sábado, 26 de agosto de 2017

A coragem das definições

A coragem das definições

Péricles Capanema

Com enorme proveito acabei de ler Return to order de John Horvat II, livro enriquecedor para quem pretenda sem clichês conhecer os Estados Unidos e vislumbrar as encruzilhadas. Convém lembrar, seu rumo nas bifurcações repercutirá rapidamente na vida nossa.

Encantaram-me a nitidez das percepções e a coragem das definições, coisa hoje rara. Reverenciamos a bravura do soldado, a valentia do pai de família e tantas outras. Existe também a fortaleza do intelectual, dela se trata aqui — o amor à objetividade o obriga por vezes a gravar no papel, conscientemente, palavras que destruirão o êxito profissional e até a nomeada social. Acontece então, a escravidão à verdade o atira sem volta no ostracismo. O pior dos erros é acertar sozinho contra muita gente, constatava amargo e risonho Agripino Grieco.

Volto ao livro. Em visão de conjunto, com base segura em pensadores como Aristóteles e santo Tomás de Aquino, assim como em papas como Leão XIII e Pio XII, Horvart interliga moral, economia, cultura, civilização. Desbravador arrojado, chegou ao topo do morro, de lá descreveu panoramas novos. Traz explicitações com força difusora, chegará o dia em que tais idéias, de momento ainda largamente desconhecidas, granjearão amplo assentimento.

Por isso, Horvat correu riscos — o primeiro, a incompreensão; o segundo, o isolamento. Contudo, quis assim, tornou-se credor de justa admiração. Com efeito, não existe ali apenas agudeza de análise, assoma nítido o desassombro, em especial quando demole barreiras fincadas pelas batidas tiranias das modas do pensamento.

Entre sem-número deles, respigo dois exemplos de importância decisiva para os Estados Unidos, a pátria da liberdade e, decorrência, das mais amplas possibilidades de escolha. Largada: a que conceito de liberdade aderir? Abraçar qual noção de escolha? Daqui nascem diferentes, por vezes contrários, estilos de vida, hábitos, culturas, até civilizações. O autor pôs pingos em vários iis: “Muitos confundem liberdade com escolha. Não se dão conta que liberdade é a faculdade de escolher os meios para determinado fim, percebido como bom e em acordo com nossa natureza. Não é a própria escolha. Quando alguém faz uma má escolha ou escolhe um fim ruim, o resultado não é liberdade, mas uma forma de escravidão às paixões. Dessa forma a pessoa que come demais, quando satisfaz a fome natural, ou quando escolhe um vinho excelente, procurando se embebedar, não exercita a verdadeira liberdade, mas abusa dela. Quanto mais dominamos nossa natureza, mais livres somos. A virtude sobrenatural nos confere maior liberdade, pois não apenas dominamos nossa natureza, mas a ultrapassamos”.

A seguir lembra texto de santo Tomás de Aquino a respeito, comentado por Leão XIII na encíclica Libertas Praestantissimum. Ensino do Papa: “Da sua doutrina [de santo Tomás de Aquino] resulta que a faculdade de pecar não é uma liberdade, mas uma escravidão”. O Papa recorre ao Doutor Angélico: “Todo ser é o que lhe convém segundo a natureza. Logo, quando se move por um agente exterior, não age por si mesmo, mas pelo impulso de outrem, o que é próprio de escravo. Ora, segundo a natureza, o homem é racional. Por isso quando se move segundo a razão, é por movimento próprio que ele se move, e opera por si mesmo, o que é essência da liberdade; mas, quando peca, procede contra a razão, e então é como se fosse posto em movimento por outro e sujeito a dominação estranha”.

O segundo exemplo tem importância semelhante, se não maior. John Horvat não busca na economia nem na sociologia as razões dos problemas maiores que atormentam o País. Esburaca mais fundo, coloca a intemperança como grande fator da crise nos Estados Unidos, não importa o âmbito. Vai além, qualifica-a: intemperança frenética, a intemperança em estado de frenesi.

Uma das definições da intemperança frenética: “É um impulso inquieto, explosivo e implacável no interior do homem que se manifesta na economia moderna 1) pela destruição de limites legítimos; 2) pela satisfação de paixões ilegítimas. Anima impulso econômico subjacente cujo efeito pode ser comparado ao de um acelerador ou regulador estragado que desnatura uma máquina de bom funcionamento, desequilibrando-a”. E põe a nu muitos de seus efeitos na economia. Faz o mesmo em outros âmbitos, academia, cultura, política, o que confere grande unidade ao trabalho. Presencia o leitor uma abordagem inovadora em quase 400 páginas de brilhante análise iluminada ao mesmo tempo pela religião, psicologia, moral, história, a perder de vista mais esclarecedora que os exames compartimentados habituais.

John Horvat enraíza a intemperança frenética na explosão do orgulho e sensualidade, que deu origem às revoluções nos Tempos Modernos, como está na obra Revolução e Contra-Revolução de Plinio Corrêa de Oliveira. Pondera o autor: “Para entender esse impulso subjacente, devemos ter em mente sua natureza frenética. Não estamos falando da mera intemperança que leva para a simples ganância ou ambição. Sempre prejudicaram o homem. Também não confundimos intemperança frenética com a legítima e enérgica atividade de negócios e sua aceitação do risco que gera prosperidade. Intemperança frenética é uma expansão explosiva dos desejos humanos além dos limites tradicionais e morais”. No trabalho, tal conceito é aplicado aos mais variados âmbitos da vida humana, o que lhe traz grande unidade.


Por imposição lógica, a solução para a crise atual reside, em raiz, na prática da temperança, vista em conjunção com as outras virtudes cardeais, prudência, justiça, fortaleza. Fazia falta lembrar tais verdades, em especial quando trabalhadas por autor que sabe ver e refletir.

domingo, 20 de agosto de 2017

Imposição totalitária

Imposição totalitária

Péricles Capanema

A Pontifícia Universidade Católica de São Paulo instalou sanitários unissex em seu campus da rua Monte Alegre e logo procurou justificar-se: “A PUC-SP, atenta à diversidade de sua comunidade universitária, composta por alunos, professores e funcionários, buscou contemplar a todos com a implantação do banheiro unissex. A Instituição ressalta que estes sanitários são de uso comum, não direcionados a públicos específicos”. A diversidade, formada por alunos, professores e funcionários, nunca levaria aos banheiros unissex. Diversidade aqui evoca outras realidades que a PUC, pisando em ovos, preferiu não nomear explicitamente.

