brejnev, Willy Brandt, Pompidou, outros ainda, pareciam agir em uníssono na condução da distensão (ou détente). Cada um deles, encarapitado em sua posição ideológica, em sintonia surpreendente promovia a política cujo maior figura simbólica foi Henry Kissinger, aqui e ali ainda lembrado hoje, com exagero, como uma espécie de Metternich desse período. Anos e anos a fio. A China estava fora da dança, ainda ensaiava os primeiros passos de uma escalada que hoje a coloca como maior opositora dos Estados Unidos. Aliás, a détente criou e favoreceu condições para a ascensão chinesa.

Por que lembro tais fatos? Simples. Acompanhando os recentes acontecimentos de Brasília, a pontiaguda qualificação ▬ A Equipe ▬ me obcecava a memória entristecida. Advogados celebrados, magistrados nos galarins da imprensa, jornalistas acólitos, políticos na sombra, quem sabe grandes empreiteiros encalacrados, quais outros partícipes?, em sintonia surpreendente, conduziram os fatos para desfecho combinado, a liminar antes impensada até mesmo por todos os que diuturnamente nos órgãos de divulgação previam qual seria o desenlace da votação do HC, cuja aprovação livraria Lula da cana. Um de tais analistas observou, escrevia sobre o inesperado desfecho provisório do caso (ainda vem coisa por aí), o Brasil não é para principiantes; e nem para experientes. Nem os mais experientes conseguem conjeturar a fundo sobre as tramoias do jeitinho brasileiro (na ocorrência, mal-empregado).

Deixemos de lado os jeitinhos, a coisa é séria. Potencialmente, de apocalípticas consequências. Em substância, não vi verberação dos fatos mais grave que a do senador paranaense Álvaro Dias, de momento também presidenciável, o que confere a suas palavras alcance maior: “O voto suspeito de seis ministros do Supremo provocou grande indignação no país. Afinal, o ex-presidente da República está acima das leis e o Supremo é uma instituição dedicada a protegê-lo evitando sua prisão? Quando uma instituição essencial ao Estado de Direito se divorcia das aspirações da sociedade, a República falece. A República faleceu. Nós vamos continuar defendendo a refundação da República.”

Tomem nota: nas palavras de um dos mais destacados senadores, o Brasil oficial é um cadáver. Sinônimo exato para faleceu, no caso é, a República foi assassinada. Se foi assassinada, existem assassinos. Mais concretamente, de forma metafórica, o Brasil assistiu ao assassinato das instituições do Estado. Aqui, empurrado de forma incoercível por lógica comezinha digo eu, assassinato perpetrado por A Equipe.

Um cambalacho levou a um assassinato nas palavras do senador. Ou o parlamentar paranaense é irresponsável, ou está afirmando que a República faleceu por ter sido assassinada em suas instituições em especial por membros do Supremo. Quem assassina (destrói) instituições basilares do Estado é incompatível com as funções que tão indignamente exerce. Deve sofre, por crime de responsabilidade, processo de impeachment, legalmente conduzido pelo Senado. Claro, embora conjeturável, nada disso acontecerá. Por quê? Inexistem condições políticas para tais providências. Membros de A Equipe o impedirão. De outro modo, o País encontra-se manietado por um contubérnio. E as vítimas indefesas do contubérnio assassino não foram apenas as instituições, a punhalada varou em especial o coração da parte mais sadia do Brasil, aquela particularmente ligada a seu passado cristão.

Em artigo de umas três semanas atrás eu dizia, soa agora quase como vaticínio: “O Brasil parece estar de braço quebrado. Sua ‘maior et sanior pars’, a gente que presta, o pessoal mais ativo e decisivo, sente que, mesmo com os atuais recursos, eliminados obstáculos artificiais, muita coisa boa pode ser feita já. [...] A ‘sana pars’ do Brasil vê com clareza, pode planejar a saída, mas as instituições a bem dizer tornam inviáveis quaisquer movimentos nesse sentido. É uma espécie de imobilidade forçada que não leva à cura.”

Constatava a execração, mas também, causada por instituições que acorrentam a nação, a imobilidade forçada diante do catástrofe. Ia adiante: “No Brasil dos anos 60 a ‘maior et sanior pars’ presenciou desgostada a irrupção nas praças e ruas do padre de passeata e da freira de minissaia, como os ferreteou Nelson Rodrigues. Hoje fazem companhia a eles o juiz de passeata e os procuradores de passeata, horrores impensáveis naqueles já distantes anos, em que a gravidade, a discrição funcional e o senso do bem comum dos magistrados parecia valor adquirido na sociedade brasileira. A espetacularização achincalhante do Judiciário avança despudorada sob o olhar asqueado da ‘sana pars’ do Brasil. São trincas em uma das colunas institucionais do Brasil. O que fazer? De certa maneira, aqui também, de forma temporária, estamos condenados à imobilidade”.

Condenados à imobilidade, outra vez, ferrolhos institucionais. Eu dizia, a coluna está trincada. Álvaro Dias, agredido pela realidade, foi mais longe, a coluna desmoronou em nossas cabeças. O que fazer, dentro do ordenamento que nos agrilhoa, contra a degenerescência nos três Poderes e em numerosas elites (ou oligarquias) da sociedade civil? Aqui está o ponto.

Atribui-se a Konrad Adenauer, o lendário chanceler do pós-guerra alemão, não sei se com fundamento, princípio político verdadeiro: o primeiro dever de todo chefe político é cobrir a própria área. Em outros termos, falar para ela, articulá-la, vivificá-la. No caso, tudo fazer para os que agora inconformados não se acomodem, mas se solidifiquem em suas posições. A expansão da inconformidade entre os de momento passivos e hesitantes, providência essencial, fica para segundo momento lógico.

A reconfiguração do panorama é urgente, a opinião pública ultrapassou um meridiano nos últimos dias. Com efeito, o Brasil inconformado com a deterioração verificou traumatizado que nossas instituições, mesmo as mais prestigiadas, estão podres, cheiram mal. Álvaro Dias chegou a dizer que membros seus assassinaram a República.

E aí, fomos jogados diante do pavoroso. Posta a decomposição geral do Brasil oficial, estando carcomidas as amarras da lei, a porta ficou aberta para destruições em proporção agora incalculável do que resta de progresso, esperança e dignidade em nosso futuro. Serão passos largos na mesma estrada rumo ao precipício, já trilhada pela Venezuela.

