sábado, 17 de outubro de 2015

Prêmio Nobel de Literatura começou bem!

Prêmio Nobel de Literatura começou bem!

Péricles Capanema

Svetlana Alexandrovna Alexievich, surpresa para todo mundo, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura de 2015. Quase ninguém por aqui tinha ouvido falar dela. Rápidos dados da nova celebridade mundial: 67 anos, nasceu na Ucrânia, foi criada na Bielorrússia (Belarus), vive lá. Estudou e trabalhou no mundo comunista, chegou mesmo a ser perseguida. Como se vê, apanhou e quem sabe por isso são animadoras declarações suas, novas e antigas, que agora circulam.

Começo por esta: “Conheço bem aquele homem vermelho. Não desapareceu. E o adeus será muito demorado”. De outro jeito, o fracasso não mudou convicções e mentalidades de milhões. Endurecidos, vão dar um perigoso e demorado adeus. Chamo a atenção para a mentalidade quando menos de raiz esquerdista, amplíssima, encharca não só países da antiga Cortina de Ferro, está enraizada no Ocidente. Pessoal deste naipe, simplificador para falar o mínimo, acontece pensar pouco, mas ter impressões assim: “No peito de quem luta pela igualdade bate coração de carne, quem não a aceita é gente do coração duro. A dó dos pobres leva a simpatizar pelo menos com alguma forma de socialismo”. Com base nesse estado de espírito, lá e cá, a esquerda tem chão para tentar repetir a dose. Está tentando, e os resultados serão os de sempre: tirania e miséria.

Svetlana explicou: “Ao longo de setenta anos, uma nova espécie humana foi criada nos laboratórios do marxismo-leninismo: o homo sovieticus. Alguns acreditam que é um personagem trágico; outros o chamam de sovok. Conheço esta pessoa, conheço-a muito bem, vivi ao lado dela por muitos anos. Sou eu, é a gente que conheço, amigos, familiares”.

Sovok, gíria russa, tem acepções várias, em geral depreciativas, mas hoje designa correntemente o tipo humano criado no regime comunista. Svetlana põe em relevo fato gravíssimo, a tentativa de criar um tipo humano novo, uma nova espécie humana foi criada nos laboratórios do marxismo-leninismo. A meta, o homem novo da utopia comunista, libertário e igualitário. No total deu errado, mas ficaram sequelas, pústulas psicológicas.

Outra de Sevtlana: “Respeito o mundo russo da literatura e da ciência, mas não o mundo russo de Stalin e Putin”. Aqui, foco diferente. Todos sabem, existem muitos conservadores mundo afora que sentem simpatias por Putin, considerado partidário da ordem, símbolo de sociedade moralizada. Ela não; quer distância dele. Fareja no projeto putinista a catinga do velho estalinismo, opressão, coletivismo, imperialismo grão-russo. Mais um ponto para ela.

Ainda uma estocada de Svetlana, agora em Aleksander Lukashenko, presidente de Belarus, comunista da velha guarda, no poder desde 1994. Foi desferida quando Bruxelas se prepara para suspender as sanções contra o país. Advertiu ela que o ditador não é confiável: “A cada quatro anos novos líderes europeus chegam ao poder e pensam que vão poder resolver o problema de Lukashenko, desconhecendo que ele não é um homem digno de confiança”.

Lukashenko foi reeleito domingo 11 de outubro com impressionantes 83,49% dos votos para um quinto mandato (taxa de participação 86,755), padrão latino-americano para ninguém botar defeito, coisa muito especial mesmo, de fazer inveja até a chavistas, petistas e kirchneristas. Na segunda, os ministros das Relações Exteriores da União Europeia (UE) acordaram suspender as sanções. De qualquer maneira, no meio das comemorações da reeleição, sabe lá Deus como a conseguiu, e da atitude boazinha da União Europeia, Lukashenko recebeu no rosto a chicotada do novo Prêmio Nobel de Literatura.

Um pulo para o passado. Em abril de 1959, o prof. Plinio Corrêa de Oliveira publicou em Catolicismo o ensaio Revolução e Contrarrevolução, que viria a ser seu principal trabalho ideológico. Cinquenta e seis anos atrás acautelava: “As multidões ignoram o chamado comunismo científico, e não é a doutrina de Marx que atrai as massas. Uma ação ideológica anticomunista deve visar, junto ao grande público, um estado de espírito muito difundido, que dá amiúde aos próprios adversários do comunismo certa vergonha de se voltarem contra este. Procede tal estado de espírito da ideia, mais ou menos consciente, de que toda desigualdade é uma injustiça [...]. Daí nasce uma mentalidade que, professando-se anticomunista, entretanto a si mesma se intitula, frequentemente, socialista. Esta mentalidade, cada vez mais poderosa no Ocidente, constitui um perigo muito maior do que a doutrinação propriamente marxista. [...] Sem um combate específico a esta mentalidade, ainda que um cataclismo tragasse a Rússia e a China, o Ocidente dentro de cinquenta ou cem anos seria comunista”.

Não só sessenta anos separam as palavras. Muita coisa mais certamente separa Svetlana e o dr. Plinio. Contudo, une-os aqui ponto inestimável, um olhar sem ilusões sobre o perigo do comunismo: “Sem um combate específico a esta mentalidade, ainda que um cataclismo tragasse a Rússia e a China, o Ocidente dentro de cinquenta ou cem anos seria comunista. Conheço bem aquele homem vermelho. Não desapareceu. E o adeus será muito demorado”.

Verdade escamoteada, o comunismo real fracassou dos chinelos ao chapéu, continua viva a mentalidade que leva a ele. O homem vermelho não desapareceu; nem o rosado de matizes vários.


Em 1848, Marx e Engels no manifesto comunista proclamavam: “Um espectro ronda a Europa - o espectro do comunismo. Todas as potências da velha Europa unem-se numa Santa Aliança para conjurá-lo: o papa e o czar, Metternich e Guizot”. Naquela época, a frase era mais recurso propagandístico que realidade atemorizante. Hoje, adaptando o texto, certa razão eles têm: um espectro ronda o mundo. O homem vermelho, seu estado de espírito e mentalidade, não desapareceu. Não exorcizado tal espectro, tem energia para arregimentar milhões e até virar o jogo, postas circunstâncias especiais. Nem precisa ir muito longe, basta olhar o Brasil, quantos espectros perambulam ativos por aqui.

domingo, 11 de outubro de 2015

Melgarejo de terninho

Melgarejo de terninho

Péricles Capanema

Mariano Melgarejo tomou o poder por golpe de Estado e presidiu a Bolívia de 1864 a 1871. Morreu assassinado em Lima naquele ano. Na série para esquecer dos caudilhos latino-americanos, ninguém foi tão primário. Por suas atitudes disparatadas, uma atrás da outra, virou o símbolo do que o caudilhismo poderia produzir de mais danoso e desmoralizante.