Trato a seguir de tema por muitos pressentido, mas por ninguém ainda levantado, pelo que me consta. É medida precursora. Com o tempo, outras instituições católicas promoverão iniciativas semelhantes que consolidarão a mesma direção demolidora. E a própria PUC-SP, assimilado o choque do passo pioneiro, provavelmente também radicalizará na direção agora anunciada, passando por cima de mal-estares e oposições, em especial de professoras e alunas. Assistimos a ensaios de implantação de um programa de evidente caráter discriminador e excludente de setores conservadores que estraçalha o mais interior da personalidade, porá em tela de juízo até o direito de o homem ser homem e de a mulher ser mulher.

De outro modo, se reações enérgicas não surgirem vitoriosas, teremos em instituições católicas, hoje já amplamente infeccionadas por doutrinas negadoras até da existência da natureza humana, medidas favorecedoras do homossexualismo, transsexualismo e ideologia de gênero. Agride-nos programa revolucionário radical (vai até as raízes da pessoa humana), a ser levado a cabo, é o que de momento parece, sobretudo de forma girondina.

A decisão chocante traumatizou, prima facie, por vir de instituição católica. Há evidente desnaturamento — poderia utilizar traição no lugar de desnaturamento — dos intuitos que deram origem à PUC – SP, ideais, na origem, santos. As PUCs tiveram no Brasil como grandes inspiradores dom Sebastião Leme e o padre Leonel Franca. Seu objetivo, recristianizar, se quisermos, recatolicizar em especial as elites brasileiras, até então presas do indiferentismo, do agnosticismo e do anti-clericalismo. O Brasil das décadas 10, 20 e 30 era constituído por uma ampla maioria católica, apática e sufocada, dirigida por minorias descrentes. A PUC em São Paulo foi ainda vista como contraponto à fundação da USP, de clara inspiração racionalista.

Mais remotamente, a implantação das PUCs refletia ideal de restauração, reconquistar para a Igreja as camadas intelectuais e, com elas, caminhar rumo à ordem temporal cristã. Tais anseios no Brasil ecoavam movimentos europeus, cujo coração palpitava na Santa Sé. Sob o ponto de vista da história pátria, convém ainda ter em vista, vivíamos a época dos grandes projetos de reconstrução nacional; o católico era um deles.

Lembro pontos da ideologia de gênero, que está na base da referida investida revolucionária, da qual a PUC-SP se transforma, no mínimo, em companheira de viagem. Digo no mínimo, pois muitas dessas doutrinas ganham ali de forma crescente adeptos entre professores e alunos. De companheiros de viagem passam a promotores. Foi assim e continua sendo na esquerda católica de matiz político e social, repete-se a realidade macabra nas correntes revolucionárias que buscam mudar o interior do próprio homem, negando-lhe natureza, inclinações, funções complementares aos dois sexos.

Segundo afirma a referida ideologia, o gênero é construção meramente social e cultural, não tem base natural, de outro jeito, independe do sexo biológico. Nasceu fêmea, pode escolher o gênero masculino. Nasceu macho, pode escolher o feminino. Ao longo da vida, modifica escolhas, se quiser, pois gênero e sexualidade são mutáveis. Shulamith Firestone, das mais conhecidas promotoras do movimento, afirma: “O gênero é uma construção cultural. Homem e masculino poderiam significar tanto um corpo feminino como um masculino; mulher e feminino tanto um corpo masculino como um feminino. A meta definitiva da revolução feminista é acabar com a própria diferença de sexos”. Chamei a atenção para um movimento em marcha, que já agora coloca em sua farândola depravada instituições católicas. O curso da lógica reclama a constatação inevitável, suas imposições totalitárias lembram a eugenia nazista e a criação do homem novo da mitologia comunista.


Para finalizar, o magistério de Bento XVI a respeito, discurso de 21 de dezembro de 2012 à Cúria Romana, servirá de bálsamo: “Na questão da família, não está em jogo meramente uma determinada forma social, mas o próprio homem: está em questão o que é o homem e o que é preciso fazer para ser justamente homem. [...] Se antes tínhamos visto como causa da crise da família um mal-entendido acerca da essência da liberdade humana, agora se torna claro [...] está em jogo a visão do próprio ser, do que significa realmente ser homem. [...] Hoje, sob o vocábulo ‘gender – gênero’, é apresentado como nova filosofia da sexualidade. De acordo com tal filosofia, o sexo já não é um dado originário da natureza que o homem deve aceitar e preencher pessoalmente de significado, mas uma função social que cada qual decide autonomamente [...] Salta aos olhos a profunda falsidade desta teoria e da revolução antropológica que lhe está subjacente. O homem contesta o fato de possuir uma natureza pré-constituída pela sua corporeidade [...]. Nega a sua própria natureza, decidindo que esta não lhe é dada como um fato pré-constituído, mas é ele próprio quem a cria. De acordo com a narração bíblica da criação, pertence à essência da criatura humana ter sido criada por Deus como homem ou como mulher. Esta dualidade é essencial para o ser humano, como Deus o fez. É precisamente esta dualidade como ponto de partida que é contestada. Deixou de ser válido aquilo que se lê na narração da criação: ‘Ele os criou homem e mulher’ (Gn 1, 27). Isto deixou de ser válido, para valer que não foi Ele que os criou homem e mulher; mas teria sido a sociedade a determiná-lo até agora, ao passo que agora somos nós mesmos a decidir sobre isto. Homem e mulher como realidade da criação, como natureza da pessoa humana, já não existem. O homem contesta a sua própria natureza; agora, é só espírito e vontade. A manipulação da natureza, que hoje deploramos relativamente ao meio ambiente, torna-se aqui a escolha básica do homem a respeito de si mesmo. Agora existe apenas o homem em abstrato, que em seguida escolhe para si, autonomamente, qualquer coisa como sua natureza. Homem e mulher são contestados como exigência, ditada pela criação, de haver formas da pessoa humana que se completam mutuamente. Se, porém, não há a dualidade de homem e mulher como um dado da criação, então deixa de existir também a família como realidade pré-estabelecida pela criação. Mas, em tal caso, também a prole perdeu o lugar que até agora lhe competia, e a dignidade particular que lhe é própria. [...] Chega-se necessariamente a negar o próprio Criador”. E nós chegamos necessariamente à conclusão que, inexistindo reações enérgicas, instituições católicas se preparam para esbofetear o ensinamento pontifício.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Não lavo as mãos na bacia de Pilatos


