domingo, 20 de março de 2016

A jararaca só venceu quando foi paz e amor

A jararaca só venceu quando foi paz e amor

Péricles Capanema

27 de fevereiro, comemoração do aniversário do PT no Rio de Janeiro, Lula avisou no fim do discurso: ▬ Daqui pra frente, é pão, pão, queijo, queijo. Lulinha não vai ser mais Lulinha paz e amor!

Voltava à cena o Lula próximo dos comunistas, que, em proclamações extremistas, mostrando as presas peçonhentas, perdeu três eleições presidenciais. Só venceu ao garantir  em carta aberta ao povo brasileiro manter a política econômica do governo FHC, inaugurando a fase Lulinha paz e amor.

18 de março, manifestação de apoio ao PT, Dilma e Lula na avenida Paulista, de novo o chefão petista recolocou a máscara antiga: ▬ Vim para cá pensando como falar sem ficar nervoso. Tem muita gente pensando que eu vou atacar. Na hora em que a companheira Dilma me chamou [...] veja o que aconteceu comigo, eu virei outra vez Lulinha paz e amor. Eu não vou lá para brigar.

A guinada aconteceu logo depois de Lula ser anunciado do palanque, de forma solene, como o cavaleiro da esperança, o título de Luiz Carlos Prestes, no meio do mar de camisas vermelhas, onde tremulavam sem número as bandeiras da foice e do martelo.

O que teria acontecido? Um primeiro ponto, arquivou bravatas, voltou à política possível. O PT está fraco politicamente, a rejeição das ruas é altíssima, estão esboroando as alianças partidárias. O Datafolha de 19 de março dá rejeição de 57% para Lula, a maior entre todas as pesquisas; na mesma direção, 68% dos brasileiros querem o impedimento da presidente Dilma. Um fraco tenta acordos, não agride adversários.

Outro ponto chama a atenção, a mudança clara do quadro nos últimos dias. Entre as forças decisivas do Brasil, na política, na economia, no âmbito religioso, nos órgãos de classe, rapidamente está se construindo o consenso de que a saída necessária e provisória da atual crise é o impedimento da Presidente. Coisa que nunca se viu, entidades de classe, às centenas, estão se manifestando publicamente pelo fora Dilma. E, em especial, dois sintomas indicam atmosfera nova: a OAB, até agora, de fato, embora com disfarces, força auxiliar do lulopetismo, em votação esmagadora, apoiou o impeachment. O segundo, a CNBB, de triste trajetória governista, calou-se. Hoy por hoy, como dizem os espanhóis, já vivemos no pós-Dilma.

No situacionismo, continuam arreganhos e estrebuchamentos; são compreensíveis e até imprescindíveis para o PT. Um deles foi a declaração boçal de Eugênio Aragão, o novo ministro da Justiça: ▬ Cheirou vazamento de investigação por um agente nosso, a equipe será trocada, toda. Cheirou. Eu não preciso ter prova. ▬ É o petismo em seu lado totalitário, harmônico com o mar de vermelho na avenida Paulista e as bandeiras da foice do martelo. E assim, posto o clima atual, o governo, até por jogo de cena, vai continuar esperneando.

Estrebuchar, passar a impressão de que não entregou os pontos, tem razão importante, ajuda a manter acesos os ativistas. A direção partidária precisa dar carne para o tigre, sob pena de os mais ardidos caírem  na inanição. Com um problema: dá problemas o tigre rugir demais.

No caso, temos dois problemas concomitantes, de difícil harmonização, ambos decisivos para o futuro do PT: desmobilizar os opositores e mobilizar a militância. E o partido precisa solucionar ambos aceitavelmente, sob pena de sucumbir. Não custa lembrar, o PT não é partido comum, é seita ideológica, no horizonte político brasileiro em boa medida ocupa o lugar vago pelo antigo Partidão; como o velho PCB, precisa nutrir os setores ardidos. Nesse quadro, até os políticos petistas de mais relevância, confrontados com o “senhor Fato”, recordando a expressão de Ulysses Guimarães, já devem estar com a atenção mais posta no pós-Dilma que na situação atual. E, logicamente, seu propósito deve ser manter acesa a militância, atrair simpatizantes e não perder muito eleitorado. Para conseguir os três fins, o provável é enorme encenação de partido preocupado com os pobres, porta-voz das causas progressistas, injustiçado por perseguição implacável de elites insensíveis. Além disso, em auditórios escolhidos, destemida e afirmativa defesa das teses extremistas, as que provocam aclamações delirantes.


E volto, se carregar fora da medida a agressão aos sentimentos públicos dominantes, endurecerá o polo duro do antipetismo e, congruentemente, favorecerá seu aumento. Aí pode queimar chances de progresso por décadas. Dessa forma, a menos que sejam idiotas, e não são, os estrategistas do PT buscarão meios de evitar que a presente exasperação antipetista, de si lava passageira, se transforme em pedra, obstáculo permanente. O Brasil que presta, o que pretende? Quanto mais pedra, melhor.

quinta-feira, 17 de março de 2016

Triunfo popular e aviso para todos

Triunfo popular e avisos para todos

Péricles Capanema

Na noite de domingo último o Brasil que presta respirou aliviado. Via caminho depois das avassaladoras manifestações de norte a sul. Desta vez, não foi como em 2013 e 2015, reivindicações de vários tipos, algumas confusas, parte delas até mesmo contraditória. As exigências surgiram bem compendiadas no protesto focado: Fora Dilma, fora PT. Em curto, os manifestantes, fartos da roubalheira, queriam o PT fora do governo. O ronco das multidões iradas ecoou longe, simbolicamente despejou a inquilina do Planalto. Renúncia, impeachment ou cassação do mandato pelo TSE são as saídas constitucionais. Fala-se também, ainda com pequena probabilidade de êxito, na instauração do semiparlamentarismo (ou semipresidencialismo), em que Dilma Rousseff se arrastaria, com poderes diminuídos, até 2018. De outro lado, o juiz Sérgio Moro saiu das manifestações como o grande herói anticorrupção. Simplificar no caso permitiu comunhão de sentimentos, viabilizou o impacto, deu ao Brasil a necessária sensação de luz no fundo do túnel.