Corta. Tente imaginar a origem das palavras a seguir(quem sabe já saiba, aí perde a graça): “Até agora, até agora, a energia hidroelétrica é a mais barata. Em termos do que ela dura, da sua manutenção e também pelo fato da água ser gratuita. I da genti podê istocá. Cê, o vento podia sê isso também, mas ocê num conseguiu ainda tecnologia pra istocá vento. Então se a contribuição dos outros países, vamos supô que seja, desenvolver uma tecnologia que seja capaz de na eólica istocá, ter uma forma docê istocá, porque o vento ele é diferente em horas do dia, então vamos supô que vente mais à noite, cumé queu faria pra istocá isso. Hoje nós usamos as linhas de transmissão, cê joga de lá pra cá, de lá pra lá, pra podê capturá isso, mais si tivé uma tecnologia desenvolvida nessa área, todos nós nos beneficiaremos, o mundo inteiro”.

Trecho de peça humorística, em que algum cientista maluco explica sua última alucinação? Errou redondo. Capiau pavoneando erudição? Neca. Bebum potocando em bar? Wrong again. Pode desistir, se não sabe, não acerta.

Tirando o véu, faz parte da entrevista coletiva concedida pela presidente Dilma em Nova Iorque no último 27 de setembro. O resto não está lá muito distante disso. Ela, pelo visto, achou que estava dando o grande e desinibida fez a apologia da estocagem do vento, tecnologia salvadora que estaria por vir. Imagine o espanto divertido dos jornalistas. Não é a primeira vez, nem será a última em que a presidente, sem o cajado protetor do texto escrito por outros, deixará constrangidos os brasileiros. Quando é improviso ou resposta não ensaiada a perguntas, aparece logo a saraivada dos disparates, ditos em português de lógica e gramática estropeadas, que divertem os rieurs e envergonham o país.

Quanto às opiniões, Dilma, ─ invencivelmente primária, penoso e inevitável constatá-lo ─ na galeria dos presidentes latino-americanos vai passar como o exemplo mais característico do que a região em dois séculos apresentou de pior. Nada houve na América Latina que chegasse perto das bobagens que dispara a todo momento. Óbvio ululante, no âmbito das opiniões, Dilma Rousseff é o Melgarejo de terninho.

Hilário? Mais bem trágico, sintoma estridente do buraco no qual despenhou o Brasil, aspecto do aviltamento imposto pelo lulopetismo, no qual sobrelevam as granizadas sem fim de gente primária na direção do país, boa parte composta ladravazes contumazes. A consequência não é só a desmoralização da vida pública; o povo paga pelo desemprego crescente, carestia em aumento e pobreza cada vez mais ampla.

Nunca antes na história deste país foi assim. Deixo imerso nas brumas da História os quase sessenta anos de governo de dom Pedro II, respeitabilidade severa. Lembro outros. José Sarney teve noção viva da liturgia do cargo, FHC, intelectual conhecido, cercou-se de pessoal competente. Juscelino, boa cultura, estuante de vitalidade, despertava sonhos. Epitácio Pessoa, jurista de ar fino, parecia estar saindo de um baile de gala. Todos eles com correção representaram os interesses do Brasil. Quando falavam, e não era pelos cotovelos, diziam coisa com coisa, pelo menos. Agora? Sobrou a chacota divertida e o desprezo de fora. Pior, muitos de nós passamos a achar normal a convivência com o disparate.


Quem tem cabeça baralhada é porque, míope, vê confusamente a realidade; são olhos incapazes da amplidão e da agudeza. Daí necessariamente brotam juízos mirrados e atrapalhados. Cortando caminho, mesmo com as lições da tempestade em que meteu a administração, o governo Dilma tem alguma chance de dar certo? Nenhuma, é a resposta óbvia. Concluindo, ou a direção política do país acha urgente solução eficaz, benéfica para o povo, ou, impossível escapar, o futuro à frente terá mais agitação social e mais sofrimento, em particular dos menos assistidos. Deus tenha pena de nós.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

O samba do crioulo doido

O samba do crioulo doido

Péricles Capanema

No último 23 de junho a presidente Dilma discursou de improviso na solenidade de lançamento dos Jogos Mundiais dos Povos indígenas. Bem-humorada e autêntica, deixou o Brasil aturdido e triste. A íntegra do discurso (áudio de 21 minutos e transcrição) está no portal da Presidência. Abaixo, trechos.

Pontapé inicial: “Então, eu vou começar comprimentando [a transcrição oficial sempre coloca caridosamente cumprimentar] os guerreiros que representam os povos indígenas aqui presentes, vou saudá-los a todos eles”.

Mais um pontapé, parecido primarismo de ideias e expressão, além do português estropiado: “Eu quero comprimentar o Marcos Terena, e perguntá prá vocês se vocês acreditam que alguém que conhece o Marcos Terena esquece dele, se é possível. Não é possível. Então, eu lembro perfeitamente”.

Do meio da parlenga vagante despenca de repente uma concepção pasmosa: “Aliás, nós num podemos falar só de cultura indígena, a gente teria de falá, no nosso hemisfério de uma civilização indígena. Houve aqui neste hemisfério uma civilização do porte da civilização hindu, da civilização chinesa, da civilização egípcia, da greco-romana, que foi a chamada civilização da Mesoamérica e também a civilização inca. Eu acredito que nós somos todos é, eu acho que herdeiros, daquilo que é a afirmação da civilização dos povos indígenas no nosso hemisfério”.