Péricles Capanema

Em 16 de julho, na reunião de abertura do 23º Encontro do Foro de São Paulo (organização fundada por Fidel Castro e Lula para coordenar ações de partidos esquerdistas da América Latina), realizada em Managua, capital da Nicarágua, a senadora Gleisi Hoffmann, presidente do PT, entre outras abominações, das quais algumas abaixo, apoiou enfaticamente a farsa da Constituinte venezuelana: “O PT manifesta seu apoio e solidariedade ao governo do PSUV, seus aliados e ao presidente Nicolás Maduro. Temos a expectativa de que a Assembleia Constituinte possa contribuir para uma consolidação cada vez maior da revolução bolivariana”. Foi adiante na mesma direção: “Aproveitamos para manifestar nosso irrestrito apoio e solidariedade aos companheiros do Partido Comunista Cubano. Este ano comemoramos o centenário da Revolução Russa de 1917 e também o cinquentenário da queda em combate do guerrilheiro heroico o comandante Ernesto Che Guevara”. De novo o PT manifesta, em autenticidade reveladora, seus pendores tirânicos na imposição do programa socialista, orgulhoso de se colocar na esteira do comunismo russo e do comunismo cubano.

Em 30 de julho, o Conselho Eleitoral da Venezuela (CNE) anunciou que 41,53% dos eleitores elegeram a nova Assembleia Nacional Constituinte. Teriam comparecidos 8.089.320 eleitores, 41,53% do total. A oposição afirma, houve fraude escandalosa. O comparecimento terá sido de 12,4% do eleitorado. Leopoldo López e Antonio Ledezma, líderes da oposição, voltaram a ser presos, provocando grandes reações internas e internacionais O governo venezuelano, indiferente, com a medida deixava claro a intenção de radicalizar no caminho encetado.

A Conferência Episcopal Venezuelana, em sua conta do Twitter, imediatamente postou pungente súplica a Nossa Senhora de Coromoto, padroeira da Venezuela: “Virgem Santíssima, Nossa Senhora de Coromoto, padroeira celestial da Venezuela, livrai a nossa pátria das garras do comunismo e do socialismo”. Poucos dias antes, Dom Jorge Uroza, cardeal-arcebispo de Caracas, advertiu, “o país está em ruínas e as pessoas estão morrendo de fome”. Alertou ainda o Purpurado: “Falta comida, remédios, temos a inflação mais alta do mundo, o povo rechaça o governo”.

No Exterior, a Rússia tomou clara posição a favor de Nicolás Maduro: “Esperamos que aqueles membros da comunidade internacional que querem rejeitar os resultados das eleições venezuelanas e aumentar a pressão econômica sobre Caracas mostrem contenção e renunciem a estes planos destrutivos”, advertiu comunicado do Ministério do Exterior da Rússia. Cuba, Equador, Nicarágua na mesma direção de respaldo vergonhoso.

No Brasil, PT, PC do B, PSOL e PCB aprovam a tirania bolivariana. José Dirceu foi cinicamente claro: “O massivo comparecimento à eleição da Assembleia Nacional Constituinte, convocada pelo presidente Nicolás Maduro, abre um caminho institucional e democrático para resolver a crise venezuelana”. Ainda no Brasil, o PDT e Rede evitam se posicionar por razões facilmente conjeturáveis; deixar público o que sente o coração pode escandalizar e tirar votos. Por seu lado, até agora, a CNBB, histórica companheira de viagem do PT, também não se posicionou. Entristece a no mínimo lerdeza da CNBB em seguir o bom exemplo de sua irmã, a Conferência Episcopal Venezuelana. Tomara não caminhe, como é o deprimente hábito, nos passos do PT acolitando uma ditadura assassina, que esfomeia o povo, segundo palavras do cardeal-arcebispo de Caracas.

O governo brasileiro age bem, não reconhece a legitimidade da Constituinte. Diz nota do Itamaraty de 1º de agosto: “O governo brasileiro repudia a recondução ao regime fechado de Leopoldo López e Antonio Ledezma, ocorrida um dia após a votação para a escolha de uma assembleia constituinte em franca violação da ordem constitucional venezuelana. O Brasil solidariza-se com o sofrimento dos familiares de Antonio Ledezma e Leopoldo López, em particular suas mulheres, Mitzi Capriles e Lilian Tintori. A prisão de dois dos mais importantes opositores ao governo do presidente Nicolás Maduro é mais uma demonstração da falta de respeito às liberdades individuais e ao devido processo legal, pilares essenciais do regime democrático. O Brasil insta o governo venezuelano a libertar imediatamente López e Ledezma”.

O Brasil agirá em sintonia com vários países da América Latina na condenação às atitudes tirânicas do governo venezuelano. Ótimo. Na mesma direção, agirá a Comunidade Europeia. De maior importância, os Estados Unidos têm linguagem e ação mais contundente. O presidente Donald Trump declarou pouco dias antes da votação para a Constituinte: “Ontem, o povo venezuelano mais uma vez deixou claro que apoia a democracia, liberdade e a lei. Ainda assim suas ações fortes e corajosas continuam sendo ignoradas por um líder ruim que sonha em se tornar um ditador. Os Estados Unidos não ficarão parados enquanto a Venezuela desmorona. Se o regime de Maduro impuser sua Assembleia Constituinte em 30 de julho, os EUA irão tomar ações econômicas fortes e rápidas". Já foram decretadas sanções duras. Outras virão. Condenações e sanções de países de regime democrático e de organizações internacionais de relevo estão prometidas, certamente acontecerão com efeitos benéficos.