Agora o day after, o complemento. Passado o momento da síntese acalorada, chegou a hora da análise fria, e assim salvar a esperança.

Um primeiro ponto. Sei, a partir de agora, posso a alguns parecer pesado, paciência; prefiro a impopularidade passageira à desmoralização perene. Nas manifestações do último domingo o Brasil esbravejou um basta aos corruptos. É a mais compreensível, louvável, comum e fácil das raivas na cena pública, facilmente caminho para desastres, se for apenas madeira para incendiários juízos precipitados. Em 1930, a grande denúncia foram os “carcomidos”, os políticos da República Velha. Em 1964, a corrupção e a subversão, mais a primeira que a segunda, foram as grandes denúncias. Ponho à luz aspecto quase nunca comentado: a partir de então, pouco de sério efetivamente se fez no campo ideológico e das mentalidades, o Brasil, na calmaria das superfícies, pela atuação multifacética das esquerdas por seguidos lustros foi preparado a fundo para o período da República Nova, inaugurada em 1985. O PT surfou nesta onda. Quem não se recorda, durante anos para larga faixa do público foi o partido da ética (O PT num róba, nem deixa robá). Neste aspecto, o 13 de março, golpe forte na esquerda, de fato foi mais antigoverno que antiesquerda. E seria mais tranquilizador a atenção de fundo também fixada na ameaça totalitária, no perigo do hegemonismo, na expansão do coletivismo. Tudo isso não vai parar, se a opinião do povo brasileiro não parar o PT.

Os protestos antipetistas do 13 último foram apenas começo promissor, ainda muito ameaçado. Virá reação implacável, muita gente obcecada se sente ameaçada em seus mais importantes planos. O PT tem na direção, posições decisivas, adeptos fanatizados de seita ideológica, cuja meta é, pelo projeto de poder, ir até seu objetivo, criar um tipo humano ateu, igualitário, libertário. Salvo casos raros, são inamovíveis nas convicções e propósitos. Esse grupo só se preocupa com a generalização da pobreza provocada pelas políticas petistas, na medida em que, no momento, prejudica seu caminho para o objetivo final. Lançará mão de todos os recursos para preservar as possibilidades de chegar logo que possível ao alvo. Dilma Roussef certa vez disse: “Nós podemos fazer o diabo quando é hora de eleição” E Aloízio Mercadante há pouco, na mesma direção, sentenciou: “Em política, tudo pode”. O mais recente golpe foi a posse de Lula no cargo de ministro-chefe da Casa Civil. As jararacas (não é só Lula, é muito mais) vão fazer o diabo, sem escrúpulos, para virar o jogo. Mesmo acordos com as forças oposicionistas e o desembarque de Dilma Rousseff.

A Paraná Pesquisas realizou levantamento sem critérios seletivos (só dois, maiores de 16 anos, 56% de homens, 44% de mulheres) entre o público que protestou na Paulista dia 13, perguntadas 1.200 pessoas das 12 às 18 horas. Voto para presidente: Aécio 29%; Bolsonaro, 16%, Marina 12%, Caiado 4%, Ciro Gomes 4%, Cristóvão Buarque 3%, Lula 2%, nenhum 21%. Avaliação da oposição 42% a julgam omissa, 38% a consideram branda/passiva.


O que sai do retrato momentâneo? Um dado pisca vermelho: 80% do público não se vê representado pela oposição. É terreno de si saudável, evidencia exigência muito maior de energia antiesquerdista; de outro lado, facilmente podem medrar aventureiros portadores de propostas desastrosas. Ainda se vê enorme dispersão de opiniões. Em resumo, a exasperação popular manda avisos para todo mundo. Entre outros, de grande importância: para a direita, falta cristalização e enraizamento de princípios; para a esquerda, o esquerdismo triunfante na imprensa em geral esconde conservadorismo latente. É perigoso cutucar a fera adormecida, sobretudo com crise econômica brava. Tem caminho? Sem dúvida, depende fundamentalmente não dos políticos, nem do Judiciário, nem da imprensa, mas do rumo da inconformidade popular.

quinta-feira, 10 de março de 2016

Desinteresse mortal

Desinteresse mortal

Péricles Capanema

Dia 3 último, no Clube Homs, em evento promovido pelo IPCO, tive noite de gala, reconheço, um tanto funérea. Por que noite de gala? Pelo banquete intelectual a mim oferecido. Por que funérea? Pela mostra de situação gravíssima, de difícil reparação. E, se não reparada, significará o afundamento de grande nação, irmã nossa.