Para tal, poderemos assistir o espetáculo repetitivo de magistrados graves, à vera contrafações burlescas de Nelson Hungria e de tantos outros, no meio de vazia e aparatosa erudição, esbofeteando despudoradamente disposições da legislação brasileira, para a adaptar aos intuitos inconfessáveis de membros decisivos de A Equipe. Entre elas, vão aqui apenas como ilustração, as constantes do artigo 8º do novo Código de Processo Civil: “ao aplicar o ordenamento jurídico, o juiz atenderá aos fins sociais e às exigências do bem comum, resguardando e promovendo a dignidade da pessoa humana e observando a proporcionalidade, a razoabilidade, a legalidade, a publicidade e a eficiência”. Onde nos últimos dias se escondeu a preocupação com o bem comum? Com a dignidade? A obediência à razoabilidade?

Diante da aparente inutilidade de reagir, a tentação dos inconformados será a acomodação diante da inflexibilidade dos que conduzem a farândola demolidora. Quando não a adesão a soluções amalucadas. O caminho é outro: fugir do desânimo, lucidez e persistência na esperança, mesmo dentro da tragédia. Deus não abandonará um País fruto de tantas lágrimas. Como santo Agostinho, resgatado do descaminho pelo sofrimento e oração de santa Mônica, um dia brilhará para o Brasil aurora de enorme grandeza cristã.

segunda-feira, 12 de março de 2018

Raios dourados no crepúsculo fuliginoso


Raios douradas no crepúsculo fuliginoso

Péricles Capanema

Tenho sido severo ▬ suponho, com justiça ▬ com aspectos da vida nacional. Severidade pode ser sinônimo de objetividade para quem procura observar com realismo. Recebo estímulos; aqui e ali, censuras. Não importa, é quinhão inevitável. Qualquer um que, mesmo que modesta e de forma efêmera, pise o âmbito público, está sujeito a boas críticas e a injustiças. Moral da história, tocar a vida sem se preocupar com elas.

Neste texto vou virar a quilha de meu navio e navegar em rumo diverso. A palavra ufanismo com conotação de orgulho exagerado por determinada coisa tem sido associada ao conde Afonso Celso (1860-1939). Pouca gente hoje sabe, Afonso Celso, conde pontifício, foi filho do visconde de Ouro Preto, último presidente do Conselho de Ministros da monarquia brasileira. Professor, historiador, escritor, deputado geral no Império, é dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, por ele presidida por duas vezes.

Entre suas obras figura o opúsculo “Por que me ufano de meu País”, publicado em 1900, redigido, singelo o confessa, para que seus filhos amassem o Brasil. É trabalho ingênuo, prova pouco e mal o que deseja demonstrar. Mas tem frescor, a bem dizer inexistente no convulsionado Brasil de nossos dias. Todos sabemos, o frescor é das mais belas manifestações da vida, em especial das coisas que nascem. O país conservava traços da infância; apresenta hoje, sob tantos pontos de vista ▬ sejamos objetivos ▬ catadura de maturidade depravada.

Vejam o que ele diz dos homens públicos do Brasil de então (era ainda a geração do Império), um dos motivos enumerados pelo escritor para esperar na grandeza da Pátria: “Honradez no desempenho de funções públicas ou particulares. A estatística dos crimes depõe muito em favor dos nossos costumes. Viaja-se pelo sertão, sem armas, com plena segurança, topando sempre gente simples, honesta, serviçal. Os homens de Estado costumam deixar o poder mais pobres do que nele entram. Magistrados subalternos, insuficientemente remunerados, sustentam terríveis lutas obscuras, em prol da justiça, contra potentados locais. Casos de venalidade enumeram-se raríssimos, geralmente profligados. A República apoderou-se de surpresa dos arquivos do Império: nada encontrou, que o pudesse desabonar. Por ocasião dessa revolução, senadores ficaram tão pobres que o novo regime lhes ofereceu pensões. Ao Imperador que governara 50 anos, assegurou a Constituição Republicana meios de subsistência de que ele precisava, mas que não aceitou. Quase todos os homens políticos brasileiros legam a miséria às suas famílias. Qual o que já se locupletasse à custa do benefício público?”

Parece que Afonso Celso fala de outro país e outro povo. A honestidade (Afonso Celso diz honradez) era característica comum, presente em nossas elites políticas de então, reflexo de realidade social generalizada. Temos agora sob os olhos a república dos ratos magros, esfomeados, lembrando imagem de Roberto Jefferson. Também outra é a realidade na sociedade.

O viço presente no livro embebe a descrição do quotidiano de são José de Anchieta, inserido ali para nos fazer sentir o sabor do Brasil nascente. Leva-nos a crer que, pelos rogos do padroeiro, Deus se apiedará do Brasil e o recolocará na trilha almejada pelo grande missionário e fundador de nação: “Vem depois José de Anchieta, o taumaturgo, o santo do Brasil. Anchieta vai para Piratininga como mestre-escola. Passa aí misérias sem nome, fome, frio, falta de roupa, morando numa pequena barraca, onde funcionavam as aulas, e que era, a um tempo, enfermaria, dormitório, refeitório, cozinha, despensa. Ensinava latim e aprendia tupi, de que compôs o vocabulário e a primeira gramática. Trabalhava dia e noite, escrevendo as lições para cada aluno, pois não havia livro. Escrevia hinos, baladas, interrogatórios para confissões, resumos dialogados da fé cristã e autos teatrais que os índios representavam ou viam representar, em palcos por ele improvisados. Exercia funções de médico, barbeiro, fazedor de alpercatas, cujos cordões serviam também de disciplinas. Poeta, elaborou um poema sobre a vida da Virgem Maria, na esperança de manter a própria pureza, fixo o pensamento na mais pura das mulheres. Sem papel, pena e tinta, metrificava os versos, passeando. Traçava-os em seguida na areia e os confiava à memória.”

Por que destaco a cena? Na árvore as raízes sãs valem mais que tronco, galhos, flores e frutos. Delas tudo depende. Aí acima estão as mais lídimas raízes do Brasil, mais enterradas que as analisadas com talento e lentes deformantes por Sérgio Buarque de Holanda. No meio da tormenta, justificam esperanças sobrenaturais de que um dia se tornará realidade o que, com ufania, ainda que em esboço esmaecido, foi confusamente antevisto pelo simpático conde pontifício.

sexta-feira, 9 de março de 2018

Intolerância mal disfarçada


Intolerância mal disfarçada

Péricles Capanema

Fernando Henrique Cardoso concedeu reveladora entrevista, largamente distribuída, a Fernando Grostein Andrade. Como se sabe, o atual presidente de honra do PSDB, além de elder stateman, é o mais conhecido intelectual público do Brasil. A entrevista tem advertência importante, vem a seguir; traz ainda péssimas posições, mau agouro para o que pode vir para o Brasil. Por itens.