Visto isso, o que faz aqui o título do artigo? Tudo, embora à primeira vista possa parecer o contrário. As por ora medidas tomadas pelos grandes do mundo em defesa do pequenino aos olhos dos potentados, esfomeado e tiranizado povo venezuelano são insuficientes. Gritantemente insuficientes.

Pilatos diante da turba enfurecida, reconheceu a inocência de Nosso Senhor, aliás solar. É juízo de um espírito que via com retidão e justeza. Representava ali o maior poder da Terra, falava em nome da justiça e nada fez de eficaz para defender o Justo, a seus olhos pobre um desvalido galileu. Omitiu-se, passou à História como exemplo repugnante de oportunista covarde. Ninguém levou a sério o “a vós pertence toda a responsabilidade”. Pertencia a ele. “Pilatos, vendo que nada aproveitava, mas que cada vez era maior o tumulto, tomando água, lavou as mãos diante do povo, dizendo: Eu sou inocente do sangue deste justo; a vós pertence toda a responsabilidade” (Mt, 27, 24-25).


Se os grandes da Terra lavarem as mãos na bacia de Pilatos, o homem que reconheceu a inocência de Cristo, o injustiçado povo venezuelano, como Cristo, objeto da compaixão inerte de tantos, subirá o Calvário e à vista de todos será crucificado no Gólgota pelos modernos carrascos da legítima esperança popular. Minha súplica aqui é, cada um dos grandes que agora falam, possa também proclamar com verdade: “não lavo as mãos na bacia de Pilatos”. Para isso, reverente repito a oração postada no site da Conferência Episcopal Venezuelana: ““Virgem Santíssima, Nossa Senhora de Coromoto, padroeira celestial da Venezuela, livrai a nossa pátria das garras do comunismo e do socialismo”.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Compaixão cruel

Compaixão cruel

Péricles Capanema

Este artigo poderia ter como título compaixão suicida, pena cruel ou piedade demolidora. Ou até mesmo compaixão romântica. O romantismo, lente deformante, via de regra traz sofrimentos atrozes aos compadecidos, às vezes não de imediato. Em geral, mais que a ignorância, dificulta o atendimento eficaz aos que sofrem mais que a ignorância.

Corta. No fim volto à compaixão. Examinei os números da última pesquisa presidencial, divulgada pelo DataPoder360. Os dados mais salientes, Lula lidera com 26%, seguido por Jair Bolsonaro, 21%. Como a margem de erro é 3%, para baixo e para cima, Lula pode ter de 23 a 29%. E Bolsonaro de 18 a 24%. Configura empate técnico. A seguir, Geraldo Alckmin, com 10%. Se o candidato do PSDB for João Dória, o tucano tem 13%, Lula escorrega para 23%, Bolsonaro continua com 21%, Marina Silva aparece com 12%. A rejeição aos tucanos alcança 51%, a do PT atinge 56%. 6% dos eleitores são fieis ao PSDB, 20% fieis ao PT. 13% dos eleitores admitem votar num petista. Ficou assim para o PT: 20% votariam com certeza, 13% poderiam votar, 56% jamais votariam, 11% não sabem ou não responderam. Continuidade ou mudança? 3% querem continuidade; 81% reclamam mudança. Para os três possíveis candidatos de momento com maior índice eleitoral, 54% não votariam de jeito nenhum em Lula, 46% nunca votariam em Bolsonaro, 45% jamais votariam em Doria. Segundo o instituto Ipsos, a reprovação do presidente Michel Temer subiu a 94% na segunda semana de julho. Pela mesma pesquisa, 95% dos brasileiros acham que o País está no rumo errado.

Todas essas porcentagens, sujeitas a controvérsias, bem verdade, mas sem dúvida indicativas, mudarão até o dia da eleição. Outros candidatos certamente surgirão. Dos por ora presentes na mídia, alguns sairão da disputa. Não custa lembrar, pesa sobre Lula a possibilidade da condenação em segunda instância e, com ela, provável inabilitação. Advindo esta, certamente subiriam as porcentagens de Marina Silva e Ciro Gomes.

Vamos à análise de aspectos relevantes evidenciados pelas porcentagens. Primeiro deles, infelizmente o quadro deixa ver forte componente populista para a próxima eleição. Vale dizer, demagógico, com viés intervencionista e coletivista. Winston Churchill em 13 de maio de 1940 consolidou liderança em discurso célebre por uma promessa: “I have nothing to offer but blood, toil, tears and sweat” (só tenho a oferecer sangue, fadigas, lágrimas e suor).

A frase sintetiza traço fundamental de programas não populistas; quaisquer deles. É um apelo à razão, à disposição para o sacrifício, à energia de caráter para enfrentar todo tipo de adversidades. Churchill venceu a guerra, preservou a liberdade e de fato poupou enormes sacrifícios ao povo inglês. São as políticas que dão certo.

Em nossa eleição de 2018, bem caseira e desimportante se comparada às apostas inglesas de 1940, provavelmente veremos muito do rumo contrário; na determinação do voto haverá enorme influência emocional.

A política não populista, a que no longo prazo mais pouparia sacrifícios à nação, exigiria medidas favoráveis ao aumento estável da produtividade. Entre outras, austeridade fiscal, privatizações, dispensa de funcionários nas repartições e estatais inchadas, responsabilidade pessoal, educação e treinamento mais amplos e exigentes, investimento maiores na infraestrutura, o que supõe cortes em gastos de custeio, favorecimento aos investimentos privados. Não cabe aqui tratar, vai muito além de uma campanha presidencial, produtividade alta supõe hábitos culturais de disciplina e gosto da perfeição, difundidos nas famílias, dos quais uma das consequências é seriedade laboral, estudantil e governamental.

Quanto mais a nação engolir célere os pertinentes remédios amargos, mais se preparará para, no médio e longo prazo, ter subidas de produtividades que levarão a patamares mais altos de bem-estar social (o avanço, prosperidade generalizada). Quanto mais patinar nas políticas de imediata recompensa, de evitar enfrentar gargalos, mais chapinará no brejo da paradeira e afundará no pântano do retrocesso (é o atraso, empobrecimento perenizado).