Morro abaixo no palavrório errático: “Sem deixar de comprimentar também aqui todas as lideranças indígenas nacionais e estrangeiras que participam do lançamento desse primeiros jogos que vão integrar, eu acredito, a agenda internacional, muito bem dita pelo ministro, primeiro da paz, foi em torno da paz que se recompôs aquilo que era tradição grega de transformar os jogos num momento de confraternização entre diferentes representantes das cidades gregas, e que nós, ocidentais e orientais e povos de todas os hemisférios, transformamos num momento especial, durante uma fase muito difícil por que passou o mundo, que foi no entreguerras.[Os primeiros jogos olímpicos se deram em 1896; o período entreguerras vai de 1918 a 1939.] Eu quero comprimentá aqui também o nosso governador Rodrigo Rollemberg, do Distrito Federal, e a senhora Márcia Rollemberg. Quero aproveitá imediatamente e comprimentá a senhora Cláudia Lelis, governadora em exercício do Tocantins. Tanto o governador Rollemberg como o Marcelo Miranda, aqui representado pela governadora em exercício, Cláudia Lelis, ambos estão participando dum ato de extrema relevância e de extrema importância, que vai marcá, eu acho, a história das etnias no mundo.”

A seguinte descoberta espetacular foi destinada aos diplomatas presentes: “Quero comprimentar também os senhores e as senhoras chefes de missão diplomática acreditados junto ao meu governo e relembrar a eles a importância do caráter internacional desses jogos, né? Um dos is, porque é o nosso COII, é o Conselho Olímpico Indígena Internacional, um dos is é a parte internacional”. Palmas no auditório. O que teriam pensado os diplomatas?

Nem o pobre governador envolvido entendeu a alusão na frase sem pé nem cabeça: “Não posso deixar de comprimentar o nosso governador do Piauí, Wellington Dias, que nós carinhosamente chamamos ‘o índio’ e que se caracteriza pelo fato de que todos nós sabemos que se ele pular uma janela é bom a gente pulá atrás, porque ele descobriu alguma coisa absolutamente fantástica”.

Continua comprimentando sem fim: “Quero fazer três comprimentos especiais: quero fazer um comprimento especial ao Hamilton de Holanda e à Margareth Menezes, mas também queria dirigir um comprimento todo especial ao nosso querido Marcos Frota, que fez a apresentação com aquela capacidade que ele sempre demonstrou, e aquela sensibilidade e dedicação que ele tem a todos aqueles que se interessam e lutam por melhorar a nossa sociedade e o nosso país”.

Agora, em dilmês castiço (expressão de Augusto Nunes) apresentação eufórica e desparafusada da função civilizatória da mandioca: “Eu acredito que é necessário que nós tenhamos muito orgulho da formação histórica deste país [...] nós temos de ter um imenso orgulho de na composição da nação brasileira nós sermos uma mistura de várias etnias. E aqui, hoje, nós estamos saudando uma delas: nós estamos saudando a etnia indígena [não é uma delas; quis dizer, etnias indígenas, povos indígenas ou nações indígenas] que trouxe para nós [...] Mas eu queria saudar, porque nenhuma civilização nasceu sem ter acesso a uma forma básica de alimentação. E aqui nós temos uma, como também os índios e os indígenas americanos [até hoje ninguém tinha se dado conta que os Estados Unidos, a eles se refere a douta Presidente, foram habitados outrora pelos índios e pelos indígenas; os apaches são índios ou indígenas?] têm a dele, nós temos a mandioca. E aqui nós estamos comungando a mandioca com o milho. E certamente nós teremos uma série de outros produtos que foram essenciais para o desenvolvimento de toda a civilização humana ao longo dos séculos. Então, aqui, hoje, eu tô saudando a mandioca. Acho uma das maiores conquistas do Brasil”. Mais palmas intensas no auditório, havia ultrapassado os próprios marcos anteriores de fulgor intelectual.

O palanfrório oferece a seguir o auge da elaboração teórica: “Aqui eu queria mostrar o que é a nossa relação antiga com o esporte. Aqui tem uma bola que eu passei o tempo inteiro testando. É uma bola que é uma bola que o Terena me presenteou e que eu vou levar, e ela vai durar o tempo que for necessário, e ela vem de longe, ela vem da Nova Zelândia. E é uma bola que eu acho que é um exemplo, ela é extremamente leve. Eu já testei e ela quica. Eu testei, eu fiz assim uma embaixadinha, minto, uma meia embaixadinha. Bom, mas eu acho que a importância da bola é justamente essa, o símbolo da capacidade que nos distingue como.. nós somos do gênero humano, da espécie sapiens. Somos aqueles que têm a capacidade de jogar, de brincar. Porque jogar é isso aqui: o importante não é ganhar e, sim celebrar. Isso que é a capacidade humana, lúdica, de ter uma atividade cujo o fim é ele mesmo, a própria atividade. Então, o esporte tem essa condição, essa benção. Ele é um fim em si e daí porque não é ganhar, é celebrar, é participar dos jogos indígenas. É participar celebrando o que significa essa atividade que caracteriza primeiro as crianças. Atividade lúdica de brincar, atividade lúdica de ser capaz de jogar. Então, pra mim essa bola é um símbolo da nossa evolução. Quando nós criamos uma bola dessas, nós nos transformamos em homo sapiens ou mulheres sapiens”. De novo, aplausos, agora tímidos. Dose forte demais, parece, até para áulicos.


E vai por aí afora. Ainda existem na mente presidencial, boiando à toa, nacos intoxicados das doutrinas totalitárias e coletivistas do VAR-Palmares, a mais de cacos mal digeridos de teorias keynesianas. Aqui e alhures, o mesmo padrão: afirmações disparatadas no meio de bolodórios sem costura minimamente concatenada de ideias. Desafortunadamente, não será a última vez que o povo, confrangido, escutará o que a mente presidencial tem de mais autêntico. Com piloto de cabeça assim desnorteada, nos últimos anos o Brasil teve, por mínima que fosse, alguma chance de norte?

terça-feira, 21 de abril de 2015

As apostas arriscadas do PT

As apostas arriscadas do PT

Péricles Capanema

Tarso Genro, ex-tudo, bamba do PT, chiou no twitter: “É constatação sobre decisão da Presidenta: PT está fora das decisões principais do Governo. Que são as de corte político e econômico. Outra constatação, para o bem e para o mal: PT é cada vez mais acessório no governo. Não é nem consultado para medida dessa envergadura.”

Tarso se queixava da entrega da política para Michel Temer e da economia para Joaquim Levy, sem o PT sequer ser consultado sobre as escolhas. É jogo de cena em especial para o público interno. De fato, o PT continua com a mão no leme, e sozinho, em áreas fundamentais. O experiente petista percebe, encantoado pelo amazônico inchaço da indignação popular, é vergonhoso ser petista hoje no Brasil, o governo se agarra nas duas boias para não afundar. Ou é isso, ou, pela força das coisas, o impeachment fica incoercível. Que me relevem a metáfora batida, entregou os anéis para não entregar os dedos.