Vamos ao caso, assisti palestra de muita luz sobre a situação colombiana. E, a mais, proferida por Eugenio Trujillo, ótimo conferencista, domínio total do tema; pisava firme e rápido. O texto da palestra, o manifesto distribuído pelo expositor, da lavra da Sociedad Colombiana Tradición y Acción e do Centro Cultural Cruzada e uma carta aberta aos colombianos deveriam ser objeto da atenção séria de todos os brasileiros interessados em nosso futuro. A propósito, a conferência era para ser proferida pelo coronel Plaza Vega que, por injusta e implacável perseguição política, não pôde estar presente e mandou um vídeo. Eugenio Trujillo o substituiu.

O núcleo da exposição foi a situação futura da Colômbia, ameaçada por misterioso, universalmente publicitado, acordo de paz entre o governo e as FARC (Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia), organização narco-guerrilheira. Mediante processo bafejado por grandes atores internacionais, entre os quais infelizmente o Vaticano e os Estados Unidos, a guerrilha marxista potencializada pelo comércio da cocaína está prestes a participar do poder na Colômbia, com enormes vantagens para sua expansão e domínio. A vítima? O povo colombiano. E quem estiver por perto, desinteressado da sorte do vizinho. A Colômbia tem mais de 1.600 quilômetros de fronteira com o Brasil, seus problemas, em especial drogas e guerrilha, nos afetam profundamente. Fingir que não existem, como o avestruz, não muda nada. É desinteresse mortal.

O mencionado manifesto de saída reclama transparência, direito básico dos colombianos, até aqui negado: “De fato, são tantas as omissões e contradições que emergem do segredo que rodeia esses acordos que é forçoso perguntar ao governo qual a verdade total do pactuado”. Os acordos são os acertados entre governo e FACR em Havana, sob o olhar velhaco e satisfeito do ditador Raúl Castro. A aludida carta aberta vai na mesma direção: “Exija ser escutado. Todos os colombianos queremos ser escutados”.

A explicação do manifesto, na mosca: “ Por que esconder ao País quais as concessões feitas às FARC? Pelo motivo simples que a imensa maioria dos colombianos rechaçaria tais acordos se os conhecesse”.

Em outras palavras, os acordos só vingarão, se seus termos ficarem bem escondidos, ou astutamente negados, da opinião pública do País. Há pouco o Congresso do País aprovou lei reveladora; se 13% do corpo eleitoral os chancelasse em plebiscito, estariam legitimados. O manifesto, em posição coerente, dá como inaceitável pergunta global e equívoca e exige uma pergunta sobre cada um dos seus aspectos importantes. A carta aberta vai na mesma direção, fala do perigo da pergunta capciosa e confusa no plebiscito.

Como o governo e as FARC pretendem sair da enrascada? Já se viu, enganando, ocultando os termos reais do acordo. E buscando apoios internacionais para forçar a aceitação popular. É claro, ninguém é contra a paz. O problema é o tipo de paz pactuada.

Abaixo, alguns dos pontos dos acordos cujo conhecimento exato está sendo negado ao povo. O Estado não poderá confiscar das FARC o dinheiro amealhado ao longo de décadas com o narcotráfico, sequestros, extorsões. Fala-se em bilhões de dólares; seriam jogados na luta política com efeitos devastadores. O governo afirma que os guerrilheiros entregarão as armas. Eles negam peremptoriamente. Garantem, ficarão em dejación (postas de lado); precisando as empunhariam outra vez. Sem eleições, terão assentos no Congresso. Não repararão as vítimas, milhares de sequestrados, menores roubados aos pais, muitos dos quais depois utilizados em combates e até mortos, mulheres presas, parte das quais estupradas e abusadas pelas hordas subversivas

O presidente Juan Manuel Santos contabiliza muito em seu favor suposto apoio do Papa Francisco às conversações. O manifesto com piedade varonil põe os pingos nos is: “Sobre isso é preciso dizer com veneração pelo Papa que não está entre suas faculdades pressionar ou ordenar ao povo católico que aceite em matéria temporal atos de governo ou acordos políticos que lesionem ou ponham em grave risco direitos fundamentais de grande parte da população”.


Eugenio Trujillo deixou evidente no fim de sua exposição o estado de abandono em que está o povo colombiano, empurrado para a boca do leão, com assistentes aplaudindo ou, desinteressados, pensando em outras coisas. Mas, homem de fé, deixou clara a confiança na Providência. Ela não abandonaria a Colômbia. Lembrei-me então de passagem evangélica: “E vendo aquelas multidões compadeceu-se delas, porque estavam fatigadas e como ovelhas sem pastor”.

domingo, 6 de março de 2016

A jararaca está viva

A jararaca está viva

Péricles Capanema

Vou pôr em relevo pontos complementares ao que li ontem e hoje, domingo, 6 de março. Depois da condução coercitiva para depoimento, o ex-presidente Lula falou à militância e terminou o discurso com ameaça: “Se quiseram matar a jararaca, não bateram na cabeça, bateram no rabo. A jararaca está viva”. A jararaca era ele, a jararaca era o PT, a jararaca era a causa defendida pelo PT, era o governo Dilma; enfim, era tudo o que simbolizava, como expressão máxima, o cidadão Luiz Inácio Lula da Silva.

A imagem empregada me transportou instantaneamente à infância. Nasci em cidade do interior mineiro, na época pequena, em menino matei muita cobra nas idas à roça. Tinha aprendido bem o método. Logo que via a cobra, procurava no mato um galho rijo, de preferência ainda meio verde, se possível mais de metro e meio. Desfolhava. Abaixava-me para horizontalizar o galho e batia forte no meio da cobra, nunca na cabeça. Uma pancada só, caso resolvido. Com a espinha quebrada, o animal não se movia. Depois, vinha o esmagamento da cabeça. O primeiro golpe na cabeça é coisa de ignorante. Meus amigos, os sabidos homens do campo, gente do ramo ▬ lembro-me, quantas saudades!, do Zé Reginaldo, preto velho, conhecia tudo ▬, avisavam o menino atento: ▬ Nunca na cabeça o primeiro golpe; é difícil acertar e irrita a cobra. Você pode ser picado no bote de defesa. A primeira porretada, sempre no meio da cobra.