Outro enfoque, mesmo quadro de fundo. O governo, respeitoso de seu papel suplementar em relação à sociedade, deveria propiciar condições para que cada um desenvolva suas potencialidades. Com proporção e harmonia, desigualdades de toda ordem beneficiam o bem comum, são condição de felicidade. Nada indica que o estímulo às potencialidades será tema muito presente da campanha presidencial. Talvez apareça em elogios ao empreendedorismo e na proteção às pequenas empresas.

Existem temas que poderão decidir a disputa, ainda pouco presentes. Aqui vão alguns deles, generalização do aborto, liberação do consumo de drogas, fim da censura social e da repressão legal às práticas homossexuais, “família” de vários modelos, laicização agressiva. À vera, os temas morais de si importam mais que os meramente econômicos para o bem comum e a felicidade das pessoas. Aparecerão decisivos na campanha? O futuro dirá.

Volto à compaixão romântica e cruel. A pesquisa indica 20% de votos no PT, ainda 13% poderiam sufragar candidatos petistas. Nada novo. Ao longo dos anos, com altos e baixos, foi comum a votação petista estar em torno dos 30%. As porcentagens parecem indicar, a crise de corrupção e desgoverno dos governos Lula e Dilma não erodiu grave e estavelmente a base social sobre a qual, historicamente, apoia-se o PT. Contudo, seria preciso considerar o ambiente de crise econômica e desemprego, nutre o voto de oposição e de protesto que, agora, é água no moinho do PT. Não vou analisá-lo neste artigo.


Existem raízes fundas em dois ingredientes dessa base de apoio. Parte dela é composta dos mitomaníacos da igualdade. Por ódio à desigualdade, preferem todos pobres, miseráveis mesmo, desde que não desiguais. Apoiam os irmãos Castro em Cuba e Nicolás Maduro na Venezuela. Apoiariam Stalin e Mao. E votam PT no Brasil. O outro ingrediente vota PT por que julga que o partido, ainda que lotado de ladrões e incompetentes, tem pena dos pobres, trabalha para eles. Pessoas de bom coração sofrem com o sofrimento dos pobres e só por isso o PT merece o voto. Não é indiferente à sorte deles. Tal compaixão, na prática crueldade social grave, favorece a manutenção de regimes que são flagelo para os pobres durantes décadas sem fim. Foi assim sempre, é assim hoje em Cuba e na Venezuela. O Brasil pode sofrer ainda mais os efeitos da epidemia, estamos atulhados de compassivos românticos, refratários aos efeitos reais de sua piedade desalmada.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Bispos denunciam ditadura socialista na Venezuela

Bispos denunciam ditadura socialista na Venezuela

Péricles Capanema

Em meados de maio o presidente Dona1d Trump garantiu, fará “o que for necessário” em cooperação com outros países do continente para normalizar a situação na Venezuela, classificada por ele como “uma desgraça para a humanidade”. Foi uma forma de solicitar ação coordenada de países latino-americanos.

Vladimir Putin agiu em sentido contrário. Manifestou sua admiração por Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, por governar com coragem para manter a estabilidade e a paz. De outro modo, a presente atuação do governo venezuelano, diz ele, favorece a estabilidade e a paz no país e na região. Declarou ainda, condenava esforços políticos internos e externos que desconhecem a ordem constitucional no país. Ou seja, censura as ações da oposição venezuelana que procura livrar a nação das garras da ditadura bolivariana, capitaneada em parte por agentes castristas.

Mais um ponto. Como se sabe, Nicolás Maduro acusa os Estados Unidos de insuflarem os protestos no país. A atitude do presidente russo revela clara oposição aos Estados Unidos, quando censura os “esforços políticos externos”. Este, o quadro externo.

Agora, novidade importantíssima no quadro interno. O apoio do autocrata russo antecedeu por pouco enérgica tomada de posição de todos os arcebispos e bispos venezuelanos. Em 13 de julho pelo documento intitulado “Mensagem urgente aos católicos e pessoa de boa vontade na Venezuela”, os bispos do país reagiram enérgica e valentemente contra o processo de comunistização em curso no país.

Vamos ao documento. De início, a denúncia da fome: “Fazemos nossos os clamores das pessoas que se sentem golpeadas pela fome, falta de garantias para a saúde, difícil compra de remédios, a insegurança em todos os sentidos. Embora o povo ainda mantenha a esperança, hoje sofre muito mais”. Deixam claro, a ação do regime generalizou a fome.

A seguir, a denúncia da violência: “Em nosso país a violência ganhou caráter estrutural. São variadas suas expressões, desde a violência irracional com sua dolorosa cota de mortos e feridos, danos a residências, perseguições. A repressão oficial gera tensão e anarquia. A prisão de muitas pessoas, sobretudo jovens, por se opor ao governo, agrava ainda mais a situação. Circulam denúncias sérias sobre torturas. Existem pessoas processadas arbitrariamente pela Justiça militar que foram levadas a penitenciárias de segurança máxima”. Acusa na sequência os grupos armados pelo chavismo para intimidar a oposição: “Muitas de nossas comunidades e instituições são flageladas por grupos paramilitares ilegais que agem debaixo do olhar complacente das autoridades”. O regime causa a violência contra o povo.

Os bispos venezuelanos denunciam então o instrumento governamental para continuar no poder, o que perenizará também a fome e a violência: “Embora a crise padecida pelos venezuelanos seja de muitos anos, nos últimos meses aprofundou-se por causa da iniciativa do governo de convocar uma Assembleia Nacional Constituinte, questionada e recusada pela maioria do povo venezuelano. Mais uma vez a Constituição foi violada e o Tribunal Supremo da Justiça (TSJ) e o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) avalizaram o que propõe o Executivo. O mencionado projeto pretende impor ao país um regime ditatorial”.

Em sentido contrário, os bispos apoiam a consulta determinada pela Assembleia Nacional, de maioria oposicionista: “No próximo 16 de julho, promovida pela Assembleia Nacional, haverá uma consulta popular, que goza de toda legitimidade”.

Concluem então os bispos com apelo de enorme gravidade, do qual destacamos: “Como pastores da Igreja na Venezuela, ecoando os clamores da imensa maioria de nosso povo, elevamos nossa voz e exigimos da Força Armada Nacional Bolivariana [do Exército, em linguagem simples] que, como determina a Constituição, cumpra seu dever de estar a serviço do povo no respeito e garantia da ordem constitucional e não simplesmente a serviço de um regime, de um partido ou de um governante. Apelamos à consciência de todos seus membros, não esqueçam que também fazem parte do povo”.