Vai dar certo? Só Deus sabe. O petismo espera recompor a situação. As chances de aprovar o ajuste fiscal nas duas casas do Congresso melhoraram com a saída dos trapalhões e a entrada em cena de Temer. E está no forno uma rodada de concessões de atividades econômicas à iniciativa privada. Distende. Ainda por cima, no Congresso foram desativadas duas bombas. Uma, a CPI do BNDES no Senado, arquivada, e com ela, entre outras, a investigação dos escandalosos empréstimos a ditaduras comunistas como Cuba, ou já quase lá, como a Venezuela bolivariana e tiranias africanas (o BNDES alega segredo comercial para escapulir dos pedidos de esclarecimento). O Brasil, quebrado, torra dinheiro alto; bota grátis a grana preta na mão de ditadores de esquerda (os empréstimos nunca serão pagos, todo mundo sabe). Na Câmara, como reação, está em curso tentativa de desarquivar o espinhoso assunto; vamos ver no que vai dar. Outra, o arquivamento da CPI dos fundos de pensão das estatais, que investigaria aplicações bilionárias, no mínimo suspeitas, feitas pela cumpanherada neles encarapitada.

A receita trará num primeiro momento retração na economia, queda nos salários, crescimento do desemprego. Daqui a alguns meses, tudo indica, virão melhoras no emprego e na renda. E, por sua banda, Temer tem condições de evitar danos irreparáveis no Congresso. Com isso, é a esperança dos dirigentes petistas, o partido salva o possível do incêndio e mantém vivas suas chances para 2016 e 2018. De outro jeito, Lula ou um substituto voltam a ser competitivos, o PT pode eleger alguns governadores e prefeitos, ademais de bancada federal numericamente respeitável. Os maiores responsáveis pela virada? Na primeira fila, Levy e Temer. Um pouco atrás, os que os acolitam nesse trabalho que leva à recomposição da popularidade e estufa a cesta de votos, em particular figuras de passado direitista como Kátia Abreu e Guilherme Afif, agora na melancólica posição de companheiros de viagem. Líderes assim continuam aceitos pelos seus por apresentarem uma contrapartida: tiram do papel e atendem certas reivindicações antigas. E assim, na superfície, favorecem as causas sempre defendidas por eles. Em profundidade, com a desorientação que causam, dissolvem resistências contra a avalanche demolidora.

Infelizmente também contribuem para a recomposição vozes oposicionistas relevantes que desnorteiam e adormecem. O senador José Serra, em Harvard, afirmou ser “mais à esquerda que o PT, partido reacionário”. Seguindo o raciocínio, o pior do PT é não estar suficientemente à esquerda. E FHC, em Comandatuba, trotou na mesma direção: “O PT é um partido importante, gente, um partido que contribuiu em muitos momentos da vida brasileira”. Mesmo Aécio que, prensado por bases insatisfeitas, está meritoriamente subindo o tom, convocou o povo a ir às ruas com miadinho de fecho: “o Brasil merece muito mais do que esse governo medíocre”. Parece incrustada no DNA do PSDB uma maldição original, pedir desculpas ao PT por não ser suficientemente de esquerda e, a contragosto, acuado por seus eleitores, se ver compelido a fazer oposição, ainda que com luvas de pelica. O PSDB, para se tornar barreira dura contra a investida demolidora, precisa se exorcizar urgente dessa mancha congênita.

Se a recomposição petista vingar, e muita gente, consciente ou inconscientemente está trabalhando para isso, lá na frente, a demolição do Brasil poderá continuar por mais alguns anos, tendo como base êxitos eleitorais, trombeteados como sintoma da força da esquerda.

Viro a página. Em pontos decisivos o PT não bate em retirada; está agora, na aparente derrocada, ganhando o jogo, manteve o governo compartimentado, áreas enormes entregues de porteira fechada ao que o PT e aliados da extrema esquerda têm de mais virulento e ativo. À vera, não existe coligação, mas governo de compartimentos. Persistindo segmentos estanques, é fraude falar em coligação, e mero flatus vocis a reivindicação de líderes do PMDB de que não desejam cargos mas participação na formulação política. Agredir os Estados Unidos, o maior mercado do mundo, e financiar esmolambadas ditaduras comunistas, combate a pobreza? Assim também o paulatino aparelhamento do Supremo, o financiamento dos blogues sujos. São políticas sociais? A coligação só teria direito autenticamente a esse nome com a extinção dos compartimentos e a instauração de uma só e coerente política de governo. Ainda por cima vemos o aproveitamento velhaco de oportunidades para fazer avançar a agenda da esquerda.

Na educação, exemplo recente. Cid Gomes, político de carreira, boquirroto incontenível, passou pelo PMDB, PSDB, PPS, PSB e atualmente estaciona no PROS. Foi uma espécie de sombra do irmão Ciro Gomes, que começou na direita universitária, foi para o PDS (sucessor da ARENA), depois PMDB, PSDB, PPS, PSB; de momento, também parqueado no PROS, é secretário da Saúde da administração cumpanhera do Ceará. Cid Gomes perdeu o cargo por ofensas gratuitas aos deputados. Quem o substituiu no importante ministério da Educação? Renato Janine, intelectual revolucionário, com potencial de estrago sem comparação maior que o de Cid Gomes. Terceirização? O petismo carnívoro ganhou na troca.

Adiante. Frei Betto, na declaração de apoio a Dilma, afirmou o seguinte: “Darei meu voto à Dilma para preservar a política externa do Brasil, soberana e independente”. Foi a primeira razão, depois despejou uma carrada de motivos. O frade dominicano conhece fundo os interesses da revolução socialista. Vou pôr em português claro: “Darei meu voto a Dilma porque ela agride interesses vitais dos Estados Unidos, bafeja ditaduras socialistas.” Na linguagem rançosa bolchevista, os Estados Unidos são o “inimigo principal”, vale tudo para prejudicá-lo. Isso deixa frei Betto eufórico. Com sua ação, o Brasil contribui para a sobrevida do comunismo em Cuba, estimula a situação revolucionária na Argentina, Equador, Bolívia, Equador e em tantos outros países. Beneficia a expansão imperialista do autocrata Putin, ajuda a revolução iraniana. São de fato objetivos da coligação de governo ou metas internacionalistas da agenda petista? A política externa é compartimento fechado; o ministro Mauro Vieira um tanto de vezes serve de biombo para a ação revolucionária do radical Marco Aurélio Garcia, porta-voz frequente do que o PT tem de mais tóxico. Terceirização?