Pensei logo, Lula não sabe matar cobra? Inventou na hora a metáfora só para impressionar, sem se preocupar se estava certa ou não? Sei lá. Até para matar cobra não faz sentido a receita do PT.

Mas eu queria falar era de outra coisa. Os grandes líderes, em geral, quando comparam suas ações a animais, buscam simbologias que evocam nobreza, coragem, beleza. Napoleão, retornando da ilha de Elba, em linda imagem proclamava que a águia imperial voaria de campanário em campanário até conquistar Paris. Na religião, o mesmo. Os quatro evangelistas são representados pelo homem, touro, leão e águia. Nosso Senhor, o Leão de Judá, comparou-se ao cordeiro, à galinha, mandou imitar a pomba e a serpente ▬ aí destacou só um aspecto, a prudência, retirando da comparação os demais atributos (Eu vos mando como ovelhas no meio de lobos; sede pois prudentes como as serpentes e simples como as pombas). O escritor sagrado, quando buscou o animal que mais retrataria a ação demoníaca na tentação aos primeiros pais, escolheu a serpente. Uma jararaca. Curioso, o PT quer intimidar com a cobra. O leão também é bicho apavorante. Ou o falcão. Ou a águia. Mas o PT percebe que seria gritantemente artificial utilizá-los em suas comparações. Ser como a jararaca soa natural.

Na imaginação dos povos, a serpente simboliza perversidade, agressão insidiosa, deslealdade, emboscada, sordidez. E amedronta muito. Aliás, logo depois de Lula julgar que a jararaca, em resumo expressivo, simbolizava bem o que pretendia transmitir, por inadvertência de deputada comunista, tivemos deprimente exemplo da sordidez cumpanhera ao ouvir o que o morubixaba petista vociferava a uma senhora, a presidente da República, em vídeo divulgado por Jandira Feghali (“Lula está nesse momento conversando com a presidente da República”, relatava empolgada a parlamentar). Nem vou transcrever o que Lula dizia desembaraçadamente à Presidente, pelo visto julgado por ambos a coisa mais natural do mundo, ali estava autêntico, sem maquiagem propagandística, o ambiente petista.

Concordo com Lula: a jararaca está viva. Por que preocupa? Atenção, não é só, nem principalmente, porque pica e mata. É sobretudo pela capacidade de seduzir, trazendo, postas certas condições, o passarinho para sua boca. O passarinho hipnotizado representa parte da opinião do Brasil. Ninguém agora está tratando da capacidade sedutora da jararaca, mas não foi sobretudo a intimidação da militância que nos jogou no buraco, foi a gigantesca capacidade de iludir do petismo e de seus companheiros de viagem.

As análises destacam, o PT está utilizando o episódio para atiçar a militância e tentar incendiar as ruas, para, por intimidação, o primeiro dos efeitos, ver se diminui a adesão popular ao ato oposicionista programado para o próximo domingo, 13. Nessa direção, o líder do governo na Câmara, deputado José Guimarães (o patriota dos dólares na cueca do assessor), nos últimos tempos em geral trabalhando mais para bombeiro que para incendiário, desta vez carregou delirantemente nas tintas. Qualificou a condução coercitiva de “tentativa de golpe da direita, de setores da Polícia Federal, do Ministério Público e de grande parte da mídia. Foram além do limite”. Apontou a meta: ▬ A militância do PT tem que reagir. Temos que dizer 'não' ao golpe. Temos que ter uma agenda de combate ao golpe iniciado pela oposição.

Em suma, a intenção da cúpula partidária está clara, aproveitar o episódio para mandar o corneteiro tocar “cavalaria, avançar”, “cavalaria, degolar”. Antes, nos últimos anos, o que levou ao triunfo estava mais para o flautista de Hamelin, adormecer, embair, afundar, um gigantesco poder encantatório. Agora, posta de lado a flauta aliciante, a cúpula espera aferventar a militância com a corneta do combate. Vai dar certo?

Tem seus riscos. O bruxedo petista funcionou com opinião pública meio adormecida, abobada com o Lulinha, paz e amor e recursos semelhantes. Veio a era da bonança dos preços das commodities. Agora, pobreza e desemprego aumentando, oposição crescendo, para amedrontar anunciam com estrondo o “cavalaria avançar” e o “cavalaria, degolar”. Será que o brasileiro médio vai se intimidar? Ou causará efeito contrário, aumento do ânimo reativo e cristalização de posições?


Historicamente prejudicou mais a capacidade de iludir, na qual a militância petista intimidante, mais fumaça que fogo, era recurso valioso, usado em especial para amolecer resistências de setores conservadores reativos. A cantilena, era preciso ceder um pouco, não dava mais. Todavia, os grandes instrumentos sempre foram outros, o esquerdismo burguês, a colaboração eclesiástica, a superficialidade otimista e descuidada dos opositores, bem como a patrulha implacável contra tudo o que representava vigilância lúcida. Repito aqui, a intimidação dos movimentos sociais é coisa séria e deve ser tida em consideração, contudo, atenção, é mais fumaça que fogo. Boa parte dela é de gente paga, ódio de aluguel. Decisivas continuam sendo as outras formas de colaboração com a esquerda.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Clamando no deserto

Clamando no deserto

Péricles Capanema

Vez por outra sucede eu ter a sensação de clamar no deserto. Verifico, entre surpreso e desolado, ninguém está dando bola para aquilo por mim tido por importante. Normal, em ocasiões, errado; em outras, certo. Isso deve acontecer com muita gente em assuntos pessoais, profissionais, familiares, até temas de interesse nacional.