A gravíssima postura episcopal procura evitar desenlace trágico e iminente: “O que se busca é instaurar um Estado socialista, marxista e militar”. Em resumo, para os bispos, a Venezuela se encontra às vésperas da ditadura comunista. Assinam o documento todos os arcebispos e bispos venezuelanos.


Este artigo poderia se chamar: Um bom exemplo episcopal. Tocante. Infelizmente raro em nossos dias. Enorme bom exemplo, por exemplo para a CNBB, favorecedora contumaz dos programas e governos petistas, os grandes apoios do chavismo na América Latina. Segui-lo evitaria, como mostram os bispos da Venezuela, enormes sofrimentos para o povo.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Horror escancarado

Horror escancarado

Péricles Capanema

Recebi de amigo o jornal parisiense Le Monde, 29 de junho de 2017. Comprou n capital francesa quando embarcava para cá, trouxe como lembrança. No mesmo dia, por acaso, chegou-me às mãos o sermão feito pelo cardeal Eugênio Pacelli (o futuro Pio XII) na catedral de Notre Dame de Paris, 13 de julho de 1937. Antes, havia consagrado em Lisieux igreja dedicada a santa Teresinha do Menino Jesus. Oitenta anos separam o sermão e a edição do jornal. Na aparência, um nada tem a ver com a matéria do outro. Na realidade, tudo a ver.

Ao ler o Monde, pensei nas palavras francesas gouffre béant, abismo escancarado, um dicionário precisa, prêt à vous engloutir, pronto para te engolir.

Vou tratar antes do sermão, fica como quadro de fundo. Afirmou o cardeal Pacelli, em Notre Dame lhe fala a alma da filha primogênita da Igreja. Ali ele como que escutava a voz de Clóvis, de santa Clotilde, de Carlos Magno, de são Luís IX sobretudo, “nesta ilha em que parece ainda viver e que ornou, na Sainte Chapelle, com a mais gloriosa e santa das coroas”. Ela guarda, como sabemos, fragmentos da coroa de espinhos que martirizou Jesus Cristo.

O enviado de Pio XI exortou os franceses à oração, vigilância e amor ao próximo. E para quê? Para que a França pudesse cumprir sua vocação providencial. “À França de hoje que a interroga, a França de outrora responde dando a esta herança o nome verdadeiro: vocação”. A França só cumprirá sua vocação natural, alertou o Cardeal, se for fiel ao chamado sobrenatural: “Os povos, como as pessoas, têm também sua vocação providencial; como os indivíduos, são prósperos ou miseráveis, brilham ou permanecem obscuramente estéreis, conforme sejam dóceis ou rebeldes a sua vocação. A passagem da França no mundo pelos séculos constitui ilustração dessa grande lei histórica. A energia indomável para cumprir sua missão fez nascer em vossa pátria épocas memoráveis”.

Em certo momento, proclama o cardeal Eugênio Pacelli: “Sejam fieis a vossa vocação tradicional. Não deixeis passar a hora, não deixeis estiolar os dons que Deus adaptou à missão que vos confiou”.

Corta. Passo a comentar o Monde. O editorial do influente órgão de imprensa é defesa encarniçada do direito dos casais de lésbicas terem filhos via PMA (procriação medicamente assistida), reivindicação “legítima e lógica”. Apoia as recomendações do Comitê Consultivo Nacional de Ética (CCNE), cujas conclusões, aliás, de forma geral, certamente terão apoio de Emmanuel Macron, se o Presidente mantiver posições expressas na campanha eleitoral. A única restrição levantada pelo CCNE, o material masculino precisa continuar gratuito. O suposto direito das lésbicas é propagandeado nas páginas, 1, 12, 22, 23 e 24 do diário francês. Matizo, o contraponto (sobre ele vou falar) aparece em longo artigo estampado na página 23, autoria de dom Pierre d’Ornellas, arcebispo de Rennes, por certo escolhido para a tarefa por ter presidido a Comissão de Bioética da Conferência Episcopal Francesa.

A seguir, alguns dos assuntos tratados nas páginas do Monde. Opinião mais aceita, o doador deve ser anônimo. A criança nunca terá a possibilidade de conhecer o pai. Foi ponto delicado, esteve entre as razões pelas quais 11 dos 40 membros do CCNE votaram contra a recomendação aprovada. Os direitos paternais [vou utilizar a palavra, é a usual, mas aqui fica mal à vontade] pertencem às duas lésbicas, embora só uma delas leve adiante a gestação. E se houver separação litigiosa durante a gravidez? Permanece o direito da mulher que não gerou, assim como o direito dos avós (os pais dela). E se as duas forem estéreis? Contratariam uma terceira. Em outros países hoje já há comércio, locais permitidos, condições estipuladas para a chamada “barriga de aluguel”. Ainda não se tem notícia do comércio de espermatozoides. Pode acontecer logo. Fatores de valorização na certa, a juventude, inteligência, saúde, fama. Outro tema, em que medida deverá ser empregado dinheiro público para evitar disparidades entre os casais ricos e os pobres? Ainda, grande concordância sobre o direito de as mulheres congelarem óvulos para provocar a gestação se e quando desejarem, com doadores escolhidos. Por exemplo, congela aos vinte, tem o filho aos cinquenta, depois da carreira feita.

O contraponto agora, o artigo da página 23 do arcebispo de Rennes, dom Pierre d’Ornellas. Em nenhum momento no longo texto aparecem as palavras Deus, Evangelho, Igreja Católica, Magistério, Sagradas Escrituras, Bíblia, Nosso Senhor Jesus Cristo, natureza, moral, moral natural, moral cristã, moral católica. Seria congruente que fossem citados documentos como Donum Vitae e Familiaris Consortio. Nada.

A primeira preocupação de dom d’Ornellas é o calor das discussões. “Não despertemos as divisões entre os franceses” ▬ intitulou o artigo. “É urgente buscar o apaziguamento da França e suscitar uma nova confiança mutua”.