1. A advertência: o tráfico vai financiar e eleger candidatos. Estamos a sete meses da eleição de deputados, senadores, governadores, presidente da República. As campanhas serão caríssimas, mesmo que pouca gente o reconheça. Lembro, ninguém ou quase tanto quis fazer valer o voto facultativo, o que as baratearia de imediato. E o STF proibiu o financiamento empresarial. O dinheiro público será insuficiente, o grosso virá de outras fontes, em geral não registradas, receia-se com razão. Diz o antigo presidente da República: “Olha, quando comecei a mexer com essa questão de política de drogas, minha preocupação era com a democracia. Pouco a pouco, os narcotraficantes foram tendo influência política. Pablo Escobar é o maior exemplo disso. Mas não é só ele e não é só lá. O Brasil ainda não tinha chegado a este ponto, mas está começando. O problema é que os narcotraficantes dominaram certas áreas. E começam a entrar na vida política. Aconteceu na Colômbia. Vai acontecer no Brasil, está acontecendo. O tribunal eleitoral proibiu o uso do dinheiro das empresas., quem é que tem dinheiro? É o narcotraficante, as igrejas [evangélicas] têm, que é do dízimo”.

2. Apoio ao desatino da reforma agrária brasileira e simpatia pelo MST. Na entrevista, FHC satisfeito vira as costas para os ruralistas e aplaude ufano a subversão no campo, certamente prejudicando a candidatura Alckmin e de vários companheiros do PSDB, mas danos eleitorais parecem migalhas, diante da perspectiva de mais uma vez o político tucano se mostrar afinado com a esquerda, mesmo a mais radical: “Reforma agrária no Brasil foi feita por duas pessoas. Duas pessoas, não, dois governos. O do Lula e o meu. Ninguém sabe o quanto de terra foi distribuído. É uma barbaridade. Mas fui eu o Lula quem fizemos. O MST ajudou, porque faz barulho”.

3. Só a briga pelo poder afasta PT e PSDB. FHC vê os tucanos como doutrinariamente próximos ao PT, partido que tem em seus documentos o coletivismo total como meta (coletivismo é outro nome para comunismo): “Por que o PT e o PSDB nunca se juntaram? Por disputa de poder, não por disputa ideológica. Se eu pudesse reviver a História eu tentaria me aproximar não só do Lula, mas de forças políticas que eu achasse progressistas. Eu gosto do Fernando Haddad”. O presidente honorário do PSDB continua indiferente às devastações eleitorais que pode causar em correligionários, escorraçando eleitorado que agora pensa votar no PSDB como barreira ao PT. Esbofeteia alegremente conveniências eleitorais de aliados e bafeja possibilidades de vitória de adversários.

4. FHC prega frente comum com correntes libertárias. Enquanto que, da direita, quer distância, em especial dos conservadores em matéria de costumes, faz frente comum com libertários: “Você tem uma direita em matéria de costumes, conservadora. Eu sou liberal em matéria de costumes, completamente liberal. Acho que a diversidade tem de ser respeitada. O pessoal da direita reacionária não acha isso. Está errado”.

5. Jean Wyllis, coincidimos em geral. Jean Willys (PSol-RJ) é o deputado das causas LGBT, tem posições à esquerda do que publicamente defende a maioria dos deputados do PT. FHC vai até ele: “Eu já defendi o Jean Willys publicamente. Tive um debate com ele e em geral coincidimos. Eu o defendi publicamente, porque acho que ele é corajoso”.

6. Intolerância com conservadores e direitistas. Num sentido, o líder tucano favorece o programa demolidor da esquerda, almeja para ela liberdade total em suas tentativas de implantá-lo. Em rumo oposto, gostaria de cercear o pensamento “não progressista”. Intolerante, advoga na prática, ainda que de forma disfarçada, pelo banimento da cena pública de ideias das quais discorda. Para elas, ostracismo perpétuo, a mordaça inconfessada. Dois exemplos. O BTG tem convidado pessoas públicas de vários quadrantes ideológicos para palestras, debates e entrevistas. Convidou Jair Bolsonaro. FHC não gostou, achou “irresponsável” a atitude do banco: “Pra que convidar alguém que tem esse tipo de pensamento?” Outra vítima da intolerância. O conceituado economista Paulo Guedes apresentou esboço de programa econômico de governo com ênfase nas privatizações. Tem ficado clara sua preocupação social, conjugada com o propósito de sanear as contas do Estado e estimular a produção. Com as privatizações, segundo ele, haveria recursos públicos para, por exemplo, aplicar em saúde e educação, hoje na UTI. FHC, coçando a língua para atacá-lo, escolheu o caminho fácil: “Eu não conheço o Paulo Guedes, mas pelo que leio ele acredita que basta liberalizar que tudo se resolve. Tá na lua, né”? São no mínimo declarações irresponsáveis por induzirem o leitor a ter ideia falsa do que pensa o economista. Não conhece e já sai descendo a madeira?

Não há inimigos à esquerda, foi lema conhecido na Europa, em especial na França. Existe uma misteriosa atração pelo abismo (pelo extremo da própria posição) presente em correntes de centro-esquerda. Existiu em Kerensky. Abriu o caminho para Lenine. Existiu em Eduardo Frei. Abriu o caminho para Allende. Quem pode negar que o período FHC em boa medida preparou os oito anos de Lula? A entrevista revela a mesma misteriosa atração pelo abismo no mais importante líder peessedebista ▬ um exemplo do que existe Brasil afora em grupos dirigentes dos mais variados setores. Inexistindo vacina na opinião pública, a conivência e a subserviência de tanta gente podem ser decisivas para a determinação dos destinos do Brasil pós-eleição.

Pelo menos deixa no ar alerta benéfico. Consequência dela incoercível, vive na lua quem achar que bastaria votar de olhos fechados em candidato tucano para salvar o Brasil do petismo e de outras formas de bolchevismo atualizado.

quarta-feira, 7 de março de 2018

O Brasil de braço quebrado


O Brasil de braço quebrado

Péricles Capanema

Estou de braço quebrado. Pior, o direito, e sou destro. Já sei, problema meu, ninguém tem nada a ver com isso. Podem ficar tranquilos, não vou falar de mim só por falar, sirvo apenas de exemplo, tratarei mesmo é do Brasil, catando milho nas teclas do computador com a mão esquerda. Eça de Queiroz imaginou a vida de Gonçalo Mendes Ramires como metáfora de Portugal. Modestamente, “proportione servata”, fiapos disso seguem abaixo.