Esse de que vou falar envolve o Brasil, mais diretamente os brasileiros que, parece, infelizmente o observam silenciosos, confusos, ou pior, desinteressados. Vejo com horror o avanço do capital estatal chinês sobre ativos brasileiros. De fato, são gigantescas propriedades no Brasil passando celeremente para o governo do PC, que vai utilizá-la, mais dias, menos dias, para seus objetivos de dominação interna e hegemonia mundial.

Sábado, 13 de fevereiro, li no Estadão, Nelson Barbosa vai à China para reuniões em 26 e 27 de fevereiro com os ministros de Finanças dos países do G-20. Chegará alguns dias antes, porque tem encontros já agendados com investidores chineses. Faço uma aposta sem conhecer nem um dos tais investidores interessados em aplicar no Brasil: a grossa maioria, se não a totalidade das reuniões de nosso ministro da Fazenda será com representantes de empresas estatais chinesas do setor industrial ou do setor financeiro. Sabem por que aposto no escuro? Porque vejo claro o que é a direção petista, de doutrina revolucionária e internacionalista. Não se importa de entregar a preço de banana patrimônio público para estatais comunistas. A recomposição, cada vez mais difícil, do caixa das empresas pilhadas pela cumpanherada ou do Tesouro, exaurido pelas mágicas da nova matriz econômica, nos manietará ainda mais à China. A imprensa noticia, o déficit somado dos quatro fundos de pensão Previ (BB), Petros (Petrobrás), Funcef (Caixa) e Postalis (Correios) é de 46 bilhões de reais. A cumpanherada na direção deles apanhou dinheiro dos segurados e comprou até títulos da Venezuela e da Argentina! Viraram pó, lógico. Quem vai tapar o rombo? Servidores ativos, aposentados e o Tesouro (você, contribuinte). O que torna, cada vez mais urgente a privatização selvagem, com especial presença do capital estatal chinês.
Agravando as cores do quadro, ponho aqui o testemunho de Delfim Netto (Valor, 17/2), no caso insuspeito, pois vem dos mais valiosos apoios que os governos petistas receberam nos últimos 13 anos: “O governo finge esquecer que nos últimos 20 anos estimulou a importação da China para controlar a inflação. Roubou-lhe [à indústria siderúrgica], lentamente, as condições isonômicas de competição [...] Existem, ainda, "idiots savants" que creem que a China é uma economia de mercado que exporta ao custo marginal? Ou que seus preços de exportação vão continuar os mesmos quando destruir seus competidores? [...] Sua mão de obra barata e sem assistência social, permitiu a todos os governos mitigarem a sua inflação importando da China e jogando no lixo as regras do comércio razoavelmente moralizado que se propunha na OMC. [...] Não há como competir com a China, uma economia basicamente estatizada, num setor com incontáveis distorções de preços que nada têm a ver com os de mercado. Em 2003, ela produzia 220 milhões de toneladas de aço bruto (23% da produção mundial) e em 2014 produziu 823 milhões de toneladas (49% da produção mundial). No mesmo período, suas exportações de aço passaram de 7,4 milhões de toneladas para 93 milhões (três vezes a nossa produção), graças a artifícios que todos fingem não ver. Certamente, não por conta da mítica eficiência dos seus burocratas, mas pelo efeito do subsídio adicional visível que só em 2015 foi da ordem de US$ 10 bilhões!”

Em outras palavras, com a conivência do governo, a indústria siderúrgica brasileira vem sendo destruída. No final, lógico, mandaremos minério de ferro para a China e importaremos manufaturados, como qualquer país colonial (ou colonizado). O que padece o setor da siderurgia, sofrem outros setores. Delfim Nettto observa ainda: “Nos últimos anos perdemos a produção de alumínio (onde nossas vantagens relativas eram imensas) e a do níquel (onde a tecnologia era a do estado da arte). Estamos agora a assistir, perplexos, a mesma paralisia governamental levar à destruição o setor siderúrgico nacional”

Em 1984, a participação da indústria manufatureira no PIB nacional estava em torno de 25%. Em 2005, 19%. Em 2015,12%, nível do pós-guerra. É sintoma da regressão para o status de país colônia, sujeito a regras que protegem a manufatura na metrópole. No nosso caso, a metrópole escondida nas brumas do futuro, mas facilmente, discernível, é Pequim. E não será a autocracia das potências coloniais do século 19. Teremos, o caminho não interrompido, como futuro senhor potência mundial imperialista, então talvez a primeira do mundo, dirigida por partido totalitário, ateu, coletivista.

A marcha para a servidão tem a colaboração das legiões de inocentes úteis e companheiros de viagem que, por vantagens momentâneas (aqui conta bastante o governismo quase compulsório dos que têm fome das verbas federais para gerir Estados e prefeituras), somam-se aos que empurram o Brasil para o abismo por razões doutrinárias.