A segunda vem de crítica feita quase com eufemismos: “O CCNE não aborda a procriação nem a sexualidade nelas mesmas, para daí retirar as significações verdadeiras e ponderar toda a envergadura ética”. Insta preocupado: “Temos necessidade de um olhar antropológico que, por causa do debate, seria crescentemente aprofundado e compartilhado para ajudar a todos a compreender melhor a grandeza de nossa condição humana e da transmissão da vida”.

Desagua na conclusão: “Essas técnicas reclamam de nós um sobressalto ético. O respeito ao mais frágil é a pedra fundamental. A autonomia, longe de ser um direito absoluto, é relacional. O desafio ecológico, que nos coloca a irmã Terra provoca a pergunta: qual planeta queremos deixar a nossos filhos. Por que o uso das técnicas biomédicas não seria guiado pela mesma questão”?

Acho desnecessário comentar com detalhes a posição do arcebispo, mas está claro, não era o alimento que as almas retas esperavam. Nem quanto ao conteúdo nem quanto ao tom. Alguém julgará decisivas argumentações como a acima, acenadas contra investidas poderosas de milícias diabólicas? Não fujo do adjetivo, considerem a sociedade que pretendem nos impor; tais medidas são apenas a porta de entrada, imaginem o que virá como medidas correlatas, congruentes e de decorrência lógica. Veio-me ao espírito o seguinte: “E, se algum de vós pedir um pão a seu pai, porventura dar-lhe-á ele uma pedra? Ou, se lhe pedir um peixe, porventura dar-lhe-á ele, em vez de peixe, uma serpente? Ou se lhe pedir um ovo, porventura dar-lhe-á um escorpião?” (Lc, 11, 11-12).


Qual o rumo? O futuro Pio XII, em 1937, pregando no púlpito mais importante da França, propôs passos necessários para a realeza social de Nosso Senhor Jesus Cristo: “Bons programas, grandes organizações, tudo isso é muito bom; mas, antes, o trabalho essencial é o realizado no fundo de cada um, no espírito, no coração e na conduta. Só ele pode fazer Cristo reinar nos corações, só ele é capaz de trazer a realeza de Cristo”. Tais palavras, começo de estrada, são contraponto autêntico às investidas que assaltam a França. De fato, agredirão todos nós, mais dias, menos dias.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Redução a condição análoga à de escravo

Redução a condição análoga à de escravo

Péricles Capanema

Veja acima o título, é delito punido no Brasil, artigo 149 do Código Penal: “Reduzir alguém a condição análoga à de escravo, quer submetendo-o a trabalhos forçados ou a jornada exaustiva, quer sujeitando-o a condições degradantes de trabalho, quer restringindo, por qualquer meio, sua locomoção”. A seguir: “Nas mesmas penas incorre quem cerceia o uso de qualquer meio de transporte por parte do trabalhador, com o fim de retê-lo no local de trabalho”. Mais ainda: “se apodera de documentos ou objetos pessoais do trabalhador, com o fim de retê-lo no local de trabalho”.

Hoje não quero falar do Brasil (só um pouco), vou tratar da China. Por ação, cumplicidade, desleixo ou omissão, é desse crime que o governo dos Estados Unidos está acusando o governo da China. Começa assim o 2016 Trafficking in Persons Report: “A República Popular da China é origem, destino e local de trânsito para homens, mulheres e crianças submetidos a trabalho forçado e tráfico sexual”.

Preciso, trabalho forçado a lei penal brasileira chama de condição análoga à de escravo. O documento afirma existirem 294 milhões de chineses (indocumentados) potencialmente sujeitos a trabalhos forçados em minas de carvão e fábricas, parte das quais opera ilegalmente e se aproveita da frouxa regulamentação governamental. Acrescenta: “Crianças em programas de trabalho e estudo apoiados pelos governos locais e escolas são obrigadas a trabalhar em fábricas. Homens africanos e asiáticos são explorados em navios chineses, trabalhando em condições indicadoras de trabalho forçado”.

Aqui o mais direto do texto contra o governo chinês: “Permanece a preocupação com o trabalho forçado patrocinado pelo Estado. Por décadas, a ‘reeducação pelo trabalho’ representou uma maneira sistemática de trabalho forçado na China. O governo da República Popular da China se aproveitou do trabalho forçado de pessoas sujeitas a detenção administrativa (extrajudicial), muitas vezes sem remuneração, até por quatro anos. [...] Continuam as informações de utilização atual de trabalho forçado nas instalações governamentais de reabilitação”. Mais abaixo, o documento reitera: “Continuam nos chegando as informações da cumplicidade governamental com o trabalho forçado, inclusive mediante políticas de trabalho forçado em programas com patrocínio governamental. Apesar do anúncio oficial de 2013 de abolição da prática de reeducação pelo trabalho, continuamos a receber notícias que não puderam ser checadas sobre centros governamentais de detenção fora do sistema judicial”.

Stalin (não apenas ele) já se utilizava de expedientes desse tipo. Precisava de mão de obra, mandava prender, não pagava e depois soltava. Ou não. Assim se recrutou parte da mão de obra escrava, milhões e milhões de desgraçados, retratada no Arquipélago Gulag de Alexandre Solzhenitsyn. Aqui, nada mudou.

Sobre a exploração sexual é severo o relatório: “Mulheres e moças estão também sujeitas ao tráfico sexual dentro da China. Mulheres e crianças de países asiáticos vizinhos, África e América estão sujeitas a trabalhos forçados e a tráfico sexual na China. Mulheres norte-coreanas estão sujeitas a prostituição forçada, ao casamento forçado, ao trabalho forçado na agricultura, ao trabalho doméstico forçado e ao trabalho forçado nas fábricas”.

Sobre a situação dos norte-coreanos: “O governo sustenta que não repatria compulsoriamente nenhuma vítima do tráfico. Antes do período coberto por este relatório, notícias verossímeis davam conta que autoridades chinesas repatriavam compulsoriamente refugiados norte-coreanos tratando-os como imigrantes econômicos ilegais. O governo detinha e deportava referidos refugiados para a Coreia do Norte, onde podem sofrer punições severas, campos de trabalhos forçados, até a morte”.

Transcrevi muita coisa, pode até ser penoso, sei. Foi necessário. A maioria dos dados do relatório ficou fora, mas a íntegra pode ser facilmente compulsada na rede.