Kátia Abreu no Ministério da Agricultura também serve de biombo. O que é biombo no caso? Uma defensora da propriedade rural no ministério, ainda que cerceada, aquieta, anestesia, leva muita gente a não ter o horror merecido à reforma agrária, à entrega de terras aos supostos quilombolas, à demarcação arbitrária e abusiva de terras indígenas. E ainda torna mais fácil a agressão contra produtores rurais pelas milícias expropriadoras encasteladas no MDA e no INCRA.

Para o Supremo, Dilma Roussef escolheu o prof. Luiz Fachin, entre as várias candidaturas aventadas, a que mais exala o bodum petista. Em 2010, ao declarar voto em Dilma Roussef, na companhia dos hoje ministros Aloizio Mercadante e José Eduardo Cardozo, Fachin se jactou ser dos juristas que “tomaram lado”. Homem que tem lado, está na bica de vestir a toga de juiz do Supremo. Coligação ou governo monocrático.


Em 1917, nos estertores do czarismo, o maior perigo para o futuro da Rússia não estava em Lênin. Morava na atitude otimista e desleixada de políticos burgueses como Kerensky, adormeciam a reatividade; irresponsavelmente abriram caminho para a servidão do povo a um partido de doutrina totalitária e coletivista. O riso antecedeu a algema. Pode ser igual no Brasil, depende de cada um de nós.

terça-feira, 31 de março de 2015

O governo Dilma acabou

O governo Dilma acabou

Péricles Capanema

Tem muita gente achando, melhor Dilma renunciar logo, simplifica para todo mundo. Um deles chamou minha atenção, nunca esperava.

Um bate e volta rapidinho. Certo tipo de líderes magnetizam o público. Gandhi, de Gaulle, Kennedy, tão diferentes, foram magnetizadores. Daniel Cohn-Bendit, em seu tempo, outro; simbolizou o maio francês. No Brasil, Vladimir Palmeira foi o principal expoente das agitações de 1968. Impressionou até a Nelson Rodrigues, crítico delas: “Não sei, ninguém pode saber, qual será o destino desse rapaz. Mas sei que é esta coisa cada vez mais rara – um homem”. Vladimir partiu para o exílio, retornou, virou dirigente petista, acabou moído pela máquina partidária. Em 2011, Delúbio Soares voltou festejado ao PT, Vladimir caiu fora denunciando a conivência com a corrupção. Preservou a condição de liderança carismática, ainda que en veilleuse e esmaecida pela pátina do tempo. Tomei um susto: “Sou contra o governo Dilma, que deveria renunciar, mas quem vai às ruas no domingo [15 de março] vai defender teses de direita, com as quais não concordo.” Por que Vladimir reivindica Dilma fora do Planalto? Vai saber. Uma coisa, sei: para o antigo líder estudantil, no leme ela prejudica mais a esquerda que se for embora já.

Dilma no governo é desgoverno certo; por baixo, mais três anos e tanto de bagunça na gestão, carestia, desemprego, roubalheira solta, crescimento magrelinho, se tanto. E a exasperação do público, já amazônica, pode fácil bater em confins de momento improváveis. Saiu faz pouco uma pesquisa coordenada por gente da Universidade Vanderbilt dos Estados Unidos, trabalho sério (LAPOP, sigla em inglês do estudo). Constata que de 2012 a 2014 o número de brasileiros adultos favoráveis a um golpe militar para acabar com a ladroagem subiu de 36,3% para 48,7%. E a porcentagem de brasileiros que participaram de atos de protesto subiu de 4,68% em 2012 para 7,64% em 2014. Em 2015, como estará? A irritação cresceu. Sabem quem fez no Brasil a pesquisa para o pessoal da Vanderbilt? O Vox Populi, tido como linha auxiliar do PT nas últimas eleições presidenciais; no caso, se errou, foi pra menos. Brota a desconfiança de que a tinta é mais carregada. Essa metade da população adulta, desesperada com o afogamento do Brasil, vê a intervenção militar como última tábua de salvação contra os ratos magros. E nem trato aqui dos que querem ver a presidente impichada, porcentagem bem mais em cima.

A exasperação demorada, de si, catalisa o movimento de opinião antipetista ainda em parte estacionado na louvável defesa da cidadania, ética na política e transparência. Com o rolar do tempo, em cenário bem possível, tal opinião, nutrida a contrapelo pelo descalabro dos governos da cumpanherada, tenderá a criar raízes mais fundas, caminhará para se cristalizar em oposição doutrinária ampla; de outro jeito, se transmudará em corrente de pensamento inimiga do totalitarismo, do coletivismo, do estatismo, favorecendo responsabilidade pessoal, privatizações, prevalência da sociedade sobre o Estado, e tanta coisa mais. É um risco tremendo para a revolução socialista no Brasil, meta obstinada do que o PT tem de mais ativo e virulento.

Proportione servata, já aconteceu situação similar, veio depois da Revolução Francesa. Por anos, a selvageria carniceira e a demolição social (parecia, o inferno tinha aberto a bocarra) traumatizaram setores enormes do público gaulês, antes superficiais e otimistas, que em reação de autodefesa acabaram migrando para posições conservadoras, direitistas, tradicionalistas e até contrarrevolucionárias, enraizando-se ali, formando mesmo blocos sociais de resistência. Posições e pensamento. O distanciamento da esquerda marcou fundo o século 19, ecoou no 20; até mesmo o triunfo dos setores ultramontanos no Concílio Vaticano I pode ser validamente ligado a ele. Compensou para a revolução agredir boçalmente na França os costumes, mentalidade e opinião da gente direita para tentar impor na marra seu programa?

Temos fresquinho sintoma de que o sentimento antipetista está enraizando. Dirigentes importantes do partido, Lula, Tarso Genro, tantos outros, estão propondo a criação da Frente Ampla, envolvendo partidos, sindicatos, ONGs e movimentos sociais, inspirados em parte no exemplo uruguaio. Com isso, tiram do PT o protagonismo evidente, disfarçam do eleitor, colado o nome fantasia, a sigla odiada. Com o passa-moleque, esperam oxigenar as agora mirradas possibilidades de vencer no voto.