Está em jogo imediatamente a soberania nacional. Ainda mais, nosso futuro de nação independente, cristã e de raízes ocidentais. O que são João Batista pedia, dois milênios atrás, ao clamar no deserto, era que endireitassem os caminhos. Atualíssimo para nós, ir no rumo certo; para isso, de começo, recusar com coragem lúcida a submissão.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Encenação confrangedora

Encenação confrangedora

Péricles Capanema

Por volta de abril de 1964 no mensário Catolicismo li “Pensando, criticando, matizando e esperando na borrasca do século XX”, coluna ou artigo, não sei bem, de Plinio Corrêa de Oliveira. O título, fácil de gravar, esboçava programa de vida intelectual, mais ainda, de vida. Ficou na memória.

Até hoje, a todo propósito, a frase me volta ao espírito. Alguma coisa digna de nota caiu debaixo dos olhos? Não a deixe passar em branco. Sobre ela reflita com calma, critique com severa objetividade, mas sem amargor, examine até o fundo as circunstâncias, podem mudar em 180 graus seu juízo a respeito e, mesmo na borrasca, sob a luz da Fé e com esteio no que naturalmente possa existir de bom naquela realidade, não desanime, menos ainda desespere. Com prudência, olhar esperançoso.

Voltou hoje quando lia sobre o dia contra o Aedes aegypti. Todos juntos no sábado, sob as ordens da presidente Dilma Rousseff. Até Alexandre Trombini, presidente do Banco Central, calça jeans e camiseta polo, meio perdido, circulou por umas duas horas por Brazilândia no Distrito Federal. Depois, sumiu. Elivaldo, funcionário público, chutou: ▬ Não conheço. Ele é o ministro da Saúde, né? ▬ D. Rita, ali por perto, garantiu: ▬ Sei quem é. É o ministro da Saúde. ▬ Irmanado no mesmo combate, Sérgio Danese, ministro interino das Relações Exteriores deixou Brasília e chegou a São José dos Campos no final da manhã, já nas ruas as equipes. Acompanhado do prefeito, ele também foi agente de controle e visitou algumas casas, ensinando o pessoal a combater o mosquito. No Rio de Janeiro, depois da visita a algumas residências da comunidade Zepelin, a Presidente iniciou com estudada solenidade a entrevista que marcava o dia com estas palavras: ▬ Nós estamos, a Presidente, o Governador do Rio de Janeiro, o Prefeito do Rio de Janeiro, e as Forças Armadas, os agentes de saúde, enfim, todos mobilizados nessa grande mobilização que nós estamos fazendo no dia de hoje [...] que é o início da campanha mais presencial que o governo federal fará para a questão do mosquito. ▬ É isso aí.

Cenas assim se repetiram Brasil afora. Presidente, vinte e oito ministros, altos funcionários, a maior parte jejuna do assunto, acompanhados sempre da imprensa, varando o Brasil no jato presidencial ou de jatinho para evidenciar a determinação do governo em acabar com os três cavaleiros do Apocalipse que, todos percebem, por desleixo de décadas do governo, vão tomando conta do país: dengue, febre chikungunya e zika vírus.

É modo sério de combater epidemia? País quebrado, dinheiro torrado a rodo num show de triste realização? Como evitar a penosa sensação do disparate?

Houvesse seriedade, uma primeira medida saltaria de imediato: para o ministério da Saúde nomear grande especialista, com prática de gestão, suprapartidário, com carta branca para comandar todos os esforços no combate à epidemia; um outro dr. Adib Jatene, enfim. A situação no público mudaria instantaneamente da água para o vinho. Óbvio ululante, teria impacto maior que a fuzarca toda do Dia Nacional de Mobilização para o Combate ao Mosquito Aedes Aegypti (nome oficial da peça publicitária).

Claro, dessa medida não se fala, as prioridades são outras. O ministro não é o roliço Alexandre Trombini, como achavam transeuntes interessados na movimentação rara em Brazilândia. O esguio Marcelo Castro é o autêntico titular. Médico psiquiatra, três mandatos de deputado estadual e cinco de deputado federal, é membro antigo do baixo clero, pinçado para o cargo para garantir votos do PMDB em eventual processo de impeachment.

Apesar da escolha fisiológica, o ministro teve, dias atrás, o mérito inegável de pôr o preto no branco no grave assunto, proclamando que o Brasil estava perdendo a guerra contra o mosquito. Completou: ▬ Não podemos correr o risco de termos no futuro uma geração de sequelados, de retardados mentais. O problema é alarmante porque está acontecendo no Nordeste, vai acontecer no Brasil inteiro, vai acontecer nos países tropicais inteiros. É uma epidemia de perspectivas mundiais, temos 30 anos de convivência com o mosquito. Não quero culpar ninguém, mas houve uma contemporização com o mosquito.

Sei, ainda não está provado que o zika vírus causa a microcefalia. A Organização Mundial de Saúde prometeu para as próximas semanas a confirmação (ou o contrário). De qualquer maneira, é urgente o combate ao mosquito e é sensato o temor do dr. Marcelo. Em 2015 tivemos 1,6 milhão de casos de dengue no Brasil, 836 mortes (só considerando a dengue). E, nesse sentido, a gigantesca movimentação propagandística do sábado último ajudou muita gente a tomar medidas saneadoras. Avanço positivo num objetivo fundamental, o aumento da conscientização, mas executado de maneira abusiva, por alguns vista até como inescrupulosa.