Quieto, não sinto dor; se mexo, dói pra chuchu. Não espanta, a imobilidade deve ser total, advertiu o ortopedista, uns 45 dias na tipoia, por baixo. Obedeço, fazer o quê, mas é difícil. A cabeça continua igual, ainda que um tanto desorientada pelo fechamento brusco do leque das possibilidades. Hoje posso fazer quase nada, um tanto de coisas vai sendo deixada para trás a toda hora, sei lá se e quando as retomarei. Aflijo-me em olhar o abismo entre o que quero e o que posso fazer.

A sensação primeira foi de turbilhão, algo como um beduíno inexperiente envolto por tempestade de areia. Dores, desorientação, desconhecimento do que vem por aí e terei de enfrentar. Até o momento, ignoro se será necessário a cirurgia ou se bastará o repouso para a reconstituição da fratura. Nem sei se o braço terá os movimentos prejudicados. Como será a fisioterapia? Disseram-me, vai ser necessária, nada mais. Na melhor hipótese, daqui a poucas semanas tudo volta ao que era. Tentei escrever, saiu uma garatuja. Perguntei tímido ao médico: ▬ Posso escrever? ▬ Melhor não. ▬ Paro por aqui, ao contrário de Xavier de Maistre não vou relatar viagem em torno do meu braço partido. Rezem por mim.

O Brasil parece estar de braço quebrado. Sua “maior et sanior pars”, a gente que presta, o pessoal mais ativo e decisivo, sente que, mesmo com os atuais recursos, eliminados obstáculos artificiais, muita coisa boa pode ser feita já. É preciso que, anos sem fim, apenas 2,1% dos alunos de famílias pobres tenham aproveitamento escolar decente? Nenhuma nação terá futuro de relevo com tragédia dessas. Em Hong Kong, 53,1% dos filhos de pobres têm bom desempenho na escola; em Macau, 51,7%; em Cingapura, 43,4%; no Japão, 40,4%. Sexagésima segunda nossa posição entre os países, os dados, da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), estão nos jornais dos últimos dias. Nas últimas semanas também fomos informados por órgão ligado ao Banco Mundial que no item Leitura (ciências humanas, digamos), posto o ritmo atual, precisaremos de 260 anos para atingir o nível dos países desenvolvidos. E no item Matemática (ciências exatas, digamos), 75 anos. É como estar de braço quebrado. A “sana pars” do Brasil vê com clareza, pode planejar a saída, mas as instituições a bem dizer tornam inviáveis quaisquer movimentos nesse sentido. É uma espécie de imobilidade forçada que não leva à cura.

No Brasil dos anos 60 a “maior et sanior pars” presenciou desgostada a irrupção nas praças e ruas do padre de passeata e da freira de minissaia, como os ferreteou Nelson Rodrigues. Hoje fazem companhia a eles o juiz de passeata e os procuradores de passeata, horrores impensáveis naqueles já distantes anos, em que a gravidade, a discrição funcional e o senso do bem comum dos magistrados parecia valor adquirido na sociedade brasileira. A espetacularização achincalhante do Judiciário avança despudorada sob o olhar asqueado da “sana pars” do Brasil. São trincas em uma das colunas institucionais do Brasil. O que fazer? De certa maneira, aqui também, de forma temporária, estamos condenados à imobilidade.

A podridão que exala das estatais (deixo de lado no momento os prejuízos amazônicos, a incompetência e o descalabro proverbiais), constatada no mensalão, no petrolão e no eletrolão, na bica, fez com que a privatização avançasse no público. Já não se admite como possível, muito menos como recurso eleitoral, a ridícula figura de Geraldo Alckmin vestindo jaqueta com os logos das estatais, herança melancólica da campanha de 2006. Melhorando, vergonhosa. O atual é Paulo Gudes, o principal assessor econômico de Bolsonaro, declarando o que vai a seguir sem acarretar perda de densidade eleitoral para o candidato: “O governo é muito grande, bebe muito combustível. Mas se você olhar para educação, saúde, ele é pequeno. Já que a democracia vai exigir a descentralização de recursos para Estados e municípios, o governo federal tem que economizar. Onde? Na dívida. Se privatizar tudo, você zera a dívida, tem muito recurso para saúde e educação. Ah, mas eu não quero privatizar tudo. Privatiza metade, então. Já baixa metade da dívida. Tem clima para não privatizar? Onde começou o mensalão, Bradesco ou Correios? Onde se acusa o Eduardo Cunha? Caixa, loterias, fundos de pensão. Onde foi o petrolão? Petrobras. Você vê clima para continuar com as estatais? O povo brasileiro é contra? Ou será que são vocês [imprensa]? Eu nunca escutei isso do povo. Eu escutei isso da Folha, de jornalistas tucanos, petistas. Por que não pode vender o Correio? Por que não pode vender a Petrobras? E se o mundo for para um negócio de energia solar? E o shale gas [gás de xisto]? E se o petróleo, daqui a 30 anos, estiver valendo US$ 8 [o barril]? Você sentou em cima de um totem, ficou adorando o Deus do óleo. Por que uma empresa que assalta o povo brasileiro tem que continuar na mão do Estado”? Aqui a fratura de décadas, parece, começa a consolidar.

Um monte de fraturas ainda precisa consolidar. Já estou no fim. Só dois exemplos. O disparate delirante da reforma agrária. O programa de décadas atira pelo ralo uma dinheirama que não temos, não aumenta a produção, não ajuda os pobres, é foco de corrupção. Todo mundo tem receio de tocar nesse tumor de estimação. Outro tumor, a subserviência e entrega do Brasil em relação à China comunista, colocando a independência nacional em risco. Também já completa décadas. Fraturas e tumores, temas atuais para a campanha presidencial. O que deles pensam os candidatos? Rezem pelo Brasil e votem bem, cuidado também na escolha de deputados, senadores e governadores, são coisas boas que podem ser feitas já.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

O bom pastor dá a vida por suas ovelhas

O bom pastor dá a vida por suas ovelhas

Péricles Capanema

Tenho lido sobre a situação dos católicos na China e despertam entusiasmo recentes atitudes do cardeal-arcebispo resignatário de Hong Kong, dom Joseph Zen, religioso salesiano, 85 anos, saúde delicada. Cada vez mais isolado nas cúpulas eclesiásticas, cada vez mais ligado e próximo ao católico comum, ao fiel que frequenta igrejas e sacristias (sou um deles). Por quê? Verba movent, exempla trahunt. Peçamos a Deus que em seus próximos passos continue a brilhar a fidelidade, coragem e lucidez.