Vozeia o hierofante das agitações de 1968: Dilma precisa ir embora, renunciar já. A esquerda com vergonha na cara, constrangida, baixa os olhos. Você, o que acha?

sábado, 14 de março de 2015

Nem só roubalheira

Nem só roubalheira

Péricles Capanema

Rato magro. Lá atrás, Roberto Jefferson chegou duro: “rato magro, essa gente que assaltou o Brasil”. Completou: “PC Farias é aprendiz de feiticeiro ante essa gente que assaltou o Brasil”. Não falava só de dirigentes e militantes do PT. Mas o foco era a cumpanherada. Nunca antes na história destepaiz tantos ratos esfomeados devoraram impunemente tanto do tesouro público. A preocupação dominante da maior parte dos que agora têm horror do governo Dilma (são contra tudo o que está aí) é a roubalheira promovida Brasil afora pela petralhada, ratos esfomeados que faz anos assaltam os cofres da Petrobrás e de outras estatais. O mesmo horror engloba o aparelhamento do Estado e os políticos que lotam de afilhados a administração pública. Terrível; mas a tragédia maior está longe daqui.

Projeto de poder. Tem coisa pior. A grana rapinada nas estatais não é apenas devorada por ratos magros. O PT com ela financia campanhas eleitorais e compra apoios; outro modo, usa a dinheirama para conservar o poder e, por etapas, chegar à hegemonia política. Generalizou até um tipo novo de propina: a propina legalizada, aprovada pelo TSE. Um dos meios: a empresa é autorizada a superfaturar e promete uma porcentagem do lucro ilícito. Doa legalmente ao partido a quantia combinada. E o TSE aprova as contas. De fato, a maior parte da gaita roubada tem essa mira: a perpetuação da cumpanherada no poder. Age como saúva: saqueia tudo que encontra para o bem do formigueiro. Para se perpetuar no poleiro, com a dinheirão furtado e distribuindo fatias de poder, o PT utiliza largamente os companheiros de viagem e os inocentes úteis. Sem eles, nada seria possível. Também é terrível, mas a tragédia maior está ainda longe daqui.

A finalidade do projeto de poder. É o ponto menos falado, o mais decisivo porém. A conquista do Estado é meio, nunca fim. O fim é impor um tipo humano novo, igualitário, ateu, libertário, vivendo em comunidades coletivistas. Esse objetivo revolucionário, desde sempre e sem rebuços proclamado em ocasiões apropriadas como meta por correntes abrigadas nas mais variadas organizações, é o que anima o setor mais dinâmico e viperino do PT. Mesmo entre seus filiados é mira a ser explicada com cuidado, pois a maior parte deles não são revolucionários profissionais; é constituída de aproveitadores, inocentes úteis e companheiros de viagem. Ou seja, o partido reproduz internamente as situações das correntes que, de fora, favorecem o projeto petista. A minoria mais intelectualizada, ativa e virulenta (em última análise, a que dita o rumo), com olho na possibilidade de momento, vai dosando a implantação do ideário. Quem são eles? Comunistas, em geral gradualistas, marxistas ou não, pouco importa, tomados de forma fanática pelo valor supremo da igualdade e agindo com enorme prudência. Querem para agora o que seus congêneres perseguem no mundo inteiro e em parte implantaram, ainda que precariamente: um Estado totalitário e coletivista, que trabalhe intensamente para acelerar a chegada do comunismo. Lênin, Stalin, Mao, Fidel, Che Guevara, ícones de petistas, aqui alguns dos exemplos. São como a sucuri; sufocam a sociedade, atrofiam-na.


De alto a baixo da sociedade brasileira já existe o pavor do aperto da cobra. A reação vai ser vitoriosa? Ou, infelizmente, vai se esvair como por ocasião do CANSEI? Ou como em 2013? É hora do olhar mais fundo.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Nota elucidativa sobre a absurda desapropriação da fazenda Limeira em Pará de Minas


Nota elucidativa sobre a absurda desapropriação da fazenda Limeira em Pará de Minas


Pleito da justiça e do bom senso, a desistência de desapropriação gravemente lesiva aos sem-terra, ao Erário, ao município de Pará de Minas e a nove herdeiros de antiga família de ruralistas que apenas querem produzir em seu pedaço modesto (em média 2 módulos fiscais). O crime permanente de um confisco que esbofeteou a lei, cruel, desumano, injustificado. Nenhuma indenização. Pretexto falaz: função social da propriedade. Motivo real: intervenção ditatorial do Estado para satisfazer imposições de movimentos revolucionários, comunistas. Efeito: destruição da produção, tensão na região, empobrecimento de modestos produtores rurais. Nem um tostão de indenização de ato tirânico perpetrado em 2004. Estamos diante de esbulho claro, retrocesso legal que se perpetua, expressão do atraso das políticas públicas no Brasil. Pequenos produtores foram excluídos do ofício, cortados de seu meio de vida, lançados injustamente na penúria, e seu torrão familiar foi ocupado por agitadores, incompetentes, meliantes, traficantes de glebas outorgadas pelo Poder Público, escorados em medidas disparadas pelo extremismo no poder. O entorno da propriedade antiga ficou desvalorizado.  Pela teoria dos motivos determinantes, a validade de um ato administrativo (no caso a desapropriação), está ligada os motivos indicados como seu fundamento. E todos os motivos foram falsos; ato administrativo nulo. É mais um exemplo doloroso da política de exclusão, regressiva ao extremo, praticada por ideólogos fanatizados, quando tomam o poder estatal. A ferida infecciona a região, é fator de inquietação, traz insegurança jurídica, inibe investimentos, impede a criação de empregos. Dessa forma, tal desapropriação fere a função social do emprego e da propriedade. Repita-se, o autêntico esbulho ali perpetrado diminui a oferta de emprego e comprime salários na região, bem como inibe a produtividade das propriedades naquela zona. Eliminar tal retrocesso constitui obrigação moral; avivaria o senso de justiça e manifestaria preocupação efetiva com os mais necessitados. Em suma, a devolução da propriedade a seus donos legítimos, medida de progresso e inclusão, traria a pacificação social à região.   