Marcelo Castro falou em geração de sequelados, de retardados mentais. Linguagem dura, evidencia que o assunto exige a maior seriedade. Por respeito, em especial às mães de bebês atingidos pelas sequelas do zika (admitida a relação de causa e efeito) é urgente poupar ao povo brasileiro novos e custosos espetáculos midiáticos como o que o Brasil presenciou consternado no último dia 11. Infelizmente, o governo petista é useiro e vezeiro em grandes shows publicitários no lançamento de programas que depois são executados na bagunça e na irresponsabilidade, com farta roubalheira, haja vista os vários PACs.


Pensar, criticar, matizar, esperar. O chocante Dia Nacional de Mobilização para o Combate ao Mosquito Aedes Aegypti me relembrou o “pensar, criticar, matizar, esperar”. Reconheço, para todos nós, teria sido melhor a ausência da ocasião.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Caldo de cultura deletério

Caldo de cultura deletério

Péricles Capanema

Dia desses, numa banca de jornal, ouvi de velhote espevitado: ▬ Quem é o maior responsável moral pela roubalheira no governo? Arriscou uma moça baixinha: ▬ O big? Os políticos do PT e também os mandachuvas dos outros partidos com eles. ▬ A dona da banca, altona, meio enfezada: ▬ Só bandalheira? Tem a carestia, desemprego. ▬ Ficou por aí a conversa. Pesadão, pensei com meus botões: ▬ Tem ainda o projeto totalitário, a agenda libertária, a busca obsessiva da hegemonia.

Responsabilidade moral, não a imediata, foi a pergunta. Ontem, por acaso, passei os olhos em subsídios preciosos para uma boa resposta. Vieram de José de Souza Martins, celebrado sociólogo, aposentado da USP, 45 livros publicados. Foi ainda professor em cursos promovidos pela CNBB. Na década de 80, discípulos seus participaram da fundação do PT e, quatro anos depois, do MST. Do ramo, se vê.

Com a segurança do grande estudioso, garante ele (Veja 2.463, páginas amarelas): ▬ O Partido dos Trabalhadores surgiu no ABC paulista. Tratava-se, do ponto de vista formal, de um partido católico. O PT foi gestado desde os anos 50 pelo primeiro bispo de Santo André, dom Jorge Marques de Oliveira. Dom Jorge me disse que os trabalhadores do ABC ficavam no Centro Operário Católico jogando pingue-pongue. Ele os incentivava a ir para a porta da fábrica. Dom Jorge inventou Lula, antes que Lula soubesse disso, ao criar as bases para o surgimento do PT”.

O professor Souza Martins simplifica. Propriamente, o PT é filho da esquerda católica, nunca medraria nos campos do catolicismo conservador ou tradicional. O que houve (e há) foi condescendência, complacência, às vezes cumplicidade, do catolicismo mainstream em relação à esquerda católica.

Volto aos trilhos. Dom Jorge (1915-1989), dos expoentes dessa orientação, está entre os oito signatários brasileiros, junto com dom Hélder e dom José Maria Pires, do Pacto das Catacumbas, de cujas doutrinas nasceu a Teologia da Libertação. Com efeito, o antigo antístite de Santo André foi assistente eclesiástico da JUC, de onde, prestigiado, saltou em 1946, aos 31 anos, para o episcopado, na ocasião o bispo mais novo do mundo. Foi sempre presença destacada nos círculos da Ação Católica a partir dos anos 40 até ser substituído em 1975 na direção da diocese de Santo André [responsável pelo Grande ABC] por dom Cláudio Hummes quem, aliás, caminhou na trilha aberta por dom Jorge.

Dois pontos importantes nas observações de Souza Martins. Primeiro, dom Jorge ▬ e, digo eu, como ele, outros bispos ▬ fez com que numerosos operários católicos, antes apáticos, se tornassem ativistas, passassem a bafejar a esquerda sindical e depois nela militassem. Segundo, sem descer até tal detalhe, está no bojo das palavras de Souza Martins, o PT germinou no caldo de cultura da Ação Católica. Dom Jorge em Santo André, à vera, cultivou tais germes com maior aplicação que outros bispos de orientação parecida. E por isso ali no ABC, como em casa própria, firmaram-se lideranças de esquerda, em particular Lula.

Convém destacar aqui, para melhor entender as observações de Souza Martins, na Ação Católica eram particularmente virulentos os germes do progressismo. Na sociedade e na política, alguns de seus seguidores se radicalizaram mais, outros ficaram pelo caminho, estacionando em diferentes graus de esquerdismo. O PDC, com faixas condicionadas por hábitos conservadores, se nutriu naquelas águas. Já a Ação Popular, de mesma raiz (saiu da JUC) foi além e, na lógica dos demolidores princípios esposados, desembocou, já marxista, na guerrilha comunista.

Agora, a resposta à pergunta do velhote. A grande responsabilidade moral pela degradação generalizada causada pelos desgovernos petistas repousa nos ombros dos dirigentes da Ação Católica que, com seus vários ramos, desde a década de 30, produziu no Brasil gigantesca mudança de convicções e mentalidades, em graus diferentes favorecedoras da esquerda. É claro, o PT teve ainda o setor intelectual e o setor sindical de raízes laicas. Mas teriam importância reduzida, inexistisse o caldo de cultura produzido pela Ação Católica.