O perfil atual de dom Joseph Zen o aproxima de um herói anticomunista, o cardeal Mindszenty (1892-1975) que resistiu primeiro ao governo fascista; depois se opôs ao governo comunista de Budapeste (foi preso, torturado e condenado à prisão perpétua em 1949). Ficou na cadeia até ser libertado pelos insurgentes de 1956, quando se refugiou na embaixada dos Estados Unidos. Também se opôs à política de aproximação de Paulo VI com os governos comunistas da Europa Oriental (a chamada Ostpolitk chefiada pelo cardeal Agostino Casaroli). A História já deu razão ao antigo primaz de Eztergom, situação que, aliás, lhe foi tirada por Paulo VI; o martirizado Cardeal era obstáculo aos acordos com Budapeste. Assim se referiu ao cardeal Mindszenty o prof. Plinio Corrêa de Oliveira: ““O non possumus firme de Vossa Eminência, repercutindo no mundo inteiro, vale por uma lição e por um exemplo próprios a manter os católicos na via da fidelidade aos ensinamentos tradicionais imprescritíveis, emanados da Cátedra de Pedro em antigos dias de luta e de glória. E é por esta razão que, a par da admiração, tributamos a Vossa Eminência um agradecimento profundo. […] O Reino Apostólico da Hungria recebeu desde Santo Estêvão a missão gloriosa de ser baluarte da Igreja e da Cristandade. Esta missão, ele a cumpre por inteiro em nossos dias, na Pessoa augusta de Vossa Eminência”.

Ressoam as palavras de Nosso Senhor: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a sua vida pelas suas ovelhas. Porém o mercenário e o que não é pastor, de quem não são próprias as ovelhas, vê vir o lobo, e deixa as ovelhas; e foge; e o lobo arrebata e faz desgarrar as ovelhas”, Evangelho de são João.

A parábola faz lembrar dom Joseph Zen. Pastor zeloso, recusa-se a virar as costas para ovelhas débeis e, congruentemente, sorridente acolher ferozes lobos. No caso, abrir as portas do redil. O cardeal chinês defende a Igreja subterrânea ▬ ameaçada de abandono e traição por muitos dos que a deviam proteger ▬ denunciando perigos mortais na aceitação do predomínio da Igreja patriótica (fantoche do governo), agora favorecida em sua subserviência nas tratativas levadas a cabo por diplomatas da Santa Sé. Sintoma horroroso da presente situação, noticiou o New York Times de 11 de fevereiro que um dos dois bispos católicos da Igreja subterrânea de quem a Santa Sé reclama a renúncia, dom Vicente Guo Xijin, bispo de Mindong, aceitou se demitir e ser substituído por um bispo da Igreja oficial, indicado pelos comunistas.

Dom Joseph Zen comentou no seu blog recentes declarações do cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado da Santa Sé, divulgadas por La Stampa. Começa assim: “Não há razões para temer uma igreja cismática criada pelo Partido Comunista. Desaparecerá com o colapso do regime. Mas será horrível uma igreja cismática com as bênçãos papais”.

O cardeal Pietro Parolin afirmou que iria curar as feridas dos católicos perseguidos na China continental com o “bálsamo da misericórdia”. Retrucou dom Joseph Zen: “Misericórdia para os perseguidores? Para seus cúmplices? Premiar traidores? Castigar os fiéis? Forçar um bispo legítimo a entregar seu lugar para um excomungado? De fato, é esfregar sal nas feridas. Noto que há continua menção à sua compaixão pelos sofrimentos de nossos irmãos na China. Lágrimas de crocodilo”.

“[Os católicos chineses] são vítimas da perseguição de um poder ateu totalitário. Empregar o bálsamo da misericórdia? Não há agravos pessoais para serem perdoados. Eles precisam ser libertados da escravidão. Esta situação dolorosa não foi criada por nós, mas pelo regime. Os comunistas querem escravizar a Igreja”.

Dom Joseph Zen relaciona a presente situação com o passado recente da Igreja: “[O cardeal Paroli] adora a diplomacia da Ostpolitik de seu professor, Casaroli”.

Em matéria do “Wall Street Journal”, 14 de fevereiro, o arcebispo resignatário de Hong Kong analisou as notícias de que a China exige que a Santa Sé aceite os sete bispos da chamada Igreja Patriótica, bem como que dois bispos fieis a Roma apresentem renúncia para dar lugar a dois indicados pelo governo. Sobre tais tratativas, advertiu o cardeal-arcebispo: “Você está colocando lobos na direção do rebanho e eles farão um massacre. Estão indicando más pessoas para serem pastores do rebanho”.

O que querem os católicos chineses? Responde o Purpurado em seu blog: “Verdadeira liberdade religiosa, que não prejudique, antes favoreça o verdadeiro bem da nação”.


Também foi claro a respeito de sua posição relativa ao Papa Francisco: “Continuo convencido que existe uma divisão entre a maneira de pensar de Sua Santidade e a maneira de pensar de seus colaboradores que se aproveitam do otimismo do Papa. Até que me seja provado o contrário, estou convencido que defendi o bom nome do Papa, tirando-lhe a responsabilidade das coisas erradas que estão sendo feitas por seus colaboradores. Se algum dia forem assinados estes maus acordos com a China, obviamente terão o apoio do Papa, então eu me retirarei em silêncio para uma vida monástica. Não serei chefe de rebelião contra o Sumo Pontítice, o Vigário de Cristo na Terra”.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

O Arcebispo esbofeteia impiedosamente a verdade

O Arcebispo esbofeteia impiedosamente a verdade

Péricles Capanema

“Neste momento, os que melhor aplicam a doutrina social da Igreja são os chineses”. Chineses aqui são o Partido Comunista da China e o governo da China Popular. O autor da frase é o arcebispo dom Marcelo Sánchez Sorondo, chanceler da Pontifícia Academia das Ciências e da Pontifícia Academia de Ciências Sociais. Argentino como o Papa Francisco, é tido como conselheiro próximo do Pontífice.

Meses atrás o Prelado visitou rapidamente a China, foi recebido com salamaleques em visita controlada e agora, repentinamente, resolveu falar. Desembestou nas bajulações escandalosas: “Os chineses buscam o bem comum, subordinam as coisas ao bem geral. Encontrei uma China extraordinária, o que o pessoal não sabe é que o princípio central chinês é trabalho, trabalho, trabalho. Nada além, no fundo é como dizia são Paulo, quem não trabalha, que não coma. Não têm favelas, não têm drogas, os jovens não têm droga. Existe como que uma consciência nacional positiva”. Pequim “está defendendo a dignidade da pessoa, seguindo más que outros países a encíclica de Francisco ‘Laudato sì’”.

Para ficar completo o servilismo, não poderia faltar o ataque aos Estados Unidos: “A economia não domina a política, como acontece nos Estados Unidos. Como é possível que as multinacionais do petróleo manipulem o Trump? O pensamento liberal liquidou o conceito de bem comum. Em sentido contrário, os chineses propõem trabalho e bem comum”.