Fazenda: Limeira (em processo de desapropriação), antiga, formada, nas mãos da mesma família de ruralistas há 4 gerações. Localização: Pará de Minas (entrada pela rodovia MG-50). Proprietário: espólio de Newton de Melo Franco. Processo de desapropriação nº 46397-47.2013.4.01.3800. Matrícula R-6.2593, fl. 209, Livro 2-1, Cartório do Registro de Imóveis da Comarca de Pará de Minas. Decreto de desapropriação por interesse social de 21 de maio de 2004. Indeferimento do mandado de segurança no STF em 24.2.2011.
Área total: 364,48 ha (embora no INCRA originariamente conste 405); mesorregião metropolitana (IBGE) de Belo Horizonte; microrregião homogênea (IBGE) de Pará de Minas; distância da sede municipal: 5,7 km; cerca da metade da Limeira já está legalmente incluída na zona de expansão urbana do município. Imóvel no perímetro do decreto federal nº 6.660/2008 que impõe restrições à supressão de remanescentes de Mata Atlântica. Módulos fiscais: 18,22
Avaliação do INCRA (2/9/2011): Terra nua: R$3.083.047,74; Benfeitorias: R$480.527,20. Total: R$3.563.574,94; avaliação do perito Aurélio, de grande nomeada na região, contratado pelo espólio (janeiro de 2014): Terra nua: R$10.702.000,00; Benfeitorias: R$2.234.000,00. Total: R$12.937.200,00
Pela lei o INCRA deve pagar o preço do mercado (o vigente em 2015, se a sentença for prolatada em 2015), de uma propriedade a cerca de 70 km de BH, asfalto até a porta, cerca de 6 km da BR-262. Teve altíssima valorização de 2004 até a presente data. Hoje está em torno de R$15.000.000,00, é o que afirmam corretores da região.
Ocupação: Há uns 6 meses pelo MST. O TRF concedeu posse ao INCRA.

Objetivo: desistência do INCRA da desapropriação por clara, gritante e gravemente lesiva aos sem-terra (de modo especial, às famílias cadastradas), ao município e à família de ruralistas prejudicada.


Motivos1º) A desistência evitaria grave prejuízo às famílias cadastradas no INCRA, na fila para obter um pedaço de terra. Segundo o artigo “Governo retoma desapropriações e pode assentar até 50 mil famílias” de André Barrocal (Carta Mayor, 19.5.2011), publicação no caso insuspeita, com utilização de dados fornecidos pelo INCRA, 7,7 bilhões de reais foram gastos pelo Erário de 2000 a 2011 para assentar 780 mil famílias (custo médio da desapropriação por família assentada, aproximadamente R$10.000,00). Em 2011, o governo destinaria R$530 milhões para desapropriações, com “potencial para atender até 50 mil famílias”. O custo médio de desapropriação por família continuava, como se vê, segundo os mesmos dados fornecidos pelo INCRA, próximo de R$10.000,00. Em 2013, o INCRA, no assunto em questão, a fazenda Limeira, com base na subavaliação de quase dois anos antes, R$3.563.574,94, aceitou pagar R$178.178,15 por assentado (o limite máximo legal para a região é de R$140.000,00, mas portaria ministerial do MDA autorizou ainda em 2013 para o caso o aumento de 27,27 % sobre o topo legal). Na composição de custos, qualquer técnico da área percebe, já ficou extremamente difícil justificar com fundamentos minimamente convincentes, os praticamente 180 mil reais gastos por assentado só na desapropriação. O INCRA ali espera assentar 20 famílias em área líquida de 7 ha para cada uma (excluída a reserva legal, zonas de proteção ambiental e resíduos da Mata Atlântica, constata o processo). Difícil. Três herdeiros têm direitos reconhecidos na lei e, dois deles, que dependem para sua manutenção do trabalho ali, já constantes do decreto expropriatório. Contudo, argumentandi gratia, admitamos vinte. Num extremo, com apenas os recursos da avaliação do INCRA de 2011 (R$3.563.574,94), se aplicada a média brasileira, 350 famílias poderiam em tese ser atendidas. Outra vez argumentandi gratia, admitamos média de R$15.000,00, aumento de 50% em relação a 2011, e não os R$10.000,00 acima referidos; seriam com esse dinheiro atendidas 237 famílias cadastradas e não apenas 20. Agora, para o outro extremo, a obediência estrita ao que manda a lei, o Estado deve pagar o “preço de mercado” na ocasião da desapropriação. Como está acima, a propriedade hoje está avaliada em aproximadamente R$15.000.00,00. Com esse dinheiro se poderiam destinar terras para 1.500 famílias. Aplicando de novo a mesma porcentagem generosa, o custo médio da desapropriação teria aumentado 50% de 2011 para 2015: seriam 1.000 famílias em vez das 20. Pepe Vargas, ex-ministro do MDA, declarou: “Não iremos comprar terras que custem R$30 mil o hectare” (Sul21, 15.5.2012). Obedecida a legislação, preço de mercado, considerada só a terra líquida para o assentado, 7 ha, e ainda sem considerar os direitos dos antigos proprietários a parte considerável dessa terra, o Estado estaria aqui pagando R$107.142,85 o hectare efetivamente utilizado pelo assentado. Os recursos necessários para atender com rapidez quando menos centenas de famílias cadastradas correm risco iminente de serem consumidos em desapropriação injustificável. A conclusão é inescapável: essa desapropriação, se conhecida objetivamente por milhares de famílias cadastradas, será por elas considerada bofetada em suas expectativas e direitos. 2º) Foi visto, a referida desapropriação não tem esteio na política social, mais ainda, prejudica-a; outra, não existe tensão social no local. Fica evidente, igual água do pote, estamos diante de significativo gasto público injustificável que poderá ser facilmente objeto do escrutínio, quiçá da contestação, dos órgãos legais de controle do uso de recursos públicos. Por exemplo, o TCU. 3º) A mais, a desistência da desapropriação pelo INCRA eliminará o trauma dos produtores rurais de Pará de Minas, que, vendo colegas de profissão prejudicados duramente, sentem-se também agredidos. ) Finalmente, a restituição permitirá aos herdeiros do espólio, nove irmãos, dividi-lo por igual em nove partes modestas e fazê-las produzir intensamente com óbvias vantagens para emprego e renda no município. (28.12.2014)
