Quais as razões da necessidade? Enumero duas. A mais imediata, a China se transformou no maior parceiro comercial do Brasil. Mantido o rumo, daqui a pouco, por meio de suas estatais, será presença gigantesca na economia brasileira. O favorecimento escandaloso das relações econômicas com a China, com detrimento dos Estados Unidos e União Europeia, diretriz de política exterior dos treze anos petistas (infelizmente o favorecimento permanece hoje no essencial, embora tenha cessado a sabotagem aos interesses norte-americanos e europeus), não só lesou gravemente nosso futuro de nação soberana. Esbofeteou cruelmente os direitos à liberdade de centenas de milhões de chineses, situação evidenciada acima. Razão mais funda, moralmente não é lícito favorecer a escravidão. Podem apostar, a esquerda tupiniquim vai se calar diante dessa lesão aos direitos humanos. É política patrocinada pelo Partido Comunista Chinês.

sábado, 1 de julho de 2017

Negócios nada republicanos

Negócios nada republicanos

Péricles Capanema

A todo momento leio: “em tratativa nada republicana”, “em conversas nada republicanas”. Fui ao Google e coloquei nada republicano, nada republicanos, nada republicana, nada republicanas. Milhares de entradas. Nunca, porém, ouvi em meus círculos empregar a expressão. Sintoma de que é muito utilizada na opinião que publica, pouco ou nunca na opinião pública.

Contudo, sempre me pareceu expressão disparatada ▬ pelo menos no Brasil. Espanta-me que ninguém tenha tido a iniciativa, comezinho bom senso, de invertê-la. Para corresponder à realidade, obviamente se deveria dizer entre nós quando nos referirmos a maroteiras : “em tratativas tipicamente republicanas”, “em conversas genuinamente republicanas”. Um exemplo: “Em atitude tipicamente republicana, Michel Temer, na calada da noite, sem registro na agenda, recebeu Joesley Batista no Jaburu”.

▬ Eu tô de bem com o Eduardo.

▬ Tem que manter isso, viu?

▬ Todo mês, também, e tô segurando as pontas, tô indo. [...] tô meio enrolado aqui, né, no processo assim…

▬ Você está sendo investigado.

▬ Isso, é, investigado. [...] Eu dei conta de um lado do juiz, dá uma segurada.

▬ Está segurando os dois?

▬ Tô

▬ Ótimo, ótimo.

▬ Segurando os dois. E eu consegui um procurador, dentro da força tarefa, que está também me dando informação.

Nenhuma dúvida, diálogo autenticamente republicano. Sei, sei, alguém vai observar, na República romana havia elevação e probidade nos homens públicos. Seriam os modelos. A mais, possivelmente a expressão terá raízes em varões de Plutarco, qualificativo esteado no livro “Vidas paralelas”, biografias de gregos e romanos ilustres, com serviços relevantes ao bem comum. Sei lá. Ou veio de “Da República” de Cícero. Quem sabe. Sempre longe de nossa realidade.

Acho igualmente absurdo buscar inspiração na Revolução Francesa, cujos líderes, em larga medida, foram bandidos, mentirosos, assassinos, tiranos e ladrões. Inspiração na ação política de Robespierre, Danton, Marat? Santo Deus.

Do mesmo modo, embora usadas a torto e a direito, não fazem sentido ética republicana, espírito republicano, para significar honestidade, decência, morigeração, comedimento, dignidade, interesse real pelo bem comum. Não devemos esbofetear a realidade, as palavras precisam refletir os fatos.

Os vitoriosos do golpe de 15 de novembro de 1889 ofereceram a dom Pedro II grande quantia em dinheiro (já começava ali a prática do mensalão). O Imperador recusou com a resposta que hoje provocaria muxoxo gaiato nos republicanos autênticos: “Com que autoridade estes senhores dispõem do dinheiro público?”

A honestidade generalizada no trato do dinheiro público sobreviveu no Brasil enquanto durou a geração de homens públicos formados no Império. Foi o que, aliás, constatou o historiador José Murilo de Carvalho: “O comportamento político do monarca foi marcado pelo escrupuloso cumprimento da Constituição e das leis, pelo respeito não menos escrupuloso ao dinheiro público, pela garantia da liberdade de expressão. […] Seu governo deixou uma tradição de valorização das instituições que, apesar de quebrada pelo golpe republicano, foi recuperada na Primeira República e talvez esteja viva até hoje. [Seu governo] legou um padrão de comportamento político que também sobreviveu nas primeiras décadas republicanas”.

O erudito historiador continua com pirueta inesperada, surpreendente salto triplo carpado, sustentando que havia valores republicanos no Império, desapareceram na República e a falha foi do Império por não os ter incutido como deveria; “O que menos sobrevive hoje são os valores e atitudes republicanos. Na raiz deste retrocesso talvez esteja uma das falhas do sistema imperial, herdada pela Primeira República: a incapacidade de [...] promover a expansão da cidadania política. [...] O apelo à republicanização [...] pode ter ainda hoje, como uma de suas referências, o exemplo de Pedro II. Republicanizando-se, o regime completará a herança imperial”.

Já que a república institucionalizou a bandalheira, para torna-la promotora do bem comum o engenhoso historiador sugere tornar dom Pedro II referência para o regime e manter a herança imperial.

Outra cambalhota que ajuda o regime republicano. O mesmo historiador busca no século 17 (1633), com um jesuíta famoso, o sentido em que poderíamos autenticamente utilizar a palavra república, mas já agora sem nada ter a ver com regime político. O padre Simão de Vasconcelos (1597-1671) escreveu: ““Nenhum homem nesta terra é repúblico, nem vela nem trata do bem comum, senão cada um do seu particular”. Entenderam? Repúblico tem relação com res publica, coisa púbica, bem comum. Poderemos ter o monarquista repúblico, o republicano repúblico, o democrata repúblico. E vai por aí afora.


Declaro-me vencido.  Matizo minha opinião. Acompanhando o jesuíta, acepção usual daquela época, podemos empregar a expressão nada republicano. Mas, cuidado, nunca a ligar à República brasileira, nem à Revolução Francesa, o que a tornaria contaminada por doença grave. Lembremo-nos unicamente do padre Simão de Vasconcelos.