Abaixo lembrarei pontos de doutrina. Antes, fatos. Afirmei acima, repentinamente o Prelado resolveu falar. Em termos. Tais declarações não devem ser vistas no mínimo apenas como cadência trágica de covardias diante do tirano intimidador e prepotente. Além de eventuais consonâncias ideológicas ▬ sempre presente entre o Progressismo e o Comunismo (são delas tristes e frisantes exemplos frei Betto e o ex-frei Boff) ▬ essse rebaixamento degradante deve ser analisado no contexto da presente aproximação entre o Vaticano e o governo chinês.

As notícias a respeito das tratativas puseram em choque os católicos e bispos fieis a Roma, hoje na clandestinidade (a chamada Igreja subterrânea), preteridos por bispos e seguidores da Associação Patriótica Católica Chinesa, organismo estatal fundado em 1957 pelo governo para controlar os católicos do País (ela comanda a chamada Igreja oficial, subserviente a Pequim). A mencionada Associação, segundo texto dela, procura implementar “os princípios da independência e autonomia, autogestão e administração democrática” na Igreja Católica da China. Resumido, é organização fantoche do governo e do Partido Comunista. Alguns de seus membros nem se declaram católicos.

Emissários da Santa Sé tentam subordinar a ação pastoral de bispos leais a Roma aos bispos indicados por Pequi, subordinar a Igreja subterrânea à Igreja dita patriótica; em uma palavra, são entregues os perseguidos aos perseguidores. O cardeal dom Joseph Zen, arcebispo resignatário de Hong Kong tomou a defesa dos bispos e dos católicos leais a Roma, abrindo crise séria com a Santa Sé. Adverte o anterior cardeal de Hong Kong: “Nos últimos dias, irmãos e irmãs vivendo na China continental foram informados que o Vaticano está pronto para se render ao Partido Comunista da China”. Continua o Purpurado: “Percebendo que os bispos ilegítimos e excomungados vão ser legitimados e que os bispos legítimos serão obrigados a se demitir, é forçoso que os bispos legítimos e clandestinos estejam preocupados com seu destino. Quantas noites de sofrimento padres e leigos terão de passar pensando que, curvados, terão de obedecer bispos agora ilegítimos e excomungados, amanhã legitimados pela Santa Sé e apoiados pelo governo?” O cardeal dom Joseph Zen informou ainda que o Papa Francisco o advertiu, não quer um “novo caso Mindszenty”. O cardeal Mindszenty se opôs ao governo comunista húngaro e à política de aproximação de Paulo VI com o governo comunista húngaro.

Outros fatos. Dom Sánchez Sorondo garantiu, os chineses “não têm drogas, os jovens não têm droga”. Vai contrao que dizem os próprios chineses. A Comissão Nacional de Controle de Narcóticos, órgão do governo comunista chinês, em recente declaração oficial advertiu que o problema das drogas no país está “se disseminando com grande velocidade”. E a organização Human Rights Watch condena o “tratamento cruel, desumano e degradante” padecido pelos viciados e traficantes nas prisões chinesas. Uma parte, e não pequena, é fuzilada, outra é internada compulsoriamente em locais de reabilitação. A China, que não fornece dados, apavorantes certamente, é tida como o que mais fuzila condenados no mundo, milhares anualmente. Existência de favelas. Sonha dom Marcelo: a China “não tem favelas”. Pergunta o padre Bernardo Cervellera, missionário do Instituto Pontifício de Missões Exteriores (PIME) e diretor de AsiaNews. especialista em assuntos chineses: “Nosso bispo tentou ir ao sul de Pequim? Ali o governo está fazendo sem-tetos aos milhares, desalojando trabalhadores migrantes. Visitou a periferia de Shangai? Visitou as periferias das grandes megalópoles chinesas?” Claro, nada disso viu o apressado e louvaminheiro eclesiástico.

Agora, um ponto de doutrina. João XIII, na “Mater et Magistra” define o bem comum como o conjunto das condições da vida social que permite às pessoas, às famílias e aos grupos alcançarem de maneira mais fácil e plena a própria perfeição. Fica claro, o bem comum facilita a busca da perfeição nos mais variados campos. Começo pelo religioso. No caso, o bem comum deve facilitar a “salus animarum”, a salvação das almas. As gravíssimas advertências do cardeal-arcebispo resignatário de Hong Kong me dispensam de comentar qualquer coisa a respeito. Falei em liberdade religiosa. Recordo agora o ambiente favorável ao desenvolvimento das virtudes morais (alcançar mais facilmente a própria perfeição, ensina João XXIII). O governo chinês as favorece? Por exemplo, o fortalecimento da personalidade, com a consequente ampliação do âmbito da autonomia, é favorecido por governo totalitários? Seria um disparate afirmá-lo. Favorece o pleno desenvolvimento das famílias? E a política, agora oficialmente supressa pelo desastre monumental que ocasionou, de um filho por família? E a imposição dos abortos? Milhões e milhões de abortos impostos a cada ano. Poderia lembrar, sem fim, pontos apavorantes.


Foi título do artigo: O Arcebispo esbofeteia impiedosamente a verdade. Está bem, mas vou acrescentar um advérbio: O Arcebispo esbofeteia impune e impiedosamente a verdade. Deixando mais claro: Na subserviência escandalosa aos tiranos, o Arcebispo impune e impiedosamente o Arcebispo esbofeteia a verdade.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

O que prefere, influência ou poder?

O que prefere, influência ou poder?

Péricles Capanema

Influência ou poder? Já vi, quer juntar os dois. Um ou outro, dependendo das circunstâncias. Se fosse necessário escolher, qual deles? Rumine sem pressa, nem precisa optar agora. E, praticamente, o mais importante é saber agir para ter os dois ao mesmo tempo.

Influência, indica a palavra, fluir para dentro, mexer com o interior, modificá-lo. Poder é imposição, coerção. Nas famílias, tantas vezes o pai tem o poder, pouca ou nenhuma influência. E a mãe, sem poder efetivo, exerce influência. O mesmo sucede em famílias estendidas, pais, mães, avós, primos, empresas, grupos de amigos; enfim, em ajuntamentos humanos de todo tipo. Com uns, o poder; com outros, sobretudo a influência. Existem países de gigantesco poder. Há nações de ampla influência e, relativamente, pouco poder. E é sobre isso que pretendo discorrer hoje. Importa especialmente ao Brasil, país vocacionado para a influência, tem valor para qualquer país.