sábado, 13 de dezembro de 2014

Petrolão, o combustível explosivo da tática cumpanhera


Petrolão, o combustível explosivo da tática cumpanhera

Péricles Capanema

Pela Globo News o senador Aécio Neves pôs os pingos nos ii: “Eu não perdi a eleição para um partido político. Perdi a eleição para uma organização criminosa que se instalou no seio de algumas empresas brasileiras, patrocinada por esse grupo político que aí está.” Na mesma entrevista foi adiante, e a denunciou entranhada no Estado brasileiro. Ficou a milímetros da conclusão lógica, inescapável: quem conscientemente patrocina facínoras por anos é também facínora. Qualquer um percebe, se funcionou por tanto tempo e com tantas vantagens mútuas, houve, conhecimento, beneplácito, estímulo; sem isso, a organização criminosa não embolsava um alfinete. Rui Falcão, presidente do PT, nas entrelinhas chicoteado de chefe de facínoras, de imediato escumou: “Já estamos interpelando o senador mineiro derrotado. Em seguida, processo crime no STF. O PT não leva recado para casa (quis dizer desaforo).” Fernando Pimentel foi conciliador: “ A última vez que me acusaram de ser participante de uma organização criminosa foi no tempo da ditadura militar. Certamente os partidos políticos não são organizações criminosas. O nosso não é. Tenho certeza que o senador Aécio Neves vai se arrepender desse tipo de declaração”. Aécio, outra vez:  “Não retiro absolutamente nada do que disse.

A contundência da declaração ecoa longinquamente a postura solitária de Winston Churchill diante da ameaça nazista nos anos pesados que antecederam a 2ª Guerra Mundial. Na classe política inglesa, simbolizada tristemente pelo primeiro-ministro Chamberlain com a política do appeasement, inexistia a sensação do perigo mortal iminente e sobreviviam esperanças de acordo. As denúncias do estadista inglês preparavam os dias em que foi necessário constituir aliança político-militar de grandes potências para salvar a liberdade no mundo.

Nas últimas semanas, o PT acuado aplicou de novo, e em dose maciça, tática que vem dando certo. Nomeou Joaquim Levy, economista liberal, partidário da disciplina fiscal, para comandar o ministério da Fazenda. Na mesma direção, Kátia Abreu, líder do agronegócio, para a pasta da Agricultura, e Armando Monteiro, líder empresarial, para o ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Antes, já estava no ministério Guilherme Afif Domingues, e Jorge Gerdau na presidência da Câmara de Políticas de Gestão, Desempenho e Competitividade do Governo Federal, expoentes no Brasil do liberalismo econômico; escolhas que repetem o objetivo de ter José Alencar, ricaço e dirigente empresarial, como vice de Lula em 2002. Vai no mesmo rumo o favorecimento escandaloso ao programa desagregador da família do governo cumpanhero por setores influentes da CNBB e dioceses Brasil afora sob a alegação furada de seu caráter social. São companheiros de viagem, colaboram com o projeto petista. E qual a razão de chamar para colaboradores pessoas de perfil público oposto às metas hegemônicas do PT?

Importante para o PT, só uma: anestesiar, confundir e dissolver as resistências; água fria na fervura da indignação. Sem a utilização desse ardil, o PT se veria diante de um sem fim de derrotas eleitorais. É recurso usual empregado por movimentos que não têm como impor sua vontade à nação por força própria. Napoleão, ao dominar tiranicamente a França, tendo como instrumento principal poderoso e devotado exército, ainda assim julgou útil nomear Talleyrand para seu mais importante ministro; ele, membro destacado das mais antigas famílias da França, que tinham sido escorraçadas de seu poder e influência pela revolução que o Corso encarnava. O brilhante diplomata foi avalista muito bem recompensado de um programa que destruiu seu mundo e sua classe. E que tinha no bojo os germes que um século depois rebentaram na revolução russa de 1917. Os exemplos são sem conta, nem vale a pena prosseguir neles.

Adiante. O brasileiro médio, parece, ainda não viu claro que hoje o PT, pela via do bolivarianismo, vai despenhar o Brasil no coletivismo descarado e no totalitarismo sem disfarce. A perspectiva tétrica da ditadura e miséria generalizada (é só ver as queridinhas do grupo no poleiro, Cuba e Venezuela, modelos invejados de poder popular) assombra no horizonte da longa sucessão de governos cumpanheros, adeptos do gradualismo político. Se visse, resistiria. Mas tem desconfianças. Diante da resistência decidida do povo, mas que arrisca virar pétrea ─ se à inconformidade emocional se somar a oposição doutrinária ampla e bem fundamentada ─, a saída possível é o avanço paulatino e disfarçado. Para isso, o PT tenta desesperadamente manter o poder no Estado e nessa tarefa vem promovendo, junto com dirigentes aproveitadores de partidos aliados, a maior roubalheira que se tem notícia na história do País. Muito da grana roubada no petrolão e escândalos assemelhados, é embolsada pela cumpanherada, mas a maior parte custeia campanhas eleitorais, compra consciências e em geral financia as tentativas de conquista revolucionária das mentalidades, em outras palavras, a hegemonia na sociedade civil, o principal objetivo; enfim, é dinheiro para manter em mãos petistas a máquina do Estado, manhas da conquista e permanência no poder, utilizado sem escrúpulos para implantar um programa final que hoje o brasileiro médio, conhecendo-o, chamá-lo-ia hediondo. Negócio escabroso, o petrolão é combustível explosivo que pode estourar nas mãos de quem o manuseia.

Uma pergunta: por que tem sido bem votado, em suas etapas preparatórias, esse programa de final hediondo? Existe o desconhecimento, já falei, mas influi muito uma realidade importante, pouco enfatizada. Não incluo aqui o voto ideológico. O eleitor de condição modesta, em geral de pouca cultura, desinteressado da política, comumente admite que a cumpanherada rouba, é ruim de serviço, mas tem pena da pobreza; é ou foi gente que nem a gente. Para ele, os políticos dos outros partidos não se preocupam com os pobres. Contra essa impressão enraizada, tantas vezes decisiva na hora do voto, do que adiantam apoios de celebridades, promessas de “quadros qualificados para combater a inflação” e recursos semelhados? Esta multidão não sabe o que é quadro, não usa o adjetivo qualificado e em vez de inflação fala carestia. E então se aprofunda a sensação do alheamento das lideranças políticas das dificuldades diárias da população carente. São problemas vitais para quem quer vencer eleições.


É isso aí.