Em 1943, o prof. Plinio Corrêa de Oliveira, então presidente da Ação Católica em São Paulo, publicou com grande repercussão o livro “Em defesa da Ação Católica”, denúncia contra o progressismo e o modernismo, então em disfarçada e rápida expansão nos ambientes católicos. Sem essa vacina (e a ação subsequente de Plinio Corrêa de Oliveira na mesma direção) a situação nacional hoje seria bem pior. Com efeito, a esquerda católica ocupou espaços, conquistou posições importantes, como apontei aqui, criou o caldo de cultura no qual nasceu o PT, mas teve seu passo prejudicado pelo olhar desconfiado de muita gente que, esclarecida pelas posições do livro, com lucidez ali não via luta por justiça, mas ação favorecedora do socialismo, sempre flagelo dos pobres a quem enganadoramente proclama defender.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

A imaginação no poder

A imaginação no poder

Péricles Capanema

Em maio de 1968 os estudantes na Paris convulsionada proclamavam comunismo de face nova, autogestionário e utópico, oposto ao socialismo burocrático da União Soviética. Dois slogans provocaram coceira mais intensa: L’imagination au pouvoir e Soyons réalistes, demandons l’impossible (a imaginação ao poder; sejamos realistas, reclamemos o impossível). Têm algo de boutade, mas eram anúncio de enorme mudança.

Para os estudantes, era hora de a fantasia chegar ao poder. De outro modo, a inteligência vencida, perdia o governo isolado, que passava a ser compartilhado pela imaginação, até então la folle du logis (a louca da casa). E ela tornaria alcançáveis aspirações outrora consideradas delirantes. Para ambiente político novo, novas forças mobilizadoras. Turbinadas pelas emoções, se tornou crescente a importância do sonho e da utopia. Empurram para o fundo do palco os antigos programas de conteúdo estruturado, bafejados no fundo pelo iluminismo, esteado no culto da razão.

Na ocasião, como reagiu a França, vista em geral como o país do racionalismo? No primeiro momento, com pasmo e horror. O presidente Charles de Gaulle comandou gigantesca mobilização e manifestações populares contra o que chamou de chienlit (o desbordamento, a bagunça). As eleições parlamentares resultaram em enorme maioria gaullista, nunca antes alcançada, 394 deputados de um total de 487. Parecia a derrota definitiva do programa novo. Mas o maio de 1968 não era sobretudo parlamentar, nem acontecimento restrito à França.

Era parte de fenômeno universal, que visava modificar doutrinas, mas também hábitos, mentalidades, cultura. Nesses anos o movimento hippie levava ao paroxismo costumes libertários que depois, em versão menos espinhenta, tomaram o mundo inteiro. John Lennon a ele emprestou sua voz em Imagine (composta em 1971), canção recebida em delírio pela juventude burguesa no mundo inteiro:

Imagine, não existe o Paraíso [...]
Imagine todas as pessoas
Vivendo apenas para o presente

Imagine não existir países [...]
Nada pelo que matar ou morrer
E nenhuma religião também
Imagine todas as pessoas
Vivendo a vida em paz

Você pode dizer
Que sou um sonhador
Mas não sou o único
Tenho a esperança de que um dia
Você se juntará a nós
E o mundo será como um só

Imagine não existir propriedades [...]
Uma irmandade do homem
Imagine todas as pessoas
Compartilhando todo o mundo

Em 1975 Paulo VI advertiu que “psicólogos e sociólogos afirmam ter o homem moderno ultrapassado já a civilização da palavra [...] e viver a civilização da imagem”. Repito, a palavra, expressão da lógica, decaía; a imagem, aninhada na fantasia, subia. Em consequência, na política, de forma crescente, o inesperado e o despropositado vão estar presentes no cenário, com riscos evidentes.

Em 2011, dois movimentos, o Occupy Wall Street nos Estados Unidos e os Indignados na Espanha, ecos longínquos do maio de 1968, repercutiram mundo afora, com apelos contestatários e anticapitalistas. Na Espanha, efeito imediato, surgiu o Podemos que, nas últimas legislativas, obteve 20,6% dos votos e 69 cadeiras numa câmara de 350. Nos Estados Unidos, o Occupy Wall Street tem sensível influência nas posições do senador Bernie Sanders, que disputa com Hillary Clinton a indicação democrata. A eleição de Barack Obama já se deveu muito à emoção e ao sonho.

Não só à esquerda se aninha a coceira pelas fórmulas salvadoras, de grande carga emocional. Contamina também a área conservadora. Exemplo, a ascensão desnorteante de Donald Trump. Jeb Bush, em certo momento, com seu ar razoável, meio sem graça, foi o candidato com maiores chances. Dificilmente se reerguerá, escrevo logo depois das primárias de Iowa.


Donald Trump muda de partido, muda de opinião, tem posições claramente irrealizáveis, agride sem razão, por vezes desagrega o universo conservador. Nada em seu passado afiança que no poder será fiel à pregação de campanha. Mas desperta sonhos. Continua formigando no público conservador o comichão de apoiá-lo. Outro traço preocupante, pregação com indisfarçável nota bonapartista, o chamarisco da eficiência simplificadora. Lembro, diante do país esfacelado pela Revolução Francesa, o povo buscava desesperadamente um salvador; para restabelecer a ordem se apresentou um general jovem, resoluto, vitorioso (nada faz tanto sucesso como o sucesso). Outra possibilidade, a França tinha, longe, esfumaçado, um pretendente (o conde de Provença, futuro Luís XVIII) imerso nas brumas inglesas, ornado apenas com os encantos da legitimidade. Aclamou Napoleão, vieram a seguir, de cambulhada, cerca de quinze anos de guerras e convulsões sociais. Finalmente foi chamado Luís XVIII que, na pátria devolvida a seus limites naturais, repôs as coisas num caminho de normalidade. A propósito, difícil negá-lo, Jeb Bush em algo lembra Luís XVIII. Moral da história, sempre arriscado a imaginação tomar o poder.