Joseph S. Nye, professor em Harvard, criou a expressão soft power (poder suave, brando). Está mais ligado à influência que ao poder. Uma das definições do autor: “Soft power á a capacidade de conseguir o que você deseja mediante atração e não coerção ou compra. Brota da atração das políticas, ideais políticos e cultura de um país. Quando nossas políticas são vistas como legítimas aos olhos dos outros, aumenta nosso soft power”. Continua o professor: “A sedução é sempre mais efetiva que a coerção”. Soft power, percepção subjetiva, é simbolismo, irradiação, capacidade de atrair, encantar e ser imitado, até determinar em certa medida a direção da vida.

A ela se opõe a expressão hard power (poder duro). No meio está sharp power (poder cortante). Hard power é poder militar, força econômica. Disse acima, imposição e coerção. Sharp power é a região cinzenta entre os dois extremos, mistura influência e imposição, “confiança na subversão, bullying, e pressão, na promoção da autocensura”, lembra o professor Joseph Nye. Arma de “regimes autoritários, impõe condutas internamente e manipula opiniões externamente”, acrescenta.

O mais conhecido exemplo de sobrevalorização do hard power, acho, vem de Stalin. Em 1935, depois de assinar o pacto de assistência mútua com a Rússia soviética, Pierre Laval, ministro do Exterior francês, queria aliança mais ampla, englobando Mussolini, Inglaterra e até a Igreja Católica. Em conversa com o ditador soviético, para tornar mais fáceis as tratativas, sugeriu a ele que diminuísse a perseguição contra os católicos, duríssima em especial na Ucrânia. Resposta do tirano: “Quantas divisões tem o Papa?” Como o Papa não tinha força militar, nem iria considerar a sugestão. A manifestação boçal do chefe comunista, enorme tolice, negava que o soft power pudesse ser determinante.

Seu maior exemplo de eficácia de que agora me recorde foi a oratória galvanizadora de Winston Churchill durante a 2ª Guerra Mundial, fator decisivo da resistência e vitória da velha Albion. “Winston Churchill mobilizou a língua inglesa e a lançou na batalha”, dito real e que ficou célebre.

Saiu o relatório The Soft Power 30 – a global ranking of soft power – 2017 [Os 30 primeiros Estados em soft power – lista global de 2017, em tradução bem livre], confeccionado sob a coordenação de Jonathan McClory, lido com grande atenção mundo afora por gente influente nos governos, empresas e universidades que contam. Para a elaboração da lista, além de opinião de grandes especialistas, foram ponderados itens como cultura, governo, capacidade de relacionamento, importância e atratividade das universidades, pesquisa, nível da informática; até culinária entra.

A França não lidera apenas em culinária. Em 2017, é a nação mais influente do mundo para tais estudiosos. Em segundo lugar está a Inglaterra. Apenas em terceiro vêm os Estados Unidos. Quarto lugar, Alemanha. A China aparece em 25º, Rússia em 26º, o que mostra a reserva, até mesmo a oposição generalizada a seus intuitos expansionistas, bom sinal.

O Brasil detém a posição 29. Mau sinal. Para o empurrão costa abaixo contam vários fatores, dos quais um é o governo lotado de corruptos que vem desde os dois períodos de Lula e, na percepção mundial, continua até hoje. À frente do Brasil estão países como Cingapura (20º lugar), prestigiada pelo ótimo ambiente de negócios, Suíça (7º posto), simpatizada pelo governo eficaz e limpo. Outros países que nos deixam na rabeira: Japão (6º), Dinamarca (11º), Portugal (22ª). O Brasil é o único latino-americano na relação dos 30. Já fora dela, aparecem Chile (32º), Argentina (33º) e México (34º).

Em área, o Brasil é o 5º país do mundo (e não tem desertos nem geleiras), em população é o 6º. Estar jogado na 29º posição mostra desleixo, desperdício de talentos, falta de norte. Sei bem, a avaliação é subjetiva, cada um pode fazer sua própria lista, com base em critérios diferentes dos usados pelos estudiosos. Contudo, grosso modo, é aceitável a classificação, tem a favor argumentos ponderáveis.

Empurrando para fora do quadro ufanismos nacionalisteiros, sentimos que mereceríamos mais. Mereceríamos, condicional, se fizéssemos por onde. Fizéssemos nossa parte. Estamos fazendo? Ninguém vai garantir. A gente colhe o que planta.

O listão estrala como bofetada no rosto (o pior da bofetada é o som, dizia Nelson Rodrigues). Falta criar vergonha e disparar no rumo certo. O começo de qualquer caminhada correta é a constatação humilde, estar fora do destino reto. Depois, propósito sério de pegar a estrada certa. Onde enxergamos isso?

Nas ruas, o que vemos são blocos de foliões, festeiros pelo menos resignados com a deliquescência generalizada. Daqui a pouco os sequelados das fuzarcas estarão lotando delegacias e hospitais onde equipes zelosas atenderão ferimentos, óbitos, bebedeiras, overdose, mães solteiras, sei lá mais o quê.


Por que lembrar agora problemas, tão na contramão do alegre e irrefletido clima carnavalesco que banha (ou suja) o País? Inconformidade. Quem não percebe, nada disso ajuda a encontrar o norte, evitar o desleixo, eliminar o desperdício de talentos humanos e recursos da natureza. Não me conformo ▬ e, estou certo, tenho companhia ▬ em ver meu país que tem tudo para dar certo por décadas teimando em dar errado. Sou dos muitos que anseiam por uma insurreição dos inconformados, incoercível, pacífica e vitoriosa. Engraçado, fiquei na dúvida, estou achando, o melhor título para o artigo seria “A insurreição dos inconformados”. Vale mais ficar a inconformidade como tema de reflexão, à maneira de um gostinho na boca, do que escolher entre poder e influência. Estimularia a ação dos inconformados, a coorte dos que lançam mão do poder e da influência para levar o Brasil à condição natural disposta pela Providência.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Escalafobético e circuncisfláutico

Escalafobético e circuncisfláutico

Péricles Capanema

O Estadão de 30 de janeiro, seção econômica, relata a situação quase desesperadora da OAS, empreiteira baiana atingida pela Lava Jato e em recuperação judicial (a antiga concordata) desde 2015. Antes da Lava Jato, a empresa tinha em carteira 19,4 bilhões; depois da Lava Jato, 5,1 bilhões de reais. Antes da tempestade, faturava 8 bilhões; consegue de momento 3 bilhões de reais por ano. Tinha 120 mil funcionários; agora, 20 mil. Está ameaçada de falência.

Por onde enveredaram os dirigentes buscando a saída do túnel? Procuraram parceria com grandes empresas de engenharia do Exterior, para disputar licitações aqui e em países da América Latina. A OAS entra com a expertise e a execução. A estrangeira põe o dinheiro. Por aí se salvariam a empresa, os empregos, um know-how conquistado com esforço ao longo de décadas. E, via e regra, o controle do negócio fica nas mãos da estrangeira.

Começa o problema. Quais empresas de fora foram escolhidas ou toparam se associar? Norte-americanas? Inglesas? Francesas? Negativo. Todas chinesas. A OAS já assinou contratos em condições favoráveis com a XCMG, fabricante de equipamentos para a construção civil. A XCMG é estatal chinesa (o Estadão, eufemisticamente, escreve investidores estrangeiros, nem uma vez esclarece que é dirigida pelo governo e PC da China).

Vamos às outras empresas que se associarão à OAS para participar em grandes licitações de obras públicas ou privadas: China Communications Construction Company (CCCC), China Railway Construction Corporation (CRCC) e China Road and Bridge Corporation (CRBC). As três são estatais chinesas. A ampla matéria em nenhum momento traz este fato fundamental, as quatro empresas gigantes com as quais a OAS pretende se associar são estatais chinesas.

Noticia ainda a matéria, outras empreiteiras brasileiras estão interessadas nas parcerias com “os investidores chineses”. Em linguagem crua, por trás, com o Partido Comunista da China e o governo da República Popular da China. Escarrapachando a realidade, são gigantescos trabalhos em comum que ▬ somados a outras iniciativas ecômicas ou de natureza diverssa do Partido Comunista Chinês ▬ representarão passos importantes no caminhar do Brasil rumo à situação de protetorado efetivo, ainda que não confessado, da China comunista.

Desde o governo FHC, importantes passos iniciais, deslizamos para a tragédia que quase ninguém parece ver com clareza e tem a coragem de denunciar. A situação se agravou nos períodos Lula e Dilma (são irmãos ideológicos dos donos da China e sempre os favoreceram) e continua a piorar no governo Temer. Tomem nota: os que hoje dizem que a situação não apresenta perigos, quando a ameaça virar realidade, dirão que não tem mais jeito, é preciso se conformar.

Coloco um porém em maiúsculas. Pela primeira vez, repentinamente, uma voz poderosíssima deu um basta. Tomara que à voz, coerentemente, se sigam medidas eficazes. Sobre ela falo depois.

Algumas outras pauladas recentes que agridem a soberania e a independência nacionais. Em 2017, a China investiu no Brasil 20,9 bilhões de dólares, o maior valor desde 2010. Esse valor não inclui acordos de empresas privadas chinesas que muitas vezes nem são anunciados. E nem eu estou especialmente preocupado com elas. Minha ênfase é investimento de estatais, dinheiro aplicado aqui, em última análise, por determinação do PCC, para aos poucos ir tornando viáveis seus objetivos imperialistas.

Mais uma. Como sabemos, desde 2009, a China é o maior parceiro comercial do Brasil. Trabalha afincadamente para manter tal situação. Em 2017 foi constituído um fundo de 20 bilhões de dólares, do qual participam bancos estatais chineses e empresas brasileiras. Roberto Dumas Damas, professor do INSPER, explica que com o encolhimento do BNDES, os bancos chineses assumiram o papel de financiadores de projetos tocados por empresas da China no Brasil. Vai além na análise e em visão de conjunto constata com frieza que a nação asiática “dá passos largos na direção do posto de nova nação hegemônica do planeta”.

Poderia continuar na mesma direção, mas paro por aqui. Quero comentar logo fato de enorme importância que pode mudar da água (ou do ácido sulfúrico) para o vinho a situação toda. Oficialmente, pela primeira vez, os Estados Unidos, pela voz de Rex W. Tillerson, secretário de Estado, fizeram advertência duríssima a respeito. Em 1º de fevereiro, Tillerson, na véspera de viagem à América Latina, em discurso lido na Universidade do Texas, Austin, enunciou a política dos Estados Unidos para a região.

Sobre a presença da China começou assim: “Instituições fortes e governos que precisam prestar contas ao povo também garantem sua soberania contra atores predadores que agora estão aparecendo na região”. O secretário de Estado vai direto ao ponto: a soberania nacional está ameaçada porque na região atua gigantesco predador ▬ tubarão, hiena ou harpia, por exemplo.

Continuou o secretário de Estado: “A China, como faz com mercados emergentes no mundo inteiro, em geral com investimentos dirigidos pelo o Estado chinês, oferece a aparência de um caminho atrativo para o desenvolvimento”. É resposta direta ao discurso de Xi Ping no 19º Congresso do PC chinês em que afirmou, a China está mostrando com fulgor “um novo caminho para outras nações em desenvolvimento”.

Adverte o chanceler dos Estados Unidos, o caminho chinês troca “ganhos de curto prazo por dependência no longo prazo”. É o segundo golpe seríssimo, (o primeiro, perda da soberania), esse caminho trará dependência. Dependência significa finlandização, satelização, protetorado.

Avisa ainda o secretário de Estado; “Hoje, a China está ganhando posições na América Latina. Usa seu poderio econômico para arrastar a América Latina para sua órbita”. Órbita lembra planetas e satélites, as palavras são claras, tal política lançará os países da região na condição de Estados satélites, só formalmente soberanos.

Termina o ministro do Exterior com a constatação de que o plano vai mar alto: “A China é hoje o maior parceiro comercial do Chile, Argentina, Brasil e Peru. A América Latina não precisa de novos poderes imperiais. O modelo chinês de desenvolvimento, estatista, é um restolho do passado”.

O discurso foi bem pensado. O que está em jogo hoje na América Latina é soberania, Estados satélites e sociedades com governos estatistas que ameaçarão todas as liberdades, religiosa, política, de empreender, de ir e vir.

E é coisa séria. Repito, pela primeira vez, os Estados Unidos, de forma oficial, denunciam ameaça para o futuro da região e tomam posição. Que consequências advirão das palavras de Rex Tillerson? Não sei. Ninguém sabe. Dependem inclusive da própria seriedade do governo dos Estados Unidos.


Falta explicar o título. Escalafobético, esquisito, extravagante, escangalhado. Lideranças da iniciativa privada e setores do governo ainda se entusiasmam com a ação chinesa no Brasil. Mas o governo de país estrangeiro, a maior potência mundial, está preocupado e adverte gravemente. Estamos diante de traição? Irreflexão? Imediatismo? Patetice? Não é esquisito, extravagante, escangalhado? Circuncisfláutico. Misterioso, obscuro, triste, sorumbático, pretensioso. Padecemos situação misteriosa, de desfecho obscuro, nos galarins vemos gente pretensiosa e sem rumo. É triste, pressagia desastres.